O Vampiro e o Cigano Suivre l’histoire

M
Mariana Cunha


Os fatos que registram estas páginas amareladas e desgastadas, não são apenas palavras, mas sim uma das verdades que mais marcaram minha vida imortal. Conto-lhes agora sobre como conheci um cigano violinista, e como vi pessoalmente, a natureza predatória de minha espécie em minha própria criação. Contarei a vocês, como é ser um monstro.


Fantaisie Épique Interdit aux moins de 18 ans.

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Capítulo I- Natureza Humana

"Não falo, não suspiro, não escrevo seu nome.
Mas a lágrima que agora queima a minha face, me força a fazê-lo."


Lord Byron



Aquele som me atraiu, como se fosse uma luz para uma lamparina, meu peito esquentou e senti meu rosto corar, talvez fosse pelo sangue de minha vítima que já corria quente por minhas veias. O homem quase sem vida que gemia palavras indecifráveis enquanto piscava os olhos revirados.
Olhei para um ponto fixo qualquer e me atentei ao som, o som de asas angelicais, um coro de pássaros e anjos onde as ninfas tocavam harpas enquanto os deuses se embriagavam de vinho. Talvez o tempo que passei sem me alimentar esteja me fazendo ter alucinações, talvez os milênios de minha vida morta estejam afetando minha lucidez, mas o som... Sim, aquele som! Os acordes, o sentimento que ela passava.

Larguei o corpo morto, que caiu com um baque surdo no chão de pedras, limpei minha boca que continham apenas algumas gotículas da substância vermelha pintando minha pele como pinta um quadro ebóreo, como as obras diabolicamente encantadoras de Botticelli.

Tomei do chão, a bengala de lâmina e segui meu caminho, rumo àquela tentação do diabo que me ludibriava cada vez mais que meus ouvidos aguçados captavam da melodia. Ajustei as luvas e apertei a cartola enquanto pendia mechas loiras indesejáveis sobre o rosto.

E lá de onde estava vindo o som, o tilintar dos sinos celestes, a voz da mais doce ninfa. Os cabelos longos e vermelhos caiam pela face escondendo um de seus olhos, os dedos finos e vermelhos nas pontas, seguravam o arco da rabeca, esfregando as cordas ali presentes no instrumento, que parecia ser grande demais para sua estatura.

Ele era um cigano. Podia ver os brincos pendurados em suas orelhas e os tecidos coloridos com alguns acessórios metálicos. Os cabelos caiam livremente sobre os ombros, enquanto seus olhos permaneciam fechados, apreciando o som formidável que produzia e os lábios cheios se curvavam em um sorriso esplêndido.

Tinha o rosto belíssimo, como o de um dos anjos pintados nas igrejas de minha querida Florença. Não sei ao certo até hoje, se as pessoas paradas a sua volta apreciavam seu rosto venerável ou a sua música assombrosa. Adônis estava em minha frente, armado de uma rabeca, enfeitiçado meus ouvidos e despertando meus instintos que há séculos não conhecia mais.

Seu coração batia com o som da música, podia ouvir também sons saírem de seus lábios entreabertos cantarolando. Parei em sua frente, junto com algumas pessoas que sorriam para o garoto de cabelos cor de fogo e lhe colocavam moedas dentro de um pequeno saco aberto, direcionando sorrisos, alguns deles falsos e diabólicos, podendo ser comparados aos lobos quando percebem uma presa fácil.

No momento que depoisitei um de meus anéis de ouro, olhou para mim com as íris castanhas e música parou bruscamente. Vários soldados caminharam em sua direção, as pessoas dispersaram e ele se agachou fechando o saco e correndo com sua rabeca em mãos. Seus pés de fada, porém sujos de lama, chisparam com rapidez e flexibilidade como se estivesse voando, provavelmente já esperando acontecer tal coisa, voou rápido deixando apenas a massa vermelha se misturar com o vento.

Senti seu olhar sobre mim antes de que ele desaparecesse.

O seu cheiro invadiu minhas narinas, pude até enxergar as tulipas e a madeira mofada que continham o eflúvio que emanava de seu corpo. Pensei em ir embora, e quase me esqueci do que havia ido fazer nas ruas. Um novo vampiro estava na cidade, devia descobrir imediatamente de quem se tratava, mas nada disso importou no momento.

Cometi a besteira de segui-lo, abandonando o local quando os guardas sairam de cena, acompanhando o rastro das tulipas e do mofo, chegando no beco anterior, corri em velocidade inumana fazendo o mundo a minha volta se transformar em um borrão de imagens.

O cheiro se intensificou. Como ele corria! Observei sua cabeleira laranjada escorrendo pelo vento, per dendo movimento e sua rabeca ao chão, enquanto fortes tapas eram desferidos em seu rosto de anjo, deixando a pele avermelhada junto com insultos cuspidos. Me aproximei como um cidadão normal, segurando a bengala de lâmina e com um sorriso brincando nos lábios enquanto suspirei e vi o resultado dos meus feromônios quando os soldados paralisaram, antes de rasgarem mais a roupa do garoto ruivo.

Segurei os ombros de um deles, o mais velho, e afundei minhas presas em seu pescoço, sentindo a carne macia se rasgar e o sangue da artéria jorrar para minha boca. Matei os outros dois homens e limpei o rosto com um pano do bolso, apesar de não deixar uma gota escorrer.

O garoto continuou me olhando como se eu fosse um monstro. Ah, claro, de fato eu sou, um monstro milenar, um demônio loiro que vive para beber de suas vítimas.

Ele segurou os panos de suas roupas e andou como se eu não estivesse lá, foi audacioso o bastante para não agradecer ou temer minha alma demoníaca. Levantou o rosto para mim, que observei um pequeno detalhe em seu rosto, uma cicatriz que cortava seu olho esquerdo, deixando sua íris opaca e uma falha na sobrancelha.

— Eu salvei sua vida rapaz. - Fiz um pequeno gesto com os dedos e o trouxe de volta para a parede de tijolos sem lhe tocar. - Mostre um pouco de gratidão.

Ele me olhou assustado, tentando sair do espaço enquanto eu mantinha seu corpo preso naquele pequeno beco às minhas vontades. O cigano me ignorou, colocou as mãos na orelha, abaixou e tateou o chão a procura de algo, levantando segundos depois os longos brincos de ouro.

— Qual o seu nome? - Me aproximei mais, enquanto observei seu rosto vermelho estampado com uma careta enquanto seu corpo batia nas paredes invisíveis que fiz a volta de seu corpo. - Você não fala? - Fiz menção de tocar seu rosto.

— Não toque em mim demônio! - Vociferou trêmulo enquanto eu sorri. Pareceu que o arrependimento pelo insulto veio tarde demais. - Sei do que se trata sua pessoa. É um monstro que caça pessoas na madrugada e rasga-lhes o pescoço a fim de se alimentar.

— Não seja audacioso criança. Posso torcer seu pescoço como o de uma galinha.

— Não tenho medo. - Soltei seu corpo, e no instante que ele caiu no chão com um baque surdo, me curvei em sua direção.

—Na verdade, deveria mesmo me agradecer. - Levantei uma sobrancelha. - Ora, agradecer a um demônio, que coisa, não? Sabe o que aqueles homens fariam se eu não estivesse aqui? Nesse caso, demônio não sou eu.

— Acha que deve assumir o posto de anjo da guarda?

— Mas você mesmo disse que eu sou um demônio. Não entendo você. - Sorri com a confusão mental que causei.

— Vai beber de mim? - Juntou as sobrancelhas franzindo o cenho, enquanto tremia discretamente. - Me mate então, prefiro a morte!

— Oh não, não vou beber de você querido. Vou apenas fazer uma proposta. - Ele me olhou confuso enquanto começou a balançar a cabeça e procurar algo pela paisagem. - Está procurando isto? Ele arregalou os olhos quando viu a rabeca em minhas mãos.

— Meu instrumento? - Esticou as mãos para alcançar o objeto de madeira, sem sucesso. - Devolva, por favor.

— Vou fazer-lhe uma proposta. - Abaixei a rabeca, e liberei os feromônios, de modo que ele não se aproximasse, concentrando apenas em minha voz. - Eu ando vagando só por tantos milênios, que comecei a achar que minha lucidez estava falhando. Então vim até Londres a procura de alguém que possa saciar esse desejo por afeto.

— Deseja meu afeto? Por que acha que nutriria algum tipo de afeto por você?- Perguntou com um azedume teatral.

— Eu procuro isso, mas não espero que me dê. - Segurei a bengala de lâmina e retirei a cartola. - Olhe, você não tem nada, nem ao menos um teto para se abrigar. O inverno chegará logo e se não vier comigo tem duas opções, morrerá de frio e fome, pois não conseguirá comprar nada com essas míseras moedas, talvez com o anel que te dei mais cedo. - Mostrei o anel de volta em meus dedos. -Ou será queimado vivo na fogueira que estão preparando na praça.

— Não estou com fome

— Posso escutar o ronco de seu estômago.

O cigano cobriu a barriga com as mãos e fez uma careta enquanto murmurava palavras indecifráveis. Preferi não dizer nada enquanto ouvia seu coração palpitar de ansiedade entre uma resposta e outra, mas pude perceber que ele estava tentado a aceitar minha oferta.

— Não vou com você, prefiro morrer naquela fogueira. - Abraçou o próprio corpo, que tremia com o vento, que se mostrava arauto do inverno. - Prefiro ficar aqui e ser soterrado pelo gelo.

— Ah, olhe para você. Uma pobre criança, com um dom sobrenatural tão fascinante e desperdiçado. - Suspirei com os barulhos gritantes que seu estômago fazia. Observei as costelas aparentes pelo buraco da roupa rasgada. - Venha comigo, ao menos para um refeição.

— Não confio em você, e mesmo se estivesse falando a verdade, o quão desesperado estaria para implorar que eu vá com você? O que meu povo pensaria de mim se eu fosse ingênuo o suficiente para acompanhá-lo?

—Seu povo não o deixaria passar fome, frio... - Me aproximei do rapaz, fazendo-o recuar até encostar em uma parede.- Nem ao menos a possibilidade de ser violentado nas ruas. Eles estão longe, não é?

— Isso não importa para você, Strigoi.

— Esse não é meu nome. Sou Orfeo Domitius, a seu dispor. E quanto a você? - Me curvei em sinal de educação, enquanto longos segundos se passaram arrastando, com o rosto pensativo do ruivo.

— Bóris. - Olhou para o lado e baixou a cabeça, envergonhado.

Eu o levei até o castelo antigo que me foi deixado como herança há algumas décadas, mas apesar do tempo, estava em ótimo estado. Tenho morado no lugar desde que vim a procura de alguém com dons como os dele, alguém que pudesse tocar como o diabo, mas ao mesmo tempo, se mostrar como um coro angelical, alguém que pudesse preencher meu vazio existencial e me trazer a redenção pelo pecado que eu cometi, o qual me atormenta todos os dias e que tem sido o motivo que não deixa a solidão me abandonar.

Ele não gostou das roupas que dei, então apenas vestiu uma túnica, substituindo suas roupas rasgadas e sujas, então sentamo-nos à mesa de madeira do salão, seu rosto desgostoso mudou repentinamente quando a luz das velas mostrou o farto banquete que apenas ele comeria. Ele devorou depressa, sem tempo de mastigar e apenas engolindo a massa de carneiro, frutas, ervilhas e vinho. Seus olhos estavam brilhantes enquanto devorava os alimentos. Eu gostava de vê-los comer, mas parece que Bóris não apreciava ser observado, ele me olhou algumas vezes com o rosto corado e com caretas enquanto eu o admirava.

Ele bebeu o vinho, mas não o suficiente para perder os sentidos, ele era esperto e assim que acabou a refeição, endireitou-se na cadeira e olhou para mim.

— Por que me observa tanto? Por acaso sou alguma estátua ou quadro? Estou em uma exposição?

— Não tenho muitos hóspedes humanos, então não tenho para quem olhar. - Sorri, ignorando a provocação. - Mas agora eu tenho! Ah, olhe como é lindo, posso ver seu sangue dançando sob sua pele, correndo pelas veias e artérias como pequenas estrelas.

— Você me assusta falando assim. - Levou uma taça a boca, bebericando o resto do vinho. - E se... Eu resolver contar a todos o que você é? Não tem medo?

— Não vai fazer isso. - Apoiei meu rosto nas mãos, com os cotovelos na mesa. - Você é um cigano, não está em boas condições com a igreja.

O ruivo suspirou enquanto depositava a taça na mesa e a observava bem, cada detalhe esculpido.

— Sou seu escravo? - Aquela pergunta me pegou de surpresa, mas continuei sorrindo.

— Você é? - Ele levantou uma sobrancelha. - Oh minha criança, espere até o amanhecer e se quiser ir, vá quando quiser. Embora deixe meu pobre coração em frangalhos em ter que assistir sua execução na praça.

— Então por você eu deveria ficar confinado aqui até o dia de minha morte?

— Ora, você me magoa falando assim. Qualquer uma dessas noites, se ainda estiver aqui, irá para cidade comigo. - Levantei da mesa enquanto observava o rosto angelical em minha frente. - Se quiser permanecer aqui, durante o dia Laura o acompanhará.

— Ela também é Strigoi? - Ele se levantou também.

—O que? Ah, não. Laura é humana, inclusive está dormindo agora. - Sinto o cheiro de terra molhada atingir minhas narinas, o canto de alguns pássaros me avisam que o sol está chegando. - É melhor que durma agora, seu quarto é o primeiro no terceiro corredor. Quer que eu lhe mostre?

Ele caminhou receoso atrás de mim pelo corredor. Talvez não estivesse acostumado ou não confie ainda em mim, e eu não tiro suas razões, nem sei ainda o motivo pelo qual Bóris aceitou minha proposta, levando em conta a rigidez de seu povo para com suas crenças.

Abri a segunda porta de madeira , que mostrou o quarto com paredes cor púrpura, haviam janelas, mas todas elas estavam fechadas com cortinas negras. A cama foi o que deixou Bóris mais encantado, pude ver o brilho de seus olhos a boca entreaberta quando viu o rio de travesseiros macios e cobertas grossas, mas o receio e a repreensão da própria mente ainda o incomodavam.

— Tenha uma boa noite. - Fechei a porta e saí do corredor antes que pudesse ouvir sua voz novamente, me apressando para chegar até o subterrâneo do castelo.

Eu não queria sair de lá, queria muito ficar com Bóris, fazer milhões de perguntas sobre sua família, costumes e ter a certeza absoluta de que não sairia do castelo até que escurecesse novamente. Confesso que meu medo de que ele me deixasse era grande, imenso, apesar de que eu o conhecesse apenas em um mísero dia, por isso, por esse medo exagerado pensei que estivesse enlouquecendo.

Me encaminhei para as escadas, descendo vagarosamente me juntando à penumbra do lugar. Com um gesto de dedos, alguns candelabros foram acesos enquanto andava para o corredor. Enxerguei o sepulcro, empurrando a tampa de pedra e me deitando na caixa dura, tampando logo em seguida, esperando ansiosamente para o dia que mal havia começado, acabar.

Para minha felicidade, quando levantei já de roupas trocadas, o cigano estava de pé na sala de estar enquanto tocava a rabeca de modo furioso e insistente. De boca fechada, ele cantarolava baixinho, acompanhando as melodias que saíam dos acordes. Ele baixava a cabeça, levantava e baixava as sobrancelhas ruivas, com os cabelos escorrendo pelos ombros. Suas mãos diligentes faziam sons em que provavelmente apenas eu, com minha audição aguçada, conseguia escutar.

Minha querida e amada Laura contou que conseguiu convencê-lo a usar roupas decentes, mas não conseguiu deixar que prendesse seus cabelos rebeldes e longos.

Parou de tocar assim que percebeu minha presença, corando um pouco o rosto e baixando a cabeça.

— Oh, por favor querido, continue. - Me sentei em uma poltrona virada para a grande janela adornada de cortinas e o observei. Percebi hesitação de sua parte quando me olhou surpreso e levou o arco trêmulo até a rabeca.- O que houve? Toca para aquelas pessoas abomináveis na rua, mas não consegue tocar para mim? A cada dia que passa, mais você me ofende, querido cigano.

— Eu não consigo. As pessoas não me olham como você, é diferente. - O ruivo suspirou.

— Eu o olho com admiração meu príncipe. - Levantei e me coloquei em sua frente, aproximei o braço para tocar-lhe a face, mas Bóris deu três passos para trás. - Isso me difere das pessoas, as quais se preocupam com coisas fúteis, hipócritas e mesquinhas.

— Então por que estou aqui? Por que me chamou para vir com você, se sua mente superior é tão diferente da minha, que sou um mero mortal? - O sarcasmo banhou sua voz como uma onda bate na areia.

— Ora querido, tenho andado pela terra há milênios, preso em meu purgatório carnal. - Andei em sua direção. - Reconheço cada pessoa que passa por mim, posso sentir seus desejos mais obscuros, suas angústias e seus objetivos no momento que quero.

Coloquei as mãos enluvadas em suas costas, trazendo-o mais para perto e virando seu corpo para a janela, abrindo um pouco a cortina de modo que pudéssemos enxergar as pessoas correndo a pé ou em seus veículos como formigas, distante do castelo.

— O que está fazendo?

— Apenas observe querido, olhe como correm. Aquele homem, está vendo? - Apontei pelo vidro o homem andando de braços dados com uma donzela, ele tinha o rosto cheio de desdém e rugas, enquanto a moça se mantinha assustada e com o rosto cheio inchado, como quem chorou por toda uma vida. - Ele matou sua esposa velha para se casar com essa moça que está vendo. Ninguém sabe sobre isso, pois acusou a serva pessoal da defunta pelo assassinato.

— Como sabe disso?

— Apenas consigo sentir, o dom é dado para alguns de nós quando somos transformados. - Sorri. - É do tipo desses homens que eu me alimento. Não farão nenhuma falta para o mundo se forem encontrados mortos em becos por causas desconhecidas.

— Mas, mas você fez isso comigo? Você sentiu isso?

— Não querido, não ouso tocar-lhe a mente. - Saí de seu lado e coloquei a cartola na cabeça. - Faço apenas com quem me servirá de alimento.

Peguei o sobretudo e fui até o outro lado do salão, descendo as escadas até a sala de jantar enquanto Bóris me acompanhava de um modo insistente. Eu já aguardava a temida pergunta.

— Me leve com você? - Parei de andar bruscamente e juntei as sobrancelhas. Podia sentir o cheiro de hibisco seco que emanava de Laura, escondida em algum lugar.

— Não deve ver esse tipo de coisa.

— Disse que eu não ficaria preso.

— Por isso voltarei rápido para levá-lo para caminhar comigo. Tudo bem? - O ruivo apenas saiu rápido, provavelmente para tocar seu instrumento.

— Dê tempo a ele senhor. - Ouvi Laura falar. Sorri quando a senhora de cabelos grisalhos escondidos em uma touca de flanela falou. Seu rosto continha marcas da idade avançada, as rugas em seus olhos se intensificaram quando sorriu. - Ele não será assim sempre. Bóris é um garoto doce e educado, apenas está sendo um pouco teimoso e receoso por... Bem...

— Eu entendo o motivo. Espero que esteja certa. - Coloquei uma mão em seus ombros frágeis e me curvei para ficar em seu tamanho, depositando um beijo no alto de sua cabeça. - Cuide dele para mim meu amor. Voltarei logo.

Deixei minha pequena Laura enquanto rumava para a cidade, segurando a bengala de lâmina e ajustando a cartola anil. Desci os degraus da escada, me direcionando para a porta e saindo logo em seguida, caminhando para a rua a pé, ouvindo os sons da noite como os uivos dos lobos e o assobiar do vento, que se assemelhavam a um comando secreto da floresta próxima á cidade.

Logo as pessoas começaram a aparecer, todas elas andando com pressa pelas ruas, as faces bombeando sangue sob a pele fina e os barulhos incessantes dos corações pulsantes. Procurei o cheiro do homem que mostrei a Bóris no castelo, o odor do tabaco era forte, e fazia um caminho curto.

Não demorei de encontrá-lo na frente de uma loja fechada e escura, enquanto desferia fortes tapas no rosto da jovem esposa. Me aproximei vagarosamente e segurei seu braço antes que descesse a mão mais uma vez na direção da moça, e quando virou para me olhar, segurei a jugular da dama e liberei feromônios, deixando-a em paz e fazendo-a cair desmaiada com um baque surdo.

— Mas o que-

— É melhor não dizer nada, não gosto de conversar com minha comida. - Segurei seu pescoço e troquei os feromônios apaziguadores pelos quais o mortal sentiria pânico, e paralisou o corpo dele. Afundei as presas em sua pele, mastigando um pouco até sentir a artéria livre, que jorrou o sangue em minha boca. Suguei o líquido quente e escuro, enquanto minha vítima tremia violentamente e seu coração ameaçava parar de bater.

"Não, não pare agora, resista. Você ainda consegue viver."

O músculo cardíaco ainda batia, mas de um modo vagaroso, até que depois de longos segundos parou de vez, quando o sangue começou a faltar no corpo. Segurei o cadáver nos braços e o levei para o beco mais próximo, jogando o corpo frio no meio dos sacos de lixo.

Suspirei e observei a mulher desmaiada. Ela não se lembraria de mim, sua mente trabalharia a meu favor para que pensasse que foi um assalto.

Voltei para o mesmo caminho que havia feito. Prometi a Bóris que o traria para uma caminhada, não poderia deixá-lo esperando de forma alguma.

Um cheiro estranho e familiar me pegou se surpresa, a sensação de pânico me inundou.

— Quando tiramos a vida aos homens, não sabemos, nem o que lhes tiramos, nem o que lhes damos. * - Uma voz baixa e aveludada se propagou no ambiente. Me virei e os cabelos curtos, encaracolados e com cor de fuligem me lembraram de onde aquele vampiro havia vindo, os olhos brilhantes acinzentados e cheios de sarcasmo contrastavam com os lábios cheios e vermelhos como o miolo de uma rosa branca. Beijei àqueles lábios e cabelos tantas vezes, que ainda sinto seu perfume de ervas finas e canela.

Usava um sobretudo bege e segurava uma bengala de lâmina, sorrindo com escárnio e deixando suas pequenas presas aparecerem.

25 Octobre 2019 15:58:27 0 Rapport Incorporer 3
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