Larissa Suivre l’histoire

milail3 Samira Reis

O mundo é fantástico! Mas como pode ser fantástico e sublime para alguém tão doce quanto minha Larissa? Alguém que desde pequena enfrentou o amargor da vida e a dureza de se ver presa em um turbilhão de dor e sofrimento? Deve ter sido exatamente por isso que escolhi observar sua vida, seu desenvolvimento. Infelizmente posso não ter exercido a influência que gostaria e... deveria.


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Larissa

O que é a vida? Ou a morte? O que nos torna humanos além da nossa própria existência? Talvez seja o fato de que morremos um pouco toda vez que ludicamente experimentamos um pouco de vida. Em pequenas coisas, pequenos versos e raras memórias de um tempo bom. Ser humano implica em fazer coisas extraordinárias sem nunca ter feito nada, mas o que pode ser mais extraordinário do que a presença de Larissa? Um ser humano tão cativante e envolvente quanto qualquer outro poderia ser, então o que a torna tão especial?

Lembro-me bem do dia em que a conheci, tão sozinha quanto quando veio ao mundo. Apenas uma garota entre tantas garotas perdidas na multidão. É belo contemplar uma alma tão perdida quanto à própria humanidade em si. Nada que não seja assim tão perturbador. Nada que não pertença aos nossos dias e a nossa alegria. Essa moçoila em especial me cativou de maneira peculiar e seus trejeitos a tornavam ainda mais especial para mim.

Nada que o tempo não justificasse suas dores, suas memórias faziam parte de tudo o que contemplei durante toda a minha existência. Eram tristes, mas isso a tornou a mulher em que tive o prazer de ver se tornar. Lembro-me da primeira vez em que me deparei com a sua notável existência, era apenas um bebê. Uma bolinha de gordura em um cercado artesanal e carcomido, em uma casa alugada no bairro mais decadente da cidade. Era um bebê comum como qualquer outro, apesar da pobreza em que se encontrava a sua família, a pequena Larissa estava alheia a tudo isso. Sua mãe berrava enquanto novamente era espancada pelo companheiro que jurava não ser o pai da pequena.

Larissa não via aquilo e sequer dava atenção, ela olhava a existência. Mais precisamente, ela me olhava nos olhos e não sentia medo. Os gritos eram horríveis e o choro viria em seguida enquanto sua mãe a tomava no colo e cantarolava a fim de fazê-la dormir. Todos os dias durante cinco anos eu vi essa mesma rotina, e a pequena Larissa via também. Não tinha um dia sequer sem que a garotinha me desse boa noite, sua mãe acreditava que ela havia escolhido a religião para acalentar suas dores e esquecer mais um miserável dia. Sua inocência era perspicaz e audaciosa, a pequena era extremamente lúdica e sua alegria era contagiante. Provavelmente seu pai biológico a achava louca em tão tenra idade. Mas isso não é o motivo de meu escrito, não.

A mente de Larissa sempre me foi um mistério ainda maior que sua beleza exótica, sua voz era meiga e seus olhos de jabuticaba eram aventureiros, sua testa queimada pelo sol não suplantara o tom caramelo de sua pele e tampouco o calor diminuía a rebeldia de seus cachos que insistiam em crescer revoltosos e livres. Sua característica mais marcante não seria seu olhar ou sua bela voz afinada e sim a sua coragem. Com apenas seis anos Larissa pode vislumbrar seu primeiro grande feito e mostrar suas habilidades. Foi em seu primeiro dia de aula, a vi chegar tímida e curiosa, seu olhar passeava por todo o ambiente tentando captar o máximo que sua mente poderia armazenar para contar a sua mãe. Algumas crianças riam e cochichavam pelos cantos assim que a viram entrar com um short surrado, uniforme amarelado, sua pele cinzenta sem creme e um caderno usado guardado em uma sacola plástica de supermercado. A professora sorriu ao vê-la e prontamente se dedicou a mostrar a sala, era uma mulher gentil, sua vida era envolta em simplicidade e dedicação.

Ainda que o dia tivesse começado em sua pálida manhã de outubro para aquela garotinha que nunca havia entrado em uma escola antes ou que o ano letivo estivesse no final, absolutamente nada poderia apagar o carinho que tinha lhe sido dedicado pela professora que gentilmente a pediu que chamassem de tia. Quando contou a sua mãe sobre ela uma luz em outro cômodo se acendeu e, não se tratava do cigarro, que já era item obrigatório naquela casa, mas sim de uma ideia sorrateira de uma mente vil e inescrupulosa. A noite era fugaz e a pobre Larissa novamente era observada com olhos de malícia por alguém que deveria protegê-la e que tão veemente afirmava não terem o mesmo sangue.

O primeiro feito de Larissa foi esse. Ainda que ela não soubesse ou não tivesse consciência disso naquela época. Quem teria? A singela mente daquela garotinha imaginava coisas fantásticas e tinha sonhos tão palpáveis quanto o de terem três refeições por dia pois o único auxílio a que disponham era confiscado por seu algoz que o usava para suprir seu vício em bebidas alcoólicas e cigarro. A rapariga não sabia o que esperava e tampouco sua mãe, que se desdobrava lavando roupas em troca de uns reais para comprar o mínimo para sua filha e para si, mas o homem a que dividiam o teto já havia selado seus destinos.

Penso que talvez tenha sido a audácia de Larissa que a tornou tão explícita entre os seus. Que lhe deu destaque entre os alunos mais dedicados da turma e mesmo com tão pouco tempo em sala já era notável a sua esperteza. Apenas uma garota em meio a uma matilha de lobos. Uma pequena amostra do que era capaz de fazer e levava consigo mais do que inteligência, vi em seus olhos algo mudar quando em mais um dia suas coisas foram rasgadas e jogadas ao chão por seus colegas de classe. Foi nesse exato dia que eu temi por Larissa, foi exatamente ali que a luz que me atraiu em direção a uma pequena bolinha de gordura se modificou até que alguns dias atrás se apagou por completo.

Laços de sangue podem ser mais fortes que a criação e daquela garotinha posso dizer que esperava veemente que o carinho e amor incondicional de sua mãe suplantasse o sangue perverso que carregava nas veias. No dia seguinte ao fato uma das garotas teve o braço quebrado misteriosamente e pela ingenuidade com que se apresentava ninguém poderia suspeitar da pequena Larissa, afinal ela era só uma criança! Não poderia fazer mal a uma mosca! Sempre que me recordo desse episódio em especial penso que deveria ter interferido e modificado o futuro brilhante de Larissa, talvez seja a sina de todos o arrependimento. Nem mesmo a complacente mãe da menina soube do fato e mesmo se soubesse nada faria.

Por mais conturbada que tenha sido a infância da rapariga todos a sua volta torciam para que sua luz, que a tudo iluminava, não se apagasse para que se tornasse uma sombra de seu pai. Confesso que também me unia a essa parcela ínfima em prol de Larissa. Perto de seus sete anos outro acontecimento foi gravado em meus registros sobre ela. Era fevereiro, perto do carnaval, quando seu pai chegou extremamente violento, seu bafo embriagava a todo o ambiente e sua voz era demoníaca. A mãe de Larissa correu para protegê-la, mas tudo o que pode fazer se resumiu a cobrir a filha com um lençol sujo enquanto mais uma vez era apenas um objeto de prazer de alguém tão repugnante quanto seu marido. Várias vezes a vi implorar por auxílio divino, a vi chorar desesperada enquanto via sua única filha lhe pedir algo para comer. Nada pode ser mais doloroso do que ser mãe, negra e pobre no Brasil. Por todas essas situações a que vi a pequena Larissa passar que desejei poder mudar o mundo, mas não posso. Então mais uma vez vi a garota encolhida em um canto enquanto sua mãe sangrava e sofria, tudo para não deixá-la a mercê daquele monstro. E como tantas vezes ela se pôs a chorar baixinho enquanto aninhava sua pequena alegria.

Há dores que são tão profundas que não tem mais cura. Quando perto de março vi a moçoila correr de seu algoz por ruas a fio, descalça e sem ajuda. Não foram raras as vezes em que a vi ser espancada, mas em nenhum momento pude imaginar que aquela luz já não era luz. Em mais uma sessão de tortura a garota se pôs no colo da mãe, a vi fazer isso tantas vezes que apenas observei me sentindo sombriamente leve. Mas foi a voz dela e a promessa de que em breve tudo teria fim que me perturbou. No dia seguinte seu pai foi encontrado morto e as causas da morte eram ainda mais misteriosas que o braço quebrado de uma outra garota. Tudo o que se sabia estava a vista de todos, ainda assim completamente nas sombras. Dias melhores chegaram, sim.

Anos em que pude ver um esforço cruel de Larissa para se manter boa, sua máscara e seus mistérios eram algo que levaria para o túmulo. Infelizmente eu fui testemunha de tudo e bem como sua mãe fui complacente. Apenas observei. Não foram raras as vezes em que quis estar ali e impedir certas situações, ou apenas protegê-la de si mesma. Eu via em silêncio seus pensamentos e mais que isso, eu sentia muita dor em vê-la se tornando mais do que a sombra de seu falecido pai.

Talvez já tenha escutado histórias sobre uma sombra que vaga pela noite em busca de almas condenadas para mandá-las para o inferno. Ou talvez tenha contemplado a face de uma mulher extremamente sedutora, de voz macia como veludo, toque suave como pena e trejeitos de menina-moça, mas sei que se a viu pela noite então certamente já não poderá mais ver a luz do dia. Inúmeras tentativas para que a luz voltasse resultaram apenas em um coração vazio e mente cruel. Posso lhes precisar o número exato de mortes que contemplei em minha existência e nada será tão cruel quanto o fato de Larissa ter matado seu pai para proteger a si mesma e a sua progenitora.

Cada corte preciso, a violência e o sangue mancharam a alma de Larissa a ponto de realizar o tão vil plano de seu pai em sequestrar a doce professora de sua infância. Não posso precisar os anos e tampouco quero recordar uma das mais tenebrosas ações de minha Larissa. E nada será mais doloroso do que ver que mesmo diante de tantas mortes e sequestros misteriosos a rapariga tenha tentado insistentemente acender sua luz. Talvez tenha sido um erro e seja ela tenha se tornado uma obra imperfeita. Quem sabe não tenha sorte na próxima vez? Não, não haverá uma próxima vez pois de fato Larissa se tornou tão amarga e sanguinária que nem mesmo a terra a quis. Você certamente tem medo de Iara, mas ela não anda em cidades. Deveria temer Larissa pois ela não é uma mulher, é um demônio!

23 Octobre 2019 14:51:23 0 Rapport Incorporer 1
La fin

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