Ruído Branco Suivre l’histoire

anneliberton Anne Liberton

Rina tenta se adaptar a toda agitação ao seu redor, mas é difícil. Por sorte, aparece uma amiga para ajudar.


Enfants Tout public. © Art by NOMOCO (com exceção da capa, cujo artista não achei ainda, mas não me pertence)

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Tira, põe. Tira, põe. Apesar de funcionar bem para o barulho, seus abafadores não afastavam a solidão. Rina já suspeitava, porém era de sua natureza testar. Presa numa festa barulhenta dentro de sua própria casa, até uma experiência fadada ao fracasso valia a pena, mesmo que fosse um mero artifício para passar o tempo.

Sua mãe lhe explicara a situação, uma tia havia pedido para emprestarem o local para o aniversário do priminho Nael, mas Rina não entendia por que isso significava ter que sacrificar o conforto de seus abafadores.

— Você disse que eu podia usar sempre que me sentisse mal, mamãe — argumentara, apontando para a família. — Eu me sinto mal em volta deles.

Catarina! — Checou por cima do ombro se alguém ouvira. Em seguida, sussurrou: — É só hoje, querida. Por favor. Faça isso por mim.

Rina prometera e, por definição, promessas eram acordos que precisavam ser cumpridos, mas estava difícil. O céu negro lá fora ameaçava um temporal, então todos estavam dentro da casa, os adultos presos num constante burburinho e as crianças correndo de um lado para o outro, ora trombando nas pessoas, ora nos móveis. Sufocante.

— Não vai brincar com seus primos, menina? — um tio perguntou, atraindo sua atenção.

— A Catarina é antissocial — outra tia respondeu, um copo de guaraná na mão. — Nem adianta.

— Mas não deve ter a menor graça ficar zanzando no meio dos adultos... Você tem quantos anos, Catarina?

— Sete.

— Nael está fazendo sete também. Vai ver os brinquedos que ele ganhou. Deve ter alguma coisa que você gosta. Tenta se enturmar.

Rina não se moveu. Já passara por aquele mesmo diálogo com a mãe, e o resultado fora um tanto insatisfatório. Em vez de obedecer, ela apontou para algo curioso no tio.

— O que é isso no seu braço? Ele virou pedra?

— Pedra? Isso aqui é um gesso.

— Então ele virou gesso?

— Que história é essa?

— Ela é meio burrinha, esqueceu? — a tia sussurrou, não baixo o bastante para evitar os ouvidos de Rina. — Tem aquele problema, autismo.

— Ah... — O tio se virou para a menina e sorriu, complacente. — É, virou gesso. Agora eu tenho que tomar cuidado, senão ele vai espalhar para o meu corpo todo e eu vou virar uma escultura, igual àquela Monalisa! — Fez uma careta sofrida para diverti-la, mas Rina franziu o cenho.

— A Monalisa não é uma pintura?

Quando a tia desatou a rir, ele enrubesceu.

— Vai brincar para lá, menina!

Sem entender, Rina obedeceu. Notou que a mãe a observava à distância, os braços cruzados e um olhar preocupado no rosto. Incômodo. Por algum motivo, tudo que fazia decepcionava a mãe. Cansava de ouvir os comentários dos parentes a seu respeito, por vezes em alto e bom som; os adultos gostavam de julgar as crianças ignorantes de uma variedade de assuntos simples. Se admitissem a verdade, precisariam assumir a responsabilidade por elas também, e ninguém gostava disso.

A própria Rina não gostava de ser o estopim de tantas reações adversas, porém não conseguia deixar de ser tão “diferente”. Não conseguia se sentir bem naquele ambiente abarrotado, muito menos quando a ameaça de tempestade enfim se concretizou e um trovão lhe deu um sobressalto. Ela correu para o quarto, tapando os ouvidos com a mão, e se escondeu embaixo da cama, dentro de uma caixa de papelão velho, seu refúgio para momentos como aquele. Bastavam alguns segundos para o silêncio reinar e ela voltar a respirar normalmente.





Um.

Dois.

Nada mudou.

— Não vai funcionar.

Ela ergueu os olhos em absoluto horror, prestes a encarar o primo que tivera a ousadia de invadir seu refúgio.

— Não sou seu primo... — A voz se ofendeu.

— Consegue ouvir meus pensamentos? Mas... — No instante em que colocou a cabeça para fora, Rina travou. Não sentia o peso habitual dos abafadores.

— Talvez eles tenham razão. Você é um pouco lerdinha.

— Eu não sou...

Uma vez à vista, ela pôde ver também com quem conversa, e as palavras se embolaram em sua garganta. Um objeto não identificável flutuava perto da janela, banhado pelas luzes exteriores.

— Errado de novo. Não sou um objeto.

— Não pode ser uma pessoa — Rina argumentou. — Não com esse tamanhozico.

Ele cabia na palma de sua mão, com as asas e tudo.

— Sou uma fada. Mas até um minuto atrás, era seu abafador de ouvido. — Afagou as penas do pescoço, que lembravam bastante a parte acolchoada que entrava em contato com as orelhas de Rina. — Nós às vezes nos transformamos em objetos quando chega nosso período de hibernação ou para recuperar nossos poderes, caso tenhamos usado demais.

A menina assentiu. Lógico.

— Bem que minha mãe disse que o abafador ia funcionar como mágica.

— Não acho que foi isso que ela quis dizer — a fada murmurou num tom jocoso.

— Mas você se encaixa na definição de “mágica”.

— Isso, eu não posso contestar. — Ele riu. — Nunca vi um humano reagir de forma tão calma à presença de um de nós... Apesar de que eu não esperava nada muito diferente de você.

— Agora que você está recuperado, Senhor... Fada, você vai embora?

— Vou, sim. Já posso voltar para casa. Mas, como seu pescoço era uma cama bem quentinha, pensei em te ajudar a encontrar um pouquinho de paz antes de ir.

Rina arqueou uma sobrancelha.

— Não é só eu comprar outro abafador?

Ele riu.

— Você é concreta demais, Rina. Não é burra nem lerda. Perdão pelo comentário de antes. Só é concreta demais. — Voou para perto. — Há outras de você conseguir encontrar paz que procura, e creio que no seu caso seja importante descobrir. Venha comigo.

— Para a festa?

Sem nada para lhe cobrir os ouvidos e com a chuva ainda caindo, ela não achava uma boa ideia.

A fada lhe sorriu.

— Confie em mim.

Ela confiou.

Porta afora e festa adentro, o queixo de Rina caiu. Metaforicamente. Queixos não caíam do rosto de pessoas, como ela já contara à mãe diversas vezes.

— O que aconteceu com todo mundo?

Em vez da bagunça e barulheira habituais, a sala de estar mergulhara em completo silêncio. Tanto adultos quanto crianças, e tudo mais no meio, jaziam imóveis como estátuas, uns travados em algum movimento, as bocas abertas, os olhos quase piscando. Rina viu uma bola de tênis congelada na frente de uma das corujas de porcelana da mãe, eternamente prestes a destruí-la.

— Dei uma pausa na festa. Sei que você não gosta do barulho — a fada respondeu. Erguia um relógio de bolso diminuto. — Temos pouco tempo até que volte, então espero que você cumpra sua missão até lá. É meu presente para você.

— Uma missão?

— Isso. Precisa encontrar um item específico.

— Que item?

A fada sorriu.

— Se eu contasse, não teria missão nenhuma. Encontre o item, que está em posse de alguma das pessoas dessa festa. Ele será seu novo abafador. Não prometo que será tão incrível quanto eu, mas servirá.

— Ele serve para colocar no ouvido também?

— Nada de dicas. — Cruzou os braços. — E vamos, menina. Apresse-se. Cada segundo conta.

Rina não se moveu, a princípio. Tinha muitas perguntas. Ciente disso, a fada flutuou para frente dela.

— Não, não posso deixar o mundo pausado para sempre nem se eu quisesse. Minha magia tem limites. Também não posso te tirar daqui e levar para um lugar sem esse tanto de gente ou sem chuva. Também não posso tirar a chuva. Algo mais?

Pensativa, Rina abriu a boca, mas as questões mais pertinentes eram aquelas mesmo.

— Acho que é isso.

— Então pode ir. Xô.

Ela foi. Descontente, mas foi.

“Se eu fosse um item específico, onde estaria?”

O quão específico ele era? Para quem? Odiava quando as pessoas não eram diretas, não explicavam as coisas direito. Evitariam muita confusão assim. Parecia que todo mundo conseguia entender instruções e pedidos com meias-palavras e meias-ideias. Ela não. Rina precisava das coisas inteiras. Sempre tudo ou nada, como sua mãe gostava de dizer. Tudo, de preferência.

Sequer imaginava por onde começar até se aproximar do primo Nael, enfiando o dedo no nariz num cantinho perto do bolo de aniversário. Nojento. Havia uma série de bactérias ali, e a experiência sugeria que ele logo botaria aquele dedo na boca. Não gostava de cumprimentar outras crianças por conta disso. Higiene parecia mais raro nelas que nos adultos, isso porque muitos desses já não eram tão limpos assim... Porém, bastou chegar perto de Nael para que ela notasse algo curioso no menino, ou que seus ouvidos notassem, visto que ele permanecia tão pausado quanto todos os outros.

“Queria que meu pai brincasse comigo.”

A voz viera dele, embora, de boca fechada e imóvel, ele não tivesse falado nada.

“Ele nunca brinca comigo. Eu nem queria festa coisa nenhuma, muito menos aqui.”

Rina piscou.

— Eu também não queria você aqui. Pelo menos concordamos.

“Só o que ele fez até agora foi beber com os tios. Nem olhou para mim.”

— Adultos normalmente não olham muito para crianças. Deixam a gente em paz para brincarmos sozinhas ou fazer qualquer outra coisa.

“Eu só queria que ele olhasse.”

— Já tentou pedir a ele para brincar com você, Nael? Acho que é a maneira mais fácil de...

“Ele nunca olha para mim. Não de verdade.”

Só então Rina percebeu que ele não conversava com ela. Assim como a fada lia seus pensamentos, ela devia estar lendo os dele.

Procurou o tio entre os presentes e acabou por encontrá-lo no sofá com uma garrafa de cerveja na mão. De pernas cruzadas e sorridente, não parecia muito preocupado com Nael nem nada parecido. Rina entristeceu. Saiu andando pela sala.

Sempre que passava perto o bastante de alguém, ela começava a ouvir o fluxo de consciência da pessoa. Às vezes mais baixo, às vezes mais alto, os pensamentos vinham sem parar, até que a distância cortasse a conexão. Todo mundo queria alguma coisa. A maioria era dinheiro; uns, amor; outros, coisas que ela não entendia bem. Alguns conflitos ela achava fácil de resolver com um pouco de diálogo, mas admitia que talvez sua mente infantil estivesse simplificando as coisas.

Alcançou tio Monalisa em determinado momento, parando ao lado dele e da tia com um olhar interessado. Não sabia se, com um braço no gesso, a mente dele poderia ficar engessada também.

“Será que eu tento contar? Mas não sei se vale a pena...”

Aparentemente não. Rina deu mais um passo, quase colando nele — ênfase no “quase” —, para ouvir melhor.

“E quem será que ouviria?” Ele parecia hesitante. “A Norma, eu duvido... Paula? Talvez a Paula, sim. Como ela tem a garotinha já com quem conviver, talvez ela entenda. Gostar de homem não é algo tão grave assim, é? No século 21, já não... Bom...”

Norma era o nome da tia que a chamara de burrinha, e Paula, sua mãe.

“Mas é um risco. É sempre um risco...”

— E então? — a fada voltou, planando perto dela. — Já entendeu com que tipo de itens estamos lidando?

— Não. — Rina nem hesitou. Na verdade, desde que haviam saído de seu quarto, achava que entendia menos que antes.

— É a dor de cada pessoa, Rina. A dor que cada um carrega.

— E como isso vai me ajudar com o barulho? — Ela estava aborrecida agora, certa de que fora enganada. — Não posso pegar a dor dos outros e enfiar no ouvido.

— Claro que não. Mas pense no que faz você ter que usar seu abafador todas as vezes. Você é esperta, ao contrário do muitos clamam. Vai entender.

— Eu não...

— Continue procurando. — Ele disse enquanto flutuava para longe, o relógio na mão.

Ela franziu a testa. Tédio. Toda aquela história a estava deixando com um tédio imensurável.

— A alternativa é o tempo voltar a correr e você ficar sem abafador e sem uma outra solução. — A fada deu de ombros.

Convencida, Rina voltou a explorar o local. Parou de frente para um aglomerado de crianças, ouvindo todas as suas dores de uma vez.

“Eu preciso muito de um carrinho...”

“Mamãe gosta mais do Pedro que de mim.”

“Duvido que ela vá lembrar do meu aniversário.”

“Não queria mais ir para aula nunca mais. Odeio ficar longe do papai. Por que eu preciso ir para a aula?!”

Foi difícil não revirar os olhos.

— Algumas dores são bem bobas.

— Não é seu papel ficar julgando — a fada alertou.

— E por que não?

— Porque nenhuma delas diz respeito à sua vida. Nenhuma te afeta. O que acha que eles diriam se ouvissem as suas dores?

— Não tenho dores — Rina rebateu.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Por que estamos aqui então?

Ela ponderou por um momento.

— Mas meu problema com trovões e pessoas não é uma “dor”. Ele não “dói”.

— Não?

— Não.

Incômodo, de novo.

— E você sabe me dizer por quê? — a fada inquiriu, curiosa.

— Porque, por definição, dor é algo que causa sofrimento. Não estou sofrendo. Poderia até sorrir se quisesse. Só não quero. Ninguém que lesse meus pensamentos acharia que eu estou sofrendo.

— Quando te encontrei, você estava debaixo da cama, Rina.

— Gosto de ir para lá quando algo me incomoda. Fico mais confortável.

— Dor também pode ser um incômodo — a fada apontou.

— Será? — Ela estreitou os olhos. — Não me lembro de ver essa parte na definição.

— Pense menos no que você leu ou viu, e mais no que você sente. O que sente quando está num lugar cheio, quando escuta a chuva forte lá fora, os trovões?

— Eu...

Ela silenciou-se. Dentro de si, veio um vazio. Era como se ela fosse feita de nada. Nada e mais nada. Nenhuma definição. Nenhuma molécula. Nenhuma garota.

— Eu não sei.

— Sabe. Está sendo concreta de novo. A resposta é mais simples que isso.

— Não pode me dizer qual é?

A fada sorriu.

— E qual seria a graça?

Rina se aborreceu.

— Pois não vejo graça nenhuma nisso aqui.

E saiu batendo o pé, o que, em sua versão, era quase a mesma coisa do andar suave normal. Ao avistar sua mãe, resolveu parar perto dela, nem que fosse para evitar o esforço de ir para muito mais longe.

“Espero que ela me perdoe, mas é para o próprio bem dela. Só fico agoniada de vê-la tão assustada... Será que está dentro daquela caixa imunda de novo? Será que é melhor ir vê-la?”

— Minha mãe está pensando em mim?

A fada flutuou para perto.

— Sou eu a causa da dor dela? — Rina indagou, franzindo a testa.

— É isso que parece para você?

— Sim.

— Escute mais atentamente.

Rina obedeceu.

“Talvez eu tenha sido dura demais com ela. Mas não suporto a Norma rindo do abafador... Também não sei se a Rina entende quando os outros riem dela. Isso é que é o pior.”

— Eu não entendo — a menina confidenciou à fada. — Já tentei perguntar ao Nael e aos outros algumas vezes, mas eles só riram mais.

— Acredito que seja igual a quando te chamam de burra ou lerda, Rina. A ideia é te ofender.

— Mas as pessoas não riem também quando estão felizes?

— Considerando o que elas falam de você de um modo geral, devem estar rindo para te ofender mesmo.

— Ah.

— E agora? Como você se sente sabendo disso? — A cabeça da fada pendeu para o lado.

Incômodo. Incômodo. Incômodo.

— Eu não... Eu acho que incomoda um pouco.

— Incomoda?

— É.

— E só isso?

Rina travou.

— Não sei.

A fada assentiu.

— Eu acho que incomoda sua mãe também, e ela vê como você se sente. Tanto que te ver sofrendo ou... incomodada, é a dor dela.

— Mas ela sempre briga comigo porque eu não gosto de ficar perto de ninguém ou por causa do abafador...

— Ela tenta evitar que os seus incômodos fiquem maiores, Rina, até porque, se você ficar bem, ela também vai ficar.

Aquilo deu a ela uma ideia. Lógico.

— O contrário também vale?

— Que quer dizer?

— Se ela ficar bem, eu também vou ficar?

A fada arqueou os lábios.

— Podemos fazer esse teste.

Como se nunca tivesse parado, o tempo voltou a correr. Sua mãe, que estava de pé ao lado de um adorno de parede, notou Rina e abriu a boca para falar. Porém, a bola enfim atingiu seu alvo e o som distinto de louça quebrada encheu o ar.

— Essas crianças! — a mulher reclamou, nervosa.

— Está doendo muito, mamãe?

— Rina? Do que está falando?

A menina procurou pela fada, que flutuava nas proximidades, invisível ao olho da multidão. Aquela quantidade exorbitante de pessoas a enervava, a tempestade fazia suas mãos tremerem, mas Rina tentou se concentrar naquela tarefa.

— Eu não quero que sinta dor, mamãe. Vem aqui.

E puxou-a para um abraço.

Surpresa, sua mãe demorou meio segundo antes de retribuir a menina, que tão raramente demonstrava qualquer sentimento, ainda mais de forma física, e na frente dos outros, e daquela forma tão evidente.

— Você encontrou o item, Rina. Parabéns — a fada disse, num sussurro, no entanto, mal foi ouvida.

Por um instante glorioso, enquanto tentava extrair aquela estranha dor da mãe, um calor tão grande a acometeu que os arredores desapareceram, os estrondos da tempestade foram engolidos; era como se ela estivesse usando seu abafador, lá dentro da caixa de papelão velho, sozinha.

— O que foi isso, querida? — a mãe perguntou quando se separaram.

Procurando pela fada com os olhos ansiosos, Rina não respondeu. Achara seu presente, mas sua companheira havia desaparecido.

11 Juillet 2019 02:02:30 0 Rapport Incorporer 3
La fin

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