O Alquimista Prodígio e a Espada de Cobre - Saga Alla Suivre l’histoire

lebloncarter Leblon Carter

Aúcia, a cidade mais influente do mundo moderno, é regida pelo palácio da alvorada e tem como seu líder Alcaeste. Na data de comemoração de dez anos da abertura da Foulst, a mais importante escola de alquimia para jovens, toda a cidade se dispõe a participar do grande discurso oferecido por ele. Dentre seus cidadãos, Alla Collins, uma jovem garota que tem como sonho ser uma grande alquimista, vê na Foulst uma chance de tornar isso realidade. Porém, antes que ela pudesse trilhar esse caminho, um presente é entregue a ela. O isqueiro, que mais tarde passa a ser chamado de Ignis, começa a criar uma relação com a garota, fazendo com que a alquimia de ambos se torne uma só. Do outro lado do mundo, Luana Lavoisier, a líder da sociedade dos alquimistas prado, organiza uma busca aos cinco objetos mais poderosos da alquimia. Dentre eles está a espada de cobre, capaz de regenerar sua estrutura a partir da alquimia daquele que a impõe. Com isso, ela lidera uma caçada juntamente aos seus seguidores para encontrar cada um dos objetos perdidos através do tempo e cumprir o seu objetivo final.


Fantaisie Épique Déconseillé aux moins de 13 ans.

#ação #aventura #luta #poderes #magia #adolescente #juvenil #romance #fantasia
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O Palácio Cintilante

O céu estava claro e o sol brilhava forte. Os grandes dirigíveis sobrevoavam a cidade, tentando conseguir a melhor visão de um palácio dourado e cintilante que ofuscava até a luz do sol, e as ruas estavam cheias de pessoas alegres e sorridentes que gritavam o mais alto que podiam. Uma multidão começa a se formar no centro da praça em frente ao Palácio da Alvorada e, aos poucos, se acomoda; alguns têm balões presos em seus dedos, destacando o branco e o dourado.

A euforia dos milhares de cidadãos diminui e todos fixam seus olhares em uma porta de vidro em um dos andares mais altos, que se abre. Um homem de cabelo preto, magro, de estatura mediana e vestindo um manto vermelho se aproxima da varanda. Em sua cabeça havia uma coroa dourada que brilhava tanto quanto o palácio. Ao lado dele estava um jovem, que aparentava ser um adolescente e vestia uma blusa com mangas longas cobertas por um colete de couro marrom; seu braço direito estava virado para trás à altura da cintura em sinal de respeito e o esquerdo permanecia esticado e firme. Do outro lado estava uma mulher de longos cabelos prateados reluzentes, ao redor de quem três pequenas esferas de metais giravam. Toda a multidão começa a aplaudir e o som dos gritos faz um eco pela praça. Mais ao centro, duas meninas franzinas se apertavam para tentar obter a melhor visão possível do vislumbre que todos ao redor contemplavam.

– Não acredito que você me meteu nessa, Alla. Tive que mentir para minha mãe para vir aqui com você hoje – diz a mais baixa, embora a diferença entre as duas seja quase imperceptível.

– Você ainda está reclamando, Elissa? Quando mais conseguiríamos ver o ilustre Alcaeste se não hoje? – responde a outra quase sem fôlego.

Do topo do palácio, os três olhavam para a multidão que os aplaudia sem parar. Com um movimento firme, Alcaeste levanta a mão direita e faz um sinal para que todos fiquem em silêncio.

– Hoje a existência da Foulst completa dez anos... dez incríveis anos que marcaram a vida de vários jovens alquimistas. Lembro como se fosse ontem o exato momento em que decidi fundar uma escola onde todos poderiam compartilhar dessa enorme importância, a alquimia e seus estudos, em nossas vidas. A Foulst nos presenteou com brilhantes cientistas ao longo dos anos e, por isso, devemos agradecer ao meu antigo e querido amigo, Antonie Lavoisier, que foi o responsável por tornar parte desse sonho possível – diz Alcaeste, projetando a voz. A multidão permanece quieta, mas agora a expressão em seus rostos se assemelhava à melancolia. – Porém, sua sede de poder e ganância levou essa cidade a dias de dor e sofrimento. Fomos obrigados a lidar com o maior dos horrores e com a mais terrível forma de perda. Nossas lágrimas se tornaram o testemunho de que não podemos confiar em falsos profetas. Mas tudo isso agora está no passado. Devemos olhar para frente, para o futuro, e estar de braços abertos para os novos alquimistas que surgirão. É com enorme prazer que eu gostaria de celebrar o início desse ano com o anúncio do mais novo diretor da Foulst: Our.

Um homem alto, vestindo um sobretudo preto, surge atrás de Alcaeste. Our tinha cabelos louros e olhos amendoados que mal podiam ser vistos devido à luz do grande palácio dourado.

– Não me estenderei muito – diz nervoso. Embora o corpo estivesse trêmulo, seu rosto esbanjava tranquilidade. – Como novo diretor, espero que a Foulst prospere e se destaque, cada vez mais, entre as melhores escolas de alquimia em Aúcia. Sob minha direção ela não será apenas mais uma; será um lugar que seus filhos poderão chamar de “lar”, onde sua segurança e integridade sempre estarão garantidas. Isso é tudo.

Começa uma enorme salva de palmas; gritos e sorrisos se misturam às lágrimas de felicidade que brotam nos rostos das pessoas lá embaixo. Alcaeste e seus acompanhantes desaparecem entre os balões brancos e dourados que enchiam o céu de Aúcia.

– Acabou! É hora de irmos, Alla – grita Elissa, puxando-a pelo braço.

– Você é muito estraga prazeres, sabia?

Alla estava boquiaberta, olhando para o céu colorido. Mais distantes do aglomerado param em frente à mesma árvore que escalavam quando eram mais novas.

– Seus pais deixaram você ir para a Foulst esse ano? – pergunta Alla.

– Eles não sabem... minha mãe prefere que eu vá para a Corválio. Ela diz que não confia no Alcaeste no comando de Aúcia, muito menos no da Foulst. Infelizmente, meu pai concorda com tudo que ela fala.

– Como ela pode dizer isso? Alcaeste é um ótimo líder e tem sido um bom exemplo para todos nós. Você ouviu o que ele disse. Eu acredito nas palavras dele. E logo a Corválio? Sério?

– Corválio também é uma ótima escola. Claro que se pudesse escolher iria para a Foulst sem pensar duas vezes... lembro quando ficávamos na sala de aula imaginando como seria estudar alquimia e agora, com o período letivo quase começando, preciso pensar rápido em algo que os convença a me deixar estudar lá. E você, já conseguiu que seus pais deixassem? Sei como sua mãe é cautelosa em relação a estudar longe. Mal suportava os vinte minutos que você levava da escola até a sua casa.

– O “sim” definitivo ainda não saiu, mas estou quase lá. Minha mãe disse que conversaria com meu pai e no jantar eles me dariam a resposta. Acho que o maior problema para eles é a Foulst ser uma escola para alquimistas em que nós realmente colocamos o que aprendemos em prática, diferente da Corválio ou da Imperial. O medo de que eu me machuque tentando algo os deixa apavorados. Mesmo assim já deixei minhas malas prontas. Não posso esquecer nada quando o dia finalmente chegar.

– As aulas começam daqui a duas semanas. Tempo para arrumar as malas é o que não vai faltar – caçoa Elissa. – Não acredito, o tempo passou mais rápido do que imaginei! – exclama. O relógio da torre que ficava a poucos metros marcava 16:00. – Tenho que ir para casa correndo. Não quero dar motivos para os meus pais me impedirem de ir para a Foulst.

– Melhor nos apressarmos. Também não quero chegar em casa depois do meu pai, ele sempre volta cansado quando trabalha o dia todo. Nos vemos depois.

Elas se abraçam brevemente e partem por caminhos separados.

Alla anda o mais rápido possível. Sua imensa vontade de entrar na escola de alquimistas a consumia por completo. Foulst sempre fora seu sonho; pelo menos desde que ela aprendera o significado da palavra “alquimia”.

Algumas ruas de Aúcia ainda estavam cheias, parte das pessoas conversando na calçada. A casa de Alla ficava um pouco mais à frente do centro da cidade; só precisava cruzar duas ruas paralelas e a loja de penhores de dona Isabel. Andando em passos largos ela cruza uma delas em menos de dois minutos. Sua casa estava logo à frente. Cruza a segunda rua, passa em frente à loja de penhores e chega.

Silenciosamente, ela gira a maçaneta da porta para ver se já havia alguém lá. Tudo estava quieto. Na cozinha, procurando algo para comer, vê em cima do fogão um pedaço de carne e um pouco de arroz na panela. Serve-se e senta no sofá da sala, que tinha duas almofadas cinza de cada lado. A casa estava quieta; o único barulho era o do garfo batendo no fundo do prato. Depois de terminar, Alla coloca o prato na mesinha de madeira no centro e deita no sofá. Seus olhos fecham lentamente...

E acorda do cochilo assustada com a porta abrindo. Ela senta, tirando os cabelos do rosto. Com passos suaves, um homem jovem, alto e vestindo um sobretudo branco se aproxima dela, beija-a no rosto e vai para a cozinha, onde pega uma garrafa com água da geladeira e enche um copo, que esvazia de um gole só.

– Chegou tarde hoje. Algum problema? – pergunta Alla, esfregando os olhos.

– Saíram mais cedo por causa do discurso do Alcaeste, mas preferi trabalhar na minha folga a ter que ouvir toda aquela baboseira.

– Baboseira? Pensei que gostasse dele. Não é por isso que você é um Legionário de Aço?

– Os Legionários de Aço não servem a Alcaeste, mas ao Palácio da Alvorada e ao tribunal. Não significa que ele possa nos dar ordens... apesar de ele fazer isso frequentemente.

– Pensei que fossem amigos dele ou algo do tipo. Sempre vejo Legionários saindo do Palácio.

– Amigos? De forma alguma. Etur controla os Legionários de Aço e ele é um Princípio... e todos sabem que os Princípios odeiam Alcaeste. Nenhum deles faria algo que pudesse favorecê-lo.

– Acho que estive enganada todo esse tempo. Sempre vejo as pessoas o admirando e aplaudindo... é como se todos na cidade gostassem dele. Quisessem ser ele. O amassem.

– Não se sinta mal. Todos sempre caem na lábia dele. O teatro é muito bom... consegue enganar. Mas, no geral, sabemos o que ele é. Infelizmente, nem o tribunal pode contra ele. Quem seriamos nós para tentar?

Alla concorda e sobe a escada da sala. No andar de cima entra na primeira porta à esquerda, seu quarto. O de seus pais ficava mais à frente e o banheiro no final do corredor. Ela anda na direção da janela, ao lado da cama. O céu já estava completamente escuro. As luzes da cidade brilhavam em branco e dourado e iluminavam até os cantos mais distantes. Do outro lado da rua era possível ver dona Isabel regando as plantas que ficavam em frente à porta de entrada de sua loja. A torre do relógio marcava 18:34. Ainda havia grandes dirigíveis sobrevoando a cidade.

Uma porta fechando ecoa no andar de baixo da casa e Alla desce novamente para ver quem era. Sua mãe, vestindo um suéter azulado que deixava seus cabelos pretos mais brilhosos, colocava um livro em cima da mesa de centro da sala.

– Pensei que chegaria mais cedo por causa do discurso do Alcaeste.

– Tive que ficar até mais tarde arrumando a prateleira de estudos alquímicos. Agora que as aulas em todas as escolas estão prestes a começar a maioria dos alunos procura a Biblioteca Nacional para ver exemplares raros. Na maioria das vezes aquilo fica uma bagunça. Vou preparar o jantar. Aposto que você e seu pai estão famintos.

– Não precisa se preocupar, Abyul. Já fiz o macarrão com purê de batatas que você adora – responde o pai de Alla, saindo da cozinha.

– Você é um amor, Jonathan. Vou me trocar e já volto. Poderia pôr os pratos na mesa, Alla?

– Claro.

Alla entra na cozinha, pega três pratos do armário e coloca um em cada lado da mesa retangular, sobre a toalha branca. Jonathan serve um pouco de macarrão e purê de batata enquanto Alla lava as mãos na pia. Eles sentam, ela na cadeira do lado esquerdo, Abyul, que descera, do lado esquerdo e Jonathan na ponta.

– O cheiro está ótimo. Caprichou!

– Se o gosto estiver tão bom quanto o cheiro, acho que vou repetir – concorda Alla, começando a comer.

– Como foi seu dia hoje, querido?

– Cansativo como sempre. Tive que assinar uma papelada enorme sobre os novos alquimistas que querem ingressar nos Legionários de Aço. Astarote não parava de apressar as coisas por causa do discurso de Alcaeste. Eu não o suporto desde que virou comandante. E o seu?

– Os novos alunos começarão a ir à Biblioteca Nacional atrás dos livros de estudo. Micca e eu ficamos o dia inteiro arrumando prateleira por prateleira até estar tudo em ordem. E o seu? – pergunta Abyul, olhando para Alla.

– Nada demais. Elissa e eu fomos dar uma volta na praça.

– Com toda aquela algazarra por causa do Alcaeste? – murmura Jonathan.

– Na verdade, foi exatamente por isso que fomos lá. Queríamos ver o discurso dele a respeito da Foulst. Até conhecemos o novo diretor, Our.

– Foram sozinhas até a praça no centro da cidade, cheia de pessoas desconhecidas, só para ver aquele idiota falar abobrinhas? Seria mais divertido me pedir para contar aquelas piadas que vocês acham sem graça.

– Como vamos começar a estudar na Foulst queríamos saber um pouco mais a respeito da escola. Não dá para saber tudo apenas lendo livros ou revistas... quis entender como as pessoas se sentiam em relação a ela. E, basicamente, fiquei satisfeita em ver como todos admiram tanto o Alcaeste. Até o novo diretor parece ser simpático.

– Estudar na Foulst? – repete Jonathan. Balançando a cabeça, exclama: – Nem pensar!

– Para falar a verdade eu disse que conversaríamos sobre isso – diz Abyul. – E acho que a Corválio continua sendo a melhor opção para você e para a Elissa. Inclusive, já conversei com os pais dela sobre isso.

– A escola fica em um pântano! – esganiça Alla. – É o pior lugar para onde poderiam me mandar! Meu sonho é ir para a Foulst desde que estava no colégio preparatório! Tudo bem, não temos dinheiro ou influência suficiente para tentar uma vaga na Imperial, mas me vejo na Foulst. Não acho justo me mandarem para a Corválio só porque é a única que me aceitaria! Ela é repleta de alquimagos... e se eles não gostarem de alquimistas? A guerra acabou, mas não significa que todos sejam pacíficos.

– Não duvidamos da sua capacidade – retruca Jonathan. – A Foulst fica ao leste de Aúcia, quase saindo da cidade. Não queremos você sozinha em um lugar tão longe e nem onde Alcaeste pode ter total controle. E alquimagos são pacíficos. Não temos problemas com eles desde que desmantelamos a Ordem Negra do Voundoun.

– Por que odeia tanto o Alcaeste? Precisavam ter visto o discurso dele hoje... foi tão inspirador! Quero ser uma das grandes alquimistas que ele mencionou. É tão difícil ver potencial em mim? Ele enxerga o melhor em cada pessoa. O melhor que podemos ser.

– Não vamos prometer nada, mas terei uma conversa com seu pai hoje e pensaremos a respeito da Corválio e da Foulst.

– Pensaremos? – pergunta Jonathan. – Não me lembro de ter deixado essa discussão em aberto.

– Sim, Jonathan. Mas, por agora, Alla, o mais importante é que você se prepare para começar uma nova etapa na sua vida. Independente da escola sei que será uma ótima alquimista, filha. Eu acredito em você.

– Obrigada, mãe. Garanto que não vou decepcionar – responde Alla, retribuindo o sorriso. Aquele incentivo era tudo que ela precisava para acreditar em si mesma.

A parte mais alta da floresta da Albânia ficava sobre o monte Korab, um lugar onde poucos arriscariam suas vidas por diversão. Dois seres encapuzados seguiam uma trilha de barro no meio da floresta. Aquele caminho os levava até uma velha cabana de madeira que parecia estar abandonada há muito tempo.

– Tem certeza de que é essa a localização? O lugar está praticamente esquecido – diz um deles. Usava óculos escuros.

– Tenho certeza. Luana não se enganaria. Ela disse que o encontraríamos aqui.

– Parece que ninguém vem aqui há muito tempo.

– Vamos dar uma olhada para ver se achamos alguma coisa.

– Nós poderíamos voltar e dizer que não achamos nada. Assim ficaríamos livres de ter que fazer aqueles relatórios chatos a que ela nos obriga.

– Kyx, por que você nunca leva nada a sério? Estamos procurando essa espada há seis meses e você quer simplesmente desistir?

– Exatamente: seis meses. Essa busca já se tornou cansativa. Nem sei porque você se importa tanto com isso, Enka.

– Demos nossa palavra a Luana que a ajudaríamos até o fim. Esqueceu?

– Tudo bem. Desculpe – suspira Kyx, as mãos erguidas. –Foi estúpido da minha parte dizer isso. Eu nunca abandonaria você ou a Luana.

– Não precisa de tanto sentimentalismo. Faça o que tem que ser feito – responde Enka, impaciente. Parada em frente à porta da cabana, olha toda sua extensão, as paredes, o teto e o chão de pedra. Tenta abri-la, mas a maçaneta nem se move. – Está tudo enferrujado. Não dá para abrir.

– Com licença. Isso é trabalho para um homem.

– É verdade. Onde vamos achar um a essa hora? – debocha Enka, irritada.

– Depois as minhas piadas que são ruins.

Kyx retira os óculos e um brilho vermelho surge de seu olho direito, iluminando grande parte da escuridão. Lentamente, a maçaneta da porta da cabana começa a derreter; seus restos metálicos ficaram grudados em algumas folhas que rodeavam o lugar. Kyx recoloca os óculos e empurra a porta. Uma grande névoa de poeira salta na direção dos dois e Enka espirra.

– Deve fazer muito tempo que ninguém vem aqui. Nada parece ter sido tocado há meses.

– Esse lugar está caindo aos pedaços. Pode até cair em cima da gente.

Kyx olha para o teto; parecia que desabaria a qualquer momento.

– Deve ter alguma coisa aqui que indique para onde ele foi, ou pelo menos o que ele fez com a espada – pensa em voz alta, tocando em um quadro velho pendurado na parede.

– Essa floresta é enorme. Ele pode ter ido para qualquer lugar.

– Hum... talvez ele nem esteja mais aqui.

– O que quer dizer? – pergunta Kyx.

– Talvez ele já soubesse que viríamos e fugiu antes.

– Por que não tenta localizá-lo? Não foi para isso que Luana te escalou para essa missão?

– Essa floresta é enorme. Mesmo que consiga achar algum rastro de alquimia pode ser que nem seja dele, mas posso tentar.

Enka junta as duas mãos e fecha os olhos. Seus dedos se apertam e ela se concentra.

– A única marca de alquimia que consigo sentir é a nossa. Não consigo sentir nada que já tenha passado por aqui antes.

– E se nós fôssemos pe...

– Espere – murmura Enka, apertando os olhos. – Estou sentindo alguma coisa muito grande... no sul. Acho que é algum tipo de passagem ou portal.

– Passagem? Para onde?

– Não sei. Só consigo sentir até ela. Em certa parte não consigo atravessar. Algo está me bloqueando.

– Até onde consegue sentir a alquimia do Besnicc?

– Até a entrada da passagem. Depois ela some – responde Enka, abrindo os olhos.

– Talvez ele tenha criado algum círculo de proteção em volta do lugar onde está vivendo agora.

– Não parece ser só um círculo de proteção. É algo muito maior, como se tudo que estivesse dentro dessa proteção tivesse algo próprio para se proteger.

– Qual é o plano? Espero que não esteja pensando em ir até lá agora.

Eles saem da velha cabana e Enka puxa a porta, que bate com uma nuvem de poeira atrás deles.

– Não sabemos o que é aquele lugar. Vamos aproveitar que está escuro e tentar coletar o máximo de informações possíveis.

Ela puxa um pedaço de papel e uma caneta de uma bolsa presa ao cinto.

– O que está fazendo?

– Anotando as coordenadas da localização dessa cabana para o relatório que a Luana vai pedir.

Enka guarda tudo e, ao lado de Kyx, começa a seguir a trilha de barro que ia em direção ao sul.

A torre do relógio marcava onze horas quando as luzes de Aúcia foram apagadas, todas de uma vez, exceto as das ruas. Os grandes dirigíveis não rodeavam mais a cidade e parecia que o som de milhares de pessoas conversando nunca tinha existido. Alla estava deitada na cama com um pequeno livro na mão; a capa dizia “Alquimia Básica para Iniciantes”.

Toc toc, ecoou um som vindo da porta.

– Pode entrar.

Abyul estica a cabeça para dentro do quarto e olha em volta. Alla folheia algumas páginas e coloca o livro na cômoda.

– Não sabia que já estava indo dormir, querida. Posso voltar amanhã se quiser.

– Tudo bem, mãe. Aliás, estou até sem sono.

Alla senta na cama e Abyul ocupa o espaço ao seu lado.

– Sei que quer muito ir para a Foulst – começa a dizer. Parece estar medindo as palavras. – Seu pai e eu continuamos achando que a Corválio é a melhor opção para você, mas conversei muito com ele e ele disse que concorda que vá para a Foulst – conclui Abyul. Alla arregala os olhos, abre a boca e fica sem reação. Algumas palavras tentam escapar de seus lábios, mas sua expressão de surpresa e felicidade parecia não cooperar. – Amanhã enviarei sua carta de admissão, mas acho que vai levar um tempo até que recebamos a resposta. E passarei na casa da Elissa para falar com a mãe dela. Direi que concordo que você vá para a Foulst e que gostaria que a Elissa fosse junto... até para que você não fique sozinha lá e eu tenha que me preocupar ainda mais.

– Ai, meu Deus! A Elissa também vai?

O corpo todo de Alla tremia e suava frio.

– Calma. Disse que você ia, mas não dei certeza sobre a Elissa.

– Não tem problema. Amanhã vou à casa dela e conto a novidade eu mesma. Ela vai ficar super feliz. Igual a mim agora! – exclama Alla sorrindo.

– Querida, não precisa se apressar. As aulas só começam daqui a duas semanas e sei que você ainda tem muitas coisas para resolver. A primeira delas é passar na Biblioteca e pegar os livros de nível Iniciante da Foulst. Não vou estar lá... preciso ir à Imperial resolver um problema com um dos formulários... mas vou deixar tudo arrumado com a Micca.

– Vou à casa da Elissa e de lá vamos para a Biblioteca. Pode deixar algumas cópias para ela também?

– Tudo bem. Agora vá dormir. Amanhã o dia será longo e você terá que começar a se preparar para as aulas. Nada mais será fácil como antes. Alquimia é uma prática extremamente poderosa. Não pense que é apenas escrever textos ou anotações em seu caderno – avisa Abyul, levantando para ir embora.

– Fique tranquila. Dormirei super bem depois de uma notícia dessas. Te amo, mãe! – diz Alla, abraçando Abyul.

– Te amo, Alla. Nunca se esqueça disso. Vou dormir também... meu dia será longo.

Abyul sai do quarto e fecha a porta. Alla se joga na cama, agitada, e encara o teto com um enorme sorriso no rosto.

No dia seguinte, antes que o enorme sino da torre do relógio soasse para acordar a cidade, Alla já tinha tomado o café da manhã e se arrumado. Sua mãe já tinha saído e seu pai ainda estava dormindo.

As ruas estavam tranquilas e calmas, como em qualquer outra cidade que acabava de despertar. Os grandes dirigíveis já sobrevoavam e poucas pessoas perambulavam pelas ruas e esquinas vazias. Ela caminhava olhando para o céu, imaginando como seria sua vida na Foulst, uma escola incomparável no quesito alquimia. Talvez a melhor e a única, pensava. Um sorriso estampa seu rosto ao imaginar as grandes coisas que faria e aprenderia: sintetização de objetos, o preparo de elixires e fórmulas mistas, o formato de diferentes círculos...

Em passos largos, Alla chega à rua onde Elissa morava. Era bastante alegre e festiva, mesmo para aquele horário da manhã. As pessoas já estavam nas calçadas conversando e em todas as casas as famílias tomavam seu café da manhã, coisa que não acontecia na casa de Alla por todos acordarem em horários diferentes.

A casa de Elissa era a última. Era toda quadrilhada e tinha quatro janelas que davam uma ampla visão do lado de fora. Havia um gato branco deitado no telhado, despreocupado. Alla bate na porta e quase no mesmo instante uma mulher baixa e corpulenta aparece.

– Alla! Que surpresa agradável. O que faz aqui a essa hora?

– Vim ver se a Elissa pode ir comigo até a Biblioteca Nacional.

– Elissa não disse nada sobre isso, mas tudo bem. Entre – resmunga a mulher, abrindo a porta. Alla entra na casa e olha para os lados tentando encontrar Elissa. Várias plantas, dos mais diferentes tipos e formas, cobriam boa parte da sala. Era como uma floresta em miniatura. – Ela está na cozinha. Estamos tomando café.

Alla segue para a cozinha, onde Elissa e um homem um pouco mais velho comiam pão com manteiga e tomavam suco de laranja.

– Alla? – exclama Elissa surpresa. – Não sabia que viria tão cedo. Nem sabia que viria.

– Vamos juntas pegar nossos primeiros livros e dar uma volta na cidade?

– Sente, tome café conosco – disse a mãe de Elissa, puxando uma cadeira.

– Não precisa, já tomei em casa. Estou cheia.

– Eu insisto – repete a mulher, olhando-a seriamente. Ela obedece na mesma hora.

– Mãe, não precisa forçá-la – murmura Elissa envergonhada. – Não sabia que estava tão animada para ir para a Corválio. Até ontem dizia que não suportava a ideia de ter que ir para lá.

– Sua mãe ainda não falou sobre a Foulst? Pensei que já sabia que não íamos para a Corválio.

– Ir para a Foulst? – exclama a mãe de Elissa. – Não dissemos nada sobre isso.

– Conversei com minha mãe ontem e ela disse que enviaria a carta de admissão. Ia passar aqui hoje para falar com a senhora sobre a Elissa ir para a Foulst também.

– Sua mãe não passou por aqui. Para falar a verdade, não a vejo há algumas semanas.

– Por que não me avisou, Alla? – Elissa diz baixinho, assustada. – Não queria ser pega de surpresa assim.

– Minha mãe disse que passaria aqui antes de ir à Imperial. Talvez não tenha tido tempo.

– Talvez tenha sido isso mesmo. Mais tarde passo na sua casa para ver se a encontro por lá para conversarmos – diz a mãe de Elissa.

– Então, mãe, eu vou? – pergunta Elissa sorrindo.

– Gostaria que você fosse para a Corválio. Foi lá que sua avó e eu estudamos e nos tornamos alquimistas erbivocas. Gostaríamos que essa tradição continuasse. Não queremos que você vá para a Foulst depois de tudo o que aconteceu lá.

– Essas coisas de tradições são tão anos duzentos... e “tudo o que aconteceu na Foulst” foi há dez anos! As coisas mudaram. Pai, você não vai falar nada a respeito?

– O que sua mãe decidir está decidido – responde o pai de Elissa, sem reação.

– Essa é minha palavra final. Você vai para a Corválio – a mãe de Elissa encerra o assunto com firmeza. Alla e Elissa cruzam os olhares, ambas cabisbaixas e quietas. – Por que não fica mais um pouco, Alla? A Elissa adoraria a sua companhia.

– Preciso ir pegar os livros na Biblioteca Nacional. Pensei que a Elissa poderia ir comigo.

– Desculpe, mas ela não pode. Ela precisa arrumar as coisas para ir passar o final de semana na casa da avó, que é o último.

Elissa olha com fúria para a mãe, mas não diz nada. Alla percebe que está sobrando e levanta da cadeira.

– É melhor eu ir andando, então – diz educada. A mãe de Elissa a acompanha até a porta e a abre. – Boa viagem. Aproveite a casa da sua avó – despede-se da amiga, acenando.

– Você sabe que ela mora só a trinta minutos daqui – retruca Elissa, soltando uma risada.

– Sei, mas gosto de te fazer sofrer.

A cidade não parecia a mesma que Alla vira há menos de vinte minutos.

O sol estava forte e as ruas já estavam cheias de pessoas apressadas. Da casa de Elissa era possível ver o Palácio da Alvorada, que brilhava fortemente. Alla anda em passos rápidos, temendo já ter perdido o horário marcado para buscar os livros na Biblioteca Nacional. O grande sino do relógio da torre marcava sete e quarenta; Alla passara mais tempo na casa da Elissa do que imaginara.

A praça ficava a poucos metros e o Palácio da Alvorada crescia cada vez mais. Depois de alguns minutos ela finalmente chega ao centro da cidade, um pouco menos movimentado que de costume. A Biblioteca Nacional ficava em frente ao palácio; era grande, alta e possuía uma porta de cinco metros. Suas duas únicas janelas davam uma grande visão do que havia lá dentro. Alla vai até a porta de entrada e dá uma rápida olhada para trás antes de finalizar seu trajeto: seus olhos miram a porta de vidro da qual Alcaeste discursara, talvez esperando por mais uma aparição repentina dele, mas sem sucesso. Ao tornar a virar para a entrada da Biblioteca, Alla esbarra em um garoto de cabelos negros que aparece de repente na sua frente.

– Olhe por onde anda, desastrada – exclama. Parecia carregar os mesmos livros que Alla estava indo buscar.

– Desculpe! Você apareceu de repente. Não trombei de propósito!

– Só tente prestar mais atenção na próxima vez – ele responde, virando para ir embora.

– Espere! – grita Alla. – Você também é um alquimista iniciante? Pelos livros que carrega parece que também vai começar seu ano letivo em breve.

– Não que isso seja da sua conta, mas sim. Sou um alquimista iniciante e vou começar a estudar na Foulst.

– Isso é ótimo! Também estou indo para lá. Talvez possamos ser amigos ou colegas de classe – diz Alla animada. O garoto, por outro lado, não aparentava ter o mesmo interesse que ela.

– Está indo para a Foulst também?

– Sim, e serei uma grande alquimista. A melhor da escola toda.

O garoto ergue as sobrancelhas, surpreso. Em tom de deboche, responde:

–No máximo vai ser a segunda... vai ter que passar por mim.

– Espero que seja tão bom quanto fala. Não parece saber fazer alquimia sem um livro aberto na sua frente...

– Talvez a gente se esbarre pela Foulst, então poderemos ver quem é o melhor alquimista. Agora, se me permitir, vou andando. Não tenho muito tempo para perder com você.

O garoto sobrecarregado com as pilhas de livros desaparece no meio das pessoas que iam em direção à praça.

– Vamos ver quem é o melhor, acéfalo. Espere e verá – diz Alla para si mesma. Ela entra na Biblioteca Nacional.

A porta era da cor azul-escuro. Ela a empurra e se depara com uma imensidão de livros das mais variadas cores e tamanhos. O teto era quase inalcançável; não se via o começo nem o fim das prateleiras. Era um lugar fácil de se perder. Do lado direito da entrada havia um balcão com uma recepcionista que lia um livro de capa roxa, de alquimagia básica para alquimagos, supôs Alla. O resto do local estava totalmente silencioso. Se alguma outra pessoa estivesse ali provavelmente estava entretida com algum livro, assim como a recepcionista. Alla vai até o balcão onde uma pequena campainha dourada servia de alarme. Ela a toca três vezes, interrompendo a recepcionista de sua leitura um tanto quanto amarga.

– Alla! Você chegou – disse. Ela fecha o livro sem colocar um marcador na página em que parou. – Achei que viria mais tarde... deve estar mesmo ansiosa para ir para a Foulst.

– Você nem faz ideia. Minha mãe queria me mandar para a Corválio, mas consegui convencê-la de que é a Foulst que realmente quero.

– Não deveria esnobar a Corválio. Estudei lá por quatro anos e amei cada segundo. O cheiro das flores, as grandes árvores em volta, e o lago Alca que fica em frente... simplesmente perfeito. É a melhor escola para alquimagos.

– Pensava que a Corválio ficava em um pântano.

– Fica, mas não é por isso que vai ter só lodo e água suja. Corválio é um lugar incrível, tanto para se estudar quanto para visitar.

– Deve ser por isso que a mãe da Elissa quer que ela vá para lá. Ela quer que a Elissa siga a tradição da família de ser uma alquimista erbivoca e mexer com todas essas coisas de lixerismo e erbivologia.

– A Sra. Peletier é uma grande mestra de lixerismo. Elissa vai ter sorte se herdar as habilidades da mãe. E com a boa educação da Corválio ela provavelmente vai superar muitos alquimistas da Imperial – diz Micca, orgulhosa. Ela pega sete livros que estavam ao lado do sino dourado e os entrega a Alla. – Estude bem cada um deles. A partir de agora você vai precisar trabalhar duro se quiser realmente ser uma boa alquimista.

– Não vou ser uma boa alquimista. Vou ser a melhor – diz Alla cheia de si. Ela pega os livros das mãos de Micca. – Obrigada! A propósito, quem era aquele garoto que estava saindo daqui agora há pouco?

– Conheço há algum tempo. Ele veio aqui durante as férias para estudar alquimia. Também vai para a Foulst. Talvez vocês se tornem amigos.

– Duvido muito.

Alla vai em direção às grandes portas e dá uma última olhada em volta antes de sair. Micca voltara a ler o livro roxo, mas não conseguia lembrar a página em que havia parado.

16 Juin 2019 20:05:06 6 Rapport Incorporer 3
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Olá, eu sou a MiRz do Sistema de Verificação do Inkspired. O Sistema de Verificação atua para ver se as histórias estão dentro das normas do site e ajudar os leitores a encontrar boas histórias no quesito de gramática e ortografia; verificar sua história significa colocá-la entre as melhores nesse aspecto. A verificação não é obrigatória para sua história continuar sendo exibida no site, portanto se não se interessar em obtê-la, basta ignorar essa mensagem e não alterar o seu texto. Caso queria que outras histórias suas sejam verificadas, é só contratar o serviço através do “Serviços de Autopublicação”. Sua história está marcada como “em revisão” pelos seguintes apontamentos retirados do seu texto: 1) Hífens. Em vários momentos da história e ao longo dos capítulos, várias palavras estão hifenizadas quando não precisam, como por exemplo, “me-diana”, “dou-rada”, “que-remos”, “co-meteu”, entre outros tantos ao longo dos quinze capítulos. É um errinho bem pequeno, mas como acontece com frequência na história toda, tenho que colocar o livro em revisão. Acredito que uma revisão mais atenta corrija esse detalhezinho, pois são os únicos erros que encontrei. Você escreve realmente muito bem, parabéns pela história! Caso você estiver interessado em uma nova verificação, após corrigir os erros apontados, basta comentar aqui, que eu farei uma nova releitura. Tenha uma boa semana! :)
15 Octobre 2019 12:33:15

  • Leblon Carter Leblon Carter
    Oii. Tudo bom? Eu passei ele direto do word após a revisão de uma profissional. Semanas depois eu percebi que havia complicação de hífens em DIVERSAS palavras e corrigi no arquivo original, mas não aqui. No mais tardar quinta, ele estará repostado com todos os erros corrigidos e acréscimos de capítulos e informações sobre a história. Obrigado pela atenção 😊 15 Octobre 2019 14:54:51
  • Leblon Carter Leblon Carter
    História já revisada 😊 16 Octobre 2019 11:28:54
  • MiRz Rz MiRz Rz
    Olá Leblon. Desculpe pela demora em responder ao seu comentário. A notificação se perdeu em meio outras. A história foi verificada, visto a correção do que foi apontado. :) 3 weeks ago
~

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