Lâmina Negra - O começo das trevas Suivre l’histoire

reine-claro_firenze Reine Claro

Os olhos fecharam-se durante três longos anos… O tempo não esperou e a lenda foi esquecida. Novo amanhã, o inesperado aconteceu para mudar o rumo. Rheynne Ellen acorda após o cruel assassinato e apercebe-se que não podia mais ficar no seu amaldiçoado continente contaminado pelo esquecimento dos deuses. Como alternativa, parte para o reino que há muito já tinha enterrado dentro do seu coração. E o que mudou? As ruas de pedra branca choram a morte do amado rei, inicia uma guerra interna entre os opositores da rainha e os rebeldes que querem tomar o reino para o domar. E surge, em torno do passado, a desaparecida princesa de Gardennia que não morreu há cento e oitenta e um anos. Ierynne está viva, mas não tem a sua força para enfrentar o problema. Arthur Alsthorn, Lorde do falecido rei, tenta inocentar-se da acusação sobre assassinato do monarca e alia-se a Rheynne Ellen na busca de encontrar os segredos que andam a faltar nas várias gerações de Deland. Entre mortes e revoltas, luta e paz, várias pessoas serão envolvidas num enredo que, desde o ínicio, prende por completo. O que se pode esperar de Waylon no momento em que a única regra é a sobrevivência?


Fantaisie Médiévale Interdit aux moins de 18 ans.

#romance #amor #reinos #assassinos #fantaia #aventura
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Capítulo 1

Dias melhores… Mal se lembrava deles. Possivelmente aconteceram há uma… Duas… Três semanas atrás. Mas existiam, quando a refeição chegava e a comida voava pelas grades de ferro. Não existia nada melhor que ver um guarda com os nervos à flor da pele. E aquele fechar de mãos que fazia o sorriso ser arrancado do rosto? Adorava, esperava sempre que a chave fosse colocada na fechadura e que ele se passasse. Anda lá… anda lá… Não ia, todos sabiam que o maior desejo dela era esse, ter a oportunidade certa para escapar. E já não o podia ter feito?

Malditos desejos por realizar.

Merecia uma boa fuga, a fama não devia de ser enterrada na terra e deixada aos deuses a alma. Para se ser o melhor, era preciso ser marcante. Junção das duas coisas, nascia uma lenda.

Caius, a ilha que, segundo o maior mapa de Waylon, ficava no centro do mar, mesmo no meio dos dois grandes continentes rivais. Aquele pedaço de terra sempre foi um ponto de encontro entre reis, feiticeiros, piratas, contrabandistas e, principalmente, assassinos. Porém, o facto de ser muito frequentada piorava a segurança nas ruas. O rei podia parecer cego, mas se existia algo nele era a esperteza. Como tal, todos os que viessem de Avantya, sem documentos, procurados pelo rei de Garthe ou prisioneiros vindos de Ashentya, deviam de ser imediatamente presos, julgados pelo tribunal e reencaminhados para o reino de origem. Então, o que raio ainda estava ali a fazer?

Roda por entre os dedos a palha da cama de madeira. Boa pergunta, o que ainda estava a ali a fazer a maior assassina de Avantya? Deixou de pensar nas respostas, agora resumia-se a um…

Nada!

Estava ali a encher a cela vazia. Nunca pensou que o rei Mason estivesse com problemas financeiros. Porquê? Porque para escoltar um assassino era preciso um navio cheio de guardas, uma cela anti magia, se a tivesse, e uma carruagem especial quando chegasse a terra. Se havia algo que Caius tinha era dinheiro, navios e guardas. O que não tinha era senso de responsabilidade.

– Comida! – alguém grita no corredor de pedra.

Um sorriso escapa por entre os lábios. Onze em ponto, lá ia o guarda da refeição servir o jantar aos mais violentos. Não, nem todos o eram. Vá se lá entender o luxo das cadeias. Antes de estar ali, sentada com a vista para a porta e olhar despreocupado, desembarcou em Caius três dias antes. Mais ou menos da mesma maneira como entrava numa taberna em Garthe…

~

Curioso, sempre que se anda atrás de algo, raramente se têm. Ou se luta para ter, ou apenas se espera pelo melhor momento. Quando nenhuma das duas acontece, não há nada que explique o acaso. Mais concretamente, a sorte. Mexe o vinho no copo de barro, continuavam a juntar água e a cobrar como se este estivesse puro. Os bêbedos nem davam conta, sempre estiveram longe da realidade. E mira… A sorte que se sentou no outro lado da taberna. O que falavam?

Vira o rosto para o homem que grita com o rapaz da viola. O coitado engole com esforço a vergonha e tenta tocar outra coisa que não irrite o cliente. Caius… Em Garthe, o pálido rapaz com viola na mão, luvas rotas nos dedos e botas compradas para impressionar a amantes, engolia não a saliva, mas sim o que tocava desajeitadamente. E voltava a atuar? Só se tivesse muita coragem, porque de certeza que nunca mais da vida pensaria sobre o delicado assunto. Ali… Gritasse e manda-se seguir. Futilidades da vida.

Bate o copo na mesa. Coloca os braços sobre a madeira lascada e espreita por debaixo do capuz a sorte. Quatro homens com largos chapéus aplumados de penas vindas do sul. Pig White, só lá é que depenavam as aves raras e decoravam as cabeças. Casaco com o melhor couro de Portuaryos. E o navio aportado no cais? Grande aposta, diria o mestre se estivesse ali. Raramente pescava tubarões de água doce. Não custava nada tentar, vistos que ouviu… Algures, enquanto passava pelas barracas de armas, que o capitão Bardares vinha de longe e ia para longe. Sem novidades, a vida de um pirata resumia-se ao mar, grandes tempestades, roubos e histórias para contar. Porém, algo a interessou na novidade. Iam rumo a um reino que a interessava profundamente. Não que fosse o mais importante, apenas precisava de ir para lá.

Negócios. Levanta da cadeira, mete os dedos por entre a trave de madeira e arrasta esta até à mesa escolhida. Casa cheia, o rapaz ao fundo do estreito estrado tentava animar o ambiente embriagado. Vinho, quer puro, quer aldrabado. Cerveja com bolor ao fundo das pipas era bebida como se fosse água. Cantavam os homens com o rosto quente, as velas aqueciam ainda mais o ar pesado. No chão, as migalhas de pão com mais de dois ou três dias. Uma semana, partida na mesa quase com um martelo e colocada na sopa que, sabem lá os deuses, o que tinha lá dentro. Mesmo assim, Leynos ganhava o mês quase todos os dias.

Vira a cadeira, abre as pernas e senta. Coloca os braços sobre as costas desta e sorri para os piratas que giravam as cabeças para ver quem era a intrusa com capuz. Um coloca a mão perto do cabo da espada. Outro olha para o que estava na ponta. Capitão Bardares.

– Está na mesa errada. – comenta ao pegar na caneca.

Os dedos passam pelos lábios e o olhar foca o vazio da mesa.

– É mesmo?

– Ninguém se senta aqui, a menos que queira vender algo mais. – sorri.

Os ligeiros risos aparecem ao admirar a mercadoria que nem estava à venda. Também esboça um grande sorriso no rosto.

– A taberna na tua terra enche assim? – o pirata comenta.

Nega com um certo brio no olhar.

– Não desde que se partiu a louça toda por causa da porcaria de um copo.

– Um copo? – pergunta quase a rir.

– Pior foi quando matamos dez pessoas. Nunca nos roubem uma cadeira no momento em que nos ausentamos para ir urinar.

Os piratas levantam as sobrancelhas, só se viesse de Avantya, a terra esquecida pelos deuses, aquela por onde os perdidos vagueavam sem destino e criavam o caos. Pelos vistos, viver lá devia ser uma verdadeira prova de vida.

– O que te traz aqui?

Aproxima o tronco à mesa, começava a gostar da conversa.

– Grande a viagem que fizeram desde Pig White até Caius.

– Uma grande caçada mesmo por debaixo do teto do rei…

Bardares bate no outro pirata, estava a revelar a um estranho o plano.

– Não falarei nada a uma habitante de Avantya, se essa for a tua terra.

– Conheço a lenda que por lá vagueia.

– A assassina que está morta? Deixa-me rir. – retira o chapéu da cabeça – Já foi uma lenda nos dois continentes. Agora, deve ser um monte de ossos dentro de um caixão. Ainda está para nascer a próxima lenda.

– Também falam em Dagneya Anera e ninguém o viu ainda. Deve estar morto também.

– O que te quero dizer… – entrelaça as mãos calejadas sobre a mesa – É que nem que conhecesses um deus, jamais abriríamos a boca para te contar o plano.

Assente e levanta da cadeira.

– Percorri um longo caminho para vos encontrar. Se o meu pai soubesse que estou aqui, matava-me.

– E quem é o teu pai?

– O duque Claos Geano Jeen Kei Morennemo…

– Já entendi! O que raio tenho haver com isso?

– Quero… – levanta a vista para a porta – Navegar. O meu grande amor anda lá… Algures.

Bardares coça a cabeça por debaixo do chapéu.

– E?

– São piratas, certo? Estou disposta a pagar para ir no vosso navio.

– Tu? – desata a rir.

Os restantes acompanham o riso.

– É um colar. – fala num tom mais sério – Consegues?

– Esse?

– Conheces? – fica desconfiado.

– Família Elenthy, pertenceu a Alexander e foi passado para Also após uma grande batalha. Está nessa geração aos anos. – senta na cadeira.

– Ele esconde algo. – o do lado fala.

– Uns dizem que é um mapa encantado por uma bruxa Lonthrane. Outros dizem que Dinity apenas deu ao rei de Gardennia por ser amiga da esposa dele. Não sei qual deles é verdade. – outro diz.

– A rainha feérica… – Bardares dá um suspiro de malícia – Bela mulher do norte. Aquela, Joan nunca conseguiu domar.

– É bela se fores amigo, porque se fores um mero mortal que se aproxima da fronteira, viras refeição para os feéricos mais violentos. – um pigarreia.

– Isso é só uma lenda, todos sabem que os feéricos não comem humanos.

O homem insiste e até se debruça na mesa.

– Comem! Eu vi a comerem.

O pirata coloca a mão sobre a barriga, é como se se imaginasse a comer ao jantar carne que pertenceu a um amigo ou irmão. Nojento, não conhecia essas histórias, até porque contavam que os feéricos nunca fizeram isso, apenas queriam assustar as pessoas. Se fizeram, deviam de ser banidos.

– Tens a certeza? – o do lado esquerdo pergunta com algum receio.

– Nunca estive tão certo. Dorian espalhou essas histórias.

– Quem é ele?

– O rei feérico de Ashentya.

– Chega dessas histórias. Vamos focar no que realmente importa. – olha para a frente – Se queres ir, vais ter que conseguir o colar.

– Sem problema.

– O teu problema é Mason. Mas o rei não anda com o colar. – abana o copo.

Não, o vaidoso monarca de Caius odiava esse tipo de encargo. Como também não gostava muito da doença do filho, deixava-lhe o colar como forma de aviso. Que doença sofria? A fama de Aaron atravessava os continentes todos, sofria de preguiça aguda, não treinava mais, não queria saber da gestão, odiava aprender o idioma antigo e rejeitava a aborrecida lição de como governar. No fundo, o mimado príncipe dedicava-se a cortejar as empregadas, princesas, duquesas, baronesas… Qualquer mulher que gostasse de brincar nos aposentos.

– Uma mulher como eu consegue encantar qualquer homem. – responde com o capuz a chegar aos lábios.

O pirata passa a mão pela barba, talvez… Talvez… As mulheres davam a volta a qualquer cabeça. Levanta o braço e faz sinal para mais uma rodada, o negócio estava em andamento. A parte principal já estava definida, além daquela pequena ajuda para conseguir algo que o tornaria rico. Será que embarcaria no pequeno Endevor? Se queria navegar sem amanhã, devia de conhecer o verdadeiro segredo do mar.

Três horas passaram, beberam o vinho até as barbas negras ficarem encharcadas. Pagaram com um saco de pratas e ainda gritaram que seriam reis do mar. Atrás deles, ia a estranha que não bebeu muito. Não que o vinho não fosse o que gostava de beber, apenas não fazia sentido ir para lado algum com a visão turva.

A porta abre e o pirata faz sinal para entrar. Estalagem? Eles ofereceram onde ficar, quando amanhecesse, partiriam o mais breve possível.

– É aqui.

Espreita para o interior.

– Não é um luxo, mas espero que dê para esta noite.

Tinha que dar, ou dormiria no porto. Sacos de trigo espalhados pelo chão, uma rede esticada que servia de cama, velas dentro de copos de vidro para não derreterem sobre a madeira, um intenso cheiro a musgo acabado de ser arrancado… Já esteve em sítios piores.

– Pequeno-almoço… Depois logo se vê. Tem uma boa noite. – sai e fecha a porta.

Deixa cair no chão a capa de veludo, enfim, descanso. Caminha para a rede colorida e pressiona para baixo, queria ter a certeza que não ia cair mal se colocasse em cima. E se caísse durante a noite? O capitão ouviria a reclamação sem contra-argumentar. O problema, é que diria que vida de pirata era assim, no limite do desenrasque.

Passa o joelho pelo tecido e…

A cabeça vira ao ouvir um bater à porta. Quem seria? Alguém que se esqueceu de dizer o resto. Abre e olha para outro pirata. Velho e com uma cicatriz no rosto. Aquele devia de andar mesmo perdido.

– Olá jeitosa. – sorri com metade dos dentes ausentes.

Bate a mão no aro de madeira e priva o avançar dele.

– Perdeu-se? – pergunta.

O pirata pede silêncio ao colocar o dedo torto junto aos lábios desidratados. E cambaleava no lugar, parecia dançar a um som mudo o que ia na cabeça.

– Jeitosa. Vi-te… – aponta para trás – Vi-te entrar e disse para mim… “Menon, que deusa é aquela que entra com o capitão.” Então decidi visitar-te.

– Vá deitar, está muito embriagado para me visitar.

– Não estou nada. Rabos de carapau frito, és mesmo bela. – estica a mão para lhe tocar o rosto.

– O senhor não está em si.

– Deusa, é a tua cama que quero… O teu corpinho formoso que me dá vontade de urinar. – coloca as mãos nos ombros dela e começa a empurrá-la para trás – Aposto que a tua mãezinha te abençoou com um bom peito.

As costas batem com a parede de madeira. Educação? Não no momento que o pirata tentava desapertar os botões do corpete e a arfar para o rosto.

– Chega de menina bonita que quer o que já tem. – agarra no pulso dele.

O estalar abraça o grito do pirata. Com violência, puxa o tronco dele contra o chão.

– Pensam sempre o mesmo, rostos bonitos são para usar… Não encenei a princesinha para agora vir aqui um velho usar-me. – coloca o pé sobre o rosto suado dele.

O pirata tenta sorrir.

– A mulher ess e fot… Fortee. – a bebedeira fala mais alto.

Suspira, baixa o joelho até ao chão e agarra no cabelo dele com força. Da mesma maneira que se parte uma noz, bate a cabeça dele contra a madeira por polir.

– Estúpidos piratas! – levanta e agarra nos pés dele.

Todos iguais, sempre os mesmos a entrar numa taberna e pedir rodada extra porque o que bebiam era pouco. E como se não bastasse, riam dos clientes mais estranhos. Arrasta o corpo imundo para fora do quarto, estava na hora da menina delicada dar lugar a uma mulher. Bate a porta, pega na adaga dentro do saco de pano e rasga o corpete de alto abaixo. Vestidos? Só nos bailes, não dava jeito no seu dia a dia andar com algo que atrapalhava até na hora de dormir. Descalça os sapatos negros, a mulher que os vendeu devia-os de engolir, mentiu ao dizer que eram confortáveis.

Abre o saco e pega nas calças negras, certas coisas não se mudavam.

O navio balançava ao sabor das ondas que passavam pelo casco. E a madeira instável oscilava, esquerda, direita, esquerda, direita… A tralha na mesa acompanhava isso, o copo meio cheio deslizava e, preste a cair, voltava para trás. Barbares estava habituado àquilo, se não estivesse, deitava mão ao copo e colocava-o noutro lugar. Para dormir era melhor, adormecia mais rápido do que em terra.

Conta as linhas da carta marítima. Bem… A visão via mais de dez. Sul… Dez. Pig White moveu-se muito desde a última vez que lá esteve.

– Kleino… Kleino! – grita.

– Sim capitão.

Vira o rosto, o rapaz estava mesmo ao seu lado.

– Kleino… Pig… Pig… Moveu-se para o sul outra vez. Isto não é normal, Menon está a beber mais que eu.

– Não ofenda a deusa, capitão.

– Pois. – estica a mão para o copo.

Bem que o tentava apanhar, apesar de ele ser muito fino e os dedos não o agarrarem.

– Acho que estou enfeitiçado.

– Chama-se vinho.

– Vinho? As bruxas inventam cada coisa. Ainda ontem se chamava rum.

O corpo ressalta ao som violento das portas abrirem. Quem entrava? Bardares mal conseguia ver o rosto da estranha mulher que entrou. Aponta o dedo, não a conhecia de algum lado?

– Tu… Tu…

Aproxima da mesa e crava a adaga na madeira. O copo bate na lâmina e fica lá parado. Kleino puxa a espada da algibeira, estava pronto para defender o capitão.

– Já sei, és a Marna. Eu sabia que voltavas. – ri.

Que piada, com aquela aparência, nem uma prostituta o queria para ganhar o dia. Baixa o tronco, agarra no colar dele e puxa-o contra o cabo de ouro da adaga.

– Estás a ver bem isto?

Bardares engole com dificuldades, não porque estava com medo de algo, apenas via a dobrar. Com os olhos encima da imagem esculpida, só conseguia ver um ponto desfocado em frente ao nariz.

– Sim.

– Então não estiques a corda. – larga-o.

– Estou confuso… Não eras a… – arrota e abana a mão para o bafo desaparecer.

A estranha cruza os braços, nem sabia o porquê de subir para ali, o pirata estava mais bêbedo que uma pedra.

– A princesinha que queria encontrar algo no mar. Era… O… Amor. Onde está o amor? – pergunta ao abanar os dedos no ar – Kleino, onde está o amor dela?

Arranca a adaga da mesa, nem ia insistir naquela conversa absurda. Talvez quando estivesse sóbrio chegassem a algum lado. Sai e bate a porta. Bardares coça a cabeça por debaixo do chapéu e levanta a vista para o Kleino.

– Estou confuso… Esta é a rapariga que trouxemos para cá, ou é outra?

O pirata estava certo que algo estava preste acontecer. Ela não era o que parecia, a menos que os esteja a enganar. Se estivesse, não haveria maneira de saber o quê que procurava dos piratas vindos do sul. Estranhos misteriosos é o que não faltava. Desconhecidos vindos de Avantya nunca podiam ter um voto de confiança.

Segundo o mapa de Waylon, Vernos ficava a sete horas de Pig White e a onze de Caius. Precisavam de abastecer para continuar a viagem. Diziam que Meathen a construiu para os homens do mar, fazendo com que a irmã, a deusa Menon, encaminhasse para lá os seus filhos. E iam, Pig White não tinha reis, apenas tinha piratas mais velhos que decidiam as leis. Criaram um caderno chamado Haninos, que na língua antiga de Dibia significava moribundos. Para quê existir um? Caso um reino decidisse tomar conta, iam lá ver os tratados assinados, se algum pirata desertor decidisse guerra, condenavam-no segundo as leis.

Sete horas e o sino do navio toca. Bardares, mais sóbrio que na noite anterior, bate à porta do quarto da hóspede. Sem resposta, bate com força, deitava a madeira abaixo de fosse preciso.

– Cassmesse acorda!

A porta abre repentinamente. Pois bem, onde estava o vestido de seda? Coça a cabeça negra e o lábio da boca sobe ligeiramente. As mulheres mudavam rapidamente o que eram.

– Chamou-me de “estranha”? – cruza os braços.

– E não o é? Pelo menos, podia acordar a horas.

– Ninguém me deu horas. Esqueceu-se que estava bêbado ontem à noite?

Abana a cabeça ao passar os dedos pela barba, não esqueceu, apenas mal recordava o que viu. Ou terá sido um doce sonho? Pelos vistos, pesadelo.

– Venha… – caminha para as escadas.

– E se decidir ficar? – encostasse ao aro da porta.

– Não lhe deixo o navio, seria tolo ao fazer isso. Tenho que negociar umas coisas, gostaria muito que acompanhasse.

Negócio… Muito os piratas negociavam. Fecha a porta, ajusta a espada na algibeira e segue o capitão. Mesmo sóbrio, cambaleava a cada passo dado. Sorri, aquele não aguentaria uma luta ou saltar de parede para parede.

– Se vos der o colar, levam-me a Gardennia, certo?

– Jamais! Não sabe que o Lorde Alsthorn odeia piratas? Mandar-nos-á executar! – faz sinal para recolherem as velas.

– Pensei que conseguiam invadir qualquer terra, porto… Não vos está no sangue?

Caminha pela prancha.

– Olha, Dember pertence a Gardennia, que tem um rei muito generoso e um Lorde muito azedo. Já matou mais de setentas piratas. – vira-se – Não arrisco o meu pescoço para te deixar lá.

– Mas arriscarei o meu para terem o vosso colar. Acordo sem acordo, não há negócios.

– E o Lorde? O que faço com ele? – fala ao abanar as mãos no ar.

O que um homem violento faz para ter o que quer? Mata. O suposto era isso, se o Lorde era uma pedra no sapato, então matava-se e atirava-se borda fora. Mas, Bardares tinha mais ar de medricas que de corajoso. Uma cicatriz no rosto, apostava que não foi feita em batalha. Gordo de tanto beber e ficar sentado a dar ordens. Roupas largas e pesadas, para tentar parecer importante. Um cabelo longo com uma barba que chegava ao peito, nem se conseguia distinguir se pertencia à cabeça ou ao queixo. Cinquenta anos, se fosse mais velho saberia que o mar tinha dias de tempestade e de abonança.

– Matem o Lorde.

– Matar um homem como aquele por tua causa? – desata a rir e abana a cabeça – Fofa, não irei perder a minha fama. – começa a andar.

– Que fama? De medricas? – caminha com furor.

– Não beleza, sou o capitão Barbares Valver, o conhecido Pé de Âncora. Já aportei em muitos lugares, duelei com muitos piratas, roubei imensos navios… Quando tu nasceste, eu já tinha esse navio. E um segredo só para nós… – volta-se e aproxima o tronco à cabeça dela – Pertenceu a um grande rei com o nome de feijão.

– Joan?

– Esse. É bonito, não? – estende a mão para apresentar o navio.

O rosto vira para trás, conhecia a frota de Joan, todos os intitulados tesouros da realeza. E nenhum deles se assemelhava aquele. Porque era belo? Não, apenas estava consciente de que o navio aportado, mesmo à sua frente, nunca pertenceu ao rei, ou este o teria recuperado em menos de três dias.

– E Dember?

– És igual aqueles bichos pequenos que percorrem o corpo e mordem sem parar. Já tentaste ser mais… Direta?

Vira o rosto, queria mesmo isso?

– Direta?

– É. Mulheres que falam muito dão-me comichão.

Não costumava ouvir isso. As pessoas conseguem sempre surpreender pela positiva.

– Ou tu me levas a Dember após apanhar o colar, ou o teu magnifico navio arde antes mesmo de esticar as velas. Entendido?

Bardares baixa o rosto. Quando pediu para ser direta, estava a pedir para se calar. Um… “Chega de assunto que não te aturo mais.” Uma ameaça daquele tipo, principalmente, ameaçar a casa de um homem que vivia no mar… Pirata que é pirata, não se intimida com uma estranha.

– Toca no meu Envedor e vais perante Malik. Vou pela serenidade, mas se queres sardinhas, terás, cassmesse. Agora, acompanha-me sem abrir a boca, já tenho a comichão a chegar aos sítios que não devia de chegar. – voltasse e anda novamente.

Levanta a mão, fecha os dedos consoante cerra os dentes e quase grita de ira. Odiava piratas, por algum motivo não navegava muito com eles. Além de batoteiros, adoravam desafiar quem passava metade da sua vida em terra. Merecia, foi direta demais para o gosto dele. Baixa a mão e segue-o, não existia alternativa.

Taberna Blueny, cheia, a qualquer hora do dia, a rebentar de barris com vinho, cerveja, rum e sangue. Concertina ao fundo e os piratas dançavam o hino dos mares perdidos. Sete moedas de cobre na entrada e comiam até rebentar. Regra principal, consumir sem limites. Palavra proibida, marinheiro de água doce.

Lá andava a empregada com os braços no ar, os copos cheios passavam sobre as cabeças que lembravam as lojas mais chiques. Chapéus coloridos, com grandes penas ou adornos supersticiosos. Casacos vermelhos, azuis, castanhos… Dependia do gosto e do dinheiro. Alcunhas sem sentido, dentes falsos de ouro e anéis nos dedos calejados. Por vezes, tatuavam um mapa, uma Marilosa, ou o nome da última prostituta a quem prometeram dar casa. Piratas, a vida resumia-se a confusão, roubo, liberdade e navios. Conversas lapidadas pelo vinho e rum, os bafos das bocas matavam qualquer planta indefesa. E as histórias não tinham limite.

O olhar perdesse no mar de chapéus, ainda bem que a taberna de Garthe raramente recebia aqueles amantes de água salgada, ou muitos dos seus clientes, alguns mais explosivos, depenavam-nos.

– Anda cassmesse, o cliente está ali. – aponta ao passar por entre duas mesas estreitas.

Bem, quando um homem gordo passava por entre duas pessoas sentadas a beber, o resultado não é dos melhores. Bardares empurra os dois piratas e a bebida transborda para cima da roupa. As mesas quase entalam o corpo que abria caminho… A estranha bate com a mão na testa, não podia ter ido à volta?

– Desculpa Chupa-lata-de-sardinha! – pede ao se virar.

– Bardares! – o pirata grita ao ver a garrafa cair no chão.

– Realmente filho de um tubarão morto! – o outro berra ao segurar na mesa que era arrastada pelo largo corpo.

– Chisco, como vai o teu pequeno navio Casca de Noz? – toca a cabeça dele com a mão.

– Melhor que a tua prostituta!

Ri e segue caminho, ali só existia amor e paz, todos eram irmãos no momento de beber. Chega ao destino e vira-se para ajeitar o que fez.

– Cassmesse! – grita ao vê-la no outro lado.

– Já vou! – contorna a mesa.

– O que é feito da trinca espinhas? – um pergunta ao lamber o vinho da mão.

– Cá para mim, fez outra com outra. – o do lado fala.

– Nada disso, Bardares tem uma mulher! – o pirata da outra mesa comenta – Podem ver que é jeitosa.

– Boas curvas. – um usa as mãos para descrever.

– Onde a compraste? Parece bruxa.

– Isso explica o feitiço.

Basta aquilo para todos começarem a dar opinião. E lá no meio, como se fosse vendida aos demais, estava a estranha. As mãos seguravam no cabo da espada, o olhar sério mirava o rosto de Bardares, vermelho de tanto rir. Ia continuar com aquela palhaçada ou cessava a voz dos demais? Nada, ria, bebia dos copos que lhe davam e gozava com a estranha que nem tinha nome.

– Fechem a boca! – grita ao se virar.

Parou. Mais ninguém ria, a concertina não tocava e a empregada não distribuía mais a bebida. Chega de rir, chega de vender a mercadoria não rotulada. Apenas fica o silêncio e os olhares mudos cheio de perguntas. Vontade? De lhe gritarem que ali, só piratas é que tinham direito de mandar. Miravam-na, como se tivesse-se perdido na hora de entrar no quarto. Sozinha, ninguém a conhecia para prevenir uma possível violação.

– Cassmesse, menos direta aqui. – sussurra ao ouvido.

Olha de esguelha o pirata, menos? Claro, em terra de desconhecidos, quem guiava mandava.

– Ela acordou com os pés de fora. – Bardares comenta – Bebeu água do balde e agora está com vontade de vomitar. Já sabem como são as mulheres, sempre com doenças estranhas. – ri.

Acompanham o riso, erguem as canecas e pedem música. Esqueciam do que aconteceu? Não, apenas não valia apena insistir no que não servia de nada.

– Kion… – Bardares vira-se e abre os braços – Quanto tempo?

– Uma semana atrás. – cospe o pálido e estende a mão para apertar.

A estranha espreita pelo ombro do pirata e repara no homem sentado ao pé da parede. Não o conhecia de algum lado? Um olho fechado por ter sido golpeado, roupa larga e negra que condiziam com a barba castanha e cabelo pincelado de preto. Kion Pley, o ladrão de Garthe mais procurado por Joan.

O olho de Kion mira a estranha. Já a viu em algum lado, só não se lembrava de onde.

– Esta é a cassmesse. – Bardares apresenta antes de puxar um banco – Minha sócia.

O ladrão sorri ao meter o cachimbo à boca. Para onde ela olhava? Para o olho fechado, cicatrizado por uma lâmina em brasa. Deixa o fumo sair pela boca, nem todos tinham uma vida de sonho.

– Queres saber como fiz isto? – pergunta ao apontar com o dedo.

A estranha senta no banco e coloca as mãos sobre a mesa. Estava disposta a ouvir a história.

– A assassina de Avantya fez-mo. Aquela peste atraiu-me para uma armadilha, tentou chegar ao meu pescoço… – desce o lenço negro e revela a cicatriz.

A respiração acelera, conseguia ver a adaga que tentou abrir-lhe a garganta e falhou. Mesmo assim, rasgou a pele, desenhou sobre a carne um caminho que cicatrizou após levar vários pontos.

– Catorze vezes. – ajeita o lenço – Dou graças que esteja morta e enterrada. Conheces a Lâmina Negra?

Baixa o rosto ao negar.

– Todos conhecem aquela… Maldição humana que tirou a vida a mais de trezentos homens. Só os deuses sabem como é difícil sobreviver em Avantya. Ela não bate à porta, entra, mata e depois, limpa o sangue à tua roupa. Há quem diga que pegou fogo a Cienny, Leyla morreu com uma flecha na boca, vinda de cem metros de distância. Ela mesmo a matou assim.

– Deuses. – Bardares comenta.

– Morreu com a garganta aberta… – Kion foca a estranha com os olhos quase em lágrimas – Disseram que o caixão ardeu na hora de enterrar na terra. O rei Joan fez uma festa, o povo atirou ao ar lenços vermelhos… Há três anos atrás. Não conheces mesmo Lâmina Negra?

Volta a negar.

– Ela veio do interior de Caius, não deve conhecer maior parte das lendas. – o pirata argumenta.

– Um conselho… – aponta o dedo – Nunca, mas mesmo nunca, confies numa mulher com a espada negra. Ela vai sempre tentar matar-te.

Nem sabia se assentia ou se baixava o rosto. Via, no olho dele, a raiva que sentia por essa assassina. Mesmo morta, queria-a ver no inferno, mesmo enterrada, queria-a ver reduzida a cinzas. Pelos vistos, ninguém gostava mesmo dessa mulher.

– E confiaste nela? – pergunta quase com receio.

Kion bebe um pouco de vinho e faz sinal de que queria mais.

– O dom dela é a manipulação. Consegue manipular qualquer homem, qualquer um.

– A mim não manipulava de certeza. – Bardares comenta.

– Dizem que Meathen confiou nela e os filhos nascidos em Fonze foram mortos.

– Que crueldade!

– Dela não me espanta, é a assassina mais antiga de Avantya.

– E Dagneyta Anera? – pergunta por alto.

– Quem? – Bardares olha-a.

– O assassino de Deland, aquele que diz ter um dragão enorme e que vive debaixo do castelo de Macendher. Ele é conhecido por beber muito e falar em mulheres.

Negam, nunca ouviram falar dele.

– Desisto. Viemos para fazer negócio… Não sei do quê.

– Claro. Boa cassmesse. Kion, quero aqueles barris que Sily seca como falamos.

– Para? – pergunta ao meter o palito à boca.

– Preciso de te dizer o motivo?

Convinha, não queria ter problemas com o pirata líder de Pig White. É que depois registavam que andava a contrabandear e acabava preso no porão do navio abandonado.

– Não sei, quero dar uma festa à trinca espinhas. – coça a barba – Sabes que não existe explosões sem isso.

– Vais atacar algo?

– Navios da Majestade Moneya. Ela deve-me o tapete de pele.

Assente ao sorrir, uma loucura, mas o cliente é que sabia.

– Dois sacos de ouro, como combinado.

– Um e meio. – relembra.

– Dois, tive problemas com as caixas.

Nega, quando se fazia um acordo, cuspia-se para a mão, apertava-se e estava zelado o acordo. Não ia ser roubado por um homem que não matinha a palavra dada.

– Meio e é se queres.

– Podes ir Bardares, não terás o teu carregamento.

– Ladrão! – comenta ao levantar e virar a mesa.

Os demais olham para lá, miravam cada elemento como se fossem inimigos prontos a morrerem. O que estava a acontecer para chegar a esse ponto? O capitão não estava feliz, o que era estranho para os restantes.

– Queres ajuda? – um comenta.

– Este ladrão está a roubar-me!

– Não é só a ti que rouba.

– Cala-te que é um grande homem. – alguém defende.

– Grande? Roubou-me dez sacos de pratas por um mapa secreto.

– Merecias ser roubado, cabrão.

Ai merecia? O homem vira-se e parte a garrafa na cabeça do outro. O pirata olha-o, acabou de fazer aquilo? Vai direto ao pescoço dele, atira-o da cadeira abaixo, a mesa é arrastada para o lado…

Em menos de um minuto, a taberna que festejava estava toda à pancada. Partiam os copos, as cadeiras, as garrafas… Um murro aqui, uma facada acolá… Até a empregada lutava sem motivos. Bardares cruza os braços ao permanecer em pé, a olhar para aquele cenário festivo. Não existia uma semana de paz sem antes haver uma boa guerra.

– Kion, negócio suspenso. Se me voltas a roubar dessa maneira… – vira-se – Eu arranco-te o outro olho. Farei o relatório a Malik, não quero aqui ladrões!

– É uma ameaça?

Nem responde ao virar a costas e caminhar para a saída entupida de pessoas que lutavam. Kion olha para estranha ainda sentada, com um braço nas costas da cadeira e a perna cruzada. Interessante, conhecia-a de algum lado, mas de onde…

– Vais ficar aqui?

– Cassmesse! – Bardares grita por entre a barulheira.

Faz sinal de ter sido chamada. Que pena, não haveria mais conversa. Levanta e arruma a cadeira sem mesa.

– Um bom dia, Kion.

– Ainda saberei de onde te conheço.

Baixa o rosto com um grande sorriso.

– De algum lado. – caminha.

Sim, disso sabia. Mete o palito à boca, não reconhecia a voz sequer? Coisas da cabeça, às vezes não se conseguia explicar o que era.

Dois sacos de ouro por dez caixas de Sily. Nunca foi tão roubado como estava a ser. Também, fez negócio com um ladrão, não podia esperar outra coisa dele. Dá passos largos, acelerados demais para um cais tão movimentado. Tinha vontade de o prender ao mastro principal e deixá-lo morrer de fome. Ou que a tal assassina estivesse viva para o matar.

– Já vamos navegar? – pergunta a estranha.

– Cassmesse, decidi não ir para Caius, já tenho problemas que chega.

– O quê?! – grita ao parar no meio da rua – Pensei que tínhamos feito um acordo!

– E fizemos… – vira-se – Mas não me apetece ir para lá. Que o rei fique com o colar.

– Tu não me vais fazer isso, pois não?

– És minha esposa para ter prometido algo? Não. Se não queres ir, fica em terra. – volta a andar.

Não ia roubar o colar, não ia invadir o forte, não ia… Encostasse à parede e cruza os braços, o seu maior problema foi ter confiado num pirata que desonrava a palavra dada. E depois ainda criticava o ladrão, ele mesmo fazia isso.

Bardares olha para trás e vê a estranha parada de braços cruzados. Será que tinha que se sentir mal por a deixar ali? Passa a mão pelo cabelo e volta a colocar o chapéu, mulheres… Davam a volta a qualquer um.

– Cassmesse, posso deixar-te num porto que te leve lá. Dibia chega para ti?

Nem vira o rosto.

– De lá, vais para Dember. Nem precisas do colar.

– Pensei que era isso que tu mais querias.

– Sim, para mudar de vida. Mas Caius é uma fortaleza. Não vale apena arriscar a minha vida por algo fútil. O que me dizes?

Ficar em Pig White também não era má ideia, podia sempre roubar um navio e partir. E navegar num? Nem sabia ler as cartas marítimas. Não aperta a mão estendida dele, dá um encontrão no ombro e caminha para o navio. O pirata assente, tinham negócio. Agora, era só abastecer o vinho e já podiam zarpar.

A brisa leve afasta o cabelo que caía pelos ombros. Céu estrelado, águas calmas e uma vontade de cantar. Gostava daquilo, apesar de não aguentar navegar, ou estar dentro de um navio por muito tempo. Preferia as grandes aventuras em terra, as montanhas frias e os desfiladeiros que pareciam ir ao centro da terra. Mar… Sempre foi uma palavra sem significado. Vivia bem sem ele. Começa a entoar um som, palavras mudas que a garganta limitava a criar a melodia. Agarra bem os joelhos e levanta a cabeça para cima.

Leva-me o mais longe que conseguires, mas sem me fazeres perder.

Tinha medo de não aguentar como antes, medo de cair antes de atravessar a ponte. Talvez fosse cisma, ou estava certa que ia errar. Por via das dúvidas, não pensava sobre o assunto.

– Luttos, era o nome dela.

Baixa o rosto para Bardares ao fundo das escadas.

– Quem?

– A minha amada esposa que morreu no grande massacre. Luttos, uma Marilosa de belos cabelos azuis pincelados de dourado. Sabes o que é, não sabes?

Assente, as Marilosas foram dizimadas por Joan no lago ao lado de Cienny. Criaturas belas, com longas caudas de peixe onde as escamas mudavam de cor ao luar. Nas costas, asas coloridas como nas borboletas, talvez sem utilidade, mas serviam como escudo para o corpo. Sempre com cabelos grandes, adornados de pedras raras, joias… Cores impensáveis para a sociedade que pensava que era um mito. A rainha delas mudou-se para o sul, fugiu antes que voltasse a perder o seu povo. Quando pisavam a terra, eram mulheres iguais às outras, as cores perdiam-se. Voltando ao mar, voltavam a ser criaturas raras.

– Sinto falta dela. – senta no último degrau.

– Joan foi cruel.

– Devia ter-me vingado. Mas, há motivos que nos fazem desistir de uma luta inútil. Alguma vez amaste alguém?

Dá de ombros, se a família contava, então já amou o que perdeu.

– Costumo dizer que o mar tem sempre o que queremos. Não achas?

– Não navego há mais de vinte anos.

Bardares arregala os olhos, pelas contas… Ou sem elas… Nem valia apena.

– É muito tempo, não?

– Depende da viagem.

– Não conseguia estar tanto tempo longe do mar. Nasci num navio, morrerei nele. É assim que nos definimos, com pequenas coisas que fazem sempre a diferença.

Sorri, pequenas… Então era isso que a mãe tanto lhe tentou explicar. Grandes feitos advinham dos pequenos. Para se ser lenda, é preciso ser-se invisível antes.

Um estouro abala o navio. Bardares levanta, corre para o lado direito e espreita para a água. Alguém toca o sino, a tripulação começa a chegar, queriam saber o que aconteceu.

– Barris de Sily a boiar e com o rastinho acesso… – comenta abismado – Estamos a ser atacados!

– É para lutar, capitão?

– Não se pudermos evitar um massacre. Afastem os barris com as canas, não deixem chegar ao casco! – manda ao subir as escadas.

E agita-se a tripulação, iam fazer de tudo para não naufragarem. Bardares ordena esticarem bem as velas, empurra o rapaz ao leme para o lado e comanda. A estranha, sem saber para onde se virar, entra sorrateiramente no camarote. Se estavam ocupados, problema deles, ela só queria chegar a Caius. Porquê?

Vira-se e olha para o grande mapa na parede do camarote. Caius… Puxa a cadeira, sobe-a e percorre os dedos pelo papel secado ao sol, esticado ao limite e pintado durante dez dias. Nem sabia onde estava. Três palmos da estrela Mor até ao horizonte, partiram de Pig White… Coloca a mão, seis palmos por causa do mapa ser maior… Estavam a quatro palmos de Caius. Mesmo que roubasse um bote, não conseguia remar até lá. Desce da cadeira e encostasse à mesa. Não devia ter dado ouvidos a Tork, aqueles piratas mentiram-lhe. Se tivesse seguido o instinto, já estava em Macendher àquela hora.

– Merda! – bate na mesa.

Também não ia sair a perder, tinha que dar a volta ao pirata.

Abre a porta e arregala os olhos ao ver que lutavam. E ao lado do navio, outro, cheio de homens que usavam o arco para matar os piratas de Bardares. Ausentou-se por três minutos e já era o fim do mundo, nem queria imaginar se tivesse ausente por uma vida inteira.

Coloca a mão na espada para… Larga, prometeu a si mesma não lutaria sem necessidade. E não precisavam dela? Não daquela maneira. Baixa-se para não levar com uma flecha em chamas.

– Bardares… – chama ao correr para as escadas da direita.

O Capitão estava mais focado em lutar do que em orientar o navio.

– Bardares!

– Agora não, cassmesse. – comenta ao travar um golpe.

– Diz-me que tens um plano.

– Tenho… – empurra o oponente e crava a espada – Sobreviver é um bom plano.

– Falo em te livrares daquele navio. – aponta para a esquerda.

Não, quanto a isso ele não pensou. Adorava contar histórias, não colocar em prática o que era difícil.

– Tarefa difícil.

– Pensei que tinhas enfrentado muitas lutas… – desvia-se de um ataque e o pirata mata-o – Não és o melhor pirata em alto mar?

– Fofa, sou o melhor em segurança, não em luta. Nem todos podemos ser tubarões. – abre os braços.

Desiludida, foi enganada por completo. Bardares não passava de um medricas, desafiou Kion e agora era atacado por ele. Ao invés de arranjar maneira de proteger a tripulação, só pensava na sua sobrevivência. Onde estava o orgulho de nascer no mar e ser livre? Afinal, não era só em terra que se encontrava a cobardia.

– Eu tenho um plano que deve ser seguido à risca.

– Sou todo ouvidos. – coloca o braço no leme.

– Estamos ancorados ao navio do lado. Se cortarmos as cordas dos ganchos e virarmos o leme ao extremo, teremos tempo para afastar.

– Bateremos com a traseira. O meu navio é lento, não há por onde fugir.

– Quem disse que iremos embora sem uma pequena festa de despedida? Compraste os barris, então devolve-os.

Um enorme sorriso aparece no rosto dele.

– Está a sugerir… Desgraça?

– Atirem para lá a Sily e deixa o resto comigo.

– Começo a gostar de ti, cassmesse. – aproxima-se das escadas – Kleino, ao meu camarote. – pede.

A estranha puxa a adaga da algibeira e corre escada abaixo, ia passar a palavra.

Atacar um navio em alto mar trazia riscos, na maior parte das vezes, afundavam, morriam muitos homens e as famílias nunca acabavam por saber o que aconteceu. A tripulação lutava, obedecia às ordens e tentava resistir aos ataques. Não estavam preparados para aquilo, Bardares não costumava ser desafiado em alto mar.

Puxam as grades, mandam barris a quem conseguisse agarrar e atiram para o outro navio o que ia ser explosivo. A estranha tenta cortar todas as cordas, usa um arco esquecido e algumas flechas para se movimentar.

Livres. Faz sinal para o leme ser virado. A roda vira, o navio inclina-se e a tripulação tenta agarrar-se. Bardares usa os braços para segurar o que queria rodar, a tralha dentro do camarote começa a cair, os mantimentos não aguentariam por muito tempo.

Kion move a mão no ar, grita que estavam a escapar. É então que alguém grita que a âncora foi baixada. Por quem? Ninguém viu quem fez isso.

A tripulação começa a fazer reféns, mal se afastaram e já cantavam vitória. Bardares larga o leme que volta e virar para endireitar.

– Bom plano, mas continuamos a ser lentos, cassmesse.

Aproxima-se da beira do navio e olha para trás, estavam a trinta metros, eles conseguiriam atacar novamente.

– Kleino baixou a âncora deles.

– Mas não os segura por muito tempo.

– Mandei para lá um barril com rastilho.

– Mandaste? – olha-a.

Não, sim… A mão descai para fora do navio, o olhar focava Kion que olhava para quem fugia, como ratos do porão quando iam afundar. Não se conheciam de algum lado? O ladrão então lembrasse de onde, sabia de quem era a voz, o perfume… Cerra os dentes, começa a gritar.

Felne.

O barril explode, o porão rebenta, as chamas começam a iluminar o mar calmo, pessoas saltam para a água, outras gritam ao serem queimadas vivas. A tripulação de Bardares fica a olhar para o que estava acontecer, os reféns baixavam os rostos sentidos de verem os amigos a morrerem. Outro estrondo e o navio fica dividido ao meio. E Kion? Não se via. Talvez tenha saltado, talvez tenha morrido.

Podiam ter atacado aquele Capitão, mas piratas que eram, faziam sempre luto pelos colegas. Retiram os chapéus da cabeça e tapam a boca, silêncio em memória de quem morreu.

– Muito bem cassmesse. – Bardares coloca a mão no ombro dela – Estamos em dívida para contigo.

– A sério? – olha-o.

– Já sei o que vais pedir, e sabes qual é o preço?

– Se incluir o porto de Dember, negócio fechado.

– E se não incluir?

– É este navio que explode. – desce as escadas – Comece a pensar bem sobre o assunto, Capitão.

Coça a cabeça e olha para os restantes homens. Uma mulher a bordo era sempre motivo de azar, independentemente de ser útil ou não. Mas, estavam a fazer-lhe uma divida que devia de ser liquidada.

– Para Caius suas ratazanas! Deitem borda fora esses cabrões e preparem o vinho, é para festejar.

Atiram os chapéus ao ar ao gritar vitória, finalmente iam zarpar. Para Caius, que já iam tarde.

~

E chegou ali, há três dias atrás. Esperava o momento certo para fugir, aquele em que do nada, apareceria o tal aliado que Bardares tanto comentou no navio.

– Comida, coisinhas fofas. Estúpidos! Kabum.

Aproxima-se das grades e o olhar estranho tentava entender o guarda que ia dar a comida. Não, não era o dos outros dias que gritava comida, a menos que tivesse bebido até cair e agora fosse ali alimentar os outros.

– Comida para… – pára em frente à porta da estranha e finge que tira do sovaco um papel – Prisioneira número Ca, na cela número Ss, que cometeu o crime Me, do livro… De crimes Sse.

Coloca os dedos nas grades e sorri ao aproximar o rosto. Então aquele é que era o ajudante… Pelo menos tinha estilo de assassino.

– Sim, aqui.

– Pois. – entra pela porta – Estou aqui.

– Não, eu é que estou aqui. – bate nas grades levemente.

– Oh… – balança – Eu também. Estamos aqui os dois, a passar momentos juntos. Já te conheço de algum lado? – tira cera do ouvido com a ponta da adaga.

– De algum lado.

– Sim, de algum lado. Já te conheço, de algum lado? – salienta.

– Acho que não, ou ter-me-ia lembrado do teu nome.

– Mas eu nunca digo o meu nome.

– Então ter-me-ia lembrado que não disseste o nome.

Sorri ao abanar o dedo no ar, fazia sentido.

– Então… Comida. – estende a mão e passa o estreito prato por debaixo da cela.

Sempre os mesmos que não aprendiam. Mal pega no barro e manda-o contra a parede.

– Não como o que os guardas vomitam para o caldeirão. Então, nem tentes.

– Bom, foi um certo… – tenta lembrar – Chapadão Bandeira.

Quem? Dá a entender isso ao aproximar a parte do ouvido direito mais para a frente.

– O… Tu sabes… Bau… Bar… Birubiru. Uma vez, conheci uma moça, estás a ver aquelas moças todas… Kiu. Ela chamava-se Mariposa, porque nadava, como quem voava, fora de água. Teve um fim muito trágico. Conheceu um certo… Caixão… Barderes.

– Bardares?

– Bardares? Que nome tão estúpido, tenho a certeza que era Barderes. Enfim, não se pode confiar nos piratas.

Vira o rosto para trás e olha para a comida no chão. A chave, a bendita chave que a ia tirar dali para prosseguir com o plano.

– Ele…

A voz cessa ao ver que estava sozinha novamente. Conclusão? Bardares estaria no cais a atacar, e ela, no quarto do mimado príncipe. Será que ainda ia a tempo do jantar?

21 Mai 2019 11:37:00 0 Rapport Incorporer 119
À suivre… Nouveau chapitre Tous les 10 jours.

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