A Batalha da Bretanha Suivre l’histoire

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Dois dos ciclos de cavalaria mais conhecidos da Idade Média: Arthuriano: Rei Arthur, Távola Redonda, Guinevere e Lancelot, a demanda pelo Santo Graal, o vil Mordred... Carolíngio: Matéria de França e Carlos Magno. Os 12 Pares de França. A trágica Canção de Rolando... A ideia é: e se Rei Arthur e Carlos Magno houvessem se enfrentado? Os dois maiores modelos da cavalaria medieval se confrontando numa espécie de Guerra dos Cem Anos mitológica entre França e Inglaterra?


Fantaisie Médiévale Déconseillé aux moins de 13 ans.

#Charlemagne #camelot #lenda #cavaleiros #guerra #medieval #inglaterra #Matéria-de-França #Távola-Redonda #Carlos-Magno #Rei-Arthur
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Capítulo Único

A Batalha da Bretanha


Abaixou a espada, a ponta de sua lâmina tocando o solo.

A abertura da guarda não constituía movimento prudente em combate. No entanto, o adversário demonstrava tanto cansaço quanto ele, sendo que já se digladiavam há horas, batendo seus sabres um contra o outro. Nos poucos golpes que haviam logrado atingir o oponente, partes de suas armaduras voaram sobre a relva, cortes e perfurações sendo vistas em seus corpos tão acostumados a duelos. Apesar das feridas e do sangramento, nada os fazia parar. O ritmo de seus movimentos se alternava entre intenso e pausado – aquela breve trégua causada pela exaustão se encaixando no segundo caso. Logo voltariam a lutar; ambos sabiam. Somente um deles sairia vivo daquele campo.

Eram os únicos ainda vivos na vasta planície agora coberta de corpos. As armaduras e escudos dos soldados tombados no encarniçado confronto ostentavam dois tipos de símbolos: um feroz dragão rubro com as asas abertas, e uma águia dourada de pose não menos imponente. O guerreiro com a espada abaixada, que viera do outro lado do mar, recobrava o fôlego fitando os companheiros mortos. Cavaleiros de valor, aniquilados lutando por uma causa que viam como das mais justas. Seu líder só se reprovava por banhar de sangue a terra natal de alguns de seus mais valorosos aliados: os irmãos Bors e Ban, este último constituindo progenitor do nobre Lancelot. No passado, ele, Arthur, enviara ajuda para que a família repelisse as ambições do temível rei Claudas, que naquelas terras da Gália costumava ser chamado de "Clóvis". Agora lá estava ele, prestando novo auxílio para livrar aquele reino de mais um tirano. Ao menos poderia assim julgá-lo de acordo com suas ações...

Tudo se iniciara já há alguns anos – nenhum dos lados sendo capaz de imaginar, no período, que o conflito se estenderia tanto. Notícias vinham do continente a respeito de um soberano da Gália que, formando grande e poderoso exército, conseguira reunificar boa parte das terras que outrora pertenceram a Roma. Sagrara-se imperador, conquistando poder temporal e a benção de Nosso Senhor. Seu nome se espalhou em todas as direções, os bardos cantando seus feitos heróicos. Alguns o apelidaram como "Lucius Tiberius", porém por certo o haviam confundido com algum imperador romano passado ou governante de Constantinopla – pois tal denominação não correspondia à verdade. Na Gália, onde nascera, chamavam-no de Charlemagne. Carolus Magnus. Descendente do rei Claudas.

Logo o imperador entrou em atrito com os aliados de Arthur que possuíam terras na Gália. Exigia altos tributos, inclusive das ilhas – desejoso de reincorporar aqueles territórios ao domínio romano. Os mensageiros enviados por Charlemagne não cediam aos pedidos de Arthur para que as pretensões do imperador fossem reconsideradas, e a tensão cresceu. O senhor do continente ameaçou invadir a ilha bretã. E a guerra começou.

Os Cavaleiros da Távola Redonda – Gawain, Percival, Tristão, entre outras dezenas de lendários nomes – uniram-se ao rei em sua marcha através do canal para atacar Charlemagne em suas terras recém-conquistadas. Lancelot, talvez o mais determinado entre eles, via-se disposto a tudo para libertar sua nação natal. Na verdade, ele aparentava querer se dedicar inteiramente à demanda para esquecer algo ou alguém que deixara para trás na ilha – coisa que seu rei não pudera compreender.

O desembarque das tropas deu-se na região em que viviam os normandos. Logo nos primeiros embates, Arthur percebeu que a guerra não seria rápida como pensara. Planejava infligir algumas derrotas ao exército inimigo para logo poder abrir negociações de paz, mas não contava que o imperador romano possuía ao seu serviço cavaleiros tão hábeis quanto os da Távola Redonda: um grupo de uma dúzia de guerreiros chamados de "Doze Pares", devido a seus integrantes possuírem iguais características heróicas entre si. Eram comandados pelo jovem Rolando, sobrinho de Charlemagne. Rapaz que se equiparava a Lancelot brandindo uma espada ou cavalgando uma montaria, mostrando-se digno de chefiar os paladinos.

Durante as escaramuças no litoral, Passecerf, um dos Doze Pares, caiu ferido mortalmente. Aquilo, no entanto, estava longe de facilitar as coisas para as forças de Arthur. Rolando, sob os auspícios do tio, já organizava um contra-ataque no interior da Gália. Os bretões não poderiam confrontar aquelas tropas diretamente. A derrota seria certa.

Arthur, então, mandou que fosse erguido um grande pavilhão nas praias normandas, onde convocaria uma reunião de campanha da Távola. Pediu até que o druida Merlin, seu fiel conselheiro, viesse da ilha para manifestar-se – e logo o velho sábio cruzava o canal num mísero bote, ainda assim sendo um dos primeiros a se apresentar para a conferência. Em torno da mesa que fazia todos iguais, o rei revelou a necessidade de alterarem sua estratégia. Gawain propunha um ataque direto, de encontro ao exército inimigo, mas era cavaleiro conhecido por sua teimosia e impulsividade. Veio de Merlin o estimado conselho: precisavam tirar Rolando e seus paladinos do caminho, pois eles compunham a força das tropas do imperador. Todos concordaram, e abriram discussões: um plano para ludibriá-los logo foi elaborado.

Percival, cavaleiro conhecido por seu dom com as palavras, foi enviado em missão diplomática para o outro lado do continente, sem que o inimigo percebesse. Seu destino era a terra de Sarras, outrora famosa pelas pirâmides e a esfinge, e agora tendo sua paisagem dominada por minaretes. Seu povo, mesmo não sendo cristão, já demonstrara simpatia para com Arthur, tendo no passado ouvido os sagrados ensinamentos de José de Arimatéia – que por ali passara antes de, segundo a lenda, levar o Cálice Sagrado à Bretanha. Muito bem recebido naquela árida região, Percival apresentou suas intenções ao califa: desejava estabelecer aliança entre os bretões e sarracenos contra o impetuoso Charlemagne, que também já causara problemas a até mesmo aquele distante povo com sua desenfreada expansão. Um pacto foi firmado. E as tropas de Sarras, clamando odes ao Profeta, dirigiram-se rumo à Gália pelo sul, procurando invadi-la por um de seus flancos.

O plano de Merlin logo mostrou seus frutos: devido à vasta tropa sarracena, Rolando e seus Pares foram deslocados para confrontarem os novos invasores. O destino contribuiu ainda mais para o sucesso de Arthur: as forças do imperador acabaram traídas por um de seus membros – sendo até então desconhecido, ainda que suspeitado, se Merlin houvera tido alguma relação mais direta com o ocorrido. O resultado foi que os Doze Pares caíram em emboscada, e Rolando, acuado, morrera soprando sua trombeta chamando em vão pela ajuda do tio.

O rei bretão acreditara que a morte do líder paladino seria grande golpe para Charlemagne, fazendo-o implorar por paz. Bem, de certo modo o fora, mas de modo contrário: a morte do sobrinho deu novo ímpeto ao imperador para fustigar os invasores das ilhas, atacando-os com sua própria tropa pessoal. Desejava, ao que tudo indicava, vingar o sacrifício de Rolando. O exército de Arthur foi batido por toda a Gália; até que, após penosos meses, aquela derradeira batalha tinha palco. A pedido do próprio rei, os cavaleiros mais valorosos da Távola foram ordenados a recuar para o litoral, enquanto Arthur, somente com poucos soldados, via-se decidido a dar cabo do oponente.

Só os dois haviam restado – silhuetas combativas inseridas no pôr-do-sol. Bufando, Arthur forçou os músculos e ergueu sua espada novamente. A arma que lhe fora cedida pela Dama do Lago nunca pesara tanto em suas mãos, mas tinha de continuar brandindo-a contra o adversário até fazê-lo beijar o chão. Charlemagne, com sua barba tingida de sangue, cuspiu para o lado e se lançou mais uma vez contra o bretão. Seria naquele momento ou nunca mais. Dependendo do vencedor, Aachen ou Camelot arderiam em chamas.

Excalibur e Joyeuse se chocaram tilintando. Um visava derrubar a guarda do outro, eram verdadeiros titãs em confronto. Arthur, todavia, sem demora percebeu poder se aproveitar do excesso de confiança do imperador: ele não esperava que o adversário pudesse atacar com grande força, estando tão cansado. Este logo demonstrou o contrário: desferiu duro golpe com o sabre, rompendo a guarda de Charlemagne... e partindo em duas a lâmina de sua espada. A investida seguinte rompeu a garganta do imperador, líquido quente respingando sobre Arthur. A luta fora decidida, com o perdedor vindo ao solo totalmente indefeso.

- H-herege... – balbuciou o moribundo, demonstrando raiva e desprezo pelo vencedor. – Diz-se cristão, mas faz uso do conselho de druidas e de feitiçaria... Ainda chegará aquele que irá exterminá-lo, e rogo para que seja um dos seus!

- Pobre tolo! – o bretão sorriu, fincando Excalibur no chão. – Desafiaste um povo justo, insultando sua honra. Tem agora o que merece, e eu tomarei seus domínios. Digo-lhe mais: nenhum de seus infelizes descendentes poderá jamais vencer os exércitos da Bretanha! Homem algum da Gália poderá derrotar aquele que portar o emblema do dragão!

E, após assim profetizar, Arthur retirou-se do campo.

O imperador romano, em seus últimos espasmos, agarrou com a mão direita a grama ao seu redor, temendo pelo destino daqueles que o sucederiam.

Em cumprimento ao que seu inimigo dissera, nenhum homem daquela terra, de fato, conseguiria vencer os soldados das ilhas que a invadissem. Esse papel caberia a uma mulher, numa guerra futura que se tornaria famosa por sua duração de um século, ainda que na verdade houvesse se estendido um pouco mais...

Mas essa, meus amigos, já é outra história.

10 Mai 2019 23:18:28 0 Rapport Incorporer 2
La fin

A propos de l’auteur

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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