Champanhe Suivre l'histoire

zephirat Andre Tornado

Noite de fim do ano. O champanhe traz memórias muito particulares a alguém...


Fanfiction Anime/Manga Interdit aux moins de 18 ans. © Dragon Ball não me pertence. História escrita de fã para fã.

#Recordações #Champanhe #ano-novo #festa #Kuririn #18 #dragon-ball
Histoire courte
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Capítulo Único


Um olho rasgado e expressivo, íris azul e pupila negra dilatada, surgiu do outro lado do vidro do copo esguio, no meio das minúsculas bolhas de gás que viajavam em direção à superfície do líquido com aquela cor tão própria. Não era amarelo, nem creme, nem sequer um branco com um matiz dourado semelhante à areia de uma praia tropical. A cor era única e tão única que tinha o nome da bebida em si: champanhe.


Ela tinha ouvido a mulher da loja, onde tinha ido naquela manhã comprar o vestido para a festa, indicar-lhe as duas opções que tinha e as que mais condiziam com o seu porte, cor de cabelo, trejeitos, postura e o que mais as mulheres das lojas costumavam inventar para vender as roupas que expunham: o preto e o champanhe.


A palavra, quer designasse uma simples cor ou uma extravagante bebida, mexia com ela.


Claro que ela comprara o vestido preto. Seria incapaz de usar um vestido champanhe.


Haveria de a fazer arrepiar sempre que sentisse o tecido a roçar na pele.


As bolhinhas, minúsculas e incansáveis, corriam diretas ao topo, onde o gás se libertava e agitava o espelho do líquido que ansiava por ser bebido para celebrar a ocasião. Mais um ano velho que terminava, mais um ano novo que se iniciava. Em redor dela, agitavam-se os amigos num tropel de vozes, gritos e alegria que comemoravam com a algazarra habitual aquela meia-noite típica de uma passagem do ano. Muito ruído para agitar os espíritos, convocando os bons e afastando os maus, desejos de prosperidade, de saúde e de sucesso para os novos tempos, que os velhos já se tinham esgotado na memória, sorrisos ébrios e inocentes, saltos e vozearia.


A tal festa para a qual comprara o vestido preto.


Nunca o vestido champanhe.


Fechou os olhos e afastou-os do copo que segurava na ponta dos dedos. Estavam gelados, ligeiramente entorpecids nas extremidades, pois um dos preceitos indicava que se deveria beber champanhe frio, a uma temperatura ideal que permitisse ao palato absorver todo o prazer daquele vinho tão especial, vindo de uma região única de França.


Era interessante convocar lembranças naquela noite em que o tempo era o mais importante. Passado, presente e futuro.


E assim, de olhos fechados, recordou-se da razão porque o champanhe mexia com ela.


A primeira vez que o bebera era muito nova. Acabada de nascer.


Sorriu, de olhos fechados, com o copo entre os dedos, a absorver o aroma doce e gasoso do vinho que borbulhava perto das narinas.


Alguém berrava muito contente:


- Feliz ano novo, miná!!!


Sorriu. Sim, claro que sim. Acabada de nascer.


O que fora antes de nascer naquela forma dissolvia-se num borrão de cenas indistintas, de sensações confusas e de falsas imagens, que, não raras vezes, ela considerava absurdas e totalmente alheias à sua personalidade. Considerava-se uma mulher forte, resoluta, determinada, obstinada, implacável. O que porventura tivesse sido e que fazia parte daquele rol de lembranças, incluindo medos e lágrimas, era para ser esquecido, com mais afinco do que os anos que, começados a contar a partir daquele dia em que nascera de novo, findavam naquele remoinho de uma festa de passagem do ano.


Sim, claro que sim. Acabada de nascer.


Inspirou profundamente e em vez de sentir o aroma do champanhe que persistia no seu copo e que ainda não bebera – todos já tinham feito o seu brinde, com a sua respetiva bebida, em homenagem ao ano que começava, os amigos eufóricos e frenéticos em redor dela – sentiu os cheiros daquele outro dia, enterrado nos dias profundos e antigos.


Um ano que começava, ela que começava.


Cheiros assépticos, impessoais de um laboratório. Metal e borracha. Vidro lavado.


Sons baixos, discretos, bastante enervantes. Os apitos suaves dos monitores, o zumbido da maquinaria mais pesada nas salas encerradas por portas foscas trancadas, o chiar dos computadores que analisavam dados ininterruptamente.


A intensidade da luz branca. E as outras luzes a piscar, algures, dos dispositivos disfarçados entre painéis de botões, de alavancas e interruptores, teclados omnipresentes.


A mesa coberta de planos e de projetos enrolados nas pontas. A cadeira desleixada ao lado, com o estofo coçado e rasgado.


Uma caneca preta metade vazia, restos de café que, mesmo frio, exalava um odor forte.


Três copos de champanhe para cada um, distribuídos pelo velho que segurava a garrafa recentemente aberta e que derramava espuma branca para o soalho limpo do laboratório.


- Ao sucesso!


O irmão quedou-se com o copo parado, na mão do braço direito dobrado pelo cotovelo, ainda longe, demasiado longe da boca. Ela imitou o irmão. Parada, estática. O copo estava gelado.


E que importava isso? Ela não se importava mais com o frio ou com o calor. Tinha acabado de nascer, mais insensível do que nunca.


O velho ergueu o copo dele. Sorriso rasgado debaixo do enorme bigode branco. Olhos a cintilarem com uma alegria despojada e tão sincera, tão pura, que metia nojo.


- Ao sucesso das minhas melhores invenções! Vocês, humanos artificiais!


Ela sentiu-se agoniada. Mas a expressão do seu rosto céreo nada transmitiu. Nem sequer pestanejou. O irmão, ao lado, permanecia igual. Duas almas, dois corpos gémeos. Em tudo. Até naquele momento do nascimento para uma nova existência. 


Os seus olhos moveram-se alguns milímetros para verificarem onde estava o controlo remoto que os desativava e os colocava em hibernação forçada. Um estratagema reles que o velho cientista louco, Maki Gero, usava para os controlar. Mal sabia ele que não os controlava… Era tudo ilusão, velho!


Como aquela tosca celebração, a três, do nascimento deles, da concretização do ambicioso projeto de transformar dois seres humanos em máquinas assassinas e indestrutíveis, de energia ilimitada e vazias de sonhos. Com direito a copos de champanhe gelado e borbulhante.


O controlo remoto estava no bolso da bata branca do velho. Estúpido!


Ela bebeu o champanhe, a acompanhar o gesto do velho. O irmão imitou-a automaticamente, reflexo simpático do que ela e do que o cientista tinham acabado de fazer. Levou também o seu copo aos lábios e bebeu.


O gosto do champanhe era único.


Misturava-se com a higiene imaculada daquele laboratório, mexendo com os sentidos dela profundamente, como uma garra fria que penetrava na sua alma e que a fazia sentir como a mulher que ela queria sepultar nas trevas do esquecimento. Estremeceu ao lutar contra a tentativa de se sentir ainda humana, quando nascia artificial.


- Ao vosso sucesso, número 17 e número 18!


A voz do velho ecoou na cabeça dela. Abriu os olhos em espanto. Medo, quase, da memória não ser memória mas momento palpável. Tinha na mão um copo de champanhe.


- Não vais beber?


Kuririn perguntava-lhe, na festa, sorrindo mais feliz do que qualquer um dos seus amigos ululantes, que continuavam a berrar e a celebrar com fúria e gana.


Mas essas memórias eram mesmo fumo, coisa esquecida só lembrada por ela.


Muito provavelmente o irmão estaria a beber champanhe naquela noite, algures, a convidar o novo ano para a sua vida, empurrando o passado para trás à custa dos anos todos que tinham decorrido desde aquele momento do nascimento dos terríveis humanos artificiais do cientista louco, Dr. Maki Gero.


- Número 18, não vais beber o champanhe?


Ela suspirou devagar. Forçou um sorriso, pálido, pouco expressivo. A boca numa linha ligeiramente curva.


O laboratório iria voltar com o primeiro gole. Com o estalar das bolhinhas na língua, com o vinho requintado a inundar-lhe a boca, com o líquido frio a escorrer pela garganta.


Todavia, ela bebeu o champanhe. Primeiro saboreou-o, corajosa, lutando contra as lembranças, as sensações, os receios e todos os fantasmas que a assolaram. Afinal, abraçara uma nova vida, fizera seus os amigos do seu companheiro, Kuririn, que fora seu inimigo. Comprara um vestido preto para a festa de final do ano, esforçava-se todos os dias por um novo começo. Outro nascimento, longe do tal laboratório.


Depois, bebeu o copo todo, enchendo-se de champanhe. Urrando vitórias por dentro, combatendo com fúria o que ainda a assombrava. Rindo-se no fim. Gargalhada triunfante, cabelos loiros lançados para trás quando agitou os ombros e se sentiu poderosa.


Uma nova mulher. Um novo ano.


Kuririn riu-se com ela. Totalmente apaixonado.


Número 18 sorriu-lhe sincera. Piscou-lhe o olho. E disse-lhe, como uma espécie de presente por aquela festa de fim do ano em que ela redescobria o sabor aveludado do champanhe:


- Parabéns. Vais ser pai. Estou grávida…


Nos céus, o fogo-de-artifício explodia em rosetas coloridas.


Kuririn engasgou-se.


Número 18 resplandeceu.

28 Décembre 2018 00:03:57 3 Rapport Incorporer 2
La fin

A propos de l’auteur

Andre Tornado Gosto de escrever, gosto de ler e com uma boa história viajo por mil mundos.

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Lyse Darcy Lyse Darcy
Sempre nos inspirando com seus lindos contos ... Beijos!
28 Décembre 2018 17:24:52

  • Andre Tornado Andre Tornado
    Oi Lyse! Muito obrigado pelo teu comentário. Agora "repescando" os meus contos de ano novo por estes lados. Feliz ano novo! Que 2019 te traga muitas surpresas boas. Beijo! 29 Décembre 2018 15:15:12
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