Porque o Adeus Existe Suivre l'histoire

zephirat Andre Tornado

Durante as sessões de gravação do novo álbum, que se chamaria simplesmente “The Beatles”, Ringo Starr bate com a porta. Decide deixar a banda musical mais famosa do mundo por não suportar no que os quatro amigos se tinham tornado. A amargura que leva ao adeus e porque o adeus faz parte da vida…


Histoire courte Interdit aux moins de 18 ans. © The Beatles não me pertence. História escrita de fã para fã.

#Baterista #flores #Férias #banda #Fim #FabFour #música #1968 #Happy-Birthday-Ringo #Ringo-Starr #The-Beatles
Histoire courte
0
4746 VUES
Terminé
temps de lecture
AA Partager

Capítulo Único


O mar era um local pacífico, visto assim de perto. Sem nada mais à volta que o silêncio murmurante da água. Era um engano, pois, na realidade, abaixo da superfície, naquele reino líquido, havia predadores e presas, vencedores e vencidos, um mundo tão ou mais selvagem e violento do que aquele que existia em terra seca.


Mas era agradável acreditar na paz efémera das ilusões.


Olhando para aquela imensidão azul, num incrível tom turquesa, ele sentia-se em paz e percebia as vibrações inócuas que vinham até ele para acalmá-lo. Debruçava-se sobre a amurada do iate e fixava as ondas como se não existisse nada de mais belo para contemplar. Aspirava o aroma salgado, a pele crestava ligeiramente com o calor do sol no pino do verão, os olhos enevoavam-se com o sono que lhe acalmava os nervos.


O mar ocupava-lhe a mente e a visão. Água movendo-se em suaves ondulações, água que ele provava mergulhando os dedos com suavidade. Ia devagar. Pensava que iria encontrar resistência à superfície, como se o mar fosse uma imensa tela colorida, como um fino plástico, que o impediria de se aprofundar para além da película que ele estava a contemplar. Mas não. A ponta dos dedos arrepiava-se quando ele exercia uma suave pressão e conseguia, efetivamente, ir além da superfície e molhar a pele. Quando conseguia sentir a água morna.


No início, quando ele estava naquele movimento perpétuo de enfiar os dedos na água, a retirar a mão, para repetir tudo outra vez, analisando a diferença da temperatura – a água estava mais fria do que o ar escaldante de agosto ao largo da costa da Sardenha – troçaram dele, dizendo que ainda seria mordido por um peixe. Assustara-se e estivera durante algum tempo com receio do mar, a imaginar as criaturas vorazes que, atentas no fundo, esperavam que surgisse aquela carne apetitosa, vinda do mundo acima, para trincarem. Ele precisava dos seus dedos! Ele precisava das suas mãos! Ele era um baterista!


Aos poucos, foi-se esquecendo do seu medo, do que os outros bichanavam em seu redor, do mundo concreto que se esfumava à medida que aquele transe o consumia. Era o apelo do mar, o belo apelo das origens aquáticas que todos temos dentro de nós, ouvira ele dizer, porque todos descendemos de seres que tinham vindo dos oceanos primitivos. Primeiro peixes, depois répteis, dinossauros, mamíferos… Ou algo assim. Nunca fora muito bom na escola. Esses raciocínios elaborados e abstratos não eram para ele, que gostava mais daquilo que lhe fosse palpável. E aos poucos foi novamente provando a água, molhando os dedos, a mão inteira, pensando no falso reino pacífico que existiria nas profundezas.


Estava de férias na ilha italiana e usufruía do iate do amigo ator e comediante, Peter Sellers. Era dele a maior parte das graças sobre ele ficar sem os dedos, arrancados por algum peixe carnívoro mais agressivo, mas também foi o Sellers que, naqueles raros momentos mais sérios dele, lhe contara sobre os costumes exóticos dos polvos. Pois acontecia que esses cefalópodes gostavam de acarretar pedras coloridas que dispunham à entrada das grutas submarinas, como se estivessem a decorar um jardim. Ele gostou da imagem e, fixando as ondas mansas, fingia que tinha visão de raio x como o Super-Homem e que podia efetivamente vislumbrar os jardins dos polvos. Esses animais existiam no fundo do mar, já os tinha visto a serem pescados com a ajuda de uns potes em cerâmica, pelos pescadores locais. Inclusive provara um desses bichos no jantar do dia anterior – não podia dizer que ficara fã, era uma carne emborrachada, difícil de mastigar e o gosto oscilava entre nada e o odor das algas que apodreciam sobre os rochedos da costa.


Portanto, se existiam polvos, também existiram esses jardins de que falara o Sellers e ele pôs-se a cantarolar sobre os jardins dos polvos e de como gostaria de estar sossegado, no fundo do mar, nesses lugares idílicos, longe de tudo, de todos, especialmente longe das amarguras que lhe comprimiam o coração.


Sim, Ringo Starr, o famoso baterista dos Beatles estava deprimido.


Fugira e era por isso que estava de férias. Ninguém lhe tinha dado aqueles dias de folga. Fora ele que decidira ir embora para parte incerta, depois de mandar o mundo todo dar uma grande curva – para não dizer coisa pior, porque ele tinha efetivamente vociferado essa coisa pior. Estava a fugir e a ser um cobarde, ele, no fundo, naquela consciência chata que o picava, sabia-o. Só que ele não aguentava mais.


Em Londres, na cinzenta Londres, os dias estavam a ser penosos, especialmente para ele que tinha sempre de esperar, a quem pediam sempre que aguardasse, que ignoravam durante as grandes tormentas como se ele fosse invisível, porque se sentava atrás do biombo, na companhia da sua bateria quieta, a fumar cigarro atrás de cigarro porque não tinha coisa melhor para fazer. A contemplar o espetáculo degradante das discussões, das ofensas, das acusações mesquinhas, das invenções, das mentiras provocadas pelos ânimos exaltados. As portas batiam, um vendaval amargo varria o estúdio e depois caía aquele silêncio pastoso dos arrependimentos e dos rancores. Já não havia música, nem alegria, nem fé. Não havia nada. Somente uma sensação de que se estava a mais, ali, em qualquer cenário, em qualquer ocasião.


Ele assistia a tudo desde uma plateia privilegiada, porque, mesmo fazendo parte do grupo, era como se se tivessem esquecido dele. Ele não participava na berraria, ele não tomava o partido de ninguém – e como podia fazê-lo? Escolher que aquele tinha razão e que o outro estava enganado? Impossível! Estavam todos certos e estavam todos errados. Achava que já não fazia diferença se estava ali ou não. O ambiente em torno do famoso grupo musical que era amado em todos os cantos do mundo estava inquinado. No ar respirava-se a pestilência da inveja e da desunião.


Então decidiu-se a tirar aquilo a limpo e resolveu perceber o que se passava. Interiormente o que ele queria era perceber se valia a pena fazer parte daquilo. Das discussões, mas também e principalmente do grupo, em primeiro lugar. No fundo ele via que os outros três estavam confortáveis naquela batalha diária. A seguir a uma disputa verbal, à exaltação, expurgado o silêncio morno e doloroso, eles criavam música maravilhosa. Era um contrassenso, mas era a realidade.


Talvez a maneira de se funcionar, depois do verão do amor, fosse aquela – ironicamente. Com raiva, desalento, competição acesa. Após a violência e o disparate, a sua criatividade ficava milagrosamente espicaçada. Descarregavam toda a sua fúria acumulada e até aquela destilada nos instrumentos, inventavam melodias agressivas e ternas, tudo misturado numa amálgama de harmonia e cacofonia. As divergências eram transformadas em energia e o motor carburava, loucamente, pela tarde, pela noite fora, em gravações, em experimentações. Todos saíam esgotados do estúdio. Sem horas, sem rotina. Apenas uma criação crua e desgastante.


Ele também saía drenado, porque não participava em nada daquilo.


Tinha um canto, um refúgio. Por detrás do biombo, tornava-se invisível. Não era considerado, nem achado, nem se lembravam dele. Por um lado, era um alívio. Ninguém lhe apontava o dedo e lhe gritava aos ouvidos sobre aqueles assuntos tão estúpidos e inúteis que se lhe perguntassem sobre o quê tinham discutido, ele encolheria os ombros e murmuraria: “coisas”. Eram coisas, qualquer coisa, qualquer pretexto era ótimo para implicar com os outros.


A vantagem de estar resguardado a assistir ao descalabro era de perceber um núcleo em toda a barafunda. O problema era sempre o mesmo, ainda que surgisse disfarçado com várias camadas de maquilhagem, outras tantas máscaras e capas de feitios e cores diferentes. Só havia um problema: John e Paul. Para o bem e para o mal, os dois amigos eram o cérebro criativo dos Beatles e quando eles estavam bem, a máquina trabalhava. Quando eles estavam de costas voltadas, a máquina engasgava-se e precisava de uma nova afinação.


Há algum tempo que John tinha uma namorada. Uma artista japonesa de vanguarda chamada Yoko Ono. Bem, não era segredo para ninguém que o casamento de John com Cynthia não andava bem, mas até para John fora ligeiramente excessivo que assumisse publicamente uma relação adúltera. Ia com a namorada para todo o lado, inclusive para o estúdio.


Para Paul isso foi imperdoável. Nunca antes eles tinham misturado assuntos amorosos com o trabalho – e a música, era certo que lhes dava um prazer imenso, era trabalho. A presença de Yoko no estúdio era o rastilho que provocava a explosão da dinamite acumulada. Ela postava-se no canto sombrio da sala, com um ar impávido, como se não fosse com ela, como se pudesse fundir-se com as sombras. Expressão escondida por uns óculos de sol imensos que lhe tapavam os olhos e mais de metade da cara pequena. Tudo emoldurado por uma melena negra gigantesca e eriçada. Era uma esfinge inescrutável. Se alguém lhe perguntasse, responderia na sua voz fina que estava ali com John. Fugiria do assunto das discussões como uma enguia escorregadia. Não entenderia, espantada, que teria a ver com ela.


Mas era ela que provocava a atmosfera pesada. Ringo pensava muitas vezes que John se protegia com ela. Ele estava farto, como os outros, e tinha a desculpa perfeita. As culpas não lhe podiam ser imputadas diretamente, tinha a Yoko para servir de escudo que defletia e aparava as balas, de argumento decisivo para provar a sua inocência. O que ele tinha feito? A animosidade era toda dirigida à japonesa e embora John a defendesse, obviamente, com a sanha de um lobo a defender a sua alcateia, por dentro ele devia ficar satisfeito por existir outro motivo para a zanga. A sua namorada esquisita e calada, quando no fundo as discussões aconteciam por causa do que se tinha estragado, partido e desfeito entre ele e Paul.


A tensão era tanta, era insuportável, que por vezes Ringo olhava para as suas mãos e via os dedos, ornamentados de anéis, brancos por causa da força com que apertava as baquetas.


No seu íntimo ele sabia que a culpa era somente deles. A camaradagem tinha, simplesmente, deixado de existir. Esboroara-se, como as falésias à beira-mar que, fustigadas pelo vento marítimo, iam-se desfazendo e colapsando, até serem areia, até serem varridas e confundidas com os outros triliões de grãos de areia. Não existia mais, já não eram amigos uns dos outros. As relações entre eles estavam horríveis e a magia tinha cessado de existir. O encantamento, dissipado. Bem, na verdade, ele, Ringo Starr, via que estava à margem dos outros. No rescaldo dos confrontos verbais, na ressaca das acusações, eles voltavam a uma espécie de compromisso. John e Paul, também George. Ele continuava atrás do biombo, a olhar para os bombos da bateria e para as baquetas suspensas sobre a pele esticada dos tambores. Em silêncio. Sem ritmo. Sem som. Puro silêncio.


Então, ele decidiu que já não aguentava mais aquilo.


Fechou os olhos e aquela canção que ele tinha gravado um mês antes tangeu-lhe na alma, como um sinal de que existira um adeus – eles estavam demasiado orgulhosos para perceber ou sequer escutar a despedida.


Now it’s time to say good night

Good night, sleep tight.

Now the sun turns out his light

Good night, sleep tight.

Dream sweet dreams for me

Dream sweet dreams for you[1]


Na realidade era uma canção de embalar que John havia composto para o seu filho Julian, que tinha cinco anos. Era uma rima simples, uma melodia a roçar o infantil, algo que se podia murmurar para uma criança quando se desejava boa noite e bons sonhos, antes daquele último aconchegar do cobertor e o apagar da luz. Na atmosfera pesada e turbulenta que os rodeava, qualquer detalhe era empolado e extrapolado e aquele desejo de boa noite significava, para Ringo, que eles deviam também desligar os holofotes da fama, virar costas e cada um seguir o seu caminho em separado.


Era dramático, era bastante dramático, mas a vida deles estava transformada naquele drama. Atores medíocres a arrastar-se por um palco demasiado brilhante.


Ele não aguentava mais.


Um dia, arrumou as baquetas cuidadosamente ao lado da bateria, no suporte que se destinava a esse efeito. Não as atirou para o alto, zangado, descontrolado, espalhafatoso. Não. Simplesmente, arrumou-as, levantou-se, passou uma mão pelo banco – era um ritual que gostava de fazer, limpar sempre o seu assento – e foi-se embora do estúdio. Alguém falava alto sobre a gravação daquele dia, mais uma vez num tom acima do civilizado, dissertava-se sobre as opções que se estavam a tomar. Nem se preocupou em saber quem estava a falar. Parecia-lhe Paul e a sua voz de velha zangada, depois parecia-lhe ser o John com um vozeirão irritante, até o tom pedante de George. Era alguém daqueles três – e ele estava fora. Já não se sentia bem com os amigos – seriam ainda amigos? – e não se sentia bem consigo próprio por não se sentir bem com os amigos.


Saiu e ninguém deu por sua falta. Ninguém lhe telefonou para casa para saber o que era feito dele. Então, ele era descartável… Supusera-o e agora soubera a resposta. Não ficou melhor.


Era um dia de agosto, mas Londres estava incrivelmente cinzenta e fria, como se fosse outono. Ringo olhava para o céu carregado e baixo e suspirava, porque o clima estava tão tristonho como o seu coração.


No final do dia foi ver John à casa deste. Sentou-se na sala, entrelaçou os dedos das mãos e falou cabisbaixo dizendo que estava a tocar muito mal, que só estava a prejudicar o grupo, que iria deixar os Beatles. Os três estavam bem sem ele. Estavam ótimos, ele bem os via – olvidando as divergências e os gritos e a zanga – ele bem os via como estavam muito bem.


John ficou calado. Disse-lhe então, admirado:


- Eu pensava que eram vocês os três que estavam bem e que não precisavam de mim!


Ringo ficou intrigado. Ganhou outro peso na sua alma. Não percebeu o que se estava a passar ali. Ou percebeu bem demais. Os Beatles desagregavam-se. Os Beatles estavam a desistir de si próprios. Eram uma entidade sólida cheia de fendas…


Foi até à casa de Paul. Fez a mesma atuação. Sentou-se na sala, mãos apertadas, cabisbaixo, confessou que já não era o mesmo baterista de sempre, os três estavam muito bem sem ele. Bem os via.


Paul também ficou calado e disse-lhe com a mesma admiração:


- Eu pensava que eram vocês os três! Não precisam de mim…


Nem sequer foi até à casa de George. Agarrou nos filhos, na mulher e foi de férias para a Sardenha.


Rebobinar o filme dos acontecimentos era muito doloroso. Tinham-lhe assombrado os sonhos nas primeiras noites em que adormecia ora bêbado, ora pedrado, para enfiar alguma alegria, nem que fosse artificial, na sua alma destruída. O que ele fizera, fugir esbaforido para não enfrentar a realidade, fora feio e cobarde. Afogava as mágoas na felicidade proporcionada pelo álcool, pela erva, pelo ácido. No fundo, ele sabia que tinha dito adeus e não conseguia lidar com aquilo.


No entanto, rebobinar o filme dos acontecimentos tinha-o ajudado a ver o acontecimento em perspetiva e a distanciar-se da desilusão e do despeito que o tinham feito agir com tanta impulsividade. Podia, duas semanas depois dos acontecimentos, perceber o exagero de tudo, como tudo estava certo porque todos tinham razão, como tudo estava errado porque eles estavam a destruir-se a si próprios. A amizade morria… Morria e o adeus estava ali.


E quem fora o primeiro cobarde?


Ringo fechou os olhos que lhe ardiam com as lágrimas não derramadas.


Lágrimas, não, porra, que um homem não chora… Era o maldito sal do maldito mar que lhe estava a picar os olhos, era o sol quente e a sua luz cegante a refletir-se na água, era a sua carência. Porque não era o amor da mulher e dos filhos que conseguiria, alguma vez, substituir aquele amor grande e especial que ele tinha aos seus irmãos de armas. Uma espécie de soldados, armados com música em vez de espingardas.


Respirou fundo para se acalmar.


Por aquilo que ele apurou, não era o único que estava a sofrer com aquela separação, com as divisórias que tinham construído à sua volta. Cada um dos quatro tinha as suas próprias armaduras, os seus próprios argumentos para explicar ou desculpar ou legitimar o seu comportamento. Nunca era a culpa deles, era sempre a culpa do outro. Onde tinham perdido a capacidade de se entenderem, de se ajudarem, de se compreenderem? Algures quando cresceram.


Ah, pois isso tinha acontecido. Eles tinham-se transformado de rapazes em homens feitos. Na verdade, eles foram obrigados a crescer quando estavam no princípio dos seus vinte anos. Não puderam ser jovens, tiveram de aguentar com o peso do mundo sobre os ombros. De repente, sem aviso, serem a ponta da lança que rasgava o marasmo do universo. Fora divertido, fora embriagante e a fórmula esgotara-se. Ficaram perdidos, eles quiseram ser mais do que uma quarta parte dos Beatles, pois eles tinham uma identidade individual.


Talvez tudo aquilo se resumisse a um cansaço, a um grito de libertação.


O que continuava a não justificar nada.


Ele tinha abandonado os Beatles e não tinha sítio para onde ir.


Havia o fundo do mar, cogitou com um suspiro exausto, onde os polvos construíam jardins coloridos. Era mesmo um lugar que ele sonhava visitar, mas só o podia fazer na sua imaginação. Talvez se voltasse a beber naquela noite poderia mitigar aquela dor imbecil. Murmurou:


- I’d like to be, under the sea, in an octopus’s garden with you…[2]


E quem era essa pessoa que o podia acompanhar no santuário submarino? Seria Maureen, a esposa… Era a resposta lógica, a resposta simpática já que ele se zangara com os amigos queridos. Ou seria… Quem? No seu íntimo ele desejava que tudo se revertesse e que fosse mais simples, mais límpido, tão cristalino como aquele mar que escondia sonhos e violência, competição acesa e coisas más, felicidades e tranquilidade, cor e sombras dentro de grutas marinhas, criaturas inofensivas, animais competitivos, igual ao mundo onde ele lutava para se manter à tona.


- Ei, Starr. Tens um telegrama para ti!


A voz ligeiramente trocista de Peter Sellers despertou-o do seu torpor. Retirou a mão da água e rebolou sobre o seu lado direito. Ficou estendido no convés, de barriga para cima. A blusa tinha-se enrolado e exposto a pele do torso até ao pescoço e ele sentiu o beijo cálido e perigoso do sol. O calor era agradável. Se ele se demorasse naquela exposição, porém, acabava com uma queimadura. Uma lição, provavelmente… O prazer demorado levava ao sofrimento.


Foram demasiado felizes enquanto Beatles, por isso o que sofriam era multiplicado por um número impossível.


Entreabriu uma pálpebra, preguiçosamente. Sellers estendia-lhe uma folha amarela dobrada. Na mão esquerda tinha uma bebida colorida cheia de gelo, decorada com um daqueles chapeuzinhos minúsculos de papel.


- Recebe lá isto, não sejas teimoso…


- É uma intimação judicial?


- Não me parece. São os teus amigos.


Amigos, pensou em pânico. Ninguém sabia ainda. Julgavam ingenuamente que ele se tinha ausentado por ser normal naquela época, finais de agosto, inícios de setembro, que se tirassem férias no hemisfério norte. Era o pino do verão, era a altura perfeita para ir descansar a qualquer lado com a família. A imprensa não sabia o que estava a acontecer, nenhum jornalista percebeu que havia problemas com os Beatles. Também estariam de férias, com as suas mulheres tagarelas e os seus filhos ranhosos…


- Mesmo assim, pode ser uma intimação judicial – justificou-se ele, arrastando a voz.


Sellers agitou a folha com impaciência.


- Queres ou não? Se é um telegrama, devias lê-lo… Se não o quiseres, atiro-o ao mar.


E vai afundar-se, mole, a desfazer-se e a borrar a tinta da mensagem, até chegar ao jardim do polvo. E o que vai um polvo fazer com aquilo?, pensou no meio de uma alucinação quente.


Sentou-se de repente e arrancou a folha das mãos de Sellers. Pediu-lhe uma bebida igual à que ele estava a tomar, tinha sede. Este perguntou-lhe se tinha a certeza, era cedo ainda para beber uma coisa tão forte, Ringo enxotou-o com uma mão enérgica e repetiu o pedido. Era cedo para ele e não era cedo para Sellers? Ele pensava o quê, que lidava com um rapazinho da escola?


Podia pensar isso com toda a propriedade, alfinetou-se a si próprio. Estava amuado e a fazer uma birra. Mas Sellers não sabia, ninguém sabia como ele se estava a sentir. Ele e os outros três. Tristes, zangados, encurralados, desesperados, sozinhos.


O telegrama vinha assinado em conjunto por John, Paul e George. Dizia, laconicamente:


“És o melhor baterista do mundo. Volta para casa, nós gostamos muito de ti.”


E ele voltou.


Quando entrou no estúdio, havia flores por todo o lado, num festival de cor e de fragrâncias variadas. Pensou imediatamente na beleza dos jardins dos polvos debaixo do mar. Devia ser assim, um caleidoscópio de tonalidades infinitas a entrar pela retina, a invadir o cérebro e a deixar tudo bonito. Ele sorriu com a receção que tinham montado para ele. A sua bateria estava pejada de flores, muitas flores. Os arranjos florais pareciam infinitos, a preencher cada canto do estúdio, para onde quer que ele olhasse.


- Foi o George que teve a ideia – explicou Paul com o braço por cima dos ombros de Harrison.


- Ah, rapazes… – Admitiu ele, emocionado. – Isto é muito especial…


- Já leste o que diz a tua bateria? – exortou John, contente como um menino na manhã de Natal.


Ringo aproximou-se. Numa faixa pregada ao bombo principal lia-se “Welcome Back Ringo” e ele soltou um “Oh!” de reconhecimento e gratidão. Os três atiraram-se para cima dele e abraçaram-no e disseram-lhe várias vezes que ele era o melhor baterista de todos os tempos, que tinham sentido saudades, que ele era indispensável, que ele era extraordinário, maravilhoso, único, inimitável.


Já não havia biombo e a sala que tinham escolhido para gravar as canções para o novo álbum era mais pequena. Confortável e aconchegante, daquela maneira ficavam muito mais próximos. Os instrumentos e as cadeiras estavam dispostos de maneira que formassem um círculo e podiam olhar nos olhos uns dos outros.


Depois de limpar o banco, de corrigir a altura, Ringo agarrou nas baquetas que repousavam no suporte, impecavelmente arrumadas. Afastou delicadamente os arranjos florais, mas deixou ainda algumas grinaldas pois gostava da decoração da sua querida bateria. Era um símbolo de amizade e de reconciliação.


Perguntou:


- Perdi alguma coisa?


- Nada – respondeu John casualmente, passando a faixa da guitarra por cima da cabeça, ajustando-a a si.


Naquele dia, a artista japonesa não andava por perto.


Paul acrescentou:


- Férias são férias. Todos fizemos uma pausa.


- A sério?


- A sério – confirmou George a afinar a sua guitarra, meneando a cabeça.


- Como foi, em Itália? – quis saber Paul.


- Muito bom. Muito sol.


- Estás bronzeado – apontou John.


- Obrigado!


- Estás com ar saudável – acrescentou George.


- Não bebi quase nada e deitei-me sempre cedo.


Todos se riram com a piada.


Ringo perguntou a seguir:


- O que vamos gravar hoje?


- “While my guitar” – respondeu John, ensaiando uns acordes.


- Ah, a canção do Georgie!


- Sim, a canção do Georgie – concordou Paul, piscando o olho ao rapaz mais jovem. – Fazemos um ensaio prévio?


- Por mim, tudo bem – assentiu Ringo erguendo os braços.


George começou a tocar a sua guitarra que, gentilmente, se lamentava.


Todos precisaram daquele abanão, do choque, da transfiguração do sonho em pesadelo para perceberem que precisavam uns dos outros. A necessidade era volátil, claro, mas voltar a sentir-se bem consigo próprio era importante, naquela fase da sua vida e da vida dos Beatles, pensou Ringo mais aliviado por aquela pequena crise se ter resolvido.


Contudo, seria uma questão de tempo, apenas. As fissuras tinham sido abertas. A dura cobertura que os juntava naquela irmandade estava fragilizada e bastava outro terramoto, podia ser um sismo enorme ou pequenos abalos, não importava a intensidade, para que se afastassem mais uma vez, definitivamente, os espaços maiores do que a superfície sólida. O ar a engolir o sólido. Iriam todos de férias e não haveria um regresso com flores, sorrisos, esperança, uma sala mais pequena, a celebração de uma união que não seria eterna.


Porque o adeus existia. E porque o adeus iria acontecer.



[1] Agora é altura de dizer boa noite. Boa noite, dorme bem. Agora o sol desligou a sua luz. Boa noite, dorme bem. Sonha doces sonhos para mim. Sonha doces sonhos para ti.

[2] Gostaria de estar, no fundo do mar, no jardim de um polvo contigo…

7 Juillet 2018 17:02:40 0 Rapport Incorporer 2
La fin

A propos de l’auteur

Andre Tornado Gosto de escrever, gosto de ler e com uma boa história viajo por mil mundos.

Commentez quelque chose

Publier!
Il n'y a aucun commentaire pour le moment. Soyez le premier à donner votre avis!
~