No Céu do Outono Suivre l’histoire

zephirat Andre Tornado

No final de setembro de 1961 dois amigos partiram em viagem. A sua ideia era irem estrada afora desde Inglaterra até Espanha, mas quando chegaram a Paris resolveram estacionar nessa capital europeia e passar aí os restantes dias de férias. Paul McCartney recorda esses dias especiais na companhia do seu amigo John Lennon, enquanto contempla o derradeiro pôr-do-sol em terras francesas…


Fanfiction Groupes/Chanteurs Interdit aux moins de 18 ans. © The Beatles não me pertence. História escrita de fã para fã.

#Aniversário #paris #The-Beatles #John-Lennon #Paul-McCartney #1961 #Roadtrip
Histoire courte
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Capítulo Único


Havia qualquer coisa de romântico nos telhados parisienses.


A antiguidade latente das edificações, a ardósia escura que brilhava com a humidade do final do dia, as telhas sóbrias e vetustas a guardar segredos. Ele imaginava que aqueles telhados cobriam arte infinita e imortal. Qualquer tipo de arte. Dança, pintura, escrita, música. Principalmente a música, porque essa palpitava no seu peito como um segundo coração.


Tinha o cigarro pendurado entre os lábios, sentava-se no parapeito do terraço, os pés balançavam do lado de fora – mas não era muito alto ou perigoso. Havia outro terraço mais abaixo, ao alcance de um salto. O lugar não era muito bonito ou esplendoroso, como se imaginavam todos os recantos da cidade luz. As traseiras do pequeno hotel onde estava alojado eram um conjunto de pátios em diversos andares que compunham um emaranhado de plataformas. A coroar aquele conjunto arquitetónico desalinhado estavam os telhados. As chaminés. As antenas. Odores velhos, como humidade, madeira antiga, sopa requentada, cebola frita.


Semicerrou os olhos para filtrar melhor a luz moribunda do sol que se punha algures no horizonte, para além dos telhados. O seu último dia em Paris. Sentia uma certa nostalgia pedante. Não estava realmente a sentir-se triste por deixar aquele país estrangeiro, não ansiava demasiado por regressar a casa, embora quisesse muito regressar a casa, ver as suas coisas, sentir-se num lar que sempre reconhecera, mas a sua vaidade ditava-lhe que afirmasse que iria sentir falta de Paris.


Bem, ele iria sentir falta de Paris. Daquela pequena liberdade que conquistara ali. Das experiências que realizara, das escolhas que fizera, dos exageros que protagonizara. Ele era um artista e todos os artistas tinham de provar o lado selvagem da vida. De se exprimirem em ousadias e escândalos, ignorando os bons costumes, as regras, os valores. Ser completamente irreverente! Ser jovem!


Fora-o, ali. Tudo isso.


Música, álcool, tertúlias, poemas, sexo, delírios. Gritos que reverberaram sob os belos telhados de ardósia preta de Paris. Sons primordiais que se estenderam até ao infinito, que tocaram o limiar do espaço e ultrapassaram a lua. Que foram até às franjas do sistema solar e que continuaram pelo universo, carregando o que tinha sido inventado por ele.


Era aquilo e era agora.


Puxou uma passa, tragou o fumo, retirou o cigarro dos lábios e prendeu-o entre os dedos.


Sentia que o tempo tinha fugido e que ele tinha voado nas asas do tempo.


Era mais velho, a sua alma envelhecera anos, não apenas aqueles poucos dias que se tinham passado desde que saíra de Liverpool, à boleia pelas estradas com o amigo, na intenção de chegar a Espanha e estender-se, como um camarão a tostar ao sol, nas bonitas praias de areia amarela. Só que quando chegaram a Paris aconteceu uma espécie de apelo mais forte. Um chamamento daqueles que se ligavam ao destino. Ali deviam ficar, pois seria ali que iriam encontrar o que estavam à procura.


Riu-se. Abanou a cabeça com a lenda excêntrica que estava a fabricar e o chapéu de coco caiu-lhe sobre os olhos.


Não fora nada de tão dramático, concluiu ainda a sorrir. Nem de tão extraordinário. Dois rapazes que simplesmente resolveram não continuar a viajar porque a cidade se lhes apresentou acolhedora e desafiante o suficiente para que as férias tivessem alguma coisa para contar aos amigos que tinham ficado na Inglaterra natal. Paris prestava-se a todo o tipo de aventuras – e prestou-se mesmo, como ele comprovava naquele curto momento de reminiscência.


Puxou o chapéu de coco para trás, pois estava a esconder-lhe o pôr-do-sol parisiense. O acessório fora utilizado na viagem para França e iria ser usado no caminho de volta a casa. Fora sua ideia. Ele e George Harrison estavam acostumados a andar à boleia e sabiam que os automobilistas se mostravam mais disponíveis a transportar aqueles que lhes chamavam a atenção. Aqueles que tinham sentido de humor. Os chapéus de coco, tão usados em Londres pelos atinadinhos da classe alta, era um excelente toque de comédia e Paul conseguira convencer John a usá-los na estrada. Era só mesmo o chapéu, porque do pescoço para baixo continuavam a ser putos do rock – blusões de cabedal e calças de ganga que lhes moldavam as pernas magras.


O mote da viagem? O vigésimo primeiro aniversário de John Lennon. Um parente tinha-lhe dado, como presente, uma pequena fortuna, cem libras esterlinas, e John convidara-o para acompanhá-lo numa saída ao estrangeiro. Paul ficara admirado com o convite, porque na época era Stuart Sutcliffe que era o grande amigo do John, tinham estudado na mesma escola de arte e tudo. Depois aceitara feliz fazer essa viagem. Eles eram irmãos na música, o seu grupo estava a portar-se bem depois de terem feito umas temporadas em Hamburgo, na Alemanha, os dois compunham canções juntos e Paul achou que o gesto de John tinha sido perfeitamente natural. Dois amigos que se iriam divertir!


Em Liverpool, o grupo devia ter ficado a pensar que eles estavam a afastar-se.


Não era isso. Foi apenas uma viagem de dois companheiros.


Utilizaram a estrada, utilizaram o comboio. O objetivo era Espanha, apaixonaram-se por Paris e ficaram. Não era uma grande lenda, de facto… Nem constituía material para escrever uma peça de teatro.


Mas que se lixasse tudo, o que ele tinha vivido ali dava para escrever um romance!


- Ah, estás aqui!


Paul olhou por cima do ombro. John sentou-se ao seu lado.


- Ei, dá-me um cigarro.


Paul acendeu outro cigarro, puxou as primeiras passas e entregou-o a John que o fumou com prazer. De olhos fechados, o rosto ligeiramente voltado para aquele belo céu de outono alaranjado, salpicado de farrapos de nuvens. Também usava o seu chapéu de coco. Era engraçado como eles se entendiam tão bem, sem palavras. Era curioso como eles faziam coisas idênticas sem antes se terem combinado. Estavam em perfeita sintonia e naqueles dias em Paris comprovaram que entre eles existia um verdadeiro sentimento fraternal. Eram irmãos, irmãos verdadeiros.


Recordou-se do embaraço de John quando ele lhe ofereceu um hambúrguer, naquele dia em que completava essa famigerada idade dos vinte um. Fora o seu presente. Um hambúrguer. Ele não podia comprar grande coisa, pois eram as libras de John que pagavam todas as suas estravagâncias francesas. O dinheiro terminava e era altura de voltar a casa.


John não estava particularmente feliz por fazer vinte e um anos. Sentia-se velho, a decair, confessara mastigando o hambúrguer. Tinham-lhe dito que a pele começava a engelhar a partir dos vinte e um anos e admitira que seria completamente ridículo tocar rock ‘n roll sendo velho. Os velhos não tocavam música, nem tinham uma banda. Paul rira-se das preocupações dele. Passara-lhe o braço pelos ombros e dissera-lhe que, se era para ser assim, eles iriam envelhecer juntos e iriam tocar sempre música juntos, mesmo cheios de reumático, com dores ciáticas e a gaguejar as letras das canções porque já não tinham dentes na boca. Riram-se.


Paul dera-lhe um beijo na cara, desejara-lhe mais uma vez um feliz aniversário e John sorrira, olhando por cima dos óculos.


Agora sentavam-se nos telhados de Paris a admirar o céu.


- O que estás aqui a fazer?


- O que tu estás a fazer – respondeu Paul. – A fumar.


- Apeteceu-te ar puro? Aqui não encontras ar melhor do que aquele que existe ao nível da rua. E para mais, cheira mal!


- Aqui há sossego.


- Sossego… Não se vem para Paris para sossegar.


- Certo…


John soprou o fumo.


- Gostaste do que fizemos, Macca?


- Hum-hum. Bastante, Johnny.


- Fomos Experimentalistas em Paris! Muito ousado!


- Muito original… Já pensei em escrever um livro sobre o que se passou aqui…


- Não te atrevas! – ameaçou John, com os olhos arregalados. – Ninguém vai saber de nada do que se passou em Paris. Ouviste-me, Macca?


Paul encarou o amigo.


- Porquê? Tens medo de seres criticado por teres sido o que sempre quiseste ser? Foste tu que o confessaste. Livre das grilhetas inglesas, para as urtigas com as convenções e com o bom senso…


- Ei, mas agora vamos voltar à boa e velha Albion, onde as convenções e o bom senso vão continuar a valer… Não vais escrever esse livro em francês, pois não? Não te sabia versado no belo e romântico idioma da iluminada França.


- Não estou a perceber…


- Vá lá, Macca! Ninguém vai querer saber o que aconteceu aqui. Em nenhum lugar da Inglaterra. O teu livro não vai ser famoso e em Liverpool vai ser ignorado.


- Estás com medo…


- Não estou com medo. Sou realista! – Fumou o cigarro até ao fim em passas prolongadas e atirou a beata para o terraço mais abaixo.


Paul não queria vê-lo tão desconfortável. Deu-lhe uma cotovelada e disse-lhe:


- Descansa, Johnny, só estava a meter-me contigo… Serão os nossos segredos.


John semicerrou os olhos. Para que as suas palavras fossem entendidas como genuínas, Paul passou-lhe o braço pelos ombros, como tinha feito naquele café onde lhe oferecera o hambúrguer, sacudiu-o gentilmente.


- Ei, amigo. Somos parceiros nesta viagem e ninguém vai trair ninguém.


Num gesto de vulnerabilidade, porque ele conseguia ser extremamente carente, John encostou a cabeça à de Paul.


- Yeah… Especialmente aquela vez, aqui no hotel, com aquelas duas miúdas…


Só de se lembrar, Paul corava de vergonha e experimentava as mesmas sensações que o tinham levado ao êxtase nessa noite que parecera ter durado uma eternidade. Fora desde o pôr-do-sol, um ocaso muito semelhante ao que contemplava agora, até ao nascer do novo dia. A suave pressão das carícias pulsava-lhe latente na pele. O gosto dos perfumes e o encanto de John solto, nessa fantasia.


- Tens fotos disso, Macca?


- Temos muitas fotos de Paris, mas disso… Não! Acho que essas ficaram estragadas! – exclamou Paul atrapalhado.


Riram-se um para o outro. John tinha-se desencostado.


- Estás a corar, Macca.


- Tu também, Johnny…


- Tu tiraste fotos? Agora, a sério… conta-me lá…


- Claro que não – respondeu Paul terminando o seu cigarro e fazendo pontaria para que caísse junto à beata de John que era um ponto incandescente mais abaixo, no lajedo encardido do terraço. – Tinhas as mãos ocupadas com outras coisas… mais urgentes.


- Mais urgentes… Oh, sim! Podíamos escrever uma canção sobre isso.


- Nem imagino como seria a letra!


- Algo assim inocente, mas só nós dois saberíamos o que estaria por detrás. O acontecimento sórdido e proibido que deu origem a uma canção que as meninas decentes de Liverpool cantarão com corações apaixonados. Estás a imaginar?


- Eu não posso escrever o livro, mas tu podes escrever uma canção.


John fez uma careta.


- No livro terias de ser completamente honesto e explícito. Numa canção podes cantar ao amor e ninguém sabe que é sobre sexo…


- No livro, podia contar uma história inventada, passada no país das fadas, com personagens imaginados e animais mitológicos… Ninguém saberia também!


- Eu não seria o unicórnio!


- Ah, tu és impossível! Sim, vamos pensar numa canção qualquer para representar essa noite. O livro fica para quando tivermos mais de cem anos e escrevermos as nossas memórias.


- Amor, amor, amor – cantarolou John para o céu.


- Só queria dar uma boa queca…


- Foi mesmo uma boa queca!


Paul abanou a cabeça, rindo-se. John olhava para os telhados e sorria com os olhos contraídos. Usava os seus óculos para corrigir a miopia, de armação grossa, mas tinha aquele tique sempre que tentava focar o que ficava longe, a uma grande distância. Admitiu, numa voz despojada:


- Tens razão, Macca, aqui em cima é bonito e tranquilo. Está um pouco frio, não achas? – Esfregou os braços.


- Queres voltar para o quarto de hotel? Lá estará mais quente…


- Não me importo, quero ficar aqui… Até o sol ir-se embora.


- Combinado. Estou também a ver o sol.


- Daqui não se vê sol nenhum – contrariou John, esticando o pescoço como se procurasse pelo astro entre os obstáculos arquitetónicos.


- Mas a luz… Vemos a luz.


- Certo. A luz… Paris…


- Cidade luz – completou Paul.


John tirou o chapéu e passou uma mão pelo cabelo, orgulhosamente.


- Este penteado vai ser incompreendido em Liverpool.


Paul espreitou-o. Evitava o sorriso, mas os seus olhos estavam brilhantes de divertimento. Num daqueles dias tinham encontrado um amigo que haviam conhecido em Hamburgo, chamado Jürgen Vollmer que fora para Paris para estudar fotografia e que queria ser fotógrafo profissional. Tinha jeito. Fotografara-os em Montmartre, junto aos artistas que pintavam na rua. John tinha inventado poses provocatórias como se fosse um modelo que iria ser imortalizado numa tela. Paul gargalhara, divertido. Depois da sessão fotográfica improvisada, aceitaram o convite de Vollmer para irem jantar à sua casa. Era, na verdade, um quarto de hotel simplório na margem esquerda do Sena.


O rapaz alemão, que falava inglês com um sotaque carregado, que motivava piadas ácidas por parte de John relacionadas com a segunda guerra mundial, usava um cabelo diferente. Em vez de uma poupa esculpida em brilhantina que se erguia como um montículo capilar que oscilava com os trejeitos de cabeça de qualquer rapaz do rock que se prezasse, usava uma franja caída sobre a testa, penteada num risco ao lado até à orelha oposta. Depois de algumas cervejas, John pedira a Vollmer que lhe cortasse o cabelo assim. Paul admirou-se.


Vollmer sentou John num banquinho e fez-lhe o penteado. Paul riu-se, dizendo que estava ridículo, que parecia um daqueles mods que gostavam de ler Jean-Paul Sartre e de beber conhaque, em discussões acesas sobre o verdadeiro sentido da vida em salas fumarentas. Em resposta, John puxou Paul para o banquinho e disse a Vollmer que fizesse o mesmo. Paul protestou, mas depois aceitou a loucura. Era Paris, certo?


Quando, no dia seguinte, foram a um dos bares que eles frequentavam na Avenue des Anglais, as mulheres reparavam mais neles. John e Paul piscaram o olho. Tinham acertado. Foi então que conheceram as duas miúdas que os levaram a conhecer os mais altos reinos da imaginação, que os fizeram deleitar-se com os mistérios do amor.


Agora que estavam quase de regresso a Liverpool, contudo, começavam a ter dúvidas se no norte de Inglaterra seriam tão recetivos àquela moda capilar.


- Diremos que é um cabelo à Beatle – propôs Paul, distraído.


- Vamos dizer o quê?


- Hum?


- Estavas a falar que este cabelo… será o novo cabelo à Beatle?


Paul inclinou a cabeça. Fez um sorriso torto. Percebeu as implicações daquela afirmação. Porque os Beatles não eram só eles, eram também os outros três membros do grupo musical que John fundara. Insistiu, compreendendo o arrojo da proposta:


- Sim, porque não? Nós temos de ter alguma marca que nos distinga das outras bandas de Liverpool… Criar uma moda. Franja na testa, será o nosso cabelo.


- Do grupo? Vamos ter de convencer os outros a cortarem as suas lindas cristas de galo.


- O George vai alinhar. Ele confia em mim, no que eu lhe digo para fazer.


- Continua com aquele complexo de inferioridade por causa da idade? Faz tudo para pertencer ao grupo.


- Mais ou menos. O George também é atrevido, acaso não te tenhas apercebido. E vai gostar de mudar o cabelo, só para irritar alguém ou alguma coisa. Ele é um verdadeiro rebelde, já te disse! Tu convences o Stuart, ele é o teu grande amigo…


John franziu a boca.


- Depois de te ter convidado para vires comigo fazer esta viagem e não a ele, acho que vai ficar amuado durante uns tempos.


- Eh… Vocês são os melhores amigos do mundo. O amuo passa-lhe depressa.


- Não conheces o Stu…


- Compraste-lhe uma gravura em Montmartre.


- Comprei. Ei, estás a insinuar que use o meu presente para comprar a boa vontade do Stu?


Paul encolheu os ombros.


- Vai continuar a ser difícil – avisou John, mas sem muita convicção.


Paul sabia que ele já não se importava se o Stu amuava muito ou pouco. Havia algo que tinha mudado entre os dois antigos estudantes do Liverpool College of Art. Antes eram tão cúmplices, agora estavam diferentes, afastados, diferenças construídas entre eles que funcionavam como muros. A vida a seguir o seu curso. Hoje gostava-se de amarelo, amanhã de azul. Paul pensou, por um fugaz instante, se o mesmo iria acontecer entre ele e John. Achou que não. Entre eles existia a música e esse laço conseguia ser mais duradouro… Seria?


- Pois, está bem. Dou a gravura ao Stu e faço-lhe a conversa do cabelo – continuou John, indiferente. – E quanto ao Pete? Esse não se vai deixar convencer.


- Como o Pete é o mais difícil de nós os cinco, falaremos os dois, ao mesmo tempo com ele. Faremos um coro e ele verá como estamos empenhados.


- Um coro cantado?


- Não, John! – riu-se Paul.


- A cantar podia ser mais persuasivo. Eu invento um solo de guitarra.


- Para o Pete?


- Tens razão, é só o baterista. – John deu uma cotovelada em Paul. – Será divertido convencer o Pete a desistir do seu look à Elvis Presley, mesmo sendo apenas o baterista, que fica lá atrás, na sombra…


- Não acredito que vamos conseguir – avisou Paul tentando soar sério e empenhado. Na verdade, pouco se importava com as decisões de Pete Best, nunca simpatizara muito com ele. – Ele é muito apegado à sua crista.


John riu-se alto. Voltou a esfregar os braços.


- Estás com frio. Voltamos para o quarto. Anda!


- Não, espera. Ainda há luz – contrapôs John apontando para o horizonte alaranjado.


Era uma despedida. Seria a última vez que veriam um dia em Paris. No dia seguinte iriam sair de madrugada, antes de o sol romper, estaria ainda de noite. Se voltariam à capital francesa, naquele ponto não sabiam… Teriam de ganhar dinheiro para regressar. Era uma cidade cara e tudo o que faziam com a música era para os gastos pessoais. Já eram emancipados financeiramente. Mais ou menos, porque o que ganhavam era uma miséria, vistas bem as coisas. Gostavam de acreditar que só iriam melhorar a partir dali. Tinham de escrever mais canções, de vender discos. Depois regressariam a Paris. Os planos que tinham eram mais a curto prazo. Tocar no Cavern, voltar a Hamburgo, conhecer um produtor musical… Pensar que dali a dois, três ou cinco anos voltariam a Paris, para repetir a experiência existencialista, era demasiado rebuscado naquele pôr-do-sol que pintava de cores poéticas o céu do outono.


- Queres descansar por esta noite? – sugeriu Paul. – Por mim, não me importava de ficar no quarto, a ler um dos livros que comprámos naquele alfarrabista… Amanhã bem cedo temos um comboio para apanhar…


- Não, vamos sair para comer qualquer coisa. Ficamos por perto, naquele bar… sabes? Que tem aquela moça a servir.


- A loira sardenta?


- Sim, essa moça.


- Tu e as loiras…


- Como não encontrei a Bardot… Pode ser um copo de vinho tinto, uma daquelas tostas com queijo derretido por cima. Algo simples.


- Ainda tens dinheiro para isso tudo?


- Tenho alguns francos, sim. Acho que vão dar para a nossa última refeição antes da forca… meu amigo – disse com dramatismo, agarrando no ombro de Paul.


- A tosta… Um croque monsieur?


Ao dizer aquelas palavras procurando manter um sotaque francês no meio do seu inglês tipicamente nortenho, os lábios de Paul movimentaram-se de uma forma engraçada e John brincou:


- Ficas tão sensual a falar francês… Se eu fosse mulher, dava-te já um beijo nessa boca!


- Eh, Lennon! – exclamou Paul levantando os braços. – Não abuses!


John soltou uma gargalhada. Atirou-se a Paul num abraço que o abanou todo.


Caiu um silêncio quase reverencial à medida que o céu escurecia por cima das suas cabeças. Os dois dobraram o pescoço para verificar o acendimento das primeiras estrelas. O cheiro de comida intensificou-se. Preparava-se a ceia. Paul começou a murmurar uma cantiga. John empurrou-o e fingiu-se zangado:


- Estás a cantar essa bosta que costumas cantar quando os amplificadores vão abaixo no Cavern?


A sobrancelha de Paul desenhou um arco.


- O quê? Essa canção ainda vai ser cantada pelo Frank Sinatra!


- Claro que sim! – zombou John. – Estou mesmo a ver a porra do Sinatra a cantar uma canção escrita pelo Paul McCartney de Liverpool!


- É uma canção bonita…


O Cavern era essencialmente um clube de jazz, mas lá consentiram em receber os Beatles que tocavam rock ‘n roll pois estes atraíam muita clientela, especialmente jovens mulheres. Havia também rapazes que apreciavam o som que vinha da América, nos discos trazidos pelos navios que atracavam no sempre movimentado porto de Liverpool e o saldo para o Cavern começava a ser mais positivo se apostasse no rock. Por causa do jazz, no palco existia um piano. Durante os intervalos das suas atuações, quando precisavam de parar um pouco porque deixavam de ter amplificadores que tinham sobreaquecido devido ao esforço que lhes impunham, o rock implicava uma gritaria ininterrupta e agreste das guitarras elétricas, Paul sentava-se ao piano e cantava aquela música que tinha composto quando tinha quinze anos. Escrevera-a primeiro para o pai e costumava sonhar alto, dizendo que iria oferecê-la ao Frank Sinatra. John e George tinham contribuído com alguns versos e acabavam os três a cantarolar aquela toada lamechas, aquela cantilena de music hall. Na realidade, a canção não existia. Era uma série de acordes e alguns versos dispersos.


Paul cantou alto, para provocar o amigo:


- “When I get older, losing my hair… Many years from now. Will you still be sending me a Valentine, Birthday greetings, bottle of whine?[1]


- Porque estás a cantar isso? – resmungou John. – Hoje faço vinte e um anos e já estou suficientemente em baixo por causa disso…


- Vá lá, John! Não vais simplesmente desfazer-te depois dos vinte e um.


- É sempre a descer, daqui para a frente, amigo… Vais murchar e ficar velho! Vinte e um anos é a barreira final. Até agora foi tudo bom, a partir daqui será mau.


- Dramático!


- Assim é a vida… Pasto para os vermes, somos nós. – debruçou-se e cantou um verso que era de sua autoria, que funcionava como uma réplica: – “You’ll be older too![2]


Paul despenteou-lhe o cabelo.


- “Will you still need me, will you still feed me… When I’m sixty-four?[3]


John enfiou o chapéu de coco na cabeça, tornou a resmungar:


- Nem penses! Não te vou aturar quando fores velho.


- Nem eu, meu querido amigo. Nem eu.


- Já me estás a aturar! Sou um velho… de vinte e um anos!


- E insistes.


- A minha pele vai começar a enrugar-se, vou perder a visão…


- Parece que já não vês muito bem, Johnny!


- Vou ganhar manchas, reumatismo. Vou ficar mais rezingão.


- Ai, ai… Vais ficar insuportável… Se já o és agora, imagina com… vinte e dois anos!


- Porra, não estás a levar-me a sério, Macca!


- Pois não…


- Vai para o Inferno!


- Impossível, Johnny. – Abraçou-o pelos ombros, puxou-o para si, mas John estava mais reticente. – Estamos no melhor sítio do mundo.


- Paris? – estranhou.


Paul, com o outro braço, fez um gesto largo. Havia os bonitos telhados negros que se tornavam cada vez mais escuros com o cair da noite.


- Aqui e contigo. Muito obrigado, amigo. Adorei a viagem.


John deu-lhe um beijo na face. Paul riu-se ao sentir a barba a arranhá-lo.


- Que ninguém saiba que andamos aos beijos…


- Podes crer! – concordou John.


Levantou-se, estendeu uma mão que Paul aceitou para se pôr de pé. Ajeitou o chapéu na sua cabeça, John fez o mesmo com o dele.


- Meus senhores, vamos…?


- Perfeitamente. Vamos ao nosso repasto.


Desceram abraçados as escadarias metálicas ferrugentas que levavam ao último patamar do edifício. Fecharam cuidadosamente a porta de madeira pintada, que tinha tinta verde a descascar. Paul esfregou os dedos para retirar as lascas da pele, John observou que aquilo era uma espelunca, mas que tinha sido uma excelente espelunca. Venceram mais lances de escadas, chegaram à rua. Sempre teatral, John Lennon rodopiou e gritou alto “J’aime Paris![4]”, acrescentando elogios às mulheres francesas tão fáceis e fúteis, lamentando profundamente não ter encontrado a Brigitte Bardot.


Paul parou por uns segundos. Enfiou as mãos nos bolsos do casaco, ergueu os olhos para o céu.


Para o céu do outono. Haveria de ter estrelas, mas com as luzes dos candeeiros de rua a acenderem-se, o contraste não o deixava vê-las.


- Vamos, Macca! Estás a ficar para trás…


- E tu estás a andar demasiado depressa.


- Tem de ser, estou a ficar velho! Não posso perder tempo ou serei apanhado pelo Pai do Tempo!


Paul correu para acompanhar o amigo.


Não era preciso um grande esforço, pensou. Não precisava de correr muito para chegar onde John estava, em qualquer etapa, fosse num passeio, na música, nos desafios ou na vida. Eles eram a companhia perfeita um para o outro. Eles eram irmãos. John Lennon e Paul McCartney.


E Paris seria sempre Paris.



[1] Quando ficar mais velho e perder o cabelo… Daqui a muitos anos. Ainda me vais dar um cartão dos namorados, dar-me os parabéns, oferecer-me uma garrafa de vinho?

[2] Vais ser mais velho também!

[3] Vais precisar de mim, vais alimentar-me… Quando tiver sessenta e quatro anos?

[4] Amo Paris!

18 Juin 2018 17:24:21 0 Rapport Incorporer 2
La fin

A propos de l’auteur

Andre Tornado Gosto de escrever, gosto de ler e com uma boa história viajo por mil mundos.

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