Confissões, Caprichos e Lembranças Suivre l’histoire

zephirat Andre Tornado

Num momento de autoavaliação, a velha bruxa Uranai revela-nos a sua alma, os seus anseios e as pequenas vitórias, um retrato pessoal de um mundo incomum, povoado de personagens ainda menos comuns. O mundo de Dragon Ball…


Fanfiction Anime/Manga Interdit aux moins de 18 ans. © Dragon Ball não me pertence. História escrita de fã para fã.

#Feiticeira #Bruxa #Bola-de-cristal #Zeni #Dinheiro #Memórias #saiyajin #Uranai-Baba #dragon-ball
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Capítulo Único


Se há coisa de que gosto, acima de todas as outras coisas, nesta vida e na noutra, em qualquer dimensão espacial ou temporal, ou mesmo sem qualquer dimensão, no vácuo do Universo, é dinheiro.


Sim. Dinheiro!


Moedas reluzentes em pilhas desordenadas. Notas estaladiças em maços grossos. Dinheiro. Aquilo que faz mover o mundo e que me faz mover a mim… E escondo um risinho agudo, semicerrando as pálpebras.


Muito dinheiro.


E não se espantem. Sou uma moça de gostos caros, tenho os meus caprichos e as minhas vaidades. Tenho os meus gostos requintados que preciso satisfazer e tudo isso custa dinheiro. Não é por acaso que tenho este cabelo sedoso sempre bem penteado e aparado por cima dos ombros, com essa cor luminosa rosada e perfeita. Apesar da minha idade, orgulho-me de ter um cabelo bonito. E isso, meus caros, custa dinheiro!


Oh, já estou a gritar, áspera e ansiosa, mas é apenas o meu feitio. Rogo-vos que me perdoem se, durante este meu monólogo, como um desabafo que vejo necessário nesta ocasião, eu me exaltar um pouco, mas tenho o sangue quente e creio que já me apontaram o defeito da impaciência, entre outros que, sinceramente, não irei elencar aqui.


Ganho o meu dinheiro honestamente, acrescento. Não pensem que alimento os meus vícios e os meus desejos à conta de trafulhas ou de negócios obscuros. Não. Vendo o meu dom que é grande e de renome, ao contrário do meu irmão mais novo que oferece os seus ensinamentos a troco de nada, francamente, que desperdício, poderia ser um homem riquíssimo mas contenta-se em viver naquela ilhota, numa casinha diminuta que está sempre pejada de gente, hóspedes a mais para os quartos que tem, generosidade a esbanjar por todo o lado. Como pode o meu irmão ensinar as artes marciais milenares e cobrar por isso apenas um encontro fugaz com uma menina bonita que lhe deixe tocar nos seios? Como pode o meu irmão não se aperceber que está a esbanjar talento e a delapidar uma futura herança da família? Eu não sou assim. Não!... Eu vendo e com um preço proibitivo o que sei fazer de melhor e só assim ganho o meu dinheiro. Tudo honestamente!


Dez milhões de zeni é quanto têm de pagar para usar os meus dotes de vidente.


E é assim que sou conhecida, como a vidente Uranai. Claro que há os maldosos que acrescentam Baba – velha decrépita – mas eu ignoro-os, pois sei que têm inveja, a mais pura inveja, das minhas habilidades com a bola de cristal, cobiçando para cúmulo todo o meu dinheiro.


Continuem a invejar-me e eu continuo a zombar de vocês!


Respiro fundo.


Lá estou eu a divagar naquele meu azedume típico.


Como cobro uma imensidão de zeni pelos meus serviços de clarividência, a minha clientela é selecionada. Gente da classe alta, políticos corruptos, até reis e imperadores de terras abençoadas com a abundância. Por vezes aparece-me aos portões da minha mansão um séquito real composto por uma caravana infindável de carretas carregando arcas e baús a transbordar de pepitas de ouro, de lingotes de prata, de pedras preciosas coloridas, de pérolas gigantes, de diamantes cintilantes, mas eu mando-os parar e aviso com um certo tom pedante (que eu sou uma moça de nariz muito empinado e muito segura de si):


- Dinheiro, meus senhores. Eu consulto a minha bola de cristal a troco de dinheiro, somente. Dez milhões de zeni.


Sou esquisita, pronto. Só quero dinheiro. Nada de ouro, prata, safiras, rubis, diamantes, esmeraldas. Dinheiro! Zeni, que é a moeda que utilizamos todos para comprar uma garrafa de leite ou mesmo uma dessas pérolas gigantes. Não posso ir ao salão de beleza e pagar o arranjo do cabelo com um rubi! A cabeleireira ficava a olhar para a pedra vermelha, a fazer contas de cabeça, a pensar quanto valeria aquilo, se era suficiente ou se era muito mais do que o preço que levava para me tratar do cabelo, se podia transformar aquilo em zeni para poder comprar a garrafa de leite, que o leiteiro também haveria de fazer a mesma cara pasmada e desconfiada.


Não, meus senhores. Levem de volta as vossas arcas e baús e tragam-me dinheiro. Moedas e notas, se faz favor e serei boazinha, farei o que me pedem, arrancarei da minha bola de cristal os mistérios que vos fizeram percorrer tantas milhas em busca de algo que perderam e que tanto desejam encontrar.


É o que me pedem normalmente. Descobrir objetos perdidos, coisas preciosas que foram deixadas algures e que se deixaram de encontrar. Já tive uma senhora rica que me pediu que encontrasse o seu coração, que um homem tinha levado consigo. Ela pagou-me os dez milhões de zeni e eu encontrei-lhe o coração, que estava com o homem, dentro de uma banheira de espuma, com duas beldades, uma pendurada em cada braço, o trio dentro de água a desfrutar do jacuzzi e do champanhe. Levei com a mala requintada de pele de crocodilo da senhora rica na cabeça, amachucou-me o meu querido chapéu pontiagudo, saiu da minha mansão irritada e com desejos de vingança, mas encontrei o que ela me pedia. Muito eficientemente, que eu sou uma profissional no meu ramo.


Não há muitas como eu. Aliás, não há nenhuma como eu.


Essas que andam por aí e que se dizem videntes são umas impostoras, que utilizam bolas de vidro a fingir cristal, que cobram preços irrisórios para relatarem meia dúzia de mentiras e denegrir o meu bom nome, que sou uma verdadeira vidente.


Devia enfeitiçá-las a todas, para que lhes crescesse rabos de rato, orelhas de burro e rabos de porco!!


Mas eu não sei dessas coisas de feitiços… Tenho outras qualidades… Possuo outros poderes, bem mais úteis.


Respiro fundo outra vez.


Recebo toda a gente na minha mansão, toda a gente. Nem sempre quem me bate à porta tem os dez milhões de zeni, nem toda a gente que procura alguma coisa perdida tem o dinheiro suficiente para me pagar. Mas eu não me recuso ao serviço. Tenho métodos alternativos para esses infelizes desesperados, que querem consultar a minha bola de cristal.


Se não tiverem o dinheiro, eu abro-lhes os portões da minha mansão e encaminho-os para a minha arena particular, onde faço um convite para combaterem com os meus cinco guerreiros excecionais, tão extraordinários que se consideram de outro mundo.


Rio-me deliciada! Sou mesmo perversa.


Os meus guerreiros são do outro mundo, sem tirar, nem pôr. São guerreiros fantásticos, que arranjei nas franjas da realidade, que resgatei do submundo dos terrores e do fantástico. Quatro deles são fixos, o quinto varia dependendo do adversário. O vampiro, o homem invisível, a múmia e o diabo são os quatro fixos. O quinto aparece no caso de estes serem derrotados, coisa inédita, pois só o homem invisível é impossível de vencer – como se derrota alguém que não se vê? O quinto lutador seria sempre alguém relacionado com o passado do adversário, alguém que já tivesse morrido e que eu iria buscar ao Outro Mundo para entrar naquela minha brincadeira. Se os quatro lutadores falhassem, o quinto lutador, a visão tenebrosa de alguém já morto regressado ao convívio dos vivos, serviria para aterrorizar e derrotar o pobretana sem dinheiro, que fugiria alarmado e ao qual não lhe prestaria o serviço.


Ah, também tenho a capacidade de visitar o Outro Mundo, onde repousam as almas após a morte, materializadas ou não, mas já falarei disso mais adiante.


Voltando à minha arena, tudo feito e pensado para que eu lucrasse sempre. Pois eu adoro e como tenho afirmado, dinheiro.


O esquema era perfeito. Não havia ninguém capaz de quebrar o jogo desenhado por mim. Quatro lutadores invencíveis, um quinto lutador que culminaria a surpresa.


Até que surgiram… os saiyajin.


Os ombros descaem, afundo o queixo no peito, sinto um peso brutal sobre a nuca.


Os saiyajin. Ou melhor, aquela criança saiyajin chamada Son Goku.


Bem, na altura não sabia que era saiyajin, só o soube mais tarde, que a minha bola de cristal encontra objetos perdidos e vê o futuro imediato, não se põe a adivinhar o desconhecido, nem a vislumbrar os séculos vindouros. Mas depois de o saber, tudo ficou muito bem explicado e rememorei esses dias, compreendendo melhor o que tinha acontecido.


Um dia, a criança apareceu-me na minha mansão com um pedido. Precisava encontrar uma bola de dragão que o radar que utilizava não conseguia detetar e era muito importante ter essa sétima bola de dragão, era a que faltava para invocar Shenron e ressuscitar o pai de um amigo. Indiferente ao seu entusiasmo, pedi-lhe os dez milhões de zeni. Ele não se deixou afetar lá muito com a exigência daquela quantidade absurda de dinheiro, mas os companheiros que o seguiam, mais avisados em relação às coisas mundanas, como o real valor do dinheiro e tudo o que ele pode comprar, sim. Escandalizaram-se, protestaram e avançou a segunda hipótese.


Se quisessem consultar-me, que desafiassem os meus lutadores.


Aquela criança inocente era um saiyajin e passou os desafios mais importantes, pois ele até nem lutou com todos os meus guerreiros, os companheiros avançaram antes dele, apoiando-o, mas estou convencida que Son Goku conseguiria enfrentar o vampiro e o homem invisível com grande facilidade.


Volto a respirar fundo.


Nem o quinto lutador foi suficiente para o travar e depois de o ter derrotado, concedeu-lhe a vitória pois era o avô do miúdo, o velho Son Gohan, e o reencontro foi muito emocionado, a luta que tiveram serviu como mais uma lição para Son Goku.


Então, eu mostrei-lhes o paradeiro da sétima e última bola do dragão, ele lá conseguiu reuni-las a todas e pediu o seu desejo, o pai do seu amigo foi ressuscitado e a história teve um final feliz.


Desenho um sorriso meloso.


O Destino tem destas coisas.


Fiquei irritada com a presença daquele fedelho na minha mansão, a humilhar um por um os meus grandes guerreiros, a obrigar-me a fazer algo que nunca tinha feito, que eu abominava: fazer o serviço de adivinhação, consultar a minha bola de cristal e sem receber um único zeni por isso. Ia contra todos os meus princípios!


Fiquei irritada com aquele pequeno saiyajin!


Mas, depois, apeguei-me a ele. Son Goku teve a coragem suficiente para se enfrentar ao demónio Piccolo Daimaoh, de quem eu tinha um medo terrível, pois causava-me arrepios e quando fico nesse lamentável estado nervoso, os cabelos eriçam-me todos e destruo o magnífico trabalho artístico capilar da minha cabeleireira.


Apeguei-me de tal modo a Son Goku que ajudei-o na tarefa monumental de descobrir o abanico mágico e toda a aventura que se seguiu e que permitiu que se extinguisse o terrível incêndio que ameaçava a montanha Fri-Pan e que ameaçava Gyumao, o pai da noiva de Son Goku, Chichi.


Apeguei-me de tal modo a esse saiyajin que já tinha crescido e se tornado num bonito jovem de dezoito anos que estive no seu casamento com Chichi e consultei o seu futuro, enlevada na alegria da ocasião, derretida com a felicidade daquele casal tão amoroso, observando a minha bola de cristal.


Tão enlevada que não cobrei os dez milhões de zeni!


Mas também não lhes disse muito mais a não ser os chavões de ocasião, que iriam ser muito felizes, que iriam ter uma casa bem arranjada, que iriam ter um filho saudável e forte, que seriam uma família bonita e blá blá blá.


Para além dessa visão de puro idílio, não vi nada mais. E ainda bem. Porque a seguir ao concretizar desse futuro, nuvens negras acumularam-se no horizonte de Son Goku e dos seus companheiros. Mais saiyajin, que tingiam de vermelho sangue os dias do amanhã da Terra e do próprio Universo, numa sucessão de eventos que só terminaria com o monstro biónico Cell e que haveriam de passar pelo terrível imperador do Universo, Freeza. Majin Bu veio depois e encaixa-se noutro tipo de percalço, num acidente à espera de acontecer, mais cedo ou mais tarde.


Ou, como podem perceber, tudo mudou na minha vida e na vida de todos com a chegada dos saiyajin.


Nos momentos de paz, eu retomava a minha atividade de vidente. Continuava a precisar de dinheiro, continuava a ser uma moça de gostos caros. E continuava, portanto, a cobrar os dez milhões de zeni por cada serviço.


Era algo que gostava de fazer. Recebia a quantia absurda de dinheiro e entoava com uma voz ondulante o que via na bola de cristal, movendo as mãos sobre a superfície arredondada e transparente, em carícias circulares, como se isso a fizesse funcionar. A bola de cristal funcionaria sempre, bastava eu olhar para ela, mas sempre se apreciou gestos dramáticos e um toque de expetativa quando se lida com uma bruxa afamada, não é assim?


Também teria de acautelar, porém, a possibilidade de me aparecer aos portões um daqueles desesperados e determinados, de bolsos vazios, que me exigiria respostas e em troco destas um combate contra os meus guerreiros. O vampiro, o homem invisível, a múmia e o diabo tinham recuperado relativamente bem da surra que apanharam de Son Goku e dos amigos. Ficaram com a autoestima arrasada, perderam toda a confiança, o homem invisível fungava e chorava pelos cantos, a múmia calava-se no seu sarcófago, o diabo entrara em depressão e o vampiro enjoara o sangue, deixando-o ainda mais pálido, mas ao fim de alguns meses arrebitaram e perderam o medo de entrar na arena. Ameacei-os com a extinção, pura e simples, um rebentamento bem colocado e convertiam-se em cinza que eu não estava para aturar criaturas débeis e malucas, e concordaram em continuar a servir-me desde que os avisasse antes se o adversário era semelhante àquela criança irrequieta e mais a trupe de amigos afoitos. Eu prometi-lhes que sim, cansada de os ver tão em baixo, para lhes dizer qualquer coisa, mas na verdade não sabia como distinguir uma coisa dessas. Lutadores fortes, mais poderosos do que Son Goku. A minha bola de cristal só encontrava objetos perdidos, mais nada, não analisava poderes de luta.


Bem, mesmo com as quatro criaturas de novo em ação, tinha falta de um quinto lutador e arrisquei mudar de estratégia. Fiz uma visita ao Outro Mundo.


Já tinha mencionado isso, mas explico melhor e aqui incho de orgulho, porque gosto muito de fazer o que mais ninguém é capaz de fazer.


Por artes mágicas e devido à minha extraordinária habilidade com o oculto, sou capaz de atravessar a fronteira invisível entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos e, num belo dia de trovoada, céu cinzento e chuva intensa, resolvi fazer uma visita ao lugar onde as almas chegam após abandonar o corpo, o mesmo será dizer depois de morrer, com o firme propósito de escolher o meu quinto lutador.


Também posso fazer isso, trazer alguém comigo do Além, mas apenas por vinte e quatro horas, um dia inteiro. É uma benesse que não concedo a qualquer um. Comecei por fazê-lo aos que escolhia para quinto lutador. Depois, por necessidades várias relacionadas com a sobrevivência da Terra, da civilização, do Universo e dessas tretas todas, também como recompensa, passou a ser-me imposto trazer alguém que morrera para passar um dia entre os vivos. Son Goku, o príncipe Vegeta…


Por demasiadas vezes impõem-me coisas, o que me deixa furiosa.


E isto é só o meu mau feitio a falar.


Estava eu a relatar que ao decidir mudar de estratégia e ter a trabalhar para mim um quinto lutador diferente, visitei o Outro Mundo. Cumprimentei os guardiões, os empregados que conferem as almas e indicam o Paraíso ou o Inferno, falei amavelmente com Enma Daioh que é quem preside ao julgamento das almas e que precisa de ser apaparicado, pois tem um temperamento explosivo – mas qual o ogre que não o tem? – e eu até sou boa em apaparicar gente difícil. Tenho os meus encantos escondidos, quando quero a minha voz até soa amável e com um certo tom de sensualidade. Disse-lhe que estava ali para ir buscar o meu quinto lutador. Ele riu-se e perguntou-me:


- O que andas a tramar desta vez, Uranai?


Eu desfiz-me num sorriso delambido.


- Oh, Enma, tenho uma ideia fantástica. Venho buscar um saiyajin.


E não é que o ogre se espantou, arqueando aquelas sobrancelhas hirsutas por cima dos aros escuros dos seus óculos?


- Um saiyajin?


- Sei que tens alguns no Inferno.


- Tenho bastantes. O planeta deles explodiu, como muito bem sabes. A maioria deles está concentrada num lugar muito distante do Inferno, pois o planeta, embora se situando na galáxia do Norte, ainda ficava longe da Terra e entraram por outra porta. Mas desde que resolveram aparecer na Terra, à procura daquele rapazinho, que me têm batido à minha porta também.


- Falas de Raditz e de Nappa.


- Hum, sabes os nomes deles. Qual deles queres?


Dei uma risada satisfeita, encantada com a minha perspicácia, cega de vaidade por ser uma bruxa tão inteligente, com ideias tão vanguardistas.


- Oh, um qualquer!


O grande Enma fixou-me com um olhar desconfiado, torcendo a boca.


- Sabes o que estás a fazer, Uranai?


- Pois claro que sim! – ofendi-me, sugando todo o contentamento.


Cheguei ao Inferno e com algumas indicações, seguindo também o que me revelava a bola de cristal que cavalgava – ah, sim, a minha bola de cristal flutuante é um ótimo meio de transporte, já vos tinha dito? Melhor que uma vassoura velha, que essas sim, são pouco fiáveis, feias, desconfortáveis e retiram toda a elegância a uma feiticeira.


Vi o saiyajin Nappa e aproximei-me devagar, com um meio sorriso. Era um belo exemplar de guerreiro, gigante, espadaúdo, músculos salientes, apesar de já não ter o que se podia chamar de um corpo, pois a parte inferior era uma espiral indistinta e ele pairava tentando controlar essa nova forma de locomoção. De vez em quando socava o ar e grunhia. Era um brutamontes perfeito!


Ele viu-me e fez uma carantonha de meter medo a um morto-vivo.


- O que queres daqui, velha?


- Quero apresentar-te uma proposta de negócio.


Voltou-me costas fazendo um ruído estranho, algo parecido a um resmungo pouco amigável, que mais parecia um rugido de uma besta feroz.


- Será uma proposta irrecusável. Tenho uma pequena atividade da qual sou a gerente e, normalmente, utilizo lutadores num torneio particular, quando se esgotam as vias normais do… digamos, diálogo entre vendedor e comprador. Tenho quatro lutadores residentes e um lutador especial e queria convidar-te para seres o meu quinto lutador.


Nappa soltou uma gargalhada boçal.


- Deves estar a brincar comigo!


- Em troca, concedo-te um dia no mundo dos vivos.


- Desaparece daqui, velha! Sabes com quem te estás a meter?


E virou-se tão de repente que a minha bola de cristal oscilou. Tentei manter a calma, mas a minha vontade era fugir para bem longe. Agora entendia a expressão de Enma Daioh. Julgava-me louca, incauta, ingénua. E eu estava a sentir-me exatamente assim.


- Eu sou um saiyajin! Se me deres um dia no mundo dos vivos, será para terminar o que comecei: destruir a Terra!


- Eh, espera lá um bocadinho! Vais trabalhar para mim e no planeta Terra. Para saíres daqui, terás de fazer um acordo comigo.


A manápula de Nappa agarrou o meu pescoço e apertou. Esbugalhei os olhos que queriam saltar-me das órbitas. Devo ter ficado linda, ruborizada em tons de roxo, olhos protuberantes, boca contraída, rugas acentuadas, cabelos eriçados, estrangulada pelo saiyajin Nappa.


- Velha, não vou fazer nenhum acordo contigo.


Eu abanei a cabeça e tentei, estupidamente, sorrir, mas a boca contorceu-se numa linha torta que não era, de todo, um sorriso.


- Então, já não temos nada para conversar – concluí entre arquejos, pois não tinha ar para formular as palavras com clareza. Mostrava-me corajosa, indiferente, mas estava aterrorizada.


Nappa percebeu o meu esforço e aquele rosto cruel sorriu-me de volta.


- Pelo contrário, velha. Vamos conversar… Vou mostrar-te como conversa um saiyajin, mesmo estando no Inferno.


A minha sorte foi ter aparecido um dos guardas, armado com uma moca gigante. Sem perguntar o que se estava a passar, afundou a moca no crânio de Nappa, fazendo com que a cabeça calva do saiyajin se enfiasse entre os ombros. A manápula abriu-se, respirei fundo e recuei o suficiente para me afastar do alcance dele. Não pretendia repetir a experiência.


Nappa voltou a raiva para o guarda, que se chamava Goz creio eu, um ogre azul ameaçador, mas que tinha igualmente um aspeto embrutecido.


- Por que me atacaste, idiota?!!


- Não deves fazer mal à Uranai – explicou o ogre pacientemente, coçando o tufo de cabelos com um dedo.


- Eu faço mal a quem me apetecer!


- Mas a Uranai é nossa amiga. Traz-nos presentes de vez em quando.


- Eu sou um saiyajin! – berrou a alma de Nappa – Os saiyajin não são amigos de ninguém.


Goz bateu novamente em Nappa com a moca.


Deixei-os numa discussão acesa, entre gritos e mocadas.


Depois daquele encontro com o saiyajin Nappa, abandonei a ideia descabida de ter como quinto lutador do meu torneio um desses guerreiros do espaço. Era demasiado perigoso para a minha velha carcaça, que eu cá sou uma moça que aprecia muito a integridade física deste corpo franzino.


Deixei o Inferno desiludida e amarga. Nunca contei essa história a ninguém, se o fizesse ao meu irmão Mutenroshi, por exemplo, ele haveria de se rir tanto que molharia as calças, até parece que o estou a ver. E depois haveria de me dar um sermão em como eu deveria ter perdido o juízo quando tive uma ideia como essa. O saiyajin Nappa a desfazer o infeliz que não tinha os dez milhões de zeni para pagar à bruxa… Mas a minha malvadez não tinha fim?


Eu não sou malvada, sou apenas demasiado esperta para a maioria das pessoas.


O que esperam de uma mulher sozinha? O mais natural é que aguce o seu espírito de sobrevivência e que se torne num ser combativo, de difícil trato, arisca como um gato assanhado, com a desconfiança à flor da pele.


E ainda mais quando se lhe atravessam pelo caminho saiyajin malucos que modificam o seu mundo para sempre.


Mas eu respeito os saiyajin. São dos guerreiros mais nobres que conheço, combatem até ao último suspiro, por motivos egoístas por vezes, mas principalmente por causa da honra. Lembro-me quando escoltei o príncipe Vegeta do Outro Mundo de volta à Terra para que tornasse a enfrentar Majin Bu. Já não tinha medo deles, sentia antes uma enorme admiração. Faziam o meu coração palpitar de esperança.


E eu tinha razão. Os saiyajin acabaram por salvar a Terra e todo o Universo desse terrível monstro invencível chamado Majin Bu.


Apalpo as pontas do meu cabelo. Preciso de uma visita ao salão de beleza. Olho de seguida para as minhas unhas. Uma desgraça, precisam de ser mimadas, como ao meu cabelo.


Chegou a altura de fechar o livro das memórias.


Que eu sou uma moça nostálgica, mas gosto mais ainda de olhar para o futuro, sacudindo os ombros, afastando qualquer peso desnecessário ou mágoa esquecível. Não vale a pena chorarmos sobre o leite derramado, apesar de reconhecer que mesmo com todo o meu autocontrolo sou capaz de explosões de génio e de desespero ante uma catástrofe iminente e já vi demasiadas depois da chegada dos saiyajin.


Mas se não fossem eles, o meu mundo continuaria a ser insuportavelmente monótono. Escondo um sorriso. Tenho um apreço muito especial por Son Goku. Ah!, se eu fosse uns aninhos mais nova, disputaria aquele rapazinho que arrasou o meu torneio e me fez pensar duas vezes na minha vida, incomodada por ter abalado tão profundamente os seus alicerces.


Sim, que eu sou uma moça que aprecia um belo exemplar de homem. Mesmo que seja um extraterrestre desmiolado e ingénuo.


Solto um suspiro.


Depois de todo este longo discurso, em que remexi na minha personalidade, consigo resumir-me de uma forma simples. Pois gosto de simplicidade. Não é em vão que me visto de negro, uma cor despretensiosa.


Sou Uranai, a bruxa que gosta muito, mas mesmo muito de dinheiro.


Pois, no fim de contas, sou uma moça de gostos caros.


E pisco-vos o olho, do alto da minha bola de cristal flutuante.


Um aplauso e fim.

12 Avril 2018 13:16:25 0 Rapport Incorporer 3
La fin

A propos de l’auteur

Andre Tornado Gosto de escrever, gosto de ler e com uma boa história viajo por mil mundos.

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