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I.

Em 1825, morava na travessa do Caramujo, em S. João da Foz, uma familia de Amarante, que viera a banhos, e constava dos seguintes membros:

Pantaleão de Cernache Tello Aboim de Lencastre Maldonado e Sousa Pinto de Penha e Almeida. Sua mulher, D. Amalia Victoria Rui da Nobrega Andrade Vasconcellos Tinoco dos Amaraes. Sua filha, Hermenigilda Clara, com todos os appellidos paternos, e cinco de sua mãi. Duas criadas graves. Uma cozinheira, casada com o lacaio. Um escudeiro preto. Um gallego adjuncto á cavallariça. Dous cães de lobo; e, finalmente, uma cadellinha atravessada de cão d'agua e galga.

Eu, João Junior; que estas cousas ponho em escriptura para memoria eterna, morava na rua de Cima de Villa, e da minha janella vi muitas vezes na sua o snr. Pantaleão, homem côr de lagosta cozida, com cabelleira azulada pela acção do tempo, olhos refegados com debrum escarlate, papeira ampla como a dos cretins nos Alpes, e nariz poliédro como uma castanha do Maranhão.{12}

A snr.ª D. Amalia, se bem me recordo, era uma serpente. Orelhas, nariz, queixo, e todos os districtos da cara (nesse tempo eram comarcas) era tudo aguçado e verrugoso, como uma mólhada de nabos velhos, em que as fitas amarellas da touca representassem a rama das nabiças.

A menina Hermenigilda tinha cara de seraphim de côro d'aldeia: gorda e vermelha, cheia de vida estupida, olhos grandes como bogalhos, dentes anarchicos mas brancos como o seu nedio pescoço, braço rico de tecidos cellulares, rendilhado de tumidas veias vermelhas, onde borbulhava o sangue cruorico de felicissimas digestões de cabeça de porco com feijão branco.

Os servos não me lembra bem como tinham a cara, excepto uma das criadas graves, que diziam ser filha bastarda d'um frade bernardo, irmão do snr. Pantaleão. Eu fiz tres dias descabellado namoro a esta rapariga, que tinha setenta e seis pollegadas. Ao quarto, vi-lhe um calcanhar aberto como ouriço velho, e desanimei.

De quem me recordo muito é do escudeiro preto, que tinha a cara mais velhaca da raça de Ismael. Assobiava com perfeição a Marìa Caxuxa, e jogava a marrada magistralmente com o gallego, supplementar aos machos da liteira, deixando-o quasi sempre estatellado no chão em fórma de meia-lua. E muitas vezes vi eu com estes olhos invejosos a menina Hermenigilda a brincar com o preto na sala, onde eu podia devassar estes innocentes brinquedos. O gosto d'ella era puxar-lhe a carapinha, e o gosto d'elle era, ao que parece, dar-lhe surras, que terminavam sempre quando a mãi, ou o pai, ou alguma das criadas appareciam no limiar da porta da sala.

Um meu amigo visitava esta familia, e d'ella soube eu que o snr. Pantaleão era senhor de casa vinculada, e a snr.ª D. Amalia tambem era morgada, e a snr.ª D Hermenigilda, por consequencia, uma opulenta herdeira. Soube mais que o snr. Pantaleão remontava a sua fidalguia a uma{13} personagem importante na dynastia goda, e não me recordo bem se era Athanaulfo, ou Roderico.

A genealogia da mulher diziam lá em casa que era a mais antiga da velha Lusitania, e contavam maravilhas de seus avós na India, e na Amarante. A herdeira, por segunda e inevitavel consequencia, tinha nas veias doze canadas bem medidas de sangue gothico, e por isso, a architectura externa fazia lembrar Orense ou S. Thiago de Compostella.

Entre os rapazes meus conhecidos da provincia, o meu inseparavel companheiro dos passeios a Carreiros era um mancebo de trinta annos, que tem hoje os seus sessenta e um, e está litteralmente escangalhado, como eu que o digo. Então era elle esbelto, e galhardo, amigo de mulheres novas e vinho velho, como Byron, que elle vira no theatro de S. Carlos em 1813, e affirmava que bebeu com elle uma garrafa de aguardente de canna no Nicóla, botiquineiro do Rocio. Parece-me pêta, porque Byron, se emborcasse uma botelha de aguardente em Portugal, não nos chamava barbaros. Paiz onde um inglez se embebedar, será sempre um paiz civilisado.

Como quer que seja, o meu amigo provinciano era homem do grande mundo. Chamava-se Bento de Castro da Gama, e não sei que mais. Era natural de Cabeceiras de Basto, filho segundo da casa denominada do Olho-vivo, não sei porque derivação.

Seus pais mandaram-no estudar latim e logica no seminario de Braga. Bento corrompia o porteiro, e sahia de noite, a provar que a logica, sendo a arte de bem pensar, não exime um fraco mortal de pensar o peor que é possivel. D'essas envestidas nocturnas á moral, resultou um escandalo em casa d'um chapelleiro daSenhora á branca, e o seductor teve de fugir do seminario, onde estava debaixo de olho, pendurando-se para a rua nos lençoes.

Contava elle que o pai lhe abanara as orelhas, em quanto a mãi lhe preparava algumas tigellinhas de gelêa{14} de mão de vacca, para o indemnisar das succulentas bochechas que deixara no seminario, emmagrecidas sobre o Novo Methodo do Pereira; e o desabrido Genuense.

A casa paterna era estreito horisonte para o nosso amigo. Uma bella manhã fugiu de casa, veio ao Porto, e assentou praça em infanteria. O pai, sabendo-o, mandou-lhe os documentos para se habilitar a cadete, e estabeleceu-lhe avultada pensão para se habilitar a exercer todas as travessuras e maroteiras de que o seu caracter era susceptivel. Em seis mezes de praça estivera tres na cadeia, por causa de varios sôcos com que mimoseou os sargentos do corpo. Pediu a baixa, deram-lh'a promptamente, e recolheu a casa, onde não encontrou já vivo o pai.

Pouco depois, morreu a mãi. Bento de Castro pediu por conta da sua boa legitima alguns mil cruzados, foi gastal-os em Lisboa o melhor que pôde, e tornou para casa, onde o irmão morgado o recebeu de braços abertos.

N'esse tempo é que eu o conheci na Foz, onde viera pela primeira vez a banhos, em 1825. Relacionei-me com elle na caça das gaivotas, e convivemos alguns mezes na sua casa de Cabeceiras de Basto. Passavamos ahi excellentes tardes no convento de Refojos, onde elle tinha tres tios, que eram santos varões, doutos, e alegres. Ahi conhecemos José Pacheco d'Andrade, morgado de uma casa illustre, que nos ensinou a jogar o pau, como bom mestre que era! Na feira do Arco vimol-o nós uma vez varrer a feira com admiravel limpeza! Saltava como um gamo, e apanhava pela cernelha com uma bordoada o mais lesto jogador de Barroso! Fui amigo d'este homem e vi-o morrer vinte annos depois n'um palheiro onde mendigando, pedira gasalhado. O que o levou a este extremo é uma historia muito longa, e que já vi fugitivamente esboçada nos versos de não sei que livro.

Pergunta o leitor o que tem isto com as Scenas da Foz?{15}

Se me começam com perguntas, estamos mal aviados! Um homem na minha idade, com a reputação feita, escreve as cousas como ellas lhe escorregam dos bicos da penna. Nem acizelo o estylo, nem torneio o pensamento, nem traço plano. Não me apoquentem. Lá vamos á Foz.{16}

II.

O meu amigo Bento de Castro veio, uma noite, de Mathosinhos, de casa do Brito, onde perdera, á banca portugueza, vinte moedas, um cavallo, um relogio, dous anneis com brilhante, e ficára a dever outro tanto. Ás 2 horas, bateu-me á porta, sentou-se na minha cama, e começou assim um pathetico discurso:

«Tenho dado cabo de mais de ametade da minha legitima. Não tardará o dia em que meu irmão me dê de comer como se dá uma esmola. O jogo tem sido o meu abysmo. Perco o dinheiro e perco a vergonha, quando o azar me é contrario. Hoje, vendi cavallo, relogio, anneis, e tudo: cheguei a pedir dinheiro ao moço de farda da casa onde joguei. Quando vinha para cá, alli no castello do Queijo, tive vontade de atirar ao mar com esta vida diabolica!... Se o não fiz, outra vez será. É no que ha-de parar este negro fado que me traz a pontapés da desgraça... Não me dirás tu que hei-de eu fazer para ser o que tu és?

—E que achas tu que eu sou?—perguntei eu, porque não sabia ainda então o que era.{17} «És homem de juizo. Tens ha dez annos um cavallo velho e magro, uma casinhola na provincia que te rende doze carros de pão e quinze pipas de vinho verde, uma sobrecasaca preta com os cotovellos rapados, e vives feliz.

—Muito feliz.

«Pois ahi está! E eu, com quarenta mil reis mensaes de rendimento, tenho gasto metade do capital, e desconfio que devo a outra metade.

—Pois se queres ser homem de juizo, deixa cossar-se o teu casaco nos cotovellos, limita o teu luxo de equitação a um cavallo digno de ser cantado pelo Manoel Duarte Ferrão, faz de conta que colhes doze carros de pão e quinze pipas de vinho verde e serás feliz.

«É tarde, meu caro João Junior, é tarde. Creei necessidades que não posso matar sem que ellas me matem. Preciso dinheiro, venha elle d'onde vier.

—De mim, de certo não vai, meu amigo. Bem sabes que o pão e o vinho este anno não deram nada. Desde Março d'este anno, em que morreu o rei, parece que desappareceu de Portugal o estomago mais consumidor que tinhamos. Tu não tentaste ainda a fortuna pelo lado do casamento?

«Ainda não. Tem-me lembrado algumas vezes essa asneira salvadora; mas, sou tão infeliz, que desconfio de tornar-me ridiculo, se o tentar.

—Ridiculo é esse susto. A experiencia ainda te não amadureceu quanto é necessario para viver neste mundo. Ridiculo só conheço um homem neste planeta: é o que não tem dinheiro. As tentativas, que se fazem para alcançal-o, são sempre sérias, heroicas, e até épicas. Se fizeres namoro a uma rapariga rica, riem-se de ti os zombeteiros candidatos á rapariga, mas esse riso só póde ser penoso se a mulher te não indemnisar com o sorriso d'ella. A questão é To be or not to be: ser ou não ser amado. Sirvo-me deste fragmento de Shakspeare por que não está ainda estafado pelos folhetinistas.{18}

«Folhetinistas! que são folhetinistas?

—Folhetinistas são uns pataratas que hão-de vir d'aqui a vinte annos, trazidos em uma nuvem de gazetas. Ainda a tresandar ao fartum dos coeiros, virão para a imprensa com seu cabedal de erudição empalmado nos romances de certo Dumas, que tem hoje quinze annos, e será então o primeiro corruptor da litteratura em França. Saberão menos latim do que tu quando saltaste pela janella do seminario de Braga, e dirão que o latim é uma cataplasma que mata a originalidade nativa, e a natividade original, e não sei que outras sandices usadas na linguagem delles pataratas. A respeito de logica e rhetorica dirão que antes do diluvio já estavam banidas das escólas mais illustradas. Hão-de provar que o talento não precisa desses causticos para ressumar a materia do espirito, e, provando-o, dirão tolices em que ficará salvo o Genuense e o Quintilliano, dos quaes tanto nos fallaram os teus tios frades de Refojos. Fallarão muito em linguas druidica, celtica, indica, sanscrito, e dirão dellas cousas maravilhosas que terão o superior merecimento de não serem ditas em portuguez. Ora, pois, fica tu sabendo que os folhetinistas serão...

«Não me importa saber o que serão os folhetinistas, o que eu quero é saber o que serei d'hoje a vinte annos.

—Serás folhetinista, visto que te não vejo com habilitações para seres cousa alguma. Se te parece, vai aprendendo de teu vagar a tocar guitarra para depois poderes fallar com criterio das primas-donas, e dos contraltos, e dos bassos, e deste Curti que hoje está creando uma reputação no Porto, e eu espero ouvir d'hoje a trinta annos com o mesmo timbre, o mesmo volume de voz, e a mesma precisão de notas graves em sibmol.

«Que diabo de embrulhada é essa? Homem, falla-me direito. Que me dizes tu á tentativa d'um casamento rico?

—Digo-te que conheço grandes alarves que tentaram{19} e prosperaram. Quando um homem se diz: «hei-de casar rico, apesar de todos os contratempos» casa rico. O primeiro passo a dar é convencer-se de que a vergonha é uma excrescencia que nos magôa, e deve ser amputada da consciencia como quem corta um callo. O segundo é procurar a mulher, através de todas as torpesas, como o mineiro procura o ouro através do saibro e dos charcos lodacentos que lhe regorgitam debaixo dos pés. O terceiro é levar com a porta na cara, e ficar com a cara voltada para outra porta. O quarto é teimar. O quinto é teimar. O sexto...

«É teimar. Tenho entendido. Mãos á empreza. Cobrei espirito novo. Dentro d'um anno hei-de estar casado com mulher rica, bonita, intelligente, virtuosa...

—Alto lá! isso é muita cousa. Assim tambem o Bocage a queria, mas disseram-lhe que não... Rica? d'accordo: isso é possivel. Intelligente? Deixa-te d'isso: mulher intelligente não se deixa engodar por especuladores matrimoniaes: é-lhe mais facil ceder ao coração toda a liberdade dos seus desejos os menos puros, do que algemar-se com grilhões que ella parte facilmente no momento em que a razão illustrada lhe diga: «Entre ti e o homem são iguaes os direitos...» Formosa? Pieguice e contrasenso. Mulher formosa é sempre a mesma cousa, e aos olhos do marido perde pouco e pouco o prestigio da belleza. Mulher feia, pela continuação da convivencia, perde pouco e pouco a fealdade, e chega a parecer bonita. E deves saber que mulheres feias teem inspirado paixões ardentissimas. Dizem que ha uma compensação de graças ocultas as quaes fazem ganhar raizes no coração do homem. Eu não sei se é no coração, se no figado: o que posso asseverar-te é que tenho visto mulheres formosas apagarem muitos incendios, e as feias atearem-nos. Dido, Helena, e Cleopatra dizem que foram lindas mulheres, por terem apaixonado Eneas, Paris, e Antonio. O que de certo se não sabe é se eram feias. Verdadeiramente feio, meu amigo, é o diabo, como diz a{20} ama de leite dos teus sobrinhos. Em quanto a virtuosa, meu caro Bento, a esse respeito tinhamos muito que dizer, se eu não tivesse somno. A virtude é o escolho de muitas posições sociaes. Felizmente que ella vai em decadencia, e por isso veremos, de hoje a trinta annos, muitas posições brilhantes com um pé no pescoço da virtude. Virtude é uma sociedade mercantil, em que a maior parte dos empresarios se sustentam á custa da pequena parte que se conserva fiel aos estatutos.

Fóra com a palavra; e se promettes aspal-a do teu programma de casamento, indico-te uma mulher.

«Qual?!

—A minha visinha Hermenigilda, filha do Pantaleão.

«Pois achas que está no caso?

—Muito no caso.

«Sei que é rica, não é feia, é estupida, é fidalga; mas... em quanto a virtude, não sei por que ella perca no teu conceito, para que eu deva aspar a palavra do meu programma!

—É que eu desconfio do preto!

«Do preto?! que preto?

—Fallaremos ámanhã. Agora quero dormir.

Bento de Castro sahiu, e eu, voltando-me para o outro lado, sonhei com o preto.


Suaves recordações da mocidade, sêde a cebola destes olhos que já não podem chorar!{21}

III.

No dia seguinte, fui obrigado pelo meu amigo a praticar o escandalo de acordar ao meio dia e vinte e sete minutos.

Queria elle ser esclarecido sobre palavras enigmaticas, que eu proferira a respeito do preto.

«Não valia a pena—disse eu—perturbares o meu somno da manhã por similhante insignificancia. A historia do preto é a mais innocente das historias. Não sei se o moleque conhece o Othello de Shakspeare. É certo que o Othello era preto, e sentiu a mais negra das paixões por uma branca. Não sei tambem se a filha de Brabante lhe puxava a elle a carapinha como faz a filha do snr. Pantaleão ao dito preto. Em todo o caso ha muito a recear do espirito de imitação, porque o plagiato do amor é de todos os plagiatos o mais nocivo. Por imitação, ama-se, por imitação, deshonra-se, por imitação, casa-se, por imitação, suicida-se. Quem sabe se a snr.ª D. Hermenigilda para imitar Desdemona, introduziu o preto no coração?

—Estás a mangar!—respondeu o meu amigo Bento—Póde lá dar-se similhante asneira!{22}

«Dão-se asneiras maiores, meu caro, muito maiores. Eu tenho uma prima... dás licença que te conte a historia de minha prima?

—Se não fôr muito estirada...

«Laconica o mais possivel. Minha prima Rosa foi a mulher mais bonita de Villarinho de Cotas, Canellas, Sinfães, e povos circumvisinhos. Tinha um bom patrimonio, e foi muito pertendida. Regeitou propostas de vantajosos casamentos, e resistiu ás minhas tentações, quando eu era um homem perigoso em casa de primas. Uma bella manhã a priminha desapparece de casa. Partem emissarios para todas as partes do mundo em cata della, e depois de varejarem e farejarem todas as casas suspeitas, todas as igrejas onde o mysticismo a poderia ter em extasis, e até um poço onde uma allucinação a poderia ter precipitado... depois de muitas diligencias, e lagrimas, e gritos, e informações, minha prima apparece... imagina lá aonde?

—Eu sei cá!...

«N'um lagar d'uma quinta sua, escondida atraz d'uma pipa, no mais puro arrobamento do amor com...—meus illustres avós! perdoai-me a revelação!—com um dos gallegos que tinham vindo á vindima. E que pedaço de gallego!

—Que se seguiu? mataram o bruto?

«Qual matar o bruto! O bruto tinha um direito sagrado á sua existencia. Minha prima foi interrogada pelo irmão, seu tutor, e respondeu que havia de casar com o gallego.

—E casou?

«Casou, e vestiu-o de casaco, e botas de cano alto, e chapéo de sêda, e, o que mais é, meu primo gallego parecia depois um hespanhol. Se o vires hoje, não dirás o pessimo texto que está n'aquella encadernação.

—E ella ama-o?!

«Essa admiração é sufficientemente parva! Ama-o{23} como o amou sempre, bebe a felicidade dos labios delle, pendura-se-lhe, em delirios de ternura, das largas espaduas, aperta ao coração a cabeça amante do conjuge inseparavel, não receia uma deslealdade, desconhece o ciume, produz o mais mechanicamente que se póde, rapazões robustos, vermelhos, e gordos como teixugos; em fim, para te dizer tudo d'uma vez, minha prima está gorda, come tanto como elle, e faz as suas digestões na suave beatitude da mulher ditosa, com os olhos postos no marido. Faltava-me dizer-te que esta creatura angelica, antes de ser encontrada no lagar, era d'um melindre d'orgãos, e d'uma susceptibilidade de emoções, que fazia receiar muito pela sua vida.

Lia novellas de La-Calprenéde, Genlis, e Radcliffe. Chorava enternecida, fitava no céo os olhos lacrimosos, pendia a fronte, contristada, tomava parte nas dôres das suas heroinas, e muitas vezes me disse que a cópia do seu modêlo, a realisação das suas esperanças, estava no céo. Como diabo desceu do céo cá para baixo o gallego, isso é que eu não sei. Eu vivia persuadido de que o céo não importava aquelle genero.

Seja o que fôr, esta historia vem apêlo para exemplificar um dos muitos casos em que a boa philosophia nos ensina que um preto é um rival temivel. Posso enganar-me, nem ouso aventar uma calumnia; porém, a minha visinha não dá ares de quem procura no céo a realização das suas esperanças; e, se procura, quem me diz a mim que o preto não desceu de lá pelo mesmo alcatruz que pôz cá em baixo o gallego? Que me dizes tu a isto?

—Eu digo que não quero saber mais nada da tua visinha, e deixo-a ao preto em boa paz.

«Não vou para ahi. Suspeitas não fazem prova.

—Mas o que tens tu visto?

«A pequena a brincar com o preto.

—De que modo?

«Jogam os cantinhos sem intervenção d'um terceiro:{24} invenção rara que se deve á estrategia do amor, assim como o xadrez se deve á estrategia militar.

—E que mais fazem?

«A bagatela de se darem surras. Ella arrepella-o, elle dá-lhe duas palmadas bem sonoras, no mesmo local onde o patrão lhe dá a elle os pontapés. O preto perfila-se, a innocente menina vem para a janella, e a moral domestica folga do resultado. Já vês que não ha aqui bastante motivo para renunciar uma conquista de dez mil cruzados de renda, e uma mulher que promette estar contente dando-lhe o comer ás horas, e tres duzias de gallinhas para tratar... Das duas uma: ou a mulher ama o preto, e não te acceita a côrte, ou não ama o preto, e acceita. Que perdes tu na tentativa?

—Dizes bem, eu não perco nada. Como não tenho melhor cousa em que esperdice o tempo... E como hei-de eu apresentar-me?

«Apresenta-te ahi na minha janella, e faz-lhe saber, sem grandes rodeios, que estás ferido.

—Será demasiada liberdade...

«Deixa-te d'isso; demasiada liberdade acho eu que é a do preto. Certas mulheres só entendem o que se lhe diz; e em quanto a mim, a nossa visinha é d'aquellas que nem o que se lhe diz entende. Clareza no pensamento e na phrase. Imagina que fallas com a filha d'um teu caseiro. Põe o teu codigo de civilidade ao pé do Genuense e do Quintiliano. Nada de logica, nem de rhetorica. Os principiantes do amor cuidam que é da tarifa devorarem no silencio, antes de se revelarem, as melhores phrases que tinham para convencer. Grande contrasenso. Parecem-se com os caçadores novatos, que atiram á perdiz quando ella vai muito longe do alcance do chumbo. Fia-te em mim, Castro. A mulher que principia a amar tem oito dias de alienação moral. O espirito anda-lhe á solta, e um habil caçador apanha-lh'o, e depois... como sabes do teu{25} Genuense, a alma é uma substancia acommodada para governar o corpo. Pilhada a alma, o corpo, sem governo, é uma nau desmastreada, sem leme, á mercê das ondas.

Espera... ouço-a fallar... Olha...

Ella lá está na janella.{26}

IV.

O meu amigo chegou á janella, e tossiu a tosse especial dos namorados de 1826, que era uma tosse secca, como a do ultimo periodo da tysica laryngéa. Hermenigilda acudiu ao reclamo catarrhoso, e viu risonha a cara do meu amigo Castro, que realmente era um perfeito homem. Retirou depressa os olhos, mas depressa obedeceu com elles ao magnetismo das olhadellas do visinho. Eu cá da minha alcova, por entre os farrapões das cortinas amarellas, estava presenceando o introito comico do acto mais solemne da vida dos povos, que era o casamento então, e hoje são as eleições.

O meu amigo não se despegava do peitoril da janella. A pequena ia e vinha; olhava-o, como a disfarce, lá do fundo da sala, e trazia sempre um terço do olho esquerdo compromettido.

Castro manifestava com o nariz o seu contentamento, empenhando-o na victoria. Assoando-se, trombeteava o som menos amoroso possivel. O nariz, considerado porta-voz do coração, ecco da poesia intima, interprete da linguagem{27} muda da ternura, exerce a mais nobre das missões corporeas, e attinge um elevado grau de perfectibilidade nazal, depois do outro, mais elevado ainda, de espiraculo de defluxo, e absorvente de simonte.

Fui almoçar, e deixei o meu amigo na janella. Quando voltei, estava elle radioso de gloria.

«Então?—disse-lhe eu—quantos graus acima de zero marca o thermometro da visinha?

—Está pegado o namoro.

«Eu vi tudo.

—Mas não viste o melhor. Offereci-lhe uma carta. Ella primeiro disse que não...

«Que não sabia lêr?

—Não, homem: disse que não acceitava. Instei, e, por fim, deu signal affirmativo com a cabeça, e fugiu da janella.

«Oh! é tocante essa fuga! o que faz o pudor! A virginal menina não pôde mostrar a fronte á luz do sol, depois d'uma fraqueza a que a paixão a compelliu!

—Tu estás caçoando!

«Forte scisma a tua! Não póde a gente vestir as suas idéas com as pompas da linguagem! Ora vamos, Bento. É preciso escrever á pequena.

—É um grande embaraço. Não sei como se escreve a esta mulher. Será muito estupida?

«Parece-me que é, e, nesta hypothese, escreve-lhe uma carta muito tola. Queres tu ser o secretario? Eu entro no teu coração e fallo por ti.

—Valeu! nota lá a carta.

«Senta-te, e escreve.

Eu accendi um cigarro, sentei-me de cocoras sobre a minha cama, entrei em espirito no espirito do meu amigo, e dictei a seguinte carta, que offereço como norma aos amadores das Hermenigildas:{28}

«Meu adorado Bem.

«Com o coração em viva brasa, lanço mão da penna tremula para expôr á vossa compaixão o triste sudario da minha alma.

«Os vossos olhos são settas do deus implacavel, que não perdôa a rei nem a vassallos, que abranda o coração da panthera de Java, e enternece as melodias do rouxinol do salgueiro.

«Ferido neste coração, que é vosso, tenho direito a pedir-vos balsamo para a chaga que vossos olhos me rasgaram no peito.

«Ingrata serieis, amada Hermenigilda, se mostrasseis indifferentes á dôr, os olhos que tamanha dôr causaram! Não! é impossivel que nesse peito de alabastro, ninho dos prazeres, se aninhe a vibora da ingratidão!

«No vosso angelico sorriso, ó cara amada, pousou a minha felicidade, que, ha muito, busco, por toda a parte, como andorinha que perdeu o trilho aerio da sua patria, e ficou erma e só na região das neves...»

—Ella não entende isto!—exclamou o meu amigo!

«É justamente o que nos convém. Se ella entendesse isto, faria da carta dous papelotes, e mandava-te á fava. Continúa:

«Eu sou como o viajante nos desertos da Mezopotamia, ardente de sede, pedindo a cada miragem uma gotta de agua, e bebendo candeias accesas nos raios do sol oriental!

—Isto parece-me asneira!—replicou o amanuense—Bebendo candeias! Viu-se já um similhante disparate!

«Pois tu queres que ella te entenda, ou não?

—Quero que entenda: é boa a pergunta!

«Pois se tu lhe disseres que bebias no deserto linguas de fogo em logar de candeias accesas, entender-te-ha ella melhor? Candeias sabe ella perfeitamente o que são; e{29} linguas, em quanto a mim, só conhece a de porco e a de vacca. Se me pões contraditas ao libello, recolho a inspiração, e deixo-te nas trevas. Escreve lá:

«Nos meus sonhos...

Entre parenthesis. Este estylo hoje é rançoso, e qualquer caixeiro o escreve sobre o mostrador, entre uma ceira de figos de comadre e tres achas de pau campeche; n'aquelle tempo, porém, em 1826, era necessario ter um talento creador para espetar a phrase na região do sublime. Eu fui um dos apostolos deste estylo; e glorio-me de ter feito escóla. Vieram depois os imitadores, sem critica nem gosto, e asnearam de modo que venceram o passo que vai do sublime ao ridiculo.

«Escreve lá, Bento de Castro.

«Nos meus sonhos, tenho visto muitas vezes uma visão vestida de nuvens coradas de luz, calçada de estrellas, coroada com o arco iris, sentada na lua, com o sol engastado no peito, e o globo terraqueo a seus pés. Ereis vós, Hermenigilda! Apenas vos vi, reconheci-vos como o molosso reconhece o dono, e a rola o ninho, e a lebre a cama, e a truta a acolheita.

«Vêr-vos, e não amar-vos, seria morrer de vêr-vos; e amar-vos sem vêr-vos, só eu pude; e que faria eu depois ao vêr-vos, senão amar-vos!?

—Acaba depressa com isto!—interrompeu o meu amigo—Vêr-vos, não vêr-vos, amar-vos, e vêr-vos, e não amar-vos... que diabo de embrulhada é esta!?

«Tu és um tolo!—redargui eu—Está explicado o segredo da tua nullidade perante as mulheres. Tens trinta annos, e todas as tuas conquistas reduzem-se á filha do chapelleiro de Braga. Podias ter um nome em Portugal, se ao teu patrimonio, quasi dissipado, e á tua excellente figura, quasi em decadencia, juntasses um pouco de estylo. Todo a conquistador deve ter um arsenal bem fornecido de bombas phraseologicas. A idéa não é que persuade{30} uma mulher, é a palavra. O que tu chamasembrulhada, meu patavina, é o melhor que se póde dizer quando não ha nada que se diga.

—Suppomos—-replicou elle—que esta mulher não me entende?

«Certo disso estou eu.

—O que se segue é não me responder, porque receia que eu me ria da sua ignorancia.

«É justamente o que te convem, tolo.

—Que me convem!

«Sim; convem-te que não responda, porque não respondendo, falla-te. Que lucras tu com a correspondencia epistolar desta mulher?

—Parece-me que pensas bem!... Tu és um grande homem! Ora anda lá, diz mais alguma asneira.

«Onde estavamos nós?

—Estavamos no vêr-vos e não vêr-vos, amar-vos e não amar-vos...

«Ah! já sei... põe lá:

«Cesar foi, viu, e venceu. Eu vim, vi, e fui vencido! Maravilhosa coincidencia de constrastes, Hermenigilda querida!

«Mas é tão dôce ser escravo, subdito e fiel vassallo vosso! Quereis vós ser a rainha desta alma? Governai-a com o vosso sceptro de amor; subjeitai-a aos decretos e leis regias dos vossos soberanos olhos; regei esta monarchia com o absolutismo despotico da vossa augusta vontade.

«Se não quereis responder-me, senhora, dai-me n'um sorriso o signal de que acceitaes preito e homenagem do vosso mais humilde feudatario,

Bento de Castro da Gama.»

O meu amigo, a meu pedido, fechou a carta em coração, e postou-se na janella. Hermenigilda appareceu. A{31} carta foi-lhe mostrada; ella fez menção de recebel-a. Castro sahiu, roçou-se pela porta, lançou-a no pateo, e tornou para a minha janella.

Hermenigilda não apparecia: estava naturalmente estudando os jeroglificos druidicos da carta.

O preto, porém, veio á sala, e fez uma careta medonha ao meu amigo.{32}

V.

A careta do preto fez pensar o meu amigo tão seriamente que desde logo resolveu imprimir-lhe em qualquer parte quatro pontapés homericos.

Eu combati o projecto com a logica da prudencia, fazendo vêr ao pundonoroso Castro que a careta do preto era uma dessas innocentes caretas que a natureza patusca ensinava aos macacos. Convencido zoologicamente da aproximação das duas especies, visto que a careta era de instincto, o amante fogoso de Hermenigilda prometteu levantar de sobre a cabeça do negro, não direi a espada de Damocles, mas a bota de montar com espora de prateleira, seu calçado favorito.

Mais do que as minhas razões, a presença da visinha aquietou os impetos cavalheirosos do meu amigo. Eu puz-me á espreita. Vinha jubilosa, com cara de paschoas, um ar de alegria lôrpa, e a expressão mais significativa de que não entendêra palavra da carta arripiada.

Castro, sem ser acanhado, parecia um tolo, sorrindo com ella.{33}

«Pergunta-lhe se responde» disse-lhe eu cá de dentro.

O meu amigo esperou o ensejo d'uma olhadura, fez menção de escrever na palma da mão esquerda, tregeitou com a cabeça uma pergunta, e ella de lá respondeu que não. Castro fez um bico de ternura dolorida, encolheu os hombros em ar de paciencia, e vestiu o semblante com uma visagem melancolicamente sandia.

«Pergunta-lhe se falla» tornei eu cá do meu centro de operações.

—Podeis fallar-me?—disse elle, improvisando com as mãos um ridiculo porta-voz.

Ella fez-se desentendida, e o meu amigo levantou nota e meia á pergunta:

—Se podeis fallar-me...

Hermenigilda não respondeu ainda, e Castro ia de certo interrogal-a com toda a franqueza dos seus pulmões, quando viu, lá ao fundo da salêta, reluzirem os olhos do preto, como duas carochas em carvoeira. Como se não podesse supportar o magnetismo hediondo d'aquelles olhos, recolheu-se para dentro, murmurando:

—Eu quebro a cara ao preto! La está o patife a espreitar-me.

Eu estava de pachorra para tranquillisar a raiva do meu brioso amigo. Fiz-lhe vêr que os grandes triumphos custavam grandes heroismos de paciencia. Lembrei-lhe Annibal agatinhando as agruras dos Alpes; Colombo jogando o sopapo com a tripulação; Bonaparte comendo farinha de pau no deserto das piramides, etc. O meu amigo succumbiu perante os exemplos da historia, e resolveu tolerar com paciencia todas as caretas do preto.

«A ti o que te convem—disse-lhe eu—é relacionares-te com o Pantaleão. Tu não conheces o Miguel das Infuzas?

—Quem é o Miguel das Infuzas?{34}

«É um fidalgo do Porto, grande genealogico.

—Não conheço na nobliarchia portugueza esse appellido Infuzas.

«Tambem eu não; mas o appellido é acquisição feita pelo tal Miguel. Chamam-lhe o das Infuzas, porque elle, amador das artes, viu duas pequenas infuzas de prata n'uma ceia explendida dada ao general do Porto, e quando a occasião lhe foi propicia acondicionou-as o melhor que pôde nas algibeiras da casaca. Passado tempo, o proprietario das infelizes lobrigou-as em casa d'um usurario, e sabendo que o erudito genealogico as pozera no prego, divulgou o feito do illustre neto dos Teives e Couceiros e Moscosos. D'ahi em diante, a classe media associou as infuzas aos appellidos deslumbrantes do fidalgo, que continua a esmerilhar na genealogia do proximo um casamento desigual de quinto ou sexto avô, para, nos seus momentos de soberba aristocratica, mostrar aos primos uma nodoa na arvore deste ou d'aquelle que ousa chamar-lhe primo.

«Aqui tens o maior amigo de Pantaleão. Eu não posso apresentar-te porque não pertenço á roda, como sabes; mas tu que és irmão de morgado, procura-o com o fim de esclareceres uma duvida sobre o teu oitavo avô. Logo que fallares em oitavo avô, o homem manda-te sentar, e pergunta-te onde estás hospedado.

—E que diabo hei-de eu dizer-lhe do meu oitavo avô?!

«Inventa qualquer toleima... por exemplo: queres saber se teu oitavo avô instituiu uma capellania; queres saber se teu oitavo avô casou com a segunda ou terceira filha dos senhores de Panoias; queres saber se o teu oitavo avô foi casado com a tua oitava avó. Ha trinta mil cousas a saber d'um oitavo avô, pois não ha!

—Mas eu sei cá quem foi o meu oitavo avô?

«Isso elle t'o dirá. É capaz de te descobrir um joanete{35} que elle tinha no pé esquerdo. Conseguido o primeiro passo, pergunta-lhe se uma senhora da tua familia é exacto ter casado, ha 327 annos, na casa de Villar de Gaivotas, d'onde elle se diz muito parente. Consegue que elle te chame primo, e eu corto ambas as orelhas, se tu não casares com Hermenigilda, apesar de todas as caretas do preto.

—Tu nunca fallas serio, João! Devéras entendes que eu falle ao homem?

«Hoje, se é possivel. Isto são favas contadas. O Miguel das Infuzas vem jantar, todos os domingos, com o primo Pantaleão, e tu és apresentado no proximo domingo.

Castro foi á janella dispensar um sorriso a Hermenigilda.

Com grande espanto meu, a rubra menina, sem ser provocada a fallar, disse, affectando muito receio de ser ouvida:

«Posso fallar-vos daqui da janella, depois que meu pai e minha mãi estiverem deitados.

—A que horas?

«Ás nove.

—Ás nove!?—replicou elle maravilhado.

«Sim, sim,» tornou ella, e desappareceu.

—Isto vai bem!—exclamou Castro—Mas ás nove horas! tão cedo!

«Teu futuro sogro, meu amigo, segundo me disse a creada dos calcanhares gretados, come o seu caldo requentado ás sete horas, arrota até ás oito, deita-se ás oito e um quarto, adormece ás oito e meia, e ás nove é uma massa bruta, inerte, inamovivel. Bom é que vás sabendo o programa do teu futuro em casa do fidalgo d'Amarante. Ás oito horas has-de estar no thalamo conjugal com o barrete de retroz por cima das orelhas, e ás nove has-de resonar o mais estupidamente possivel, fazendo um dueto com tua mulher.{36}

—Estás enganado!—replicou elle—Se eu casasse com ella, pensas que me ia degradar na Amarante? Isso sim! Eu quero viajar á custa de minha mulher, e dar-lhe-hei a honra de me acompanhar. Que póde viver a mãi de Hermenigilda? Dous ou tres annos, quando muito. Logo que ella se resgate da gotta, está a filha de posse d'uma excellente casa. A do pai ella virá quando vier, e virá sempre a tempo de me dourar as cadeias. Queres tu viajar comnosco?

«Oh! pois não hei-de querer!? Havemos de ir a Vallongo, dia de Santo Antonio, e quando reunires ambas as casas de modo que possas cortar por largo, iremos a Vianna, á Senhora da Agonia! Que bello futuro!

—És um pateta!—redarguiu lisongeiramente o meu amigo.—Não se póde fallar serio comtigo! Vamos ao caso: visto que ella me falla ás nove horas, é escusado procurar a protecção do Miguel das Infuzas.

«Pateta és tu! Sem o Miguel das Infuzas não fazes nada. Se o teu fim fosse seduzir Hermenigilda, convinha-te sustentar o namoro clandestinamente, evitando relações com o pai. Mas tu queres casar, e casar com brevidade; precisas ser admittido ao gremio da familia; dar ao teu namoro um ar de honestidade boçal; cabecear com somno todos os dias, meia hora ao pé da noiva; jogar a bisca de nove com tua sogra, e representares, em fim, de palerma até ao dia em que se cruzarem definitivamente as raças. Não deixes, portanto, de procurar o Miguel das Infuzas. Vê o que ella te diz hoje, e ámanhã vai ao Porto saber alguma cousa do teu oitavo avô.»

Castro foi á janella trocar com Hermenigilda dous gatimanhos alvares, como são todos os gatimanhos preliminares d'uma grande asneira.{37}

VI.

Ás nove horas em ponto, Bento de Castro sahiu de minha casa, e plantou-se debaixo da janella do snr. Pantaleão. Eu apagára a luz, e espreitava pelos buracos da cortina o introito do rendez-vous. Espreitava, e escutava, não por mera curiosidade, porque não sou curioso, mas por utilidade propria, visto que me tinha encontrado em grandes apertos de eloquencia nos primeiros encontros com trinta e oito mulheres.

O leitor casto—(para não ser sempre pio), que chegou aos cincoenta annos sem experimentar os apuros de namorado na sua primeira entrevista, está muito longe de imaginar o que é uma agonia séria!

Eu, João Junior, em quem a Europa reconhece um espirito superior e mais um bocadinho, recordo hoje com vergonha a plangente figura que fiz, ha quarenta annos, diante dos meus namoros.

A primeira mulher que amei era uma dama de alto nascimento, que tivera bastante influencia no quartel general de lord Wellington, e jogára, por causa d'um ajudante{38} d'ordens do mesmo, o sopapo com uma viscondessa celebrada, cujos dentes, que foram bellos, passaram com os meus para o dominio da historia.

Esta dama, com os seus quarenta annos bons, era ainda formosa, e fallava admiravelmente sobre quasi tudo, e com especialidade sobre a acção immoral que a revolução franceza exercera, por tabella, nos salões lisbonenses. Dizia ella, com um riso sarcastico nos finos labios, que os inglezes vieram executar em Portugal as theorias livres da França. Acrescentava que o fardamento dos officiaes de Beresford conseguira das mulheres lusitanas, raça das Brites, e das Vilhenas, o que os romances de Voltaire, não poderam fazer.

Ora vejam que tal era a primeira mulher que me trouxe pela mão o travesso Cupido, que n'aquelle tempo estava no ministerio!

Foi aqui justamente na Foz que eu a vi, rodeada de satellites sufficientemente parvoinhos para perderem o centro de gravidade e cahirem no espaço infinito dos conquistadores aleijados.

Fiz-me importante aos seus olhos por lhe salvar uma cadellinha que escorregára do penedo d'Apollo ao mar. Apenas a vi em ancias, despi o casaco, metti-me até ao peito na agua, apanhei a cadellinha, que a ressaca levava para o mar, e, como Camões,

Dos procellosos baixos escapado,

vim lançar no regaço da afflicta dama a cadella gemebunda.

Fui bonito, como vêem, para casa! A nobre senhora quiz recolher-me no seu quartel, e eu, sem dar tempo a reiterados rogos, nem agradecer-lh'os, porque os queixos faziam uma traquinada diabolica, metti-me á cama, onde transpirei tres dias, bebi dez garrafas de tizana; puz no peito um arnez de pez de Borgonha, e ao cabo{39} d'uma semana fui deixar um bilhete á exc.ma dona da cadella, que mandára saber de mim todos os dias duas vezes.

Encontrando-me na praia, disse-me ella com muito agrado:

«Eu não me satisfaço com o seu bilhete. Sou mais ambiciosa. Quero que me dê o gosto de ir passar alguns momentos a minha casa, onde se joga, e ri, e conversa, depois d'um mau chá. Hoje poderei contar com a honra da sua visita?

—Oh minha senhora!...

«Não me deixe na duvida. Meus manos querem ter o gosto de o conhecer... (Em 1819 era assim que se dizia a um homem da minha roda. Hoje os manos de s. exc.ª, querendo conhecer-me, procuravam-me em minha casa. Que progresso immenso em quarenta annos!)

«Não nos falte! (proseguiu ella gesticulando seductoramente). Por me ter feito um grande favor, não se segue que me prive d'outros.

—Oh minha senhora!...

«Um grande favor, sim! Mal sabe o amor que tenho a esta cadellinha. É ingleza... foi-me enviada por um general britannico das minhas relações de infancia. (Nota: s. exc.ª tinha recebido a cadella em 1812; tinha ella então trinta e dous annos... que infancia! e que relações!) Calcule o impagavel serviço que recebi...

—Oh minha senhora!

Nunca pude passar desta apostrophe palerma: oh minha senhora!

Que idéa fará esta mulher da minha intelligencia? perguntava eu ao outro eu.

Com effeito, na noite desse dia apresentei-me em casa da exc.ma snr.ª D. Vicencia dos Anjos Albergaria Raposo Cogominho etc.

(Parece-me que vai sahindo grande estopada a historia!{40} Já agora, leitor, não queiras que eu perca duas tiras de papel, escriptas debaixo da inspiração saudosa dos tempos ridiculos!) Apenas entrei, fui rodeado de caras desconhecidas. Vi muita velharia femea sentada a um canto da sala. Fui lá fazer os meus comprimentos, e apenas uma se dignou bamboar um pouco a cabeça. As outras perguntavam á dona da casa quem era eu. Este quem é ignominioso passava de bocca em bocca, já depois que D. Vicencia dissera alto e bom som: «O snr. João Junior é o salvador intrepido da minha cadellinha.» Ser João, e salvar cadellas não era habilitação bastante para ser apresentado.

Deu-se-me pouca importancia; apenas o capellão me veio perguntar quem era, d'onde era, que modo de vida tinha.

O orgulho começou a picar-me, e eu respondi que era o que fôra antes de ser o que era. Que nascera em qualquer parte onde o acaso me fizera nascer. Que o meu modo de vida era viver de modo que podesse rir-me dos tolos que o acaso do nascimento fizesse mais tolos do que eu.

O capellão ficou atonito deste trocadilho insulso, e fêl-o mais parvo do que era, revelando-o aos hospedes de D. Vicencia.

Ella, porém, viera sentar-se ao meu lado, e animou-me a eloquencia com as liberdades da sua conversação.

Fallou-me no amor, e parecia mais bella, acalorada com o enthusiasmo deste grande assumpto. Perguntou-me se tinha amado, e se lhe fizera a ella o sacrificio de privar a minha amante d'alguns instantes felizes.

Respondi que apenas sahira da minha aldeia vinte dias antes, pela primeira vez, e não sentira ainda o que era amor.

«Sim!?—atalhou ella, abrindo muito os olhos scintillantes.

—Sim, minha senhora.

«Um coração virgem! É crivel! Qual será a feliz{41} mulher que se aqueça ás primeiras chammas da sua alma?

Esta metaphora pareceu-me magnifica e fez-me impressão! Se lhe respondesse, diria necessariamente uma futilidade chôcha. Calei-me, e, se bem me recordo, córei.

Se dispensam saber o resto, não leiam o capitulo seguinte.{42}

VII.

Pouco depois, tres morgados das margens do Tamega vieram sentar-se ao pé de D. Vicencia, e começaram a fallar de cavallos. Discutiu-se a pulmoeira d'uma egua ingleza, e os alifafes d'um alasão de Alter. D. Vicencia fallou d'um urco inglez que era o mimo quadrupede do quartel general do Beresford, e datou precisamente que em metade do seculo XVIII florescera o tronco d'um cavallo pigarço que lhe morrera d'um aguamento na estalagem de Vallongo.

Eu assisti estupidamente silencioso á pratica destes dignos Plutarcos de cavallos illustres. Se quizesse dar o meu obulo para a conversação, poderia apenas apresentar as minhas averiguações sobre quatro mataduras d'uma egua em que viera, graças á benevolencia prestante do meu abbade.

Á meia noite, um tio de D. Vicencia, conego da sé patriarchal, principiou a resonar a um canto da sala. A trombeta nazal do distincto ornamento da igreja era o signal do despejo. A nobreza destes reinos principiou a sahir,{43} e eu, depois de quatro curvaturas, correspondidas por quatro mesuras de alto a baixo, em que era soberanamente ridicula D. Vicencia, fui para o meu quartel, scismar na mulher, á luz d'uma bugia.

Devo confessar que me não sahia das orelhas o ecco destas dulcissimas palavras: «qual será a primeira mulher que aqueça as primeiras chammas da sua alma?» Esta honra de fogareiro, concedida pelos melhores quarenta annos que meus olhos viram, alvoroçou-me o sangue, e tirou-me a vontade da ceia, dôce amiga que até então me embalava nos sonhos deliciosos d'um Vitellio de meia tigella.

Vi duas vezes a mulher, em sonhos. Não sei porque, mas o sonho com a mulher que póde amar-se, essa casta idealisação em que o material do corpo não entra, faz que a gente accorde amando-a, revendo-a através da nuvem esvaecida do sonho, desfigurando-a por uns contornos vaporosos, que o leitor nunca viu, se Deus lhe fez o favor de lhe dar uma alma bem chata, do que lhe dou os meus sinceros parabens.

Rompia a manhã no horisonte purpurino do mar, quando eu saltei do leito da insomnia para o meio da rua. Senti que era poeta: alvoreceu-me nessa madrugada o furor das rimas, e, sem vaidade, confesso que escrevi d'uma enfiada vinte e tantas quadras, terminando todas por:

Meu amante coração.

É realmente um vacuo na historia da poesia moderna em Portugal a perda lastimavel do meu primeiro jacto metrico. Se bem me recordo, o meu poema poderia ter uma até duas, mas tres tolices em cada verso, isso posso eu asseverar que não aos poetas contemporaneos, que tem levado o seu talento creador a quatro, cinco, e mais. Como quer que fosse, eu glorio-me de ter feito obra que{44} muitos annos depois encontrei executada, com pequenas correcções, ao som da viola, fazendo as delicias d'um arraial.

Com a aurora da poesia veio a primeira nuvem das decepções amargas do poeta, e vem a ser que, estando eu persuadido que o poeta sahia do vulgar, entrava em convivencia com os sylphos, e, ipso facto, dispensava o almoço,—enganei-me redondamente. Ás nove horas e meia, quando o coração parecia ter feito monopolio da vida dos outros orgãos, começaram-me os intestinos a resoar uma symphonia de rugidos, que devia ser a da abertura d'uma opera muito séria. Fui a casa, e aquietei o motim intestinal, como os imperadores romanos aquietavam a canalha: panem, mas com manteiga, que os romanos não conheceram; o et circenses traduzi-lh'o em café com leite.

Consummada esta operação mixta, achei-me poeta em duplicado. Fiz um soneto excellente durante a digestão. Era um acrostico a Vicencia; mas como Vicencia tem só oito letras, e eu precisava de quatorze, venci a difficuldade, buscando entre os seus appellidos um com seis letras. Encontrei Raposo; por consequencia—VICENCIA RAPOSO!

Era um bello soneto, que será publicado na 2.ª edição, para não alterar a ordem delineada da 1.ª Perfilei-me na praia, eram dez horas e vinte e cinco minutos. O coração dava-me cambalhotas no peito, quando a vanguarda de D. Vicencia, composta de paspalhões, appareceu na calçada. Nisto, desponta a cadellinha, que eu amava quanto é possivel amar-se uma cadella que nos proporciona o namoro com a dona. Depois... ELLA!

Então é que foi! Eu já não sabia o que havia de fazer das mãos! Parecia-me que a perna direita era um membro incommodativo. Os hombros encolhiam-se-me, e os braços procuravam, entre todas, a postura mais desengraçada!{45} D. Vicencia cortejou-me de longe, e eu, querendo corresponder-lhe, tirei o chapéo tanto á pressa que me ficou metade do forro em volta da testa, como uma aureola de marroquim vermelho. Attribulado com os sorrisos de quatro petimetres que me estavam ao lado, quiz dar-me uma compostura geral ao corpo para os encarar com sobresenho, e resvalou-me um pé na aresta d'uma fraga. Dobraram a risada os peralvilhos, e eu, emparvecido, cosi-me com uma barraca, desejando n'aquelle instante bifurcar-me na egua ulcerosa do abbade, e demandar o patrio ninho.

Não o quiz assim a minha desventura.

D. Vicencia não testemunhára a minha segunda catastrophe, graças ao cumprimento d'um adventicio. Quando eu me escoava subtilmente por entre as barracas, não pude deixar de envesgar um olho miserando sobre Vicencia. Viu-me! procurava-me com aquelle ar desdenhoso das mulheres espertas, que parecem não querer vêr o homem que mais procuram. Ora, Vicencia, além de esperta, tinha um uso!... Não fallemos disso!

O magnetismo d'aquelle olhar collou-me os pés á areia como os da estatua do idiotismo! Sorriu-me com o mais amavel dos desleixos, brincando com as borlas do seu elegante casaco, roupão, ou como é que se chamava, de castorina côr de rato! Eu tomei a brincadeira das borlas como um acêno, e penso que me não enganei. Este espirito sagaz é uma cousa muito velha em mim!

Fui-me aproximando disfarçadamente. Vicencia, com mais subtil disfarce, deixou o grupo dos senhores donatarios que regougavam as suas tolices habituaes. Foi sentar-se solitaria ao pé d'uma barraca, e eu, tremulo de susto, fingindo quanto pude um animo frio que mais me denunciava, avisinhei-me com o chapéo na mão.

—Como passou a noite, snr. João Junior?—acudiu ella ao meu embaraço.

«Muito obrigado, minha senhora...—gaguejei eu.{46}

—Passou bem, não é assim?

Creio que fiz um tregeito parvo com os beiços, no qual tregeito queria eu significar-lhe que não passára lá grande cousa.

—Então passou mal?—tornou ella.

Uma idéa, distinctamente tola, me acudiu de improviso á mente. Julguei do meu dever não atraiçoar o legitimo sentimento de ternura que ella fizera nascer. Revesti-me da bravura moral que o amor inspira a todos os patetas bisonhos, e respondi bruscamente:

«Quem sonha com o objecto amado não passa bem.»

Nos labios de Vicencia esvoaçou um riso imperceptivel. Ainda hoje me dá muito que pensar aquelle riso! Acho, aqui para nós, que a generosa mulher satisfez com aquelle riso ao estimulo de uma conscienciosa gargalhada.

—Pois o senhor não me disse ainda hontem que não amava?

«É verdade, minha senhora... mas... lá vem a maré...

—Vem a maré?! (disse ella) a que horas virá ella hoje? Tanto queria tomar banho cedo!

Imaginem, pios leitores, com que cara eu ficaria!{47}

VIII.

—Eu não fallava na maré do mar, minha senhora...

«Ah... não? eu pensava...

—Queria eu dizer que... o coração muda d'um instante para o outro.

«Agora entendo! Ora sente-se...

E eu sentei-me, resolvido a ser homem; mas a cadeira era baixinha e eu fiquei virtualmente sentado como um macaco. Quiz accommodar uma perna sobre a outra; mas o meu mestre de rhetorica tinha-me dito que era signal de má criação cruzar as pernas. Desejei n'aquelle momento angustiado ter nascido na Laponia, ou encurtar em corpo na razão directa da pequenez do espirito. Experimentei variadas attitudes: uma vez, ficava-me o pé direito em aleijão; outras, o joelho esquerdo formava com o direito o apice d'um triangulo isosceles. Resolvi, por fim, estender uma perna, e encurvar a outra em fórma de fateixa. Isto em quanto ás extremidades inferiores; mas a anathomia prova que o Creador tambem fez as extremidades superiores para castigo de amantes garraios. A mão direita andou{48} longo tempo em busca de uma posição, desde o seio do collete até ao joelho; por fim, metti-a na algibeira. A esquerda inutilisei-a entre as costas e a cadeira. Definida a minha posição, immobilisei-me nesta caricatura, como se fosse de greda. Desviei as minhas attenções plasticas do corpo, e fiz-me todo espirito, para destruir o mau effeito do involucro.

—Não toma banhos?—disse D. Vicencia, como se eu lhe tivesse aguado as bellas cousas que tencionava dizer-me.

«Sim, minha senhora, já tenho vinte banhos.

—Soffre dos nervos?... É um terrivel padecimento...

«Eu tambem soffro bastante dos intestinos» atalhei eu com toda a ingenuidade.

—Sim? Ainda ha peores enfermidades... As do coração é que não se curam.

«E v. exc.ª padece do coração?—disse eu com sincera condolencia.

—Muito...

«Algum aneurisma?

—Aneurisma moral... que é o peior de todos. O snr. João Junior ha-de soffrel-o tambem quando chegar a sua hora.

«Por em quanto, não sinto dôres de peito, minha senhora. O meu mal é todo de intestinos.

—O coração—tornou ella sorrindo de um modo celebre—o coração tambem é um intestino.

«Ha-de perdoar, minha senhora; mas os intestinos estão por debaixo do estomago. Tenho um tio cirurgião que sabe perfeitamente a anatomia, e nunca lhe ouvi dizer que o coração era um intestino.

D. Vicencia ria desafinadamente. Eu estava um pouco enfiado e corrido deste mau gosto de discutir ás gargalhadas.

«De que se ri v. exc.ª?»—interpellei eu, desarranjando{49} um pouco a minha attitude, que tanta arte me custára, e tanto me custou a restaurar.

—Eu rio-me da boa fé com que o senhor enrista a lança em defesa da anatomia do seu tio. Eu tenho fallado em estylo allegorico. O snr. João Junior sabe perfeitamente o que é allegoria.

«Pois não sei?—repliquei eu com ar de triumpho—Allegoria est tropus... V. exc.ª sabe latim?

—Não, não sei.

«Eu traduzo: Allegoria é o tropo, por meio do qual se mostra nas palavras uma cousa differente da que se tem no pensamento, empregando todavia, para designar esta ultima, outra que com ella se assemelhe. Ha duas especies de Allegoria, que são: a total, e a... V. exc.ª ri-se? Cuida que eu estou a mentir?

—Não cuido; peço-lhe que não repare nos meus risos. Eu estou folgando de ouvir um sabio...

«Sabio, não digo; mas ainda não ha tres mezes que eu estudei o meu Quintilliano...

—E sabe-o de cór... Qual é o seu destino? tenciona ser frade?

«Não, minha senhora... Eu parece-me que não sirvo para a vida ecclesiastica. Meu pai quer que eu seja frade Bernardo; mas eu... acho que não se póde ser bom frade, quando se fazem versos.

—Pois o senhor é poeta?

«Tenho minha tal ou qual inclinação para isso.

—Ha-de dar-me uma amostra da sua musa. Tem algum poema escripto na Foz, cantando o Neptuno, e as deusas do mar?

«Ainda não escrevi nada sobre Neptuno; mas se v. exc.ª ordena, farei uns versos a esse assumpto. Hoje escrevi eu umas quadras e um soneto, que deixei em casa.

—Deixou em casa? que pena! Não se lembra de alguns versos?{50}

«Não, minha senhora.

—Qual foi o motivo?

«O motivo... o motivo...—gaguejei eu, esfregando os dedos da mão esquerda na palma da mão direita—O motivo... bem sabe v. exc.ª qual foi...

—Eu!... não sei! Talvez a bravura com que o senhor salvou a minha cadellinha!...

«Qual cadellinha!? Ora! não fallemos n'isso... Os versos foram feitos... a v. exc.ª

—A mim?! Dobrada razão para lh'os pedir. O que me pertence não póde ser retido, em seu poder, sem meu consentimento. Vá já buscar os meus versos, snr. João Junior, e leve-m'os a minha casa, sim?

Ergui-me da infernal cadeira radioso de gloria! Da praia a minha casa não vi ninguem. Caminhava sobre flores d'um perfume embriagante. Tudo me parecia azul-celeste. O coração dava encontrões na estreita bocêta do peito. Cheguei a persuadir-me que estava curado dos intestinos.

Fatalidade! O extremo d'um grande prazer é um desgosto. Procurei os meus versos que deixára sobre a banca, e não os vi. Corro á cozinha, e interrogo uma velha, que me acompanhára de casa. Pergunto-lhe pelos meus poemas, e ella arregala os olhos enviezados de marroquim, sem saber o que eu procuro. Insto pelos meus papeis, e a incendiaria diz-me que, á mingua de carqueja, accendera o fogão com uns papellitos que achára sobre a mesa.

Senti a cruenta precisão de matar esta velha! Injectaram-se-me os olhos de idéas assassinas. Traquinaram-me os queixos convulsivos de raiva. Entrou em mim o delirium tremens... Foi a imagem de Vicencia que me salvou... se não... ai da velha! e ai de mim tambem!

Sahi, fui-me empoleirar no penedo mais hirsuto dos Carreiros, bebi a longos tragos a inspiração, reproduzi as idéas da poesia supplementar á carqueja, e outras novas{51} suggeridas por um novo ardor. Ó poder do genio! Cento e vinte versos, repartidos em quadras, a inspiração ejaculou d'um vomito! Escriptos a lapis, trasladei-os em papel de peso na loja d'um tendeiro. Corri a casa de D. Vicencia. Annunciei-lhe a catastrophe da 1.ª edição, que a fez rir muito. Deixei-a lêr mentalmente a segunda, e não ousei procurar no semblante d'ella a denuncia da sensação que lhe faziam.

Lido o poema, D. Vicencia, séria, magestosa, e commovida, sentou-se, fez-me sentar, por um gesto, junto de si, e murmurou estas palavras que nunca, através de trinta annos, pude esquecer:

—O senhor fez-me rir hoje; mas os seus versos fazem-me pensar com mais seriedade do que eu queria. O senhor é uma criança de coração, annunciando talento e infortunio. É um innocente que fará rir, antes que o ensinem a chorar... Agradeço os seus versos, os seus sentimentos, e o offerecimento do seu coração.

Felizmente para mim entrou gente na sala.

O capitulo seguinte não sei se terei a coragem de escrevêl-o! Vou lêr alguns das Confissões de J. J. Rousseau para me animar.{52}

IX.

Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos da lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas de prata. Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua não diffundia o seu clarão, perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao cabo de contas, vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do redil para os casebres, ou desciam dos casebres para onde elles queriam, cousa de que não faço questão.

E eu fitára os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso; quadro indecifravel desde o cháos, provocação eterna ao orgulho do verme chamado homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas, a taboinha juncada de soberbos tyrannos da terra, que lá se confundem com a folhagem das algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu espirito, desatado do poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do céo, voejou de mundo para mundo, librou-se na paragem luminosa das chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de D. Vicencia.{53}

Eram dez horas da noite.

Sahi de minha casa, com a phantasia arrobada de delicias, e achei-me machinalmente debaixo d'um caramanchão de faias e loureiros que abobadavam uma janella aberta no angulo do jardim de D. Vicencia.

Os raios da lua, dardejando sobre a copa do miradouro, matisavam-na de tremula folhagem de prata, e vinham, filtrando por entre os rotulos da janella, mosquear a relva como a pelle da zebelina. Era muito para ver-se tudo isto que eu, exacto retratista da natureza, vou pintando de modo que o leitor parece-lhe que o está vendo. É o que se quer.

Sentei-me defronte desta como gruta de fadas, e imaginei o que ha mais bello em Ossian, em Hoffmann, e nos contos orientaes, que eu, com vergonha o confesso, não tinha visto, nem vi depois; mas, nestes ultimos tempos, é preciso ser grande alarve para não saber tudo isto e muitas cousas mais, lendo os folhetins dos meus amigos, sabedores de tudo, conhecedores de todos os nomes distinctos, á excepção do Lobato, e do Madureira, menos euphonicos que Macpherson, Goethe, Klopstock, e outros, que elles conhecem, como eu, dos catalogos da bibliotheca Charpentier.

Estava eu, pois, nesta idealisação de todos os meus cinco sentidos, divinisando aquella gruta, onde de tarde vira Vicencia com a face voltada para o sol-poente, apoiada com geito encantador na mão eburnea.

Devo, para desarmar a critica, protestar contra o epitheto eburnea. Entrou commigo a peste litteraria dos modernos torneiros de paragraphos. Arredondar o periodo é a condição imposta pela tyrannia do gosto ao escrevinhador laureado. Eu canto o que escrevo; e, se a toada me destoa no tympano, desmancho a oração em partes, ajusto-as de novo, calafeto-as de artigos, e pronomes, e conjunções, o mais afrancezadamente que posso, e sahe-me a{54} cousa um pouco inintelligivel, mas harmoniosa como um clarinete de romeiro de S. Torquato de Guimarães.

Com geito encantador na mão eburnea: reparem que é um verso hendecasyllabo. Quem ha ahi que arredonde melhor um periodo, sem desnaturar a lingua, nem alastrar o verso de cunhas que resabem a estrangeirice?

Tudo isto veio adrêde (eu traduzo: á-propos) para dizer que, estando eu com os olhos embevecidos nas melenas das faias, abriu-se subitamente a janella, e a lua deu de chapa na radiosa cara de D. Vicencia.

Viu-me, e não me conheceu: ia retirar-se quando eu, ainda absorto na apparição, tossi o mais melicamente que pude. Vicencia deu ares de conhecer-me. Eu, invocando todos os potentados da minha alma (não seja sempre potencias) para vencer o acanhamento, murmurei:

«Sou eu...

—É o snr. João?

«É verdade, minha senhora.

—Então que faz por aqui?! versos?

«Estava a admirar a natureza, minha senhora.

—E admiravel que ella está!

«Muito admiravel, admirabilissima! muito bonita é a natureza!

—Eu tambem quiz ver o mar onde a lua se espelha tão poeticamente! Mas a noite vai arrefecendo; e eu receio muito as constipações á beira-mar. Se me dá licença, recolho-me...

«Pois eu ainda fico... Estou gostando muito desta encantadora noite... Quem ama, não tem medo ás constipações...

Estas palavras proferi-as com certa entonação de despeito, e fiquei satisfeito da minha veia epigrammatica. Vicencia, porém, redarguiu:

—O logar é incompetente para fallar d'amores. Quem nos visse aqui a deshoras suspeitaria de nós. Nada de escandalos,{55} snr. João Junior. Venha cá ámanhã, e então me dirá o effeito que lhe fez o poetico espectaculo desta formosa noite; mas... se valho alguma cousa na sua vontade, peço-lhe que se recolha, e não queira privar-se de me ver ámanhã, constipando-se hoje... Promette ir?

«Sim, minha senhora...

—Então, boas noites.

E fechou o rotulo, mais depressa, por sentir passos na extremidade da travessa, que era de pouquissima passagem.

Eu permaneci quieto no meu sitio, meditando, triste, na indifferença gélida com que fôra recebido, em hora tão romantica, tão mysteriosa! N'isto, passou por mim um vulto. Era o homem, cujos passos a fizeram fugir com mais presteza.

O tal vulto, ao perpassar por mim, mediu-me d'alto abaixo, afrouxando o piso. Olhou para a janella de Vicencia, e fixou-me de novo. Deu alguns passos, e retrocedeu... Confesso que já não estava contente!

O encapotado foi até á extremidade do bêcco, e voltou. Parou diante de mim, e disse por debaixo do capote, em ar de tyranno de tragedia:

—Que quer vossê aqui?

«Não quero nada...—gaguejei eu.

—Pois então, mude-se.

Eu demorava um pouco a execução do mandado solemne de despejo, quando o homem recalcitrou:

—Mude-se, ou eu o ajudo a mudar.

A ajuda, pelos modos, era uma pranchada de chanfana, que o nosso amigo deixou vêr por debaixo da fimbria do capote. Dispensei o auxilio offerecido, e retirei-me cozido com a parede, scismando nas bellezas appensas a uma noite de lua cheia á beira mar.

Ao cabo da viella parei, sustido por um pensamento negro. «Será aquelle homem um amante de Vicencia?!»{56}

O ciume deu-me intrepidez, quero dizer—a intrepidez de parar e esconder-me d'onde podesse espreitar a scena mais escandalosa de que o leitor tem noticia!

A janella abriu-se. Era Vicencia... conheci-lhe a voz! Não sei o que ella disse que fez rir o meu rival. Ouvi o soido de ferro que raspava no peitoril da janella! eram os ganchos d'uma escada. Ouvi o som cavo do embrulho de cordas a cahir na terra. Vi o maldito subir, coar-se pela janella, recolher a corda... e... maldição! maldição!...


E, desde essa noite nefasta, a minha fronte pendeu abatida como cabeça de estatua que um raio fulminou.

Contei as minhas amarguras á vaga gemente, e acordei os eccos das solidões compadecidas.

Como Fausto, como Manfredo, e como Werther, perguntei ao Creador se a vida não era uma grande patacuada.

O demonio do suicidio segredou-me as delicias do aniquilamento.

Quiz tentar contra a minha existencia, e vacillei longo tempo na escolha do instrumento.

Queria um genero de morte novo, maravilhoso, inaudito, e memorando!

A pistola, o punhal, o laço, a asfixia, o verdete eram já n'esse tempo expedientes muito safados.

Em cata d'um morrer distincto, habituei-me á dôr. Vivi, se vida póde chamar-se este mixto de funcções animaes em que predomina o almoço, o jantar, e a ceia.

Não se conhecia então o instrumento de suicidio que a sociedade actual inventou: O ARTIGO DE FUNDO.{57}

X.

Eu, João Junior, não soffro os romancistas que pulam d'um capitulo para outro, de modo que o romance tanto faz principial-o detraz para diante como de diante para traz. Classico em toda a extensão da palavra, respeito a arte antiga, admiro a boa ordem das Pastoris de Longus, do Jumento de Lucius de Patras, e outros venerandos monumentos da arte adulta, cuja leitura não aconselho áquelles que dormem as suas horas, sem o recurso do láudanum. Com quanto Aristoteles, Horacio, Pope, e Boileau não legislassem para o romance, eu, sincero venerador da arte que ensina a fazer os primores d'arte, trabalho, quanto em mim cabe, por introduzir no romance as tres unidades de Aristoteles. E aproveito a occasião para certificar aos principiantes n'este esperançoso ramo de litteratura, que é bom saber um bocado de Aristoteles, depois de ter lido duas comedias de Scribe, a Dama das Camelias, e—se o principiante fôr extremamente estudioso—o Chatterton, o Bug Jargal, afóra a immensa erudição que vem no La Place. Com estes seis volumes, uma capacidade mediocre{58} abrange todas as ramificações da sciencia humana, e póde, se um editor martyr o ajudar, aos quarenta annos, ter produzido quarenta volumes.

Os meus quarenta annos já lá vão ha muito; mas, se Deus me der mais dez, prometto encher o vasio que sempre deixa na terra um grande nome. É este o primeiro livro com que brindo a humanidade; mas tão maduramente pensado elle vai, tanto tempo o choquei, antes do parto, no utero intellectual, que, se me não logra a vaidade, começo por onde muitos acabam.

A logica com que os capitulos anteriores vão coordenados, a naturalidade das transições, o alinho das fórmas em harmonia com a substancia, a intima alliança da esthetica com a plastica, a artistica rigidez com que os caracteres se pintam, e, sobre tudo, a pureza, a elegancia, o atticismo, a propriedade da linguagem, portugueza de lei como os portuguezes d'esta nossa afortunada época, tudo isso, e outras louçanias que omitto, por preguiça, provam que eu, João Junior, conheço Aristoteles; e, se nunca o li, maior habilidade revelo; tenho o sexto sentido, o illuminismo, que tambem não sei bem o que é. Pelo que, muito importa que o leitor saiba

Quem era o homem da escada de ferro, o que elle por lá fazia áquellas horas, e de como o author, depois de trinta annos, chora por D. Vicencia, e o mais que a este respeito se disser, como do capitulo melhor se verá.

Deveis de saber, leitores pudicos, que D. Vicencia Raposo, quando chegou á Foz, sentiu, na presença do occeano, rejuvenescer-se o coração, desenrugar-se-lhe a alma, e esvoaçarem-lhe de redor candidos amorinhos. Souvent l'onde irrite la flamme, disse Corneille, e D. Vicencia, aspirando o ar nitrico do mar, cobrou vigor de peito, e com o vigor novo readquiriu as necessidades velhas, as illusões{59} de 1801, as realidades de 1809, e até o amargo prazer de experimentar os desenganos de 1819, época da sua fatal decadencia.

Resolvida a amar, Vicencia espartilhou-se o mais angustiosamente que pôde, distribuiu nas faces, um pouco encortiçadas, dous escropulos de alvaiade com outros tantos de carmim, e foi passear até Carreiros.

O primeiro homem que viu geitoso era um cadete de cavallaria, bem apessoado, bizarro de cintura, sadio de bochechas, e lesto de maneiras, requebros, posturas, e varias outras momices que dão nos olhos da mulher disposta a amar.

D. Vicencia era vistosa e farfalhuda. Meneava-se tregeitando com tamanha volupia, que eram poucos os dous olhos da cara para a vêrem! O cadete não podia ser indifferente á provocação, e azado era elle para segurar a fortuna pelos cabellos. Menos parvo que eu, sacou do peitilho da fardeta o seu lenço branco, e deu ao nariz notas diplomaticas para iniciar o namoro. Houve de parte a parte correspondencia nazal, e já n'essa tarde o afortunado cadete foi apresentado a D. Vicencia.

Saibam desde já que o meu rival era... são lá capazes de adivinhar!... Bento de Castro.

Depois d'aquella negregada scena do bêco, será ocioso dizer-lhes que o meu achaque de intestinos recrudesceu; aliás, para evitar os olhos da perfida, ter-me-hia retirado a curar o coração no abrigo dos meus velhos, que todas as semanas me recommendavam que rezasse as minhas contas, e não fizesse asneiras. A gravidade do mal não me deixava assentar no albardão, apesar de doze semicupios! Era-me forçoso testemunhar a minha derrota, assistir aos funeraes ignobeis do meu primeiro amor.

Nunca mais fui a casa de D. Vicencia, nunca mais a vi; mas á hora em que o mocho pia no galho do azevinho, ia eu, cheio da minha amargura, sentar-me n'uma collina fronteira ás janellas d'ella, e d'ahi, com um enorme oculo{60} de papelão, conseguia lobrigal-a através das vidraças.

Se quereis saber qual era então a minha angustia, perguntai á onda porque geme, á fonte porque murmura, e á calhandra porque pipila entre as franças de avellanzeira! É que a minha angustia era vaga e mysteriosa como a da onda que geme, a da fonte que murmura, como a da calhandra, e a do calhandro, e de toda a variedade de animaes que tem bico, ou barbatanas, ou tromba, ou labios, ou qualquer orificio respiratorio por onde possam respirar e gemer.

Entrou em mim o demonio do ciume! Quando, pela primeira vez, se hospedou em minha alma virgem esta paixão filha do inferno, como lhe chama Homero, fez-se uma subita mudança na minha natureza. Eu fôra incapaz de entalar o rabo d'um gato, e senti-me propenso a cercear as orelhas a um homem! Levaria tres sôcos sem resistencia para não levar o quarto, com heroismo, e achava-me animado d'esse furor das batalhas, que ceifa louros e cabeças!

Quiz conhecer, encontrar face a face o meu rival, e, para isso, muni-me do cabo d'uma vassoura, estive quasi a experimental-o no cavername da velha, que me queria tolher o passo, guinchando desabridamente, e fui postar-me debaixo da janella por onde o vulto subira.

Depois de duas noites mallogradas, á terceira apparece, entre uma hora e duas da manhã, o nosso homem.

Aqui entre nós que ninguem nos ouve: quando o vi perto de mim, a minha coragem pareceu-me uma cousa muito duvidosa. Deram-me caimbras nas pernas, e senti-me mal do epygastrico! Cingi a mim quanto pude o cabo da vassoura, para que elle não denunciasse as minhas tenções reconsideradas, e, o mais subtilmente que é possivel, fiz uma pirueta, preparando-me para uma retirada honrosa, quando o sujeito me corta a vanguarda, e diz com voz soturna:

«Que diabo estava o senhor alli fazendo?!{61}

—Nada...—regouguei eu.

«Isso não é possivel. O senhor não estava alli para me vêr passar... Não se assuste que eu não lhe faço mal... Diga lá o que me quer.

O timbre agradavel d'estas palavras animou-me.

—Eu ao senhor não lhe quero nada.

«Ora venha cá;—tornou elle—vamos passear e conversar. O senhor chama-se João Junior.

—Seu criado.

«Quiz namorar D. Vicencia.

—Isso lá... é conforme...

«Seja sincero. O senhor fez-lhe versos, versos que eu achei bonitos, e conservo-os na minha carteira, porque talvez ainda me valham se me vir apertado por alguma mulher com a mania de ser cantada em quadras. O senhor está muito verde... Estas mulheres não se conquistam com versos, nem se procuram no principio da vida. O snr. João é provinciano, vem lá da sua quinta com as bucolicas do Rodrigues Lobo na cabeça; e, como não encontrou zagalas toucadas de flores, imaginou que D. Vicencia era uma das tres Graças em uso de banhos. Redondamente enganado, meu amiguinho. Ora agora, façamos um convenio. Quer o senhor que eu lhe deixe livre o campo para as suas escaramuças? Com a melhor vontade...

—Nada, muito obrigado, eu não quero saber de mais nada... O que eu tenho a pedir-lhe é os meus versos.

«Ha-de ter paciencia; mas os seus versos acho-os muito bonitos, e não lh'os dou. Até lhe digo mais: depois que os li, fiquei sympathisando com o author, e tenho feito diligencias por encontral-o na praia, ou em casa de D. Vicencia. Queria dizer-lhe que se não deixe lograr por taes mulheres; queria ensinal-o a viver com esta gente, para o poupar aos desgostos que eu supportei, desde que sahi de minha casa; queria, em fim, ser seu amigo, se o senhor não tivesse n'isso antypathias que vencer.{62}

—Muito obrigado...—mastiguei eu, bem disposto a favor de homem tão franco.

E voluntariamente me deixei ir pelo braço delle até sua casa. Subi, e era dia claro quando nos separamos, amigos para sempre.

Dous annos depois, recebia elle de mim lições de savoir-vivre. O meu talento precoce predominou a experiencia d'elle. Um anno de tracto social, decifrou-me enigmas em que Bento de Castro ainda hoje sinca.

Duas palavras mais ácerca de D. Vicencia, e serão ellas sérias e tiradas do coração n'um intervallo de negra tristeza.

A mulher devia ser velha quando não sente o coração... quando já não ama. Vicencia amou até o fim da vida. Amargurado fim de vida devia ser o seu! Nem já flôres desmaiadas lhe escondiam a fronte encanecida. Perdido o brilho, amorteceram-se-lhe os olhos, franziram-se-lhe as palpebras, encorreou-se-lhe o collo, e as mãos, que tão lindas foram, tingiu-as a amarellidão do tempo.

E o coração ainda vivo no involucro muribundo! Era como a flamma que não póde coar-se nos vidros embaciados da velha lampada.

Foi, por fim, motivo de irrisão e mofa, aquella mulher, que, desde os doze até aos quarenta e cinco annos, arrancára coroas de quantas rivaes quiz supplantar!

De todos os seus amantes, eu fui por ventura o mais nobre, e o mais vilipendiado. Embora! Nenhum outro lhe daria o salve compassivo que eu lhe dou, depois de trinta annos.


Oh vida! vida!.............................


Grandes devem ter sido as provações de quem souber tilintar os guizos do histrião para que lhe não ouçam os gemidos!...

Chorar no coração, e rir no espirito...{63}

XI.

Consta do final d'um capitulo, escripto em logar competente deste exemplar romance, que Bento de Castro sahiu de minha casa para entabolar com Hermenigilda o seu primeiro colloquio.

Eu cerrei as portadas da janella, deixando apenas uma fresta onde podesse encaixilhar a orelha direita, sem denunciar a innocente espionagem. Alguns dos meus amigos, orelhudos como Midas, não poderiam fazer outro tanto com o mesmo recato.

Bento foi quem primeiro teve a palavra, e disse:

—É tal o prazer que me enche o coração, amada Hermenigilda, que não posso exprimir-vos quanto por vós sinto, desde o ditoso instante em que vêr-vos e adorar-vos foi obra d'um momento. O sentimento que meu terno peito nutre por vós, acaso ao vosso terá passado?

ELLA.

Eu passei bem, e o senhor?{64}

ELLE (atordoado como se lhe despejassem de cima um balde.)

Como passará bem do corpo quem arde em vivas chammas de amor?

ELLA.

O senhor tambem sabe cantar a modinha das vivas chammas d'amor?

ELLE.

Nada, não sei.

ELLA.

Minha prima Carlota canta que é um regalinho ouvil-a.

Althea, mimosa Althea
Me maltractas com rigor,
E eu por ti ardendo sempre
Em vivas chammas d'amor.

Pois o senhor não sabia este soneto?

EU (mentalmente.)

É d'uma estupidez fabulosa! Ó pobre Bento, como estará a tua alma!... Haverá d'estas mulheres, passados trinta annos? Digo que não, em honra do progresso. Alguns annos mais, e Paulo de Kock, e Pigault Lebrun, e outros directores espirituaes, traduzidos em vernaculo, darão aos namoros de nossas filhas occasião de ouvirem menos tolices. Os que amarem em 1856, devem passar horas muito agradaveis! As mulheres de então, ricas de prendas espirituaes, saberão dizer toillette, rendez-vous, petit-point,{65} crochet, soirée, boucles, papier-satin, enveloppe, e outros ornamentos de lingua com que farão a sua maior, mais fecunda, mais grulha e tagarella. Com a superabundancia do idioma, augmentarão as idêas, na razão directa. A psycologia estará no auge. Mestre Spinosa e Kant encarnarão nas costas abauladas da prole de qualquer jarreta. A mulher saberá os escaninhos da alma como a abelha os do cortiço. Não haverá uma só que possa, com acerto, chamar-se tola. Perfeita de espirito, attenderá ás imperfeições corporeas, e descontente da massa insufficiente que o grande Artifice empregou na feitura d'ella, apropriar-se-ha o algodão necessario para que o Creador soffra um quinau. A mulher, correcta e augmentada, em alma e algodão, será o luxo da natureza, a boneca das creanças-decrepitas, o ouro cendrado no cadinho das humanas miserias, o melhor pedaço de carne e osso que Deus creou, a mais flacida aba de algodão e barbas de baleia que as manufacturas celestes podiam dar-nos.

ELLE (despeitado).

Não fallemos nas cantigas de vossa prima; o que importa é saber se me tendes um affecto igual ao meu.

ELLA.

Isso lá... veremos. Se meu pai disser que sim...

ELLE.

Pois vosso pái é que vos manda amar?

ELLA.

O que elle diz é o que se faz. Casamentos não me faltam. Tem-me pedido muitos senhores de casa, e se elle diz que não...{66}

ELLE.

Mas, eu não pergunto se quereis casar commigo.

ELLA.

Então?! Se não quereis casar commigo, vindes enganado.

ELLE.

Quero casar comvosco; mas primeiro devo experimentar...

ELLA.

O que?

ELLE.

O vosso coração. Quero ser amado antes de ser vosso marido. Que sentis por mim?

ELLA.

Sinto muito bem, gosto de vos vêr, e se meu pai quizesse, eu de mim tambem queria ser vossa esposa.

ELLE.

A minha carta que impressão vos fez?

ELLA.

Fez-me muita: está muito bonita; parece mesmo que é cousa de livros de historias. Tenho lá em casa, na Amarante, um livro chamado os Cantos de Trancoso, e outro chamado as Aventuras de Theofilos, ou Theofanius, ou uma palavra assim, que trazem muitos palavriados assim.

ELLE (com a voz suffocada por um vomito moral).

Boas noites, menina.{67}

ELLA.

Então passe muito bem, até ámanhã, se Deus quizer.

Bento de Castro entrou no meu quarto com as mãos agarradas á cabeça. Eu estava sobre a cama, marinhando com as pernas parede acima, arquejando de riso, rebentando pelas ilhargas, quando o pobre homem entrou.

«Pois tu ouviste?—disse elle.

—Tudo! está vingada D. Vicencia, e eu tambem. Suicida-te, meu infeliz Bento! Um homem que encontrou similhante Hermenigilda, deve morrer de tedio, de vergonha, de raiva, de odio ao genero humano em geral, e ás mulheres em particular!

«Estás enganado—atalhou elle—gosto assim de vêr a estupidez no seu estado de perfeição primitiva. Andava eu morto por encontrar a mulher como ella foi no tempo em que se comiam bolotas e medronhos. Pensas que arrefeci na empreza? Não tenhas medo. É uma mulher deliciosa para um homem que quer casar-se rico, e desligar-se das obrigações que se contrahem matrimonialmente com uma mulher que tem alma. Alli onde a vês, se eu tiver a duvidosa felicidade de a obter do pai, é a unica mulher que me convém. Ha-de ser uma excellente criadora de porcos, e se eu lhe disser que saia da Amarante para viajar commigo dá-lhe um desmaio. Tomaram muitos encontrar a innocencia d'ella! Aquillo é tudo materia pura e estreme como a dá a madre natureza. Eu corto o pescoço, se ella tem resquicio de maldade!

Castro continuava o elogio de Hermenigilda, quando ouviu vozear alto em casa d'ella. Fomos á janella, e vimos Pantaleão embrulhado n'um cobertor com um toco de sêbo acceso na mão, chamando Hermenigilda a grandes berros. Vimol-o chegar, e o pai perguntou-lhe o que estivera ella fazendo n'aquella janella. Hermenigilda negou, e o preto foi chamado para dizer que a ouvira estar fallando com{68} um homem que costumava fazer-lhe acenos da janella fronteira.

Pantaleão, com o cobertor a rastos, solemne como um patriarcha do Levitico, aproximou-se da filha cabisbaixa, deu-lhe um sonoro pontapé, e perguntou-lhe quem era o sujeito que fallava. A desastrada moçoila tartamudeou, e, receosa da segunda carga, disse que elle lhe tinha escripto para o bom fim. O pai disse que queria vêr a carta. Hermenigilda sahiu d'alli; Pantaleão, no accesso da colera, deixou cahir o coto de sêbo, e ficou em trevas.

Não podemos vêr nem ouvir o desenlace da scena.

«O peor é que a minha carta está assignada!—disse Castro.

No dia seguinte, disseram-me, quando me levantei, que Pantaleão estava na janella desde o romper do dia.

Fui á janella, e fiz-lhe, como costumava, a minha cortezia, posto que elle correspondia com desagrado á minha civilidade, desde que me viu fazer á moça varias bugigangas.

Fitou-me com terrivel catadura, e disse:

«Ó su amigo, diga lá a esse borra-botas que por ahi vem, que eu sou homem de lhe tirar a collada pelas costas, ouviu?

—Ouvi perfeitamente, porque o senhor tem um excellente pulmão—disse-lhe eu, disposto a jogar insolencias com o senhor de Fregim e coutos de Riba-Tamega.

«Diga-lhe lá que se tornar a desinquietar minha filha, mando-lhe moer o espinhaço.

—Faz o senhor muito bem... Com que então o tal maroto desinquieta-lhe a filha!

«Vossê está a mangar commigo?

—Deus me defenda! Eu estou protestando contra aquelle tratante que desinquieta meninas, e faz da minha casa o palladium das suas patifarias. O direito paternal é o mais sagrado de todos os direitos. V. exc.ª tem carros{69} de razão em quanto sustentar o decoro dos lares, e mantiver immaculada a prosapia illustrissima de que borbulhou.

Pantaleão olhava para mim, alongando os beiços e franzindo a testa. Eu prosegui:

—Mas, a fallar a verdade, eu não sei se v. exc.ª tem razões assaz fortes para tamanha zanga. O sujeito que namora sua filha é filho segundo de uma illustre casa de Celorico de Basto. Por Gamas, pertence ao venerando tronco do que dobrou o cabo das Tormentas, como consta de João de Barros, Lucena, Camões, e da historia genealogica da casa real. Por Castros, descende por bastardia d'um irmão d'Ignez de Castro, que veio casar a Celorico, e houve quatro filhos de D. Mecia da Gama, um dos quaes foi dom abbade em Tibães, outro foi prior-mór de Christo, o terceiro morreu em Alcacer-Kibir, e o quarto morreu em cheiro de santidade, e está inteiro. Já vê v. exc.ª que o amante de sua filha não é qualquer borra-botas, como o senhor lhe chamou, no auge da sua iracundia paternal. O que o senhor deve é indagar se é honesto o intuito d'este amor: e caso o seja, apressar o enlace matrimonial.

«Eu não preciso conselhos!—bradou irado Pantaleão—Se elle quer casar com minha filha, peça-m'a, e eu lhe direi o que me parecer; mas não me ande cá a rentar pela porta.

—N'esse caso—redargui eu—direi ao meu amigo o que deve fazer para captivar a benevolencia de seu illustre sogro. Elle irá pedil-a, conforme o estylo, e v. exc.ª, depois de ratificar as informações que eu tive a honra de dar-lhe ácerca da celebrada genealogia do meu amigo, consentirá que elle entre no tronco da sua familia, como o regato no oceano.

Parece incrivel, mas Pantaleão encarava-me com suave aspecto. A seriedade conspicua e grave com que eu solemnisei a galhofa, achou acolhimento digno na soez capacidade{70} do mirifico ornamento da Amarante e povos adjacentes. Dignou-se perguntar-me quem eu era. Respondi que não podia apresentar-me com appellidos benemeritos da sua estima, por isso que descendia d'uma honesta familia de lavradores, a qual havia fundadas razões para suppôr-se que descendia do primeiro homem, e não tinha outros documentos, além de suspeitas, com que provar a sua antiguidade.

Pantaleão achou-me razão, e disse-me que o rei Vamba fôra lavrador, para consolar-me da minha baixa condição, acrescentando que sua magestade el-rei D. Diniz, fôra amigo dos lavradores.

Era para vêr-se a pratica affectuosa em que demoramos uma boa hora, finalmente interrompida pela apparição de Bento de Castro, que vinha espantado da cordura com que nos travamos.

Pedi licença para receber o meu amigo. Contei a este o acontecido, e dei-lhe os emboras do bom andamento em que, tão imprevistamente, se achava o seu consorcio.

Castro, palpitando d'alegria, a primeira cousa que lhe lembrou foi que não tinha casaca para solemnisar a sua primeira visita ao pai da noiva. Remediado com a do boticario da terra, que fizera uma para assistir ás exequias de D. João VI, o meu amigo, n'esse mesmo dia, ás quatro horas da tarde, procurou Pantaleão, com o fim tres vezes honesto de lhe pedir sua filha.

Quando, porém, entrava no pateo, olhou machinalmente para dentro d'um postigo d'uma casa terrea, e viu Hermenigilda sentada n'uma caixa de pau de pinho, comendo figos. Ao pé d'ella estava o preto partindo uma melancia.

Horrivel mysterio!{71}

XII.

Não tarda, leitor pio, leitor indulgente, leitor benevolo, leitor honesto que paga, leitor honrado que não lê de emprestimo, não tarda ahi uma enfiada de lances estupendos, que lhe arranquem interjeições de pasmo, e lhe afervorem o desejo de abraçar o author!

Deixei o seu espirito em tribulações de curiosidade, no anterior capitulo, onde Hermenigilda apparece comendo figos ao pé do preto, no momento em que o meu amigo Castro ia, escada acima, pedil-a ao pai. Chamei «horrivel mysterio» ao mais natural dos actos—uma mulher a comer figos!—Dei ao acontecimento uma importancia que tem feito pensar o leitor ancioso. Vão vêr porque. O que, por ora, posso acrescentar, porém, é que Bento de Castro recuou um passo, entreteve-se alguns instantes indeciso, e, por fim, resolveu espreitar o que se passava no quarto.

Ao lado da pequena fresta havia no estuque esboroado uma greta propicia. O meu amigo espreitou, e viu o seguinte, de que lavro acta para eterna memoria:{72}

1.º Viu Hermenigilda acabar d'engolir um figo, e atirar o pé do mesmo á cara do preto.

2.º Viu o preto tregeitar uma careta festiva, e atirar á cara rúbida de Hermenigilda um bocado do coração da melancia.

3.º Viu a menina tomar do chão uma das rodellas de casca da dita melancia, e assentar com ella uma sonora sulipa na carapinha do preto.

4.º Viu o preto, com as belfas gotejando sumo, aggredir a espadua da morgada, e vingar-se imprimindo-lhe uma palmada em cheio nas ultimas vertebras lombares.

5.º Viu engadelharem-se, com grandes risadas, as innocentes creaturas, e teve a gloria de presenciar a victoria da sua amada, que atirou com o preto ao chão, e fugiu.

Satisfeito d'estas cinco visões, por isso que lhe não faltaram receios d'uma sexta, setima, e oitava, o meu amigo, tranzido d'espanto, perdeu a cabeça, e se havia de subir, desceu os dous degraus que o separavam da rua, e entrou em minha casa.

Contou-me as suas observações importantes, commentou-as com admiravel perspicacia, e acabou dizendo que renunciava o projecto do casamento, e me pedia encarecidamente que não divulgasse o seu louco intento, e dissesse ao pai da innocentinha que elle não queria casar.

Cousa, porém, admiravel! Bento de Castro dissimulava uma zanga interior, que eu não ouso chamar ciume, porque não quero dar ao meu amigo um rival tão vilipendioso. É, porém, desgraçadamente certo que o pobre moço, vendo que eu não defendia a innocencia do espectaculo que elle vira, tentou defendêl-o, perguntando-me se aquelles brinquedos não seriam por ventura honestos e singelinhos. Eu, que sempre fui d'uma boa fé estupidamente santa, reforcei a conjectura do meu amigo, recordando-lhe umas passagens que já contei ao leitor, ácerca d'uma minha prima, que por ahi fica archivada a paginas....{73}

«Parece-me que não devo desamparar o meu posto, sem outras provas...» disse elle.

—Eu tambem entendo que não... Tu nada tens que perder, se te conservares na espectativa.

«E ha uma prova mathematica que eu posso conseguir, a unica verdadeiramente que desvanece ou confirma todas as minhas suspeitas.

Eu não entendi, nem averiguei o genero de mathematicas applicaveis á questão; mas o meu amigo, confiado em seu systema, resolveu continuar namoro com Hermenigilda, ainda que tivesse de abonar-se ao pai com promessa de casamento.

Apenas Pantaleão sahiu a tomar banho, Hermenigilda appareceu na salêta, e disse a Castro, por acenos, que o pai lhe tinha batido por causa delle; e convidava-o a ir fallar-lhe debaixo do muro do quintal, em quanto o pai estava fóra.

Castro annuiu. Quando sahia, disse-me:

«Estou quasi convencido de que aquella mulher tem um grande defeito, que é ser idiota. É tão innocentemente lorpa que não conhece o desaire de brincar com o preto. Este convite é prova da sua innocencia, não achas?

—Acho que sim, meu amigo. Em todo o caso não te esqueças das tuas provas mathematicas, que eu não sei o que são; mas muito estimo que ellas te aproveitem, para eu ficar sabendo que as mathematicas servem de alguma cousa.

Castro demorou-se, e veio dizer-me que a mulher parecia outra: e se me não disse que a achou espirituosa, quiz que eu me persuadisse de que era possivel educar aquelle espirito.

Eu combinei na idéa do meu amigo, e elle, contente do meu accordo, contou-me o que passára com ella. Disse-lhe elle que, no acto de a ir pedir a seu pai, a vira brincar na loja com o preto. Respondeu ella que o preto{74} fôra criado com ella, vindo pequenino d'um reino onde seu tio Simão fôra governador, bispo, ou não sei que me não lembra agora, mas é de presumir que fosse bispo do Congo. Acrescentou ella que seu pai lhe dissera que, se queria casar com o sujeito que a namorava, elle não se oppunha, porque estava cabalmente informado do illustre nascimento do noivo, e até desconfiava que fosse seu parente, por casamento de D. Urraca Munhóz, celebrado em 1121, ficando assim aparentados os Gamas de Celorico com os Viegas e Themudos da Amarante, como constava dos foraes de Cima-de-Villa, Ranhados, São Gonhedo, e Galafura: do qual consorcio nasceram D. Brites, que morrêra em Arouca, dama da rainha Santa Mafalda, e sua irmã Soror Violante, que morreu santa em Lorvão d'uma indigestão de toucinho, n'aquella celebre noite em que lá pernoitou a celebre abbadessa de Holgas, D. Branca. Em consequencia do que, o meu amigo Bento de Castro resolveu não entregar n'aquelle dia a casaca ao boticario, attenta a reconsideração do seu precipitado plano, por causa de umas suspeitas tão injuriosas para a mulher que lhe sahira ao encontro na carreira da vida.

Já então se diziam estas tolices.

16 Mars 2018 13:56:53 0 Rapport Incorporer 0
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