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As mortes começaram por crianças, bebezinhos de colo sabe, roubados do berço, arrastados e devorados, mal ficaram as roupinhas, foram 6 ao todo, quando a besta correu pela cidade foi pegando uma a uma delas, na madrugada pleno escuro quem ia se meter a correr atrás daquilo, algumas mães, avós senhorinhas ainda tentaram proteger os bebês, pegar de volta também morreram, essas quase que do mesmo jeito do padre, jogadas no chão, nadando numa poça do próprio sangue, as mulheres sofreram mais nas mãos daquilo, eram brutalizadas, desfiguradas, a bestialidade e violência com elas era simplesmente terrível, acho que foram 4 ou 5, o padre ouvindo que havia tal monstruosidade a solta quis ser herói, outros dizem que queria era diminuir a cota dos pecados que carregava, mas é fato, ninguém jamais mereceria morrer daquela forma. Na noite de lua cheia de janeiro a besta já tinha feito algumas vítimas, percorria a cidade babando e fedendo e onde conseguisse entrar alguém certamente morria, ouvindo isso o padre se armou do seus rosários, estola bordô uma cruz enorme e esperou o bicho, em pé na escadaria da igreja quando a criatura notou sua presença partiu pra cima dele, quem ouviu disse que o padre misturou latim com português, esfregou a cruz no focinho do amaldiçoado mas em vão, a criatura sapateou no seu corpo, abriu o tórax e comeu seu coração, o sacristão correu com uma espingarda nas mãos mas quando chegou perto a criatura o encarou e soltou um esturro o homem morreu ali mesmo, um ataque, encontraram todo mijado e sujo, não aguentou.



Uma senhora da irmandade das almas ouvindo aquilo inventou de abrir a porta de casa e olhar, quando viu o padre estraçalhado e o sacristão caído também morreu o bicho correu até a porta dela e amassou sua cabeça no chão, rasgou suas vestes, um horror, o caixão foi fechado por ter sobrado pouco do que ver dela.

O galo cantou e ele rumou escuro a dentro, quando amanheceu encontraram os corpos e sem ter quem encomendasse a alma de mais aqueles 3 infelizes o povo se reuniu, rezou perto deles, colocou velas em suas mãos, cobriu com lençóis brancos e cuidaram de enterrar. A notícia daqueles assassinatos correu pela redondeza, por um tempo reforçaram a guarda, fizeram vigilias mas lá na cidade ele nunca mais voltou.

Por muito tempo todos desconfiaram uns dos outros, procuravam sinais, qualquer coisa que fosse considerada suspeita de lobisomem causava briga, medo, algumas famílias menores se mudaram com a acusação de terem monstros consanguineos mas nunca, nada se provou. O povo com medo também é capaz de horrores.



Fiquei com meu irmão todo resto de noite, quando o galo cantou pela terceira vez ele disse: - acho que agora podemos ir dormir, até amanhã irmão, obrigado por acreditar em mim. Abracei ele de novo e esperei ir para o seu quarto, guardei as armas e fui para o meu.

Me ajoelhei na frente da minha cama e rezei, rezei pelo meu irmão, por todos que tinham morrido daquela maneira tão trágica, pedi proteção pra nós, pedi a Deus que se ele realmente existisse enviasse alguém pra nos livrar daquela coisa. Fui deitar com o coração do tamanho de uma ervilha, jamais imaginei que as coisas que eu ouvia quando era menino podiam ser tão reais.

Mas eram e são, ninguém que viu o que vi pode negar, eu não acreditava nessas coisas mas não há professor pior que a experiência meu amigo.



Tudo que o doutor me contava era a princípio desparatado e sem propósito, mas ele não era o único a reconhecer mentirosos, e sinceramente, o que um homem como ele ganharia ao inventar uma história tão escabrosa. Ainda conversamos mais sobre os acontecimentos daquela Quaresma mas depois de padre rasgado ao meio, cabeça esmagada e morte de susto a embriaguez ainda que leve passou, pedi para me encontrar novamente com ele na noite seguinte e continuamos a conversar mas já são 8 da noite, lá fora é lua cheia e ele não apareceu ainda.



- Ei moço, perdão pelo atraso, estive em audiência hoje até perto da hora de fechar o Fórum, o moço me perdoe mesmo, não gosto de me atrasar.

- Não há de quê Gilson, puxe a cadeira ai.

- Imagine, compromisso é compromisso e eu odeio deixar uma impressão ruim.


No outro dia levantei tarde perto da hora do almoço, tive sonhos estranhos o pouco que dormi depois de conversar com meu irmão, painho tinha ido acompanhar a lida com as vacas e bezerros, agora com aquela ameaça elas já não dormiam no pasto, eram levadas pra baia e paióis, reforçaram as portas, colocaram cães grandes pra tomar conta do sítio mas não adiantava muito, quando o desdito se aproxima os cães choravam e se escondiam com o rabo entre as pernas, alguns foram atacados também, a vilania daquela coisa era de arrepiar qualquer um.

Na cidade quando os ataques pararam o povo parecia ter sossegado mas não sei se era mesmo, ainda tinham receio da lua cheia, de colocar o pé pra fora por qualquer coisa, e não estavam errados.

Mainha já estava cuidando do almoço agora acompanhada da minha madrinha, meu padrinho e meu irmão tinham ido ver meu pai pouco depois eu fiquei em casa, quando mainha me viu mandou sentar na mesa e já foi trazendo coisas pra comer mas nada muito forte porque todo mundo ia almoçar ainda.



- Seu irmão me falou que vocês ficaram acordados um bom pedaço da noite, toma esse café pra acordar, tem um pouco de macaxeira assada e bolo.

- Obrigado mainha, ficamos sim. Era por isso que a senhora não queria que viéssemos?

- Era, e se eu contasse na carta o que já tinha acontecido vocês iam achar que eu enlouqueci.

- Comadre, sinceramente eu já tinha visto de um tudo nesse mundo mas um demônio de carne e osso é a primeira vez.

- Ele não é um demônio comadre, era ou é ainda uma pessoa que foi amaldiçoada, eu não sei como ou quando mas os garou são assim, alguns nascem depois de 7 filhos, outros da mordida, dizem que precisa de uma combinação da Lua cheia com o monstro enraivecido morder a pessoa e a maldição passa pra frente.

- Mainha, como a senhora sabe de tudo isso?

- Você acha que é só você que gosta de livros, histórias e conversar com os mais velhos?

- Será que existe alguma forma de matar o bicho, acabar com a maldição e fazer ele responder por seus crimes?

- Responder como, se é a besta quem faz o que faz.

- Mainha, se ele é ou se transforma nessa criatura e não fez nada para cessar com a maldição tem sim responsabilidade sobre os crimes, precisamos fazer algo, não é certo viver com medo o tempo todo.

Podia escrever para a capital trazer um destacamento para fazer buscas pela criatura não é possível que ele não tenha um lugar de descanso.

Meu raciocínio foi interrompido pela chegada do meu pai, irmão e padrinho, os 3 com caras cansadas, falando baixo entre si quando nos avistaram na cozinha até tentaram disfarçar mas Mainha é tinhosa percebe as coisas no ar.

- O que foi dessa vez?

- Dois bezerros mortos lá perto da baixada, o sem nome arrastou e rasgou os dois, alguém esqueceu de trancar direito uma das baias e deu nisso, prejuízo danado.

- Painho a gente precisa fazer alguma coisa isso já foi longe demais.

- Fazer o quê meu filho, a gente já fez tocaia, esperou o bicho, avisou ao delegado, o povo já procurou por ai mas nem sinal.

- Faltam o quê, 3 noites pra acabar a lua cheia, pelas minhas contas a gente vai ficar aqui até depois da próxima, dá tempo de pensar em alguma coisa, nós 4. Madrinha e Mainha se entreolharam e concordaram silenciosas como quem desse autorização.

- Mas chega dessa conversa braba que é até pecado vão se lavar pra comer os três, comadre me ajuda a colocar a mesa, você vai trazendo as panelas, cuida.

Os três foram saindo e eu dei meu último gole de café, e fiquei sentado olhando pro terreiro, quando Mainha chamou de novo fui levando as panelas, de comida aquelas duas entendiam demais.

Primeira sexta da Quaresma o peixe era obrigatório, fizeram com leite de coco e manteiga de garrafa, arroz e pirão, macaxeira e de sobremesa cuscuz doce com coco ralado, apesar de todo alvoroço, notícia ruim e medo a gente rezou e comeu em paz.

Todos conversando alegremente, sem nem lembrar que existia um mal encarnado a nossa espreita.

Mas de fato o que Mainha falou fazia sentido, como levar as autoridades um homem nessa condição de tormento, a depender da época de sua clausura haveria um banho de sangue caso ele não estivesse devidamente incapacitado. Terminei o almoço e fui para o meu quarto pensar, fazia isso melhor sozinho, enquanto eles se retiravam pra o alpendre onde iam descansar nas redes e continuar a conversa.

Quando me escorei na cama uma voz chamou a porta, era meu irmão.

- Grande, o que a gente vai fazer com esse nojento andando por ai, uma hora alguém esquece uma janela aberta, uma porta mal trancada e a gente tá perdido, o povo da cidade já esqueceu a coisa se brincar, mas e a gente, você ouviu, todo mundo sabe que a gente tá por um nada vivo.

- Eu preciso pensar, mais tarde depois da janta a gente discute algo. Tenho certeza que nós podemos encontrar uma solução.

- A solução é simples, esbagaçar a cabeça dele igual fez com a velhinha lá, que deus a tenha em sua glória, e digo mais, pra não ter duvida de que emborcou, fogo e sal. Se uma maldade dessa tem meio de vida no mundo o que mais não tem?

- Você não se encabula de pensar que está matando uma pessoa, porque dentro daquele couro fedido tem alguém, como ninguém sabe quem é pode ser um amigo nosso da escola, um primo, não sei.

- O mau maior já foi feito Gilson, a morte dele vai evitar tantas outras que perto disso eu ouso dizer que é um mau menor. Vou descansar, mais tarde tem vigília novamente.

- Não, hoje quem fica sou eu, vocês tão há muitas noites sem dormir direito, pelos próximos dias eu fico e durmo depois que amanhecer.

- Tá certo então, mas aquilo tem que morrer, por deus que eu não queria uma coisa dessa mas é o certo.

-

Consegui dormir um pouco e perto do fim da tarde fui com eles trazer o gado pra perto, o resto do pessoal que vivia e trabalhava no sítio sabendo de tudo pedia pra começar e terminar o serviço mais cedo, painho deixava e ainda pedia pra que se quisessem ir pra casa tinha espaço pra dormir, se abrigar caso necessário mas ninguém ia, quando se ouviam os uivos e esturros daquilo ninguém com o mínimo de juízo ousava colocar a cara de fora.

28 Octobre 2022 22:21:51 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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A propos de l’auteur

Siph Ferreira Nerd de maquiagem, amante de música, livros e quadrinhos, amiga de Meia Noite e Qliph, viciada em podcast e buscando seu rumo nesse mundo.

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