wsilva52 Wendel Silva

Uma jornada é sempre um misterio, principalmente em mar aberto. Acompanhe Thales e seus companheiros em uma jornada que pode mudar suas vidas, uma mistura de aventura, encanto e misterios o aguardam nesse conto espetacular.


Histoire courte Tout public.

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Viajem Só de Ida

I

Estava na beira da praia, olhando para o horizonte do grande mar; ainda era cedo, o sol das nove horas brilhava no céu, ainda preparava seu barco para sair em sua jornada, estava alegre e esperançoso. Por outro lado, sua mulher, Elizabeth não se sentia muito bem com isso, algo a preocupava.

Thales era acostumado a sair para pescar quase todo final de semana, mas agora ele buscava algo novo, sairia em busca de novas espécies em mar aberto; na esperança de que suas descobertas lhe rendessem bons pagamentos para reconstruir sua casa.

“Você sabe para onde está indo?” – Indagou com preocupação. Era como se uma sombra negra contornasse o coração de Elizabeth.

“É o mar aberto, nunca se sabe para qual lugar as correntezas irão nos levar!” – Respondeu com um sorriso, ao contrário de sua mulher, ele tinha uma enorme alegria em seu coração. Quando tudo saísse como planejado sua vida finalmente iria sair do vermelho, e tudo seria diferente. – “Fique tranquila, eu vou voltar bem!” – Completou com um beijo carinhoso na testa de sua mulher.

Ao longe pode ver seus amigos chegando para a jornada em alto mar, carregavam grandes baldes e arpões. Eram nove no total, todos pescadores assim como Thales, e também buscavam uma forma de melhorarem suas vidas.

Chegaram animados, eles eram: Petro, Burne, Alder, Jack, John, Jarry, Benjamin, Eddy e Harper. Todos se aproximaram sorridentes do barco que Thales havia preparado, conseguiu através de um faroleiro local.

Era um barco grande, digno dos usados por grandes navegadores em suas explorações. Possuía cinco velas e grandes mastros em sua estrutura, na proa detalhes em aço com a escritura do nome do navio, que se chamava: “Navegantes além do Mar”. Um nome curioso para nossos aventureiros, mas pouco importava, afinal era apenas um nome.

Eram os únicos no porto, terminaram de arrumar as coisas e então Thales seguiu para se despedir de Elizabeth. As lágrimas que desceram pelo rosto dela causaram tristeza nele, mas era algo comum ele pensou, pois ele passaria mais tempo fora de casa do que jamais havia passado antes. Mas para ela, está era a última vez que eles se veriam, de certa forma estava certa.

Jarry estava no leme, pronto para dar a ordem para que Burne e Alder descessem as velas. Petro, Benjamin e Jack estavam próximos a proa apenas aguardando o barco partir rumo ao alto mar; e Eddy, Harper e John posicionaram-se no mastro central para puxarem a âncora. Enquanto isso, Thales ainda conversava com Elizabeth, que agora já não conseguia mais esconder toda sua preocupação.

“Você vai ir e com isso terei que conviver o resto da vida sem saber para onde foi e o que aconteceu! Por favor, você não precisa ir!” – Dizia com lágrimas nos olhos.

“Preciso sim! É nossa chance, quando voltar nós finalmente teremos nosso lar, onde poderemos viver e criar nossos filhos até ficarmos velhos.” – Tinha muita confiança em sua voz e em seu olhar, de certa forma isso a confortava. – “Voltarei em uma semana, é uma promessa!”.

Eles terminaram de se despedir, se abraçaram e se beijaram. E então Thales seguiu para se juntar a seus amigos no navio, era uma longa jornada que os aguardava; há tantos mistérios no mar quanto há na infinitude do universo, isso é um fato.

As velas foram abaixadas, âncora levantada, e por fim partiram rumo ao Leste. Guiavam-se pelo vento e pela correnteza, Elizabeth observava ao fundo com a mão no peito, e lá permaneceu até o momento em que o barco desapareceu no horizonte.

Navegaram até além da onde se podia ver pela praia, não sabiam onde estavam. Para qualquer lado que se olhasse se via apenas água, a noite veio e não demorou muito para que o sol voltasse a brilhar no horizonte.

Estavam animados para seu primeiro dia de pesca, desceram o pequeno barco preso na lateral e partiram em sua busca; na primeira pesca, foram Thales, Jarry, Jhon e Alder. Cada um deles com sua própria vara, uma grande rede de tamanho suficiente para apanhar um cardume, e claro, o arpão para peixes maiores.

O primeiro dia de pesca não fora como esperado, não viram um único peixe, nem mesmo o mais simples deles; lançaram sua rede no mínimo umas dez vezes, e nas dez vezes ela voltou vazia. Mas ora, isso não os desanimou de forma alguma, afinal era apenas a primeira tentativa, teriam mais sorte nas próximas pensaram.

O clima em alto mar era quente, e apesar de eles estarem no meio da água o ar era seco. Voltaram para o navio se alimentar e se hidratar, e perceberam que o balançar do navio os deixava meio tontos, mas não incomodava por enquanto.

Após se alimentarem voltaram para o pequeno barco, e assim seguiram até o sol baixar; horário em que foram dormir. Foi o primeiro dia, um dia em que não conseguiram um único peixe.

Ora, cometeram um grande erro na primeira noite, ninguém ficou acordado para cuidar do leme, não subiram as velas e nem baixaram a âncora. Já deve imaginar o que aconteceu, enquanto dormiam o navio navegou para além dos limites de onde pretendiam explorar, mas não fora algo que descobriram tão cedo; ninguém ali tinha experiência com grandes navegações, estavam acostumados a navegar, mas sempre próximo de praias e baias, nunca em mar aberto.

Acordaram no segundo dia, e já estavam mais longe de casa do que imaginavam, mas era algo imperceptível. Perceberam logo que haviam deixado às velas baixadas e a âncora recolhida, mas não sentiam nenhum vento batendo em seus rostos e é algo que para eles significava que não haviam saído do lugar; um terrível pensamento errado.

Desceram o pequeno barco novamente, dessa vez foram: Jarry, Eddy, Jack e Harper. E não demorou muito para verem peixes passando logo abaixo de seu pequeno barco; Jarry não pensou duas vezes e logo já lançou a rede de pesca, ao puxar viram um grande cardume sendo trazida a superfície. Comemoraram pelo que haviam achado, eram peixes dos quais já estavam acostumados, mas era melhor do que nada. Em breve isso mudaria, até o fim da tarde para ser mais exato.

Voltaram ao navio e coloram os peixes em um barril, beberam para comemorar, acreditavam que sua sorte estava começando a mudar. Logo na tarde do segundo dia, sentiram algo batendo na proa; foi um grande impacto, que os fez se desequilibrarem e caírem.

Olharam assustados, ficaram se perguntando o que poderia ter sido, e correram para a lateral na esperança de enxergar algo. Quando viram o que havia batido na proa seus olhos se encheram de medo e preocupação, uma grande baleia que era maior do que qualquer coisa que já tenham visto; trinta e cinco metros de comprimento, ela poderia engolir o barco inteiro sem dificuldade.

Viram que ela estava os rodeando, e permaneceram sem fazer nenhum movimento. Mas coitados, a baleia era apenas o primeiro dos grandes perigos que enfrentariam.

“O que faremos?” – Questionou Burne.

“Ficaremos em silêncio, vamos esperar até que ela vá embora.” – Respondeu Thales com a voz calma e o corpo imóvel.

E mais uma vez a baleia se chocou com o navio, e o estrondo os assustou mais do que da primeira vez.

“Meu Deus!” – Gritou Jarry com as mãos e os olhos trêmulos. – “O que faremos?”

“Podemos tentar pescar ela, imaginem no tanto que um bicho desse tamanho pode valer!” – Foi uma sugestão curiosa vinda de Harper, o que gerou olhos confusos. – “Se conseguirmos acertar um golpe certeiro com nossos arpões, podemos matá-la!”

“Sim, ou irritá-la!” – Retrucou Benjamin.

Thales mandou todos calarem a boca, e sugeriu esperarem até o momento em que ela fosse embora. E mais uma vez, após um tempo, ela voltou a bater na proa.

“Mas que porra! Se ficarmos parados esperando-a ir embora provavelmente ela irá nos matar!” – Todos sentiram irritação na voz de Alder. – “Eu apoio a ideia do Harper, vamos matar esse bicho antes que ele nos mate!”

Mas Thales mais uma vez retrucou, as chances de não funcionar eram grandes; o couro de uma baleia é diferente de um tubarão ou um peixe comum, ele é mais resistente e é preciso acertar um lançamento preciso, caso contrário à baleia pode apenas se irritar e derrubar o barco com apenas uma barbatana.

Todos ficarão em silêncio quando ouviram outro impacto na proa, perceberam que o mar ficou mais calmo e caminharam até as laterais do navio. Olharam para a água procurando a baleia, mas não viram nada, apenas o grande mar.

“Acho que ela foi embora.” – Indagou Harper.

“Como eu havia dito... Se tivéssemos atacado talvez nós não estivéssemos mais aqui.” – Thales tinha firmeza em sua voz, mas seu coração se enchia de preocupação.

“E o que faremos agora? Digo... Agora que sabemos que a monstros desse nível nessas águas, continuaremos por aqui?” – Uma questão interessante levantada por Eddy.

E todos ficaram em silêncio, não sabiam o que responder; e assim o segundo dia chegou ao fim.

II

Acordaram no terceiro dia, e logo já se depararam com Harper arrumando as coisas para sair em uma pesca. Thales o questionou sobre o que estava fazendo, era arriscado demais sair sozinho em águas desconhecidas.

“Se acha que vou sair para pescar está enganado, esses arpões foram criados por uma razão...” – Uma voz raivosa saia dele, suas pálpebras tremulas e a respiração descontrolada. – “Foram criados para caçar!”

“Ainda a maldita baleia?!” – Retrucou Thales indignado com a atitude de seu amigo.

“Nós precisamos nos prevenir! Não sabemos se ela pode voltar, temos que mata-la antes que ela nos mate” – Ele respirou fundo e terminou de colocar os arpões no pequeno barco.

Ao fundo do barco Eddy observava, olhos centrados e uma respiração calma; escondia bem a preocupação que encobria seu coração, uma angústia que corria pelas suas veias e aumentava a cada instante.

“A melhor maneira de nos prevenirmos é voltarmos para a casa” – Seus braços cruzados escondiam a tremedeira em suas mãos. – “Escutem o que estou lhes dizendo... Já ouvi muitas histórias sobre os tipos de monstros que rondam essas águas. A baleia é apenas um deles.”

Todos olharam confusos para Eddy, foram palavras simples, mas o suficiente para preocupar cada um que ali estava. Harper questionou-o sobre do que ele dizia, e perguntou-lhe se sabia de algo que os outros desconheciam.

“Quando eu era mais jovem meu pai contava histórias sobre uma parte curiosa do oceano...” – Agora ele descruzou os braços e todos perceberam suas mãos tremulas, principalmente no momento em que ele apanhou uma caneca d’água. – “Uma parte da qual nenhum navio jamais retornou... Chamavam-no de ‘O Mar Oculto’. Ninguém jamais descobriu o que vivia por essas águas, alguns diziam sobre grandes tentáculos saindo do fundo do mar; e outros de uma serpente gigante. Mas o que todos concordavam era sobre uma baleia maior do que qualquer coisa já vista, era um verdadeiro mostro do mar!”

“Acha que podemos estar navegando sob essas águas?” – Tinha uma voz tranquila, de todos Alder era o que estava mais calmo.

“Talvez... Na noite em que deixamos a vela baixa e a âncora recolhida, não sabemos o quanto podemos ter navegado. E sejamos sinceros, não sabemos onde estamos.”

Eles olharam um para o outro, todos com o mesmo olhar de incerteza e medo. Thales caminhou até a ponta do leme, se lembrou de Elizabeth e de sua preocupação; mas agora já era tarde, estavam perdidos e sem direção. Foi nesse momento em que perceberam um detalhe importante, ninguém havia se lembrado de levar uma bussola ou um mapa nesta jornada, o que é claro tornava a volta para casa uma questão ainda mais complicada. Apesar de ser o desejo de todos voltar para a casa, não havia uma direção para seguir.

Passaram horas conversando e discutindo sobre o que fariam e para onde iriam, tanto tempo que quando perceberam já estava chegando o pôr do sol e até então nenhuma conclusão havia sido encontrada. Estavam cansados e preocupados, com a noite chegando decidiram dormir para descansar e quem sabe no dia seguinte não encontrassem uma solução. E em meio às preocupações e angústias, o terceiro dia chegou ao fim.

Na manhã seguinte viram o sol nascendo no horizonte, e a única coisa que pensavam era no que poderiam fazer para voltar. Seus mantimentos estavam quase no fim, haviam feito um estoque para durar seis dias, mas não tiveram controle sob o consumo desses alimentos e da água; o que significa que este era o último dia que teriam o que comer e beber.

Ao longo da manhã eles pouco conversaram, todos andavam de um lado para o outro no navio buscando uma solução. Até que ela apareceu.

“Talvez tenha um jeito de voltarmos, se não para nossa casa pelo menos à terra firme.” – Quem encontrou uma possível solução foi John, que estava com a voz animada, mas seus olhos ainda exalavam preocupação.

“E qual é sua grande ideia John?” – Questionou Burne com dúvida em seu olhar.

“É arriscado, e uma completa loucura... Mas Harper vai adorar a ideia” – Todos se olhavam com certa curiosidade e preocupação enquanto ouviam as palavras de John. – “Baleias muitas vezes acabam se ferindo, e quando se ferem elas procuram um lugar perto da praia; onde podem se recuperar longe de predadores.”

“E que tipo de predador teria uma baleia como alimento?” – Questionou Thales com dúvida no olhar.

“Baleias são mais fortes e maiores do que tubarões, porém quando feridas elas ficam indefesas. Algo que facilita o ataque dos predadores.”

“Então elas fogem para perto da praia... Se conseguirmos acertá-la em cheio com o arpão, então podemos ferir o animal e fazer com que ela nos leve até a praia mais próxima!” – Eddy completou o pensamento de John, as esperanças voltavam a brilhas nos olhos de nossos navegantes.

“Não vamos nos animar tão cedo...” – Thales ainda tinha uma questão a ser levantada. – “Baleias comuns fazem isso, mas falamos de um gigante!”

“Não importa o tamanho!” – Gritou Harper ao fundo, estava animado com o novo plano. – “Baleias são baleias, o instinto é o mesmo... Vamos caçar!”

Alegraram-se novamente, esperanças foram renovadas, prenderam as cordas dos arpões nos grandes mastros que eram resistentes o suficiente para não se soltarem; após se preparem, navegaram em busca da grande baleia.

Horas se passaram e nenhum sinal do animal, até que certo momento voltara a sentir o impacto de algo batendo na proa, era a baleia. Preparam-se para enfrenta-la, cada um com um arpão na mão, mas para dar certo precisavam de apenas um tiro certeiro; a baleia não podia morrer e nem se ferir levemente, caso contrário tudo seria em vão.

Todos esperavam o momento certo para atacar, o primeiro a tentar acerta-la foi Jarry, que apesar do tamanho da baleia acabou errando e acertando apenas água. Mas ora, não era necessariamente culpa dele, ela se camuflava bem em meio ao mar, era seu território.

Após perderem seu primeiro arpão, Thales se pôs a frente e ordenou que todos se segurassem em algo com força. Respirava lentamente, concentrando sua força e se lembrando de Elizabeth; minutos se passaram, estavam todos imóveis aguardando Thales, que com seu esforço máximo visualizou a silhueta da baleia passando por de baixo do navio, suspirou, as gotas de suor escorriam por sua testa em meio a lábios e olhos trêmulos. O tiro precisava ser certeiro, o arpão precisava se fixar no couro da baleia ou do contrário tudo seria em vão, e a baleia seguiria até a praia deixando-os para trás.

Após uma respiração profunda e um pedido para dar certo, efetuou o arremesso, o arpão acertou o couro da baleia com a precisão que necessitavam e com isso puderam ouvir o forte grito do animal. Um grito que fora belo e majestoso, mas também exalava dor e sofrimento.

Thales foi jogado para trás graças ao grande impacto, mas por sorte conseguiu se segurar em um dos mastros. Eles conseguiram navegar rapidamente, o plano havia dado certo e ela estava os levando direto até a terra firme, ou pelo menos era o que achavam.

No horizonte a sua frente puderam ver uma enorme nuvem negra, carregada de relâmpagos e raios que caiam sob a água; o barco estava indo nessa direção e já começavam a acreditar que não sobreviveriam a essa jornada. Em certo momento, a baleia parou bruscamente fazendo os serem jogados no chão, e ela desapareceu da vista deles.

“O que aconteceu?!” – Perguntou Harper confuso, já começara a pensar que esta não tivesse sido uma ideia tão boa afinal.

Estavam todos com as mesmas questões: “O que aconteceu?!”, “Para onde ela foi?!”, “Ela parou?!”. Mas ninguém tinha uma resposta até então.

Thales caminhou até a corda do arpão que havia lançado, estava leve, como se não estivesse preso em nada. Puxou o suficiente para deixa-la um pouco enrolada no chão, foi o que bastou para chegar à conclusão de que ela havia escapado e que estava perdidos novamente, mas dessa vez com uma enorme tempestade vindo em sua direção. Mas foi tolice dele pensar que ela havia escapado, estava submersa e parada a baixo do navio apenas aguardando o momento em que começaria a mergulhar.

Ora, a baleia não era maldosa e nem mesmo um animal selvagem. O que ela fazia era apenas assustar as embarcações para que não adentrassem afundo do grande mar oculto, onde o verdadeiro perigo estava presente. Mas eles haviam a ferido, e isso era algo que ela não poderia perdoar tão facilmente; levou-os afundo do grande mar, na borda do que era conhecido como Krägdién, o inferno em meio ao oceano.

Ela decidiu poupá-los de enfrentar os grandes tentáculos, mas em troca iria os afogar antes mesmo de a grande tempestade chegar.

Após um tempo, Thales observou a corda começando a se mover sozinha, já não havia duvida e ele sabia exatamente o que estava acontecendo. Com a voz de um homem assustado ele gritou: “Segurem-se em algo! Segurem-se em algo!”. E todos questionavam o que estava acontecendo, até que ele disse quase sem voz se segurando firme em dos mastros: “Ela está mergulhando! Segurem-se!”.

Se seguram nos mastros espalhados pelo navio, sabiam do baque que chegaria em algum momento, e quando chegou veio com uma força além do que é possível descrever; parte da madeira do navio se partiu ao meio, e não demoraria muito para que o próprio navio se partisse por inteiro. Ela mergulhava com agilidade, puxando o navio com força até as profundezas, mergulhavam mais fundo do que imaginavam ser possível, era uma descida rápida e dolorosa. Por sorte todos pensaram na mesma coisa, eles precisavam desamarrar a corda que estava presa ao mastro, foi preciso um grande esforço, a pressão já estava ficando mais forte do que poderiam ser capazes de aguentar; muita força foi feita por Thales e Harper, os que estavam se segurando no mesmo mastro onde a corda estava amarrada. Por sorte conseguiram antes de mergulhar ainda mais fundo, mais cinco metros que descessem e todos estariam mortos.

Agora só restava um detalhe, que era torcer para que o navio subisse do lado certo; subiram tão rápido quanto desceram, e quando perceberam estavam de volta a superfície e do lado certo do navio.

Tossiam e vomitavam aos montes, em seus pulmões muita água se encontrava e a pressão havia atordoado suas cabeças. Os que conseguiam ficar de pé olhavam para os horizontes com ainda mais preocupação do antes, a cada segundo a tempestade se aproximava do navio. Alguns que ainda estavam atordoados foram levantando aos poucos, todos os dez se encontravam ofegantes, o plano inicial era uma viagem tranquila e quando retornassem teriam grandes descobertas que mudariam suas vidas.

Um furacão era visto no horizonte em meio a fortes raios e relâmpagos, era belo e assustador ao mesmo tempo. E assim se encerrou o quarto dia, com a tempestade a sua frente e o sol se pondo no Oeste.

III

Olhavam a grande tempestade se aproximando, já estava noite e não havia nada que podiam fazer para escapar dela. Tentaram girar o leme para mudar o curso do navio, mas a correnteza era forte e não havia como virar; Thales correu de um lado para o outro buscando uma solução, tinha medo de morrer e de jamais conseguir ver sua amada novamente.

Jack apanhou cinco arpões e os entregou a Alder, Burne, John, Harper e Benjamin. E disse que era por precaução, a baleia ainda podia voltar.

“A baleia agora é o menor dos nossos problemas! As lendas eram verdadeiras, olhem!” – Os olhos de Eddy indicavam um medo além do comum, assim como sua expressão.

Olhando para o horizonte todos puderam ver os grandes tentáculos saindo da água em meio as fortes raios e relâmpagos. As ondas eram altas e fortes, começava a chover e o medo assombrava os seus olhos.

“Agora é isso... Vamos morrer!” – Disse Jack com a voz tremula.

Thales agiu rapidamente, ele havia convencido cada um ali a sair nesta jornada; se não fosse capaz de garantir a volta deles, pelo menos ele tinha que tentar.

“Alder, John, Harper! Se posicionem a esquerda. Benjamin, Burne, venham comigo a direita; O restante fica ao centro do navio!” – Thales apanhou o restante dos arpões e os entregou aos seus amigos. Mas ele ficou sem, pois um dos arpões havia sido perdido na água, preso no couro da grande baleia.

Thales liderava-os para uma batalha da qual provavelmente não sobreviveriam. O grande polvo se aproximava, seu tamanho superava os quarenta metros, mas era apenas um dos problemas que deveriam enfrentar. A sua esquerda um grande furacão se aproximava, e mais a frente um enorme redemoinho se formava.

Os tentáculos eram enormes, impossível de passarem despercebidos. Viram a criatura se movendo na direção do navio em meio aos fortes trovões e relâmpagos. Ouviram a madeira rangendo, algo se movia nas laterais; Thales olhou para baixo e pode ver tentáculos se enrolando no navio, e em meio ao forte relâmpago pode ver a silhueta do polvo. Uma enorme criatura com apenas um olho de cor vermelho sangue que se destacava no mar furioso.

Ordenou para que permanecessem calmos e sem movimentos bruscos. O mar estava agitado, o navio balançava forte e havia um polvo gigante se enrolando na proa ao mesmo tempo em que eles ficavam presos entre o furacão e o redemoinho, mas a força que os dois exerciam sob o navio o deixava imóvel; sem ir para um lugar e nem para o outro.

“O que faremos?” – Questionou Eddy com a respiração ofegante.

“Ao meu sinal... joguem os arpões nos tentáculos” – Tentava disfarçar sua preocupação, e apesar da sua voz mostrar confiança e liderança. Seus olhos apresentavam medo e angustia.

Ninguém questionou o plano de Thales, até porque nenhum de nossos navegantes possuía um melhor. Aguardaram até o momento em que os tentáculos se mostraram com clareza, em um momento se enrolavam no navio, em outro já estavam deslizando por cima de seus pés. Neste momento, Thales deu-lhes a ordem.

Arpões foram lançados e conseguiram ferir o polvo, que gritou junto dos trovões. A criatura logo recolheu seus tentáculos e desapareceu em meio a penumbra do oceano.

O furacão começava a mudar de direção, sentiam esperança uma vez mais. Mas por outro lado, o redemoinho puxava-os com força e rapidez. No momento em que achara que estava tudo acabado, e que o redemoinho engoliria o navio, um forte estrondo foi ouvido; uma força incrível que os empurrou para longe do redemoinho. Todos se desequilibraram e acabou que um deles, Jack, caiu fora do navio direto na água; houve desespero da parte de seus amigos, mas não havia o que fazer.

O mar estava furioso, com ondas maiores das quais seria possível descrever. Quando caiu Jack mergulhou fundo, tentando fugir das ondas e alcançar o navio, mas parou quando seus olhos se encontraram com o do polvo, que o engoliu sem demora.

Thales tentava a todo custo encontrar uma maneira de sobreviver e de garantir a sobrevivência de seus amigos que restaram. O medo tomava conta de seus corações, principalmente após o desaparecimento de Jack, que já estava morto é claro. Sentiram outra vez o estrondo, e agora os tentáculos perfuraram toda a estrutura do navio; e neste momento o polvo se mostrou diante deles. Em meio aos raios e relâmpagos eles viram a grande criatura, que segurava o navio com seus tentáculos apenas esperando o momento para quebra-lo por inteiro.

John tentou lançar um arpão contra o polvo, mas nenhum ferimento foi feito, a pele dele era mais e resistente do que a da baleia. E seu tamanho também superava o dela.

Olharam-se com certa tristeza e desapontamento, pois já estavam aceitando a morte. Mas como um último suspiro de esperança, eles ouviram; um forte e majestoso canto vindo das grandes ondas a sua esquerda. E quando menos esperavam viram uma enorme sombra negra pulando para fora das ondas e acertando a cabeça do polvo com força, levando-o para o fundo das águas.

Tratava-se da grande baleia, e se maravilharam com sua maestria. Mas os tentáculos do polvo já estavam enrolados em toda a estrutura do navio, e no momento em que a baleia o puxou para o fundo, toda a madeira que o sustentava se rompeu.

Rapidamente tentaram se segurar em algo, mas Harper, John e Burne não conseguiram alcançar nenhum objeto para se segurar, e se perderam para nunca mais serem encontrados com vida. Thales, Benjamin, Eddy, Jarry, Alder e Petro se seguraram em pedaços de madeira, e foram empurrados para longe pelas grandes ondas que se formavam.

Conforme se afastavam dos destroços do navio, viam a grande batalha entre um polvo e uma baleia. Mas afastaram-se antes de conseguir ver quem saiu vencedor, no final apenas a silhueta de ambos os animais podia ser vista em meio aos raios e trovões.

Mas o que os sobreviventes fariam agora que perderam seu navio? Era um questionamento presente neles, mas não aguentaram e acabaram desmaiando com a chuva caindo sob seus corpos cansados e feridos.

IV

A tempestade passou e o dia amanheceu. Thales foi o primeiro a acordar, estavam em um grande pedaço de madeira, dividindo um pequeno espaço em seis. Estava triste e desapontado, perdeu grande parte de seus amigos e seus sonhos haviam afundado junto do navio.

Eddy foi o segundo a acordar, confuso e com uma terrível dor de cabeça; aos poucos perceberam que Benjamin e Alder estavam mortos. Foram até Petro para conferir se o mesmo ainda estava vivo, por sorte ele ainda respirava. Não havia o que dizer e nem mesmo o que fazer, apesar de terem sobrevivido, não encontravam motivos para comemorar.

“Precisamos encontrar um lugar... Um lugar de terra firme!” – Dizia Eddy forçando seus olhos tentando encontrar algum lugar. – “De todas as formas que imaginei morrer, preso no oceano era a última delas.”

“Pelo menos tivemos a certeza de que suas lendas eram verdadeiras Eddy.” – Dizia Thales já sem esperança em sua voz e olhar. E o mesmo olhar podia ser visto em Eddy. – “Mas assim como os outros não iremos sobreviver para contar nossas histórias.”

“De qualquer forma ainda acho que tivemos sorte... As lendas também citavam uma grande serpente, e não vimos nem um sinal dela.”

“Pelo menos uma notícia boa em meio a tantas outras ruins.”

Sentados no pedaço de madeira, ao lado de seus amigos já mortos e Petro que só estava desacordado. Eles ficaram muito tempo em silencio, apenas esperando a hora de morrerem ou um milagre. Quando seus pensamentos já começavam a força-los a buscar uma forma de morrer, ouviram pássaros cantando e ao olhar para o céu puderam ver uma grande quantidade deles indo para algum lugar a noroeste. E uma vez mais seus olhos se encheram de esperança, se havia pássaros, havia terra firme.

A alegria foi tanta, que eles foram acordar Petro, que estava confuso. Ficou triste por perder seus amigos, mas contente por estar vivo e próximo de alguma praia; onde poderiam se acalmar, se alimentar e se hidratar até encontrar um meio de voltarem para casa.

A madeira estável não conseguia acompanhar os pássaros, estava pesada demais. Apesar da tristeza e angustia, não tinham escolha, precisavam deixa-la mais leve. E neste momento os corpos de Alder, Benjamin e Jarry foram lançados ao mar para jamais serem encontrados.

Arrancaram dois pedaços de madeira sem que a base afundasse, e os usaram como remos para seguir os pássaros dos quais já haviam perdido de vista. Mas por sorte sabiam a direção para qual estava indo. Eles revezavam no remo, hora Petro e Thales, e outra Petro e Eddy, e outra Eddy e Thales, para que ninguém se cansasse mais do que já estavam cansados.

Os tripulantes sobreviventes avistaram uma pequena ilha, com rochas de cor acinzentada e aparentemente uma grama verde e brilhante. Acima dela os passaram cantarolavam e buscavam por alimentos. E ao redor dessa ilha havia outras iguais, menores e até maiores dependendo de para que lado se olhasse.

Estavam tão animados com a terra firma que ao atracar eles abraçaram o chão e agradeceram por terem conseguido. Mas sua alegria era tanta que nenhum dos três percebeu que não havia areia nessa pequena ilha, e nem nenhuma ilha maior com árvores e penhascos por perto. Apenas as pequenas ilhas de rocha cinzenta.

Depois de um tempo começaram a reparar em volta e estranharam o fato de não haver nada em volta além das pequenas ilhas, mas já era melhor do que nada disseram. Avistaram uma grama estranha, e logo já perceberam que na verdade eram algas sob a ilha; o que era estranho já que geralmente essas plantas se encontram apenas em baixo da água.

Caminhavam de um lado para o outro buscando respostas sobre o lugar a onde estava. Não havia areia, não havia árvores, não havia grama e nem mesmo animais além dos pássaros que ficavam por ali sobrevoando de um lado para o outro.

Conforme andava, Thales acabou tropeçando e se surpreendeu a ver o que era; uma enorme rachadura no solo, e Eddy com olhos atentos reparou que as mesmas rachaduras podiam ser vistas em outras ilhas.

“Que tipo de ilha é essa?!” – Questionou Petro, estava assustado e tinha razões para isso.

“Acho que não é uma ilha!” – Eddy relembrou das lendas, e logo já descobriu do que se tratava. – “São escamas, escamas de cobra!”

E o medo tomou conta deles uma vez mais, as ilhas começaram a se mover ao redor deles enquanto um grande tremor vinha da água, algo estava se movendo a baixo deles; algo maior do que a baleia, e certamente muito maior do que o polvo.

Aos poucos grandes olhos surgiram da água, e a ilha onde estavam se moveu na direção deles.

Não sabiam o que dizer e nem o que pensar, pois para eles haviam sobrevivido a baleia e ao polvo apenas para morrer diante da grande serpente. Cujo tamanho era tanto que se dizia que podia se enrolar no mundo, seu nome era Jörmungund! A serpente do mundo.

Ela aproximou-se deles, sua cabeça já se encontrava verde graças às algas que se juntaram durante seu repouso na água; era majestosa e com olhos amarelos tão profundos que penetravam na alma, não precisava dizer nada para mostrar imponência e soberania.

“Vocês sobreviveram a essas águas... São os primeiros mortais a chegarem até mim com vida.” – Os olhos dos três amigos demonstravam medo e surpresa, não esperavam que a serpente soubesse falar a língua deles. Acharam que ela logo os atacaria e mataria sem demora.

Mas Jörmungund era sábio, podia ver a dúvida no olhar deles, e logo já os respondeu:

“Não irei mata-los hoje, deixarei com que vivam o restante de suas vidas..., mas jamais os ajudarei a voltar para a casa, ela já está além do que podem alcançar. Terão que viver aqui até encontrarem uma maneira de voltar por conta própria. E se não encontrarem, uma grande missão os aguarda nessas águas. Renascimento, guarnição e conhecimento.” – Foi à última coisa que o ouviram dizer, ela se esticou até a altura das nuvens e se virou seguindo seu caminho.

Thales ainda tentou questioná-la sobre como sobreviveriam neste lugar e de que missão estaria falando, mas não teve resposta sobre nenhuma de suas questões.

A serpente estava indo embora, e a ilha onde estavam ia junto. Como viveriam em meio ao oceano afinal? Mas diante de seus olhos a água baixou e uma grande cidade surgiu. Era a cidade de Mirëtir, bela e majestosa como aquele que a construiu. Estava encoberta pela água graças ao tamanho de Jörmungund, que fazia com que o nível da água subisse a tamanhos absurdos além do incalculável.

Mirëtir era composta por paredes de rochas de mármore, algas e plantas completavam sua beleza. Quando a água do mar baixou, eles deixaram a pequena ilha e se viram pisando em um lindo lago azul cristalino que cercava um belo jardim de gramas verdes e árvores com frutos maduros e limpos. Essa era a antiga cidade dos deuses da água, construída como uma forma de refúgio para eles, onde se encontrariam e descansariam quando fosse necessário.

Mas a muito a cidade fora tomada por Jörmungund enquanto crescia nas águas desse mundo.

Thales, Eddy e Petro sentiram os peixes nadando por entre suas pernas, viram alguns frutos caindo das árvores e os belos e confortáveis salões que havia neste paraíso a muito perdido.

E agora eles estavam felizes, apesar de presos. Mas agora tinham um lugar confortável para dormir, frutos e peixes para comer e um bom lugar para relaxar e pensar em uma maneira de voltar para a casa.

Eddy estava surpreso, percebeu que as lendas das quais ouvia não eram totalmente verdadeiras. As lendas descreviam uma serpente de fome insaciável, que devorava tudo o que entrava em seu caminho; mas o que se mostrou foi uma situação completamente diferente, apesar de não os ajudar a encontrar o caminho para a casa, os manteve vivos e lhes entregou um bom lugar para viver.

Os anos se passaram e não encontraram uma maneira de voltar para casa, sem barcos, sem materiais para construir. Thales morreu pensando em Elizabeth, sem nunca conhecer o filho que jamais soube que teria. Eddy partiu desta vida sem ter a chance de contas as histórias de sua viajem. E Petro jamais conseguiu realizar o sonho de construir uma família.

Mas antes de morrerem, viveram longos anos, e tanto tempo longe da civilização acabou deixando-os meio louco. Juravam ver espíritos rondando pelo local, gritos e cantos suaves como doces brisas de primavera.

Sereias pulando da água durante a noite, águias e falcões sobrevoando o céu. Viram e ouviram isso e muito mais até o dia em que morreram, que por sinal foi quando descobriram que o que viam e ouviam não eram alucinações, mas sim seres que realmente viviam nesse paraíso.

Com o afastamento da serpente, esses novos seres voltaram a seu antigo lar, para guardar seus constructos e seus segredos. Conhecimentos e objetos tão poderosos quanto o tempo, um verdadeiro templo dos deuses.

Os três morreram, e com isso veio a grande missão que a serpente havia dito; se tornaram espectros de Mirëtir, guardiões do grande mar oculto e da cidade dos deuses da água. Morreram, mas renasceram mais fortes e conseguiram acesso a todo o conhecimento oferecido pela cidade, perderam uma vida..., mas ganharam outra em troca, e seus nomes humanos se perderam no tempo, assim como suas memórias.

Foram os responsáveis por mudar o curso de grandes navegações, fazendo com que elas jamais entrassem nessas águas. Com o tempo eles viram grandes aves de aço sobrevoando suas águas, e para evitar que os segredos desse lugar fossem revelados, eles derrubavam a maioria das aeronaves e helicópteros para caírem direto nos tentáculos do polvo.

Ora, é claro que o polvo sobreviveu, assim como a baleia também. Ambos continuam naquelas águas até os dias de hoje, protegendo e guardando suas entradas.

Os espectros se dividiram em três pontas nos limites desse mar, formando um triangulo. Do qual no centro, se encontrava a grande cidade de Mirëtir, uma cidade que jamais foi encontrada por nenhum outro mortal.

E Jörmungund nadou pelo mundo, por lugares onde jamais seria vista até o dia do Ragnarök. E as lendas sobre esse lugar se espalharam, embarcações não arriscam cruzar a área que agora é chamada de Triângulo das Bermudas. Aviões e outras aeronaves não ousam sobrevoar aquelas águas, é um lugar misterioso para o mundo. Um lugar onde ninguém que ousou entrar lá retornou para contar sua história.

13 Juillet 2022 15:17:29 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Wendel Silva Wendel Silva, escritor e professor de História e Literatura. Sou um cara simples, apenas buscando uma forma de contar minhas histórias e talvez fazer a diferença. Já tenho livros publicados, mas os contos são as raizes para grandes sagas. Neste perfil, escreverei apenas contos simples.

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