rick-santes Rick Santes

Uma manhã tranquila visualizada na perspectiva de uma pessoa mentalmente estável.


Histoire courte Déconseillé aux moins de 13 ans.

#crime
Histoire courte
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A Lembrança

Acordo. Posso ver a fraca luz do sol penetrando pelas fendas nas persianas. Já devem passar das dez... Não costumo dormir até este horário. Não me lembro ao certo o que acontecera no dia anterior, o que me restam são apenas memórias enevoadas. Não me lembro sequer do que jantei na noite passada. Isso, no entanto, não me preocupa; possuo uma memória fraca desde minha infância, e com frequência costumo esquecer de partes consideráveis do meu dia. Deixando isto de lado, me levanto. Apesar do indicativo de um clima agradável vindo do lado de fora, não sinto a necessidade de abrir as persianas. Correção: sinto a necessidade de mantê-las fechadas.


Caminho calmamente em direção à cozinha, passando pelo corredor com portas laterais. A casa se encontra totalmente silenciosa, algo incomum. Conforme me aproximo da cozinha, sinto uma fragrância adocicada, misturada com algo metálico... Este aroma me recorda algo, turvo demais para enxergar com clareza. Está na minha frente, quase ao meu alcance. Quase...


De repente, me sinto nauseado. Minhas pernas fraquejam, e me apoio em uma das paredes. Agora minha cabeça também dói. Procuro me recompor e seguir em frente. A cada passo, me sinto mais fraco, e a cefaléia piora, como se houvesse uma barreira na entrada para a cozinha, me impedindo de atravessar. Quando estou a três passos da cozinha, a dor já está insuportável. Minha visão escurece. Mais um pouco e não conseguiria... mas consegui.


Imediatamente após entrar na cozinha, recobrei minhas forças. A cefaléia também se foi, e minha visão voltou ao normal. Dou uma rápida olhada ao redor da cozinha, e vejo meu pai, debruçado sobre a mesa. Imediatamente, reconheço a fonte do agradável aroma. A névoa se dissipa, e as memórias da noite passada vêm a luz. Não consigo conter um sorriso de satisfação. Me aproximo de meu pai. Tão trabalhador, sempre dedicou tanto à sua família... Está tendo seu merecido descanso. Afago com delicadeza sua nuca, e sinto o local de misericórdia. Pela primeira vez em muito tempo, me sinto um bom filho. Não sinto fome, então apenas tomo um copo de água e volto para o corredor.


A sensação sufocante não me atinge dessa vez, é claro. Não há mais motivos. Sinto o chamado da natureza, e entro no banheiro. A cortina que serve de divisória para a banheira está fechada, mas não preciso abri-la para saber que é minha mãe que ali reside. Mesmo assim, encaro a cortina por um bom tempo. Algo aqui está diferente, sinto a ausência da fragrância doce de antes... Ah, claro! Como pude me esquecer? É claro que eu teria sido mais delicado com ela. Saio do transe ao sentir uma pontada na bexiga. Me apresso a fazer minhas necessidades, e aproveito para escovar meus dentes. Vejo as pílulas de mamãe na pia. Sempre a alertei que remédios e bebidas não resolveriam sua vida, mas ela nunca me deu ouvidos... Pelo menos tenho a certeza de que estará em paz, agora. Deixe que a água leve seus problemas embora, mãe.


Ao voltar para o corredor, ouço um grunhido abafado vindo da última porta. Intrigado, entro no quarto. Lá está meu irmão menor, uma criança alegre e cheia de energia. Cheia de vida... Não poderia tirar isso dela tão de repente. Observo com carinho cada detalhe seu: seus pequenos olhos avermelhados, as lágrimas navegando por suas bochechas macias, sua boca cuidadosamente amordaçada, suas pernas... Sempre admirei as perninhas de meu irmão. Apesar de infantis, apresentavam virilidade. Olho para suas panturrilhas. A da direita, bem definida e bonita, e a esquerda... Ah! Não consigo conter um curto gemido de satisfação ao me lembrar de minha última refeição. De repente, sinto meu estômago roncar. Só precisava de algo para estimular meu apetite. Meu irmãozinho parece ter percebido, pois seus grunhidos abafados começaram a se transformar em gritos.


Cuidadosamente, pego meu irmão no colo, e me dirijo até a cozinha.

10 Mai 2022 03:08:02 1 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

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LIPSTTER LIPSTTER
Olá? Faço parte da Embaixada brasileira do Inkspired e estou aqui para parabenizar pela verificação da sua história. Para começar, como sempre, gosto de ressaltar: toda obra tem um convite. E a sua, ela se encontra esplendorosa. As cores da capa, os elementos e a fonte do título casam muito bem. Parabéns! Caro autor, sobre cada palavra proferida em seu texto, eu me senti totalmente imerso e hipnotizado. Suas descrições maravilhosas me levaram à impressão de mergulhar em um mar de tons pastéis e nadar por sensações embaçadas. O poder de um escritor: causar grandes sensações e reflexões. Você conseguiu! Sabe? Tantas coisas me despertam, e uma delas é: teorizar o incalculável. Uma das partes que mais me deixaram preso em um fluxo de pensamentos foi: "É minha mãe que ali reside. Mesmo assim, encaro a cortina por um bom tempo. Algo aqui está diferente"; e não para por aí, são tantos trechos, não caberia aqui. Contraditoriamente, nada foi tão estável, nada foi tão lúcido. Intrigante, simplesmente intrigante! Você apenas fez uma das melhores narrativas, já anseio por mais. Sobre sua ortografia e gramática, eu gostaria de fazer um apontamento: "As memórias da noite passada vêm a luz" em vez de "as memórias da noite passada vêm à luz"; enfim, no geral, sua ortografia e gramática se encontram caprichadas, muito bem aplicadas. Parabéns! Para finalizar, eu preciso dizer: há um grande talento em suas mãos. Nunca duvide disso! Já conseguiu um fã. Agora fico por aqui. Desejo muito sucesso pra você, merece muito. Até mais!
May 16, 2022, 02:37
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