mariatepper Maria Tepper

A vida londrina, regada a passeios matinais religiosos, etiquetas sociais paranoicas e remédios a base de mercúrio pode parecer tediosa. E realmente é. Mas graças a senhora dos mortos, o senhor Heme Mycroft pode se livrar delas. O negro negociante de Oxfordshire, herdeiro indireto dos Mycroft precisará lidar com as mais altas chamas para permanecer vivo e cumprir o acordo feito no passado. Aceitando o caso de Mary Ann Graciot, dona da excêntrica casa azul, o homem se vê as voltas com um cadáver incinerado, cujo entorno permanece intacto. Sem muitas escolhas, precisará pedir ajuda não somente da sua fantasmagórica companheira Drusilia, mas também de sua amada inorgânica, Eleanora Stuwan. Seria ele capaz de descobrir do que aconteceu na Casa Azul, e permanecer vivo para contar história?


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#341 #personagemnegro #epoque
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Prefácio

A voz mental, tão maçante quanto o presente momento pronunciava, no silêncio do lar, as palavras impressas no folhetim diário. As letras estavam desgastadas, apesar de bem nítidas; a guerra custou a compra de boas tintas, pelo que pode perceber. Apoiou o cotovelo no braço da poltrona e segurou com as mãos cadavéricas a ponta superior do papel, virando-o de costas para, assim, ler sua outra face. Algo estranho sempre o ocorria ao retirar as luvas brancas e libertar aquela aberração a olhos vistos: ele completamente se esquecia de sua peculiar condição. De acordo com seu corpo, as terminações nervosas, os músculos e pele ainda estavam lá. A movimentação ainda estava lá, as sensações, as contrações. A marca de um terrível erro, o qual pagaria por toda sua existência. Esquecendo-se dela por enquanto, as notícias não poderiam ser as mais desinteressantes: as mesmas notícias de guerra civil americana e seu destrinchar em 1865, filosofias religiosas bem contestáveis nessa altura da vida e fofocas de pessoas que ao menos conhecia, e não poderia se importar menos. Não havia qualquer necessidade de gastar seu dinheiro com aquilo, a não ser a tremenda esperança de algo ocorrer no condado de Oxfordshire. Infelizmente, sempre se frustrava.

Dobrou o papel num retângulo perfeito, ajudado pelo fato de já ter sido dobrado antes e o depositou na coxa coberta pelo robe brocado em cor rubi, os detalhes num tom dourado imitando lâminas foliares cumpridas e estreitas, e pétalas de rosas da mesma cor. A faixa em lã, do mesmo tecido o qual cobria suas vestimentas interiores, passava por cima da barriga protuberante sem o apertar de maneira incomoda. Sem ter o que prestar atenção, o homem vislumbrou a companheira ao seu lado, concentrada no bordar de um pequeno botão de rosa. Parou para cogitar, apesar de essa não ser sua área natural de atuação, qual objeto receberia tão pequeno mimo. Mal podia ver seu rosto, pois a aba larga e em leque do chapéu cobria boa parte da face, permitindo-o somente enxergar seus lábios finos e rosados contraindo sem cessar. Não estava do seu agrado. A jovem moça movia a linha com a habilidade de uma artesã experiente, a agulha direcionada cirurgicamente entre as tramas. As mangas bufantes em demasia, na altura do braço, não a atrapalhavam em momento algum, muito menos os suportes rechonchudos, enchidos com penas de gancho, pesavam. Os ombros ficariam a mostra se um xale branco bordado por ela mesma, como bem o contou, não os cobrisse em sua integridade. Suas bordas eram arredondadas com três furos em cada semicírculo, formando pequenas ondinhas.

Por um descuido, as írises azuladas da moça cruzaram os seus, castanho tão escuro quanto seu tom de pele. A jovem fantasma surpreendeu-se, relaxando os antebraços nas coxas cobertas pela saia amarela com pequenas bolinhas brancas bem próximas uma da outra.

— Os mesmos desinteresses? ­— Ofereceu-o um sorriso aberto. As felicidades eram reservadas a mulheres, mais acostumadas a senti-las, mas não a controla-las muito bem. Esse era o caso de sua companheira — Deveria se acostumar a calmaria, Senhor Mycroft.

— De certo, minha cara. De certo... — murmurou tais palavras, a mão esquerda, cadavérica e mais áspera do que a direita indo ao queixo coberto pela barba volumosa. Como se orgulhava daqueles fios ondulados que cobriam parte do pescoço e mandíbula — O que borda?

­— Uma nova gola para o senhor. As antigas deveriam ser queimadas no fogo — Sempre se animava ao comentar sobre trabalhos indumentários. Era uma das poucas coisas a qual tinha completo domínio.

— A senhorita não acha muito afeminado para minha pessoa?

­— Você e esses seus questionamentos infundados ­— Balançou a cabeça de um lado para o outro — Depois de quatorze anos dos melhores trajes já vistos por toda Inglaterra, elogios de todas as partes, encomendas direcionadas a minha pessoa ­— A mão a qual segurava a agulha foi ao meio do peito coberto pelo xale, fechado por um camafeu de imagem deteriorada pelo tempo. Deveria ser uma tulipa, sua flor preferida, mas no momento mais parecia uma imagem bizarra —, contratos pela boa aparência, interesses românticos...

­— Já acompanhei perfeitamente seu ponto, querida Drusilla ­— Deu um fim aquele discurso enfadonho.

Ao lado esquerdo da poltrona de couro a qual sentava, havia uma circular mesa em madeira envernizada. Esse pequeno objeto portava um vaso em porcelana, um presente de uma velha sócia, lindamente pintado com um padrão único, como tinha sido seu pedido. Sua cor, naturalmente branca, contrastava com um azul turquesa demarcando as silhuetas das lápides e entrada do cemitério com seus lindos letreiros em metal enferrujado. Impressionou-se por não o denunciarem por tal pedido excêntrico. Além deste também havia uma pedra retangular, de pontas arredondadas e um círculo côncavo, no raio de cinco centímetros, bem em seu centro. Em sua extremidade superior direita, um charuto mal acesso jogava sua brasa quente num pequeno cilindro preso a base. O sistema, em si, era bem eficiente.

Pegou novamente o vício e buscou onde colocou os fósforos. Disse, num tom abafado pelos dentes e boca estarem ocupados demais evitando que o charuto caísse:

— Peço desculpas se isso a ofendeu.

­— Não somente me ofendeu, como me destratou intimamente — Suas bochechas ficaram ainda mais coradas. Franziu as sobrancelhas, negras e bem grossas, voltando contra sua vontade ao bordar e evitando assim mais discussões sobre esse assunto.

A mão foi atrás do vaso, tocando com leveza sua superfície lisa e ausente de poeiras ou outras sujeitas. Ao sentir uma borda sobressalente, apanhou-a sem demora e a trouxe até ele.

— Os convites para o Wall & Will's Coffee são para Eleanora? ­— Drusilla cruzou os pés, remexendo-os numa batida conhecida somente por ela. Pode ver suas sapatilhas de veludo preto, pontiagudos na ponta e um pouco da fita que cruzava em "X" sua canela por baixo da saia.

— Marquei uma conversa para essa tarde. Um chá com vista para a praia — Mycroft riscou o fósforo na caixa e abafou o fogo do atrito com a mão, levando-o até a ponta do charuto. Balançou-o em seguida e o depositou no buraco do centro da pedra. Tragou com vontade o charuto, a fumaça deliciosa invadindo seus pulmões pela boca e sendo expelidos pelo nariz ­— Um dos melhores assentos da casa.

— O que o senhor pretende com essa moça estranha? ­— questionou enquanto fechada um ponto atrás espaçado, delimitando o caule fino da rosa.

— Um casório me seria bem conveniente ­— Tragou novamente o charuto e observou atento a fumaça dissipar a olhos vistos — Sou um homem de sociedade. Necessito de uma esposa que possa ser apresentada como a senhorita Mycroft.

— E Eleanora seria a melhor escolha? Essa dama é tão vulgar quanto extravagante!

Cela va de soi, mon amie (certamente, minha amiga). Temos tanto em comum que chega a surpreender-me a ausência de pretendentes ao começar a cerca-la — Mal pode conter o sorriso convencido se formando aos poucos em seus lábios escuros — Seria tamanha idiotice cogitar ser o único a corteja-la, contudo...

— Contudo? — Estimulou o parceiro a finalizar o raciocínio.

— Aprecio em demasia a ideia — Tragou novamente o charuto e passou a segura-lo entre os dedos cadavéricos. Analisava a fumaça dispersando-se no ar, sua imaginação criando figuras distorcidas e, em até certo ponto, cômicas.

Drusilla mal pode conter uma risada estridente.

— Sua presunção não é maior do que sua coragem, pois isso lhe daria uma desvantagem terrível.

Ambos riram da fala carregada de verdades. A vida o tornou irritantemente corajoso, horrivelmente vaidoso e alegremente irritável quando assim o precisava ser. Rir era algo fora das regras, ainda mais da maneira o qual fazia, gargalhando a plenos pulmões, porém sua casa era e sempre seria seu porto seguro.

A conversa absorveu tanto seus sentidos que mal percebeu a presença da senhorita Donley no cômodo. Emma Donley não era somente seu braço direito e mulher que confiava sua vida de olhos fechados. Foi aquela mão a qual o puxou do precipício onde ele mesmo acabou se jogando na juventude. Empregada fiel e dedicada, viu-o após o pacto e não o abandonou por conta disso, apesar de não compreender o que faz afinal o contratante. Além dos ótimos serviços prestados, havia também uma relação amistosa entre eles, beirando uma proibida amizade entre os sexos, bem mal vista naquela época. Por maus entendidos com seu pretendente, um cocheiro para lá de colérico passou a evitar determinadas proximidades, mesmo que as conversas fossem as mais produtivas possíveis. Trajava seu corpete com gola fechada até o pescoço, alcançando no máximo a cintura fina. Na frente haviam dois franzidos em ambas as laterais e um central nas costas. Os botões acolchoados, redondos e espessos, apesar de mesma coloração do tecido eram visivelmente notados. A armação fazia a saia de pregas parecesse ainda maior, e a barra estava a poucos milímetros de tocar o chão. As mangas bufantes aumentavam o corpo daquela mulher esguia, e o colarinho bordado por Drusilla era a única parte branca de todo o traje.

Fez uma pequena reverência a Mycroft, as mãos finas juntas e posicionadas no centro superior da saia.

— Peço minhas humildes desculpas pela intromissão — Ao erguer o rosto teve a necessidade de endireitar a máscara. Sim, aquela máscara. O que a distinguia de todas as mulheres por onde passasse. A máscara de porcelana identicamente morena, como sua portadora e maquiagem tão realista que assustava. Se não fosse pela ausência de glóbulos oculares, dando lugar a um buraco vazio com seus reais olhos abaixo, diria ser uma face retirada de uma boneca infantil. Continuou — Há uma visita aguardando no salão de baile. Pede urgência de sua parte.

Mycroft sentiu o olhar confuso de Drusilla sobre ele, porém tratou de não o retribuir. Por enquanto.

— Quem se trata? Não me recordo de receber nenhuma visita essa manhã.

Acabou por apagar o charuto na tábula de pedra. Não precisaria mais dele.

— Mary Ann Graciot.

Este nome conseguiu o impressionar.

— A meretriz da Casa Azul?

— A própria, senhor — Emma confirmou, seu tom numa amena felicidade.

— Agradeço o aviso, senhorita Donley. Sempre prestativa — ergueu- se da poltrona com extrema dificuldade. Ou a idade estava batendo em sua porta, ou o sedentarismo da vida londrina na classe alta o custou a vitalidade. De qualquer forma, seus músculos doíam — Traga um chá de folhas frescas e diga que já irei ao seu encontro.

Emma confirmou com um leve aceno de cabeça, subindo o queixo e logo o abaixando. Ergueu as pontas laterais da saia numa pequena reverência a Mycroft e retirou-se a passos apressados até a salão do baile, um cômodo destinado aos convidados nas festas particulares, somente. Antes de abandonar completamente o cômodo, pode ouvi-lo conversando com alguém onipresente no recinto.

Não teve coragem de virar e encarar quem fosse.

8 Mars 2022 18:01:16 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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