melqui-rodrigues1546102777 Melqui Rodrigues

Durante muitos anos, na Irlanda do Norte, o asilo “Sta. Agatha” sempre foi um local para que os idosos tenham o melhor tratamento possível. O lar de repouso fica em uma região montanhosa e é administrado por freiras e pelo padre Albert. Entretanto, aquele que deveria ser um lugar santificado e cheio de paz, parece ter mostrado o outro lado da moeda. Algo sombrio e maligno despertou e agora a fé daqueles fieis começará a ser testada. Nos dias atuais, a enfermeira Olivia começa a trabalhar no Sta. Agatha, mas aos poucos descobre que o lugar onde foi parar é muito mais perigoso do que ela imaginava. Reze muito, coloque a tua fé em ação, as trevas não estão para brincadeiras e vão te pegar quando você menos imaginar. Baseado em uma terrível e demoníaca história real.



Horreur histoires de fantômes Déconseillé aux moins de 13 ans. © Melqui Rodrigues

#rest-home #asilo #freiras #terror #horror #sobrenatural #terror-psicológico
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REZE COMIGO

CASA DE REPOUSO STA. AGATHA, IRLANDA DO NORTE, 1994.


A casa de repouso Sta. Agatha é um local que fica nas montanhas da Irlanda e é administrado por freiras. Pessoas de todo o Reino Unido e Europa buscam o local para deixar seus pais, avós, tios ou qualquer parente idoso para que aquele seja o seu novo lar.


Aparentemente é um local bastante agradável, sem contar na estrutura que parece mais um “castelo”, com um enorme campo para que os idosos possam passar as suas tardes sossegados recebendo toda a atenção possível das freiras e enfermeiras daquele local. Ao lado há uma paróquia comandada pelo padre Albert.


Entretanto, houve um dia em que essa casa de repouso parece ter mostrado algo além do que os nossos olhos podem ver, algo que não se parece em nada com um local de “descanso” e sim, uma manifestação maligna que ninguém deu crédito a princípio.


Poderia ser mais um “surto” de idosos, afinal de contas é compreensível nessa idade, certo? Mas tinha algo muito mais aterrador por trás, a noite do dia 31 de Outubro de 1994 foi marcada por algo desconhecido, um mal nunca antes visto por aqueles tementes a Deus, algo que desafiará a sua fé nos próximos anos.


Corredor do Sta. Agatha, 31 de Outubro de 1994.


O padre Albert (43 anos, cabelo quase grisalho, usando óculos) juntamente com dois enfermeiros e as irmãs Mary Hellen (33 anos) e Cecília (27 anos) estão levando em uma maca um dos idosos do local, seu nome é Mr. Harris, um senhor de 73 anos, magro e com o cabelo todo esbranquiçado e bagunçado.


Eles estão eufóricos passando pelo corredor, pois ele parece estar tendo um ataque de nervos e está se retorcendo na maca gritando sem parar. O padre Albert sai na frente abrindo a porta de um dos quartos.


— Depressa! Coloquem-no na cama e muito cuidado!


Os dois enfermeiros tiram Mr. Harris da maca e o colocam na cama, o velho continua com sua crise nervosa. A madre superiora Dulce chega até o quarto bastante afoita.


— Padre Albert, como ele está?


— Madre Dulce, receio em dizer que não é um caso de ataque de nervos, parece ser algo pior do que imaginamos.


— Do que está falando, padre?


— Receio que o Mr. Harris... Esteja sendo dominado por alguma força maligna.


A madre e as duas irmãs presentes começam a fazer o sinal da cruz segurando os seus terços. Dulce alerta ao padre.


— Precisamos leva-lo à paróquia, aqui ele vai acabar agitando os velhinhos com os seus gritos.


— Esse é o problema, não temos muito tempo, seja lá o que for, está sugando as forças do pobre Mr. Harris.


A irmã Cecília observa algo e aponta para o padre.


— Padre Albert, ele parou de se retorcer.


— O quê? Será possível que...


Eles ficam por instantes observando Mr. Harris que está deitado na cama sem fazer um movimento. Eles se aproximam aos poucos dele, até que o mesmo se levanta de vez com uma expressão demoníaca e exclama com uma voz de trovão:

— O INFERNO SERÁ O LUGAR DE TODOS VOCÊS!


Padre Albert pega uma cruz e aponta pra ele.


— Parado aí mesmo, demônio!


O velho se retorce de fúria e pula da cama diretamente na direção da irmã Cecília, a derrubando no chão e mordendo a sua garganta. Os enfermeiros tentam tirá-lo de cima dela e ele arranca um pedaço de carne do pescoço da irmã. Olha novamente para o padre, mastiga a carne da freira e em seguida sai do quarto em uma velocidade descomunal e como um animal.


— Atrás dele agora! Acionem os guardas!


Mr. Harris está correndo como um animal de 4 patas pelos corredores do asilo, enquanto o padre Albert, a madre superiora,e a irmã Mary Hellen, tentam alcança-lo. Os enfermeiros continuam no quarto tentando estancar o sangue da irmã Cecília.


Mr. Harris passa como um “raio” por uma das enfermeiras que estava por ali no corredor, ela põe a mão no peito temerosa pela cena que acaba de ver e, o padre, juntamente com os outros, continuam correndo para tentar alcança-lo.


No relógio da paróquia, os ponteiros apontam para meia-noite e o sino começa a tocar. Em poucos minutos, os velhinhos daquele lugar começam a ficar inquietos, as demais freiras cuidadoras tentam acalmá-los, mas é como se algo tivesse ativado e está incomodando a paz daqueles velhinhos.


Mr. Harris pula por uma das janelas do térreo quebrando os vidros e passa a correr pelo gramado.


O padre Albert se encontra com um dos guardas no caminho.


— Padre, o que aconteceu? Quem é o invasor?


— Não é nenhum invasor, é o Mr. Harris.


— O quê? Não pode ser o Mr. Harris que eu conheço, ele tem 73 anos e mal consegue dar dois passos sem um acompanhante.


— O senhor acredita em Deus?


— É claro que eu acredito, por que a pergunta?


— Então use muito a sua fé, senhor guarda... Porque aquilo que passou pelas janelas, é a verdadeira personificação do demônio.


No quarto, um dos enfermeiros tenta fazer o possível para estancar o sangue da irmã Cecília, mas aquela mordida causou consequências sérias.


— Irmã Cecília, fique comigo! Vamos! Reaja! Reaja, irmã Cecília!


Já era tarde! A irmã Cecília não resistiu e sangrou de uma forma nunca antes vista. Como uma “simples mordida” poderia causar uma hemorragia dessa magnitude?


Do lado de fora, Mr. Harris chega ao enorme portão daquele asilo, ele tenta escalar pelo mesmo, até que o padre Albert chega juntamente com os demais.


— Mr. Harris! Pare!


Como um “passe de mágica”, Mr. Harris para de tentar escalar o portão, ele fica por alguns segundos de costas e depois começa a virar para eles lentamente. A madre superiora fita o olhar pra ele perguntando:


— Mr. Harris? O senhor está aí?


Ao perguntar isso, o braço esquerdo de Mr. Harris começa a se retorcer de maneira macabra, em seguida o outro braço dá um “nó” em si mesmo, a coluna dele começa a ficar envergada, o segurança com uma arma na mão começa a se tremer e deixa-a cair no chão.


Mr. Harris com o corpo totalmente retorcido, de repente olha pra eles e por segundos seu olhar fica aflito e ele grita:


— ME AJUDEM!!!


O padre Albert percebe que Mr. Harris voltou por instantes;


— DEPRESSA! O DEMÔNIO VAI MATÁ-LO! PRECISAMOS SALVÁ-LO!


A madre Dulce fala com a irmã Mary Hellen.


— Irmã Mary Hellen, vá imediatamente ao telefone da recepção e peça para que mandem uma ambulância pra cá agora!


— Sim, reverenda madre!


A Irmã Mary Hellen corre de volta pro asilo pra atender ao pedido da madre superiora. Lá fora, o padre Albert não vê outra solução.


— Eu sinto muito, Mr. Harris.


Ele pega a sua cruz, aponta pra ele e começa a declamar:


Regna terrae, cantate deo, psállite dómino, tribuite virtutem deo Exorcizamus te, omnis immundus spiritus, omnis satanica potestas, omnis incursio infernalis adversarii, omnis legio, omnis congregatio et secta diabólica...


Enquanto o padre declama, Mr. Harris começa a se retorcer e fica de costas no portão, uma ventania invade aquele local e o corpo de Mr. Harris começa a subir pelo portão como se estivesse grudado a um imã.


... HumiIiter majestati gloriæ tuæ supplicamus, ut ab omni infernalium spirituum potestate, laqueo, deceptione et nequitia nos potenter liberare, et incolumes custodire digneris. Per Christum Dominum nostrum. Amen!!!


Ao pronunciar a última palavra, Mr. Harris dá um grito ensurdecedor no alto daquele gigantesco portão. O guarda e a madre superiora ficam completamente atônitos com aquela cena macabra.


Lá dentro, a irmã Mary Hellen entra na recepção e disca um número no telefone. As luzes do asilo começam a piscar, a ligação é cortada.


— Não, não, não pode ser!


Ela tenta de novo, coloca o telefone no ouvido, de repente ouve um barulho como se fosse um sussurro atrás dela. Ela fica gelada, suando frio, quer se virar e não consegue.


Após resistir contra ela mesma, uma mão passa no seu ombro, ela dá um grito, olha pra trás, derruba o telefone no chão, fita o seu olhar na pessoa ou seja lá o que for que ela esteja vendo naquele momento e diz:


— POR FAVOR... NÃO!!!


Naquele dia, o mal foi liberto...


BASEADO EM FATOS REAIS


CASA DE REPOUSO STA. ÁGATHA- DIAS ATUAIS.

Os sinos da paróquia estão a tocar apontando que é meio-dia no local. Um táxi estaciona no portão do lado de fora do Sta. Agatha, uma mulher desce do veículo e é recebida por um dos guardas. Ele abre os portões e ela entra levando consigo uma mala média.


Essa mulher se chama Olivia Brown, 32 anos, magra de pele morena, cabelo preto e usa um penteado bem parecido ao que as mulheres utilizavam nos anos 70, uma tiara repartia a sua franja do restante do cabelo, e apesar de parecer “antiquada”, ela não se importava com o seu modo de vestir. Em seu pescoço carrega o colar de uma cruz e usa brincos curtos. Percebe-se que é uma mulher simples e não liga muito pra vaidade.


Gabinete do Sta. Agatha.


Olivia está sentada enquanto aguarda que a madre superiora olhe sua documentação.


— Bem, Olivia Brown, tem 32 anos... Já trabalhou um bom tempo como técnica de enfermagem... Pelo visto, tem bagagem, menina.


— Não é pra tanto, madre. Apenas comecei a trabalhar cedo e é por isso que hoje tenho algumas experiências.


— Sabe que vai trabalhar aqui em tempo integral, certo? Eu digo que não será como um emprego comum que você encerra o seu expediente e vai pra casa.

— Sim, já estou ciente. Inclusive aluguei a minha casa justamente pra poder atender a este emprego. Sempre quis trabalhar em regiões mais distantes da cidade grande, sabe como é, né? Londres às vezes me dava dores de cabeça.

— Eu entendo, menina. Bom, o Sta. Agatha, como você pode ver, é administrado por freiras há muitos anos, temos o padre Albert que é nosso grande mentor, e temos muitas freiras auxiliares que estão aqui pra servirem de companhia para os nossos velhinhos. Mas é claro que precisávamos de mais alguém pra compor o corpo de enfermeiros, as irmãs não possuem experiência médica, por isso precisamos contratar alguém com o seu talento para nos auxiliar.

— Fico muito grata pelas palavras, madre.

— Bom... Acho que não tenho motivos pra passar essa vaga adiante, está contratada.

— É sério?

— Claro que sim. Você precisa de um prazo pra trazer as suas coisas para a instituição?

— Não, na verdade... Isso é tudo o que eu tenho.

— Uma malinha deste tamanho? Nem parece uma mulher normal do século 21.

— Nunca fui muito adepta às coisas materiais.

— Interessante...

A madre repara no colar de cruz de Olivia.

— E você... É devota à alguma religião? Desculpe perguntar, isso não faz parte da entrevista, é que eu não pude deixar de reparar em seu...

— ... Ah sim, o colar. Era da minha mãe, eu sou católica desde que eu me conheço por gente.

— Nunca pensou em... Fazer os seus votos para se tornar uma freira como nós?

— Olha... Não é que eu não queira, inclusive esse foi um dos motivos de eu vim pra cá, porque soube que é administrado por freiras, mas... Sabe quando você sente que ainda não está pronta?

— Bem... Nunca é tarde. Você tem algo especial, há muito tempo não aparecia neste asilo, pessoas com uma áurea tão diferenciada como a tua.

— Vou entender isso como um elogio.

— Claro que sim. Bom, seja bem vinda ao Sta. Agatha! Só um instantinho.

Ela faz uma chamada ao telefone.

— Irmã Ruth, poderia vir até a minha sala, por favor? Obrigada!

Ela desliga o telefone e continua a conversar com Olivia.

— Enfermeira Olivia... Aqui diz que... Seu estado civil é solteira, é verdade?

— Sim... É uma longa história!

— Perdoe-me pela intromissão.

— Não, tá tudo bem.

Alguém bate na porta.

— Entra!

— Com licença, madre Mary Hellen, me chamou?

A madre superiora agora é a irmã Mary Hellen, a mesma que testemunhou o evento macabro com o Mr. Harris anos atrás.

— Sim, irmã Ruth. Gostaria de te apresentar à nossa nova enfermeira, a irm... Quer dizer, a senhorita Olivia Brown.

— Muito prazer, Olivia! Nos regozijamos com a tua presença aqui.

— Muito obrigada, irmã.

A irmã Ruth tem aparentemente a mesma idade de Olivia, tem um semblante bondoso e transmite muita simpatia.

— Irmã Ruth, poderia acompanhar a enfermeira Olivia até os seus aposentos, por favor? Ela veio para ficar.

— Claro que sim, madre. Por aqui, senhorita.

— Obrigada!

Ruth e Olivia saem do gabinete. Mary Hellen se assenta em sua poltrona e fica um tanto pensativa.

— Essa moça... Ela tem algo especial, nunca tinha sentido uma energia como essa.

Ruth e Olivia estão andando pelo corredor do Sta. Agatha.

— E de onde você veio, Olivia?

— Ah, eu sou de Londres! Me formei em enfermagem lá, tentei fazer outra especialidade em medicina, mas... Eu penso, algum dia, estudar psicologia.

— Psicologia? Olha, seria ótimo ter uma psicóloga aqui entre nós além de enfermeira. Sabe como é a terceira idade, eles sempre procuram problemas onde não tem, pobrezinhos! Mas adianto a você que eles são uns amores.

— Espero mesmo que sejam.

As duas estão prestes a virar o corredor quando Olivia percebe que tem uma idosa parada em pé ao lado de uma pilastra no jardim a observando. Olivia fica um pouco intrigada do motivo daquela senhora a está olhando com tanta veemência. Ruth dá meia volta e a chama.

— Você vem?

— Oh! Sim, claro! Me perdoe, eu estava... Admirando a paisagem.

— Ah pode ter certeza que ainda não viu nada.

Olivia segue caminho com Ruth e, quando ela sai, a senhora que a estava observando já não está mais ali.

Enfim, a irmã Ruth abre a porta do quarto que será a habitação de Olivia. É pequeno, porém aconchegante, na verdade era exatamente como Olivia imaginou.

— Uau!

— Desculpa, eu sei que você está acostumada com todo o luxo de Londres, e...

— ... Não, pelo contrário, é perfeito! Esse será um lugar muito agradável, eu sinto isso.

— Bom, eu vou deixar que você se acomode, dentro de alguns minutos eu vou trazer a sua roupa que você irá trabalhar. Caso precise de mim, eu estarei no quarto no fim do corredor.

— Muito obrigada, irmã Ruth. É muita gentileza da tua parte.

— Ah, não se incomode, querida! É um prazer tê-la aqui. Com licença!

— Toda!

Ruth se retira fechando a porta do quarto. Olivia coloca a sua mala em cima da cama e começa a tirar a meia dúzia de coisas que ela trouxe. Apenas algumas roupas, um par de sapatos a mais, um terço e uma bíblia.

Ela em seguida vai até um pequeno espelho que tem no quarto, segura a cruz de seu colar e diz para si mesma:

— Você iria ficar muito orgulhosa de mim, mamãe. Eu vou ajudar as pessoas como você também ajudou, eu prometo!

Cerca de meia hora depois, Ruth está apresentando Olivia para outras irmãs e enfermeiras do local. Ela está a apresentando para a enfermeira Sarah, 47 anos, loira do cabelo curto, pele branca e um pouco enrugada, cara de poucos amigos.

— Enfermeira Sarah, quero que conheça a Olivia, ela vai trabalhar agora na enfermagem ajudando vocês.

— Muito prazer, Sarah!

— Esperava alguém mais jovem. Que idade você tem?

— Tenho 32.

— Ora, ora... Finalmente vão trazer alguém com mais experiência pra esse “muquifo”.

Ruth a repreende.

— Sarah, por favor!

— O quê? É a verdade, não é? Não me leve a mal não, moça. Não vou te desejar as boas vindas, porque eu não dou um dia pra você querer sair daqui correndo, sério mesmo.

— Eu... Eu acho que a Enfermeira Sarah teve um dia difícil hoje, vamos para outro lugar, Olivia.

— Dia difícil eu tenho todo dia.

Elas deixam Sarah ali sozinha, enquanto caminham para outro lado, os jardineiros do Sta. Agatha estão ali observando, em especial um deles que não tira os olhos de Olivia. Seu nome é David, 34 anos, 1,75, barba por fazer, moreno e cabelo preto. O outro é Aurélio, 56 anos, cabelo grisalho, barba rala e branca.

— Você viu a nova enfermeira, Seu Aurélio?

— Estou vendo!

— Ela... É bem bonita, nem parece com as outras enfermeiras daqui.

— David, David, tome muito cuidado, hein? Lembre-se que você trabalha em um local sagrado.

— Mas eu só fiz um elogio, nada de mais.

— Eu sei, é que eu não quero que... Bom...

— ... Vai mesmo querer me lembrar disso?

— Desculpa, filho. Eu não queria te chatear.

— Não, tá tudo bem... Acho que você é o único que me entende mesmo.

— Tudo passa, David. Parece que não, mas... Uma hora você vai poder ter uma vida digna novamente... E bem longe de um asilo com um velho gagá te perturbando o tempo todo.

— Você não perturba, “vovô” Aurélio.

— E ainda me chama de “Vovô”? Mais respeito, rapaz!

GABINETE DO STA. ÁGATHA.

O Padre Albert, que agora já é um homem de mais de 60 anos, está no gabinete da madre Mary Hellen conversando com ela.

— Precisava de ver, padre. Ela parece um anjo, nunca vi alguém dessa forma aqui.

— Está colocando muitas expectativas nessa enfermeira, madre superiora. Por acaso é alguém que você conhecia?

— Incrivelmente não! Mas quando eu a vi, senti que já tinha visto esse rosto de algum lugar, mas não me lembro de onde.

— A senhora já não é mais nenhuma trintona, madre. Precisa em breve pensar em uma substituta, sei que seus serviços aqui continuam de excelente qualidade, mas sabes bem que a idade chega para todos nós.

— Sim, eu sei, padre Albert, é que... Ainda estou analisando as minhas opções, mas...

— Não pensou na irmã Irene? Ela já está aqui há um bom tempo e me parece ter pulso firme.

— Eu não sei, padre, mas... Tem alguma coisa na irmã Irene que... Me incomoda, ela é uma boa freira e nunca tive reclamação dela, mas... Não sei.

— Bom, eu sinto que o padre Henry será um ótimo substituto na nossa paróquia, ele têm feito tudo certo, passou pelo sacerdócio com mérito e já está pronto para ser um padre titular.

— Que Deus e nossa Senhora abençoe ao padre Henry e tenho certeza que ele irá ser um bom substituto para o senhor.

Enquanto conversam, Ruth bate na porta.

— Pode entrar!

— Madre, trouxe a enfermeira Olivia como pediu.

— Oh! Aí está! Enfermeira Olivia, quero que conheça o padre Albert. Ele é o líder da nossa paróquia.

— Muito prazer, padre!

— O prazer é todo meu, Olivia. Esperamos que tenha tido uma boa recepção.

— Sim, claro, a irmã Ruth e a madre superiora me deram todo o apoio necessário. Pra ser sincera, eu não estava esperando nada disso.

— Ah, menina! Deixa de cerimônias, melhor deixar essas formalidades para nós freiras, você é uma moça jovem e tem a vida toda pela frente. E nem vem me falar que 32 anos já é velha.

— Muito obrigada, madre.

— Bom, senhoras! Se me permitem, tenho outros assuntos a resolver, então preciso me retirar. Senhorita Olivia, mais uma vez as minhas boas vindas e sinta-se à vontade de vir visitar a nossa paróquia.

— Com certeza eu irei, padre. Muito obrigada!

O padre Albert se retira. A madre continua a conversar com Olivia.

— Então, o que está achando de nossa instituição?

— Muito boa, claro que ainda falta muita coisa pra eu conhecer aqui, mas a irmã Ruth têm me ajudado muito.

— Querida, não precisa me agradecer, faço tudo isso para que se sinta à vontade.

— E olha, a irmã Ruth tem um coração mole, às vezes a gente fica até pensando que ela se faz de boba.

— Madre?

— É só uma brincadeira. Vocês sempre me veem tão carrancuda, preciso me distrair às vezes e nada melhor do que conversar com mulheres de Deus, como são vocês.

A noite chega, Olivia está se preparando para dormir. Ela coloca a sua tiara em cima do móvel ao lado da cama e já se encontra de camisola. Antes de deitar, alguém bate em sua porta.

— Já vai!

Ela abre e encontra uma outra irmã de aparentemente uns 50 e poucos anos.

— Pois não?

— Boa noite, espero não ter te incomodado, você deve ser Olivia, a nova enfermeira.

— Sim, sou eu mesma e não é incomodo nenhum. Entre!

— Não, querida, não precisa. Eu sou a irmã Cláudia, passei por aqui apenas pra te dar as boas vindas e que diferente da irmã Ruth, eu não durmo tão cedo, então se precisar de qualquer coisa, eu estarei no quarto do outro lado do corredor. Aconselho que se agasalhe bem, as noites aqui são muito frias nessa época do ano.

— Muito obrigada, irmã! Agradeço pela hospitalidade.

— Não precisa agradecer, menina. Boa noite!

— Boa noite!

Olivia fecha a porta e vai dormir.

No dia seguinte, Olivia vê Ruth no jardim fazendo companhia para um dos idosos que está em uma cadeira de rodas. Ruth a avista e a recebe com um sorriso no rosto.

— Dormiu bem, Olivia?

— Sim, eu dormi muito bem! Nem senti a famosa estranheza de não estar em sua cama.

— Ai, que bom!

— Uma das irmãs foi me ver ontem à noite, achei ela tão simpática, me desejou as boas vindas, foi um amor!

— Jura? Quem era? Você sabe?

— Ah, se eu não me engano, o nome dela era Cláudia.

— Claudia? Claudia, Claudia... Ah não, querida! Acho que você entendeu errado. Deve ser a irmã Clara, ela é uma das nossas chefes de cozinha, realmente uma fofa! Mas estranho que ela sempre deita mais cedo que a maioria de nós.

— Bom, talvez nesse dia ela abriu uma exceção.

— É possível.

Uma das enfermeiras se aproxima delas, seu nome é Sonia, 33 anos, cabelo loiro até os ombros, quase a mesma altura que Olivia.

— Com licença, desculpa interromper. Você é a nova enfermeira, não é?

— Sim, sim, sou a Olivia.

— Muito prazer, Olivia. Eu sou a enfermeira Sonia, eu vim pra te levar até a enfermaria para que conheça as instalações e já passo algum dos trabalhos que temos pra hoje.

— Claro, seria um prazer.

Enfermaria do Sta. Agatha.

Sonia está mostrando as instalações para Olivia, ela está encantada com a qualidade do atendimento daquele local.

— ... E não se preocupe que você não terá muito trabalho aqui, querida. Nem todos eles são problemáticos.

— Diz isso por você, enfermeira Sonia.

Interrompe o Doutor Petter enquanto ele conversa com Olivia.

— Doutor Petter! Que bom que está aqui.

Petter tem 41 anos, cabelo preto com as laterais grisalhas e usa óculos.

— Claro, Sonia! E imagino que essa deve ser a nova enfermeira?

— Sim, eu me chamo Olivia Brown.

— Bem, seja bem vinda e tome cuidado com a Sonia, ela pode não ser confiável às vezes (brincando).

— Mas vejam só! Como se eu fosse igual a enfermeira Sarah, essa sim você precisa tomar cuidado.

— Ah, eu a conheci ontem assim que eu cheguei.

— Sério? Nossa, meus pêsames! Ninguém aqui suporta a cara de megera dela.

Ouve-se uma voz bem fraquinha de uma idosa.

— Onde tá a minha sopa?

— Ora, ora, ora, dona Matilde, vejo que a senhora já está acordada? O que eu te disse sobre descansar mais, hein?

— Descansar? Menina, eu já estou com 70 anos, meu descanso agora será a passagem para o outro mundo.

— Ai, ela sempre tão brincalhona! Bom, hoje você será cuidada pela nova enfermeira que é a Olivia. Seja boazinha com ela, hein?

— Ela sabe fazer sopa?

Olivia ri e responde:

— Olha, posso não saber fazer conforme a senhora goste, mas... Eu posso providenciar.

— Ai, Olivia! Obrigada, precisávamos de alguém como você. Escute, no final do corredor é a cozinha, fale sobre a sopa da dona Matilde pra uma das irmãs que todo mundo já sabe quem é ela.

— Tudo bem.

Olivia vai até a cozinha da enfermaria e vê uma das irmãs saindo de lá com uma bandeja.

— Oi, com licença! Eu sou nova aqui, a dona Matilde está implorando pela sopa dela.

— Ai,Matilde. Essa mulher não desiste nunca. Querida, o caldo já está pronto na panela, tem pratos de isopor dentro do armário, é só colocar a sopa, não tem segredo, eu faria isso se não fosse as minhas duas mãos já ocupadas.

— Não esquenta com isso, eu mesma pego.

— Obrigada e bem vinda!

Olivia vai até o balcão e tira a tampa da panela que ainda está quente, pega um dos pratos de isopor dentro do armário e o coloca em cima da pia.

Ela abre a torneira para lavar as mãos e quando termina, ouve um barulho atrás dela. Ela tenta olhar um pouco de lado e vê dois pés molhados e com unhas pretas, desvia o olhar novamente e continua de costas olhando para a parede da pia.

Ela segura a sua cruz no pescoço e começa a fazer uma oração com o mexer dos lábios. Enquanto faz isso de costas e de olhos fechados, vemos uma mulher idosa sem roupa e com o cabelo até o quadril passando por ali a passos lentos, ela tem uma aparência fantasmagórica, seus pés são retorcidos e seus braços são tão longos que podiam tocar os joelhos. Olivia continua a rezar, teme olhar para trás, é possível ver uma pequena gota de suor escorrendo de sua testa, tenta manter a calma, mas está tremendo, seu coração está aflito, em meio à sua angústia e pavor naquele momento, alguém toca em seu ombro.

— Olivia?

— Ah!

Era a irmã Claudia (ou Clara).

— O que aconteceu? Você está pálida!

— Eu... Eu... Não é nada, irmã. Eu só preciso levar essa sopa para uma das idosas e eu vou ficar bem.

Ela pega uma concha, enche o prato, e sai dali rapidamente. Mas não se pode negar que algo ela viu ali.

Alguns minutos depois, Olivia está dando a sopa na boca da senhora Matilde.

— Só mais uma colherada e... Pronto! Comeu tudo, dona Matilde!

— Você só pode ser um anjo... Muito melhor que aquelas outras enfermeiras idiotas.

— Ah, não fala assim delas! Bom, eu estarei no jardim se precisar de mim.

Minutos mais tarde, no jardim, Olivia está no batente observando todos aqueles idosos sendo atendidos pelas freiras e enfermeiras.

Uma das irmãs fica do lado dela, seu nome é Irene, 51 anos, com cara de poucos amigos.

— É irônico o ciclo da vida, não é?

— Perdão! O que disse?

— Passamos a vida toda criando os nossos filhos e dando o amor e carinho que eles precisam, para no fim da vida pararmos em um lugar como esses. Me pergunto se... Nossos filhos realmente nos amam tanto para chegar a esse ponto? De nos abandonar e nos deixar aqui neste lugar para morrermos sem dar trabalho a eles. Imagine se fosse o contrário, imagine se quando eles fossem pequenos, nós os deixássemos em um orfanato ao nascer, justamente para eles “crescerem em paz”. É bem irônico!

— Desculpa a pergunta, mas... A senhora tem filhos?

— Eu... Já tive um dia, bem antes de fazer meus votos. Eu tinha 19 anos quando engravidei, o pai do meu menino era filho do fazendeiro onde eu morava. Foi um escândalo! Uma criança fora do casamento e eu fui punida como uma mulher nunca poderia ter sido. Me mandaram pra longe e me colocaram em um convento. Minha mãe disse que eu precisava fazer algo para me redimir do meu pecado mortal, porque segundo eles, eu já estava condenada ao inferno, no convento descobriram que eu já estava grávida e não poderiam me manter lá, então me mandaram para a casa de repouso SANTA MADALENA. Lá eu poderia ter o meu filho em paz, porém descobri que aquele lugar era o verdadeiro inferno! A gente mal comia, mal bebia, então... Quando entrei em trabalho de parto... Meu filho nasceu, mas... Por eu não ter tido uma alimentação saudável na gravidez e ter feito muito esforço além do necessário... Ele morreu pouco tempo depois.

— Eu... Eu sinto muito.

— Não se preocupe. Você tem filhos?

— Não, não tenho. Não sei se isso está nos meus planos ainda.

— Melhor assim, filha. Já temos muita coisa para nos preocuparmos. A propósito, eu sou a irmã Irene.

— Muito prazer, irmã Irene! Ouvi falar muito da senhora.

— Com certeza não foram coisas boas, mas eu já estou acostumada. Venha nos visitar na missa de amanhã.

— Claro, será uma honra!


PARÓQUIA DO STA. AGATHA- UM DIA DEPOIS...


Já é o segundo dia de Olivia ali no asilo Sta. Agatha, ela está assistindo a missa e vê o padre Albert no altar.

— ... Nos regozijamos pela presença de cada um dos nossos irmãos nesta manhã! Como sabem, em breve precisarei passar o meu legado para outra pessoa, então hoje o padre Henry é quem vai estar a frente da missa. Padre Henry, por gentileza, se aproxime.

O padre Henry tem 33 anos, é um homem formoso, cabelo preto e liso e não usa barba.

— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...

Enquanto ele saúda os fieis, a irmã Claudia se assenta ao lado de Olivia.

— Irmã, que prazer tê-la aqui!

— Está gostando da missa?

— Claro, eu sempre fui nas missas quando morava em Londres.

— Eu percebi isso em você, menina. Veja o padre Henry! Tão jovem! É tão difícil homens da idade dele com uma aparência tão formosa fazerem os votos ao sacerdócio.

— Irmã! Não deveria reparar na aparência física do padre.

— Olivia, sou uma freira, mas não sou cega. E sei bem que você reparou nisso também, mas falei isso para te levar a reflexão que... Ainda há salvação neste mundo, ainda há homens e mulheres de muita fé que vão fazer a diferença, que vão nos livrar deste mal que assola a verdade de Cristo em nossas vidas.

— Sim, de fato isso é louvável!

Passou-se um tempo e a missa chegou ao fim, as pessoas estão se retirando e Ruth está vindo na direção de Olivia. Claudia diz:

— Bom, eu preciso ir agora, menina. Nos vemos por aí.

— Obrigada, irmã Cláudia!

Cláudia sai dali e Ruth se aproxima de Olivia.

— Olivia!! Que felicidade ver você aqui na missa!

— Não poderia deixar de vir, irmã Ruth.

— Estou muito feliz. Venha! Vou te apresentar ao padre Henry.

Ruth leva Olivia até próxima ao altar onde estão conversando o padre Albert, a madre superiora e o padre Henry.

— Com licença! Padre Henry! Quero que conheça Olivia Brown, é a nova enfermeira da nossa instituição e veio hoje nos prestigiar em assistir a missa.

— Quanta honra em saber que a primeira missa que você veio foi justamente a primeira na minha direção! Muito prazer senhorita, Olivia!

— O prazer é todo meu, o padre Albert tem sorte, o senhor parece ser um substituto a altura.

— Não é pra tanto, eu jamais terei uma sabedoria a altura deste homem de Deus.

— Por favor, padre Henry. Não me bajule tanto.

Ambos sorriem.

Algumas horas se passam e Olivia está andando sozinha pelo jardim. Ela não pode deixar de observar uma linda roseira que tem ali, ela se aproxima, se agacha e sente o cheiro da roseira, enquanto sente aquele aroma, ouve-se uma voz.

— Gosta de flores?

É David que chama por ela.

— Ow, sim, claro! Sou fascinada!

— Isso é bom! A maioria das enfermeiras daqui parecem não gostar tanto, acho que é a modernidade falando alto na cabeça.

— Na minha antiga casa, tínhamos um jardim de flores, por isso que gosto tanto.

— Fico feliz. A propósito, eu me chamo David... David Malcom, sou o jardineiro, na verdade, ajudo o seu Aurélio que é o meu mentor, diga-se de passagem.

— Muito prazer, David. Sou Olivia, Olivia Brown.

— E... Tá gostando daqui?

— Sim, estou e a propósito é o meu terceiro dia aqui, mas ainda não o tinha conhecido.

— Bom, eu já a tinha visto por aí, mas não tive a oportunidade de me apresentar. Nós moramos em um casebre lá embaixo. O Padre Albert me deixou ficar morando com o Seu Aurélio aqui para trabalhar.

— O padre Albert realmente é um homem muito amoroso!

— Sim, ele é. Escuta! Já que gosta tanto assim de rosas, vou te dar um presente.

Ele pega a sua tesoura de jardinagem e separa uma rosa e entrega nas mãos de Olivia.

— Mas... Mas... Eu não posso ficar com isso.

— Por favor, aceite como presente de boas-vindas! É só colocar em um vaso d’água que tudo vai dar certo.

— Se não tenho escolha... Muito obrigada!

— Disponha, senhorita!

Horas depois, Olivia coloca a rosa que ganhou de David em um vaso no seu quarto perto da janela.

Ela dá um sorriso e em seguida sai do local, quando dá alguns passos, sente alguém a observando lá no fundo do corredor.

Ela para de caminhar, olha pra trás e vê um senhor alto e com um chapéu cinza a observando, fica um tempo fitando o idoso sem saber o motivo dele a estar encarando. Ela fica um pouco receosa e prefere continuar andando sem olhar para trás.

SALA DE VISITAS, HORAS DEPOIS...

Alguns idosos ainda recebem visitas de seus parentes aos domingos, porém uma boa parte deles foram literalmente esquecidos. Por isso, sempre alguma das irmãs ou enfermeiras tiram um período para conversar com eles e assim amenizando o peso da solidão.

A irmã Ruth está acompanhando Olivia na sala.

— Bom, alguns desses velhinhos vem pra cá apenas na esperança de seu ente querido aparecer, mas... Eles nunca aparecem. Aquele ali sentado é o Senhor Jefrey, ele tá aqui há 10 anos, sua família nunca voltou pra visita-lo. Por que não experimenta conversar com ele? Assim você treina seus dotes em psicologia.

— Claro!

— Enquanto isso, eu só vou aqui por um instante.

Olivia se assenta na cadeira de frente para o senhor Jefrey, 66 anos, cabelo liso penteado pra frente e barba por fazer. Ele está mexendo em umas peças de lego e parecia estar bem concentrado.

— Senhor... Jefrey, certo? Eu sou a enfermeira Olivia! Bom, sei que não me conhece e que eu não tenho nada a ver com a tua vida, mas... Estou aqui para dizer que posso ser a tua amiga, se quiser conversar comigo, seja lá o que for, pode conversar.

Ele não responde nada, continua mexendo nas peças.

— Vejo que o senhor tem um dom de montar casas de lego, eu nunca fui muito boa nisso.

Jefrey para de mexer nas peças, fica um tempo com o olhar cabisbaixo e depois começa a fitar o olhar para Olivia lentamente.

— Vai... Vai acontecer.

— O que disse? Não entendi.

De repente ele agarra o punho de Olivia com toda força e fica pressionando.

— VAI ACONTECER TUDO DE NOVO! O MAL SERÁ LIBERTO! O MAL JÁ ESTÁ AQUI!

— Senhor Jefrey! Tá me machucando!

— SE TEM TANTA FÉ NA HUMANIDADE, SAIA! ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS! ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS! ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS!

— Me solta! Senhor Jefrey! Me solta!

Olivia consegue se desprender dele se levantando da cadeira. Jefrey volta a mexer nas suas peças de lego, Olivia olha para as outras pessoas na sala e elas pareciam não ter notado absolutamente nada, como se Jefrey não tivesse tido aquele surto ali. Ela ainda aterrada e segurando o braço dolorido, ouve a voz de um menino sentado em uma das cadeiras atrás dela.

— Não fica brava com ele, ele só está um pouco solitário.

— Oii! E o que um garotinho como você veio fazer aqui?

— Eu só vim visitar o meu avô.

— E onde estão seus pais?

— Foram ali e estão voltando.

— Entendi...

Ruth está vindo na direção de Olivia.

— Está tudo bem, Olivia?

— Sim, estou, irmã Ruth, é que eu estava conversando aqui com o...

Ela olha para trás e aquele garotinho não se encontra mais ali.

— Não pode ser.

— O que houve?

— Tinha... Tinha um garoto aqui agora a pouco, deveria ter uns 9 ou 10 anos.

— Não pode ser possível, nenhum dos familiares que vieram hoje trouxeram crianças.

— Então como...?

— Tá tudo bem, Olivia?

— Irmã Ruth, se importaria de me acompanhar um minuto aqui fora?

— Claro, sem problema nenhum.

As duas saem da sala de visitas e ficam no corredor do asilo.

— Tá tudo bem, Olivia? Parece nervosa.

— Irmã Ruth... Eu vou perguntar isso para ti, pois têm sido uma boa amiga desde que eu cheguei aqui. Eu queria te perguntar se... Você já viu coisas estranhas aqui no asilo?

— Coisas estranhas em que sentido?

— Bom, coisas que... Talvez não sejam tão humanas.

— Fantasmas? Claro que não, Olivia! Esse lugar é um santuário.

— Eu... Tem uma coisa sobre mim que pouca gente sabe, mas, por favor, não conte pra ninguém.

— Sim, claro.

— Eu... Eu vejo coisas, já faz um tempo que descobri esse dom, não recebia nenhum sinal há anos, é como se... É como se eu visse pessoas que já partiram.

— Santa mãe de Cristo! Então será que... Esse garoto que você viu pode ser um...?

— ... Fantasma? Espírito? Tomara que seja apenas um garoto levado que deu o pé quando eu me virei, pois... Não sei se estou preparada pra este tipo de coisa.

A irmã Ruth fica um tanto abalada, poderá realmente Olivia está vendo algo sobrenatural naquele asilo?

CASO DE REPOUSO STA. AGATHA, QUARTO DE OLIVIA, 23H56.

Olivia não consegue dormir e está lendo a bíblia, apenas o abajur está ligado. Enquanto ela folheia as páginas, ela ouve um sussurro vindo da porta.

Ele me obrigou a fazer...

Olivia olha em direção à porta e não vê ninguém. Ela volta a fitar o olhar na bíblia de novo e, quando olha novamente, a porta está escancarada.

— Ah! Meu Deus!

Olivia se levanta, vai até a porta e olha para o corredor de um lado e do outro e não vê ninguém. Ela entra para o quarto novamente, vai até o banheiro lavar o rosto.

Após lavar o seu rosto, ela volta para a cama, pega a bíblia novamente e quando está prestes para ler, ouve uma voz aguda e grotesca ao seu lado.

— ELE ME OBRIGOU A FAZER!

— AHHHH!!

Olivia cai da cama, é uma senhora do asilo, está nua e com os braços sangrando.

— Eu não queria fazer isso, eu não queria!

— O que tá fazendo aqui?

— DEVERIA TER SAÍDO QUANDO PODIA, OLIVIA... AGORA É TARDE DEMAIS!

— Como sabe o meu nome?

— Eu... Eu...

A velha abaixa a cabeça por instantes. Depois ela olha de novo e parte pra cima de Olivia rangendo os dentes.

— Ahhhhhh!!!

Olivia desvia dela pelo canto do quarto e se dirige até a porta, ela cai no corredor e ouve a velha gritando de lá de dentro.

— AS TREVAS ESTÃO AQUI! PELAS TREVAS EU ME TORNAREI PARTE DELA!

Olivia se levanta, começa a correr implorando por ajuda.

— Socorro! Socorro!

Os gritos de Olivia são ecoados em todo o asilo. A madre superiora imediatamente se levanta e corre pra saber o que está acontecendo, enquanto as outras irmãs uma a uma começam a despertar.

Olivia segue correndo e é abordada pela enfermeira Sarah.

— Ahhhhh!

— Calma, calma! Sou eu! O que tá acontecendo?

— Uma senhora entrou no meu quarto, ela tá... Ela tá...

De repente, a velha aparece no corredor e fica parada rindo e salivando muito.

As irmãs chegam ao local, a madre superiora vê aquilo e fica aterrada.

— Senhora Judith! Mas... Como isso é possível?

— TODOS! TODOS... ESTÃO SUJEITOS... ESTÃO SUJEITOS À VONTADE DO ETERNO, NÃO DO ETERNO QUE VOCÊS ADORAM, MAS DAQUELE QUE VEIO TRAZER A MORTE, CHORO, LAMENTO E DESTRUIÇÃO ÀS VOSSAS RIDÍCULAS ALMAS!

— O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?

— NÃO SABE, MADRE? PERGUNTE À IRMÃ IRENE!

— O... O QUÊ?

A irmã Ruth se prontifica.

— Vou chamar o padre Albert!

Ruth corre até a paróquia, o relógio aponta pra meia-noite e o sino começa a tocar. Aquelas mulheres ainda estão sujeitas à aquela aberração em sua frente.

Antes mesmo de que Ruth chegue a entrar na paróquia, o padre Albert sai de lá bastante nervoso.

— Irmã Ruth? O que está acontecendo?

— Padre Albert! Por favor, nos ajude! Aconteceu alguma coisa com a dona Judith!

— O quê?

Eles correm de volta ao asilo. Enquanto isso, a velha continua ameaçando as irmãs.

— FIQUE LONGE DE NÓS! NÃO SEI O QUE ACONTECEU COM VOCÊ, MAS VOCÊ NÃO É A DONA JUDITH!

— HAHAHAHAHAHA, AH MADRE! TEM RAZÃO... EU NÃO SOU A JUDITH...

Ela começa a se posicionar como se estivesse preparando-se para correr e de repente sua voz engrossa e fica com um tom macabro.

— EU SOU O PRÓPRIO MAL!

Judith começa a correr em direção à elas em uma velocidade descomunal.

- IRMÃS, FUJAM!!

As irmãs começam a correr, Sarah puxa Olivia pelo braço.

— Depressa, sua estúpida! Não fica aí parada!

— NÃO! NÃO!

O relógio da paróquia permanece à meia-noite. Naquela noite, os portões do inferno se abriram e algo extremamente maligno acaba de ser libertado.

5 Mars 2022 20:32:10 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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