nataliakalim Natália Kalim

Um dia, Marion descobriu que era uma pessoa triste e que, por causa de sua tristeza, ela não conseguia ver as coisas do mundo mais. Tomada de um profundo vazio existencial, ela decide partir em uma jornada para (re)descobrir os tons do mundo e, quem sabe, dar sentido a sua vida.


Histoire courte Déconseillé aux moins de 13 ans.

#fantasia #conto #cores #239 #cor #filosofico
Histoire courte
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Marion

Um dia, Marion descobriu que era uma pessoa triste. A vida toda ela havia se sentido como um pedaço deslocado de um todo maior ao qual ela nunca pertencera, como uma peça que não integrava nenhum quebra-cabeça. Até mesmo as linhas de sua mão pareciam estranhas, aqueles riscos suaves que cruzavam sua palma e terminavam na veia do pulso. Lembravam caminhos que não levavam a lugar nenhum, pois ela sentia que não havia nada que a preenchesse por dentro. Se arrancassem sua pele e seus músculos, drenassem cada gota de sangue e tirassem cada osso do lugar, se alcançassem o lugar onde deveria residir sua alma, provavelmente encontrariam um buraco negro, a perfeita definição do nada.

Não havia uma essência nem nada que fizesse com que Marion fosse qualquer outra coisa. Sua família a tratava de uma forma estranha, ela se tratava de uma forma estranha e não fazia de si mesma qualquer coisa. Marion era o não-ser. E uma bela tarde de domingo, que para ela parecia tão insossa quanto comida de hospital, ela descobriu que isso era um tipo de dor e que, por causa dessa ferida, ela era uma pessoa triste.

Na segunda-feira, seu professor de física rabiscou fórmulas no quadro. Exercícios que estipulavam sobre a capacidade de recipientes determinados. Nenhum deles estava realmente vazio: todos eles estavam cheios com líquidos diversos, miscíveis ou não, e às vezes o ar tomava cada pedaço que havia em seus interiores. Havia alguns exemplos que mencionavam o vácuo, o nada, um estágio onde nem mesmo o ar existe mais. Marion refletiu sobre si mesma. Na sua alma não havia um líquido ou o ar. Havia algo muito mais pesado do que isso, mas, ao mesmo tempo, infinitamente mais leve. Na verdade, ela não sabia se o que quer que houvesse poderia ser caracterizado como algo, então pensou no vácuo, e percebeu que não era vácuo o que sentia. Ela não sentia nada, ela não era nada, então não podia ser vácuo porque até mesmo ele era alguma coisa. Seu estômago revirou e em questão de minutos ela estava ajoelhada no chão imundo do banheiro, vomitando seu almoço. Foi dispensada, mas invés de ir para a casa entrou na clínica do primeiro psicólogo que encontrou. Contou seus anseios, ele fez anotações em um caderno pequeno.

— Se você é nada, pode ser qualquer coisa, então. Pode ser tudo. — ele aconselhou com um ar conciliador.

Ao deixar o consultório, Marion sentia que todo aquele esforço havia sido em vão. Ela sempre ouvia dizer que psicólogos cuidavam da alma, mas eles aparentemente não podiam cuidar de almas vazias, de espíritos que não era nada.

Ligou para uma amiga mais tarde.

— Acho que você vê o mundo de forma muito cinza. Talvez procurar formas de deixar as coisas mais coloridas seja mais útil. — a garota aconselhou do outro lado da linha.

Marion queria ter amigos de verdade, pois não poderia considerar os que tinha assim. Talvez isso fosse algo que partisse somente dela, mas ela não se sentia verdadeiramente parte do grupo nem de mais nada no mundo. Toda aquela coisa se resumia a cumprimentos e conversas curtas durante intervalos ainda menores, entre mordidas em sanduíches gordurosos. Mesmo assim, acabou achando o conselho daquela garota tão pouco conhecida relativamente bom e agradavelmente útil.

Desde os sete anos de idade, Marion não mais enxergava nenhuma cor. O mundo era uma massa disforme e cinzenta, onde nada era característico de nada nem pertencia a coisa alguma, eram apenas situações mecânicas repetidas pela Causalidade do universo, vazios se escondendo infinitamente dentro de si mesmos. Marion era também um vazio escondido em si e ela sabia disso.

Pegou o celular e se perdeu nas redes sociais pelo resto da noite. Aquele era um hábito comum, pois às vezes o mundo parecia tão doloroso que ela precisava fugir dele, participar de uma realidade onde apenas o compartilhamento de imagens engraçadas bastava. Ela recorria a esse recurso o tempo todo, até que um dia ela se deu conta que era um vício que não estava disposta a curar. Respirou fundo, rolou a tela, tocou a vida.

Dormiu e acordou no dia seguinte determinada a encontrar todas as cores que poderia. Havia decidido começar pelos tons mais próximos de sua tristeza e partir em direção àqueles que mais se afastavam dela. Ela entendia que o processo de libertação era demorado e o processo de coloração mais ainda. Como um artista que se debruça sobre um desenho feito a lápis, ela se permitiu estender o trêmulo pincel da esperança sobre sua própria vida, calçou seus tênis e partiu em busca do roxo.

Seu roxo assumia o tom violeta da espiritualidade. De fato, os homens costumavam dizer que um peito vazio poderia ser preenchido pela graça e pela presença dos deuses e que toda a depressão poderia ser vencida por uma fé suficientemente poderosa. Então, a garota se sentou no banco de uma pequena igreja local, onde um pastor costumava pregar, e prestou rigorosa atenção ao seu discurso escatológico. O fim dos tempos se aproximava, ele frisava. A única salvação residia em buscar um salvador agora morto, embora ainda presente, a se opor a um inimigo invisível que conspirava e induzia os homens a pecar. Os pequenos prazeres da vida eram transformados em atos odiosos e as diferenças eram desrespeitadas. Ela nunca fora uma pessoa religiosa ou esclarecida, mas só conseguia pensar que se aquele Deus invisível conhecia tão pouco o que tornava a humanidade humana e os punia por ser quem eram, ele não valia a pena ser seguido. Ela não queria ser preenchida pelo medo de uma punição eterna ou pelo rigor de ações calculadas somente para a evitar.

Fora somente uma experiência ruim. Nem toda Igreja no mundo deveria ser assim e ela realmente acreditava nos bons religiosos. Entretanto, homens de má-fé que viviam sua fé mal se espalhavam cada vez mais, transformando o que era bom em algo ruim, matando tudo que deveria ser conservado. Ela pensava nisso enquanto rumava para casa, de cabeça baixa. Então, foi fisgada por uma cigana bonita e de repente se meteu em um terreiro. Marion se deixou capturar pelas músicas vibrantes e pelas pombagiras que giravam em seus tecidos coloridos, pelas entidades que ofereciam seus conselhos sob charutos e batuques potentes. Pela primeira vez em muito tempo, seu coração se abriu para o tom violeta e ela passou os próximos anos se dedicando quase que integralmente a ele. Ela vivia e respirava a religião e se entregava a todas as obrigações dela. Marion gostava disso, da forma como isso a ocupava, até descobrir que o excesso era uma forma de alienação. Tristemente sentou-se na cama e fitou as mãos, percebendo mais uma vez que seu vazio não poderia ser preenchido se ela continuasse a ver o mundo sob o mesmo espectro de tom. Então, ela se desprendeu do violeta e decidiu consumir outras cores.

O azul era o tom da sapiência. Na manhã seguinte, Marion entrou na livraria da faculdade e gastou todo seu salário em livros. Leu tudo muito rapidamente e assim que pôde voltou para pegar mais. Ela se debruçava sobre as leituras e lições passadas em aula, não mais saía e mal comia. Marion dedicou-se inteiramente ao conhecimento e descobriu um mundo maravilhoso onde autores pincelavam realidades extraordinárias e davam vida a heróis incríveis, onde os filósofos criavam reflexões tão complexas que ela costumava levar dias para compreender um parágrafo. Mas quando entendia a satisfação tomava seu peito e ela ansiava por mais. Dostoiévski, Platão e Tolkien dividiam o espaço na sua cabeceira para suas leituras noturnas. Acordava, dormia e vivia com a literatura. Até o dia em que a faculdade acabou, quando ela se formou, e a vida teve que seguir. Sacolejando em um ônibus precário no caminho de volta para sua cidade natal, Marion só conseguia pensar em como o mundo havia se tornado outro, em quanto ela havia perdido nos anos em que ficara trancada com seus livros.

Mais da metade de sua vida havia sido dedicada a coisas que não faziam parte do mundo físico: a religião dividira espaço com o intelecto para criar uma espécie de Mundo das Ideias onde o sensível era ignorado. Talvez por isso ela continuasse com a alma vazia mesmo após sua mente ter aprendido tanto, pois o conjunto das coisas era uma completude e ainda faltavam partes. O mundo físico era muito importante para ser ignorado e Marion decidiu que nunca mais o faria. Desceu do ônibus diretamente para a cor amarela e para um estilo de vida completamente materialista.

Amarelo era a cor do consumo e a Marion Amarela era uma pessoa consumista. Passou muitos meses gastando muito mais dinheiro do que tinha, sendo completamente diferente do que já fora. Fez amizade com pessoas de hábitos caros e seus próprios hábitos começaram a se pautar em um consumismo desenfreado. Comprava as coisas que precisava e as que não fazia ideia para que serviam, as coisas bonitas, as feias e até mesmo as outras pessoas. Comia bem, mas não pagava bem as dívidas. Tentou muitos empregos, mas nenhum deles correspondia a seus gastos, pois quanto maior o salário maiores as compras. Marion tinha tudo, mas não tinha nada. Quando o desespero das dívidas começou a sufocar, ela percebeu como ainda se sentia vazia apesar de todo esforço. Triste, arrumou um segundo emprego, quitou seus débitos e comprou uma pequena chácara afastada da cidade. Foi assim que Marion saltou de uma vida amarela para uma vida verde, pautada no cuidado com a natureza e com uma produção voltada para consumo próprio.

Dedicou-se a plantar desde alfaces e batatas até suculentas maçãs, a tomar banho de rio e meditar ao pé da cachoeira. As noites eram tranquilas e os dias mal tinham barulho, ela tinha tudo que precisava, se mantinha ocupada, podia ler à vontade e, quando se cansava, enfiava a mão na terra para sentir a materialidade do mundo. Parecia incrível e perfeitamente equilibrado e, durante algum tempo, Marion convenceu a si mesma de que não precisava de mais nada enquanto balançava em sua cadeira na varanda, vendo o sol erguer-se e se deitar sob um embalo sutil.

Encarar a natureza é sempre encarar a si mesmo. O ser humano se entregou a uma vida confortável nas grandes cidades, mas seu corpo enquanto um ente animal nunca deixou de pertencer à Mãe Terra. Deveria ser por isso que a natureza era tão acolhedora e produtiva, e tornava aquele mesmo mundo estranho mesmo o lugar certo a se viver. Entretanto, se a natureza do homem estava na natureza, era evidente que por meio dela ele poderia encarar a própria essência. E, depois de uma vida inteira sentada na floresta, Marion descobriu que sua essência era vazia, mesmo após tantas tentativas. No fim das contas, ela era uma tristeza latente, o não-ser, pois não era nada. Suas decisões não haviam feito com que ela se tornasse algo ou alguém, e ela podia sentir o peso disso sobre suas omoplatas. Chorou violentamente aquela noite e quando acordou, decidiu ser laranja.

Laranja parecia ser a cor do meio-termo: não era amarelo nem vermelho, tinha os dois tons condensados na mesma essência. Parecia potencialidade, mas não era, pois o intermediário não cria nada, só se aproveita do que já existe. O intermediário nega o movimento, pois não permite mudar a si mesmo. Talvez fosse tudo do que Marion realmente precisasse: uma vida totalmente mediana depois de tanto buscar os extremos, talvez o vazio em sua alma pudesse ser tampado por um estágio de correr-parado. Tendo em vista tal coisa, Marion dividiu sua vida com base em um cálculo perfeito. Nada era feito de mais ou de menos, mas de forma puramente mediana: a comida e o banho eram servidos mornos, as roupas não eram muito compridas nem curtas e ela passava metade da semana em sua pacata casa silvestre e a outra parte na cidade. Café e leite eram misturados em medidas idênticas, a vida social dividia espaço com a antissociabilidade de um monge. O trabalho era parcial e o almoço disputava espaço no mesmo prato com uma quantidade equânime de sobremesa.

A cor laranja não ficou tanto tempo. Marion começou a se sentir sufocada, a achar a vida medíocre. Seu vazio não poderia ser meio preenchido: ou era tomado por completo e transformado em outra coisa ou não era. Prestes a explodir, decidiu passear. Vestiu trajes distintos e rumou a esmo, buscando um lugar teoricamente divertido e anulador dos pensamentos perturbadores (e de quaisquer outros), mas não foi exatamente isso o que ela encontrou. Naquela noite Marion esbarrou no tom vermelho e se rendeu a ele.

Encontrou o vermelho acalentador nos braços de um homem gentil durante anos seguintes. O relacionamento era bom e verdadeiramente estável, muito embora houvesse desentendimentos esporádicos. Pela primeira vez Marion não se sentiu vazia, afinal o amor é uma espécie de preenchimento. Ela não mais precisava fazer tudo sozinha e encontrar seu companheiro ao voltar para casa no fim do expediente era reconfortante. Eles criaram suas próprias memórias e piadas internas, deram um tom ao mundo que só pode ser conferido pelas relações amorosas realmente harmoniosas. As demonstrações de afeto inesperadas e as involuntárias tornavam os dias mais leves, menos lentos. Até que um dia Marion subitamente parou de se sentir correspondida.

Ela não entendia qual era o problema que passara a existir. Seu companheiro afirmava que nada havia mudado, mas ela sentia as demonstrações de amor escasseando e o diálogo se tornando raro. Eram corpos que não se tocavam ao partilhar a mesma cama, eram vozes que não se falavam mais. As brigas aumentavam, a convivência diminuía. Mas ainda havia amor e por haver amor, Marion colocou a culpa em si mesma e decidiu fazer tudo diferente. Foi gentil, assentiu, vestiu as melhores roupas e comprou vinho, tudo infrutífero. Onde ela havia errado? Por que havia deixado de valer a pena? Não sabia, mas descobriu em uma fatídica sexta quando, ao chegar em casa mais cedo, se deparou com o marido entregando-se aos braços de outra mulher. Marion fez barraco, expulsou e chorou. Estava sozinha novamente e seu vazio parecia maior do que nunca. Rangeu os dentes e chorou violentamente. Quando parou de chorar, quis morrer. Decidiu morrer.

Foi a farmácia com uma grande quantia de dinheiro e comprou tudo que podia. Chegando em casa, tirou todos os comprimidos das cartelas e os colocou em um pequeno pote que outrora havia comportado um doce. Ela havia lido em algum lugar que os remédios vinham em cartelas para prevenir o suicídio, dando tempo a pessoa vitimizada de pensar sobre suas atitudes. Mas ela não queria fugir à morte, desejava se entregar a ela. Não queria pensar. Fez a tarefa rapidamente e rabiscou uma nota de adeus com uma letra caprichada. Apagou as luzes, mas não trancou a porta ao sair, rumou sem rumo com o pote cheio de compridos e as mãos dividindo o mesmo bolso do agasalho de moletom.

O parque parecia um bom lugar para morrer. Centenas de metros de grama verde e árvores dividiam espaços com toalhas de piquenique e um lago profundo. Sentou-se no banco e observou a vida dos outros. Vivam despreocupados, mas passavam correndo, sempre voltados para as telas de seus celulares. Esse era o mundo: uma pequena dobra no tempo onde o homem era escravizado por uma pequena máquina e pelas suas tarefas e não aproveitava o mundo ou o tempo. As crianças pareciam mais sensatas, brincando e sorrindo, pequenos projetos de homens ocupados. Marion as viu correr, a luz do pôr do céu incidindo laranja sobre seus cabelos. Marion viu as toalhas serem dobradas e as pessoas voltarem para suas casas à medida que escurecia. Então não havia mais ninguém, apenas Marion.

Ela respirou fundo, tirou o pote do bolso, engoliu todos os comprimidos. Caminhou vacilante até o lago. Atirou seu celular na água e depois atirou a si mesma. Sentiu seu corpo dissolver-se na água fria, sentiu o peito doer, mas pela primeira vez na vida, sentia-se em paz. A água batia em seus ouvidos e pela primeira vez ela notou que as estrelas ainda podiam ser vistas, que elas eram bonitas. E, então, em um último ato de coragem para consigo própria e para a vida injusta vida, Marion sorriu. Não tinha porque temer.

Pela primeira vez na vida, ela sabia que estava completa.

31 Janvier 2022 03:40:17 4 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Natália Kalim Mineira. 20 anos. Formada em filosofia com especialização em história. Medievalista em construção. Às vezes me permito dar vida às palavras.

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