nataliakalim Natália Kalim

Um momento. Um velório. Uma garota. Ele nunca mais seria o mesmo depois dela.


Histoire courte Tout public.

#morte #filosofico #paranormal
Histoire courte
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A Menina de Azul

Ela era uma figura alva e esguia, alheia ao mundo. Trajava um vestido de um tom azul sereno, tão calmo quanto sua própria face. O rosto era delicado, premiado com olhos de um verde profundo e lábios carnudos, o nariz era pequeno e vermelho. Estava sentada, com as mãos cruzadas sobre o colo e o cabelo caindo como uma cascata negra pelas costas. O olhar estava perdido, ela se encontrava imersa em seus pensamentos. Era a única pessoa naquele local e aquilo era curioso. Eu nunca tinha ouvido falar de um morto que passara seu velório acompanhado por uma pessoa só.

Havia qualquer coisa de atraente naquela imagem. A tristeza sempre me parecera algo belo, mas ela não parecia realmente triste. Talvez não fosse o tipo que demonstrasse suas dores em público, mas seus olhos não traziam nenhum sinal de arrependimento ou mágoa. Era só uma figura solitária em um reservado de um velório, abandonada no pequeno côncavo que havia do lado de fora da sala onde jazia o defunto em seu caixão, pousada sobre o banco frio de madeira. Sem parentes ou amigos para lhe dar os pêsames, apenas ela, seu morto e a solidão.

Minha curiosidade me levou a uma aproximação. Dei um sorriso amarelo e perguntei se ela precisava de alguma coisa, me sentei gentilmente ao seu lado. Durante alguns segundos, não achei que ela realmente tivesse ouvido minha pergunta ou me notado. Então ela me mirou com seus olhos penetrantes e perguntou com seriedade demasiada:

— Você teme a morte?

— Um pouco, eu acho. Acho que ninguém gosta de pensar na própria morte.

Ela anuiu de uma maneira pensativa.

— Acho que nunca antes eu tinha tido medo da minha própria morte, mas agora eu tenho. Quer dizer, sempre senti que tudo deveria acabar um dia, inclusive a vida. O infinito e o acaso sempre me pareceram como uma ilusão, algo criado para confortar as crianças pelos seus erros. Mas agora, quando olho ao meu redor e percebo que só eu vim para estar com ela nesse momento, eu me sinto estremecer. — eu não soube como deveria agir. Ela apenas continuou. — Eu sempre me perguntei que espécie de pessoa horrível ficaria só em sua própria morte. Sempre imaginei que, pelo menos, nossos pais viriam ao nosso enterro, mas ela foi deixada sozinha. Só eu vim e eu me questiono onde as coisas começaram a dar errado, pois ela nem era uma pessoa ruim. Era a menina mais bonita da escola, sempre tirava as melhores notas e as pessoas ao seu redor invejam como às vezes ela conseguia ser perfeita em meio ao caos. Ela não se sentia perfeita, tinha vários problemas consigo mesma, mas sorria e continuava a auxiliar as pessoas. Era o tipo de altruísmo que ela sempre havia esperado do próximo, mas que ninguém nunca deu para ela.

Impactado com o desabafo repentino, eu me movi desconfortavelmente. Suas palavras trouxeram à tona uma dor que seria imperceptível mesmo a um olhar cuidadoso, mas uma dor que eu conhecia muito bem. A dor de não poder fazer nada por quem amamos.

— Às vezes eu acho curioso o que a morte faz com as pessoas. — falei — Minha mãe — fiz um gesto com a cabeça na direção do lugar onde ela estava sendo velada — foi a pessoa mais detestável que eu já pude conhecer. Os vizinhos não gostavam dela, ela não falava com a própria família e enquanto eu crescia era lembrado todos os dias do estorvo que eu havia sido na vida dela. Mas então, em um dia qualquer, o telefone da minha casa tocou e eu recebi a notícia de que ela não estava mais entre nós. Me pareceu algo difícil de acreditar e eu me senti submerso em leite morno até vê-la deitada naquele caixão, parecendo dormir. As pessoas que não gostavam dela estão aqui, os irmãos que brigavam com ela em vida vieram me dar os pêsames e dizer o quanto ela maravilhosa, e de repente eu estou diante de uma imagem de uma mulher que eu nunca conheci, pois ela não era como está sendo descrita.

— A morte parece nos transformar em heróis. Quando alguém próximo morre, parece que somos lembrados de aquilo pode acontecer conosco e subitamente somos tomados pelo arrependimento daquilo que não fizemos pelo defunto. As coisas bobas parecem significar muito. Acho que todo mundo ressignifica a imagem de alguém morto porque nós próprios temos medo de ser esquecidos ou, pior, de sermos lembrados como alguém ruim. Queremos honrar os que partiram para sermos honrados. Mas tudo isso é injusto. Não há beleza em ser lembrado por meio de uma mentira, mas em ser amado pelo que realmente se foi.

Concordei com ela.

— Não me parece que saibamos quem as pessoas realmente são até que as coisas cheguem a pontos como esse. — ela continuou — Ela sempre acreditou que havia sido amada e agora está só. Sua mãe sempre foi vista como alguém que não merecia amor e agora está cercada de zelo. Antes disso, não conhecíamos as pessoas que cercavam as duas nem tínhamos real conhecimento de suas opiniões, mas agora sabemos. Eu apenas lamento o fato de que ela passou a vida toda presa em uma mentira. Ela acreditou que cada “eu te amo” que ouviu na vida era sincero, mas agora vejo que não é verdade. Apenas eu fiquei. Ela sempre foi honrada como uma pessoa boa, mas somente eu achava isso de verdade. Nem os próprios pais, porra. Que pais são esses que abandonam a própria filha? Eu fui na casa, eu ouvi quando eles conversaram aliviados. “Nunca quisemos uma menina mesmo, agora podemos nos dedicar verdadeiramente ao nosso filho sem nenhuma distração”. Eu senti muito nojo. Eles tiveram muitos problemas, só Deus sabe, mas eu esperava que houvesse algo mais do que as dificuldades. Pelo bem dela, eu ansiava por isso.

— Não sei se faço o tipo de pessoa que acredita no amor ou em qualquer coisa do tipo. Me parece utópico. Algumas vezes, também me parece desespero. Mas talvez eu somente seja frio demais para entender esse tipo de coisa que parece tão… quente, mesmo que eu já tenha sido tomado por ele uma ou duas vezes.

— O amor me parece algo bonito o suficiente para dar motivos para alguém viver ou morrer, mas agora não sinto que acredito mais nele. Se houvesse amor, haveriam mais pessoas aqui.

— E menos lá. — apontei novamente para o reservado de minha mãe. Nós dois trocamos um sorriso sincero. Ela era realmente muito bonita e, de repente, eu quis ter meu cavalete e meu godê diante de mim e usar uma porção de cores frias para representar sua imagem perdida e dolorida.

O lampejo de compreensão morreu em seu olhar. Ela colocou uma mecha atrás do cabelo.

— Acho que, no fim das contas, as pessoas são muito cruéis.

— Talvez não sejam. — dei de ombros. — Suponho que o único tipo de luz que algumas pessoas conhecem seja a própria escuridão.

— Isso me lembra uma frase que eu vi em um filme uma vez: nós nascemos sozinhos e estamos fadados a morrer sozinhos. — ela me deu um sorriso minúsculo.

Nenhum de nós dois disse mais nada depois disso. Ela endireitou as costas, ergueu-se e entrou no reservado destinado à sua morta. Permaneci no meu lugar, encarei as palmas das minhas mãos, pensei. Olhei para o local onde minha mãe estava sendo velada, para os conhecidos do lado de fora usando roupas pretas e passando uma garrafa de café de mão em mão até todas as xícaras estarem cheias.

Ergui meus olhos para a placa mortuária que fora pendurada na parede, trazendo as informações da morta. Adora Eileen. 20 de setembro de 2002. 14 de agosto de 2020. Demasiadamente jovem. Mordi o lábio inferior. A garota de azul estava demorando muito, talvez quisesse ficar sozinha.

Eu me ergui, enfiei as mãos no bolso e comecei a andar em direção a cafeteria. Não pude evitar olhar para dentro do reservado mortuário de Adora, buscando uma imagem daquela figura azul e magnífica outra vez. Não havia ninguém lá, apenas o caixão. As velas já estavam no final, não haviam flores. Fiquei curioso.

Adentrei o recinto e, à medida que me aproximava do caixão, senti meu peito apertar. Olhei para a figura sem vida e por um momento senti que eu mesmo morria. Fiquei tonto, senti meu corpo gelar.

Ali jazia a menina de azul.

31 Janvier 2022 03:33:26 2 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Natália Kalim Mineira. 20 anos. Formada em filosofia com especialização em história. Medievalista em construção. Às vezes me permito dar vida às palavras.

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