palasemple Palas

Ter que largar a escola para que sua irmã pudesse continuar a estudar foi a gota d'água para Lívia. Abandonada pelo pai e órfã de mãe, ela encontra no jogo de cartas que seu pai lhe ensinou a única maneira de se conectar com o mundo ao redor e conquistar seus sonhos. Porém, ela sabe que um jogo não é só um jogo — e, mesmo não tendo nada a perder, pode não valer a pena arriscar tudo.


Fiction adolescente Déconseillé aux moins de 13 ans.

#drama #apostas #cartas #truco
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Truco!

É claro que a bandeja ia cair. Mas também, quem soubesse de tudo entenderia só pelo que ela viu na tela rachada de seu celular:



Quando seus pensamentos estiaram, ela já tinha se distraído por tempo demais. Deu por si e o copo já estava caindo da bandeja — ela só pôde, no reflexo, colocar o pé embaixo, como se soubesse fazer embaixadinha com copos. Mas nem com bola ela sabia, então o vidro só estilhaçou, tilintando no silêncio entre um pagode e outro da rádio.

— Lívia! — O homem atrás do balcão vociferou no reflexo, por baixo do bigode. — Presta atenção, minha filha! Você sempre foi desastrada assim? Não vou ficar esperando você pegar o jeito, não!

Não era a primeira vez que ela quebrava um copo naquele bar, então ela sabia exatamente onde ficava a vassoura. Mas era a primeira vez em que ela teria que pagar pelo copo, então ela se apressou mais em varrer.

— Deixa isso aí que eu varro. — ele rosnou de novo. — A mesa do Serginho tá esperando uma Brahma. Leva lá pra eles.

Era o que Lívia menos queria ouvir. Não era a primeira vez que ela levava uma garrafa de cerveja praquela mesa, é claro, então ela sabia onde pegar e onde levar. Mas era a primeira vez em que ela receberia, como empregada do bar, para fazê-lo. Então, ela levou com tanto menos pressa quanto possível.

— Ô, finalmente! Obrigado, queridinha. — O homem com a careca mais avançada falou, de costas para Lívia. Ele viu que os três outros na mesa tiraram os olhos das cartas e arregalaram os olhos, então ele se viu forçado a olhar também. E, no que olhou, também se espantou. — Mas não é possível! Quem é vivo sempre aparece! Não é a Lica? Filha do Maneco?

O sorriso amarelo de Lica, filha do Maneco, deu a senha para o senhorzinho deixar suas cartas viradas para baixo na mesa e se levantar, pronto para abraçá-la. Ela cruzou os braços sobre o peito, mas se deixou ser abraçada mesmo assim.

— Menina, mas você tá enorme! Tá trabalhando aqui agora?

— É…

— Você vê, o fruto não cai longe da árvore mesmo! — brincou o mais de lá, já pegando a garrafa e virando sobre seu copo inclinado. Os outros riram e ela não pôde deixar de rir também, embora suspeitasse que por um motivo muito menos alegre.

— Tamos num truquinho aqui! Seu pai jogou tanto isso com nós aqui. Joga uma! Vamos ver se você puxou o pai! — E Lívia quase não conseguiu ouvir a última frase porque, enquanto ele falava, ele também arrastava a cadeira vermelha para ela se sentar.

Ela preferia que ele tivesse arrastado mais alto.

— Tô trabalhando, tio Serginho… não posso.

Tio Serginho deu de ombros e se sentou de novo, murmurando algo parecido com “tem que trabalhar, né?”. Pegou as cartas e mandou o outro à sua esquerda, que Lívia não conhecia tão bem assim, jogar sua próxima carta.

Antes de voltar para dentro, Lívia viu de relance, do canto de seu olho, a rainha de espadas parcialmente encoberta sob o baralho, e um valete de copas na mão de Serginho.

— Pronto, tio Mumu. Posso lavar esses copos agora? — A pergunta saiu mais como afirmação do que como pergunta, porque ela disse já se encaminhando para a pia, arrumando o cabelo crespo dentro da bandana.

— Já falei que Mumu não, hein! — retrucou Mumu. — Quando você era criança, podia ser. Mas agora vai ter que ser Seu Mario. Só Mario, pode ser.

Mas, como não teve resposta da pergunta, Lívia se pôs a lavar os copos mesmo. Antes de ligar a torneira, ela ainda pôde ouvi-lo murmurar algo parecido com “nem vende mais mumu aqui” e tio Serginho gritando “truco, marreco!” bem alto de lá de fora.

O pagode virou sertanejo, os copos viraram pratos e o dia virou noite quando Lívia deu por si de novo. Finalmente ela poderia ir para casa, e soltou um olhar inquisitivo para Seu Mario, ou só Mario. Ele alisou a cabeça com a mão e lhe pediu o avental.

— Não quer que eu fique mais? Tem gente aí, ainda. — A pergunta saiu como afirmação, porque ela tirou o avental, mas não o estendeu.

— Imagina. Do Serginho eu cuido a partir daqui, pode deixar. Manda lembrança pra-- pra Larissa. — ele sussurrou no reflexo, por baixo do bigode. — Leva um guaraná pra ela.

— Precisa não, seu Mario. Ela não bebe nada dessas coisas, também. Diz que atrapalha. Mas obrigada.

Lívia aprumou sua blusinha, de uma banda de que nunca nem tinha ouvido falar, e saiu de dentro do bar. Já na calçada, ouviu a voz que ela estava metade esperando, metade temendo ouvir.

— Não vai dar tchau, não, Lica? — Serginho gritou de sua mesa. Lívia suspirou e se virou, acenando, e depois continuou a andar. Mas ele continuou. — Já saiu? Joga com a gente, então!

Lívia fez que não com a cabeça, sorrindo mais amarelo, e deu mais uns passos. Mas aí, no intervalo entre um sertanejo e outro do rádio que tocava aqui fora, ela ouviu um dos outros murmurar algo parecido com “igual o pai. Vaza e não dá satisfação pra ninguém”.

Ela parou, não percebendo os próprios olhos arregalados e dentes rangendo. O estalo de sua língua foi a última coisa que ela fez antes de se virar e voltar, a passos duros, para a mesa.

— É que eu não sei jogar. — Ela disse, com a cara mais impassível que conseguiu manter após ver os olhos de Serginho brilharem.

— O Maneco nunca te ensinou? Sacanagem, pô! — E Lívia mal pôde ouvir a frase, com a cadeira arrastando de novo. Mas, dessa vez, ela se sentou. — Truco é o seguinte: tem que mostrar que tá fraco quando tá forte e que tá forte quando tá fraco, tendeu?

Serginho recolheu todas as cartas e começou a embaralhá-las. Distribuiu três para cada um na mesa.

— São três rodadas, aí em cada uma você joga uma carta. Ganha a dupla que tiver a carta mais forte. Quem ganhar a melhor de três leva um tento. Quem fizer doze tentos, ganha.

— Aí a ordem das cartas é quatro, cinco, seis, sete… — A dupla de Lívia estendeu a mão para fazer uma contagem, cada carta um dedo. — Dama, valete, rei. Às, dois e três. Da mais fraca pra mais forte.

Lívia assistia a tudo muito curiosa, confirmando duas coisas confusas: então quatro era a mais fraca e três era a mais forte? Isso mesmo. Dama, valete, rei, e não valete, rainha, rei? Pois é, “truco é machista”, eles responderam e riram. Mas tinha um detalhe.

Serginho virou, no centro, um sete de copas.

— Mas aí toda rodada tem uma manilha, que é uma carta mais forte que o três. E que é a seguinte da que virar. Então agora, olha só. A mais forte nesse tento vai ser a dama.

Pois é, “o feminismo chegou”, completaram e riram. Lívia pegou suas cartas.

Serginho soltou uma risadinha quando viu que a mão da garota tinha um três, um quatro e uma rainha de paus. Lívia, porém, parecia não ter entendido o quanto sua mão era forte.

— Vamos ver, então. — Serginho fez um gesto para que o homem à direita de Lívia começasse a jogar. — Começa aí, pra ela ser o pé. Que aí ela vê como funciona.

O homem à direita começou baixo: jogou um cinco. A dupla de Lívia jogou um dois, falando que já ia começar forçando para ajudar. O homem à esquerda então torceu o nariz e jogou um rei.

Lívia coçou a cabeça, escolhendo bem a carta. Olhou para tio Serginho, pedindo ajuda e apontando para o três. Ele fez que não com a cabeça, mas ela não viu e jogou mesmo assim. Isso foi suficiente para todos rirem muito.

— Você matou meu dois! — A dupla recolheu as cartas e deixou em um canto. — A gente já ia ganhar! Agora já foi. Quem fez, joga! Vai, manda uma.

Ela então riu um pouquinho, pediu desculpas e jogou seu quatro. O homem à direita jogou um valete, prontamente respondido com outro valete pela dupla de Lívia — que jogou resmungando que “agora já não tenho mais nada. Mas vamos aí, melou! Se empatar, a gente ganha!”.

— Mas isso é que não! — O som do ás esparramando sobre a mesa veio junto da voz do homem à esquerda. Ele tratou de recolher as cartas e, então, rir para os outros três homens na mesa. — Vou pegar leve, tá? Não vou nem trucar.

Então, ele jogou uma rainha de copas sobre a mesa, triunfante. Até jogou o braço para trás do assento de plástico, levantando as sobrancelhas enquanto olhou para Lívia. Serginho se viu na necessidade de explicar.

— Então, Lica, aí essa é uma manilha, entendeu? Ele podia ter pedido truco, que é fazer a rodada valer três em vez de um. Aí a ordem das manilhas é ouros, esp--

— Truco.

As duas sobrancelhas levantadas, em desafio, se tornaram apenas uma levantada, questionando. Serginho, no entanto, deu um sorriso e balançou a cabeça.

Parecer forte quando se está fraco e parecer fraco quando se está forte. É claro que Lívia sabia jogar.

— Truco, eu falei. Se você não vai pedir, eu vou. — Então, ela bateu várias vezes na mesa, com a carta ainda virada para baixo. — TRUCOOOO!

O homem à direita de Lívia, espantado, deu uma risada e olhou para sua dupla, que deu de ombros.

— Ué. Vamos ver, então. Desce.

Lívia sabia que o mais comum seria dar com a carta na testa do oponente à direita, mas, em vez disso, ela bateu com a carta na testa do homem que ela não conhecia tão bem. Em respeito aos seus tios de coração, talvez. Em despeito, também.

A carta ainda dançava no ar para cair no chão quando todos puderam ver os olhos arregalados e os dentes rangendo de Lívia.

— Vocês agora só me chamam pra pedir cerveja, tá entendido?

Mesmo por cima da música do rádio e do tilintar de um copo quebrando ao cair da mão de tio Mumu, todos puderam ouvir os passos duros de Lívia saindo do bar.

Só pensava em Larissa enquanto andava para casa, até para não pensar no story do Instagram sobre o campeonato escolar de truco de que ela já não poderia passar. Tentava também não praguejar contra o emprego que tinha acabado de conseguir. Distraída, ela sabia que seus pensamentos não iam estiar tão cedo. Lívia tinha só começado a entrar na tempestade.


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Dica de truco da Lívia: As manilhas mais fortes são, nessa ordem: paus (zap), copas (escopeta), espadas (espadilha) e outros (pica-fumo). Guarde essas cartas para quando o oponente achar que está melhor que você! Mas não adianta guardar muito, também. Melhor ganhar uma rodada e não saber o que vai acontecer na próxima do que morrer com o zap na mão.

2 Janvier 2022 17:40:26 4 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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ml marina lisboa
isso tá muito bommmmmmm!!!
January 02, 2022, 19:09

  • Palas Palas
    😳😳😳🥰🥰🥰🥰 que issooooo valeu~~~ January 02, 2022, 19:19
Anjo Setsuna Anjo Setsuna
Essa bateu uma cosquinha gostosa no coração, pq aquele que não teve um campeonato de truco na família nos anos 90 que peça o primeiro "truco" :P
January 02, 2022, 18:51

  • Palas Palas
    Entre familiares, entre amigos -- é sempre muito gostoso dar aquele abraço na dupla depois de ganhar um seis animadíssimo~ January 02, 2022, 18:55
~

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