atherabeckman Ruana Aretha

Ando e perambulo pelas ruas, mas não me culpem, sou apenas alguém que procura sobreviver, mas acredito em milagres de natal, não tenho nome até então, mas me chamam de cão vira-lata, prazer, você quer conhecer a minha história?


Histoire courte Tout public.

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Uma chuva de amor

Sentia frio naquele dia, estava chovendo muito, eu tinha somente alguns meses, e ainda tinha que me desviar de pés e mãos, mas precisamente naquele dia precisava encontrar comida e um abrigo para me encolher daquela chuva, para sobreviver mais um dia.

Haviam muitos iguais a mim, sem teto, e que corriam pelas ruas atrás de comida, e todos os dias tinham alguns que não conseguiam sobreviver, pois eram atropelados ou mortos por alguém, as ruas não são para qualquer um, a vida ali persiste pouco, ou tem que ter sorte ou almas boas que estejam nela.

O meu maior sonho era que todos os meus amigos tivessem um lar, por onde correr, brincar, ter carinho e serem chamados por nomes, sem que nos chamassem de ‘’lixos ambulantes’’, não temos culpa de uma sociedade que aprecia o que se pode ter um dna digno digamos, ‘’ ah, ele é um beagle, tem raça, é oriundo do Reino Unido’’, enquanto somos da rua não possuímos endereço fixo, porém também somos dignos de carinho. Soube um dia desse que somos muito mestiços e que por isso deveríamos ser raros, porque cada um é de um jeito, até mesmo um caramelo, foi uma pequena menina que me disse quando me deu um pouco de ração.

Enquanto passo os meus dias sofregamente pelas ruas, tenho estratégias para me alimentar, passo perto dos supermercados próximos de crianças e senhoras que por vezes me alimentam com a ração que compraram para seus animais, e assim vou conseguindo me virar diariamente, além das más índoles que encontro pela rua, corro bastante com toda força que tenho para me livrar deles, embora já tenho apanhado só por eu existir, é uma culpa que carrego, vai entender.

Não tenho nome, apenas pelos, sou magro e de porte médio, se alguém me quisesse eu não ocuparia muito espaço, e me comporto bem, não faço coco na calçada, gosto de graminhas, me sinto melhor fazendo isso lá, acreditem, sou um bom menino. Mesmo que lata por vezes, é que não tenho como dizer o que sinto, e são as melhores palavras que encontro para dizer que tem algo na frente ou alguma ameaça, meus amigos também fazem isso quando, e até conversamos através de latidos.

Hoje é dia 22 de dezembro e uma senhora dizia resmungando perto de mim:

– Nossa, os dias se passaram tão rápido nesse ano, não parece que fomos assolados pelo caos. E você cãozinho aí sozinho, como puderem te deixar por aí? Ela suspirava fundo.

Eu queria muito poder responder e eu só dei um latido fino e cabisbaixo.

– Eu entendo o que você quis dizer, também já fui abandonada, sou velha e os filhos me aproveitaram enquanto eu podia dar dinheiro a eles, depois disso foram todos embora e agora vivo de migalhas do governo, mas hoje vou te dar um pequeno lanche. Ela pegou da sacola um sachê e colocou em cima de um pedaço de jornal, eu me deliciei bastante, tinha sabor de frango, meu sabor preferido.

– Agora vou embora para minha pequena casa, se eu pudesse, te levaria, mas não tenho condições de ter você comigo, moro em um pequeno quarto, e assim que eu puder, te trago aperitivos, às vezes o supermercado tem promoções pra pets, e você sempre está por aqui, não é mesmo? A senhora levantou e foi embora com suas pernas fracas e se escorando por alguns muros que encontrava em seu caminho.

Na rua a gente percebe tanta coisa, que a vida do olhar de fora é difícil a todos, desde aquele que fica no sol esperando um ônibus, a outro que vende água dentre os ônibus, a essa senhora sozinha na vida que possivelmente batalhou muito para enfrentar tudo pelos filhos, mas agora que não pode mais, foi abandonada por eles. Imaginem o quanto de histórias que os asfaltos carregam.

E o dia se findava mais uma vez, enquanto eu procurava um lugar para deitar que não pingasse tanto, era terrível acordar molhado, e nesses meses de final de ano, aonde moro chove bastante, por sorte tinha uma sobreira de uma farmácia e consegui me sentar e esperar por mais uma noite. No meu pensamento antes de dormir me veio aquela senhora, pensava que nossa solidão se completaria se ela me levasse para a casa dela, me iludo todos os dias, espero um dia ter uma casa e um cantinho onde eu possa dormir sossegado, sem pensar que alguém possa me bater a noite, desde que eu nasci esse era o meu sonho, e assim suspiro todos os dias, na esperança de alguém me levar e eu ter um lar.

Quantas mais se aproximava do natal, os meus sonhos se tornavam maiores, eu via o verde e a corrida disparada em um quintal enquanto poderia brincar dentre as folhas velhas e que estalavam com o pisar das minhas patas. E havia quem me esperasse em uma porta que abria para o quintal, eu lembro de ter visto alguém.

Quando de repente alguém me desperta despretensiosamente na rua, um bêbado chutando latas e senta do meu lado:

– Você também não tem casa, não é mesmo?

O homem continuava resmungando.

– Não espero que você fale, afinal é só um cachorro das ruas.

– Minha mulher me jogou para fora de casa e com certeza deve ter outro por lá, dizia que eu não dava atenção a ela e que só chegava envolto de cachaça, agora sim eu bebo e com prazer. O homem abaixava a lata de bebida do lado dele enquanto suspirava.

– Apesar de tudo, eram tempos bons, eu tinha uma casa e haviam portas, trabalhava muito e só queria ter um momento pra despejar isso, ela não sabia o que eu sofria no trabalho, era humilhado diariamente, mas como ela só ficava em casa, era fácil ... suspirava e do nada o homem dormiu e ainda jogou a lata perto de mim, que corri antes de ser acertado.

Todo dia é uma história diferente, não sei porque as pessoas gostam de contar o que passam para mim, como se eu fosse o único ouvido que não posso as julgar, o que deve ser bom por um lado, o que eu diria a esse homem seria, ‘’você desperdiçou a oportunidade de conversar’’, ‘’ você tinha uma casa e eu nunca tive uma para poder dar valor a isso’’, com toda certeza no final dessa conversa estaria bebendo junto com ele de tanta tristeza.

Como já estava amanhecendo estava indo para perto do supermercado para poder ver o que tinha no lixo, talvez tivesse comida do outro dia, pode ser o meu dia de sorte. Quando mirei em uma sacola, senti um leve cheiro de frango, comecei a morder a sacola, mas me feri porque tinham enlatados lá, agora meu focinho sangrava e eu passava as patas porque doía, mas continuei a busca, e encontrei, comi o pouco que tinha, dava para segurar aquele dia, embora o estômago fosse roncar, precisava me manter com aquilo.

Fiquei rondando o supermercado para ver se surgia mais comida, por algumas horas, mas nada de novo surgia, e a minha tristeza aumentava, porque eu estava com tanta fome, eu me debrucei próximo da porta de entrada do supermercado, já haviam passado mais algumas horas e fui pego pelo sono. No momento em que acordo me deparo com além da chuva, haviam olhos grandes pretos me olhando, ela tinha cabelos encaracolados, ela tinha uma sacola da farmácia, era uma menina pequena:

– Te acordei Chuvisco, desculpa, me deixa só passar esse remédio no seu focinho. Então ela remexeu a sacola e passou um spray que ardeu um pouco, e eu me agitei um pouco.

– Calma, é para desinfectar, vai ficar bom logo. Ela se levantou para pegar mais algo na sacola e era um pouco de ração, colocou em um pedaço de jornal e comi. Olhei pra ela como se agradecesse do fundo do meu coração, e ela acariciou a minha cabeça, e disse:

– Espero que você consiga aguentar mais hoje, estou conversando com meus pais ... Quando menos esperava correu pra dentro do supermercado antes que os pais percebessem a sua ausência, como a porta era de vidro, pude ver os pais assim como a viam e fizeram uma cara de negação a filha.

Aquele momento tinha feito uma diferença enorme nos meus anos de rua e de vida, aquele momento foi como encontrar a felicidade estendida por olhos grandes, eu tinha um nome, podem me chamar de Chuvisco. Até estufei o peito a mim mesmo.

A chuva continuava, mas eu sinceramente nem me deixava levar por aqueles pingos que caiam próximo a mim, o meu dia tinha valido a pena, vi a minha amparada por um momento, vou falar disso por um bom tempo agora, ah como foi bom ter alguém que se preocupasse comigo, como a vida pode ser boa por vezes.

Tive que sair de perto do supermercado porque os homens me afastaram de lá, pelo menos eu estava de estômago preenchido, pelo menos naquele dia, voltei a circundar a área sem ir para muito longe, vi outros cachorros procurarem comida, e fiquei triste por não poder ajudar, porque eu tinha sido ajudado naquele dia. Continuei a minha caminhada a mesma farmácia que fica próximo do supermercado para passar mais uma noite.

Espero que nenhum bêbado passe por aqui hoje, é só mais uma noite de várias que venho enfrentando nas ruas, e hoje foi um dia especial, posso sorrir. Estou caminhando novamente nos sonhos, lá tem essa menina dos olhos grandes, ela brinca comigo e me chama de chuvisco, corro bastante nas folhas e ela grita:

– Chuvisco, vamos comer!

E eu corro o mais rápido que posso para dentro de casa, eu tinha uma casa, ela era grande e eu tinha um cantinho só meu. Eu era feliz, muito feliz. Mas de repente tudo mudou, o cenário voltou a ser nas ruas, eu estava todo molhado de chuva, e um carro passou e me jogou água suja de propósito e me xingaram, ah, eu tinha acordado, que azar, poderia continuar nesse sonho pra sempre.

Levantei e corri de lá, porque o carro estava voltando para a minha direção, soube que tinha algumas pessoas más que rondavam por ali para fazer mal aos animais, eu simplesmente corri com toda velocidade que podia, mas acabaram batendo nas minhas patas com o carro, e eu lati de dor enquanto corri para perto do supermercado novamente, apareceu um senhor que parou os loucos que queriam me atropelar.

– Vou denunciá-los! Gritava o senhor que surgiu do nada.

– Vamos, vou te levar para o veterinário. Ele me colocou no carro e eu não sabia o que fazer, eu só estava muito assustado e com dor.

Chegamos no veterinário e ele começou a me examinar naquela mesa fria, e dizia:

– Ele está com a pata fraturada. Vamos enfaixar e passar analgésicos.

– Como o senhor fará quanto a ele? É de rua não é mesmo?

– Ainda estou pensando nisso... Dizia o senhor sem saber o que fazer.

– Se eu não o tirasse de lá, não o socorresse, ele seria morto... O senhor baixou a cabeça.

Enquanto enfaixavam a minha pata direita e me injetavam analgésicos, vi uma menina se aproximando junto com os pais, era a olhos grandes, e eu me levantei extasiado, balançava todo o meu corpo, era ela, era ela! Ela corria pra mim chorando.

– Chuvisco, você tá bem?

O senhor incrédulo olhou para ela e disse:

– Você já o conhecia, Ludmilla?

– Sim, vovô, estou tentando fazer com que os meus pais me deixem ficar com ele. Ele mora perto do supermercado tem um tempo já, estou a um tempo mirando-o, porque ele era para ser meu.

Se eu pudesse sorrir, diria que todos os meus sonhos estavam sorrindo a mim, como já se passava da meia noite, era o dia de natal mais feliz que tive em todos aqueles anos de rua, apesar de sentir dor, mas o meu coração estava curado da dor das ruas, eu ia ter uma casa.

20 Décembre 2021 19:59:18 5 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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Isís Marchetti Isís Marchetti
Olá, Ruana! Tudo bem com você? Menina, eu não esperava um texto desses para o desafio, confesso, fui pega completamente desprevenida e com a guarda baixa, bem baixa diga-se de passagem. Não dá para deixar de pensar no que aconteceria, caso a menininha não fosse ela ou pior ainda, se ele fosse só tratado e largado de novo. Realmente tinha que ser assim e essa foi a maneira mais inusitada e bonita, que o universo teve de ajuntar os dois. Obrigada pelo conto leve e diferenciado. Abraços.
January 02, 2022, 20:18

  • Ruana Aretha Ruana Aretha
    Olá, Isís ! Felicitações! Obrigada por ter lido e curtido o conto :3 January 03, 2022, 20:11
Karimy Lubarino Karimy Lubarino
Nem sei dizer o quanto essa história me emocionou. Há tanta verdade nela, tanto da nossa realidade e da realidade dos animais em situação de rua, que foi até difícil continuar a ler em determinadas passagem com o ressoar da voz na minha mente me lembrando que é assim mesmo o mundo onde eu existo, que existem pessoas que fazem realmente tantas coisas hediondas quanto as aqui relatadas e ainda piores. Chuvisco teve alguém pra dar um nome a ele, um lar e amor. Alguém que se importou com ele assim que o viu e percebeu a situação precária e perigosa em que ele estava. Queria eu que todos os animais de rua tivessem esse privilégio ❤️.
January 02, 2022, 20:00

  • Ruana Aretha Ruana Aretha
    Olá, Karimy, tudo bem? Felicitações! É um conto que precisava ser escrito apesar de ter um tom forte. Obrigada por ter lido e curtido :3 January 03, 2022, 20:16
~

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