3rica Érica Moura

Os deuses do Olimpo já tiveram a vez deles. Zeus e seus coligados, incluindo deuses menores e semideuses, protagonizam as histórias há eras. É hora de algo novo, hora de os Titãs retornarem e dominarem a terra... Na humilde opinião de Cronos. É com esse pensamento que Cronos acorda todos os dias. O rancor e os vários arrependimentos da vida de um deus mais antigo que o próprio Tempo o tornaram um velho amargurado. Contudo, certo dia ele acorda e é presenteado com a chance de mudar as coisas em seu favor. Um fogo adormecido é despertado pela frase: "Façam suas apostas". E se a oportunidade de ganhar o poder de Tempus estivesse apenas a uma aposta de distância de você? Você apostaria tudo que tem? Descubra a resposta de Cronos a esse desafio nesse breve e simples conto. Capa por Annie Gomes.


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Capítulo Único

Cronos recebeu o jornal Correio do Olimpo pontualmente às quatro horas da manhã. Hermes, o maior dos fofoqueiros e famoso leva-e-traz, o entregou a nova edição pessoalmente. Profundamente irritado, permitia a entrada dele em sua reclusa morada por simples conveniência. Como não havia bancas de revista no Tártaro e o ingrato do Hades não emprestava a senha da assinatura online para o velho pai, recorria ao delivery. Não fosse isso, jamais deixaria o deus, que transitava entre carteiro e turista, com o look composto por bolsa a tiracolo e sandálias, passar da soleira de sua casa.

Dispensou o mensageiro dos deuses e correu para a cadeira de balanço na varanda. Empurrou os óculos até atingirem a posição perfeita no meio do nariz. Esticou os braços, distanciando o jornal, e leu a primeira página. "Façam suas apostas", dizia a manchete. "Quem vencerá Kairós?", questionava o subtítulo.

— O que esse moleque insuportável pensa que está fazendo? — perguntou em voz alta, sem se dar conta. Reia sobressaltou-se com o resmungo do marido. — Não foi nada, mulher! Pode voltar a cuidar das plantas.

Continuou a leitura, intrigado. "Kairós, o mais intocável dos deuses, propõe uma imperdível aposta. Quem conseguir superá-lo, adquirirá o poder de Tempus. A aposta é simples, os participantes devem especular qual tempo prevalecerá na vida dos humanos e convencer Kairós em um debate. Quem perder, entrega os bens apostados. Ao vencedor, se abrirão as portas do Tempo."

Cronos amassou o jornal, enfurecido. "Nunca li tanta baboseira", grunhiu. "Quem ele pensa que é? EU SOU O SENHOR DO TEMPO, não um menino topetudo que está ficando careca antes da idade. Só EU posso conceder tal prêmio. Deixa estar! Irei acertar minhas contas com esse neto desaforado depois das tarefas do dia."

O dia começava, de fato, quando ele ligava a televisão, ajustava o fuso horário do relógio, sentava-se confortavelmente na poltrona e iniciava o cronômetro. Todos os dias, infalivelmente, o titã assistia ao alvorecer na impressionante tela LED 4K, usando óculos 3D para aprimorar a experiência. Depois de contemplar o sol, tomava o controle nas mãos e trocava a entrada HDMI pela AV. "Hora do serviço!", pensava satisfeito. Os canais fornecidos por aquele cabo eram, no mínimo, curiosos. O deus fazia as vezes de porteiro, monitorava a vida humana através das câmeras de segurança do tempo.

O tirano deleitava-se impondo segundos, minutos, horas, dias e afins aos humanos. O deus do Tempo era inclemente. Não tardava, nem falhava. Interrompia-se apenas para engolir os comprimidos de Omeprazol e, junto deles, seu orgulho. Detestava o remédio, o gosto amargo do passado lhe perseguia em forma de cápsulas. Arrependia-se amargamente da ideia de ter engolido os filhos. Fora a pior ideia de toda a sua extensa vida. Ele só queria evitar ser destronado! Não havia feito por mal.

"Rebanho de crianças ingratas!", pensava Cronos a cada gole de água. "Minha mulher também não fica para trás. Conspirando com Zeus! Onde já se viu? Ainda inventou de remediar com uma poção horrível.". A famosa poção, que o forçou a vomitar os filhos, havia acabado com seu esôfago. Desse infortúnio, restou-lhe uma azia incessante.

Consultara-se com Esculápio, mesmo detestando médicos e insistindo que era um soberano imortal e sempre teve perfeita saúde. Não confiava nesses curandeiros de araque. O melhor remédio é o tempo! Entretanto, a competência de Esculápio prevaleceu e foi dado o diagnóstico imediatamente. Ironicamente, a gastrite de Cronos era crônica. Nada poderia ser mais adequado.

Essas memórias foram divagações preocupantes. Significavam que ele estava disperso.

O tique-taque do relógio de parede geralmente o acalmava e tornava o trabalho prazeroso. No entanto, a manchete o inquietara desproporcionalmente. A ameaça ao trono havia retornado. Cronos não teve o mínimo de paz naquele dia. Foi vítima do próprio Tempo, contou as horas para o fim do expediente e respirou aliviado ao desligar o televisor.

"Façam suas apostas", ruminou o convite.

Os deuses gostavam de desafios. O último grande feito no meio das divindades do Olimpo exigiu a realização de 12 Trabalhos. Fora obra da nora ardilosa, Hera, que cobrou umas dívidas de Euristeu. Por acaso, o homem era o empregador do jovem Hércules. O garoto os cumpriu com maestria, suportando 12 domingos e feriados sem descanso. Como ele não havia desistido, pôde exigir um prêmio. Ao saber do desfecho, Cronos gargalhara por horas. Zeus foi obrigado a pagar a pensão atrasada e, além disso, dormiu de couro quente depois da surra que Hera lhe deu. Zeus, o chefe do Olimpo, seu filho imundo, finalmente sofreu as consequências dos próprios atos. Os desafios eram mesmo interessantes. "Por que não?", questionou-se. Aceitou o desafio do fedelho. Enviou uma mensagem de texto para o número de contato. Data e hora não seriam marcadas. Kairós o surpreenderia.

O neto ligou no horário mais inconveniente possível, atrapalhando a programação dele. Deu-se a discussão mais acalorada da história. O falatório preencheu a vídeo-chamada, podiam ser ouvidos discursos inflamados e ocasionais trocas de ofensas.

— Menino, pare de mexer essa câmera! Está me dando vertigem! — resmungava Cronos.

— Vô, o senhor está muito em cima da webcam. Não estou vendo seu rosto direito. Tente colocar o notebook na mesa para ver se melhora. — Kairós revirou os olhos.

Desse modo, seguiam o debate. Cronos, eventualmente, consultava o Oráculo Google e recebia informações valiosas sobre os humanos. Vários blogs e artigos especulavam sobre a vida humana. As pessoas atarefadas, datas limites, horários marcados de atendimento, engarrafamentos, tudo era música para seus ouvidos. A pressão do mundo contemporâneo os esmagaria e o tempo limitado da existência deles encurtaria ainda mais. Cronos triunfaria. Os homens seriam seus escravos.

Kairós rebatia os argumentos com tranquilidade. As frases eram breves, porém, precisas. Lembrou-o das festas surpresas, dos encontros furtivos de namorados; momentos nos quais as pessoas param e pensam nas pequenas alegrias da vida. Enviou-lhe o vídeo de um pedido de casamento, feito à luz de velas, com letras vermelhas e balões em formato de coração.

— Então, vô? Acha mesmo que essas coisas estão dentro de seus domínios?

— Que tipo de pergunta é essa? Claro que estão. Se não fosse o Senhor do Tempo... — Kairós bocejou. — Esses deuses menores de hoje em dia não têm respeito algum pelos mais velhos! Como eu ia dizendo, se não fosse por mim, o Tempo não existiria. Eles nem teriam idade ou datas comemorativas para celebrar! Os humanos amariam para sempre se não houvesse o Sempre?

Assim, a discussão se perpetuou. Um eterno pingue-pongue dos deuses.

Dizem que é possível ouvir Cronos e Kairós batalhando na hora em que uma pessoa regrada se permite viver segundos eternos de genuína espontaneidade. Nesses momentos, ouve-se a indignação de Cronos. O grito irado do titã atravessa as profundidades do Tártaro, abala a morada de Hades e culmina no toque de um despertador. Contudo, Kairós não fica para trás. As asas ligeiras permitem-no chegar rápido o suficiente para apagar lembretes, esconder agendas e silenciar alarmes por 5 minutos. Kairós, então, sorri ao observar a raiva de Cronos. A risada dele ignora os limites da distância e termina no humano em questão. A pessoa lembra-se de alguma velha piada e ri também.

A pergunta que não quer calar é: quem venceu a aposta? Atualmente, Cronos possui uma vantagem horrível. O relógio do Senhor do Tempo é opressor e dita a vida moderna. Kairós, por outro lado, resiste bravamente. Graças a ele, ocorrem os momentos prolongados, acontecimentos inusitados e distorções temporais de acordo com os sentimentos dos humanos. Nesses instantes, tão breves e infindáveis, Kairós tripudia sobre o trabalho do avô. Neles, as pessoas encontram felicidade. Graças à Fortuna, à boa sorte concedida pela deusa, o fim dos tempos não chegou. Temos a oportunidade de virar o jogo. Ainda há tempo de vencer o Tempo.

18 Décembre 2021 23:04:30 4 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Érica Moura Uma escritora cansada que não cansa de escrever. Baiana, naruteira, viciada em animações, tiete do Adam Sandler, amante de histórias em quadrinho, ficção científica e mitologia. Contista e poeta, segundo a fonte Arial 12. "Eu aprendi que eu sou mais poderoso quando estou fazendo minha arte." (André 3000)

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Palas Palas
Muito, muito legal! Adoro histórias que brincam com a ideia de deuses vivendo vidas humanas, e adoro histórias que oferecem explicações míticas pras coisas mais cotidianas e simples. Sua história tem os dois! Curti muito a visão de Cronos como um velho intransigente, ranzinza e isolado. (E que capa linda!)
January 02, 2022, 14:08

  • Érica Moura Érica Moura
    Obrigada pelo comentário! Sempre gratificante receber um feedback desses <3 January 03, 2022, 11:37
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