hydrohubris Júlia Silva

Uma série de contos acompanhando os eventos em volta da lesma Namekuji e da garota Ayame. Assim como as consequências deste encontro.


Horreur Déconseillé aux moins de 13 ans.

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Namekuji.

Ayame parou em frente a porta de seu apartamento, alguém tinha atirado uma flecha com um recado bem na porta. Que falta de educação, custava muito usar os correios? A garota tomou a flecha com o recado e entrou dentro de casa. Seus olhos calmos se arregalaram enquanto lia a carta com atenção. Que horror! Quem mandaria uma coisa dessas? Ayame largou a flecha e imediatamente correu para o banheiro.

Felizmente, o máximo que havia acontecido com a garota em sua banheira foi o susto que ela levou quando a porta foi aberta violentamente. Não era nenhuma garota comum, Namekuji era metade humana e metade lesma, a cauda viscosa sujava a água da banheira com seu muco, sua pele superior era toda oleosa, assim como seus cabelos. Próximo a banheira estava um prato vazio com restos de salada de tomate, e uma lata de cerveja.

"O que aconteceu? E-eu posso explicar a cerveja!" Namekuji falou de maneira tímida enquanto tentava esconder a lata de cerveja na metade.

"N-Nada… não foi nada, fique tranquila- Ei!" Ayame arrancou a lata de cerveja da mão da garota e balançou sua cabeça em desaprovação. "Você sabe que não pode se esticar para pegar as coisas, e se você derrubasse um frasco de sal no seu braço?"

"Só um pouco de sal não faria muito estrago-" Namekuji é interrompida pelas palavras preocupadas de Ayame.

"Faria sim, você sabe que faria, se você quiser uma cerveja na próxima vez me fale, ok?"

"Ok…"

"Ótimo, eu vou dormir, quer que eu troque a sua água ou você consegue fazer você mesma?"

"Eu consigo fazer eu mesma."

Ayame sorriu e acenou com a sua cabeça, antes de sair do banheiro e fechar a porta. Ela caminhou pelo corredor com a cabeça baixa e entrou em seu quarto. Aquela carta era gravíssima, a pobre lesma da banheira não tinha feito nada para merecer ser morta, e porque tanta violência para entregar uma carta?

A garota começou a ler a carta com mais atenção, e a expressão em seu rosto se tornou horrorizada diante das alegações nela contidas. A carta contava a história de como Namekuji foi invocada por um culto local como parte de uma entidade anciã, mas a lesma gigante havia escapado e era uma grande ameaça para a cidade e o país inteiro. Ayame não podia acreditar, isso era insanidade, mas as contas matemáticas e as explicações pareciam fazer sentido. O papel inclui instruções de quanto sal seria necessário para efetivamente matar Namekuji, e o que fazer para se livrar do corpo; Além de um alerta: Se Ayame não matasse Namekuji, eles invadiriam a casa em cinco dias e se livrariam dela de qualquer jeito.

A garota se sentou na cama e largou a carta para pensar, se Namekuji realmente fosse uma ameaça tão grande… isso significaria que ela estava a manipulando, mas ela é uma lesma tão amável, isso não seria possível. Ayame se deitou em sua cama e desligou as luzes para poder dormir, na esperança que iria se esquecer de tudo isso quando acordasse.

Ayame abriu seus olhos para uma cena grotesca, era claramente um pesadelo. Ela estava flutuando no ar, imóvel, bem acima da cidade e de sua casa. Ela podia ver tentáculos beges semelhantes aos de Namekuji escapando pelas janelas e portas, juntamente com muito sangue, as extensões viscosas invadiam as ruas e matavam todos em seu caminho. Isto continuou pelo o que pareciam horas, até Ayame finalmente acordar às cinco da manhã, suando e com o coração na boca, a garota moveu suas mãos trêmulas para secar a testa e se levantou da cama. Não foi um simples sonho, foi uma premonição. Uma morte com sal seria indolor, não seria? Talvez ela estivesse fazendo um favor para sua amiga, um favor cruel, mas um favor de qualquer modo.

A garota caminhou até a cozinha para tomar café, ainda estava escuro lá fora e Namekuji provavelmente estava dormindo. Que situação precária que ela havia se metido, ela estava praticamente com a vida de uma criatura e uma vila inteira nas mãos. Se tudo na carta fosse verdade, uma organização com tal nível de detalhe provavelmente saberia se ela simplesmente escondesse Namekuji em algum lugar. Ayame pensou nisso enquanto derramava seu café dentro da xícara e se sentou na mesa de jantar. Existia uma possibilidade destas pessoas estarem a enganando, lesmas são comidas populares em alguns lugares do mundo, mas ela não sabia se lesma com sal era uma boa combinação gastronômica, provavelmente não. Talvez isso não passasse de uma pegadinha, uma brincadeira de mal gosto, mas como alguém teria descoberto que ela tinha uma lesma humana na banheira?

Enquanto bebia seu café, Ayame sentiu algo viscoso se arrastando pelas suas pernas e olhou para baixo, viu os braços que obviamente eram de Namekuji se esticando e tentando alcançar a geladeira de maneira semelhante a tentáculos, já era claro que ela estava tentando pegar mais cerveja. Ayame suspirou e pisou no braço, oque imediatamente causou um pequeno grito de dor vindo do banheiro e os braços se arrastaram de volta por de baixo da porta; que se abriu logo em seguida.

“Isso foi rude! Eu só queria um golinho!” Namekuji protestou do banheiro e fechou a porta novamente.

Isto fez Ayame soltar uma pequena risada, mas não foi suficiente para afogar a situação atual, ela teria que pôr um fim nessa voz dócil e na personalidade brincalhona da melhor amiga. Ela teria que decidir hoje se iria pôr um fim na vida de sua amiga inocente ou se iria desafiar as ordens comunicadas, se pudesse obviamente. Talvez a melhor maneira de resolver essa situação seria sondar Namekuji, saber exatamente o que ela pensava, de onde ela tinha vindo, quais eram seus objetivos. Ayame se levantou da cadeira e andou até a geladeira, tirando pelo menos três latas de cerveja de dentro e indo até o banheiro.

Ao entrar, Ayame já viu duas latas de cerveja vazias dentro do banheiro junto a Namekuji, que estava com uma expressão envergonhada em seu rosto.

"A gente pode conversar um pouco?" Ayame perguntou e colocou uma lata de cerveja sobre o canto da banheira, que foi imediatamente tomada por Namekuji.

"Claro, sobre o que você quer conversar?" Namekuji perguntou e abriu a lata de cerveja com dificuldade. Mesmo com sua pele sendo pegajosa, seus dedos eram incrivelmente escorregadios.

"Você, eu quero conversar sobre você, de onde você veio?"

Namekuji tomou um gole de cerveja e hesitou para responder, isso com certeza era algo muito delicado. A garota lesma balançou a cauda em volta do sifão da banheira antes de responder.

"Eu? Eu vim do esgoto, eu já te contei-"

"Não, você não veio do esgoto, nós duas sabemos que essa não é a verdade." Ayame rebateu Namekuji. Ela estava suando e tremendo, o estresse e a ansiedade que toda essa situação estava colocando sobre ela não era leve.

"Bem… eu… sim, você está certa, eu não vim do esgoto…"

"Então, de onde você veio?"

"Eu não poderia lhe dizer, sua mente não aguentaria todo o conhecimento, você iria ficar louca."

Namekuji estava com uma preocupação aparente em seu tom de voz, ela queria proteger Ayame das coisas que não interessavam a nenhum humano. Mas a garota era persistente, ela queria saber a verdade de qualquer jeito. Namekuji tomou mais um gole de sua cerveja enquanto Ayame protestava e praticamente implorava.

"Você não entende, eu não ligo, vamos logo, me diga!"

Namekuji suspirou e percebeu que não poderia fazer nada para evitar isso. A garota lesma abriu sua boca e começou a explicar as coisas insanas que ela havia visto em sua casa. Sabikateros, as cidades de cobre não euclidianas, a biologia bizarra, as máquinas impossíveis; Tudo isto estava sob controle da Corte dos Altos. Cada uma das explicações faziam sua cabeça girar, como se um forte sentimento de desesperança e terror tivesse tomado conta de sua alma. Ayame não fazia ideia do que ela tinha ouvido, mas a expressão de desgosto estampada em seu rosto explicava tudo. A garota havia sido tomada por uma insanidade irracional diante das revelações, o tipo de insanidade que levaria alguém a cometer um sério crime contra a confiança de alguém.

"Me desculpe…"

Ayame sussurrou e rapidamente se levantou antes de sair do banheiro e do apartamento rapidamente. Ela sabia que a mercearia local vendia baldes de sal de cozinha. Ela desceu as escadas para a rua rapidamente, quase tropeçando em um dos degraus no processo de sua descida. O céu estava fechado hoje, uma tempestade parecia estar a caminho, era um clima ironicamente fúnebre, um prelúdio do que aconteceria em breve. Ayame podia sentir que estava sendo observada a cada passo que dava.

Sua mente estava lutando uma batalha que não podia vencer no momento. Ela se sentia como se fosse desmaiar e cair morta por ter adquirido todo aquele conhecimento proibido, conhecimento que não pertencia a nenhum ser humano, conhecimento que arrancava até o último pingo de sanidade de uma pessoa comum, e a transformava em um monstro. Este conhecimento proibido combinado com as informações da carta a transformariam em um monstro nunca antes visto.

Ayame entrou na mercearia e logo saiu carregando dois baldes pesados, cheios de sal de cozinha. Alguns trovões distantes podiam ser ouvidos enquanto a garota ofegante entrou em seu apartamento e carregou os baldes até a porta do banheiro.

"Aya, é você..?"

Namekuji perguntou em um tom preocupado, assustado. Ayame não acreditava que algo tão bizarro poderia ter sentimentos como medo e preocupação. Em puro sangue frio, Ayame abriu o balde, chutou a porta do banheiro aberta, e invadiu a pequena sala.

Ela derramou o balde inteiro de sal em Namekuji, que gritou em dor e desespero, implorando para Ayame parar e por misericórdia. Sua pele começou a ressecar imediatamente, os gritos pararam quando a língua e os lábios encolheram e a boca foi inundada por uma substância viscosa semelhante a sangue. Namekuji não podia mais pedir por ajuda, mas seus olhos arregalados e assustados ainda estavam ali, era uma expressão de puro desespero e medo. A lesma humana claramente ainda estava viva, lentamente tendo seu corpo derretido e ressecado pelo sal.

Isto não era suficiente para Ayame, que então derramou o outro balde de sal sobre Namekuji, isto fez a pele da garota borbulhar e espirrar sangue para todos os lados, uma destas gotas viscosas pousaram bem no olho de Ayame. O líquido misturado com sal não foi uma experiência boa para os olhos da assassina, que rapidamente tentou limpar suas pupilas. Enquanto isso, Namekuji continuou a se debater na banheira como um peixe fora d'água, e eventualmente todo o barulho e pânico parou. A pele havia derretido junto a todo o sangue e o óleo borbulhoso e viscoso que havia se misturado e escurecido a água da banheira. Namekuji estava morta.

A garota humana olhou para o cadáver da criatura em sua banheira, ela não podia acreditar no que tinha acabado de fazer, ela tinha "salvo a humanidade", mas a que custo? A traição da confiança de sua melhor amiga. Ayame tomou uma faca de açougueiro da cozinha e começou seu trabalho, esquartejou o corpo derretido da garota e embrulhou os pedaços em panos. Ayame tentava segurar suas lágrimas enquanto fazia isso, e derramou uma lata de cerveja sobre os restos mortais da amiga como um tributo. A garota levou os embrulhos para o rio mais próximo, e desovou o cadáver após verificar que não haviam câmeras próximas.

Ela então voltou para casa e foi dormir, tendo constantes pesadelos de como ela tinha assassinado uma criatura tão inofensiva com tanto sangue frio.

A organização misteriosa que deu as ordens nunca mais deu as caras, e Ayame caiu em uma severa depressão, a garota abraçou o álcool e o cigarro como suas únicas companhias.

Um dia, Ayame gritou ao perceber em choque, que seu olho que havia sido atingido pelos restos mortais de Namekuji estava se transformando. No lugar agora estava uma massa esverdeada e borbulhante, que a cada dia crescia mais e mais, alimentada pela cerveja e por um sentimento de tristeza inimaginável, semelhante a morte de Namekuji.

Sabikateros não estava feliz, e jurou vingança.

19 Décembre 2021 01:46:54 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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