jace_beleren Lucas Vitoriano

Lilith foi a primeira mulher de Adão, mas não aceitou submeter-se a esse. Renegando a ele, uniu-se em amor a Lucifer que lhe prometeu felicidade e poder. Mas e o que veio depois? O que ela conseguiu? E o que perdeu?


Histoire courte Tout public.

#drama #demonios #fantasia #lilith
Histoire courte
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Capítulo único

Ela estava a fitar os raios do sol a muito tempo, o olhar distante e perdido entre as nuvens densas e fofas. Seu pensamento encontrava-se mais distante ainda, tanto no tempo quanto no espaço. Ela lembrava do que perdera, ou, talvez, o que não chegara a perder de fato, pois nunca o possuíra. Ironicamente, tudo que manteve consigo foram as coisas mais fúteis, sua beleza, fama e poder.

Lilith havia sido a primeira mulher criada e, ela acreditava, seria a única mulher viva quando a loucura e a ganancia dos humanos os levassem de vez a destruição. Conhecera o jardim do Éden e lá se envolvera em amor com seu primeiro esposo, Adão. Eles foram felizes? Na época ela acreditava que sim, mas agora, milênios depois, pensava que tudo que tivera fora uma falsa e cômoda felicidade. Algo que a prendera e a limitara por muito tempo.

Conseguira libertar-se dessa prisão, do amor de Adão que exigia dela submissão, um amor egoísta e opressor. Fora salva pelo anjo luminoso, aquele capaz de encantar e ludibriar qualquer ser vivo. Era o anjo que veio da luz, Lúcifer.

Ainda parada ao observar o sol, Lilith pensava nele. Estava na sacada de seu amplo castelo, trajando um vestido preto simples. Os cabelos eram longos ondulados e macios, possuindo uma coloração negra como as asas de um corvo. Ela ainda lembrava da primeira vez que vira Lúcifer e, apesar de tudo que ocorreu depois, não sabia se o odiava ou amava. Seus sentimentos pelo senhor dos infernos eram complicados demais, ambíguos demais. Mesmo tendo milênios de vida, ela ainda não conseguia compreende-los.

Quando o vira pela primeira vez, ainda habitava o Eden junto a Adão. Por mais que o jardim criado por Deus fosse belo e perfeito em todos os seus detalhes, desde a macieira dos frutos proibidos até o mais mísero grão de areia, nada disso se equiparava a beleza de Lúcifer, o anjo mais belo já criado. Ele estava nu, assim como ela, com suas lindas asas brancas abertas e um sorriso de gentileza no rosto.

O anjo a encantara com sua erudição e bondade, seduzindo-a com toda sua persuasão. Como ela poderia resistir? Até mesmo outros anjos o seguiram, iludidos por seu dom da manipulação. Ele a convenceu a deixar o Eden, disse que a amava e que, diferente de Adão, lhe faria felicidade sem exigir submissão. Disse muitas outras coisas, e ela, uma simples humana, acreditou naquelas palavras e amou-o com toda a força de seu coração. Talvez tivesse sido um erro, mas, naquela época, era a ação mais sensata a se tomar.

Apesar de tudo fazer parte dos planos de Lúcifer para corromper a humanidade, Lilith sentia que ele realmente a ajudara naquela época e, talvez, a tivesse amado sinceramente. Entretanto, o amor daquele anjo corrompido, como ela descobriu após milênios de convivência, era ainda mais opressor e abusivo do que o de Adão.

E, desde esse primeiro encontro, toda a vida de Lilith seguiu como se ela flutuasse em águas profundas, sem nunca saber ao certo para onde ia, nem o que realmente desejava. Ele lhe deu o seu amor e lhe prometeu felicidade e poder durante toda a eternidade, mas ela nunca fora feliz, nem mesmo com o poder, mas isso ela não percebeu na época. Assim ocorria na maioria das vezes, infelizmente.

Lúcifer deu a ela poder, fazendo-a deixar de ser uma simples mortal e transformar-se em algo diferente, uma demônia, mas não uma qualquer. Tornou-se uma sucubus, a primeira de todas, dotada do poder da sedução, da mudança de forma e de caminhar pelos sonhos alheios, além, claro, de uma força, resistência e velocidade que um humano jamais alcançaria.

Juntamente com Lúcifer, Lilith lutou na rebelião contra os anjos do Senhor e, assim como ele, foi exilada para o inferno, assim como tantos outros anjos caídos. A queda fora difícil, em muitos sentidos, mas ela sobreviveu e se reergueu. Era uma mulher forte.

E o que veio depois fora o poder e o desejo de vingança. Por muito tempo, partilhara do sonho e do desejo de Lúcifer de se vingar da humanidade e acabar com toda a criação do Senhor. Ela não se tornara apenas sua esposa, gerando com ele incontáveis filhos, sucubus e incubus, que desde então assombram a humanidade. Lilith elevara-se mais que isso, tornara-se uma general de Lúcifer, sua companheira leal.

Quando ele conseguiu dominar o inferno, eliminando os concorrentes e organizando os outros anjos caídos sob sua autoridade, ela fora nomeada uma duquesa do inferno, ganhando assim domínio de uma das nove áreas do mundo inferior. Assim, adquirira ainda mais poder tanto para si quanto para seus filhos, sucubus e incubus, que eram muito numerosos.

E assim os anos se passaram, Lilith elevara-se em importância e poder, era a preferida de Lúcifer, desejada por humanos, anjos e demônios, entretanto, não importava quanto mais conquistasse, nunca sentia-se feliz ou em paz.

Os outros diziam que ela era feliz porque todos a desejavam só de olhar para ela, mas ninguém se perguntava, ou se importava, com o que ela queria, com os desejos. E o que alguém que tinha tudo poderia querer? Lilith sabia a resposta, mas não sabia se conseguiria obter. Talvez antes, quando era apenas uma simples humana a caminhar nua pelo jardim do Éden, cercada pela beleza das flores dos riachos e das árvores, quando sua vida e ela própria eram mais simples, então ela poderia ser feliz.

Os raios de sol banhavam seu corpo. Ela cruzou os braços e suspirou, melancólica, admirando da sacada a bela vista a sua frente. Do alto de seu castelo, tudo que sua vista alcançava eram territórios seus, pertencente a ela devido ao posto de duquesa do inferno. Havia uma grande cidade nas redondezas do castelo, aonde seus filhos e filhas viviam. Muitos deles visitavam o mundo humano, se não fisicamente então em sonhos, para atormentar a humanidade, seduzi-los e os levar para o caminho do pecado. Lilith já fora assim, mas a muito tempo perdera o interesse nesse tipo de coisa. Atormentar os outros, manipulá-los, poderia ser bom para seu ego, mas não lhe trazia mais do que prazeres efêmeros.

Ela sentia-se vazia, oca por dentro. Nunca tivera alguém que realmente amara, não um amor sincero e poderoso. Tudo que tivera foram as falsas promessas de Lúcifer, porém, na cabeça dele, o anjo que veio da luz realmente acreditava que dera a esposa felicidade. Ele nunca parara para pensar em como ela se sentia. Nunca compreendera o sofrimento ou a solidão dela.

Obviamente, Lilith tivera seus amantes, homens e mulheres, mas todos a adoravam como um ideal. Ela não era amada, apenas desejada, da mesma forma que uma pessoa deseja ouro ou sucesso. Talvez Adão pudesse ter lhe dado felicidade. Ela sabia que ele certamente tentara, mas Adão acreditava demais que era o certo e o natural, que ela lhe fosse obediente e servil. Lilith jamais poderia se submeter a uma relação assim. Também não lhe traria felicidade, apenas a reduziria a uma pessoa que cederia demais de si, sem nunca receber o mesmo em troca.

— Não adianta pensar nessas coisas — disse para si mesma, virando as costas para o sol e para aqueles pensamentos distantes.

Sem ver mais necessidade em permanecer com suas reflexões, Lilith deixou seu quarto, caminhando pelos suntuosos corredores de seu castelo. Haviam armas belíssimas expostas nas paredes, quadros, estátuas feitas pelos melhores escultores humanos, símbolos incontáveis de riqueza e beleza, mas Lilith não estava com muito humor para aprecia-los. Assim sendo, passou direto por todos. Seguiu em frente sem dar atenção a nada ou ninguém. Alguns de seus descendentes, sucubus e incubus que lá viviam, curvavam-se em respeito quando ela passava. Lilith lhes dirigia um breve aceno com a cabeça e então seguia seu caminho.

Deixou seu castelo, caminhando sozinha, o vestido negro a esvoaçar levemente. Queria tomar um pouco de ar, longe de um ambiente fechado. Enquanto vagava distraída, observando a bela paisagem ao seu redor. Pensou, não pela primeira vez, como o inferno não era tão diferente fisicamente ao mundo dos humanos ou do Éden.

Em todos esses lugares haviam florestas, oceanos, montanhas, os sons dos animais, o brilho forte do sol e a presença melancólica da lua. Entretanto, era no que não podia ser visto ou ouvido, mas apenas sentido, que esses locais tornavam-se tão distintos entre si. O Éden era um lugar cheio de vida e luz, com algo de belo que aquecia o coração e expulsava as angustias. Viver naquele jardim era como estar cercado de amigos queridos que estavam sempre a lhe dizer palavras de apoio, ajudando-o a nunca ficar triste ou deprimido, mesmo que essas coisas pudessem vier a acontecer. O mundo dos humanos, por outro lado, ainda possuía um resquício dessa atmosfera benéfica e acolhedora, mas a ela estava misturada uma grossa nuvem de ódio, rancor, inveja, orgulho e tantas outras emoções negativas. Já o inferno, não era carregado de emoções ou uma aura negativa, mas era um lugar de ausência, pintado com cores cinzentas e desbotadas. A luz do sol não era tão brilhante, o ar não era tão fresco nem a água tão cristalina. Era como um reflexo tênue que nunca se tornaria tão real e belo quanto o objeto refletido.

Com o tempo, claro, Lilith aprendera a viver ali e se acostumar com esse clima, mas era fato consolidado entre todos anjos e demônios que o inferno não era um bom lugar para se viver, pois todos prazeres que ali se podiam desfrutar eram murchos, com um brilho pálido e fraco. Mas não havia porquê esperar que fosse diferente, afinal, não era a toa que fosse um lugar de exílio.

Após caminhar sozinha por quase uma hora, Lilith deixou a cidade que ficava nas redondezas de seu castelo e dirigiu-se a uma floresta ali perto. Era um lugar perigoso para quem não pudesse se proteger, pois haviam criaturas selvagens que ali viviam, diabretes, cães infernais e tantos outros monstros. O inferno abrigava esse tipo de ser. Eram criaturas de intelecto limitado, mas ferozes e mortais, não a toa era comumente usados em combates pelas hordas infernais.

Enquanto vagava por entre as árvores, Lilith avistou algumas dessas criaturas. Um trio de cães infernais, criaturas de pelugem preta como o carvão e olhos vermelhos como o sangue. Os dentes eram numerosos e pontiagudos, prometendo uma morte rápida a quem os desafiasse. Um dos cães soltou um rugido baixo ao avistar a rainha das sucubus e, sensatamente, afastou-se dali, sendo seguido pelos outros dois, provavelmente seus filhotes.

Ela ainda demorou-se alguns instantes admirando as criaturas, mas logo elas sumiram entre as árvores e, pouco tempo depois, até o som de suas pegadas extinguiu-se. Lilith voltou a andar, parando apenas a beira de um riacho. Ajoelhando-se e fitou seu reflexo nas águas, perguntando-se quando seu olhar tornara-se tão melancólico e seu coração adquirira tantas cicatrizes. Desejava, mais do que tudo nesse mundo, encontrar o reflexo da mulher que fora um dia, a humana que vivera no jardim do Éden. Se por algum milagre isso acontecesse, perguntaria ao seu eu do passado qual era o caminho da felicidade, pois já havia se distanciado tanto dele, pegando tantos atalhos que só a levaram para longe ou, pior, para becos sem saída, que nem tinha ideia de como voltar ao caminho correto.

Tinha certeza que seu sua outra eu não saberia encontrar a felicidade, mas ao menos conseguiria indicar-lhe o caminho. Isso era tudo que Lilith precisava, um norte para onde seguir.

Mas o passado não podia ser mais alcançado, nem por ela nem por ninguém. O Éden já estava inacessível e isso nem era culpa sua, mas sim de Adão e sua segunda esposa, Eva. Lilith tinha que encontrar no futuro o caminho para seguir. Não sabia que caminho era esse, mas de uma coisa tinha certeza, não seria como consorte de Lúcifer ou duquesa do inferno que encontraria a paz.

Ela sabia que precisava mudar, mas não sabia para onde e, por medo ou comodismo, continuava aonde estava, desfrutando de seus luxos sem importância, acordando todas as manhãs com aquele vazio em seu peito.

Mas ela ainda tinha esperanças, a felicidade era para todos, fossem anjos ou demônios, e ela encontraria a sua. Poderia demorar séculos, milênios ou toda a eternidade, mas ela a encontraria. Essa motivação era a única coisa genuinamente boa que a súcubo ainda tinha. Ela se agarrava a isso, pois não podia se agarrar a mais nada.

19 Août 2021 00:00:07 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Lucas Vitoriano Sou escritor, tendo alguns contos publicados. Além disso, sempre que possível posto alguma coisa aqui também. Amo animes, filmes da disney e mitologia grega. Para acompanhar meu trabalho visitem meu perfil no instagram @l.vitoriano ou meu perfil de literatura @pensandoescritor. Espero vocêsl á!

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