vicxy Victoria Affonso

A paz está dentro de uma xícara de café. O amor pode estar na cafeteria.


Histoire courte Tout public.

#shortstory #conto #onechapterromance #coffee # #romance
Histoire courte
2
652 VUES
Terminé
temps de lecture
AA Partager

Love Macchiato

Era início de outono em Paris, as folhas alaranjadas caídas pela calçada voavam com o vento frio e cortante da manhã, e ficavam a cada instante com cores mais vibrantes, conforme o sol surgia ao leste. Eram aproximadamente 7:10 da manhã, o nascer do sol estava belíssimo, eu me sentia abençoada por ter acordado mais cedo para um café naquele dia; normalmente, minhas manhãs eram agitadas, acordava às 8:00 A.M para chegar na faculdade às 8:30, mal dava tempo de aproveitar o café da minha cafeteria favorita do bairro Saint-Germain-des-Prés, a Les Deux Magots; um estabelecimento muito antigo e conceitual, incrivelmente decorado com um ambiente aconchegante que eu amava frequentar.

Apenas passando em frente à vitrine da loja, meu coração bateu mais forte, transbordando alegria; o cheiro do café, misturado com o dos bolos e biscoitos variados, a aparência sedutora dos lindos macarons coloridos, embalados em caixas transparentes com laços de fita de cetim no mostruário do lado de fora do local me deixavam com água na boca. Eu estava tão animada de poder entrar com calma na cafeteria de novo, me sentar na janela e observar a linda Paris enquanto bebo meu café apreciando um bom livro. Eu adentrei a famosa Les Deux Magots, no mesmo instante percebi que o universo estava ao meu lado — estava vazio, isso normalmente não acontece, usualmente as mesas estão todas lotadas, a fila no balcão chega a estar do lado de fora da cafeteria, mas não naquele dia, eu era a única cliente. — Esbocei imediatamente um sorriso quando avistei meus amigos atendentes do local e fui até eles na bancada. Ainda sorrindo, eu lhes disse:

— Bom dia, pessoal! Pierre, Amélie, Dominique, Camille... senti falta de conseguir parar para falar com vocês antes de sair correndo para a universidade. Como vocês estão?

Enquanto eu pegava o cardápio, mesmo já sabendo exatamente o que iria pedir, simplesmente para observar a estética satisfatória para os meus olhos, Amélie, a gerente da cafeteria, me respondia em nome de todos eles:

— Bom dia, Madame Catherine. Nós também sentimos sua falta aqui, nossa melhor cliente e amiga parou de se sentar para apreciar o café, foi tão estranho.

— O que vai ser hoje, Cath? — Pierre, o estagiário com sonho de se tornar um modelo profissional, com sua voz doce e rouca me perguntou, abrindo um sorriso sedutor, meio lateral.

— Primeiramente, pare de tentar me seduzir com esse charme, senhor Modelo, estou focada na faculdade. Se continuar me distraindo assim, nunca vai ver minhas coleções na passarela da Dior. — Eu respondi e ambos rimos. — Eu vou querer o de sempre: um Latte Macchiato grande e uma caixa de macarons sortidos para acompanhar.

— Com prazer minha rainha. — Disse Pierre me olhando com seus belos olhos verdes, enquanto pegava minha mão e depositava nela um beijo.

— Ao trabalho, agora! — Amélie exclamou aos berros. — Vamos, circulando, temos mais o que fazer! — Continuou. Sua voz estridente fez com que todos se assustassem, inclusive eu, que exalei ar pelo nariz, em uma risada contida.

De prontidão, Dominique, o barista, e Camille, sua noiva e chefe da cozinha, correram para seus respectivos postos. Enquanto isso, Pierre, abusado como sempre, beijou novamente minha mão e me deu uma piscadela, com um meio sorriso nos lábios, em seguida saindo lentamente em direção ao salão, para limpar as mesas que viriam a receber novos clientes.

Enquanto esperava meu pedido, retirei da bolsa meu livro preferido e meus fones de ouvido. Me dirigi à minha mesa favorita da cafeteria, – a com bancos acolchoados ao lado da janela, onde batia a quantidade perfeita de sol para me esquentar e iluminar a leitura, porém não o suficiente para atrapalhar minha visão. Era perfeito. – Me sentei, coloquei uma música apenas instrumental, para não me desconcentrar e abri o livro na página onde parei da última vez que o li, marcada pelo marca-páginas. Iniciei a leitura, estava completamente entregue à história; uma fantasia com um toque de romance tão sutil, tão reconfortante e bem escrito, conseguia me ver na vida da protagonista, enxergar claramente cada cena. Eu sorria com cada palavra, estava admirada com cada página escrita com tamanha perfeição. Me emocionava profundamente.

Interrompi a leitura quando me assustei com o sino da porta se abrindo ecoando pela cafeteria, de imediato levantei meu olhar para a porta, onde estava parado o rapaz que acabara de entrar. O mesmo tremia de frio e esfregava suas mãos uma na outra enquanto as assoprava bem de perto, a fim de esquentá-las. Ele não estava agasalhado adequadamente para a temperatura daquela manhã, certamente iria esquentar durante o dia, porém não naquele momento. Ele olhou para todos os lados, aparentemente buscando algum lugar para sentar e foi quando seus olhos passaram por mim e por um segundo, apenas um segundo, fizemos contato visual, tal qual tocou o fundo da minha alma com seu olhar penetrante. Em primeira instância eu paralisei, não conseguia parar de encará-lo, ele era belo como uma noite estrelada de lua cheia, era alto e moreno, seus cabelos eram cacheados e pretos como breu, tinha um rosto angelical e seus olhos brilhantes tinham cor de caramelo, que contrastava com sua pele escura e iluminada, cuja era tão uniforme e não possuía manchas, além do brilho levemente dourado dela, como se fosse bronzeado. Passava suavidade. Ele tinha uma aura doce e delicada, parecia confuso, certamente não era parisiense. "Poderia ser estrangeiro" — Pensei comigo mesma.

Fui acordada dos meus devaneios por Pierre, que trouxe meu pedido em belas peças de louça. O café bem quente numa caneca de porcelana decorada e um lindo desenho de coração feito com calda de chocolate no no prato onde estavam os macarons, que combinava com a caneca.

— Foi você quem fez esse coração? Perguntei.

— Sim, fui eu. — Pierre respondeu. — Queria alegrar o seu dia, sei como você anda estressada, mas mesmo assim dá valor às pequenas coisas da vida... E eu adoro isso em você, por isso o coração. — Completou e sorriu, enquanto acariciava meus cabelos, a partir de um cafuné breve no topo da cabeça e então descendo ao comprimento com os dedos.

Eu devolvi o sorriso e reclinei minha cabeça em seu torso, em demonstração de alívio e gratidão. Ele me entendia, estávamos em situações parecidas, batalhando dia e noite para a conquista de um sonho.

— Pierre, você é o melhor, muito obrigada!

Ele acenou com a cabeça e se retirou. O observei saindo, ele caminhou na direção oposta de onde eu estava e foi ao encontro do rapaz que entrara há pouco, cujo ainda tremia de frio. Que tolo, escolheu a parte mais fria do salão, ali não pegava sol e as janelas ficavam abertas para ventilar o ambiente. Me senti comovida.

Retirei de meus ombros a manta de tricô que estava sobre meu casaco, (que por si só já era bem quente) e me levantei, então deslocando-me até a mesa do garoto. Me posicionei ao seu lado e estendi o braço, lhe dizendo:

— Não pude deixar de notar que está tremendo de frio, não parece acostumado com esses ventos. Aceite esse tricô, ele esquenta bem. E se quiser uma dica, o outro lado do salão não é tão frio, pega um pouco de sol na janela onde estou, pode vir se sentar comigo.

— Ela tem razão, senhor. Madame Catherine frequenta aqui desde sempre, ela sabe tudo sobre esse lugar. — Pierre, que acabava de anotar o pedido do rapaz, concordou comigo e acenou com a cabeça, em seguida se retirando dali, para a cozinha entregar a comanda à Camille.

Abri um sorriso tímido e desajeitado, esperando pela resposta dele. Ele se levantou e olhou no fundo dos meus olhos, com uma expressão séria e fria, que logo após alguns segundos se transformou num sorriso doce e agradecido. Ele pegou o tricô e colocou sobre seus ombros, fechando seus olhos durante um suspiro em alívio.

— Ele é realmente quente, muito obrigado mesmo! Nem sei como posso te agradecer. Me permite te pagar uma bebida? — Indagou.

— Não, senhor, imagine! Mas eu agradeço imensamente. Apenas sente-se comigo e se esquente. A propósito, como se chama? — Perguntei, já tomando a frente e começando a caminhar de volta para a minha mesa.

Ele, me seguindo, respondeu:

— Sou Matheus, mas pode me chamar de Math para facilitar, muito prazer. E quando você disse que eu não parecia acostumado com esses ventos, acertou em cheio. Sou brasileiro, morava em uma cidade litorânea e me mudei há pouco tempo.

Eu me espantei na hora que ouvi, sabia que era estrangeiro, além de seu sotaque, que soava tão adorável. Matheus; Math: brasileiro... Isso explicaria muita coisa.

— Uau, isso é impressionante! Seu francês é ótimo! — Exclamei em espanto.

Ele agradeceu e sorriu timidamente.

Chegando à minha mesa, ofereci a ele meu lugar, que era um pouco mais quente que o outro banco do lado oposto da mesa.

— Você é a primeira madame francesa que é realmente gentil comigo desde que cheguei, obrigado de novo.

Ele se sentou e entregou minha bolsa, que estava daquele lado do banco, arrastou para o meu lado da mesa o meu livro, o prato de macarons e a caneca de café. Ele era diferente de qualquer um que eu já havia conhecido, era um verdadeiro cavalheiro, doce e tinha um perfume maravilhoso. Nada parecido com os homens franceses, rudes e fétidos. Eu estava maravilhada, aos poucos minha postura foi sendo perdida.

Soltei uma risada frouxa e desajeitada, com a cabeça inclinada para baixo e colocando o cabelo atrás da orelha, então me sentei em sua frente.

— O que lhe trouxe a Paris, Math? — Perguntei, na intenção de puxar um assunto. Era tão bom ouvi-lo falar, eu poderia ouvir o dia todo... Se não tivesse que sair daqui para ir para a faculdade em meia hora.

— Fui aceito para um programa de residência aqui. Ainda estou no primeiro ano como residente, por isso ainda não me acostumei muito com o clima. — Ele riu.

Matheus tinha um ótimo senso de humor, a todo momento sorridente. Me fez sentir como se nos conhecêssemos há anos, estava a vontade comigo, como eu estava com ele.

— Olha só, um médico! — Exclamei surpresa. Ele seria um ótimo médico, já que é uma ótima pessoa. — Já tem alguma especialidade em mente?

— Cardiologista. Afinal, sempre gostei de brincar com corações.

O rapaz ergueu as sobrancelhas e riu. A reação do meu próprio coração foi bater de forma acelerada. Eu estava levemente confusa com a sensação, não era normal para mim me encantar dessa forma por alguém, até esqueci de tomar meu café. Eu ri também de sua piada e peguei minha caneca, levei ela à minha boca e tomei um gole. Já havia esfriado um pouco, mas naquela altura eu já não me importava mais.

Amélie foi quem apareceu com o pedido de Matheus, o que eu estranhei, pois normalmente era Pierre quem trazia os pedidos. Olhei confusa para ela, que apenas sorriu para mim e arqueou uma das sobrancelhas, olhando de canto de olho para Matheus. Na mesma hora eu percebi do que se tratava. Pierre deve ter ficado enciumado, afinal, sempre gostou de mim e nunca teve medo de demonstrar, porém eu sempre deixei claro que ele era meu melhor amigo e nada além disso. E estava tão escancarada assim minha queda pelo estrangeiro? Suspirei encarando Amélie, que em seguida se retirou. Matheus percebeu meu suspiro, mudou sua expressão para preocupada e perguntou:

— Está tudo bem?

— Sua sensibilidade aos sentimentos alheios me espanta. — Eu ri, para tentar quebrar o clima pesado que surgiu.

Ele também riu e deu de ombros, respondendo:

— Coisa de brasileiro. Gostamos de cuidar de quem cuida de nós. Pode me contar se quiser.

— Está tudo bem, Math, só estou preocupada com a faculdade, futuro. Essas coisas.

— Eu entendo. Se precisar de um amigo que já passou por isso, estou bem aqui! — Ele disse e esboçou um sorriso largo, abrindo os braços e apontando seus dedos indicadores para si mesmo.

Sorri também e consenti com a cabeça em agradecimento.

— Qual seu curso? — Ele emendou a pergunta em sua fala anterior, bebendo um gole de seu café puro.

— Eu sou estudante de moda. Faço estágio de meio período em uma loja Versace perto da universidade. — Respondi, toda cheia de mim, cabeça erguida e peito aberto, orgulhosa do que faço.

— Minha Nossa! Isso é muito chique.

Mais um cliente adentrou a cafeteria e enquanto a porta estava aberta, trouxe para dentro uma brisa, que fez com que o aroma maravilhoso que Matheus exalava invadisse novamente minhas narinas. Foi então que me lembrei; seu perfume era Versace. Não um dos mais conhecidos, mas sim Blue Jeans, que era leve, tinha um cheiro clássico, amadeirado, levemente cítrico e com notas florais de rosas e lavanda. Meu preferido.

— Versace! — Meu pensamento acabou saindo pela minha boca, num tom mais alto do que eu gostaria.

Ele me olhou em confusão, provavelmente pensando que eu era uma maluca egocêntrica. Portanto, apesar de constrangida, eu continuei:

— Seu perfume, eu me lembrei do cheiro. É Versace.

— Oh! Sim, é isso mesmo. — Sua expressão confusa deu lugar à um sorriso animado. — É o Blue Jeans, comprei nas minhas férias em Milão. Você é boa mesmo.

Naquele momento eu me derreti por completo. Ele tinha bom gosto, era viajado, provavelmente gostava de se aventurar... e ele me elogiou. Me senti uma adolescente boba e emocionada.

Ficamos em silêncio por alguns minutos, enquanto tomávamos nossos cafés e o vendo beber e aproveitar cada gole, só conseguia pensar que ele era como um bom café: puro, forte e doce. Sei que café pode fazer mal, até mesmo matar se tomado em excesso, mas não ele. Eu poderia tomar deste café brasileiro para sempre. Esvaziei minha caneca e pedi licença ao rapaz, já me levantando:

— Eu volto logo, preciso ir ao toalete.

— Estarei esperando. — Ele sorriu e virou a última gota de sua xícara de café.

Levantei da mesa e caminhei em direção ao banheiro, que ficava no fim do corredor, por onde era possível passar logo no início dele e dar de cara com a janela da cozinha. Na minha passagem, consegui ouvir Pierre chorando e meus amigos o consolando. Eu já tinha uma ideia do que poderia ser a razão daquela cena, porém eu parei, meio escondida ao lado da janela, para tentar escutar o que estava havendo.

— Amigão, entendemos o seu lado, mas você está se precipitando, ela foi gentil, o cara estava congelando e ela ofereceu ajuda, você sabe que ela é assim, Pierre, sempre foi. — Disse Dominique.

— Eu a amo desde a primeira vez que eu a vi, não consigo superar ela. E ela sabe! — Retrucou Pierre.

Amélie, que não estava presente até aquele momento, pois estava cobrindo o cargo de Pierre no salão, adentrou a cozinha e segurou Pierre pelo ombro.

— Olhe para mim! — Mandou a gerente e ele obedeceu. — É claro que ela sabe. Você não faz questão de tentar esconder, você se declarou dezenas de vezes e ela te rejeitou dezenas de vezes. Mas ela não tem culpa, Pierre, não mandamos no coração, ela não pode se colocar na obrigação de amá-lo só porque você a ama! Ela é muito responsável com os seus sentimentos, ela nunca te iludiu, ela perguntou se você ainda seria melhor amigo dela, se ainda estaria lá por ela, mesmo com esse seu sentimento, ela te deu a chance de se afastar e se curar, você não quis. Se ela gostou do menino estrangeiro, não é culpa dela. Não a cobre dessa maneira.

O discurso de Amélie me deixou surpresa. Apesar de cada palavra ter sido verdadeira... Eu desisti de continuar ouvindo o que quer que seja que viria a seguir naquela conversa. Respirei fundo e dei meia volta para retornar à mesa. Queria apenas retocar meu batom, que se esvaiu na caneca de café, porém após aquele choque que levei ouvindo a conversa da cozinha, rejeitei a ideia de tal futilidade.

Chegando à mesa, me sentei em meu lugar, ele, que estava mexendo no celular anteriormente, o desligou e guardou no bolso, voltando sua atenção para mim. Qualquer homem francês teria me ignorado até eu começar a falar, muitas vezes eles nem se quer prestariam atenção no que eu iria dizer a partir daquele momento. Mas ele não, ele agiu como se quisesse estar ali, conversando com uma estranha que lhe ofereceu uma manta e um banco no sol em uma cafeteria. Posso me acostumar com esses costumes brasileiros.

— Todos os caras do Brasil são assim ou isso é uma coisa sua? — Perguntei enquanto o olhava discretamente de cima a baixo.

— Assim? Perguntou com tom de confusão na voz.

— Educado. Você guardou o celular quando me viu, fez questão de estar presente na conversa, mesmo eu não tendo dito nada ainda. — Respondi ainda surpresa com sua atitude.

— Entendi. — Ele riu. — Somos um povo caloroso, não apenas os homens, mas todo mundo. Gostamos de fazer as pessoas se sentirem bem acolhidas.

— Isso é adorável!

O meu telefone nos interrompeu, pedi licença por um segundo e me retirei da mesa para atendê-lo. Era minha colega de classe da faculdade. Ela gritava comigo, dizia que eu estava atrasada e a aula já iria começar. Me espantei e olhei no relógio da parede da cafeteria e ela estava certa, faltavam cinco minutos para o início da aula e naquele dia teríamos apresentação de um projeto. Eu precisava ser rápida. Agradeci à minha colega e desliguei o telefone, voltei para a mesa e comecei a guardar tudo que tirei da bolsa mais cedo, peguei a carteira e deixei o dinheiro do café e dos macarons junto com a gorjeta em cima da mesa.

— Eu sinto muito, Matheus, preciso correr, estou atrasada para a aula. Muito obrigada pela conversa, eu adorei ter te conhecido. — Me curvei à sua altura, que ainda estava sentado e o abracei brevemente, mal dando tempo para que ele retribuísse e saí.

Quando coloquei os pés fora do ambiente, o vento frio me pegou de jeito. Meu palpite que esquentaria ao longo do dia estava errado, pois estava cada vez mais frio. Minha pressa se tornou lentidão, meu corpo todo se arrepiou, mesmo estando bem agasalhada, meus dentes de baixo batiam nos de cima conforme meu queixo tremia, meu nariz ficou vermelho e gelado. Era o dia mais frio do ano até aquele momento. Foi no instante que desacelerei, que percebi: não perguntei nenhuma forma de entrar em contato com Matheus, ele se perderia para sempre na imensidão de Paris. Me perguntava se algum dia iria ouvir seu belo sotaque latino mais uma vez.

Já estava virando a esquina da cafeteria quando ouvi meu nome. Era inconfundível, eu soube quem era imediatamente. Matheus. Me virei rapidamente e lá estava ele, correndo em minha direção com as mãos ocupadas; em uma delas a minha caixa de macarons, que na correria ficou esquecida na mesa e na outra, uma caixa embrulhada para presente. Ele me entregou ambas.

— Oh, Math, oi! O que é isso? — Perguntei, dando evidência à caixa misteriosa que eu segurava na minha mão esquerda.

— São chocolates, Catherine. Para você. — Ele deu um sorriso meigo.

— Você não precisava fazer isso, muito obrigada!

— Eu insisto, você foi tão boa comigo, você merece.

Ele tirou a manta que eu lhe dei de suas costas e foi para atrás de mim, colocando-a nas minhas costas, ajeitando ela sobre meus ombros e braços, para me esquentar melhor.

— Math, eu posso pegar seu número? — Perguntei, antes que eu me esquecesse novamente.

— Claro! Mas eu quero ter certeza de que te verei de novo. Amanhã às 7 da manhã eu irei vir na cafeteria. Se você aparecer, lhe darei meu número.

— Eu virei. Estou ansiosa.

— Então é aqui que me despeço. Até logo Catherine. — Ele disse de forma calma.

— Até amanhã. — Respondi no mesmo tom.

Ele me abraçou e encostou sua bochecha na minha, fazendo um barulho de beijo no ar, em seguida fez o mesmo com a outra bochecha. Foi intrigant

Ao se afastar de mim, ele notou minha expressão confusa, então disse:

— Costume brasileiro.

Eu aproveitei o momento e sorri, fiquei na ponta dos pés para alcançá-lo e depositei um selinho em seus lábios. Me afastei e, novamente sorrindo de orelha a orelha, lhe disse:

— Costume francês.

Segui meu caminho sozinha, quando tomei uma certa distância, olhei para trás e o vi lá parado no mesmo lugar, ele sorria e encostava os dedos nos lábios, parecia contente. Ele olhou para baixo, colocou as mãos em seus bolsos e deu meia volta. Ele também seguiu seu próprio caminho.

Eu senti como se ele fosse uma xícara de café. Com todas as características de uma boa bebida quente, que nos acolhe num dia congelante. Seu nome no cardápio seria "Love Macchiato", como um café expresso cujo toque especial é amor. Eu sempre soube que encontraria um sentimento assim lá na Les Deux Magots , afinal, a paz está dentro de uma xícara de café. E o amor pode estar na cafeteria.

6 Mai 2022 23:35:28 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
1
La fin

A propos de l’auteur

Commentez quelque chose

Publier!
Il n’y a aucun commentaire pour le moment. Soyez le premier à donner votre avis!
~