mailsonramos Mailson Ramos

Judite é uma velha quiromante que vive em Riacho Seco, uma cidade do sertão nordestino. Ao ler a mão de Marina Nunes, uma das moças mais ricas da cidade — e que está prestes a se casar — ela descobre um fato surpreendente que surge como ameaça ao enlace. Ao revelar o acontecido a Marina, Judite entra na mira do pai da noiva, um homem poderoso, capaz de qualquer coisa para ver a filha casada.


Histoire courte Tout public.

#nordeste #sertão #política #poder #destino #quiromancia #casamento
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Estenda a mão!

Um redemoinho levantou a poeira que havia juntado em todos aqueles dias de verão e veio bater nas portas escangalhadas das casas mais mais velhas da Rua do Bonifácio. Depositou em cada uma delas uma porção de terra que se escondeu entre os colchões de capim, nas panelas amassadas cheias de carvão, nas monumentais rachaduras das paredes e no piso de chão batido — como se este já não estivesse repleto de grãos de areia.

O vento seguiu em direção ao centro da cidade, com menos força, levantando as saias das senhoras que vinham do açude com latas d'água na cabeça. Judite saiu esbravejando, lançando impropérios contra a ventania e, ao ver as senhoras lutando para segurar as saias em seu devido lugar, controlando simultaneamente as latas nas cabeças, deu-se a rir:

— Anastácia, segura a saia! Cuidado para não mostrar o velho barbudo!

Depois voltou para dentro de casa, com uma vassoura nas mãos. Usava um lenço branco na cabeça, um galho de arruda sobre a orelha direita e um vestido de renda que recebera de presente de um antigo patrão. Contava sessenta e dois anos. Mas aparentava menos, por ter a pele de ébano estirada como couro de tamborim, além dos olhos vivos e sagazes, negros no tom da jabuticaba.

Judite morava com uma filha que estava prestes a se casar e, por consequência, mudar-se para viver com o marido. Inês adulava a mãe todos os dias para que fosse embora junto com ela daquele lugar. Dizia que a rua era tão sem valor que não tinha nem sobrenome. "Bonifácio de quê?", indagava.

— Com o seu pai vivi aqui e aqui também quero morrer — dizia resoluta.

— A senhora é idosa. Vai viver sozinha nesta casa? E quando precisar de alguém? E se adoecer? Venha morar conosco!

— Não vou. Aqui é o meu lugar. E depois, uma mulher vai aparecer precisando da minha ajuda. Já vi o seu rosto num sonho.

A velha falou e ajeitou o galho de arruda que tinha atrás da orelha. Vendo a mãe irredutível, Inês decidiu desistir. Mas antes, interessada no sonho da mãe, perguntou quem era essa mulher que deveria aparecer em busca do seu auxílio. A velha tergiversou: "Com sonhos não se brinca. Vem de qualquer lugar, a qualquer hora. Mas vem porque precisa de ajuda".

Depois pegou a vassoura e começou a passar nos cantos das paredes onde a areia se acumulava. O gato riscou na janela com uma lagartixa na boca. Os olhos vivos, o nariz rosado e um miado submisso como quem pedia licença para entrar em casa com o réptil na boca. A velha levantou a vassoura e gritou:

— Bilu! Aqui não!

O gato foi embora e depois Inês. Judite terminou de varrer a casa e esquentou a comida naquelas panelas encarvoadas, mexendo o feijão escuro com uma colher de pau quebrada. Fritou uma carne seca na banha de porco, ajuntou algumas lascas de pimentão, tomate e cebola no meio da gordura fervente. O cheiro dos temperos subiu pelas paredes da cozinha velha. Colocou na mesa um vaso de farinha, duas pimentas verdes amassadas em um molho lambão e devorou com devoção aquela comida que julgava ser a mais deliciosa do mundo.

Depois do almoço, como não era adepta da sesta, dedicava-se a costurar sentada em frente à casa. Como aquelas tardes vagarosas demoravam a passar, Anastácia, sua amiga e vizinha de longa data, dividia o tempo conversando, contando histórias e emendando aqueles grandes lençóis de retalho que não acabavam nunca.

— A filha do prefeito Nunes vai se casar!

— Veja só como o tempo passa. Vi aquela menina nascer. Trabalhei na casa do prefeito... Foi ele que me deu este vestido de renda. Essa menina não é jovem demais para se casar?

— Coisa de gente rica. Requifife!

— Uma coisa é certa: aquele velho vai abrir a carteira. Pode gastar os tubos que não vai fazer falta. E além do mais, só tem uma filha. Quem é o noivo?

— Não sei. Deve ser gente da capital ou algum jovem promissor aqui de Riacho Seco. O certo é que vai ser um festão. Bem que eu queria ir...

— Tu queria ir, mas não vai. Veja só! A gente não tem nem roupa para usar nessas cerimônias, Anastácia! E o presente? Tu vai dar o quê? Um conjunto de colher com cabo de plástico?

— Seria dado de coração!

— Esse povo se casa por convenção, por política.

— Vai ver a menina encontrou alguém que a ame de verdade!

— Pode ser. Ontem tive um sonho daqueles...

— Um presságio?

— Sim. Uma mulher virá pedir a minha ajuda...

— Já sei quem é...

— Quem é?

— Helena. Tu não soube? O marido fugiu com outra. Ela quer saber se ele um dia vai voltar!

— Será que essa mulher é Helena?

— Com certeza!

— Mas o caso dela já está resolvido, Anastácia!

— Como assim, mulher?

— Aquele excomungado nunca amou ela. Estava escrito na testa dele que a qualquer momento ia embora com outra. Para ver isso não precisa ser Madame Judite.

Riram por alguns minutos. Como o sol já se escondia no horizonte das serras, Anastácia arrumou o cesto com os lençóis que nunca terminava de coser e ganhou o caminho de terra até o seu casebre. Judite arrumou também os seus mafuás, colocou a trouxa na cama e foi para a cozinha colocar o canecão encarvoado no fogo. Fizesse chuva ou sol, aquele horário era reservado para o cafezinho. Tradicional. Torrado e moído ali mesmo no pilão. E adoçado com rapadura. Em raras ocasiões deixava pingar umas gotas de leite e devorava umas bolachas de canela, macias e saborosas, até encher a barriga.

O gato Bilu veio roçando-se nas pernas de Judite, miando baixo, como se anunciasse a chegada de alguém. Poucos minutos depois, um barulho de carro e uma buzina perturbaram o silêncio daquele fim de tarde. A velha levantou-se arrumando o lenço na cabeça e abriu a porta. Duas mulheres a espreitavam. A primeira se apresentou, com um rosto muito familiar: Marina; a segunda, que dizia ser amiga da outra, chamava-se Rita de Cássia. Pediram para entrar, sentaram-se. Marina foi direto ao assunto:

— A senhora pode não se lembrar mais do meu rosto. Mas eu não me esqueço desse seu olhar. D. Judite. Eu sou a filha do prefeito Nunes. E preciso da sua ajuda!

— Mas como você cresceu minha filha! Está uma mulher feita. Como posso lhe ajudar?

— Quero que leia a minha mão. Estou apaixonada por um homem e vou me casar com ele. Mas queria ter a certeza de que vou ser feliz. Que será um bom casamento.

— Você o ama. E tem certeza de que ele também a ama. Então, não preciso ler a sua mão. Vai dar tudo certo e será um casamento feliz. Mas isso depende muito da personalidade de vocês, do quanto podem superar as dificuldades. O destino depende de nós, minha filha!

— O problema Madame Judite — interveio Rita — é que ela é a única pessoa a duvidar do amor de Estácio. Ele não é um homem romântico, mas já deu provas o suficiente do seu amor. Marina está louca! Ela não deveria nem duvidar desse amor.

— Eu preciso saber, Rita! É o meu futuro.

— Bom... Se você quer mesmo saber eu vou ler a sua mão. Mas entenda que o que está escrito ninguém pode mudar! Estenda a mão, por favor!


1 Mai 2021 19:22:26 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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