wesleydeniel Wesley Deniel

Lenda para muitos, realidade para outros, o Homem do Saco sempre fará parte de nossas memórias; algumas vezes, das piores delas. Lavínia cresceu solitária, confusa e sob a sombra da história contada por seu avô, um de seus únicos amigos, um homem que perdera a fé e tornara-se obcecado pelos mistérios que espreitam através dos olhos de um ser maligno e atemporal. Incapaz de fugir de seus fantasmas, tentara protegê-la, alertando-a contra o caminho que leva ao monstro; contudo, talvez tenha conseguido exatamente o contrário. Agora Lavínia deve sobreviver ao que mais teme enquanto tenta descobrir um meio de detê-lo, ou então ser levada por ele para seu mundo de escuridão, tornando-se outra de suas almas atormentadas.


Thriller/Mystère Interdit aux moins de 18 ans.

#religião #família #aventura #ação #lenda #crime #assassinatos #mistério #incertezas #solidão #bullying #medo #drama #lgbt #terror #horror #suspense #adolescente
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"O mal é a ausência do homem no homem"
- Eugénio de Andrade


Lavínia contemplava com distante fascinação as distorções do mármore no fundo da pia, as bolhas de ar subindo ao redor de seu rosto e os sons do mundo chegando aos seus ouvidos como se de muito longe.

Não era um ritual matinal muito comum, mas, de vez em quando, gostava de se isolar de tudo por alguns segundos daquela maneira. Se as outras meninas de sua sala pudessem vê-la agora, achava que seria considerada ainda mais esquisita. Soltou diversas novas borbulhas ao sorrir. Tentava não ligar para o que pensavam.

Batidas à porta do quarto, vindas de mil quilômetros de distância, fizeram-na erguer a cabeça. Adeus sossego.

Lav, a mãe pediu para vir ver se não se afogou!

Olavo. Qual a razão do moleque já começar o dia sendo um imbecil? Era só dois anos mais velho que a irmã, e sentia-se no direito de tratá-la como... bem, como devia constar no Grande Manual do Irmão Mais Velho. Ela pensou algo horrível, por meio segundo apenas, mas foi o suficiente para fazê-la sentir-se mal: Por que a mamãe não caiu de barriga, com as mãos no bolso, enquanto esperava esse pestinha?

É claro que não queria que isso tivesse acontecido, gostava de Olavo, ele até havia deixado que a irmã fizesse parte de sua turma de amigos (Não antes que outras duas garotas tivessem passado a fazer também, era bom que se lembrasse, contudo deixara.), mas às vezes... Ah, se eu pudesse enforcá-lo!

— Eu já vou descer, Bostavo!

Vou contar para a mãe e o pai que fica me chamando desse jeito! — ameaçou o irmão lá de fora.

— E então eu mostro pra eles o histórico de seu computador! — devolveu ela, gritando. O idiotinha poderia até correr para o quarto e apagar tudo, mas não tinha problema: Lavínia já o fotografara em duas ou três ocasiões antes. Nada como ter um coringa guardado para essas ocasiões. — Escutou, Zé Punheta?

Olavo certamente escutara, pois ela o ouviu sair correndo de sua porta. Podia vê-lo: vermelho de vergonha e raiva, aquela franjinha loira emoldurando um tomate.

Aquilo a fez sentir-se bastante infantil (e um pouco perversa também), mas era o que ele merecia às vezes. Claro que não fora a mãe quem o mandara ali, apesar de ter ficado sabendo do estranho modo ao qual a garota recorria para fugir da realidade quando estava triste ou preocupada. Olavo a havia visto em seu refúgio de silêncio e borbulhas numa manhã em que se esquecera de trancar a porta e voado até a mamãe para fofocar. Lavínia não achava que a mãe se importaria muito ultimamente mesmo se ela se afogasse na piscina, diante todo mundo, que dirá na pia.

O irmão viera por conta própria, porque estava nele perturbar qualquer um que fosse mais novo ou fraco.

A água na pia estava plácida, a não ser por uma ou outra ondulação causada por pingos que caíam de seu rostinho que já fora fino, mas agora ia ficando redondo. PLIC. PLIC. Retirou o tampo e ficou vendo o redemoinho e imaginando como seria se sua vida apenas escoasse ralo abaixo como aquela água. Era um pensamento sombrio para uma menina de treze anos, mas ela estava cheia deles.

Enxotou mentalmente aquelas ideias, abriu a torneira e terminou de lavar o rosto e escovar os dentes. Apanhou a toalha felpuda com Jason Voorhees (ainda que desenhado de forma fofinha) estampado nela e secou-se.

Quando se sentou na cama para trocar de roupas, soube que a primeira das intermináveis rusgas de seu pai com Nicole – naquele dia – havia tido início. Não os escutava bem, estavam no andar de baixo e a cozinha ainda ficava voltada para os fundos da casa, mas há coisas que não temos de ver para saber. Os dois vinham se desentendendo com cada vez mais frequência.

Santino de Macedo Junior não era a pessoa mais fácil do mundo, e Nicole tinha puxado parte de seu gênio ruim. Ainda bem que a coisa ficava somente no que dizia respeito à teimosia; no mais, Nick era legal. Principalmente com a irmã mais nova.

BRRR... BRRR... O smartphone ao seu lado vibrou e passou a reproduzir parte de uma melodia que compunha a trilha sonora de The Last of UsParte 2, o game que ela mais vinha jogando durante o ano. Ela apreciou a melancolia do banjo de Gustavo Santaolalla por um momento antes de atender à chamada.

— Estava ouvindo a música? — disse a voz de menino do outro lado quando ela aceitou a ligação.

— Estava sim. — Lavínia tinha pesquisado tudo sobre o compositor da maior parte das músicas do jogo. Apaixonara-se por seu trabalho. Não era de se esperar que uma garota de sua idade jogasse e, acima de tudo, diferente de muito machão com barba na cara, entendesse um game tão complexo – ainda mais por ser para maiores de dezoito anos –, mas sua irmã o havia comprado e lhe dado como presente de aniversário. Lavínia simplesmente o amara, assim como o primeiro, que jogara alguns meses antes.

— Muito da hora!

— É sim. O que manda, Enzo?

— Queria saber se dormiu — disse o garoto, tímido. — Tinha dito que achava que não conseguiria.

— Acabei dormindo. Demorou um pouquinho, apesar de eu estar pingando de sono. Lembrar aquelas histórias me deixou um pouco zoada.

— Falei pra gente continuar jogando.

— Ah, baixou a louca no Olavo porque começou a perder. Preferi parar que ter de ver outra birra dele.

— Sempre ele, né Lav?

— Mas e você, dormiu? — perguntou Lavínia vestindo uma camiseta com um furioso guerreiro segurando duas lâminas curvas e flamejantes presas à correntes em seus braços. Kratos era seu segundo melhor personagem de games atualmente.

— Mais ou menos. Eu não curto muito esses lances de terror.

— Você é um cagão.

— Queria ver se tivesse que andar sozinha dois quarteirões uma hora daquelas, Dona Fodona. Aposto meu almoço que iria se borrar também! Se tivesse que passar na frente daquela casa...

Lavínia riu, divertida. Não era só Olavo que era um bundão.

— Eu jogo Outlast, mano. Pouca coisa depois disso me assusta.

— Tá — disse Enzo, cortando o assunto. — Você é a Grande Lav, já entendi. Mas ficou toda “Ah, vocês não gostariam de dormir aqui esta noite?” com a gente. Não aguentou uma historinha pra bebês.

Não era só isso. Não para ela. Não do modo que fora contado para ela.

— Acho que não deveria zombar disso — disse Lavínia, agora séria. — Ainda mais com tudo o que vem acontecendo.

Do outro lado, o garoto pareceu pensar.

— É. Eu tô ligado.

Lá embaixo, alguém ergueu o volume da televisão da cozinha.

— Bom, e hoje à tarde? — perguntou a menina. — Ainda vamos, né?

— Pode ser — respondeu Enzo sem muita animação. — Não sei o que você vê naquele lugar. Já existe algo chamado 'Kindle', sabia?

— Eu sei. Mas nunca irei abandonar os livros de papel.

— Você é mesmo esquisita. Mas eu te aceito mesmo assim.

— Vá tomar no cu, Enzo.

— Damas na frente.

— Beleza, a gente resolve sobre a biblioteca no caminho pro colégio. Vou descer pra tomar café. Fui.

— Falou! — disse o garoto. — Em vinte minutos estou aí.


...


Ao passar pelo quarto de Olavo, ajeitando os cachos do cabelo, só os desamassando com as mãos mesmo, pensou em atormentá-lo com alguma zoeira, mas não queria que a discussão deles se assomasse a que já acontecia à mesa do café.

— ...nada agradável ouvir coisas assim logo de manhã — dizia Santino.

Pensei que ficasse surdo enquanto lia seu jornal — respondia Nicole.

Da mãe, Lavínia não ouvia uma palavra.

Nas escadas, ela já conseguia entender a razão da briguinha daquela manhã. Na TV, uma voz de mulher falava sobre um homem que havia sido cercado na frente de sua casa em alguma cidade no interior do Paraná (Lavínia não conseguiu entender o nome do lugar, pois enquanto a jornalista o falava, Nicole ria com escárnio de algo que o pai dissera) pelos vizinhos após descobrirem ser ele o culpado pelo estupro e morte de uma garotinha de seis anos.

— Vai, dá aqui esse controle, Nicole. Não estou de brincadeira!

— Não pode ditar o que ouvimos ou não!

— Eu comprei essa droga de televisão — disse Santino. Mas é claro! Se o pai não atirasse tudo o que fazia por eles em suas caras ao menos uma vez por dia, não ficaria satisfeito. — Então, até você poder comprar uma sua, eu decido o que...

Nicole riu com vontade. Susana suspirou. O máximo que sua mãe fazia quando os dois batiam boca era suspirar ou sair de perto.

— Você quis dizer aqueles trouxas que te enchem de dinheiro, né? Foram eles quem te compraram a televisão.

— Vai me respeitar, menina!

O noticiário seguia informando que, furiosos, os populares haviam linchado o homem de nome Lourival Estênio dos Reis com pauladas e pedradas, desmembrado e ateado fogo ao corpo. Fora necessária a intervenção da polícia para que parassem de comemorar em volta da carcaça fumegante.

— Bom dia — disse Lavínia, baixinho.

— Pronto, Nicole. Me fez perder a fome — disse Santino, ignorando totalmente a outra filha. — Agora deve estar satisfeita!

A mãe também parecia nem tê-la notado na cozinha, apesar de Lavínia quase ter esbarrado nela ao puxar uma cadeira para sentar-se.

— Bom dia, Lav — respondeu Nicole, com um pequeno sorriso. Voltou-se para o pai e disse: — Que fome? Você só toma café e lê essa droga de Caderno Financeiro. Sabia que já existem aplicativos pra isso, pai?

— Se não lesse esta “droga”, você não teria tudo o que deseja, dondoca.

— É — disse Nicole, apanhando mais uma ameixa na travessa de frutas. — Só do que precisamos é dinheiro, né? Será que consigo encomendar um pai de verdade pelo E-Bay? Ou uma mãe normal...

Susana até esboçou um semblante próximo de alguém que ainda ligava para o que lhe dissessem, mas logo seu rosto flácido tornou-se inexpressivo outra vez.

— Gente, vamos comer de boa. A professora Rúbia disse que a primeira refeição do dia é a mais importante. — Lavínia olhava para o pai e a irmã, esperando que um deles comentasse algo. Quando viu que não se importaram, apenas pegou um pão de batata na cestinha de vime, o recheou com requeijão e passou a comer em silêncio.

...senado voltou a discutir na manhã de ontem a pauta que prevê a anulação do projeto votado em 2019 que prorroga até 2032 os incentivos fiscais às igrejas. Houve tumulto durante a sessão envolvendo deputados da bancada evangélica e...

Nicole quase cuspiu a semente da ameixa na cara da irmã, engasgando-se com a gargalhada que deixara escapar.

— Parece que estão tentando puxar seu tapete!

— Deixa de ser estúpida, menina — disse Santino com a calma que costumava vir antes de alguma explosão. — Se eu me ferro, vocês se ferram.

— Olha minha cara de quem se importa.

Gislene, que se adiantava com os preparativos do almoço, fazendo-se de cega, surda e muda diante da discussão, perguntou a Lavínia se ela gostaria de algum prato em especial. Faria costeletas de carneiro para o senhor Macedo, que grunhiu qualquer coisa como “E vê se acerta o ponto desta vez.”, deixaria pronta para o jantar lasanha à bolonhesa para o Olavinho, uma vez que este apenas gritara lá de cima que almoçaria no colégio e penne ao molho pesto para a Dona Susana e Nicole.

— Não se preocupe comigo, Gi — respondeu à cozinheira. — Eu nem sei se vou almoçar em casa. Talvez acabe indo para algum lugar depois do colégio.

E com aquilo, Lavínia queria dizer que ela se isolaria de novo numa sombra de árvore na represa municipal, caso o irmão ou nenhum dos Enzos quisessem lhe fazer companhia até a biblioteca como haviam pensado para aquela tarde. Estava certa de que não iriam; Enzo de Medeiros no fim iria preferir que ficassem diante do videogame jogando PUBG do que suar feito um leitão no velho prédio que nem ar-condicionado tinha direito.

Se Olavo não quisesse ir, Enzo Henrique tampouco iria contrariá-lo. Os amigos eram dele, Lav que nunca se esquecesse disso!

Valentina poderia ir comigo, pensou, ou a Kelly, se não estiver ocupada demais babando ovo para Lurdinha ou alguma outra das garotas metidas a besta do colégio. Mas acho mesmo é que irei visitar minhas amigas capivaras.

Um comercial quase histérico de algum fast food (às sete da manhã!) terminou e o noticiário estava de volta.

E agora as notícias de nossa cidade — disse a jornalista. — Uma reunião de membros do comércio acontecerá em duas horas para discutirem a respeito do novo lockdown devido ao aumento nos casos da pandemia de Covid-19. O vice-prefeito, Hugo Nakamura, indo diretamente contra as reivindicações de empresários dos mais variados setores e até mesmo o prefeito, Elber Amaral, insiste no fechamento e que a fiscalização seja mais rigorosa, inclusive para cultos religiosos.

— Quem esse filho da puta do Nakamura pensa que é? — resmungou Santino e desprendeu um breve olhar de desprezo a Lavínia. — O papai de sua amiguinha está caçando sarna para se coçar.

Lavínia baixou a cabeça.

— Não esquenta com ele, Lav — disse Nicole. — Só está nervosinho porque vão mexer em seu cofrinho.

— Está assistindo essa merda para me irritar, não é, Nicole?

— Eu não inventei a máquina do tempo ainda, pai. — A jovem pairou com a mão por cima da travessa de prata, quase pegou um kiwi, mas pareceu decidir-se por uma banana. Descascou-a devagar, encarando-o.

Santino voltou o olhar novamente para o jornal, mais que irritado – possuído (se é que Deus permitiria que um de Seus maiores arautos o pudesse ser). Chegaria o dia em acabariam se atracando. Nicole esforçava-se cada vez mais para isso. Queria, aparentemente, provar que seu pai não era tão abençoado quanto seus fiéis achavam. O Apóstolo Santino era feito de sorrisos para sua congregação, mas só quem conhecia sua verdadeira face eram eles ali, sua família troféu - menos Nicole, óbvio -, ofertada ao homem pelo próprio Senhor. Um grande Aleluia a isto!

— No mínimo viu antes na merda da internet que iriam esculachar com...

— Merda, merda, merda — disse a moça. — Abençoa seus cordeiros com essa boca? O que Jesus diria?

Ele fechou o jornal e o pousou ao lado da travessa de frutas. Lavínia imaginou se afinal o dia em que o pai viraria aquela mesa havia chegado. No entanto, o homem somente se levantou o foi para o andar de cima. Trombou com Gislene, que carregava um pacote de massa para lasanha e alguns vidros e resmungou qualquer coisa. Teria sido um “desculpe”? Lavínia achava que não. Não vindo dele.

— Dá pra acreditar? — disse Nicole, fingindo-se chocada. — O cara acha que tudo gira ao redor dele.

Na TV, a repórter desejava a todos um ótimo dia. Claro, pode crer!

Lavínia perscrutou a irmã.

— Vai dizer que não pôs no jornal da manhã de propósito?

— Claro que não, Lav! — Pareceu sincera de início, mas então deixou escapar uma risadinha. — Eu quero ver se vão falar da rave que Carla e eu fomos no final de semana. A guarda-civil interditou tudo, os organizadores foram em cana.

— Tem que irritar tanto ele, Nick? — perguntou Lavínia quando o pai sumiu de vista. Não entendia por que não poderiam viver como pessoas normais.

— Ora, se tenho!

Susana então se sentou à mesa. Havia ficado enrolando – ajudando a Gisele, se lhe perguntassem – até que o marido tivesse acabado seu café da manhã. Lavínia não havia notado ao entrar na cozinha, mas via agora uma mancha arroxeada num dos cantos da boca da mãe.

— Mãe, o que foi isso?

— Não é nada, Lav — disse a mulher, quase inaudível. — Bati ontem na porta do banheiro. Termine de comer. Seu Uber logo vai chegar.

Isso, Lav — explicou Nicole —, é a razão de eu viver brigando com aquele... troglodita que acabou de subir.

— Pare com isso, Nick — disse Susana.

— Eu quero que ele faça algo assim comigo também. Quando fizer, eu não vou apenas cobrir com maquiagem como mamãe sempre faz. Irei direto a Delegacia da...

— Chega dessa conversa, Nicole!

— Ah, mãe! Deixa de ser idiota.

Susana começou a chorar em silêncio. Tinha demorado, até. Não passava uma semana sem que a mãe não chorasse desde que Lavínia começara a se entender por gente. Nunca na frente do pai, quase nunca diante delas, mas a situação estava pior a cada dia. As marcas roxas e as discussões entre pai e filha nem sempre eram a causa; devia haver um monte de outros motivos, com certeza.

— Vamos, mãe, enxugue esses olhos — disse Nicole, pousando uma mão sobre a da mãe na mesa. — Não dê esse gostinho pra ele.

O segundo pãozinho que Lavínia comia ficou meio enroscado em sua garganta. Viu que Gisele fazia força para não chorar também. Achou que talvez tivesse sorte por apenas ser ignorada. Podia ser bem pior.

Seu pai não era uma pessoa ruim, sempre fizera de tudo para eles. Não vinha sendo o marido mais carinhoso ou um amor de pai (aliás, era, sim, com Olavinho, seu grande orgulho, seu filho varão) como o de Enzo de Medeiros ou então o de sua amiga Valentina, que eram divertidos e companheiros, porém sua vida resumia-se em servir a Deus e à sua família.

Certa tarde, após uma das tempestades de fúria de Santino, quando todos na casa tiveram de aguentá-lo gritar e apontar sua autoridade, sobrando até mesmo para Gislene e para o pobre Estênio, o motorista, que acabara sendo demitido apenas por ter-se defendido de um atraso que nem havia sido por sua culpa, Nicole questionou a mãe pela enésima vez da razão pela qual suportava tudo aquilo.

— Porque seu pai tem o direito de estar nervoso.

— Mãe — havia rebatido Nicole —, ele está puto com você só por ter falado que não estava bem para a droga do jantar de hoje à noite com aquele bando de políticos com quem ele vive metido. Está nervoso com a coitada da Gi porque ela não deixou a bosta do filé dele no ponto exato...

— Se você entendesse a pressão que ele tem de aguentar, Nick...

— Que pressão?! Ele é a própria pressão! Não reparou em como todos ficam perto dele? Despediu o Estênio por causa de dez minutos. Será que ele queria que o homem entrasse na casa do tal Yago e tirasse o Olavinho de lá à força? O cara perdeu o emprego, o meu irmão está cagando pra isso, lá em cima naquele computador, com a mão cheia de gel. E é o único que não ouviu a porcariada que o velho vomitou!

— Não vai querer que ele ouça você falando de seu irmão — disse a mãe, olhos fixos na escadaria.

— Oh, seria uma grande ofensa!

— Seu pai tinha uma reunião importante com um sócio do shopping.

— Mãe, é quase certo que fosse sair para beber com aquele bajulador do Jairo. Ou dar alguma escapadinha por aí.

Susana quase a calou com um tapa; chegou a erguer a mão, mas a baixou e apenas repetiu a mesma pasmaceira de sempre sobre o marido ser o chefe da casa, um homem cheio de compromissos, responsabilidades e que mesmo assim zelava por todos ali mais que qualquer outro ser vivente na terra. Nicole tinha de ser mais grata pelo pai que recebera de Deus.

— Rá! — zombou Nicole, e já ia emendando o que de fato pensava de Santino de Macedo Junior quando sua mãe a calou com um ríspido “shhh!”. O marido vinha descendo as escadas, abraçado ao filho – que aparentemente já havia desculpado.

— Se não fosse por seu pai — sussurrou Susana — eu ainda estaria vendendo sapatos no Praça Shopping. E vocês não estariam aqui, vivendo com conforto.

— E que vergonha há em vender sapatos, mãe?! Deus, quantas Susanas já se conformavam com uma vida de merda mundo afora somente para poderem dizer que “tiveram uma vida bem sucedida”?

— Calada!

— Deixa ela, Susana — disse Santino, fechando o sorriso que trazia no rosto de hiena enquanto falava com Olavo. — Para essa aí, homem nenhum presta. Nem seu próprio irmão. Nem o pai.

— O que quis dizer com isso, Sr. Macedo? Que eu sou sapatão?

— Não faço ideia do que seja, menina — respondeu Santino com desprezo. — Só que não é de Deus como o resto de nossa família.

Certo. Quantas vezes aquela cena já havia acontecido através dos milênios? Na idade Média, com certeza era corriqueira; as mulheres tinham de ser mulheres, o que significava parir (de preferência, varões, que sucederiam o pai por direito indiscutível), varrer a cabana, cozinhar, foder com seus senhores e tornar a parir outra vez.

Poucos séculos depois, seriam queimadas vivas caso ousassem a se comparar com os homens. Qualquer coisa que saísse por suas bocas que não fosse o esperado pela sociedade puritana (patriarcal e sacana, como discordaria Nicole), seria por obra de Satanás. Preparem a lenha e as tochas!

Há até mais ou menos cem anos, ainda remendavam ceroulas e fiavam em suas rodas de tear, de cabeças baixas, só as erguendo para responder com toda a educação esperada de uma dama ao tal 'Chefe da Casa', quando ocasionalmente este lembrasse de lhes dirigir a palavra. Caso contrário: boca fechada.

Mas não estavam mais nos tempos de Cristo, na Idade das Trevas, durante a maldita Inquisição ou no século XIX. Ali era 2020 e as mulheres, em teoria, haviam conquistado de volta seu lugar, ou Santino, que estudara por anos teologia, não sabia que, antes de a igreja macular permanentemente a imagem da mulher, eram elas as consideradas “sagradas”?, certo?

Bom, ao menos naquela casa, não.

Na venerável residência do Apóstolo Santino de Macedo Junior, o que valia era a sua palavra, e esta era: coloquem-se nos seus lugares, Marias Madalenas sem eira nem beira!

E para Susana, subjugada como tantas antes dela, estava tudo bem. Era como nos tempos do Senhor, e quem teria a audácia de contradizê-Lo?

Nicole, pensou Lavínia, de volta à mesa de café da manhã.

Claro que ela não havia formulado muito daquilo. Fora as coisas que Nicole lhe explicava, tentando salvá-la de se tornar outra Susana, sua cabeça de treze anos só começava a despertar para o mundo. Tinha apenas consciência de que as coisas em sua casa não iam bem, que seu pai vinha se tornando cada vez mais frio, mas também ainda era quem cuidava de todos. Sua mãe devia estar certa. Ele se doava – de todo coração – à família; era direito seu impor-lhes sua vontade.

E nem lhes impunha tanto assim. Na maior parte do tempo, o pai tinha muito mais o que fazer que pegar em seus pés. Ela mesma pouquíssimas vezes o tivera em seu encalço. Ia aos cultos quando ele dizia que a presença da família era necessária, tinha amizade com quem quisesse, jogava o que desse na telha (Santino jamais olhou por um minuto para seu videogame ou celular) e às vezes – bem às vezes – conversava com ela como a criança que julgava que era. Apesar de ser a caçula, parecia soar-lhe tão sem graça quanto um copo de água fervida.

— Nick — disse à irmã, levantando-se, deixando metade do pãozinho no prato e indo apanhar a mochila no aparador junto à escada onde a tinha deixado. — Pare de perturbar a mamãe.

Nicole a fitou com uma expressão magoada.

— Lav, você precisa entender...

— Eu entendo que vocês são um saco!

Rumava para a porta quando Edgar, o novo motorista e segurança de seu pai a abriu. Quase trombaram.

— Lavínia — disse, sério e forçado como de costume —, um dos seus amigos está lá no portão. O Enzo.

— Enzo G ou Enzo P? — perguntou ela sorrindo. — Edgar ainda era novo no emprego, não conhecia a brincadeira com os Enzos.

— Não entendi.

— Um menino gordinho ou um magrinho?

— Hã... Gordo — disse o homem, meio sem jeito.

— Enzo G — explicou ela. — Tamanho “G”. Eu sei que é sacanagem, mas não fui eu quem deu o apelido.

28 Août 2021 19:49:34 9 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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 Silva Silva
Olá Wesley! Tive finalmente a oportunidade de conhecer uma de suas histórias e decidi começar por essa pelo título que me chamou bastante atenção. E confesso que tenho um fraco por lendas urbanas, adoro essas histórias e devo elogiar o que li. Primeiro somos apresentados à Lavínia, sua personalidade, a relação com os irmãos (ri muito com a interação dela com o Olavo) e o drama familiar com relação à mãe e principalmente o pai acrescenta bastante peso na narrativa. Também curti muito a Nicole e sua personalidade forte. Gosto como o caso no noticiário dá lampejos de que algo sombrio está acontecendo. *Adorei as referências aos games e me fez simpatizar ainda mais com a Lav, afinal também amo a trilha do The Last of Us. <3 Ansioso pelo que virá a seguir. Excelente primeiro capítulo!

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Obrigado, meu irmão ! É uma honra tê-lo como leitor de minhas humildes abominações. De verdade. Também acompanho de perto seu trabalho, tanto aqui quanto lá no Conto um Conto do querido Professor Marcelo e posso dizer que é uma satisfação ! Espero que goste, que se divirta tanto quanto eu quando estou escrevendo. É uma paixão difícil, são meses em cada história, muita pesquisa, muita leitura, escrita e reescrita para entregar sempre um conteúdo que eu gostaria de encontrar. Nunca lerá algo meu muito profundo como certas lendas de outrora, pois meu estilo é totalmente voltado para a diversão, o comercial de Stephen King, de Clive Barker, de Neil Gaiman, Irvine Welsh e também para o fantástico e o horror de Lovecraft, Poe, Robert Bloch, Algernon Blackwood... Mas levado para o estilo contemporâneo. Então pode esperar algo mais cinematográfico e com humor. Mais uma vez, muito obrigado pela gentileza ! Grande abraço ! 3 days ago
LIPSTTER LIPSTTER
Olá, querido autor! Faço parte da Embaixada brasileira do Inkspired e estou aqui para lhe parabenizar pela verificação da sua história. Gostaria de dizer que quando meu olho bateu naquela capa, eu sabia que iria adorar sua história. Quando meus olhos desceram e passearam pela sinopse, eu pensei "esse cara escreve muito bem!". Então eu li e tudo se confirmou. Parabéns mesmo! É o meu tipo favorito de escrita, muito bem escrito. Você abriu a história com uma epígrafe tão sutil e ao mesmo tempo tão impactante, pois me deixou refletindo, como se eu me dissolvesse pelo ar e me tornasse em milhões de grãos de poeira, uma conexão profunda com o universo. Além disso, uma das coisas que me captou no seu capitulo, de uma forma quase que sobrenatural, foi a contemplação das distorções fascinantes de Lavínia, pois me identifico muito com o fato de me isolar do mundo e me perder entre os pensamentos e sensações; eu me vi nela e isso me deixou mergulhado num sentimento de nostalgia.
December 12, 2021, 01:26

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    *Quis dizer "deuses" no outro comentário quando falei sobre os Grandes Antigos de minha coletânea do Cthulhu Mythos. Meu teclado do cel. me detesta hahaha às vezes ele judia de mim. 😄 Abração ! December 12, 2021, 05:31
  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Olá, Lipstter ! Bem-vindo ao meu humilde mundo de pesadelos ! Nossa, se mais pessoas fizessem ideia de como é bom, como é gratificante e o quanto nos faz ter forças para seguir adiante com o sonho de um dia ser um escritor reconhecido, receber comentários, certamente todos gastariam um tempinho depois de ler para conversar um pouquinho com seu autor ou autora ! Ler o que me escreveu me fez ganhar o dia, o mês ! É o que nos motiva a todos, afinal, mais que leitores, queremos amigos e amigas que nos deem um norte, que nos diga se o que estamos fazendo é relevante, se lhes agrada e faz pensar. Então, meu muito obrigado. De verdade. Fico muito feliz em ter causado em você tantas sensações. Este foi meu primeiro conto passado em minha região (São José do Rio Preto - SP e Fronteira - MG, onde moro atualmente), pois minhas demais histórias se passam por diversas partes do mundo, e não por não considerar importante falar do Brasil, mas simplesmente porque suas tramas o pedem. Eu tenho uma coletânea de contos em andamento chamada "Poderes Antigos" em que cada um se passa num lugar como a Síria, a Rússia, Providence em Rhode Island, Peaks Island no Maine, Antártida (este é uma espécie de continuação de "Nas montanhas da loucura"); tenho tramas em Londres, Nova Orleans, Cairo, no Pacífico Sul... Cada uma das histórias aborda encontros contemporâneos com os "Antigos", os deus do universo Mythos de Cthulhu de Howard Phillips Lovecraft, mas tudo contado no meu estilo de escrita, mais despojado, mais Stephen King, Clive Barker, Neil Gaiman. Esta história em especial (O Homem do Saco), era para ser um conto, mas como de costume, sempre terminam como novelas de 50, 80 ou mais de 100 páginas hahaha tanto que nem me considero mais contista ! E então aprofundamentos como descrições de personagens, a princípio, como seria um conto, eu meio que deixei no campo das sutilezas. Mas, sim, eu estou pensando agora em trabalhar mais nele (que agora é uma novela) e adicionar aqui e ali novas informações dos personagens. Claro, sempre de maneira orgânica. Quanto a Lavínia, ela é uma de minhas personagens favoritas até hoje. Ela é baseada (Não... escancarada !) em uma pessoa real de convívio nosso e que realmente passa por essa vivência meio pálida. Aliás, esta história tem muito de pessoas que conheço, o que talvez tenha servido para torná-la tão natural. Peço desculpas, mas posso perguntar se concluiu a história ? Gostaria de saber o que achou dela como um todo, se o satisfez, se o surpreendeu, se há o que eu possa repensar... Se pudermos conversar mais, ficaria muito feliz por ter o feedback de alguém que realmente gosta de tramas desse estilo. Tenho outra coletânea (Alguns dos contos dela estão aqui no Inkspired, e também narrados no ótimo canal "Conto um Conto, no Youtube) de contos de terror e horror fora dos Mhytos, chamada "Uma mente cheia de fantasmas", que espero muito publicá-la um dia. Inclusive estou trabalhando nesse exato momento em uma continuação de "Destino: Inferno", que tenho aqui na plataforma. E ficaria honrado se o tivesse em mais histórias minhas ! Se gostou desta, acho que ficará satisfeito com o que ainda tenho para revelar. Tenho histórias passadas na Floresta dos Suicidas "Aokigahara", no Japão, em Detroit, em Salém, na Coréia do Sul, em Chicago, na Índia... Terá horror para todos os gostos hahaha Por enquanto, tudo o que posso dizer é mil vezes obrigado por sua simpatia, pela atenção e por motivar a vida de um escritor ! Grande abraço, Lipstter ! Esteja em paz ! December 12, 2021, 05:24
  • LIPSTTER LIPSTTER
    Agora, gostaria de falar de sua gramática e ortografia, um dos pontos fortes da sua obra, cada letrinha preencheu meu ser, como se uma corrente de águas vivas saltassem de dentro de mim. Foi satisfatório, como você decidiu fazer as narrações e diálogos. Parabéns mesmo! Agora, gostaria só de fazer um apontamento. Em determinados momentos, sem tanta frequência, você escrevia alguns trechos entre parênteses, soando como uma observação paralela, em relação ao que era dito. Eu sugiro que, tranquilamente, pudesse escrever como uma parte efetiva do enredo, sem separá-los dos demais trechos. Sabe, não é errado, claro, até achei fofo, mas é só uma sugestão mesmo. Enfim, adorei sua estruturação narrativa, muito bom! Até mais, autor. Espero que você continue escrevendo e que tenha muitos leitores e muitos comentários, porque sua história merece muito sucesso! December 12, 2021, 01:30
  • LIPSTTER LIPSTTER
    Com relação aos cenários da história, eu consegui mergulhar no universo, através da sutileza dos pequenos detalhes citados e dos diálogos bem regionais, o que torna a história bastante específico. Isso fez eu desenhar com clareza cada movimento e atitude dos personagens. Confesso que, em relação as descrições dos personagens, queria um pouco mais de descrição, mas, no geral, isso não afetou em nada, porque, como eu disse, através dos pequenos detalhes, minha mente viajante me fez mergulhar facilmente, é como se eu estivesse lá, presente. December 12, 2021, 01:28
  • LIPSTTER LIPSTTER
    Eu realmente amei conhecer Lavínia; ela é uma personagem que, por mais que demonstrasse simplicidade, perante aos olhos alheios, o que é explícito através dos diálogos, ela era também muito afrontosa e, consequentemente, transparecia coragem. Além dela, tinha o Olavo, confesso que ele é um pestinha mesmo (risos); é aquele irmão que adora zoar, mas, que no fim, é só um sarcasmo, de leves, como uma forma de dizer "te amo". Quem nunca? heheh. Agora, quero falar dos pais, que dupla mais intensa, as discussões super polvorosas, reflete muito sobre a realidade de tantos, é triste. Gostei da forma como você abordou cada personalidade. December 12, 2021, 01:28
  • LIPSTTER LIPSTTER
    Ah, mas eu gostaria de fazer também uma observação sobre um momento que me deixou, inicialmente, paralisado; que é da cena que você narra assim "batidas à porta do quarto, vinda de mil quilômetros de distância, fizeram-na erguer a cabeça. Adeus sossego."; confesso que, nesse trecho, fiquei refletindo, eu não havia entendido muito bem o propósito, mas com o tempo surgiu a ideia, se haveria a possibilidade de ser algo abstrato ou só um fruto da imaginação de Lavínia. Aí fiquei me questionando se seria explicado depois... enfim, só sei que, no fim das contas, adorei a forma como você me fez refletir. December 12, 2021, 01:27
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