brunadonde Bruna Dondé

As surpresas da vida, nem sempre boas, mudam rotinas o tempo todo.


Drame Déconseillé aux moins de 13 ans. © Todos os direitos reservados

#drama #conto #flashfiction
Histoire courte
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Reminiscências

O perfume exalado por aquele eucalipto sendo cortado era suave, marcante e trazia paz. Transportava-lhe para as mais diversas e belas memórias da época em que morou no campo. Débora gostava de reviver esses momentos, assim mesmo, quando menos esperava. Ela foi até a janela e enquanto bebia o seu café, observava os lenhadores trabalhando. Sentia saudade dos dias mais tranquilos da infância e lembrava claramente de seu avô transformando árvores em móveis e lenha para o fogão. Lembrava também, de como, com a crueldade do tempo, a cegueira foi tomando conta dos olhos de seu querido avô. Mesmo assim ele conseguia dizer quais eram cada uma das árvores que cercavam a tão adorada casa do campo. Ele passava a mão suavemente pelos troncos, sentia cada rachadura ou elevação, alguns tinham espinhos, enquanto outros choravam. Acariciava as folhas que estivessem ao seu alcance, algumas eram mais aveludadas, enquanto outras pareciam plastificadas. Débora se deliciava com a sensação que sentia ao ver seu avô sorrindo e lhe ensinando a perceber os detalhes de todas essas árvores.

Dentre as recordações, estavam as balas de funcho. Não era seu doce preferido, mas tinha quase certeza de que era o da avó. Impossível esquecer dessas balas que sua avó comprava e dizia que eram ótimas para acompanhar o chimarrão no fim da tarde. Só de lembrar, conseguia sentir aquele gostinho, ao mesmo tempo, doce e forte em sua boca, era o gosto da infância, a época mais feliz e despreocupada de sua vida. Já seu avô, sempre preferiu colocar as balas de funcho na cachaça, pra dar um sabor diferenciado.

Após reviver em seus pensamentos os dias com os avós, Débora desceu até o porão para procurar antigos álbuns de fotografia, em breve haveria um novo morador na casa, ela tinha um milhão de histórias pra contar e imagens pra mostrar. Enquanto remexia em velhas caixas empoeiradas, ouviu um copo cair e se estilhaçar no chão da cozinha. Ficou em silêncio total, apenas tentando imaginar qual seria o próximo passo de quem quer que estivesse lá em cima. Sabia que não era Fernando, seu marido, pois ele estava viajando e só voltaria no dia seguinte. Resolveu subir as escadas de madeira, pé ante pé, para não assustar o invasor, caso houvesse um. Chegando ao topo da escada, deu de cara com um pequeno e assustado gato cinza. Percebeu que não haveria apenas um novo morador na casa, e sim, dois. Deixou de lado o que estava fazendo e foi comprar os produtos básicos para seu novo amigo.

No dia seguinte, Débora acordou cedo e correu para organizar tudo e receber Arthur, o sobrinho de Fernando. A criança, de 7 anos, havia perdido seus pais em um acidente de carro e precisava de um novo lar. Fernando prometeu ao irmão que cuidaria de Arthur, e Débora deu todo o apoio necessário. Ela tirou os biscoitos do forno e começou a preparar um café. Ouviu o barulho das chaves batendo contra a porta da sala, eles chegaram. Era a primeira vez de Arthur na casa dos tios. Ele ficou travado na porta, tímido, e em seus braços estava um pequeno urso de pelúcia. O gato cinza foi até ele e roçou-se em suas pernas, isso deixou a criança mais tranquila, e Fernando ficou surpreso por ter um gato em casa, Débora lhe explicaria depois. Primeiro, comeriam os biscoitos e tomariam o café.

Arthur olhava atentamente ao redor, queria gravar cada detalhe de seu novo lar. Fernando o levou até a porta do quarto onde ele ficaria. Arthur transbordou felicidade ao ver seu nome escrito na porta em letras grandes e coloridas, entrou e ficou impressionado com seu novo mundo. No armário, várias roupas novas. No cantinho, perto da janela, uma pequena biblioteca de livros infantis, todos pra ele. Havia também uma mesa, onde ele faria os trabalhos da escola. Por fim, uma cama que imitava um carro e era incrível. Na parede em frente a cama, uma linda fotografia de seus pais iluminava o quarto. Era essa a lembrança que ele guardaria pelo resto da vida, o sorriso deles.

26 Décembre 2020 15:20:26 2 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
3
La fin

A propos de l’auteur

Bruna Dondé Bebedora de café, escritora de histórias incompletas, fotógrafa, gateira, leitora (aceito livros de presente, sempre).

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Arnaldo Zampieri Arnaldo Zampieri
Gosto muito do modo que você apresenta os universos das suas histórias. Os detalhes me fazem desenvolver um apego emocional muito rapidamente e textos como esse só me fazem querer ler mais, saber mais sobre a vida deles. Linda capa também, só pra não passar em branco. =)
February 04, 2021, 16:29

  • Bruna Dondé Bruna Dondé
    Obrigada por estar aqui dando um retorno sobre minhas tentativas literárias! Na maioria dos textos, desses que puxam para o lado mais emocional e lembranças mais detalhadas, busco referências das minhas vivências. Minha avó amava bala de funcho, sempre me mandava no mercadinho perto de casa pra comprar. Acho que isso ajuda na construção das histórias. February 04, 2021, 17:18
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