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lolladebeaute Lolla de Beauté

"Andava calmamente pela rua escura. Já era tarde, mas meu celular estava sem bateria e eu não sabia dizer exatamente o horário. A brisa de verão batia em meu rosto como um leve carinho, como se o céu e as estrelas soubessem a dor que eu carregava em meu coração. Algumas famílias estavam reunidas do lado de fora de suas casa, o que me fazia acreditar que era algo próximo de meia-noite. Felizes, conversando, se divertindo, bebendo. Alguns adolescentes, todos de branco e com peças e acessórios reluzentes, caminhavam em grupo em direção à estação de metrô mais próxima. Todos conhecem a sensação de um coração quebrado, não é? Todos já passaram por isso em alguma fase da vida e, mesmo sendo algo tão normal, ainda dói como uma facada. Eu sentia que iria morrer, desabar a qualquer momento. [...]"


Cuento Todo público.

#sentimentos #lgbt #término #relacionamento #amor
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Ruptura

Andava calmamente pela rua escura. Já era tarde, mas meu celular estava sem bateria e eu não sabia dizer exatamente o horário. A brisa de verão batia em meu rosto como um leve carinho, como se o céu e as estrelas soubessem a dor que eu carregava em meu coração.

Algumas famílias estavam reunidas do lado de fora de suas casa, o que me fazia acreditar que era algo próximo de meia-noite. Felizes, conversando, se divertindo, bebendo. Alguns adolescentes, todos de branco e com peças e acessórios reluzentes, caminhavam em grupo em direção à estação de metrô mais próxima.

Todos conhecem a sensação de um coração quebrado, não é? Todos já passaram por isso em alguma fase da vida e, mesmo sendo algo tão normal, ainda dói como uma facada. Eu sentia que iria morrer, desabar a qualquer momento.

Eu havia perdido meu chão, meu apoio, meu amor. E não podia culpar ninguém por isso para ter um pequeno alívio; nosso amor apenas não estava no mesmo nível, e essa foi a melhor atitude para que eu não me machucasse futuramente. Eu amava mais, como sempre - minha mãe dizia que meus sentimentos eram intensos demais e que isso me prejudicaria um dia.

Eu não podia controlar aquilo, eu não podia forçar um relacionamento por puro egoísmo meu. Até porque amar é desejar a felicidade do outro, mesmo que signifique deixá-la partir, e eu prezava por isso. Queria ver seu crescimento, seus sonhos se realizando, seu sucesso, mesmo que de longe, mesmo que em silêncio.

Abri a porta de casa e, por sorte, meus pais não estavam em casa. Fui recebida por pulos e latidos de minha cachorrinha, como se eu tivesse passado uma eternidade fora. Sentei-me no sofá vermelho da sala, com apenas a luz do abajur acesa. Acariciava os pelos brancos dela enquanto ela me observava com seus olhos vermelhos. Ela sabia o que eu estava sentindo.

Sorri. Em meio a toda tristeza, aquele pequeno ser era capaz de iluminar minha alma. Um amor tão puro; por que nós humanos não sabemos amar assim? O amor não deveria machucar, não devia doer. O amor deveria ser feliz, acolhedor. Infelizmente, não era assim que as coisas aconteceram comigo.

Subi as escadas com passos silenciosos em direção ao meu quarto. Meu corpo doía, mesmo que eu não estivesse machucado fisicamente. Algumas pesquisas dizem que os sintomas de um coração partido são os mesmo de abstinência. Agora eu concordo com isso.

Entrei em meu quarto, meu lugar seguro. Coloquei minha bolsa em cima da escrivaninha e olhei ao redor, havia tantas lembranças ali como em meu coração, mas, pelo menos dessas, eu poderia esconder até que esse sentimento passasse.

Removi com cuidado cada foto presa na placa de metal onde eu costumava deixar lembretes para mim mesmo. A cada foto, uma lembrança, uma dor diferente. Eu já não podia conter minhas lágrimas, que desciam minha bochecha lentamente. Juntei todas em uma pequena pasta e guardei na parte mais alta do meu guarda-roupa. Eu sabia que em algumas semanas eu não lembraria mais que elas estavam alí.

Juntei também todas as cartas recebidas, com juras de amor eterno, com esperanças num futuro que não irá mais acontecer. Coloquei-as dentro de uma caixa, juntamente com alguns presentes e os fechei no armário da dispensa, um lugar que eu jamais lembraria.

Apaguei a luz do quarto e me deitei na cama. Nem mesmo o cheiro da roupa de cama recém trocada me trazia conforto naquele momento. Chorava; chorava como um bebê, como uma criança que se perdeu dos pais - aliás, eu sentia como se tivesse me perdido.

Gritava e soluçava com o rosto afogado no travesseiro, na tentativa de fazer que nenhum dos vizinhos ouvissem. Aquele era o meu momento, o momento que eu podia extravasar, que eu realmente podia colocar para fora o que corria meus pensamentos.

Seria o amor algo real? Ou apenas uma invenção para incentivar a reprodução, como Carl Sagan dizia? Eu não sabia mais dizer, apenas sabia que jamais viveria o que havia idealizado. Eu me sentia uma pessoa incapaz de receber amor, como se eu fosse um monstro, como se eu não merecesse - mas por que eu não mereceria? O que teria eu feito para que me fosse imposta essa condição?

As palavras que tinham sido ditas ecoavam na minha mente, o que me perturbava cada vez mais e mais. Eu não conseguia aceitar que aquilo havia acontecido, ainda mais em uma data como aquela.

Meus pais haviam viajado para a casa de meus tios, e eu tinha ficado devido ao trabalho. Estava tudo planejado, eu passaria a virada do ano com ele, iríamos comemorar nosso terceiro ano de namoro, mas ele disse que não conseguia mais esperar. Era compreensível - eu também não conseguiria se estivesse no lugar dele - mas isso não anula o meu lado da situação. Era ano novo, e eu estava ali, sozinho e machucado.

Lágrimas surgiram lentamente em meus olhos, e eu não me forcei em contê-las.

Por que meus sentimentos precisavam se tão intensos? Eu sempre acabei me machucando por isso. Amor deveria curar, e não corroer meu interior aos poucos.

Amar sozinho é quase como drogar-se. Você se vicia na ilusão criada pela sua própria mente, e busca cada vez mais por aquilo; até perceber que nada era real. Você acaba por se afogar na abstinência do que nunca teve.

Pensava, pensava e pensava. Era impossível tirar a situação de minha mente. Me questionava de todas as formas: eu não era suficiente? Eu fiz algo errado? Eu não demonstrei o suficiente?

Abracei meu travesseiro e me virei na cama, deitando de lado. Conscientemente eu sabia que não deveria sofrer tanto; relacionamentos terminam com frequência, isso nos ajuda a crescer e nos tornarmos pessoas melhores. Entretanto, não era capaz de controlar isso, mesmo que minha mente soubesse que estava tudo bem, minha alma não sabia.

Minha alma sofria por um luto, mesmo que ninguém tivesse morrido.

Minha alma sofria pela solidão, mesmo que várias pessoas se fizessem presentes em minha vida.

Minha alma sofria pela desilusão, mesmo que eu mesmo tenha me enganado.

Respirei fundo e enxuguei as lágrimas. Olhei para o relógio, ainda era dez horas da noite. Em um impulso, peguei meu celular e disquei o número que sabia como a palma da minha mão.

  • Alô, Lucca? Tá tudo bem? - a voz feminina respondeu do outro lado da linha, mostrando um pequeno espanto.
  • Eu vou me arrumar e em vinte minutos passo aí. Vamos sair hoje.
  • Ah, meu Deus… Ok, ok. Me ligue quando estiver chegando.

Desliguei o telefone e segui para o banheiro a fim de lavar o rosto. A tristeza pode durar por uma noite, mas não seria aquela noite.

6 de Febrero de 2020 a las 15:09 0 Reporte Insertar 2
Fin

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