u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Segunda década do século XXI. O abastecimento de água entra em colapso primeiro no sudeste, a seguir em todo Brasil. Os grandes centros urbanos são abandonados, e a população vive percorrendo as estradas em busca de mananciais ainda utilizáveis, com um combustível cada vez mais escasso. Nessa distopia seca, alguns filhos da época de abundância tentam sobreviver, lutando contra gangues motorizadas e vasculhando locais abandonados em busca de recursos. Esta é uma história desse novo mundo.


Post-apocalíptico No para niños menores de 13.

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Capítulo Único

Volume Morto


A menina acordou do cochilo com a cabeça encostada à janela do carro, gotas de chuva escorrendo pelo vidro do lado de fora feito algum tipo de dádiva negada aos mortais ali dentro. Ainda sonolenta, apoiou-se no vão entre os dois assentos da frente, um braço em cada encosto. O pai mantinha a mesma expressão preocupada de horas atrás enquanto guiava lentamente em meio à extensa fileira de carros tentando deixar São Paulo pela Anhanguera. A mãe olhava apreensiva ao exterior, a sinfonia de buzinas e confusão de faróis acesos na escuridão noturna aumentando sua apreensão, inconscientemente passada para a filha.

Todos deixando São Paulo devem obrigatoriamente passar pelo posto de controle – a voz reverberando no megafone tentava impor ordem, mas era vencida pelo próprio cansaço, transparecido em seu tom. – Repito, todos deixando São Paulo...

O pai explicara à pequena, mais cedo, o porquê de toda aquela fiscalização: contrabando de água. Muitos tentavam deixar a cidade com galões escondidos no carro, achando que escapariam às rígidas regras do racionamento. A esperança era que no interior não precisassem mais se preocupar com isso. Lá ainda havia rios, mananciais. Promessa de uma vida normal, quando a menina ainda ia à escola e podia frequentar as piscinas do clube no final de semana.

A fileira de carros avançou cerca de meio metro. A garota não sabia quanto tempo dormira, porém acreditou mal terem saído do lugar durante as últimas horas. Pensou em apanhar o videogame portátil novamente e tentar se distrair com algum jogo do qual já enjoara – mas, ao estender o braço para o outro lado do banco, um relâmpago iluminou a noite e travou seus movimentos. O som avassalador do trovão veio no segundo seguinte... junto com a silhueta parada à janela do motorista, como que conjurada por magia negra.

- Eu sei que você tem água aí! – o berro do homem era animalesco, quase o rugir de uma fera. – Abre a porra dessa janela!

O pai, aturdido, tentou acelerar, ignorando que assim bateria na traseira do automóvel à frente. A mãe gritou assustada; e um instante depois, a explosão do tiro misturou-se ao som fragmentado do vidro se estilhaçando, a imagem do volante ensopado em vermelho cristalizando-se na mente da menina...

Ela despertou erguendo a cabeça num solavanco, reprovando-se mais uma vez por cochilar enquanto dirigia. Baixar a guarda daquela maneira ainda lhe custaria caro.

As mãos cobertas por meia luvas estavam praticamente fundidas ao volante pelo couro e suor. Lá fora, a paisagem árida e assoreada resumia-se a serras alaranjadas de relva bege e rala, pontuada aqui e ali por esqueletos enegrecidos de árvores. As ondas de vapor sobre o asfalto, parecendo poças d'água desfeitas como miragem quando se vencia a distância até elas, eram as únicas coisas remetendo a líquido.

Isso a fez se lembrar de apanhar o cantil do interior do porta-luvas de tampa quebrada, tentando umedecer os lábios secos ao contraí-los dentro da boca na expectativa de um mínimo de água. Os dedos tatearam todo o compartimento, passando por alguns balaços de espingarda antes de encontrarem o recipiente. Ao apanhá-lo, a leveza e ausência de volume sentido em seu interior ao sacudi-lo confirmaram não restar alento. E o marcador de combustível no painel também não oferecia a melhor das previsões.

Todos os líquidos estão em falta: água, gasolina... Só o sangue que não. Esse é derramado aos montes.

Diminuiu a velocidade para poupar a reserva do veículo. Após uma curva, passou por uma placa de verde enferrujado e diversas marcas de tiros, ainda contendo as letras semiapagadas indicando 30km até Ribeirão Preto, antigo centro populacional mais próximo. Os moradores da metrópole interiorana evaporaram assim como o "ribeirão" do nome, todos tentando a sorte pelas estradas em suas moradias móveis à caça de mananciais intactos. Já que cidades-fantasma eram esconderijo propício aos "Guarás", como algum ambientalista frustrado começara a chamar os saqueadores, ela precisava encontrar combustível antes de atingir suas cercanias.

A esperança, felizmente, surgiu poucos quilômetros adiante, após um declive da pista.

O posto de gasolina abandonado parecia uma carcaça retorcida de ferro à beira do caminho, o sol escaldante não poupando esforços em contribuir para que pouco a pouco derretesse. Uma placa azul desbotada apontava ao local indicando os símbolos de combustível, conveniência, telefone e banheiro – embora ela já pudesse se considerar sortuda se encontrasse um mínimo do primeiro. Claro, seria prudente checar os sanitários em busca de algum resto de líquido nos vasos ou pias. Tornara-se melhor que os malditos encanadores do "Mario Bros." que jogava quando pequena quando o assunto era drenar água usando o parco equipamento à mão.

Os encanadores do Mario Bros. não faziam nada que um encanador faz, mas tudo bem...

Manobrou para o acostamento, acompanhando-o por alguns metros antes de tomar o desvio de acesso ao posto. Não pôde evitar que um sorriso lhe escapasse aos lábios ao erguer os olhos ao canguru cartunesco no teto do local, os pedaços que lhe faltavam devido ao desgaste não comprometendo sua silhueta barriguda e de pés compridos. Nos últimos dias antes das evacuações, depois de a Petrobrás ser privatizada e falir, várias multinacionais petrolíferas haviam invadido o Brasil para suprir os serviços que a gigante nacional não poderia mais oferecer. Aquele estabelecimento, no caso, pertencia a uma antiga franquia australiana – como o nome gravado sob o canguru não deixava enganar:


AUTOPOSTO ROCKATANSKY


Tentando afastar as memórias da vida pré-colapso, trazidas certamente pelo maldito sonho enquanto dirigia, ela desacelerou gradualmente até estacionar o carro sob o toldo disforme de metal, ao lado de uma das bombas de abastecimento. A porta ao lado do assento do motorista se abriu rangendo, erguendo a poeira que acumulara durante a viagem. A recém-chegada checou o Taurus no coldre à cintura antes de ensaiar os primeiros passos pelo lugar. Nunca se sabia quando problemas viriam.

Do lado de fora, o Chevrolet Caravan 92 parecia uma minifortaleza ambulante, a terra sobre a lataria enferrujada e a pintura vinho descorada revelando o quanto já aguentara – e o quanto ainda seria capaz de aguentar.

Ao mesmo tempo em que vistoriava os arredores, ela checou em sua mente a ordem dos procedimentos que executaria. Se a ilha de combustível estivesse vazia, poderia checar os dois automóveis abandonados junto à antiga loja de conveniência do posto em busca de dreno – ou com sorte haveria galões esquecidos no interior do local. Detendo-se junto à bomba de abastecimento para validar ou não a alternativa mais óbvia, fez menção de apanhar um dos bicos e inseri-lo no carro – quando sua intuição colocou-a em alerta.

Algo estava errado.

A mão direita agiu rápido, apanhando o revólver da cintura e engatilhando-o, tambor sempre carregado. Usando a mão esquerda para amparar a primeira, visto o coice que a arma possuía, a forasteira pôs-se a apontar o Taurus .357 adiante, girando os pés em círculo para varrer mais uma vez a área do posto.

Foi quando veio o estalo. O balde de plástico até então de pé ao lado da bomba de combustível virou. Ela apontou instintivamente o revólver ao objeto, só para concluir bem tarde que não havia pé ou mão responsável por tombá-lo à vista – e sim uma pedra do tamanho de um punho, que, após colidir com o recipiente, agora rolava pelo solo rachado.

A merda da viagem te deixou mole.

Quando pensou em se virar, sentiu o cano da arma inimiga encostando-se à sua nuca, o metal quente chamuscando sua pele. Manteve o Taurus erguido. Se o indivíduo quisesse mesmo matá-la, já o teria feito. Então tinha uma chance.

- Só vim atrás de gasolina, não sabia que o pedaço tinha dono – tentou barganhar, pensando em como ajudaria poder estar de frente ao sujeito e examinar suas reações para conduzir as falas. – Se for assim, já estou indo embora.

- Quietinha aí... – a voz do adversário não condizia com alguém muito ameaçador; na verdade o timbre remetia a um adolescente, quase uma criança. – Você é vermelha ou azul?

- Nenhum dos dois. Então não tem motivo algum para me apagar.

- Como assim? – o tom do rapazinho agora denotava confusão. – Impossível! Todo mundo é vermelho ou azul. Todos escolheram um lado!

- Quando a água acabar de vez, vocês não conseguirão viver bebendo ideologia – ela não ocultou o rancor em sua fala por ambas as facções. – Existem os neutros, tá legal? O pessoal que só quer sobreviver sem problemas com qualquer um dos grupos. E é melhor me deixar ir, se não quiser seus miolos estampados nessa bomba de combustível!

- Olha só quem fala, até parece ser a fodona! – a réplica veio numa risada. – Rendida por um garoto de quinze anos, não aparenta lá grande coisa...

- Pois mesmo de costas eu sei que você tá tremendo feito vara verde me apontando esse trabuco! Fala a verdade: já apontou uma arma a alguém antes?

O ar ficou em silêncio por vários segundos, sem resposta.

E foi a vez dela rir.

Virou-se de uma só vez, o braço esquerdo já estendido na direção do oponente. A silhueta deste tornou-se um borrão, a atenção da mulher focada apenas na espingarda calibre 12 que ele segurava debilmente com as duas mãos. Puxou-a para si com a maior facilidade, os dedos do garoto se desgarrando da arma enquanto ela era envolvida pelo punho da guerreira e engatilhada com um puxão da telha.

Agora o adolescente tinha tanto uma Taurus quanto a cartucheira apontadas a si, uma em cada mão. E a forasteira finalmente encarou-o, dando conta de sua estatura razoavelmente alta para a idade, corpo franzino, cabelos crespos sujos e embaraçados, pele ligeiramente morena tornada mais escura pelo sol e peito vestindo uma camiseta rasgada da banda Sepultura.

Não teve tempo de indagar o que ali fazia ou sequer se arrepender: o alto ronco do motor de um carro propagou-se pelos arredores, e a audição da mulher determinou-o de imediato como proveniente de trás da loja de conveniência.

- Droga, você os trouxe até aqui! – o garoto exclamou desesperado.

Um grito ensandecido de empolgação misturou-se ao rugir do automóvel, como se dado por um antigo peão de boiadeiro domando um touro. Cantando pneus e erguendo tanto fumaça quanto poeira, o veículo revelou-se acelerando para fora de seu esconderijo, sob o olhar atento da forasteira. O Passat 93 branco estava todo coberto de grafites, representando desde a morte com capa e foice numa das portas até a efígie de um antigo PM, de quepe e pistola na mão, sobre o teto. Dois ocupantes agitavam braços para fora das janelas como se tomados por algum tipo de frenesi, mas o que mais intrigou a mulher foi o par de metralhadoras montado sobre o capô do veículo.

Eram M971 belgas, usadas pelo Exército quando ainda existia e agora valiosas mercadorias de contrabando. Por um momento achou impossível, mas quando uma rajada dupla das armas destroçou um dos carros abandonados vistos antes diante da lojinha, a munição pesada despregando as portas e retalhando o chassi, ela pôde concluir: as metralhadoras eram disparadas de dentro do próprio automóvel, pelo painel.

Já ouvira falar daquilo antes, embora nunca houvesse testemunhado pessoalmente. Carros de combate. Modelos antigos encontrados em ferros-velhos e concessionárias de usados pré-colapso, convertidos em máquinas com metralhadoras, lançadores de bombas e até mísseis. A nova arma na interminável guerra entre Azuis e Vermelhos.

- Se abaixa! – ela gritou ao garoto, ao mesmo tempo em que se jogava ao solo.

Ele obedeceu, correndo e saltando para fora de sua vista. Por mais que estivesse preocupada com ele, tinha de se focar primeiro na ameaça representada pelo carro. Ainda no chão, mirou com o Taurus e atirou, tentando acertar o tanque de combustível. A bala trovejou contra o veículo, acertando algum ponto de sua lataria – mas falhando em chegar ao local visado.

A guerreira ergueu-se e rolou pela terra, escapando de mais rajadas das metralhadoras do capô. Os dois malditos no interior do Passat seguiam gritando e uivando, dando a imaginar o que fariam se a pegasse. A solução era impedir de qualquer modo que isso acontecesse.

Após mais uma cambalhota, a mulher buscou abrigo atrás do outro carro parado próximo à loja de conveniência. Balas silvaram por cima de sua cabeça e junto ao metal do automóvel, que felizmente conteve a maioria. Ainda possuía seis balas no tambor do revólver, e rapidamente pô-las a trabalhar.

As duas primeiras passaram longe do carro, a direção errante do motorista inimigo contribuindo para torná-lo alvo difícil, por mais que suspeitasse não ser algo proposital. A terceira, entretanto, foi carregada de sorte: enquanto o Passat tentava contornar a posição da forasteira para encurralá-la, ficou de lado, e ela conseguiu cravar um tiro na cabeça do sujeito no assento do passageiro. Uma explosão de sangue borrou os vidros do veículo, fazendo o motorista perder o controle...

...e colidir com uma das paredes da loja de conveniência, arruinando a frente do carro e fazendo as duas metralhadoras, mal fixadas ao capô por parafusos enferrujados, despencarem ao chão uma de cada lado do Passat, os canos superaquecidos soltando fumaça.

O veículo chiava quando ela se aproximou. O motorista tentava desesperadamente sair de dentro dele, socando e chutando a porta com desenho da morte – mas esta também amassara com o impacto e acabara ficando presa à lataria, exibindo a face chorosa do indivíduo através do vidro sujo de vermelho.

A guerreira guardou o Taurus de volta no coldre e agora empunhava a espingarda do garoto com as duas mãos.

Parando junto à porta emperrada, nem sequer deu-se o trabalho de quebrar o vidro. Encostando o cano da escopeta a ele, disparou com um braço estendido – os cacos da janela se misturando aos pedaços fumegantes da cabeça estourada do miserável do lado de dentro.

O motor do Passat emitiu seus últimos guinchos antes de finalmente fundir, convertendo-se em volume morto junto com seus donos.

A mulher ficou segurando a espingarda enquanto se voltava para a área de abastecimento. Mancando de uma perna, o menino vinha esbaforido em sua direção, o logo do Sepultura quase saltando para fora da camisa. Agora precisaria do dobro de água, quando a encontrasse.

- Quem é você? – a pergunta veio num clamor mais urgente que a sede. – Como consegue fazer isso tudo?

Parando diante da jovem de cabelos negros presos num rabo de cavalo, pele bronzeada, membros razoavelmente musculosos sob uma camiseta regata, shorts jeans e coturnos, ele ouvia-a responder, o olhar uma incógnita por trás dos óculos escuros tipo aviador:

- Meu nome é Manuele. E se não arrumar mais encrenca para o meu lado, garoto... eu te deixo vir comigo.

Ele sorriu, por um momento aparentando ter o impulso de abraçá-la, porém se conteve. A guerreira entregou a espingarda de volta ao adolescente, enquanto olhava uma última vez, de soslaio, para o Passat.

A visão do volante banhado em sangue paralisou-a por um momento.

Mas apenas um momento.

23 de Diciembre de 2019 a las 19:52 0 Reporte Insertar Seguir historia
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Fin

Conoce al autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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