S06#18 - THE NIGHTMARE - PARTE I Seguir historia

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O que Scully esconde de Mulder? Será que há tanta crueldade dentro dela ou apenas é defesa? Você está pronto para a verdade? Scully não estava. E descobrir essa verdade pode definitivamente mudar toda sua vida e tudo no qual ela acreditava.


Fanfiction Series/Doramas/Novelas Sólo para mayores de 18.

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S06#18 - THE NIGHTMARE - PARTE I

(Mea Culpa)



"De noite, em meu leito, busquei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, porém não o achei. Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade; pelas ruas e pelas praças buscarei aquele a quem ama a minha alma. Busquei-o, porém não o achei. Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade; eu lhes perguntei: Vistes, porventura, aquele a quem ama a minha alma?"

Cântico dos Cânticos 3:1-3




INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

Apartamento de Ellen - Washington D.C. - 10:10 P.M.

[Som: Enigma - Mea Culpa]

Scully sentada à mesa da cozinha, escreve algo à mão em um caderno. Ao lado, a xícara de chá.

SCULLY (OFF): - Eu contarei o meu pesadelo, caso alguma coisa aconteça comigo. Não peço que me perdoe, Mulder. Nem ouso pedir isso, nem eu me perdoo. Mea culpa, mea maxima culpa. Cheguei a um ponto em minha vida sem graça que eu conheci toda a felicidade que qualquer mulher jamais pensaria em ter. Meu pai nunca quis que eu seguisse uma carreira no FBI, ele acreditava que eu poderia ter algo melhor, um consultório particular, pacientes... Mas eu decidi que queria uma carreira no FBI. Fui enganada achando que tinham me escolhido pela minha competência, enquanto me escolheram pelo meu ceticismo para desacreditar o meu parceiro? Não Mulder. Não apenas por isso. Pergunte ao Spender, eles me escolheram também por outra coisa. Eles nos queriam juntos desde o início. E o tempo me fez perceber que além de parceiro, você era um amigo de confiança, alguém com quem eu podia contar... E eu me apaixonei por esse parceiro, amigo, atento as minhas necessidades, meu salvador e protetor incansável. E depois de anos, com esse imenso amor calado dentro do peito, doído por pensar em ser platônico, corroendo a alma por temer não haver reciprocidade... Houve a mágica. Sim, Mulder meu amado. Foi mágico. Inesquecível. Tudo entre nós dois é mágico. Por sua causa. Você transforma o comum em algo divino, a rotina em desafio e logicamente... Põe a culpa de tudo nos alienígenas. Sinto saudades ao pensar nisso, mas não consigo mais rir quando agora sei que a culpa é dos alienígenas mesmo. Penso no quanto brigar e discutir com você é apaixonante. No quanto adoro quando me irrita. No quanto adoro irritar você... É uma forma de manter acesa a nossa chama.

Scully toma um gole do chá. Os olhos começam a marejar.

SCULLY (OFF): - O sonho impossível se transformou em realidade. E a mágica aumentou e não tinha mais como seguirmos sozinhos, vivermos em casas separadas, fingir que éramos apenas colegas de trabalho... Mulder, você foi a melhor coisa que me aconteceu. Nunca duvide disso. Você me tornou mais leve, menos séria, você me mostrou um tipo de relacionamento que eu não acreditava existir exceto em livros e filmes. Nós dois viramos um. Nossos opostos nos completam como se fôssemos um único ser. Tanta maldade que fizeram para nos separar, mas mesmo assim, o amor sempre vencia todos os obstáculos que passamos juntos. Uma década, Mulder. Entre parceria, amizade e união. Não é pouco tempo... Dentro de mim uma tristeza porque eu não podia mais ter filhos. E um desespero calado porque eu não podia dar um filho pra você. Sua sensibilidade entende o que eu quero dizer como mulher. Toda mulher quer ter um filho do homem que ama. Isso me destruiu em doses homeopáticas. E acabou comigo depois da última experiência que fizeram... Hoje eu sei, Mulder, aquilo que você calou e mentiu dentro de si mesmo para não me magoar. Hoje eu entendo os seus sacrifícios e as histórias e desculpas que me contava para que eu não mais sofresse. Eu, a cientista entre nós dois, não pude ver que sendo estéril como poderia ter um filho? Pensei que havia sido uma resposta às minhas orações, o meu milagre. E depois odiei Deus por ter tirado isso de mim, como se fosse Ele quem tivesse feito aquilo. Após perder nosso filho, Mulder, minha fé começou a ruir. E a amargura tomou conta do meu ser. E sei que no fundo, você sabe disso. Foi onde eu comecei a mudar. Onde comecei a ficar mais insegura.

Scully seca as lágrimas com a mão. Não percebe que as cortinas esvoaçam com a brisa.

SCULLY (OFF): - Mas não foi um milagre. Foi outra experiência. E dessa vez deixaram dentro de mim, me enganando, dando falsas esperanças... Foi a coisa mais cruel que poderiam ter feito comigo. Roubar um filho indefeso de dentro da sua mãe é algo que não tem nome. É imperdoável e eu não perdoei. Como não perdoei quando tiraram meus óvulos e toda a chance que eu tinha de ser mãe. E também não perdoei quando dificultaram sua chance de ser pai. Você me deu três células de vida, Mulder. Três de todas as que me tiraram. Você me deu de presente em nossa primeira noite a chance de ter minha descendência. Você me devolveu a dignidade de ser mulher, geradora de vida. Você nem pode imaginar o tudo que você me deu e sem exigir fazer parte disso. Quantas vezes disse com medo nos olhos para que eu não desperdiçasse minhas três chances com você, já que agora era você quem tinha problemas pra ter um filho? Eu ainda pergunto: como você não faria parte disso, Mulder?

Scully toma outro gole de chá. Gabriel, sentado em frente a ela, a observa. Scully não nota sua presença. Continua escrevendo.

SCULLY (OFF): - Como não teria o direito de ser pai da minha filha se você a salvou antes de nascer? Espero que quando ela tiver idade pra entender isso, você diga pra nossa menininha que além de tudo o que fez por mim, você também salvou a vida dela. Antes, durante e depois de nascer. Sem você, Victoria não existiria. Eu nunca a teria sentido em meu ventre, a amamentado e segurado nos meus braços. Sem você, Mulder, eu nunca saberia o que é ser mãe. Agora entendo sua decisão de que se da forma comum era impossível, o mais certo a se fazer era in vitro. E mesmo não concebendo nós dois numa cama, como todo o casal normal faria, nós dois a concebemos naquele laboratório, diante dos nossos olhos e da segurança total de que realmente seria nossa filha. Entre três óvulos, sem chance alguma que daria certo, aconteceu com um. Ela sim é o nosso milagre, meu amor. Ela é nossa, um pouco eu e um pouco você. Nossos genes e apenas nossos genes misturados. O fruto do nosso amor.

Scully solta a caneta. Toma ar entre as lágrimas que insistem. Gabriel pega a xícara e toma um gole de chá, olhos atentos nela. Scully leva a caneta ao papel novamente.

SCULLY (OFF): - Você realizou os meus sonhos de ser mãe, de ser esposa, de termos um lar e até da casa que eu queria. Rosas e café na cama. Você me deu dores de cabeça também, Mulder. Mas todas as besteiras que faz conseguem soar como nada diante do tanto que você me dá. E eu mergulhei nessa felicidade até parar pra pensar que havia conquistado tudo. O que mais teria a conquistar? Esse pensamento rápido foi o meu veneno. Abri a porta para o mal que nos rondava, querendo nos separar para tomar nossa filha. E tudo começou a desmoronar. Sentimentos estranhos surgiram, pensamentos confusos e por fim uma loucura. Quero que saiba, Mulder, que agora eu consigo diferenciar a verdade das mentiras que implantaram na minha cabeça. E que você, novamente com seu amor e dedicação conseguiu me mostrar, e certamente deve ter dito para todos agirem da mesma forma comigo. Comecei a ver as pessoas como elas realmente eram e isso me fez questionar tudo o que eu pensava. Meu pior erro foi ter procurado ajuda fora para voltar a ser a mulher que você conheceu, para salvar o nosso relacionamento. Estava tão cega, Mulder... Dr. Patterson acabou com a minha mente. E eu confesso que acabei com ele. E não me arrependo de tê-lo matado. O ódio continua dentro de mim. Agora entendo quando você também sentiu ódio e se misturou com os canalhas. Mas você usou seu ódio como um gatilho para reagir e fazer o bem, e depois deixou ele de lado. Eu não. O ódio ainda me assombra. Não consigo perdoar essa gente.

Scully morde os lábios, cerrando o cenho pra chorar. Gabriel suspira.

SCULLY (OFF): - Mas não foi apenas Patterson. Enquanto ele injetava memórias na minha mente, através de indução hipnótica, outra coisa também injetava veneno, mas dentro da minha alma, contra você, Victoria e todos que eu amava. E eu não entendia também, mas agora consigo enxergar. Não foi difícil fazer isso com uma mente confusa e frágil. Nunca é difícil pra ele usar a mulher contra o homem, usar o amor para ferir, usar um breve pensamento vago de desejo para transformar em uma obsessão. Eu espero que esse maldito sofra todas as punições que Deus pode dar a um desgraçado como ele que não respeita o amor.

GABRIEL (OFF): - Ah, ele vai ter mãezinha. Ele vai sentir na pele, eu prometo isso pra você.

SCULLY (OFF): - O que é vil pode se encostar em você, quando você está fraco e confuso, alimentando o que há de mais ruim na natureza humana. Sim, todos nós temos o bem e o mal dentro da gente, e ele sabe disso, ele foi quem nos abriu os olhos para o mal naquele jardim perfeito onde nada nos faltava. Lembro-me de uma passagem do Novo Testamento em que Jesus dizia para nos cuidarmos não com o que entra em nossas bocas, mas com o que sai delas. A palavra mata, fere, destrói. Não me justifico pelo disse, pela mágoa que causei e pela minha insensatez, Mulder. Eu sou humana e falha. Apenas quero que saiba que basta estarmos fracos para ficarmos vulneráveis a eles. É quando eles vêm. Sentem o cheiro do seu medo, da sua dor. Eles estão por todos os lugares, observando. Peço que diga as pessoas que magoei que eu sinto muito. Em especial a Alex Krycek, que hoje eu sei, nunca teve nada comigo e mesmo assim me respeitou e acabou envolvido nesse jogo sujo. Quero que saiba que eu amo você e amo a nossa Victoria. E se precisei tomar essa decisão é porque não tive outra saída. Ele nunca vai me deixar em paz. E eu não suporto mais isso... Seja feliz, meu Mulder. Siga adiante. Você merece ser feliz. Seja aonde eu estiver olharei por você e Victoria. Pra sempre, com amor... Scully.

Scully fecha o caderno. Passa a mão sobre ele, derrubando lágrimas. Gabriel a observa. Scully aproxima-se da janela. Sobe no parapeito.

VINHETA DE ABERTURA:A VERDADE ESTÁ LÁ FORA


BLOCO 1:

Dias antes...

Sábado

[Som: Enigma - The Voice & The Snake]

Foco nos saltos altos. Penumbra. Scully caminha pela rua de pedras. Carros estacionados. Lamentos e murmúrios são ouvidos. Scully põe as mãos nos ouvidos, enchendo os olhos de lágrimas. Scully, assustada olha pra todos os lados. Alguns anjos vagueiam pelas calçadas, em túnicas, sem rostos definidos. O anjo #1 sentado na calçada, segura uma balança.

ANJO #1: - Uma medida de ouro por uma medida de sangue. Como Ele pôde ousar misturar-nos a estas criaturas?

Scully passa por ele, recuando de costas, assustada. A sombra se projeta por trás dela, refletindo-se ao chão. Scully vira-se, levando a mão à testa, assustada.

Close na moeda de ouro que cai ao chão, rodopiando, aos pés dela.

THE GOLD COIN: - Eu sou o seu pesadelo...

Fade to black.

Fade up.

Scully se acorda nervosa e senta-se na cama. Passa as mãos nos cabelos, percebendo estar toda suada.


Little Children's Home - Orfanato das Irmãs Carmelitas - 11:34 A.M.

Scully e Ellen saem do local.

ELLEN: - Está dando voltas em círculos. Dana, não quero ser pessimista...

SCULLY: - Eu vou encontrar meu filho.

Scully entra no carro. Ellen senta-se no carona. Scully toma a rua.

ELLEN: - Walter me disse que Mulder já fez tudo isso o que você está fazendo.

SCULLY: - "Walter"? Já estamos assim?

ELLEN: - Dana, é sério! Eu sou mulher e sou mãe também. Entendo que não queira aceitar a perda de um filho, mas sejamos sinceras: quantas experiências fizeram com você? Já parou pra pensar nisso?

SCULLY: - ...

ELLEN: - Você me falou de Emily, lembra? Dana, eu não sou o Mulder que fica disfarçando pra não magoar você, eu vou direto ao ponto: Se você é estéril, como conseguiu ficar grávida? Ou Mulder tem superpoderes? Já se perguntou? Já se perguntou se era mesmo seu filho? Se era filho de Mulder? Se não implantaram alguma coisa em você novamente? Eu me faria essas perguntas!

SCULLY: - Você pode ser mãe e mulher, mas você não é estéril. Não pode entender o meu desespero!

ELLEN: - São perguntas básicas que Mulder se fez e levou a vida adiante!

SCULLY: - Homens conseguem levar a vida adiante, Ellen. Não são eles que sentem o bebê dentro de si. E quando pensam que não são o pai, mais fácil fica. Eles precisam ter certeza da cria deles, coisa de macho. Talvez por isso Mulder desistiu.

ELLEN: - Não, ele foi atrás, como você está fazendo, e talvez nem por acreditar que fosse filho de vocês, mas apenas para devolver a criança pra você. E gostou tanto da ideia que tomou a decisão de ser pai de um filho seu de verdade. De dar esse presente pra você. E ele merecia mesmo, afinal roubou seus óvulos do governo. E agradeça à Deus que pelo menos um se tornou a sua filha! Essa você tem certeza absoluta que é de vocês dois, você mesma fez o processo in vitro!

SCULLY: - Eu sei disso, mas ele também é meu filho, eu o senti em minha barriga! Ellen, aqueles homens tiraram tudo de mim, pode entender isso? O preço que eu paguei por me juntar a causa de Mulder?

ELLEN: - Então voltamos a culpar Mulder, não é mesmo? Não vamos culpar os canalhas sem escrúpulos, vamos culpar o Mulder que é mais fácil. Dana, esqueça essa história, ponha um ponto final nisso, volte pro seu marido e sua filha e viva o melhor que puder! A vida é assim mesmo, a gente perde, a gente ganha, e tudo depende da aceitação e da forma como reagimos. Eu também perdi uma gravidez com quase sete meses. Chorei, me escabelei, deprimi, tive um filho depois disso e agora estou aqui. A vida segue!

SCULLY: - É, mas você tem a certeza de que seu filho morreu. Sabe que ele está em algum lugar descansando em paz. Eu não vou desistir até descobrir a verdade!

ELLEN: - Agora inverteu a coisa toda. Mulder tem uma vida normal e você ficou obcecada em perseguir a verdade. Essa é a minha amiga cética, que só acredita vendo com os próprios olhos. Espero que não fique velha e sozinha esperando a verdade. Até o maluco do Mulder já viu que isso nunca vai acontecer!

Scully faz um beiço.

ELLEN: - Preciso ir ao banheiro. Podíamos parar em algum lugar e almoçar.

SCULLY: -Que tal ali?

ELLEN: - Parece um bom lugar.

Scully estaciona. As duas descem. Entram na lanchonete. Ellen vai ao banheiro. Scully escolhe uma mesa perto da janela e senta-se. Ellen volta.

SCULLY: - Aonde vai?

ELLEN: - Esqueci minha bolsa no carro. Aqueles dias, entende?

SCULLY: - Tenho saudades de ter esses dias... Me sentia mais mulher com isso.

ELLEN: - Por favor! Absorventes e anticoncepcionais não tornam mulher nenhuma mais feminina! Isso é atraso de vida!

Ellen sai da lanchonete. A atendente se aproxima, entregando o menu. Scully pede um refrigerante. A garçonete se afasta.

O sujeito vestido no sobretudo negro se aproxima, de costas para a câmera. Puxa uma cadeira e senta-se de frente pra Scully, que o olha curiosa.

GABRIEL: - Sei que está atrás de alguém.

SCULLY: - Como sabe disso?

GABRIEL: - Cemitério Green Paradise, lote 16. Vai achar o que teima em encontrar. Algumas pessoas se consolam com a fé. Outras precisam de provas. Ele está em paz. Melhor do que se estivesse aqui. Não confia mais no seu Deus?

Scully enche os olhos de lágrimas.

SCULLY: -Não mais. Quem é você? Trabalha para o governo?

GABRIEL: -E sou um encosto menos pior do que aquele que anda ao seu lado, Dana Scully.

Gabriel se levanta. Sai rapidamente da lanchonete. Passa por Ellen, que vem entrando. Gabriel esbarra nela.

ELLEN: - Ei, é cego?

Gabriel estende a mão pra trás. Ellen se arrepia.

ELLEN: - Eu hein? (TREME) Credo, que energia!

Scully sai correndo da lanchonete e esbarra em Ellen. Ellen ergue as mãos, suspirando debochada.

ELLEN: - É hoje! Isso que dá tomar poção da invisibilidade no café da manhã.

SCULLY: - Viu um homem alto...

Ellen aponta pra trás. As duas olham. A rua vazia. Ellen coça a cabeça. Scully tenta localizar com os olhos.

ELLEN: - E-eu juro que ele passou por mim e...

SCULLY: - ... Preciso achar o cemitério Green Paradise, antes de voltarmos pra Washington.


Auditório 2 – Universidade de Columbia – Nova York – 2:33 P.M.

Auditório não muito lotado. O velhote de óculos quadrados levanta-se do assento. Olha para o palco apontando o dedo.

BEAUVOIR: -(IRRITADO) Como ousa dizer isso, Dr. Fraiman? Há um aumento da incidência de TDI! Isso é resultado da melhoria na precisão do diagnóstico! Eu mesmo tenho mais de 20 pacientes que apresentam Transtorno Dissociativo de Identidade!

FRAIMAN: - Me apresente provas disso, Dr. Beauvoir. Ainda não encontrei ninguém que se encaixasse no que a nomenclatura chama de Transtorno Dissociativo de Identidade,Desordem de Personalidade Múltipla, Dupla Personalidade ou seja como quiserem chamar, afinal de contas o termo muda mais rápido que os avanços científicos sobre o assunto. Acredito que os indivíduos que mais facilmente podem entrar em estados hipnóticos são mais prováveis de dissociação do que indivíduos que não podem. Eu defendo a opinião de que os indivíduos podem manifestar a chamada TDI quando estão sob sugestão de hipnose ou pela influência sutil de um terapeuta persuasivo! Pois Freud já criticava o conceito de personalidades múltiplas genuínas porque através da aplicação de tratamento hipnótico, se criaria o chamado fenômeno.

Mulder, sentado do outro lado, observa a discussão, rabiscando num caderno.

BEAUVOIR: - Não quero discutir sobre as teorias de Freud, mas terei de contestá-lo. Tenho evidências da existência de TDI, porque tenho pacientes que não sabem realmente quem são, manisfestam personalidades diferentes e não aplico terapia de regressão ou hipnose para o tratamento e nem eles foram submetidos a isso antes de passarem por mim!

Mulder levanta-se. Olha para Fraiman.

MULDER: - Gostaria de lhe fazer uma pergunta, professor.

FRAIMAN: - Seu nome?

MULDER: - Mulder. Gostaria de saber o que acha a respeito da influência religiosa na questão da TDI. Sendo mais específico, casos onde os pacientes vulgarmente chamam de possessões demoníacas. Isto não seria prova da existência da TDI?

BEAUVOIR: - Eu quero responder isso! É uma boa pergunta!

FRAIMAN: - À vontade.

BEAUVOIR: - Pois sim. Eu acredito que a alienação a que estas pessoas foram submetidas por alguma crença, pode ser representação da TDI. Já tratei casos de pessoas que se diziam possuídas por espíritos.

Alguns alunos riem.

BEAUVOIR: - Quem de nós, clínicos aqui presentes, nunca se deparou com algum paciente que se diz possuídos por demônios? Demônios não existem, isso é prova da existência da TDI. O paciente apresenta diversas personalidades e atribui elas a demônios.

MULDER: - E se... Se os demônios existissem?

FRAIMAN: - Então eu calaria a boca do meu colega e provaria finalmente que a TDI é uma farsa fabricada por terapeutas caçadores de dinheiro.

O auditório começa a rir. Beauvoir senta-se, olhando indignado pra Fraiman.

FRAIMAN: -E senhor Mulder, eu acho mais plausível existir o diabo do que o conceito de personalidades múltiplas.


Necrotério - 3:56 P.M.

Ellen sentada no carro, em frente ao necrotério. Óculos escuros, mascando chicletes, observando discretamente os policiais que passam, enquanto fala ao celular.

ELLEN: - (AO CELULAR) Nem sei o que dizer, Walter. Fale você com Mulder... Ela está lá dentro, na sala de necropsia com o corpo, esperando o DNA... Como? Ora, ela é agente do FBI, deve ter usado alguma artimanha pra abrirem a sepultura... Não, eu não sei como ela descobriu, nem se Mulder sabia aonde estava o filho... Eu não sei, não conheço esses caras da conspiração, mas sim tinha um cara na lanchonete, altão, esquisito, todo de preto... Me deu medo... Vou desligar, ela vem vindo. Depois eu ligo.

Ellen desliga. Scully sai da delegacia, com uma pasta, olhos cheios de lágrimas. Ellen sai do carro e segura Scully que parece desabar.

SCULLY: - (CHORANDO) Ele... Ele está morto! Ellen, ele está morto! Era o corpo dele, meu Deus!

Ellen a abraça forte.

ELLEN: - Mulder não mentiu pra você, amiga. Percebe agora? Consegue ver que tudo o que Mulder falou sobre o filho de vocês era verdade? Dana, quando vai se poupar de tanto sofrimento? Por que você tem que ficar desenterrado coisas passadas que Mulder levou tanto tempo enterrando pra poupar sua dor?

Scully se abraça na amiga, chorando inconsolada.


Residência dos Mulder - Virginia - 4:11 P.M.

Baba coloca as mãos na cintura olhando pra porta aberta da cozinha.

BABA: - Aonde pensa que vai?

Victoria de boné, em pé, segurando-se no marco da porta, olhando pra Baba.

VICTORIA: - Lua... Pa lua.

BABA: - Rua. Erre. Rua.

VICTORIA: - Rrrr... Rua.

BABA: - Isso. Porque ir pra lua é bem mais difícil e você só levita, não consegue voar.

Baba pega o cesto de roupas.

BABA: - Então vamos estender as roupas, nada como um sol para energizar os tecidos. E mantenha esse boné na cabeça porque o sol está forte. E haja protetor solar pra você, né?

VICTORIA: - Nah!

O telefone toca.

BABA: - Não saia sem mim. Deve ser o papai.

Victoria fica parada na porta. Baba atende.

BABA: - Residência dos Mulder...

MULDER (OFF): - Como vão as coisas por aí? Victoria está bem?

BABA: - Sabia que era você. Sim, sua filha está bem, doida pra ir pra rua. E como foi seu dia na universidade?

MULDER (OFF): -Estranho, Baba. Me senti um velho no meio da garotada...

BABA: - (SORRI) E foi bem na prova?

MULDER (OFF): -É, acho que sim. Fiz a prova, participei do seminário, entreguei tarefas, assisti uma palestra... Dia corrido. Agora que cheguei no hotel e vou tomar um banho.

BABA: - Nem teve tempo pra aproveitar Nova Iorque?

MULDER (OFF): -Não vim a passeio, vim a compromisso... Tem certeza de que tudo está bem?

BABA: - Claro. Por quê?

MULDER (OFF): -Estou pensando em ficar aqui hoje e pegar o voo amanhã à tarde. Segunda tenho que trabalhar.

BABA: -Sério? Pensei que voltava hoje... Por mim tudo bem. Algum problema? Ah, arrumou uma namorada no campus?

MULDER (OFF): - Não. O que arrumei por lá foram mais e mais perguntas sem respostas e eu preciso de tempo pra digerir isso. Eu só tô cansado e... Eu não queria dizer isso, mas... Não quero ir pra casa. Quero respirar fora dessas paredes, fora do ambiente Scully... Se eu saio do meu sótão tudo nessa casa me lembra dela.Eu... Quando voltar vamos conversar. Talvez vamos nos mudar pra um apartamento.

BABA: - (ESTRANHANDO) Mulder, você está bem mesmo?

MULDER (OFF): - Não, Baba. Estou triste, aborrecido, cansado, carente, desanimado e deprimido. E cheio de perguntas que não sei como responder. Melhor ficar por aqui mesmo.

BABA: - Não vai fazer besteira, Mulder. Sabe o que estou falando.

MULDER (OFF): - Não se preocupe, Baba. Nem trouxe minha arma. Eu tenho uma filha pra criar. Eu ligo pra você amanhã, tá? Cuida bem do meu anjinho. Dá um beijo nela por mim e diz que eu a amo muito e amanhã estarei em casa.

Mulder desliga. Baba desliga.

BABA: - Seu pai mandou beijo e disse que ama muito você. E ele está estranho, mais do que de costume e estou ficando preocupada. Acho que agora entendi porque ele sai de casa algumas vezes dizendo que está investigando alguma coisa... Aposto que dirige por aí e cochila no carro procurando alienígenas só pra não voltar pra casa. Ele tá é entrando em depressão só de olhar pra essas paredes.

VICTORIA: - Tadinho papai, Baba... Rua!!!!

Victoria sai correndo pra fora, caindo, levantando e fugindo de Baba.

BABA: - Espera aí, bruxinha da Baba! Não chega perto da piscina ou vou colocar você de castigo!!! Ô coisinha mais sapeca!!!

Baba sai com o cesto de roupas, correndo atrás de Victoria.


Hotel Deschamps - Rua 46 Este - Nova Iorque - 4:21 P.M.

Mulder sentado na cama, de calças jeans e camiseta, olhando para o telefone, segurando uma garrafinha de uísque.

MULDER: - Sabe quando você não tem mais vontade de ir pra casa? Eu acho que vou ter que me mudar.

Krycek sentado na poltrona, olhar distante, igualmente deprimido, bebendo uma garrafinha de vodca. Na mesa ao lado, um buquê de rosas vermelhas.

KRYCEK: - Sabe quando você não tem mais coragem de encarar as coisas? Nem me mudando eu resolvo isso. Depois de anos ajudando a porcaria do meu governo, o que recebo? Minha foto como terrorista por toda a Rússia. Depois de anos ajudando a porcaria do seu governo, o que recebo? Um atentado. A mulher que eu amava e o meu filho mortos. E como termino? Sem nome. Sem memória. Usando nome e distintivo falso numa delegacia porque a única merda que eu sei fazer bem é correr atrás de filhos da mãe, usar armas, brigar, explodir e espionar.

MULDER: - E eu? Querem o meu pescoço no FBI. Resolvi aqueles assassinatos todos de políticos e ganhei o quê? Meu emprego e o da Scully de volta. Mas também ganhei uma medalha idiota do presidente, os Arquivos-X não mais existem oficialmente e nem verba eles dão mais para o departamento. Tô cansado, Rato. Tenho 41 anos e me sinto velho demais pra essa merda toda. Não quero chegar aos 50 anos sentado naquele porão repetindo a mesma coisa de sempre. Ainda dá tempo de mudar o futuro.

KRYCEK: -Sério? Temos a mesma idade? Eu vou começar a arrumar confusão e torcer pra que me deem um tiro na cabeça. Cansei. Não quero mais lutar.

MULDER: -Também tô cansado. Mas como ouviu eu dizer pra Baba, eu tenho uma filha. Não posso desistir.

KRYCEK: -... Sorte sua. Eu não tenho nada. Levaram tudo o que eu tinha.

MULDER: - Mentira. Seu ódio está aí dentro ainda.

KRYCEK: - Se está, resolveu dormir. Não sinto nada. Nada mesmo. Acho que nem coração eu tenho mais. Nem escuto ele bater. Você teve muitas chances, devia ter me matado. É. Eu morreria feliz se você tivesse feito isso. Você sempre foi um inimigo a altura...

MULDER: -(SORRI CANSADO) A recíproca é verdadeira. Mas eu prefiro ser um amigo a altura.

KRYCEK: - A recíproca também é verdadeira.

Mulder se levanta. Senta-se na cama, de frente pra Krycek. Brinca com a garrafinha, cabisbaixo.

MULDER: -(PERTURBADO) Eu já resolvi o que tinha pra fazer na universidade... Vamos conversar, Krycek. Eu realmente preciso falar sobre o que está acontecendo entre a gente...

KRYCEK: -(ANGUSTIADO) Eu não quero falar sobre isso, Mulder. Eu já falei pra você tudo o que tinha pra falar. Quando acabar essa confusão toda, eu pego as minhas coisas e saio da vida de vocês pra sempre. É o certo a ser feito.

MULDER: - Eu sei que você falou, mas agora eu preciso falar! Krycek, eu quero você do meu lado! Desde o começo, muitas verdades eu consegui por seu intermédio. Pouco importa se você as dava para tirar algum proveito. Eu também soquei sua cara todas as vezes que podia! E não foram poucas vezes...

KRYCEK: - Mulder, as coisas não vão mudar. Acredita mesmo que algum dia os seus amigos vão aceitar a nossa amizade? Eu não sou igual a eles, Mulder! Eu não sou um diretor-assistente inteligente que safa seu rabo lá dentro do bureau! E ele tem motivos de sobra pra me odiar! E também não sou um bando de nerds estudados procurando e expondo conspirações! E eles me odeiam também, exceto o Byers. Eu sou o cara burro que ferrou todos eles e você! Siga meu conselho: afaste-se de mim quando isso acabar. Estou me apegando demais a você. Eu não tenho ninguém na minha vida. E acho que não preciso dizer o porquê.

MULDER: -É, não precisa. Você é o filho da mãe que ferrou todo mundo e merece terminar morto ou sozinho! Não, espera... Esse era você. O cara na minha frente agora é outro. Ele perdeu tudo e então percebeu que, assim como o idiota do Mulder, ele também era uma marionete idiota nas mãos dos verdadeiros cretinos. E que agora é um cara que sabe demais e está no topo da lista negra deles. Junto comigo!

KRYCEK: - Mulder, eu sei que chegamos a um ponto em que você tomaria um tiro por mim como eu tomaria um por você. E não gosto disso. Porque eu fiz muitas merdas contra você e no fundo, ainda não posso me perdoar.Eu só tenho um amigo. Mas você tem vários, não precisa de mim. Olhe pra mim como o cara que matou seu pai. Vai ser menos doloroso.

MULDER: - Ok. Você matou meu pai. E eu levei você pra Tunguska e por minha causa você perdeu um braço. Que ganhou de volta sendo cobaia deles naquele projeto de regeneração baseado no Barnett. Poderia não ter funcionado e sabe bem que não foi por misericórdia deles, foi mais como vingança contra você, achavam que não seria um sucesso. (CULPADO) Eu não sabia do seu passado em Tunguska, nem que você era russo de nascimento, você também mentiu pra mim sobre você e se eu soubesse na época, eu não teria levado você até lá!

KRYCEK: -(ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS/ ÓDIO) Não tenta me fazer sentir melhor com a sua piedade, Mulder! Nada foi por sua causa! Eu colhi o que plantei! Eu voltei lá também porque eu quis acertar coisas com alguém do passado que acabei não encontrando, e que agora você faz ideia de quem seja e do porquê, e eu ainda vou encontrar o filho da puta e vou fazer ele sofrer lentamente pelo que fez comigo e por matar o Karel! (CULPADO) Meu braço está bem, obrigado. Incomoda algumas vezes, mas deve doer menos que a sua mão que ficou lenta até pra segurar uma arma depois que eu crucifiquei você naquele depósito.

MULDER: -(CULPADO/ OLHOS EM LÁGRIMAS) Pode ser que ficou lenta, mas minha mão dói menos que a minha consciência quando lembra que a minha mentira pra ter minha filha acabou expondo o Sindicato, o Moedinha desceu do topo da pirâmide e ordenou limpeza de provas e Marita e o seu filho pagaram por isso!

KRYCEK: - (REVOLTADO) Você não matou Marita e meu filho! Alberthi e Strughold fizeram isso! Sua filha, você, Scully e Modesky salvaram o mundo com aquela vacina contra o óleo negro. A mesma vacina que meu governo estava tentando fazer, que metade do Sindicato não queria e a outra metade tentava sem sucesso por baixo dos panos. Vocês conseguiram com os genes da sua filha. Se estamos juntos nessa é por causa de inimigos em comum que nos ferraram, Mulder. Tiraram a sua mulher de você e mataram a minha! Mataram o meu filho e querem torturar sua filha como uma cobaia de laboratório pra descobrir o que ela é!

MULDER: - O Fumacinha quando descobriu minha mentira pra salvar minha filha, tentou me matar, mesmo sabendo que eu era filho dele. E você me salvou da morte naquele hospital. Eu só estou aqui hoje porque você salvou a minha vida.

KRYCEK: - E você salvou a minha vida quando roubou aquele corpo e Scully o ajudou mentindo que era meu DNA. Porque Skinner concordou à contragosto, apenas porque vocês pediram.

MULDER: - E quando fui preso, você tomou conta da Scully e de Victoria. E teve que se expor com Barbara Wallace pra me tirar da cadeia. Chamou a atenção deles sobre você e agora corre o risco de morrer porque sabem que está vivo! Entende? Não devemos nada mais um pro outro, se havia o que dever. Enterre o passado como eu enterrei. As coisas mudaram. E mudaram entre nós dois. Não fosse sua ajuda, eu não teria descoberto a verdade do que fizeram com Scully e nem teria como a proteger o tempo todo!

KRYCEK: - Estamos quites, é o que quer dizer? Ótimo! Assim quando eu for embora daqui, carrego um peso enorme a menos na consciência.

MULDER: - Não é questão de estarmos quites, Krycek! Eu agora sei toda a sua vida, como você sabe da minha e não somos tão diferentes assim! E você deve saber até minha intimidade, visto que Marita vigiava Scully e eu dentro daquele apartamento. (PÂNICO) Tenho até medo de saber o que ela via e contava pra você!

KRYCEK: - Não se preocupe com isso, Mulder. Ela não viu nada que não se veja num reality show na TV, garanto pra você. Ela desligava o monitor quando a coisa esquentava. Pelo menos me dizia isso...

Mulder abaixa a cabeça envergonhado. Krycek empina a garrafinha.

KRYCEK: - A gente nem tinha tempo pra conversar, Mulder. Era só trabalho. Diferentemente de você e Scully, nós não dedicávamos tempo um ao outro. Eu por medo de me entregar e ela por medo de retaliação. Se arrependimento matasse, eu estaria morto... Eu não dei a ela a atenção que merecia. A gente não viveu o que poderia ter vivido. E quando eu percebi isso, porque você me abriu os olhos para as coisas comuns da vida... Ela se foi.

MULDER: - Quando Scully foi embora, me deixando sozinho com um bebê, e mentiu pra todo mundo que eu batia nela, quando eu despenquei emocionalmente, qual foi a única pessoa que acreditou em mim? Ahn? Qual dos meus amigos bateu na minha porta oferecendo o ombro?

KRYCEK: - ...

MULDER: - Quem fugia do trabalho deixando o parceiro na delegacia, correndo o risco do chefe descobrir e ser demitido, pra ir até a minha casa a qualquer hora do dia ou da noite, pra conversar comigo, me distrair, me apoiar, tomar uma cerveja comigo, me ajudar a pensar em como resolver a situação? Qual deles largou sua vida de lado pra me ajudar? Ou pra vigiar e proteger Scully? Pra passar noites de vigília dentro de um carro? Para investigar o Moedinha?

Krycek morde os lábios, virando o rosto e derrubando lágrimas.

MULDER: - Eu não sei ser ingrato, Krycek. Sem contar o carro, que se eu fosse esperar pelo seguro... Krycek você fez muita merda. Eu também fiz muita merda. Agora chega disso. Eu jurei pra mim mesmo que se Scully sair dessa, eu vou mudar a minha vida.

Mulder se levanta.

MULDER: - Eu não quero que vá, Krycek. Você se tornou mais que amigo pra mim. Você se tornou um irmão que eu nunca tive. A gente se diverte juntos, a Baba tem razão quando diz que parecemos dois irmãos adolescentes sacaneando um ao outro o tempo inteiro. Nós somos! E nem vou contar o fato sobre os nossos avôs, que passaram toda aquela merda juntos, um pelo outro, naquele campo de concentração. Entende que as coisas se repetem? Sabe a coisa do carma? Vamos pagar logo!

KRYCEK: -(SORRI EM LÁGRIMAS) Eu sou filho único. Sempre foi muito chato. Karel foi meu irmão de rua...Você agora é meu irmão. (MORDE OS LÁBIOS) E talvez essa seja a vingança perfeita da vida por tudo o que eu fiz contra você. Aquele a quem ferrei no passado foi o único com quem pude contar na pior hora da minha vida.

MULDER: -(SEGURA AS LÁGRIMAS) E aquele que me ferrou no passado foi o único com que pude contar na pior hora da minha vida.

Krycek se levanta. Os dois se abraçam forte.

MULDER: -Eu preciso de você e você precisa de mim. E não me importo com o que as pessoas falem, eu considero você meu amigo. Eu sei valorizar o que alguém faz por mim. E sei quando faz sinceramente. Obrigado por tudo, meu irmão. E me perdoa por tudo que fiz contra você.

KRYCEK: - Você nunca fez nada contra mim, apenas se defendeu.Me perdoe você, por tudo o que eu fiz, meu irmão. E que não foi pouca coisa. Você me devolveu a confiança em mim mesmo. Você me distraiu dos meus problemas com os seus problemas. Você me deu motivos pra reagir. Pra continuar vivo. Alguém tem que levantar o outro quando cai. E acho que mesmo caído você usou sua queda pra me levantar. E me lembrou que apesar de passar a vida chafurdando na lama, existe um mundo inteiro fora dela. Eu definitivamente não quero mais a lama. O seu perdão me tirou uma carga enorme dos ombros.

Os dois se afastam. Mulder também com os olhos em lágrimas, passa as mãos no rosto.

MULDER: - Nem eu, Krycek. Com sorte estamos na metade de nossas vidas. Podemos fazer da outra metade que nos resta algo bem melhor do que a lama em que vivemos por quarenta anos. E quero você do meu lado.

KRYCEK: - Pelos próximos quarenta anos? Mulder, é tempo demais pra aguentar a sua cara!

Os dois riem.

MULDER: - Agora vamos resolver o nosso problema.

KRYCEK: - Eu não sei se quero mais fazer isso, Mulder. E não é nosso problema, é meu problema.

MULDER: -Seu problema agora é meu problema, afinal de contas os meus problemas também são seus. Sei que depois que fizer isso, vai se sentir melhor.

Mulder abre a porta do quarto.

MULDER: - Vamos encarar, Krycek. Estou com você. Vai ter que fazer isso mais cedo ou mais tarde.

Krycek se levanta. Pega o buquê de rosas vermelhas e sai. Mulder sai fechando a porta atrás de si.


Rua 46 Este - Nova Iorque - 4:45 P.M.

Um prédio novo em construção. Krycek coloca o buquê no chão. Tira as duas alianças do dedo e coloca entre as rosas. Mulder olha preocupado pra ele. Krycek coloca as mãos nos bolsos das calças. Observa as rosas no chão.

KRYCEK: - Eu só estou vivo porque me atrasei naquele dia... Nós dois fizemos por merecer, mas o nosso filho não. Espero que me perdoem... (EM LÁGRIMAS) Eu juro aqui, onde você morreu, como jurei em cima do seu corpo morto, que nunca mais eu vou trabalhar pra esses caras que tiraram você de mim. E se depender de mim, eu revelarei tudo o que sei e continuarei a lutar contra eles e sua mentira pelo resto da minha vida.

Mulder coloca a mão no ombro dele. Olha para as rosas.

MULDER: - E Marita, eu juro que ficarei de olho nele.

Krycek se agacha. Beija a ponta dos dedos e leva sobre as rosas. Abaixa a cabeça, chorando.

KRYCEK: -Prosti menya, Marita. Me perdoe...

Mulder se afasta, deixando Krycek desabafar.


Apartamento de Ellen - Washington D.C. - 6:23 P.M.

[Som: Enigma - Mea Culpa]

Cortinas fechadas. Penumbra. Scully, numa camisola de renda preta, deitada no sofá, abraçada na almofada, derrubando lágrimas.

Kyrie eleison. Christe eleison.

Deus tenha misericórdia. Cristo tenha misericórdia.


SCULLY (OFF): - Estou enlouquecendo... Nada mais do que acreditava faz sentido... Isso foi o meu castigo. Por minha culpa Mulder está sofrendo, minha filha está sofrendo, as pessoas que amo estão sofrendo... Por minha culpa. Pelas escolhas erradas.

The Gold Coin sentado na poltrona a observa. Não vemos seu rosto, escondido na penumbra.

SCULLY (OFF): -Deus, me perdoe. Eu sou uma garota má e egoísta. Eu fui longe demais. Estou agora pagando pelo meu pecado. Por desejar o que jamais deveria ter desejado. Como pude?

Je ne dors plus (the time has come). Je te desire (the time has come).

Eu não consigo mais descansar (A hora chegou). Eu te desejo (A hora chegou).

Prends moi. Je suis a toi. Mea culpa.

Prenda-me. Eu sou sua. É minha culpa.

SCULLY (OFF): -Como eu pude ir tão longe e me entregar a devassidão? Aos pensamentos de luxúria?

Je veux aller au bout de me fantasmes. Je sais que c'est interdit.

Eu quero ir ao limite das minhas fantasias. Eu sei que isto é proibido.

Je suis folle. Je m'abandonne. Mea culpa.

Eu estou louca. Eu estou me deixando levar. Minha culpa.

SCULLY (OFF): -Eu, a racional Dana Scully? Como permiti que meu corpo falasse mais alto que a razão? Que a pele gritasse mais que o coração? Eu nunca senti nada pelo Alex! O que está acontecendo comigo? Isso não pode ser real... É algo que me convenceram a pensar.

THE GOLD COIN (OFF): -Podem ter convencido o seu cérebro. Mas nada brota no coração sem haver uma semente a ser germinada.

SCULLY (OFF): - Não... Eu posso ver agora. Não era Alex... Era Mulder, o tempo inteiro. Todas essas lembranças em minha mente não eram de Krycek, eram de momentos com o Mulder! Oh meu Deus!

Je suis la et ailleurs. Je n'ai plus rien. Je deviens folle. Je m'abandonne. Mea culpa.

Eu estou perdida. Eu não tenho nada. Eu estou louca. Eu estou me deixando levar. Minha culpa.

Je ne dors plus. Je te desire. Prends moi. Je suis a toi.

Eu não consigo mais descansar. Eu te desejo. Prenda-me. Eu sou sua.

THE GOLD COIN (OFF): - Deus esqueceu de você, Dana. Odeie ele. Seu filho amado está morto, sua filha aberração está viva e isso não é justo. Deveria ser o contrário, não? Deus enganou você. Deixou você sofrer como faz com todas as pessoas e ainda tem a cara dura de mandar profetas escreverem que ele se importa com vocês! Tanta oração pra nada! Agora sua cabeça está numa confusão, ama Alex e se engana com Mulder porque ele se entrega mais fácil. Siga meus conselhos, Dana. Eu não vou abandonar você...

Scully começa a chorar sentindo-se culpada.


Hotel Deschamps - Rua 46 Este - Nova Iorque -6:37 P.M.

Krycek só de calças jeans fazendo a barba. Mulder no chuveiro.

MULDER: -Não faz ideia aonde aqueles miseráveis estão se escondendo agora? Eles devem ter algum lugar pra se encontrar já que acabaram com a própria sede deles.

KRYCEK: - Não. Seu "papai" não disse nada?

MULDER: - Nem perguntei. Acha que ele me diria?

KRYCEK: - Não. Nem se roubasse os cigarros dele e saísse correndo.

MULDER: - Vou usar seu xampu.Quem sobreviveu deles? O Fumacinha, Strughold, Diana Fowley que foi promovida... Quem diria! Nunca imaginei que ela chegasse a esse ponto... Garganta Profunda sumiu. Grande parte deles foi morto por aquele demônio...

KRYCEK: - Mulder, a velharada caquética morreu. Mas colocaram gente nova naquelas cadeiras. Gente que nem fazemos ideia. Pode ser qualquer um, podem estar em qualquer lugar.

MULDER: - Conhece o ditado quem vai a santo vai a Deus?

KRYCEK: - O que quer dizer com isso?

MULDER: - Eu não vou mais perder meu tempo correndo atrás do Sindicato das Sombras. Já sei o que fazem, porque existem e como o esquema funciona, porque você me entregou tudo de bandeja. Vou propor algo mais interessante pra você.

KRYCEK: - Por que tenho a sensação de que você vai me arrastar pra mais confusão?

MULDER: - Vamos descobrir o topo da pirâmide. Quem está nele e aonde se escondem e o que querem. Eles pediram por isso quando ferraram a minha Scully!

KRYCEK: - Mulder, se você levou anos pra descobrir quem era e aonde se escondia o Sindicato, vai levar o resto da vida pra chegar nos caras do topo do esquema. E é capaz de morrer sem chegar lá!

Mulder mete a cara pra fora do box.

MULDER: - Rato, você não sabe do que a minha persistência é capaz.

KRYCEK: - Ah, eu sei! E como eu sei! Já sabemos do Alberthi. Acha que vamos chegar aos outros? Quem sabe nós dois damos umas porradas no Richard Gere e ele confessa? Mulder, esses caras preferem morrer a entregar o outro!

MULDER: - Vale tentar, não vale? Quanto mais alto, maior tombo. Será um prazer derrubar eles lá de cima... Topa?

KRYCEK: - Lógico que topo! Acha que vou deixar você se divertir sozinho?

Mulder começa a rir e volta pra baixo do chuveiro.

MULDER: - Eu sou um cara curioso e sou intrometido. Ontem passei boas horas acessando informações pelo FBI... Ela é cubana de nascimento.

KRYCEK: - Quem é cubana?

MULDER: - Como quem? Sua jornalista adorada. Barbara Wallace é o nome artístico. O nome dela é Barbara Ramirez. E acho que nem o Byers sabe disso.

Krycek solta o aparelho de barbear e começa a rir.

KRYCEK: - Cubana? Faz sentido. Agora entendi porque ela conhece tanto a cultura russa!

MULDER: -(DEBOCHADO) É, a filha do Fidel é chegada num russo. Então? Vocês já tem muito em comum, são comunistas.

KRYCEK: - Vai se ferrar, Mulder! Eu não quero saber! Ela me deu um tapa!

MULDER: - Ah, mas como você é magoadinho! "Ela me deu um tapa". O que eu já tomei de tapas na vida! Até da Scully! Doeu mais no seu ego, Rato. Deixa ele de lado e arrisca. Ela tá a fim de você, mas você ainda não acertou como chegar. Barbara tá jogando com você, explorando o território, procurando ver se vale a pena ou não, estabelecendo limites... Mulher faz isso! (DEBOCHADO) Aposto que a sua cubana é chegada num charuto russo.

Krycek abaixa a cabeça rindo alto.

KRYCEK: -A Scully tem toda a razão, só sai perversão dessa sua mente suja! Para de me fazer rir ou vou acabar com a cara toda cortada!

Mulder fica quieto. Krycek volta a fazer a barba.

KRYCEK: - Pensei que ela fosse mexicana... (CURIOSO) O que mais descobriu?

MULDER: - (RINDO) ... Você disse que não quer saber.

KRYCEK: - Mulder!

MULDER: - Ela conseguiu entrada no país para cursar jornalismo aqui na Columbia... Se formou com honra. Fez estágio no jornal Washington Daily, e depois conseguiu visto permanente porque ganhou um emprego na TV da mesma rede, a RBN, Rockfell Broadcasting Network. Ela é sortuda porque já começou na maior rede de comunicação do país e como a garota do tempo do jornal matutino. Em dez anos ela já era apresentadora do jornal das oito. E tem 32 anos.

KRYCEK: - Ela tem 32 anos? Nova demais pra mim.

MULDER: - Que nova demais pra você! Uma mulher com 32 anos já sabe o que quer da vida. Você é que ainda não sabe! Siga a sua vida, Krycek. Marita não gostaria de ver você repetindo o erro que cometeu com ela. Nunca deixe a vida pro amanhã... Convida a Barbara pra beber alguma coisa num bar, um território neutro, entende? Ela não vai dizer não por se sentir mais segura. E você não vai tentar nada pra tomar outro tapa. Vai devagar dessa vez. Estuda a sua oponente primeiro pra saber até aonde pode ir com ela. Você faz tudo errado, eu tenho que ensinar tudo pra você?

KRYCEK: - Ah sim, falou a voz da experiência! Mulder, se eu for atrás das suas dicas para conquistar uma mulher, vou levar sete anos pra transar com a Barbara! E visto que eu não trabalho com ela todo o dia, esse tempo pode até dobrar! Preciso ser mais claro? Vai ser lento assim nos Arquivos X mesmo! Sete anos, Mulder? Por favor! E aposto que por culpa sua, pela Scully já teria rolado em bem menos tempo!

MULDER: - Isso foi sem graça, Krycek! Eu dava em cima dela, Scully que não me levava a sério! Mais claro do que eu era, só se eu agarrasse Scully! E aí certamente tomaria um tapa como você tomou, porque eu não sou idiota e sei a diferença entre damas e vadias.

KRYCEK: - Você faz piada de tudo, como Scully poderia levar suas cantadas a sério? Achou que você estava tirando sarro da cara dela! Ou jogando verde por um momento de carência, o que é pior ainda. Ela deve ter pensado muito que não valia a pena deixar rolar e ter que encarar você no trabalho depois de uma loucura momentânea. E conhecendo seu senso de humor ferino, seria impossível ela não ouvir piadinhas depois. Scully é racional, você que é emocional. E eu também sei a diferença entre damas e vadias. É que diferentemente de você, eu não escondo minhas intenções por sete anos. Eu já vou direto ao assunto!

MULDER: - Pior que as minhas dicas seria você ir atrás das dicas do Carter. Por ele você faz filho antes de beijar, todo amor é apenas platônico e não pode haver cenas íntimas em séries de TV.

Um celular toca. Krycek procura o celular.

KRYCEK: - Mulder, é o seu... Scully ligando.

Mulder puxa o roupão de banho pela porta do box. Sai do box amarrando o roupão. Krycek entrega o celular. Mulder pede silêncio com o dedo nos lábios. Krycek seca o rosto, olhando pra ele. Mulder atende.

MULDER: - (SÉRIO/ AO CELULAR) Mulder... Oi... Sei... Não, não estou em casa... Não, eu não vou me encontrar com você hoje.

Krycek morde os lábios, observando Mulder sério ao telefone.

MULDER: - (AO CELULAR) Scully, quantas vezes eu já disse pra você que não estou disponível só quando você precisa de mim? ... Ah, quer conversar, só conversar... Ok, a gente conversa segunda-feira no FBI... Não pode esperar? ... Ok, amanhã depois da sete da noite eu posso conversar com você... Hoje estou ocupado... Não interessa o que estou fazendo... (DEBOCHADO/ OLHANDO PRA KRYCEK) É, tô com uma piranha num motel... Ela é morena, olhos verdes, alta e...

KRYCEK: - (DEBOCHADO/ FALANDO BAIXO) ... E acabou de fazer a barba pra não pinicar na sua nuca.

MULDER: -(AO CELULAR/ SEGURA O RISO) Eu escolho o lugar? Tá bom, na cafeteria em frente ao FBI. Boa noite!

Mulder desliga.

MULDER: - Quer assunto... Eu não tô pra assunto com ela! Minha cabeça tá fervilhando, eu quero mais é relaxar e distrair antes que eu faça alguma besteira. Estou cheio de teorias que ainda não consegui encaixar. (IMITANDO A VOZ DE SCULLY) "Aposto que está num motel com uma piranha"... Eu mereço!

O celular de Krycek toca.

MULDER: -Por que toda mulher pensa que quando você não está com ela certamente está em algum motel com outra mulher? Elas acham que a gente não tem mais o que fazer na vida?

Krycek olha para o visor. Suspira e mostra pra Mulder. Vemos "Scully" no display.

MULDER: - Atende, Rato. Vê o que ela quer. Aposto que como o ex não está disponível, ela tá tentando o amante pra "conversar".

Krycek atende.

KRYCEK: -(AO CELULAR) Fala, Scully... (OLHA PRA MULDER) Não, não estou em casa.

Mulder suspira desanimado.

KRYCEK: -(AO CELULAR) Não, eu não estou com o Mulder... Ahn, falar comigo? Quando? (OLHA PRA MULDER) Tá. Amanhã às 7 da noite na cafeteria em frente ao FBI.

Mulder faz sinal de positivo.

KRYCEK: -(AO CELULAR) Tá, estarei lá.

Krycek desliga. Os dois trocam um olhar de interrogação.

KRYCEK: - Mulder, ela deve ter algo urgente pra falar. E como envolve nós dois...

MULDER: - Será que finalmente Scully caiu em si e conseguiu ver a verdade? Seguinte, Rato, eu combinei da gente conversar com o Donald mais cedo, no mesmo lugar. Então esperamos Scully. Juro que agora eu tô curioso pra saber o que ela quer falar.

KRYCEK: - Idem. E quando ela chegar, o nosso assunto com o Donald termina. Não acho prudente que Scully saiba quem estamos investigando e nem que ela está envolvida nisso. Lamento, Mulder, mas não podemos confiar na Scully.

MULDER: - Eu sei, Rato. Infelizmente eu sei.


Domingo

Cafeteria George Washington – 7:58 P.M.

Cervejas sobre a mesa. Mulder sentado ao lado de Donald. Krycek sentado de frente pra eles. Discutem alguma coisa, enquanto Mulder rabisca um guardanapo.

MULDER: - Não, eu não estou errado. Vejam isso aqui. Olhem bem, prestem atenção em como as letras do nome B.A. Alberthi formam uma palavra Cananeia, Baalberith, que é o nome de um demônio.

DONALD: - O mestre da aliança infernal. É citado diversas vezes no antigo testamento, com o nome de Baal. Interpretamos isso no seminário como uma das formas do demônio.

MULDER: - E em algumas hierarquias ele é o secretário dos arquivos do inferno, o demônio da blasfêmia e do assassinato. Quem anda blasfemando muito por aí?

KRYCEK: - Eu não sou especialista como vocês dois, mas concordo com isso. Só discordo que esse seja o pseudônimo dele.

DONALD: - E que mãe infeliz daria um nome desses ao filho?

MULDER: - Não sei, tô perdido.

DONALD: - Quer que eu coloque uns dois agentes pra acompanhar os movimentos desse tal Alberthi? Quem sabe escutas?

MULDER: - Pra se encrencar com Kersh? Não, muito obrigado. Se precisar de ajuda em alguma coisa, contarei com o fato de você ser ex-padre. Vai ser mais útil.

DONALD: - Pode contar.

Donald se levanta e sai.

KRYCEK: - Ele é um cara legal.

MULDER: - Fomos colegas desde a Academia... (DEBOCHADO) Tá com ciúmes?

Krycek abaixa a cabeça. Os dois ficam em silêncio. Mulder começa a rir.

KRYCEK: - (RINDO) Mulder, por favor! Para com essas palhaçadas! Você está queimando a minha reputação! E a sua também, né?

MULDER: -(RINDO) Deixa eu me divertir, Krycek. Quem liga pra reputação?

KRYCEK: - É, "deixa eu me divertir Krycek", desde que seja com a sua cara.

MULDER: - Eu só acho engraçado. Tá, mas isso aborrece você, desculpe eu...

KRYCEK: - Não, nada a ver. E eu nem ligo mais pras suas besteiras, ok? Nada que venha de você é sério. Mulder, você não cresce!

MULDER: -Eu lembrei agora do meu vizinho, o George, marido da fofoqueira, sabe?

KRYCEK: - O que tem ele?

MULDER: - Eu tava lavando o carro, ele chegou meio sem jeito... Puxou aquele papo comum de vizinho, sobre o tempo e essas coisas... Aí depois de um pouco de conversa, bateu no meu ombro e disse que eu não devo ligar para o que as pessoas pensam de mim, que as pessoas apenas julgam, eu devo é ser feliz com quem eu me sinto bem. E que ele acha você um cara legal.

Os dois começam a rir.

MULDER: - Melhor você não aparecer mais na minha casa, "amorzinho". Nós somos o centro das atenções. Viramos o casal gay da rua.

KRYCEK: - E vai demitir a Baba, a sua amante negra e sadomasoquista também? E vamos ter que parar nosso ménage à trois com a Scully? Sem graça, "amorzinho".

Os dois riem mais ainda.

MULDER: - Cara, a Baba tá tão fula com a Nancy, que uma hora dessas vai ter briga pela cerca e a coisa vai ser feia. Eu que não estou numa fase boa, mas vai ter troco essa fofoca toda, pode apostar. Eu vou aprontar uma pra jararaca linguaruda que ela vai cair desmaiada no chão.

KRYCEK: - Admita, Mulder. Você adora provocar a vizinha. Você pede pra ela inventar coisas sobre você! E aí se coloca mais ainda na linha de tiro. Eu virei seu amante policial gay, amante da sua mulher, traficante de drogas em pizzas e sei lá mais o que aquela beata pervertida pensa!

MULDER: - Eu pouco me importo com o que pensam de mim. Acho mais engraçado ainda alimentar a imaginação. Você pode estar sempre na sua que alguém vai inventar alguma coisa sobre você. E nunca é coisa boa. As pessoas precisam julgar. Se você é bom ou ruim, não adianta querer provar. Elas já têm sua opinião formada, não vai convencer e vai gerar mais burburinho. Então o melhor é chocar as pessoas, pelo menos é bem mais divertido. Ainda mais quando a vizinha é a presidente do Comitê de Moralidade Cristã... Acho que vou lavar o carro usando apenas cuecas. Ou quem saber tomar banho nu na piscina?Sabe as suas amigas prostitutas? Eu pago elas pra irem tomar banho nuas na minha piscina. Orgia total e aquela velha enfarta e larga do meu pé!

KRYCEK: - (RINDO) Mulder, fala sério, você é louco! Eu não duvido mais nada de você! Eu só quero assistir é as porradas que você vai levar da Scully se ela descobrir. Isso é o que eu quero assistir de camarote!

Scully entra na lanchonete, procurando os dois com os olhos.

MULDER: -Pronto. Falou na encrenca... (DEBOCHADO) A nossa mulher vem vindo aí. Encara você hoje, porque eu não tô com nenhum tesão pra isso.

Os dois começam a rir. Scully aproxima-se da mesa, olhando desconfiada pra eles. Mulder amassa o guardanapo rabiscado e coloca no bolso disfarçadamente.

SCULLY: - Posso me sentar? Ou estou atrapalhando o casal feliz?

Mulder e Krycek riem mais ainda. Scully fulmina os dois com o olhar. Mulder se levanta. Scully senta-se à mesa, entre os dois.

SCULLY: - Então? Sobre o que conversavam, do que estavam rindo, eu posso saber? Ou é segredinho de casal?

Mulder abre a boca debochado, mas Krycek pressente a piada contra ele e se adianta.

KRYCEK: - Eu estava colocando em pratos limpos pro Mulder sobre a nossa relação. Scully, eu me sinto mal em ser seu amante e trair você com o seu ex-marido. Um homem pra vocês dois não dá. Admito, não tô aguentando.

Mulder olha incrédulo e em pânico pra Krycek.

KRYCEK: - (DEBOCHADO) Deixa eu me divertir, Mulder. Quem liga pra reputação?

SCULLY: - Ah, bem que eu imaginava mesmo! Sabia que nessa relação Mulder era o passivo.

Mulder olha incrédulo e em pânico pra Scully. Krycek e Scully começam a rir. Mulder se levanta emburrado.

MULDER: - Vai ter troco!

KRYCEK: - Quando é no meu não tem troco, né? No seu arde?Doeu muito, "amorzinho"?

Mulder sai irritado. Krycek e Scully continuam rindo.

SCULLY: - Típico libriano! Folga com todos, mas quando sai folgado não gosta. Vou atrás dele ou deixo ele esfriar a cabeça, "amorzinho"?

KRYCEK: - Vai atrás dele, Scully. Ele está fazendo piadas pra fugir da realidade. Mulder anda deprimido... E não dá pra condenar, né? Ele sente a sua falta.

Scully se levanta e vai atrás de Mulder. Krycek pega o celular. Aperta uma tecla e aguarda.

KRYCEK: - (AO CELULAR) ... Oi Barbara... Eu... Eu pensei em convidar você pra beber alguma coisa... Não, estou naquele café na frente do FBI com o Mulder e a Scully... É, ainda estamos nessa confusão... (SORRI/ SURPRESO) Sério? Legal! ... Eu espero você... Tem sentido sim... Certo, pode ser. Sem problemas.

Krycek desliga. Sorri.

KRYCEK: - Mulder seu filho da mãe... Não é que você tinha razão? Território neutro...

As mãos com o anel de rubi pousam no ombro de Krycek. Ele não percebe. Coin aproxima os lábios da orelha dele.

THE GOLD COIN (OFF): -Não vai dar certo. Ela não é pra você.

Krycek fica pensativo. Bebe um gole de cerveja.

THE GOLD COIN (OFF): - Sabe por quem seu coração anseia. Um pequeno delito? Mulder não precisa saber... Fica por todas as confusões que ele fez em sua vida. Pelo braço que precisou perder. Pelas surras e retaliações. Você merece.O perdão é para os fracos.

Krycek leva a mão à gola da camiseta, incomodado.

THE GOLD COIN (OFF): - Espere ele ir embora. Saia com Scully. Ele não vai saber. Vocês serão discretos... Uma noite apenas. Mate a sua curiosidade... Sozinho com ela... Ela é quente.

Scully e Mulder entram. Krycek olha pra ela.

THE GOLD COIN (OFF): - Pele macia e cheirosa. Intensa... Sexy... Disposta a tudo, uma mulher ardente e sedutora escondida em roupas sérias e num ar sério... Ela é um vulcão explodindo e gritando pelo seu nome. Ela já deixou claro que tem curiosidade por você... Não seja tolo, Alex. Não tem nada a perder. Ela não vai contar ao Mulder, ela sabe como ele reagiria... Será o segredo de vocês... Faça, Alex. Faça.

Krycek põe as mãos no rosto.

KRYCEK (OFF): - Mas que droga de pensamento é esse, seu idiota? Tá maluco, Alex? Não mesmo! Os dois são seus amigos!

Krycek desvia a atenção e começa a rabiscar num guardanapo. Coin suspira desanimado.


Residência dos Mulder – 8:07 P.M.

Baba passa pela sala com uma pilha de roupas dobradas. Aproxima-se da escada. Volta, atraída por alguma coisa.

Victoria em pé, segurando-se no parapeito da janela, olhando pra rua, atenta.

BABA: - Ei, o que há de tão interessante lá fora?

Baba aproxima-se da janela, olhando pra fora. A rua deserta. A calçada vazia. Baba dá as costas e sobe as escadas.

BABA: - Filha do Estranho, estranha é...

Corta para a rua. Gabriel, parado em frente a casa, em roupas negras, mãos nos bolsos do sobretudo, observando Victoria, que o observa curiosa. Uma luz se projeta sobre ele. Gabriel desaparece. Victoria sorri.

VICTORIA: - Etê Baba!!! Biel!!!


Cafeteria George Washington – 8:28 P.M.

Mulder abaixa a cabeça, preocupado. Krycek rabisca no guardanapo.

MULDER: -Ela está estranha. Ligou pra nós querendo conversar, nos trouxe até aqui e até agora não disse o que queria falar. Parece que pensa e repensa se deve dizer ou não.

Scully se aproxima e senta-se ao lado de Mulder, em frente a Krycek.

MULDER: -O que queria falar de tão importante com a gente, Scully?

SCULLY: - Eu...

As mãos masculinas, uma com o anel de rubi, se colocam sobre seus ombros. Scully fecha os olhos.

THE GOLD COIN (OFF): - Olhe para a sua frente, Dana.

Scully olha para frente. Vê Krycek, entretido, rabiscando no guardanapo.

THE GOLD COIN (OFF): - Músculos, pele... Sente o perfume? Imagine o corpo desse homem sobre o seu. Imagine, Dana. Observe como ele parece tão vulnerável enquanto brinca feito um menino. Os lábios. Os olhos. O rosto. Imagine corpos suados e esgotados de tanto prazer.

Scully fita Krycek sem tirar os olhos. Mulder percebe.

MULDER: -(IRRITADO) O que queria falar de tão importante conosco?

Scully olha pra Mulder.

SCULLY: - O que disse?

MULDER: -(IRRITADO) Em que planeta você está? No planeta Alex Krycek?

Krycek disfarça e continua rabiscando sem olhar pra Scully.

SCULLY: - (IRRITADA) O que você tem a ver comigo? Está me vigiando é? Ou quer ele apenas pra você?

Mulder fica incrédulo. Krycek, desconcertado, nem reage.

THE GOLD COIN (OFF): - Mulder não tem nada a ver com você, Dana. Coloque ele em seu lugar.

Mulder abaixa a cabeça, magoado. Scully olha pra Krycek. Analisa-o.

THE GOLD COIN (OFF): - Faça. Permita-se fazer novamente.

SCULLY (OFF): - ... Não. E-eu não fiz isso. Eu nunca transei com Alex!

THE GOLD COIN (OFF): - Como não fez?

SCULLY (OFF): - Para com isso! Me deixe em paz!!! Era Mulder, não era o Alex! As lembranças que tenho são todas de Mulder!

Mulder conversa algo com Krycek. Scully alterna o olhar para os dois. Olhar de desejo.

THE GOLD COIN (OFF): - Carne, prazer... O que há para se perder, Dana? Eu só incentivo o que há dentro de você. Não sou eu quem fez de você uma aventureira. Você não vivia querendo ser livre de culpas, desejada, adorada? Seja, Dana! Eu quero que seja. Não precisa haver culpa na luxúria. Eu sou seu amigo, me importo com você. Nunca a abandonei.

SCULLY (OFF): -Me abandonou sim quando pedi sua ajuda para nos salvar daquele assassino serial!

THE GOLD COIN (OFF): - Não, minha criança tola. Eu não deixaria que ele matasse você. Nem sua filha esquisita, aquela aberração que seu maridinho defende...

Scully se levanta. Mulder deixa ela passar. Scully olha pra Mulder.

THE GOLD COIN (OFF): - Faça, Dana. Mulder mentiu tanto pra você. Use-o como um mero objeto de prazer, é tudo o que ele terá de você. É uma forma de vingança, não concorda?

Scully pisca pra Mulder, se insinuando. Afasta-se. Mulder puxa a carteira, coloca o dinheiro na mesa e sai com Scully. Krycek acena negativamente com a cabeça.

KRYCEK: - E lá vai ele de novo feito um cachorrinho... Eu não sei como aguenta essa situação!

BARBARA: - Nem eu sei como você aguenta essa situação. Precisa ser muito amigo mesmo pra estar no meio do fogo cruzado. Agora entendo quando me disse que quem vai sair perdendo é você.

Krycek olha surpreso pra Barbara. Ela num vestido simples, cabelos soltos, senta-se de frente pra ele segurando duas cervejas. Entrega uma cerveja pra ele.

BARBARA: - Como eu disse ao celular, eu ia esperar Scully sair pra sentar aqui. O triângulo já é confuso, imagine um quadrado? Não quero mais confusão com sua amiga do FBI. Ela pensa que eu quero tomar os brinquedos dela.

KRYCEK: - Por isso prefiro as coisas menos complicadas, como o número dois. É um número perfeito.

BARBARA: -Então, alguma coisa pra falar?

KRYCEK: - Na verdade uma pergunta. Por que me deu aquele tapa?

BARBARA: -Outra pergunta: Por que ousou?

KRYCEK: - (SORRI)Você é arisca como uma gata... Eu gosto disso.

BARBARA: -Eu sou uma gata. Tome cuidado comigo, rato.

KRYCEK: - Gosto de você, Barbara Wallace. E admito que estou perdido tentando adivinhar como chegar em você, porque eu estou interessado. Se não for recíproco, diga logo. Vai me magoar menos. Eu sou adulto, posso lidar com uma recusa.

BARBARA: -Você conhece aquela brincadeira do quente e frio? Você esconde alguma coisa e a outra pessoa tenta adivinhar aonde está. Conforme ela chega perto, você diz "quente". Quanto mais longe, "frio".

KRYCEK: -É, eu conheço essa brincadeira.

Barbara bebe um gole de cerveja. Krycek a observa fascinado.

BARBARA: -Bem, eu vim até aqui para que você não pensasse que estou evitando sua presença, embora nos falemos muito por telefone. Agora tenho que ir. Estou fazendo alguns trabalhos freelancer e preciso entregar amanhã cedo.

KRYCEK: - Não conseguiu outro emprego?

BARBARA: -Na minha área nunca mais conseguirei. Não em jornalismo sério. Joguei meu diploma na lixeira quando abracei a causa de vocês. Todas as portas se fecharam. E temo que precise ir embora da América também. Estou com medo desse Sindicato das Sombras.

KRYCEK: - Eu lamento ter envolvido você... Já pensou em trabalhar para um concorrente da RBN? Existem outras emissoras, jornais, agências... Você é uma ótima jornalista...

BARBARA: -As portas se fecharam. Você não sabe de nada. E também não sabe nada sobre mim, Alex Krycek.

KRYCEK: - Então me deixa saber!

BARBARA: -... Quente, Alex.

Barbara se levanta. Krycek se levanta.

KRYCEK: - Vou acompanhar você. Preciso trabalhar. Tenho plantão na delegacia essa madrugada.

Corte.

[Som: Jon Secada - Just Another Day]

Krycek e Barbara saem juntos do bar. Chuva fina. Barbara se abraça, com frio.

BARBARA: - Não acredito como o tempo mudou!

Krycek tira a jaqueta e coloca sobre os ombros dela. Barbara fecha os olhos.Os dois ficam um de frente pro outro na calçada, debaixo da chuva.

BARBARA: - De onde está vindo essa música?

Krycek olha pra cima, molhando o rosto.

KRYCEK: - Do apartamento ali em cima.

BARBARA: - (OLHOS FECHADOS) Amo essa música! Meu conterrâneo. Amo as músicas dele!

KRYCEK: -Jon Secada...

BARBARA: - (SORRI/ SURPRESA) Você conhece Jon Secada? Um cantor latino, cubano...

KRYCEK: - Eu gosto de música, eu sempre quis ser cantor, esqueceu? E gosto de música romântica, não apenas as clássicas. Existem ótimos cantores latinos. São os melhores para esse tipo de música mais popular. Eles captam com sensibilidade algo a mais. Acho que tem a ver com a colonização espanhola "caliente"...

BARBARA: - (SORRI/ SURPRESA) Você? Não! O badboy conhece música romântica? Pensei que só ouvisse metal ou hip-hop!

KRYCEK: - (INCRÉDULO) Eu? Metaleiro? Hip-hop? Não!!!

BARBARA: - Ah, essa foi a surpresa da noite! Valeu até tomar banho de chuva!

KRYCEK: -(RINDO) Barbara, eu não passo o dia atrás de conspiradores. Eu faço outras coisas também. Escuto música, canto baixinho, leio revistas, faço palavras cruzadas, trabalho. Eu sou uma pessoa comum, não um alienígena! Eu tenho uma vida fora dessa coisa toda. Por que a surpresa?

Barbara sorri, olhando apaixonada pra ele.

BARBARA: - Quente, Alex...

KRYCEK: -(SORRI) Spasiba. Obrigado pela cerveja. Na próxima eu gostaria de pagar. Se não for uma ofensa pra você o cavalheirismo de um homem.

BARBARA: -Se fôssemos casados, seria frio e gelado. Como não somos, é quente.

KRYCEK: - (SORRI) Realmente gosto de você, Barbara Wallace. Não posso ainda dizer que eu te amo, porque estaria mentindo.

BARBARA: -Quente, como toda a sinceridade.

KRYCEK: - Apenas acho que não é recíproco da sua parte.

BARBARA: -Gelado, Alex... Como Moscou no inverno...

Barbara abaixa a cabeça.

KRYCEK: - Eu vou arriscar levar outro tapa. Mas é apenas um costume russo.

Krycek se aproxima dela. Os dois ficam se olhando, rosto bem perto um do outro. Krycek leva as mãos pra trás. Aproxima os lábios dos dela e lhe dá um beijo no rosto. Afasta-se.

BARBARA: - (SORRI) Quente.

KRYCEK: - (SORRI) Entendi. Agora entendi o que procura. Não é um caso, uma transa e um adeus.

BARBARA: - Então fuja o mais rápido possível, "Ratboy". Corra pra bem longe de mim. Você só quer uma aventura, e eu já estou apaixonada por você o suficiente para não me permitir ceder ao seu encanto. Eu não quero sofrer quando você acordar e dizer adeus. E eu sei que vou sofrer. Eu já tenho 32 anos e não quero perder meu tempo com homens que só querem sexo. Eu quero conhecer alguém que também queira deixar de ser sozinho na vida. Como você disse, o número dois é perfeito. Eu sou romântica demais e você é o tipo do homem que não quer compromisso.

Barbara vai saindo. Krycek a segura pela mão.

KRYCEK: - Frio, Barbara, frio como a Sibéria.

Barbara esboça surpresa.

KRYCEK: -Quer que eu leve você pra casa? Está chovendo. Eu vou me comportar. Agora eu sei o que esperar de você.

BARBARA: - Não precisa. E-eu vim até aqui dizer pra você nunca mais me ligar e agora... Agora eu preciso caminhar pra pensar. Você quebrou minhas pernas, moço.

Barbara leva as mãos para tirar a jaqueta dele.

KRYCEK: - Você me devolve depois. Ainda temos muita coisa pra conversar. Não sabemos muito um do outro. Acho que teremos assunto e tempo para nos conhecer melhor.

BARBARA: -Eu gostaria disso.

KRYCEK: -(SORRI) Spokoynoy nochi, Barbara Wallace!

BARBARA: - (SORRI) Buenas noches, Alex Krycek!

Ela vai pra um lado, sorrindo boba, atordoada por sentimentos. Krycek segue pelo outro, sorrindo empolgado. Tira as chaves do carro do bolso. Aproxima-se da esquina. Dois policiais surgem na frente dele.

POLICIAL #1: - DetetiveAlex Krycek?

KRYCEK: -(ASSUSTADO) Ninguém na polícia sabe o meu verdadeiro nome...

O Policial #2 agarra Krycek pelas costas enquanto Krycek tenta se soltar. O Policial #1 acerta um soco na cara dele e depois aponta a arma na cabeça de Krycek, que ergue os braços. O Policial #2 tira a arma dele e o revista. Uma limusine freia na rua. Os dois empurram Krycek pra dentro da limusine.

Corte.


Motel - 9:11 P.M.

Scully sentada na cama de casal. Termina de calçar os sapatos. Ela se levanta. Veste um casaco e pega sua bolsa, jogada sobre o paletó de Mulder. Ele sentado na cama, apenas de calças, cabisbaixo. Scully caminha até a porta.

MULDER: - Coisa animalesca vir pra um motel, ter uma hora com você e voltar pra casa.

SCULLY: - ... Amanhã temos que trabalhar.

MULDER: - Eu só queria entender...

SCULLY: -Não há o que entender.

MULDER: - ... Eu sei porque você não dorme comigo.

THE GOLD COIN (OFF): - Não escute ele ou vai doer muito em você, é uma promessa. Apenas carne. Sexo. Mentira. Use-o. Ele merece sofrer.

Scully solta a maçaneta da porta. Fecha os olhos.

MULDER: - Fazer sexo com alguém é apenas fazer sexo, não envolve sentimento, envolve apenas necessidade de prazer, seja físico ou psicológico. Mas dormir com alguém envolve amar. E você me ama. E morre de medo disso. Portanto, não passa a noite comigo. Porque sabe que se ficar do meu lado, eu direi as palavras que você não quer ouvir. Eu acariciarei você. Tomarei você nos meus braços, falaremos sobre coisas pessoais e isso... Isso é amor. E você não quer ouvir isso.

SCULLY: - ...

THE GOLD COIN (OFF): - Pense em amor e verá o que acontece.

SCULLY: - (TENSA) ...

MULDER: - Só um abraço?

SCULLY: - Eu não amo mais você. É por isso que não dormimos juntos.

MULDER: - ...

SCULLY: - ... Eu disse a você que arranjasse outra pessoa, Mulder. Sinta-se livre pra fazer isso. Não precisa ceder aos meus convites.

MULDER: -(OLHA PRA ELA) Estou me sentindo livre pra isso, Scully. Mas há uma séria distância entre sentir-se livre e conseguir amar outra pessoa.

Scully abaixa a cabeça.

SCULLY: - Eu sei que você não mentiu pra mim. Encontrei nosso filho, Mulder.

Mulder fecha os olhos. Scully ergue o rosto, derrubando lágrimas.

SCULLY: - Você tinha razão, ele está morto.

MULDER: - Tem certeza de que é ele?

SCULLY: - Lembra do Maine? Nos usaram para outra experiência. E dessa vez usaram nós dois. Não apenas cada um em separado. Talvez estivessem testando nossos genes antes de fazerem uma fusão. Provavelmente como obtiveram sucesso nas experiências com a minha abdução e com a sua... Resolveram misturar nossa genética abduzindo os dois no mesmo processo. Por isso ele era nosso filho. Usaram nossas células.

MULDER: -Olhando para trás faz sentido o que você concluiu. Pelo menos me explica o porquê sempre fomos abduzidos em separado... Eram testes pra algo muito maior. Scully, mas como chegou até ele? Quem deu a informação?

SCULLY: -Não importa como cheguei até ele. Estou dizendo que era sim nosso filho. Eu fiz todos os testes de DNA possíveis.

Mulder abaixa a cabeça, mordendo os lábios, segurando as lágrimas. Põe as mãos no rosto.

MULDER: - Meu Deus! Esse pesadelo nunca vai acabar? Scully, por favor, vamos seguir em frente, como seguimos tantas outras vezes! Eu não aguento mais revirar o passado, entende? Isso é cruel demais! Vamos enterrar o nosso filho e deixá-lo descansar em paz! Se você chegou até ele, aqueles homens virão atrás do corpo! Se você o encontrou, eles já devem saber!

SCULLY: - Eu imagino que virão. Pela genética dele.

MULDER: - Sim, Scully. Se é nosso filho, ele deveria ser como Victoria. Por que mais viriam?

SCULLY: - Pelos genes alienígenas que existem nele. Genes que desconheço a espécie.

Mulder fica atordoado. Coin, sem que eles percebam, senta-se na poltrona atento.

MULDER: -Como assim? Está falando dos meus genes alienígenas, não é? Porque quando tiraram ele de dentro de você, ele era humano! Eu vi!

SCULLY: - Sim. Parece humano. Mas tem genes... (SEGURA AS LÁGRIMAS) ... Eu não posso explicar de uma maneira racional o que vi. Não se encaixa em nada que minha ciência possa responder! E não creio que ele fosse igual a Victoria. Nós não o fizemos juntos, Mulder! Eles fizeram por nós! E se tivéssemos tido acesso aos genes dele, ao contrário de usarmos os genes de Victoria mesmo ainda no meu útero... Nunca teríamos conseguido uma vacina contra o câncer negro! Nem seu pai sabia disso! Acho que nem o Sindicato desconfiou! Todos brigaram e se mataram por nada, Mulder! E o que isso me diz? Me diz que até eles foram tolos e seja alienígena ou não, quem manipulou essa experiência o fez intencionalmente, os usando para um fim e enganando todos eles tentando criar alguma coisa que se parecia conosco, mas talvez com o propósito de destruir a nossa própria espécie!

MULDER: -(SUSPIRA) Greys, Scully. Eram Greys. E tudo o que você está me dizendo faz muito sentido com as coisas que eu vi quando me abduziram com Victoria. Como eu disse pra você, outra espécie alienígena interferiu nos planos deles... Eu quero ver os resultados desse DNA.

Coin observa os dois, mais curioso ainda. Scully tira um papel dobrado do bolso e entrega pra Mulder. Mulder abre o papel observando. O pavor toma conta dele.

MULDER: -(MEDO) O que quer dizer com genes desconhecidos e genes pertencentes a classe reptilia?

Coin se levanta. Scully abre a porta e sai, Coin sai atrás dela. Scully fecha a porta e escora-se na porta, chorando.

Mulder amassa o papel na mão, cai na cama e começa a chorar.

Corte.


9:13 P.M.

Dentro da limusine, dois sujeitos grandalhões puxam Krycek e o fazem sentar no banco. Krycek então percebe quem está sentado à sua frente.

STRUGHOLD: - Não estava morto, Alex Krycek? Era para o rato descartável estar naquele prédio com a sua ratazana igualmente descartável. Pelo menos apareceu um corpo que o FBI disse que era seu.

KRYCEK: -(GRITA) Desgraçado!

Krycek quer avançar em Strughold, mas os sujeitos o seguram.

STRUGHOLD: - Ficou amigo do Mulder? Isso não me convence. O que está armando com o Spender? Vão pegar a menina sem o meu conhecimento?

KRYCEK: - (ÓDIO) Eu não tenho mais nada com nenhum de vocês! Po'shyol 'na hui!!!

Krycek cospe em Strughold. Os seguranças enchem ele de tabefes. Strughold limpa o rosto com um lenço e pede num sinal que eles parem.

STRUGHOLD: -Quando chegou neste país, feito um rato sujo soviético, vindo dos esgotos imundos de Moscou, não falaram pra você que não há como sair disso? Não vivo. Já que está tão amigo do Mulder e tem passe livre na casa dele... Você poderia pegar a menina sem levantar suspeitas. E entregá-la pra mim.

KRYCEK: - (AOS GRITOS/ ÓDIO) Mechta, sukin syn!!! Sonha, filho da puta!!! Eu vou te ferrar, nazista desgraçado!!!

STRUGHOLD: - Bom, eu lhe dou uma escolha. Você me traz a menina ou...

Strughold abre a janela que dá para o motorista. Barbara Wallace sentada no banco, chorando, amarrada, amordaçada e com uma arma apontada na cabeça.

STRUGHOLD: - Acho que entendeu. Quero uma troca. Não esqueça que sempre há lugar para mulheres nos meus projetos científicos de reprodução. Ou eu deveria explodi-la como fiz com Marita Covarrubias?

Krycek tenta se soltar pra atacar Strughold, mas os sujeitos o seguram.

KRYCEK: - (GRITA/ ÓDIO) Po'shyol 'na hui!!! Eu ainda vou te matar!!!

STRUGHOLD: - Você está acostumado a trair as pessoas. Estou apenas pedindo um serviço. O mesmo que sempre fez. Não será nada de mais, serviço fácil, coisa que você sabe fazer muito bem. Não me venha com crise de consciência e palavrões em russo. Entregue a menina pra mim e terá essa piranha cubana de volta. Caso contrário... Sua vadia vai virar cobaia pra Greys. Estarei de olhos em você para que não faça besteiras. Me ligue quando tiver a resposta.

A limusine para. Eles atiram Krycek na rua. A limusine parte.

STRUGHOLD: - Alberthi tem muita paciência. Eu cansei de esperar. Quero aquela criança agora.

Corte.


9:18 P.M.

[Som: Enigma - Dancing With Mephisto]

Close nos sapatos altos e pretos caminhando pela calçada molhada e escura.

Atrás dela, os sapatos masculinos bem lustrosos e negros que a acompanham.

Foco sobe. Ele brinca com a moeda entre os dedos, enquanto caminha, com uma das mãos no bolso do terno bem alinhado.

Ela para na esquina, iluminada por apenas um poste. Ele para atrás dela.

A sombra dela ao chão, não humana, mas sim em formas demoníacas que se movimentam pelo chão em risadas satânicas.

THE GOLD COIN: - Crianças, crianças... Tomem conta dela por mim. Tenho um problema sério a resolver.

Foco sobe pelas pernas dela. É Scully, que acena para o táxi e entra. Coin segue pela calçada.


Apartamento de Ellen – 9:41 P.M.

Scully sai do elevador, com as chaves na mão. Aproxima-se do apartamento. Coloca as chaves na fechadura.

CANCEROSO: - Dana Scully...

Scully vira-se. O Canceroso parado no corredor, fumando, segurando um grosso envelope debaixo do braço. Scully abre a porta e faz sinal para que ele entre. O Canceroso acena negativamente com a cabeça.

CANCEROSO: - Então encontrou o seu filho...

SCULLY: - Seu desgraçado!

CANCEROSO: - Eu tentei protegê-lo. Mas algo não queria. Quem deu a localização do corpo pra você? Aonde está?

SCULLY: -Você sabe aonde está! Você o colocou lá, num túmulo enterrado como um indigente! Mas eu vou consertar isso amanhã mesmo!

CANCEROSO: -Não, nenhum de nós o colocou lá, isso eu lhe garanto. Eu os enganei para protegê-lo e obter uma vacina que Strughold não queria. Alguém não humano o matou e roubou seu filho pouco antes de Alex Krycek e Marita chegarem ao orfanato atrás dele e da vacina. Sabe como são os russos, eles sempre querem tudo antes de nós. Acredita que se alguém do Sindicato soubesse aonde estava essa criança, ela estaria descansando em paz e não em um laboratório de estudos?

Scully fica pensativa.

CANCEROSO: - Vamos, eu sei que fez o DNA. O que descobriu? Estávamos certos ou não? Era filho de vocês e poderia ter nos dado a vacina. Evitaria todo o seu sofrimento porque agora eles querem a sua filha. E não é para uma vacina. Vocês me enganaram e agora estão pagando o preço por isso.

SCULLY: - ...

CANCEROSO: - E sabe como eu sei que o encontrou? Porque Strughold me disse. E se ele já sabe...Deixe que peguem o cadáver, assim não precisarão pegar a sua filha.

O Canceroso estende o envelope. Scully aproxima-se com desconfiança. Pega o envelope.

SCULLY: - O que tem aqui?

CANCEROSO: - Respostas.

SCULLY: - Por que não as entrega pra Mulder?

CANCEROSO: - Porque é a sua verdade. Não a dele. Mulder já chegou na verdade que tanto buscou. Ele sabe a resposta, só não quer acreditar.

Scully olha para o envelope. Ao erguer a cabeça, o Canceroso desapareceu. Scully abre o envelope rapidamente. É um dossiê e uma folha metálica dourada. Scully entra no apartamento e tranca a porta. Pega o celular e aperta uma tecla.

SCULLY: - (AO CELULAR) ... Mulder, sou eu... Eu tinha razão. Seu pai e o Sindicato não sabem a verdade sobre nosso filho. Foram enganados...


Necrotério - 9:47 P.M.

O vigia assiste um jogo de Football na televisão. Alterna o olhar entre a tevê e o monitor de vigilância.

Gabriel vem pelo corredor. O vigia olha para o monitor, não vendo nada. Gabriel passa por ele e entra na sala do necrotério. O vigia continua assistindo o jogo.

Gabriel aproxima-se da geladeira. Vai abrindo e fechando gavetas de corpos, procurando alguma coisa. Finalmente acha.

GABRIEL: - Do pó ao pó. Apenas uma casca vazia.

Gabriel respira fundo. Sorri.

A moeda de ouro cai ao chão, fazendo barulho. Gabriel não se vira.

GABRIEL: - Deixe-me adivinhar... Não está disfarçado de Richard Gere hoje, afinal essa aparência serve apenas para ser o Alberthi. Nem de George Clooney, essa serve para enganar nas horas rápidas em que algum conhecido humano pega você aonde e com quem não deveria estar. Como você tem uma vaidade impressionante... Olá, Mr. Depp!

Gabriel vira-se. Coin, impecavelmente vestido num terno, dá um sorriso com o canto da boca, agora revelando seu rosto.

THE GOLD COIN: -Olá, Mr. "C. Walken". Não quis ser o Dr. House por hoje? Caberia bem fuçando cadáveres. Ou o Rei Tirano promoveu você a lixeiro desse planeta? Talvez veio fazer uma visitinha aos seus irmãos, abandonados à sua própria sorte nesse planetinha desprezível? O que tem aí? Algum problema para ser resolvido?

GABRIEL: -É... Problema meu e problema seu, bonitão. Considere um favor.

THE GOLD COIN: - Eu não preciso de você para resolver meus problemas, Gabriel. Eu não peço favores.

GABRIEL: - (DEBOCHADO) Vou contar uma história pra você, "Lulu"... Depois lhe dou um osso, você rola e finge de morto.

THE GOLD COIN: -(REVIRA OS OLHOS/ ABORRECIDO) O Grilo Falante começou...

GABRIEL: -Havia um idiota ciumento, vaidoso e orgulhoso numa galáxia muito, mas muito distante. Ele queria o trono do pai dele e como não ganhou, resolveu criar uma rebelião idiota na família, uma guerra idiota no multiverso, recrutou raças idiotas para se aliarem a ele e resolveu ir à desforra contra a criação mais estimada do papai, transformando tudo num caos. Aqui está a prova da idiotice dele.

THE GOLD COIN: - Não é humano?

GABRIEL: -Não totalmente. E dessa vez chegaram mais longe. Conseguiram a aparência humana, embora o tempo de sobrevida não passe de poucos anos. Como dizer isso aos pais? Hum? Como permitir que ele sofresse, durante seu curto período de vida, com os efeitos colaterais dessa experiência bizarra?

Coin abre a cigarreira, retira um cigarro e coloca na boca. Acende o cigarro, sopra a fumaça pra cima e fecha o isqueiro num estalo.

THE GOLD COIN: - Não vai vir com historinhas tristes. Eu não sou emotivo.

GABRIEL: -Seus aliados ainda estão fazendo abduções e experiências sem o seu conhecimento em segredinho com líderes humanos. Estão traindo você, mas você sabe disso. Têm a arrogância de pensarem que vão conseguir macular os genes da espécie humana. E como previsto, estão tentando sabotar a criação Dele. E quem tem que vir aqui resolver essa encrenca? Ahn? Não vamos permitir isso!

THE GOLD COIN: -Ah, quanta injustiça Gabriel! Deixe-os brincar de ser "Deus", meu querido. Eu não me importo com nada disso, quanto mais ferrarem esses macacos, mais feliz eu ficarei! (CURIOSO) E o que estava aí dentro dessa casca foi...

GABRIEL: -Inocentes dormem em paz até o dia do despertar. A alma sempre é Dele. Vocês nunca terão esse segredo. Mas a casca foi deixada e agora é um problema. Eles vão retalhar esse corpo e fazer outros mais melhorados, ou criar alguma peste, alguma mutação maluca ou sabe lá até aonde vai a criatividade humana e dos cabeçudos cinzas! E aí eu vou ter que ficar subindo e descendo, lavando a sua roupa suja, como sempre? Eu tenho mais o que fazer, ao contrário de você. Por mim você já tinha expirado seu prazo de validade. Estou doido pra tocar minha trombeta no seu ouvidinho sensível!

THE GOLD COIN: -(DEBOCHADO) Gosto de jazz, mas prefiro rock.

Coin se aproxima da gaveta. Estala os dedos. O fogo surge consumindo o corpo rapidamente. Consome até as cinzas.

THE GOLD COIN: - Não temos mais problemas. Viu? Fácil! Muito barulho por nada! Vocês ficaram com a alma, eu destruí a casca e os Greys e Strughold perderam pela ousadia de fazerem algo pelas minhas costas.

GABRIEL: -Eu não tenho mais problemas. Mas você ainda tem.

THE GOLD COIN: -Você é um dos meus irmãos favoritos, sabia? Da velha turma. Os filhos mais velhos, mais sábios...

GABRIEL: -Poupe o discurso de adulação. O que quer?

THE GOLD COIN: -E a menina? Hum? O que ela é? Ela tem genes nossos, não tem? Um híbrido humano-anjo, ou seja, uma nefilim. Eu sinto o cheiro dela. Ela não é a mesma coisa que essa coisa que você veio destruir, ou você já a teria destruído também. Vocês a salvaram dos Greys! Usaram Mulder para contaminar aquela nave com aquela peste negra, essa menina serviu pra uma vacina e eles impediram que aquela raça invadisse corpos humanos pra sempre. Se vocês permitiram uma proteína extra ser inoculada na racinha adorada de vocês, é porque essa proteína extra veio de algo que está acima dos humanos e bem mais perto de nós, a matriz deles! Você acha que sou tonto? Eu não cheguei aonde cheguei sendo idiota como você. Vocês a estão protegendo por algum motivo. Qual é?

GABRIEL: - Eu não faço ideia. Descubra você mesmo se está tão curioso. Ou morra seco bonitão. Eu sou apenas um tenente mensageiro. Essas coisas aí ficam entrem os oficiais de altas patentes, ex-General... Pode ser que Miguel saiba. Afinal, ele tomou seu lugar quando você ficou desempregado...

THE GOLD COIN: - (IRRITADO) Você que é um péssimo mentiroso, Gabriel! Você sabe!!! Diga-me a verdade e eu darei o que quiser!!! Ele ficou louco lá em cima e resolveu misturar mais genes nossos com essa macacada estúpida! É uma nova evolução que o Tirano planeja? Pois se for isso, Ele perdeu completamente a razão nessa guerra! Eu mesmo vou falar com Samyaza e dizer que eles não puderam procriar com as humanas sem pagarem o preço, porque Ele os encarcerou naquele deserto maldito e mandou um dilúvio pra acabar com os filhos deles! Mas agora Ele permite que um macaco judeu mutado com nossos genes possa procriar e gerar outro híbrido mais superior sem sofrer punição por isso!

GABRIEL: - Como eu disse, não sou cientista. Sou apenas mensageiro.

THE GOLD COIN: - Então, mensageiro, leve meu recado para Sião e diga para o seu Rei Tirano que eu vou pegar aquela coisinha híbrida. Mais cedo ou mais tarde. E vocês não podem me impedir de usar meus artifícios pra conseguir isso. E nem podem alertá-los. Ou Ele vai provar pro multiverso inteiro a sua tirania e que eu sempre estive certo quanto a isso. Eles têm livre arbítrio como nós, não têm? Então não tenho culpa se aquela ruiva imbecil cedeu as minhas tentações. Como sempre, os cristãos são os mais fáceis de enganar. Diga isso pra Ele também. Não adianta nada perder tempo com essa raça. Eles estão condenados!

GABRIEL: - É, você não tem culpa que ela cedeu enem tem culpa que ele não cedeu... Nem tudo é perfeito. E novamente você sempre é previsível, Lúcifer. Usa a mulher contra o homem. Sem graça, você! Invente uma coisa nova! Ah propósito: Mude de aparência também. Detesto olhar pra essa sua cara "pirateada".

Gabriel sai da sala. Coin franze os lábios, irritado.

Corta para o vigia que ainda assiste o jogo. Strughold e alguns homens avançam pelo corredor. Coin passa por eles e sorri debochado para Strughold. Nenhum deles o vê.

STRUGHOLD: - Somos do governo. Viemos buscar o corpo da criança.


Residência dos Mulder – 10:22 P.M.

Baba tira o pote de mousse da frente de Victoria, que está toda lambuzada. Victoria estende a mão. Baba segura a tigela.

VICTORIA: - Dahhh!!!!

BABA: - Não. Você já comeu mousse demais e não deve fazer isso. Se comer mais mousse de maracujá vai acabar dormindo por dois dias, mocinha. E por sinal, já deveria estar dormindo!

VICTORIA: - Neném nah qué!

BABA: - E neném tem querer agora?

Victoria faz beiço de Scully, emburrada.

BABA: - Parece filha de morcego, fica ativa de noite! Vou lá em cima ver se o seu pai está bem. E depois você vai dormir Batman!

Baba pega a bandeja servida.

BABA: - E não apronte, eu já volto. Se eu ver o fogão aceso, o microondas ligado ou armários com todas as portas e gavetas abertas, nós vamos conversar de perto. Não acho engraçado ficar feito doida fechando portas e gavetas, enquanto você as abre e fica rindo da minha cara de louca, tentando fechar tudo! Você é folgada igual ao seu pai!

Victoria põe as mãos no rosto, sorrindo.

BABA: - E não pense que me ganha com esse sorrisinho não. Você está ficando muito malandra, minha bruxinha.

VICTORIA: - "Gual" papai...

Victoria faz cara de pânico. Baba a encara.

BABA: - Eu não acredito nisso! Pode ir parando! Dois? Eu peço demissão! E ai de você se começar a reclamar que está sofrendo!

Baba sai da cozinha. Victoria olha pra Cookie que choraminga aos pés da mesa. Victoria estende a mão e o bife sai da caçarola sobre o fogão, caindo aos pés de Cookie. Cookie sai correndo com o bife pela portinhola na porta.

VICTORIA: - Tô "sofendo"...

Corte.


[Som: Elvis Presley - You're Always on My Mind]

Baba mete a cara no sótão, empurrando a porta e segurando a bandeja. Espia. Olha pra vitrola velha e a capa do disco do Elvis. Suspira.

Mulder sentado na cadeira, olhando pela janela, triste e desanimado.

BABA: - Posso entrar?

Baba se aproxima. Coloca a bandeja sobre a cama.

BABA: - Nem vou perguntar o quanto é fã do Elvis. Desde que cheguei nessa casa, você sempre escuta Elvis toda a noite quando chega do trabalho e se isola aqui...

MULDER: - ... (LONGE)

BABA: - Também gosto do Elvis...

MULDER: - ... (LONGE)

BABA: - Precisa comer.

MULDER: - ... (LONGE)

BABA: - ... (APIEDADA) Mulder?

Mulder sai do transe.

BABA: - Trouxe seu jantar. Fiz aquele bifinho que você gosta.

MULDER: - ... Tô sem fome, Baba.

BABA: - Só um pouquinho, hum? Estou me preocupando, não se alimenta direito...

MULDER: - Estou fazendo dieta.

BABA: - Então pare porque vai sumir. Imagina o "Terror da Virgínia" sem nenhuma carne para elas agarrarem? Quem gosta de osso é sopa!

MULDER: - ...

BABA: - Vou deixar aqui. Pense com carinho. Se comer um pouquinho vai ganhar mousse de sobremesa. Mousse de maracujá. Hum?

MULDER: - Não gosto mais de mousse de maracujá. Não há mais nenhum significado nele.

BABA: - Ah, meu querido...

Baba senta-se ao lado dele.

BABA: - Quer conversar?

MULDER: - Não tenho nada pra dizer, a não ser as mesmas coisas de sempre... As mesmas perguntas sem respostas...

BABA: - Todos temos perguntas sem respostas.

MULDER: -Por que a vida não é como a gente quer?

BABA: -Porque se fosse, a gente certamente estragaria mais do que já estraga. A vida não pode ser perfeita. Não somos perfeitos. Como queria que fosse sua vida perfeita hoje?

MULDER: -Eu, Scully, Victoria... Juntos.

BABA: -Só isso?

MULDER: -Tudo isso, Baba.

BABA: -É, isso eu posso entender, Mulder. Isso eu posso entender...

Mulder suspira, deprimido. Baba se afasta, olhando pra Mulder, que mantém os olhos perdidos na janela. Baba suspira, desanimada. Sai fechando a porta.


BLOCO 2:

Segunda-Feira

Delegacia de Polícia - Precinto 11 - Washington D.C. - 1:23 A.M.

Krycek espia pela persiana da janela. Vê o carro preto parado do outro lado da rua. O Detetive Sanders sentado em frente ao computador digitando alguma coisa.

DET. SANDERS: - Checov tem alguma coisa lá fora que está incomodando você? De dez em dez minutos você volta pra essa janela. Está esperando alguém?

Krycek se afasta da janela.

KRYCEK: - Quer café?

DET. SANDERS: -(ESTENDE A CANECA) Aceito, parceiro.

Krycek pega a caneca e serve café. Pega outra pra ele.

DET. SANDERS: -Norris tá ficando esclerosado.

Krycek entrega a caneca para o colega. Escora-se na mesa bebendo seu café. Olhos parados no nada.

DET. SANDERS: -Agora está pegando no meu pé também. Acho que o divórcio tá afetando a sanidade mental do delegado. Quer o nosso relatório reescrito. Ele acha que a gente não tem o que fazer nas madrugadas?

KRYCEK: - Sanders...

DET. SANDERS: -Já sei. Eu ligo se aparecer alguma bronca. Como sempre você vai dar uma escapadinha na casa da sua namorada na Virgínia. Quando você vai me mostrar a foto da garota?

Krycek segura o riso.

KRYCEK: - Não é isso. Tem as chaves da sala de provas?

DET. SANDERS: -(OLHA PRA ELE) O que tá pegando, Checov?

KRYCEK: - Sabe o caso dos chineses? Encontramos rastreadores no caminhão deles. Eu preciso de um.

DET. SANDERS: -Quem vai rastrear? Sua garota?

KRYCEK: - Olha pela janela, Sanders.

Sanders se levanta e espia.

KRYCEK: - Eu não vou envolver você nisso. É algo perigoso e pessoal. Preciso apenas de um rastreador.

DET. SANDERS: -Alguma máfia está atrás de você? Parecem ser da máfia.

Sanders se afasta da janela, preocupado.

KRYCEK: - É uma máfia bem pior da que você está acostumado.

DET. SANDERS: -Eu disse pro Norris, nós somos da Homicídios, que porcaria ele tá fazendo enfiando a gente em caso da Narcóticos? Agora tem caras atrás de você. E de mim também?

KRYCEK: - Não são traficantes. Isso é uma longa história que me acompanha há anos. A coisa é comigo, não é com você. Não se preocupe.

DET. SANDERS: -Por isso pediu transferência de Nova Iorque pra Washington? São os italianos, aposto!

Sanders abre a gaveta e pega a chave. Entrega pra Krycek. Vai pra janela.

DET. SANDERS: -Vai lá, parceiro. Pega o rastreador e sai pela porta dos fundos. Coloca naquele carro. Eu fico vigiando. Se algum deles sair do carro, eu juro que saio metendo bala pela porta da frente.

Krycek puxa a arma e troca o pente. Sai da sala. Sanders leva a caneca à boca, observando pela janela.

DET. SANDERS: -Italianos miseráveis...

2:24 A.M.

Krycek observa pela janela. Sanders preenche um boletim de ocorrência. O policial com um sujeito algemado aguarda.

DET. SANDERS: -Coloca esse miserável na cela três. Eu tô cansado de ver a sua cara aqui, seu ladrãozinho de merda! Vai roubar um banco e parar de arrombar carros pra levar o som! A maior parte disso vem da China, você não vai ganhar nem pra uma tragada de maconha!

O policial sai empurrando o homem.

DET. SANDERS: -Ninguém vai morrer hoje nessa cidade? Cadê os homicídios? Vamos passar a madrugada aqui dentro fazendo B.O. e atendendo viciados ladrões e prostitutas encrencadas? A gente devia estar em casa e não nesse castigo miserável que o Norris safado nos colocou. Cobrir férias dos outros... Ei, Checov, os caras ainda estão aí?

KRYCEK: - Eles vão ficar ali até eu sair. Estão me seguindo.

DET. SANDERS: -Não quer mesmo ajuda?

Mulder entra pela porta dos fundos. Krycek olha pra ele.

KRYCEK: - Valeu, Sanders, mas a ajuda já chegou. Fique fora disso.

Sanders se levanta.

KRYCEK: - Esse é meu parceiro, o detetive Sanders. Sanders, esse é um amigo do FBI, agente Mulder.

Mulder e Sanders se cumprimentam.

DET. SANDERS: -FBI? Ok, Checov. Acho que você está mais enrascado do que eu pensava. Vou fazer um lanche. Qualquer coisa liga.

Sanders sai. Krycek senta-se na mesa.

KRYCEK: - Esse é o cara que limpa a minha barra aqui quando eu vou pra sua casa durante o expediente de trabalho.

MULDER: - E o que diz pra ele?

KRYCEK: - Que vou dar uma escapadinha na casa da minha namorada na Virgínia.

MULDER: - (PÂNICO) ...

KRYCEK: - O que mais faria um colega segurar as pontas pra você no trabalho enquanto você sai por horas? Só mulher! Se me der outra justificativa, porque foi a única que encontrei!

MULDER: -O que aconteceu? Por que me ligar e me mandar entrar escondido pelo fundos? (DEBOCHADO) Tá com vergonha de apresentar sua namorada para os colegas?

KRYCEK: - Não podia ir até a sua casa. Strughold colocou dois gorilas atrás de mim.

MULDER: - (INCRÉDULO)Pra matar você?

KRYCEK: - (MORDE OS LÁBIOS) Pegaram a Barbara.

Mulder leva as mãos à cabeça.

KRYCEK: - Querem uma troca. Barbara pela Victoria. Olhe pela janela. Estão há horas na frente da delegacia. Estão me seguindo pra ver o que vou fazer.

Mulder espia pela persiana.

KRYCEK: - Coloquei um rastreador no carro deles. Vou saber pelo celular onde se escondem. E torcer pra que isso me leve até a Barbara.

Mulder cerra o cenho e as mãos.

MULDER: - Checou a placa?

KRYCEK: - É clonada.

MULDER: - Merda!!! Eu tô cansado desses caras, Krycek, eu tô realmente cansado desse jogo! Eu tô cansado de pegarem as pessoas e nos chantagearem com isso!

Krycek abaixa a cabeça.

KRYCEK: - Você tinha razão, Mulder.

Mulder olha pra ele.

KRYCEK: - (SORRI TRISTE) Ela gosta de mim. Mais do que eu podia pensar. E espero não perdê-la, porque gosto dela, não tanto quanto deveria, mas eu gosto dela. Sabe qual o nosso maior erro, Mulder? Caras como nós não podem se apaixonar. Isso significa perigo pra elas.

MULDER: -(INDIGNADO) Caras como nós, Krycek, também têm o direito de ser feliz. Aqueles safados têm! Eles têm esposas, filhos, empregos e ferram com todo mundo! Por que não temos o direito de ter uma vida também? Eu vou ajudar você a salvar a Barbara. Tem café aí? Precisamos pensar! E já vou começar pensando com o celular!

Mulder puxa o celular do bolso da jaqueta e aperta uma tecla. Aguarda.

MULDER: - (AO CELULAR) ... Sou eu. Lamento acabar com seus sonhos, mas estou tendo pesadelos porque seu amiguinho alemão resolver pegar a Barbara Wallace e chantagear Krycek pra trocá-la pela minha filha. E me diga que está surpreso, porque se eu sentir por um momento que você está metido nisso, a coisa vai feder mais ainda!

Krycek observa Mulder. Entrega uma caneca de café pra ele.

MULDER: -(AO CELULAR) Não estou ameaçando você, estou avisando que meu humor está péssimo! ... Eu não sei! (FECHA OS OLHOS) Como assim o corpo dele sumiu do necrotério? Tem certeza de que Strughold não o pegou? ... Vou passar Krycek pra falar com você.

Mulder entrega o celular pra Krycek.

MULDER: - Fala com o Fumacento aí. Ele não sabia disso... Meu Deus, Scully vai ficar mais maluca do que já está!

Corte.


Residência dos Mulder –7:22 A.M.

Mulder, de terno e gravata, sonolento e vestido pro trabalho, abre a porta. Scully parada ali.

SCULLY: - ... Não há nada urgente no FBI mesmo?

MULDER: - Não. Eu dou conta. Scully... Sobre o que falei ontem ao telefone, eu lamento que tenha acontecido isso ao nosso filho e...

SCULLY: - Mulder, eu resolvo como lidar com isso dentro de mim, ok? Então? Posso ou não levar Victoria pra Quântico?

MULDER: -Victoria vai com você, mas Baba vai junto.

SCULLY: - Não confia mesmo em mim?

MULDER: - Confio em você. Não confio na pessoa em que se transformou. E quero que fique de olhos bem abertos. Sabe que querem pegar nossa filha.

Baba aproxima-se com Victoria e uma sacola de bebê. Victoria ao ver Scully estende os braços num sorriso. Scully a toma nos braços. Victoria se agarra no pescoço dela.

SCULLY: - Oi Docinho! Mamãe quer brincar com você. Vamos?

VICTORIA: -"Amos"!

Mulder puxa Baba pelo braço, afastando-se de Scully.

MULDER: - (FALANDO BAIXO) Não se afaste de Victoria por nenhum momento. Não desgrude seus olhos dela. Se perceber alguma coisa errada, me ligue. E não deixe Scully sozinha com a menina.

BABA: - Do jeito que fala até parece que ela machucaria a filha!

MULDER: - Eu não sei mais o que pensar, Baba. Sei que as intenções dela não são ruins, mas eu tenho medo. Victoria é tudo o que eu tenho e coloco a responsabilidade dela em suas mãos.

Baba sai. Mulder fecha a porta. Pega o celular e liga.

MULDER: -(AO CELULAR) ... Krycek, liga pra Strughold e fale o que combinamos... Ganhe tempo. Estou indo agora pro FBI. Me manda a localização que conseguiu.


Arquivos X – 11:38 A.M.

Mulder sentado, brinca com o pequeno globo terrestre nas mãos. Pensativo, distante. Solta o globo sobre a mesa. Arrasta-se com a cadeira até os arquivos. Abre uma das gavetas. Começa a revirar as pastas.

MULDER: - Caso Carmichael... Aonde eu coloquei a pasta?

Skinner entra na sala.

SKINNER: - Mulder. Tem um tempo?

MULDER: - Claro.

SKINNER: - Eu... Eu estava pensando sobre o que você me disse a respeito da sua situação aqui dentro.

MULDER: - Não vai me fazer mudar de opinião, Skinner. Não dessa vez.

SKINNER: - Não, eu concordo com o que você falou. Há quase dois anos não remetem verbas para os Arquivos X. E depois fizeram vocês não mais existirem no FBI. Sei que está até mesmo comprando papel e caneta pra trabalhar. Eles foram longe demais dessa vez.

MULDER: - Não vou sair tão cedo, Skinner. Vou esperar melhorar financeiramente. Esperar as coisas se ajeitarem na minha vida.

SKINNER: - Eu... Eu só fico chateado que... Vou perder o diretor assistente Mulder. E o salário é bem compensador pra ler relatórios o dia todo numa sala com ar condicionado e frigobar.

MULDER: -Se você conseguir vencer a disputa com Kersh.

SKINNER: - É. Mas se eu vencer preciso de gente de confiança no meu time. Preciso enviar minhas indicações. Pensei em indicar você, Scully e o agente Mallet para diretores-assistentes.

MULDER: - Aposto que eles vão adorar. Mas lamento, Girafão. Eu sou homem de ação, de campo, não de relatórios. Não posso ficar preso numa sala, guiando agentes e chefiando operações. (DEBOCHADO) Isso vai me deixar careca.

SKINNER: - Mulder, eu não vejo um futuro para este departamento no dia em que você sair daqui.

MULDER: -Eu não vejo futuro pra mim aqui dentro, Skinner. Eu não quero envelhecer nesse porão, correndo atrás de verdades que ninguém liga e que eu nunca conseguirei provar! Mesmo que consiga, as provas sumirão como sempre. É coisa pra maluco passar a vida repetindo a mesma coisa sem resultados diferentes. Como diria Scully, isso não é racional.

Skinner senta-se na cadeira de Scully.

SKINNER: - Pode ser passional.

MULDER: - É passional sim. E já que é passional, é mais racional continuar fazendo bem longe daqui.

SKINNER: -E já pensou em voltar pra Crimes Violentos?

MULDER: - Não. Eu gosto do que faço nos Arquivos X. Mas estou cansado de dar murro até a exaustão e terminar com nada nas mãos. Skinner... Eu já encontrei a verdade, eu já acredito nela. E não preciso provar nada pra ninguém. Nem tenho o poder de convencer os outros. Vejo um ótimo futuro pra mim lá fora, como investigador de paranormalidade, escrevendo livros sobre o assunto. Vejo mais reconhecimento do meu trabalho e esforço e ainda por cima, liberdade de ação.

SKINNER: - ...

MULDER: - Skinner, eu tenho todos os Arquivos-X que busquei a vida toda e todas as provas deles. Quando eu chego em casa, aquele Arquivo-X abre os braços e me chama de papai, me convidando pra tomar chá invisível com gosto de nada ao lado das bonecas.

Skinner sorri.

MULDER: - Victoria foi um presente que eu achava ter dado pra Scully, quando na verdade, ela é o presente que Deus me deu. E me fez pensar que existe mais na vida. Eu queria acreditar, agora eu acredito. Eu tenho que acreditar, eu vejo todos os dias com os meus próprios olhos. E o ceticismo da Scully está com as horas contadas. Ela vai descobrir a verdade que tanto negou existir. Não sei como vai reagir, temo por isso, mas ela precisa encarar.

SKINNER: - O problema é jogar fora todos os anos em que ficou aqui. Tudo pelo que lutou, se humilhou, sofreu e ainda abrir mão da sua aposentadoria. Pensa bem, Mulder.

MULDER: - Skinner, não pensa que não sinto por isso. Eu sinto. Esse porão sempre foi a minha segunda casa e algumas vezes até a primeira. Essas paredes e eu temos muita história juntos. Não vai ser fácil trocar o velho pelo novo. Largar meu distintivo federal vai doer muito. Mas é algo que eu preciso fazer. Preciso de mudanças positivas na minha vida. Ficar aqui é continuar na mira com essas palhaçadas de retaliação. Isso aborrece, sabe? Cansei dos limites, eu preciso de liberdade. Eu não sou mais aquele jovem cheio de energia e incansável querendo berrar para o mundo. Eu sou um cara maduro que já apanhou da vida o suficiente pra saber que pode berrar pro mundo de outras maneiras mais inteligentes.

SKINNER: - Eu entendo, Mulder. Não o culpo por isso. Mas se eu conseguir a nomeação pra diretor, você vai ter carta branca aqui. É um promessa.

Skinner se levanta e caminha até a porta. Vira-se pra Mulder.

SKINNER: - Mulder.

MULDER: - O que foi?

SKINNER: - Que tipo de anel se dá a uma mulher quando... Queremos pedi-la em casamento?

Mulder abre um sorriso. Skinner abaixa a cabeça, colocando as mãos nos bolsos.


Restaurante - 1:21 P.M.

Um restaurante chique. Strughold almoça tranquilamente. Krycek aproxima-se da mesa e puxa uma cadeira.

STRUGHOLD: - Então, vai fazer o serviço?

KRYCEK: - Vou. Mas preciso de tempo.

STRUGHOLD: - Quanto tempo? Está armando alguma coisa?

KRYCEK: - Não estou armando nada! Preciso de tempo, não posso tirar a menina da casa enquanto Mulder estiver lá! Que justificativa eu daria pra pegar a filha dele? Sair pra passear? Não somos tão íntimos assim! Eu preciso pensar numa maneira de afastar Mulder da casa. Assim, enquanto a Baba se ocupa com alguma coisa, eu fujo com a menina.

STRUGHOLD: - Três dias. Se em três dias não me der a criança, eu acabo com sua amiga.

KRYCEK: - E quem me garante que você não vai matar a Barbara enquanto isso?

STRUGHOLD: - Ela está sendo bem cuidada como toda moeda de troca.

KRYCEK: - Você tem minha palavra. Quero a sua.

STRUGHOLD: - Como eu disse, vai ter que confiar em mim.

Krycek se levanta, olha com raiva pra Strughold e dá as costas.


Quântico - Virginia - 4:11 P.M.

Baba lixa as unhas, observando Victoria sentada num colchonete e brincando com formas geométricas de plástico. Carinha de quem acordou há pouco. Alguns eletrodos fixados à cabeça da menina. Victoria pega um triângulo e morde. Baba observa impressionada.

BABA: - Faz aquilo de novo pra Baba ver. Aonde vai o cubo?

Victoria sorri. Solta o triângulo e pega o cubo. O leva à sua frente o encaixando diretamente no encaixe correto. Baba aplaude.

BABA: - E o retângulo? Aonde vai o retângulo?

Victoria olhas pras peças e pega o retângulo, o colocando no lugar correto. Scully sentada ao computador, digita alguma coisa.

SCULLY (OFF): - A análise mostra células normais, com componentes normais, divisão celular normal, cadeia genética normal e nenhuma disfunção genética conhecida. Avaliações ósseas também foram feitas. Em síntese, ela não é fisicamente diferente de nenhum ser humano comum, o que conclui que sua fisiologia também não seja, embora com poucas horas de sono se mostra igualmente ativa como um bebê que precisaria dormir muito mais para ter a mesma disposição física. A diferença está no cérebro. Partes do cérebro que a ciência ainda não atribui nenhum conhecimento de funções estão ativadas nela. Bem como a glândula pineal apresenta grande quantidade de cristais. Exames como tomografias e eletroencefalograma foram realizados. Testes psíquicos de memória visual, memória auditiva apresentaram altos índices de respostas positivas.

VICTORIA: - Mama!

Scully vira-se pra ela, sorrindo.

SCULLY: - Já vamos brincar novamente, tá?

Victoria bate palmas.

SCULLY (OFF): - Não posso dizer como ocorre o funcionamento das atividades cerebrais, mas posso afirmar que pelos exames, durante qualquer processo realizado para tais atividades, uma grande quantidade de energia se desprende do cérebro, acumulando-se em regiões que não sabemos ainda para que servem. Mover objetos ou levitar para esta criança são tarefas comuns tanto quanto brincar de boneca. Algumas vezes, quando exposta a conversas a seu redor, partes cerebrais da memória são ativadas rapidamente, como se buscasse comparações ou recordasse coisas, atividade imprópria para bebês de 1,5 meses. A percepção da realidade e de mundo são próprias de uma criança comum, com curiosidade extrema, falta de noção do perigo e atenção ao que os adultos fazem. O atraso na fala não provém de nenhum problema cognitivo. Não encontrei justificativas para isso.

Scully olha para Victoria e sorri. Volta a digitar.

SCULLY (OFF): - Quando submetida ao teste de raciocínio, pedindo determinada forma geométrica sem sinalizar a mesma, automaticamente Victoria pegava a figura correta e colocava no lugar correto, não sendo isto normal para a faixa etária dela. Isto nos comprova a presença de raciocínio lógico, matemático e aprendizagem acima do nível comum. Talvez o teste mais impressionante tenha sido o teste de visualização remota. Quando escolhi uma figura, sem que ela visse a figura e mostrei a figura junto as demais, ao perguntar sobre qual figura eu tinha escolhido, apontou-me a figura correta. Quando auxiliada pela Baba, pedi que ela se escondesse em algum lugar do prédio que eu mesma não soubesse. Tomei Victoria pela mão e ela me levou do quinto até o segundo andar, revelando Baba escondida num armário de limpeza. Não posso explicar isso. Durante o sono, as atividades cerebrais permanecem altas, com picos mostrados nos exames, a que não chego a nenhuma conclusão, pois sonhos são comumente em formas de picos, mas não tão elevados quanto nela. A princípio, nenhuma destas habilidades influenciou modificações em seu metabolismo ou em seu desenvolvimento normal. Posso afirmar que Victoria é humana, a diferença está apenas nas funções cerebrais ativadas que os humanos comuns não possuem.

Scully vira-se com a cadeira e se levanta. Pega um ursinho. Coloca o ursinho num lado da mesa. Coloca uma caneta na outra ponta.

SCULLY: - Filha? Presta atenção na mamãe.

Victoria olha pra ela.

SCULLY: - O Teddy quer escrever. Pode levar o Teddy até caneta?

Victoria olha para o ursinho. Ele se arrasta até a caneta. Scully olha assustada pra Baba.

BABA: - Precisa ver como ela aprendeu a pegar as frutas da mesa, abrir a geladeira e pegar gelatina... Mulder tem razão quando diz que precisa colocar limites.

SCULLY: -É preciso mesmo. O que para Victoria é normal, não será para as pessoas que a cercam e ela vai sofrer muito com isso... Docinho, dá o cubo pra mamãe?

Victoria pega o cubo e sai engatinhando.

SCULLY: - Não filha. Não venha até a mamãe. Só me alcance o cubo.

Victoria estende a mão para o cubo que flutua até as mãos de Scully. Scully pega o cubo no ar, eufórica, assustada, numa mistura completa de sentimentos confusos.

SCULLY: - (SORRI) Eu... Acho que a minha ciência... Não explica mais nada. Acabou quando você nasceu.

BABA: - Mulder disse que ela é a síntese de todos os fenômenos paranormais conhecidos. Se refere a isso como Fator X. Bom, vocês tanto queriam os Arquivos X, que acabaram fazendo um juntos!

Scully põe a mão no lado do rosto, sorrindo, impressionada.

BABA: -Mulder lhe deu a lista dos fenômenos observados e você os avaliou cientificamente. Agora acredita em paranormalidade? Quer mais provas? (VIRA-SE PRA VICTORIA) Ei, bruxinha da Baba. Foge da barata, foge.

Victoria começa a rir e aos poucos levita. Scully arregala os olhos.

BABA: - Agora desce. A barata foi embora.

Victoria senta-se. Scully cai sentada na cadeira, incrédula.

BABA: - Tem explicação científica pra isso? Como ela consegue superar a lei da gravidade?

SCULLY: - E-eu não sei. Só posso especular que isso tudo se deve ao cérebro dela, o tal fator X. Como ela faz, eu não sei. Como é possível? Não é possível! Mas ela faz, eu vi, você viu! E-eu nem sei o que dizer... Eu não consigo nem explicar o fato de que ela consegue regenerar ferimentos nas pessoas e acredito que em si mesma. Não creio que seja algum fator externo. São as partes ativadas do cérebro. Você poderia dizer que um "fantasma" moveu as coisas dentro de casa, contudo não é uma entidade paranormal, é Victoria quem o faz. Começo a acreditar que esses fenômenos que Mulder atribui a paranormalidade, não existem por si só, como evento aleatório. Alguém ou alguma uma coisa os produz e só não temos conhecimento total do cérebro humano para poder explicar com olhos da ciência. Victoria é a prova física da paranormalidade que Mulder tanto buscou. E é mais científico do que eu podia imaginar.

BABA: - (SORRI) Ela é sua bênção, Scully. Além de tudo isso, tem um coração doce e bondoso. Precisa ver ela ressuscitando passarinhos...

SCULLY: - (FECHA OS OLHOS) Baba, eu já vi ela ressuscitando... O pai que estava morto. Eu já vi ela curando... Meu Deus! Eu temo por ela. Eu não sou digna de ser mãe de algo tão divino! Eu preciso me deter na ciência, não posso olhar pra ela com olhos "religiosos".

BABA: - (SORRI) Você acha que não é digna, mas Ele... (APONTA PRA CIMA) Ele discorda. E não precisa olhar com olhos religiosos. Basta olhar com olhos paranormais, Scully. Como Mulder faz.

SCULLY: - Mesmo que eu olhe com esse olhar, eu ainda não encontro respostas para a pergunta que perturba meu coração de mãe. Por quê? Pra quê? O que será da minha filha sendo uma criança tão especial e qual o motivo para que ela seja assim? Geneticamente eu tenho as respostas. Mas não tenho para a existência dela.

BABA: -Você quer dizer o porquê? Qual a missão dela aqui? É isso?

SCULLY: - É. Porque meu coração apertado me diz que ela é especial demais pra estar aqui. E me diz mais ainda que se ela foi nosso presente... Mulder e eu nem desconfiamos do tamanho da nossa missão.

BABA: - Como eu disse, vocês são dignos. Não conheço um casal mais apto pra lidar com isso.

Victoria se levanta e corre até Scully se abraçando nas pernas dela. Scully a pega no colo e a enche de beijos.

SCULLY: - Chega de brincar, Docinho. Vamos tomar um sorvete com a Baba e com a mamãe? E você conta pra mamãe o que anda aprontando e deixando o seu pai com os cabelos brancos...

VICTORIA: - (BEIÇO) Ichinho mama, ichinho! Papai nah qué ichinho da Vic. Vic gota ichinho!

SCULLY: - Papai não quer dar bichinhos pra você? Ah, mas eu vou falar sério com o papai. Onde já se viu não dar bichinhos pro meu Docinho?

Victoria se agarra no pescoço de Scully. Baba e Scully começam a rir.

SCULLY: - E quantos bichinhos você já tem?

VICTORIA: - ... Okie... Nana... Ollie...

SCULLY: - Hum... Cookie é um...

VICTORIA: - Cão.

SCULLY: - Muito bem! Nana é...

VICTORIA: - Toelho!

SCULLY: - (RINDO) Coelho... Molly é...

VICTORIA: - Eixe!

SCULLY: - Um peixe! Nossa que filha esperta que eu tenho! Acho que tá na hora da mamãe ensinar você a contar nos dedinhos...

Scully dá um cheiro no cangote da filha. Victoria começa a rir.


Residência dos Mulder – 6:03 P.M.

Baba coloca as cartas de tarô sobre a mesa. Mulder sentado de frente pra ela.

MULDER: - Tem certeza de que sabe ler cartas?

BABA: - (DEBOCHADA) Não. Você é minha primeira vítima.

Baba fecha os olhos, cantarolando alguma coisa em dialeto estranho. Mulder olha pra ela.

MULDER: - (INCRÉDULO) Isso é necessário?

BABA: - (CANTANDO) Êee ba êeee...

MULDER: - (DEBOCHADO) Tá baixando?

BABA: - Se não parar de falar, eu chuto seu traseiro pra fora daqui.

MULDER: - (DEBOCHADO) Se baixar uma entidade em você querendo levitar moedas comigo, eu é que chuto você pra fora daqui, "Oda Mae"!

Baba abre um olho, encarando Mulder. Fecha os olhos. Abre os olhos repentinamente.

BABA: - Estranho.

MULDER: -Tudo comigo é estranho. O que vê aí?

BABA: - Algo ou alguém alterou seu destino.

MULDER: - Esse alguém chamava-se Saul Watkins. Levou minha morte por um câncer com ele.

BABA: - (RINDO) Quem diria!

MULDER: - (CURIOSO/ EMPOLGADO) O que foi? Me vê com Scully aí? Eu e ela de cabelos grisalhos, juntinhos, enrugados, gordos e felizes?

BABA: - Não, estou vendo outra coisa. O que pensa do número dois?

MULDER: - O que quer dizer com dois?

BABA: - Hum, deveria apostar no dois. Acho que é seu número de sorte.

MULDER: - Eu não quero números pra jogar na loteria! Eu quero saber se Scully vai voltar pra mim!

BABA: - Ela nunca abandonou você. Aqui diz isso.

Mulder olha pra Baba. Baba olha pras cartas.

BABA: - Estão ligados pelo destino. Isso é inalterável. Vocês têm uma missão juntos aqui. Forças maiores e positivas estão a favor de vocês dois. Algo maior permite que estejam sendo testados, acho que para o crescimento de vocês como um casal.

MULDER: - (FELIZ/ ANSIOSO) Conta mais! Conta mais!

BABA: - É, deve ser por isso. Precisam crescer e se fortificar. Vejo que muita luta virá ainda e vocês precisam ficar unidos...

MULDER: - Isso não é novidade.

BABA: - É sim, porque Victoria aparece forte nas cartas. É algo com ela. E que vocês vão precisar aceitar.

MULDER: - Alguma coisa ruim vai acontecer com a minha filha?

BABA: -Não é ruim... Desafio. Essa palavra veio na minha cabeça.

MULDER: - É, faz sentido. Vai ser um desafio lidar com uma criança tão incomum. Mas isso não me preocupa. Diz mais!

BABA: - Há alguém entre você e Scully.

MULDER: - Krycek?

BABA: - Não! Uma força. Uma força muito ruim. E por incrível que pareça, essa força não está em você.

MULDER: - (A ENCARA DEBOCHADO) ...

BABA: - Ei, não me olhe com essa cara. Você é quem costuma atrair coisas ruins pela sua falta de fé! Tem alguém protegendo você. Coisas ruins acontecem com você, mas não por falta de cuidado. Precisam acontecer...

MULDER: - Como assim?

BABA: - Não sei, uma força muito forte. Talvez um anjo. Ele quer ajudar, mas você não percebe nada a sua volta, nem consegue ligar fatos... Porque não é a hora. Pense com o coração... É o que vem na minha mente. Você precisa pensar com seu coração... Amor... Essa coisa ruim ao redor não gosta do amor. Nem do perdão... Esquisito, Mulder... Acho que seu amor pela Scully e o perdão que deu a Krycek e a seu pai tornaram você mais forte espiritualmente. Acho que por isso essa coisa ruim não ousa tocar em você. Não pode tocar. É o mal em pessoa. Usa os outros para atingirem você, mas ela mesma por si não pode.

MULDER: - (DESCONFIADO) ...

Baba olha pra Mulder. Sorri.

MULDER: - O que foi?

BABA: - Você tem um sinal dentro de você. Agora posso vê-lo.

MULDER: - Que sinal? Do que está falando?

BABA: - Você não acreditaria se eu dissesse.

MULDER: -Do que você está falando? Algo a ver com religião?

BABA: -Não tem nada a ver com religião. Tem a ver com alienígenas. Isso faz sentido pra você?

MULDER: - ... Faz.

BABA: - Continue com sua visão das coisas dessa maneira...Essa força positiva, esse anjo é muito forte também. Forte o suficiente pra guiar você. E só ele sabe a hora em que você deverá abrir seus olhos. E a hora, está próxima.

MULDER: - O que quer dizer com isso?

BABA: - Você vai enfrentar algo que não poderá temer. Algo mais forte que você. Mil vezes mais forte... Mas precisa ouvir seu coração. Há uma chave. Uma chave que salvará sua vida.

MULDER: - (PASMO) ...

Mulder pega o chaveiro do bolso. Olha intrigado pra chave dourada de Gabriel, entre as demais.

MULDER: - Você é boa mesmo!

BABA: - Essa é a chave? Guarde-a com você o tempo todo. É a única coisa que conseguirá levar.

MULDER: - Levar? (ASSUSTADO) Levar pra onde?

BABA: - Eu não sei. Mas precisa ficar com a chave...Victoria aparece de novo... Mulder, tem noção do tamanho da ligação entre você dois? É sobrenatural!

MULDER: - (SORRI/ BOBO) Sério? Minha filha é tão minha assim?

BABA: - Nunca vi isso! Geralmente é com a mãe, mas... Parece que ela tem um cordão umbilical com você também! Energia? Algo com energia... Mulder, me escuta, é sério. Você vai ter que saber como lidar com sua filha, porque você é o herói dela. Ela se espelha em você. E não vejo apenas uma criança pensando assim... Vejo aqui uma garota adulta precisando de aprovação do herói dela... Nunca se esqueça disso... E agora não consigo ver mais nada...


Apartamento de Ellen – 6:11 P.M.

Scully entra no apartamento. Larga a bolsa no sofá. Vai pra cozinha, abre a geladeira e retira água. Serve um copo e bebe. Sai da cozinha.

Scully caminha até o quarto. Olha para trás, sentindo um frio na espinha. Sacode a cabeça. Senta-se na cama. Olha para o criado mudo, onde há um porta jóias. Scully o abre. Retira a corrente de coração que Mulder lhe dera. Scully rapidamente a coloca ali, tensa. Observa. Os olhos dela vão tomando brilho, segurando lágrimas. Scully pega a corrente novamente, a levando contra o peito.

SCULLY (OFF): - Pensei em Mulder. Inevitavelmente, pensei nele. Com carinho... E paguei o preço de novo.

Scully solta a corrente levando às mãos à cabeça. Cai ao chão se contorcendo, num ataque que parece sem fim. Scully começa a gritar.

SCULLY: - Eu te odeio Mulder! Eu te odeio! Eu te odeio!

Aos poucos o ataque vai cessando. Scully consegue se levantar, tonta. Olha para a corrente e a guarda rapidamente no porta jóias.


6:34 P.M.

Scully sentada no sofá. Observa pela janela, olhar triste e confuso.

MULDER (OFF): - Sorri pra mim. Esquece isso agora. Não deixa esse cara estragar mais nenhum segundo da sua vida. Se ele machucou você, eu quero te curar. Se ele te usou, eu quero te venerar. Se ele deixou feridas em você, me deixe cicatrizar...

Scully fecha os olhos mergulhada em memórias.

MULDER (OFF): - Aqui estão as passagens pra Roma. Sabe o que elas significam?

SCULLY (OFF): - ... Não quero mais ir pra Roma.

MULDER (OFF): - ... Pensei que seria uma ótima lua de mel. Essa era a surpresa.

SCULLY (OFF): - Só pensa em lua de mel? Em sexo?

MULDER (OFF): - ... Isso só significava que eu ia me casar com você do seu jeito e que... Depois íamos pra Veneza...

SCULLY (OFF): - ... Não sei se quero mais me casar com você Mulder. Na verdade eu nem sei mais se quero viver com você!

Scully abre os olhos, cheios de lágrimas. Seca-as com as mãos. Olha para o dossiê sobre a poltrona. A folha de metal dentro dele.

SCULLY (OFF): -Tenho medo do que vou descobrir. O esclarecimento veio quando subitamente, cansada, comecei a brincar com os dedos naquela folha de metal. A cada passada de dedo, comecei a verificar que os símbolos estavam escritos ao contrário. Bastava inverter a página para descobrir o que eu fiquei fascinada: era escrita hebraica.Consultei alguns especialistas, mas por precaução, mantive o pedaço de metal em segredo. Alguns rabinos me foram úteis, como alguns estudiosos de universidades.



Local Desconhecido - 6:53 P.M.

Barbara amarrada e amordaçada, sentada no chão. Observa atenta o local, que parece ser um depósito cheio de caixas e empilhadeiras. O Sujeito da Cicatriz sentado numa caixa, a observando. Strughold entra no depósito.

STRUGHOLD: - Senhorita Wallace. Acho que teve tempo o suficiente para refletir sobre a sua vida. Decisões erradas prejudicam o futuro das pessoas. Deve estar se perguntando que droga faz aqui. Eu digo que jamais deveria ter metido o seu nariz bisbilhoteiro em coisas que não diziam respeito a você. Poderia estar trabalhando, apresentando seu telejornal famoso, levando a vida comum dos mortais, entretanto optou por acreditar num rato mentiroso e numa raposa que vive metendo o nariz onde não é chamado. Agora vai pagar o preço.

Barbara observa Strughold.

STRUGHOLD: - Seu rato soviético pediu tempo para fazer o serviço. Ele vai fazer. Talvez aborreça você saber que ele vai sequestrar um bebê em troca da sua vida. Mas acostume-se. Ele é assim. Um traidor, mentiroso e inescrupuloso. Alex Krycek não liga se precisa ferrar com alguém. Ele o faz, está nele, ele gosta disso. Entretanto, caso ele não o faça... Acho que também vai ficar aborrecida.

Barbara olha pra ele com medo.

STRUGHOLD: - Que fique claro para você, eu sou um homem de palavra. Nem você e nem aquele rato sairão vivos daqui. Então, aprecie sua estadia e aproveite para pedir perdão pelas escolhas erradas na vida.

BARBARA: - Mmmmmmmmm!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

STRUGHOLD: - Gostaria de falar alguma coisa?

Barbara afirma com a cabeça. Strughold sinaliza para o Cicatriz, que se aproxima e tira a mordaça de Barbara.

BARBARA: - Também tenho amigos importantes na minha agenda, Sr. Strughold. Conhece o Sr. Thomas Rockfell, dono da RBN? Quando ele souber que estou morta, mesmo que já não seja mais funcionária dele, Rockfell vai acionar o mundo para descobrir o que aconteceu comigo. Vai falar disso em todos os noticiários, jornais e rádios da rede dele e sabe que são muitos e bem influenciadores da opinião pública. O que vai lucrar com minha morte é apenas chamar atenção para si mesmo!

Strughold começa a rir. Sinaliza para o Cicatriz amordaçar Barbara novamente.

STRUGHOLD: - A ingenuidade não é uma arma, senhorita Wallace. Ela é apenas ingenuidade. E não combina com uma imigrante cubana, que em troca de um visto permanente nos Estados Unidos e de ascensão profissional, não pensou duas vezes ao abrir as pernas para o dono da emissora. Acha que ele se importa se você morrer? Não se importou nem ao despedi-la!

Strughold sai. Barbara começa a rir. E ri muito. O Cicatriz olha pra ela sem entender nada.


7:11 P.M.

[Som: Vangelis - Sword of Orion]

Scully sentada à mesa da cozinha, livros por toda a volta. Ellen entra na cozinha, pega uma fruta. Scully a observa com o rabo dos olhos. Ellen sai da cozinha, olhando pra ela, desconfiada. Scully tira o metal de dentro da pasta, o colocando sobre a mesa. Pega o gravador.

SCULLY: - As análises revelam ser uma espécie de metal completamente desconhecido. Não é ouro, é mais puro que o ouro e não consta na tabela periódica. O material parece duro, contudo é maleável, se dobra e volta novamente ao estado original, sem nenhum arranhão. Impossível cortar ou vincar. O metal volta ao normal como se nada tivesse acontecido. Por diversas vezes tentei riscá-lo com facas, mas não obtive sucesso. Não sei o tipo de impressão que usaram na folha, parece laser. Fiz uma cópia em papel e pedi a um rabino para traduzir. O primeiro parágrafo fala sobre a origem do homem, dando em detalhes todo o mapa do genoma humano.

Scully observa fascinada a folha de metal e a pega na mão.

SCULLY: - Meu espanto começou no momento em que vi a figura de um homem ao lado da figura de algo que se assemelhava a um anjo. Inicialmente pareciam letras, mas não eram. Então percebi a ligação daquele metal com Mulder e com Victoria. O genoma angelical é idêntico ao genoma humano. Por isso somos imagem e semelhança do Ser que nos criou. Mas em nós, muitas capacidades cerebrais são limitadas, explicando porque temos partes adormecidas de nosso cérebro. Nos anjos elas todas estão ativadas, o que pode também explicar porque eles fazem coisas e sentem coisas que não sentimos.

Scully sorri, confusa e empolgada.

SCULLY (OFF): - Quando você cria algo a partir da mistura de A e B, cada vez que tornar a cruzar o resultado dessa mistura com mais B, ela se tornará mais próxima da pureza do doador B. Se anjos cruzaram com seres humanos, ou tiveram seus genes inseridos em experiências híbridas, como o avô de Mulder teve na Segunda Guerra, isto justifica porque Mulder tem certas capacidades que nenhum outro ser humano apresentou. Mas fica a incógnita e a dúvida em minha mente. Se Mulder, apresenta uma percentagem mais alta de pureza de capacidades alienígenas, ao se misturar comigo, uma humana comum, Victoria jamais teria uma pureza tão grande. O que torna Victoria muito mais poderosa que Mulder? A menos que Victoria tivesse provindo de dois seres com maior pureza genética. Mas se apenas Mulder é um híbrido, como ela pode ser o que é? Deus me deu uma filha que se aproxima do que posso considerar um anjo?


Residência dos Mulder – 7:18 P.M.

Mulder sentado na sala lendo um relatório. Baba entra na sala, com as mãos nas costas. Victoria a passos confusos ao lado dela.

BABA: -Houston, temos um problema!

MULDER: - (OLHA PRA ELA) Que espécie de problema?

BABA: - Isso.

Baba estende as mãos. Um filhote de periquito.

MULDER: - (PÂNICO) Ah não...

VICTORIA: -Sarinho papai! Dodói!

MULDER: - Pelo amor de Deus! Não há mais espaço pra bichos nessa casa, Pinguinho! Já temos um cão, uma coelha, um peixe e agora um passarinho? Onde acharam ele?

BABA: - Eu não achei nada. Ela que achou.

Mulder olha seriamente pra Victoria. Victoria faz carinha de pidona.

VICTORIA: - (PIDONA) Adinho, papai... Dodói... Frio... Brrrr...

MULDER: - Não está frio lá fora, estamos no verão, espertinha. E tira essa minha cara de pidona do seu rosto porque esse truque eu também uso!

VICTORIA: - (PIDONA) Dodói... Ichinho... Papaizinho...

Mulder põe as mãos no rosto.

MULDER: - (SUSPIRA) Papaizinho... Que coração de pai resiste ao "papaizinho"? Já conheço a intenção desses diminutivos, sua filha de uma Scully... Tudo bem, Baba. Arruma um lugar pro 'bichinho dodói', pelo menos alguém por aqui vai dividir sementes de girassol comigo.

Victoria pula, fazendo festa. Baba coloca o bichinho sobre o sofá. A perninha dele está quebrada. Mulder observa. Victoria se aproxima colocando as mãos no bichinho e fechando os olhos.

MULDER: - Vou ter uma veterinária na família.

BABA: - Ou outra médica.

MULDER: - (DEBOCHADO) Pelo menos não é ruiva.

O periquito começa a pular no sofá. Victoria aplaude. Mulder suspira.

MULDER: - Tá certo, agora que você já curou o bichinho, tem que dar comida pra ele, doutora Victoria.

Baba pega o periquito.

BABA: - O que quer pra jantar?

MULDER: - Nada.

BABA: - Tem certeza de que está bem ou está poupando gastos no supermercado, seu judeu sovina?

MULDER: - (NÃO SE AGUENTA E DÁ UM SORRISO)

BABA: - Ah! Temos um sorriso por aqui. Já é uma grande conquista!

MULDER: - Eu estou sem fome. Faz algo pra você ou peça uma pizza.

VICTORIA: - Itza! Qué itza, papai!

MULDER: - Ah, meu Pinguinho quer 'itza' é? Hum? Vem aqui no papai, vem. Quero um abraço.

Victoria corre até ele, tropeçando nos pés. Cai, se levanta e corre de novo. Mulder se levanta, a toma nos braços, a apertando contra si. Cheira o pescoço dela.

MULDER: - Que nome vamos dar pro periquito hein?

VICTORIA: - Iquito!

MULDER: - É... Que tal com k? Ikito? (DEBOCHADO) Baba, temos um periquito japonês morando conosco agora. Aumente o estoque de arroz!

O celular de Mulder toca. Mulder atende. Victoria observa.

MULDER: -(AO CELULAR) Pode falar agora, Krycek? ... Sim, eu fui no local onde o rastreador indicou e não tinha ninguém lá, apenas o carro estacionado na frente de uma casa simples. Esperei aparecer alguém e chegou uma senhora idosa com a filha e nem fazia ideia de quem era aquele carro... Dei uma checada na vizinhança e ninguém sabia de quem poderia ser. Como você disse, placa clonada, veículo roubado... Lamento, Krycek. Eles abandonaram o carro pra despistar você, é a única coisa que faz sentido... Espera um pouco...

Mulder se levanta e coloca Victoria no chão. Deixa o celular no sofá e vai pra cozinha. Victoria olha pra Mulder, olha pro celular e pega o celular levando na orelha.

VICTORIA: - (AO CELULAR) Alô? ... Sim! ... Nah, Vic nah faz "gunça"... Papai faz "gunça"... Ikito, tio! Vic tem um ikito...

Mulder volta pra sala com um papel.

MULDER: - Ei, quem disse que você tem idade pra pegar o meu celular e ficar de fofoca no telefone? Ahn, espertinha?

Victoria estende o celular pra ele.

VICTORIA: - Tchek, papai... Tio Tchek.

MULDER: -(AO CELULAR) Ô tio "Tchek" anota aí: 555-2112... É, é uma figurinha mesmo. É um periquito que a espertinha achou... É já pensa que é gente... Distrai, Krycek. Distrai da vida conturbada e dos problemas e faz a gente rir um pouco. É a única coisa que me segura de não fazer besteira.

VICTORIA: - Kalinka moya...

MULDER: - (INCRÉDULO/ AO CELULAR) Ô rato, você anda ensinando russo pra minha filha? Ela ainda nem fala inglês direito! Para de rir!


Igreja Saint Peter - 7:25 P.M.

[Som: Enigma - Mea Culpa]

Scully sentada na igreja observando o altar.

SCULLY (OFF): - Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais do campo, que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? Respondeu a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais. Disse a serpente à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal...

Scully desvia a atenção para as estátuas de anjos.

SCULLY (OFF): - Meus olhos se abriram. A verdade maior do universo, as respostas que todos os homens sempre almejaram, era muito mais simples do que podíamos supor. Estava escondida nas religiões, como uma fábula para os céticos e como tabu para os crédulos. Sinto-me cada vez menos confusa, mas assustada com a realidade que descobri e me sentindo indigna de saber dessa verdade e ter que ocultá-la. Posso entender perfeitamente porque o segredo é guardado pelos governos e líderes religiosos. O homem perderia a esperança, a fé, a razão e cumpriria os objetivos de Lúcifer.

Scully abaixa a cabeça, em lágrimas.

SCULLY (OFF): - Mulder nunca foi louco: Os alienígenas estão entre nós há muito tempo. Nosso criador é um extraterrestre, e lançou seu exército dissidente em nosso planeta, esses a quem chamamos anjos caídos e todos aguardamos o Armagedom, quando definitivamente Lúcifer e seus seguidores serão punidos. Até que se cumpram os dias e os planos Dele, toda a humanidade será submetida ao teste de resistência. Há uma guerra lá em cima. E nós não fomos a causa dela...


Residência dos Mulder –8:34 P.M.

Victoria sentada no chão, comendo pizza, fazendo lambança. O periquito dentro de uma caixinha de sapatos. Baba ao lado dela, assistindo TV. Mulder lendo o relatório, tomando café.

SCULLY (OFF): - Acredito que a maneira mais cientificamente correta para explicar as capacidades especiais de Victoria se resume no termo regulação gênica. Os seres humanos tem um número 'x' de genes em seus 46 cromossomos. Antes acreditava-se que x=100 mil, hoje já se fala em x=80 mil. O mais importante é que, desses 80 mil genes, nem todos são ativos. Existem os genes ativos constantemente, existem aqueles que são ativados de vez em quando e outros estão sempre adormecidos. O que determina se um gene está ou não ativo é exatamente a regulação gênica.

BABA: - Está lendo o relatório dela?

MULDER: - Estou.

BABA: - Ela fez como você pediu?

MULDER: - Mais mastigado e babado do que isso, só a pizza na boca da Victoria.

Mulder olha pra Victoria, entretida com a pizza. Sorri. Volta os olhos para o relatório.

SCULLY (OFF): - Para entender a regulação gênica, você deve considerar que, dos 80 mil genes que temos, alguns são capazes de determinar a expressão dos outros. Por isso são chamados de genes reguladores. Os genes reguladores atuam em condições específicas, ou seja, os genes reguladores também são regulados. Mas não por fatores endógenos ou internos, e sim por fatores ambientais ou por fatores externos. Por exemplo, no caso de Mulder, ele era uma pessoa normal até ser abduzido e começar a mostrar capacidades especiais. Provavelmente ele recebeu alguma substância, ou foi submetido a alguma condição ambiental, que ativou genes reguladores que por sua vez determinaram a expressão de genes na região cerebral, atribuindo-lhe a paranormalidade.

Mulder olha pra Victoria. Pensativo. Volta ao relatório.

SCULLY (OFF): - Pode ser que o fator externo que ativou a paranormalidade de Mulder tenha determinado mutações em suas células germinativas, em seus espermatozoides. Assim, Victoria herdaria a paranormalidade. Mas o interessante é que Mulder deixou de ser paranormal, ele perdeu as habilidades ativadas. Não é que ele tenha perdido, a verdade é que o fator externo que ativou a paranormalidade perdeu o efeito. Caso Mulder seja novamente submetido a essa 'estimulação', voltará a ser paranormal, pois seus genes reguladores serão novamente ativados.

Mulder arregala os olhos. Olha pro teto da casa, observando, desconfiado. Volta os olhos pro papel.

SCULLY (OFF): - O mesmo pode acontecer com Victoria. Sabe-se que quando somos crianças, existem genes ativos que se tornam inativos quando estamos adultos. Assim ela poderia ir perdendo certas capacidades paranormais. Pelo menos até receber estimulações que possam reativar a paranormalidade.

Mulder levanta-se. Pegas as chaves do carro.

BABA: - Vai sair?

MULDER: - ... Vou dar uma volta por aí. Não me espere.

Mulder sai, fechando a porta atrás de si. Baba olha pra Victoria que tenta dar pizza ao periquito.

BABA: - Não, mocinha! Periquitos não comem pizza!

VICTORIA: - Nah?

BABA: - Nah. Vou pegar as sementes de girassol do seu pai. E isso fica em segredo entre nós!



BLOCO 3:

Esconderijo de Alex Krycek – 9:14 P.M.

Krycek sem camisa, limpando a arma, sentado num caixote. Mulder deitado na prancha, tentando erguer um peso.

MULDER: - ... (OFEGANTE) Não estou bem certo da sua teoria, mas ela é admissível no sentido psicológico...

KRYCEK: - Quem disse isso?

MULDER: - Aquele meu professor na Columbia, que está me orientando... Há controvérsias se a personalidade múltipla do indivíduo é uma doença para tratamento ou se é apenas característica inerente ao ser humano... Que droga, tô ficando velho!

Mulder coloca o peso no lugar. Senta-se na prancha, todo suado e cansado. Pega a água mineral.

KRYCEK: - Eu tenho personalidades múltiplas. Algumas vezes me sinto um anjo, em outras quero ser o bandido. E agora estou querendo matar aquele nazista desgraçado.

MULDER: - Pensa comigo. Não descartando os casos mais sérios, onde há a evidência latente de um distúrbio. Ok? Como a Scully. Suponha que ela seja uma pessoa que apresenta evidência de várias personalidades entre si. Até onde o que vemos como distúrbio seria distúrbio? Até que ponto estas personalidades seriam dela?

KRYCEK: - Eu não sou psicólogo, mas aonde quer chegar com isto? Vamos ver se entendi. Scully apresenta personalidades múltiplas, já em estágio de agressão física e total confusão mental sobre quem é, e estaria assimilando personalidades da TV? Da família, de pessoas que vê na rua?

MULDER: - Não. (LEVANTA-SE) Minha teoria é desde que o mundo é mundo, não podemos deixar de notar certa ligação com o ocultismo no que chamamos de personalidades múltiplas. Algumas vezes não se trata de uma doença, mas sim de possessão demoníaca.

KRYCEK: -Está achando que...

MULDER: - Eu não tenho as provas. Não há provas do que eu digo em nenhum manual de psicologia clínica. Mas tenho centenas de casos sobre possessões demoníacas e os estudando percebo semelhanças com pessoas que apresentam distúrbio de personalidade múltipla.

KRYCEK: - Scully estaria com... O diabo no corpo? É isso?

MULDER: - Eu tenho quase certeza de que aquele cara da moedinha, como você mesmo falou, tem ligação com forças ocultas. Por que não invocaria alguma coisa pra se encostar na Scully?

KRYCEK: - Eu sei que Scully me dá medo. Tenho pena, sei que precisa de amigos, mas estou fugindo dela. E nem é tanto por você, é por mim.

MULDER: - Queria conseguir uma entrevista com autoridades científicas do Vaticano... Ah, besteira! Eles jamais me falariam algo. Bem que Scully podia saber o que está havendo com ela, ter consciência disso e...

Os dois se entreolham.

MULDER: - Será que ela sabe o que está acontecendo com ela?

KRYCEK: - Olha Mulder, acho pouco provável. Se ela soubesse, pediria ajuda a você.

MULDER: - Será?

Mulder senta-se. Krycek coloca o pente na arma.

MULDER: - E se ela não quer me envolver? Isso é típico da Scully, ela acha que pode resolver tudo sozinha e por isso se mete em mais confusão.

KRYCEK: -Vamos dar outra incerta no escritório do Moedinha? Porque ele sabe alguma coisa, ele está com Strughold e apostoque também sabe o paradeiro da Barbara. Estou a fim de ação!

MULDER: - (DEBOCHADO) Quer ação? Vamos num bar de motoqueiros e cuspir na cara do sujeito gordo, barbudo, tatuado, com dois metros de altura por dois de largura. Aí você vai ver o que é ação.

Krycek se levanta. Coloca a arma dentro das calças. Pega uma camiseta.

KRYCEK: -Vamos dar um incerta no nosso amigo Moedinha. Nossa rotina de todas as semanas. Uma hora nós pegamos o desgraçado. E espero que seja hoje. O relógio está correndo, Mulder... Tenho apenas dois dias pra descobrir aonde está a Barbara. O que me deixaria feliz mesmo seria matar esses dois cretinos. E esse serviço sujo você não pode fazer, é um agente do FBI e estão de olho em você no Bureau, doidinhos pra acharem um motivo para tirar o seu couro. Então deixa que eu faço. E eu farei com prazer!

MULDER: - Rato, eu estou fazendo tudo o que posso extra-oficialmente. Mas não faça besteiras. Eu não posso oficializar o sequestro da Barbara no FBI ou Strughold vai desconfiar que você me contou tudo. Ele nem pode sonhar com isso ou Barbara vai morrer. Fique calmo. A gente já fez muita coisa juntos por baixo dos panos e conseguiu resolver. Vamos conseguir de novo. Temos que bolar um plano B se não a encontrarmos a tempo.


Terça-Feira

Arquivos X – 8:22 A.M.

Mulder sentado, lendo algumas pastas. Scully mantém os olhos parados, o observando. Mulder finge que não percebe. Scully continua o observando.

MULDER: - (SEM OLHAR PRA ELA) O que foi?

SCULLY: - ...

MULDER: - Está admirando o monstro?

SCULLY: - Estou pensando.

MULDER: - Isso é bom ou ruim?

Mulder lança um olhar frio pra ela. Volta a ler.

SCULLY (OFF): - ... Experiências com homens da Marinha...

Scully se levanta e percorre os olhos na prateleira.

SCULLY: - Mulder, você me empresta um livro? Não tô achando...

MULDER: - Lógico. Que livro?

SCULLY: - Eram os Deuses Astronautas.

MULDER: - (DEBOCHADO) Você quer ler Erich von Däniken? Scully, você tá bem?

SCULLY: - Qual é o problema? Não posso ler alguma coisa da sua literatura preferida?

Mulder se levanta, procura e entrega o livro pra ela. Senta-se, olhando pra Scully com desconfiança. Scully continua procurando algum livro.

SCULLY: - Mulder, eu tinha uma Bíblia aqui...

MULDER: - Não tá mais aí, levei pra casa faz uns bons meses.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Mulder, você lendo a Bíblia?

MULDER: - E você lendo Däniken? Faz mais sentido eu que leio Däniken ler a bíblia do que você que lê a bíblia começar a ler oDäniken. Vai odiar ele, já aviso. Todo cara da ciência odeia o Däniken. E também aviso que nada das teorias dele afetou a fé que ele tem em Deus.

SCULLY: - Mulder, adoraria discutir as teorias dele com você, mas preciso sabê-las primeiro.

Mulder empolgado se levanta.

MULDER: - Também aviso que você pode espernear na discussão, mas que eu acredito que Deus é um astronauta e você não vai mudar o meu ponto de vista...

Mulder pega o paletó.

SCULLY: - Vai sair?

MULDER: - Estou ajudando um amigo num caso. Qualquer coisa, me ligue. Vou apertar umas fontes.


Apartamento de Ellen – 6:16 P.M.

Scully passa creme no rosto. Observa-se no espelho.

SCULLY (OFF): - Não sei. Algumas vezes tento entender o que acontece comigo, apenas pela observação do que acontece com os outros. Começo a ver a vida de uma maneira engraçada, menos complicada, como nunca havia visto antes. Mesmo com aquela sensação sombria dentro de mim, sinto uma alegria por estar viva, sedenta de viver todos os momentos que deixei para trás, por medos e culpas, por visões e teorias errôneas. Ellen me diz que estou começando a ficar com medo de envelhecer...

Scully vira-se repentinamente. Passa os olhos pelo banheiro. Não há nada. Ela volta a olhar para o espelho, passando creme.

SCULLY (OFF): - Percebo as diferenças. Dentro de mim há uma certa atração por Alex. Aquela coisa de atração de adolescente. Nada de culpa. Apenas uma curiosidade que ficará na cabeça, porque a vontade de descobrir não mais existe. Mas voltar pra Mulder é algo inconcebível. Quando sinto alguma ternura por Mulder, fico tonta. Meu cérebro bloqueia. E eu sei a razão disso...

As mãos de Coin pousam em seus ombros. Scully parece não sentir nada. Repentinamente para, olhando para o espelho. Não há nada atrás dela.

SCULLY (OFF): - Eu sei que você está aqui.

THE GOLD COIN (OFF): - Por trinta moedas de prata, Judas entregou Cristo. Por trinta de ouro, você me entregaria sua filha?

SCULLY: - Nem por todo o ouro do mundo.

THE GOLD COIN (OFF): - Ela é apenas uma aberração. Um monstro. Como Mulder. Entrego a você a chance de ser feliz ao lado de Alex Krycek.

SCULLY: - Você me fez acreditar nestas coisas. Elas não são verdadeiras. Nunca tive nada com Alex. Nunca traí Mulder.

THE GOLD COIN (OFF): - Olhe para dentro de você e sinta como pulsa seu corpo de desejo por Alex...

SCULLY: - Para!!!!!!!!!!!!!!!

Ellen passa pelo banheiro e espia Scully falando sozinha. Ergue os ombros e vai pro quarto.

THE GOLD COIN (OFF): - Sei dos seus mais secretos desejos. Eu só vim para concede-los a você.

SCULLY (OFF): - Ela havia conquistado todas as coisas que jamais sonhara que um dia conquistaria. Ela tinha tudo: um marido fiel e amável, a filha que tanto desejara, a casa dos seus sonhos, um bom emprego. Lidar com tudo isso começou a ser desgastante. Sua mania de não saber lidar com as coisas começou a deixa-la mais estressada. Haviam dúvidas nela sobre quem era sua filha. Ela sabia desde a concepção in vitro que alguma anomalia poderia surgir por parte dos genes dele. Mas ela aceitou, negando todas as possibilidades. O seu egoísmo e a necessidade de ter um filho a fizeram insistir... Ele costumava dizer que quando estamos satisfeitos nos tornamos irrequietos, tentando encontrar algo mais para conquistar. Ela não encontrou. E o seu tudo começou a desmoronar: Perseguição no FBI, a prisão dele por crimes não cometidos, e ela enfraqueceu. Sozinha, com uma filha, vendo que tudo estava caindo por terra.

Coin a observa.

SCULLY (OFF): - E quando ela enfraqueceu em depressão e confusão com ele ausente, o inimigo se aproximou. Ele usou dos homens para tirar dela o pouco de sanidade que lhe restava. Tentou confundi-la. Ela percebeu. Matou seu médico, Dr. Patterson. Mas o que o inimigo não poderia nunca confundir, era o seu coração. Quando ele teve a certeza de que o coração dela não resistiria e voltaria atrás, ele ficou ao lado dela. A cada "eu te amo, Mulder" em que ela pensava dizer, o inimigo a torturava por dentro, tomando seu corpo, lhe fazendo mal, causando dores lancinantes e retalhando-lhe por dentro. "Sim, Mulder, você me faz mal". Porque amar você traz a ira do demônio para o meu lado, pois ele nos quer afastados para tomar Victoria. Que ele fique comigo. E deixe você e minha filha em paz.

THE GOLD COIN: - (OLHANDO PRA ELA PELO ESPELHO) Triste isso, não? Mas sua alma já me pertence, pois toquei em você e você fez tudo o que eu queria... Vai atrás de Mulder? Transa com ele feito uma cadela no cio, para poder tocar nele. Mas faz isto porque eu permito. Eu permito que o seduza. Eu permito porque assim você o magoa. Quem é o esperto aqui?

SCULLY: - Me deixe em paz!

THE GOLD COIN: - (RINDO) A Dana está magoando Mulder... Quando quiseres amor, dê ao Alex. A cada pensamento de amor em Mulder, rasgarei você feito um pano velho. Pode ter Alex a hora em que desejar.

SCULLY: - (GRITA) Vá embora!!!!!!!!

THE GOLD COIN: - Admita sua vadia. Você pensou tantas vezes nisso... O corpo sensual dele...

SCULLY: - (GRITA) Eu pensei! Mas eu só pensei! Sai de mim, me deixe em paz!!!!!!!

THE GOLD COIN: - Pensar também é pecado. Ou acha que por pensar tem menos culpa na balança? Seu peso está pendendo pra meu lado... Onde está o seu Deus? Ahn? Ficou surdo? Abandonou você?

Coin olha pra porta. Então desaparece. Ellen entra no banheiro, assustada.

ELLEN: - Dana, o que aconteceu? Por que gritou?

THE GOLD COIN (OFF): - (RINDO) Vão começar a achar que está louca, Dana...

SCULLY: - Não, Ellen, eu... Eu...

THE GOLD COIN (OFF): -(RINDO) Diga a ela que você está falando com o "diabo".

SCULLY: - (NERVOSA) Eu pensei ter visto uma barata.

ELLEN: - E precisa gritar 'sai de mim, me deixa em paz?' Credo, Dana, você me assusta!

Scully fecha a porta na cara de Ellen. Passa os olhos pelo banheiro.

THE GOLD COIN (OFF): - (RINDO) Dana, você é louca!

SCULLY (OFF): - ... Eu não sou louca!

THE GOLD COIN (OFF): - Seu Deus não se importa com você. Eu me importo. Eu permito que seja livre, Dana Scully. Livre de tudo. Livre dessa família idiota, desses amigos imbecis... Você não precisa deles. Não fazem falta alguma.

SCULLY (OFF): - Você se aproveitou da minha fraqueza mental, da minha fragilidade... Mas agora eu consigo ver a verdade! Eu sei o que fiz e o que não fiz!

THE GOLD COIN (OFF): - Que verdade? As verdades que você falou ao Mulder? Eu apenas incito as pessoas a dizerem o que pensam. A mácula é sua. O incentivo é meu. Que tal uma trepadinha com Mulder, ahn? Pegue aquele telefone e o magoe mais. Aquele desgraçado que tomou o seu filho...

SCULLY (OFF): - Mentira! Meu filho morreu!

THE GOLD COIN (OFF): - Mas você precisou checar isto para acreditar. A palavra de Mulder não bastou. Dana, você é digna do inferno. Que coisa mais feia...

Scully sai do banheiro, aos prantos. Ellen olha assustada pra ela.

ELLEN: - Dana, tomou seus remédios?

SCULLY: - Vê se me esquece sua vaca!

THE GOLD COIN (OFF): - (RINDO) Boa menina...

Ellen sente-se magoada. Vai pro quarto e bate a porta. Scully pega sua bolsa e sai porta à fora.



7:42 P.M.

Scully sentada dentro do carro, em frente a casa de Mulder. Mulder sai da casa, fisionomia séria, indo em direção ao carro.

SCULLY (OFF): - Precisava tê-lo por perto. Se amar Mulder me machucava, tê-lo apenas por prazer me mantinha algum tempo abraçada a ele. De alguma forma eu o tinha. Era a única maneira de ter Mulder: por momentos.

Mulder entra no carro de Scully.

MULDER: - (INDIGNADO) Sabe que horas são? Eu tenho que brincar com minha filha. Eu tenho uma vida pra levar, não posso ficar disponível toda hora que você quer. Scully, eu cansei. Eu não quero mais ser usado.

SCULLY: - ... Ambos estamos nos usando.

MULDER: - Não! Você está me usando! Eu não estou usando você. Olha aqui, Scully, vamos deixar as coisas bem claras. A partir de hoje, não me procure mais. Eu sei que sempre acabo cedendo, mas agora não vou ceder nunca mais! Esqueça meu endereço. Esqueça meu telefone. Nosso contato se limita ao profissional, como sempre deveria ter sido.

SCULLY: - ...

MULDER: - Durante muitos anos esperamos encontrar alguém que nos compreenda, alguém que nos aceite como somos, capaz de nos oferecer felicidade apesar das duras provas. Apenas ontem descobri que esse mágico alguém é o rosto que vemos no espelho.

Mulder desce do carro. Scully abaixa a cabeça. Mulder respira fundo, caminha em direção a casa. Scully começa a chorar.

SCULLY (OFF): - Ao mesmo tempo em que ficava triste, por dentro meu coração se aliviava, ao ver que ele começava a desistir de mim. Liguei o carro e tomei a rua, tentando deixar pra trás o que era passado. Minha sanidade mental aos poucos vinha à tona, porque Mulder me mostrou quem era. Ele me fez recuperar todas as lembranças perdidas, com seu carinho e seu amor por mim. E isso doía mais fundo, ao saber que mesmo depois de todas as coisas que fiz e que disse, Mulder ainda me mantinha em seu coração.


8:11 P.M.

Scully desce do carro. Caminha até o elevador.

SCULLY (OFF): - Mas o pior estava por vir... O eterno desgraçado, dono dos maiores pesadelos.

Scully aperta o botão.

CANCEROSO: - Gostou da leitura que lhe proporcionei?

Scully vira-se. A garagem na penumbra, o vulto do Canceroso se projeta no chão, por trás de um pilar.

SCULLY: - Não tenho nada para falar com mentirosos.

CANCEROSO: - (DEBOCHADO) Será que sou o único mentiroso por aqui?

SCULLY: - ...

CANCEROSO: - Leu o dossiê? Concorda que há uma raça que nos criou? Estudou aquele metal? Viu que não provém desse planeta?

SCULLY: - Estou tentando traduzir aquilo por mim mesma. Mas quem me garante quais são as suas intenções me entregando a verdade?

CANCEROSO: - Que veja a verdade. Porque Mulder já sabe dela. Só não quer acreditar. Por isso Mulder está evoluindo e entendendo que a verdade não pode ser revelada. Não por nós.

Scully caminha até ele.

SCULLY: - Quem é você pra me falar da verdade? Quem você pensa que é pra me dizer alguma coisa, seu asqueroso? Você, que causou tanto mal, que deveria era parar no inferno por todas as maldades que fez ao mundo! Mulder não deveria ter salvo você, eles vinham te pegar! Você tem o número dos malditos em sua testa!

CANCEROSO: - Eu não quero que pense em mim como alguém de piedade extrema. Mas entreguei tudo isso pra você ter a certeza de que sentirá na pele o que causou ao Mulder.

SCULLY: - Eu? E você? O que você causou ao seu próprio filho? Será que eu devo pagar meus pecados com ele sozinha?

CANCEROSO: - Pecados... Se há pecados a serem pagos por mim, já os estou pagando. Protegendo minha neta, vivendo afastado dela e com a eterna desconfiança de Mulder.

SCULLY: - Muito bem merecido. Mulder perdoou você. Mas perdoar não significa aceitar de volta.

CANCEROSO: - Espero que se lembre disso quando encarar Mulder e pedir perdão a ele.

SCULLY: - ...

CANCEROSO: - Quando terminar, quero o dossiê e o metal de volta. Os segredos que há nele não podem ser revelados. O homem não está pronto para essa verdade.

SCULLY: - É o Terceiro Segredo, não é? O Terceiro Segredo de Fátima, que o Vaticano esconde das pessoas! Eu não vou revelar, não tenho autoridade e nem um sobrenome significante pra fazer isso! Deus é uma raça alienígena! Ahn! O mundo riria da minha loucura. Como riu de outros que descobriram essa verdade por intuição! Quantas raças há? Você sabe?

CANCEROSO: - Não sabemos. Temos conhecimento de algumas.

SCULLY: - Mesmo que soubesse jamais diria. Eu posso entender perfeitamente porque queriam nos invadir. Posso imaginar porque criaturas bizarras como aquela do óleo negro, como os caçadores de recompensa e como tantas raças mercenárias querem nos destruir. Agora eu entendo. Eu sei com quem elas andam! Ou como são usadas e enganadas por esse desgraçado infeliz que travou uma guerra e nos levou junto!

CANCEROSO: - Pensamos que poderíamos usar do conhecimento que essas raças nos deram para...

SCULLY: - Para superar Deus? Absurdo! Como a criatura pode querer superar o criador? Como querem chegar ao lugar Dele, se são indignos de pisar na Terra que ele semeou? Estão querendo fazer o mesmo que Lúcifer fez!

CANCEROSO: - Entende que não há morte? Ainda vai chorar pelo seu filho perdido?

SCULLY: - Entendo sim! Entendo que há transmutação de um estado físico para um energético. Mas você entende que nunca, com todas as experiências biológicas e mesmo com aquele metal, vocês conseguirão transformar o homem em anjo puro? Ou criar seres diferentes misturando raças diferentes? Isso nunca vai ser permitido! Ele jamais diria tudo aos homens e é muito admissível a atitude Dele. Vocês matariam. Vocês destruiriam. Como fazem com os conhecimentos que recebem! Vocês constroem pouco e destroem muito! Meu Deus, eu nunca entendi a religião com tanta ciência escondida dentro dela!

CANCEROSO: - ...

SCULLY: - Se o criador nos protege de todas essas raças que querem nos banir do universo, é porque temos o nosso valor! Ele acredita em nós, conhece nossa força e jamais seria tolo de entregar toda a verdade. Eu acredito na raça humana, senhor Spender. Eu acredito. Mas também sei que, como no planeta Dele, aqui também há os mal intencionados!

Scully dá as costas. Volta. Olha pro Canceroso, que sopra a fumaça.

SCULLY: - Me responda uma coisa. Se o avô de Mulder sofreu uma mutação genética proposital por essa raça divina, o que tornou Mulder um ser mais evoluído, juntamente com as experiências que vocês fizeram na concepção dele, com genes seus e de Bill Mulder, por que Victoria nasceria muito mais próxima da pureza genética, se apenas Mulder é uma mutação, um híbrido, um monstro?

CANCEROSO: - (LEVA O CIGARRO À BOCA/ NUM SORRISO DEBOCHADO) ... Nunca se perguntou por que justamente você foi parar nos Arquivos X?

Scully olha pra ele, como se tivesse perdido seus pés.

CANCEROSO: - Nunca se perguntou por que não fizemos uma fecundação in vitro para gerar um filho de Mulder? Se queríamos tanto o Controle de Pureza, poderíamos ter fecundado qualquer mulher ou várias mulheres sobre a Terra. Tínhamos os meios. Tínhamos óvulos de várias mulheres. E você sabe disso.

SCULLY (OFF): - O terror me invadiu. Ele não tinha o direito de dizer aquilo da maneira como disse.

CANCEROSO: - Tínhamos como fazê-lo. Mas por que inseminamos justamente em você, aquela primeira criança? Podíamos ter usado Diana Fowley, ou qualquer doadora anônima de um óvulo. Acredita ainda, Dana, que você veio à toa nesse jogo genético? Acha que Emily era fruto de quem? Apenas seu clone? Por que queríamos ter clones seus? Apenas para se divertir? Por que fizemos Evas? O que buscamos com todo nosso planejamento genético?

SCULLY (OFF): - Meu mundo desmoronou. Entendi o que ele queria dizer com 'esta é a sua verdade, Dana Scully'. Todos os fatos começavam a preencher as lacunas que restavam. Experiência com alguns marinheiros... Eles usaram meu pai, usaram ele para alterar alguma coisa em mim. Meus olhos derrubavam lágrimas de vergonha, de raiva, de nojo de mim mesma. Se Mulder era um monstro, eu agora descobria que também era. E se Victoria era uma aberração da natureza, não era apenas por culpa de Mulder. Eu também era uma aberração genética. Ou seja, tudo que disse à Mulder o ferindo, partiu de alguém que era tão igual em espécie. Isso justificava meu sexto sentido. Isso justificava minha relutância em aceitar o inexplicável. Isso justificava coisas que aconteceram comigo, como fui parar nos Arquivos X e justificava mais ainda, porque eu sentia uma certa cumplicidade com Mulder. Éramos, ambos, mutações genéticas.

CANCEROSO: - (APROXIMA-SE/ OLHANDO FRIAMENTE PRA ELA) Há mais pessoas como você e Mulder sobre a Terra. Mas confesso que vocês dois foram o mais longe que conseguimos chegar, com exceção de Victoria. Você ainda é muito inferior a Mulder, e não sabemos porquê. Mas entre as mulheres, você é a que mais se destacou geneticamente.

Scully sai correndo, chorando, nervosa. Aperta o botão do elevador com dificuldade. Entra no elevador. Encosta-se na parede e deixa o corpo cair ao chão, colocando as mãos nos ouvidos. Coin leva a mão ao botão do andar dela.

SCULLY: - (PERTURBADA) Não... Não!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! (CHORANDO) Não!!!!!!!!!!!!!!!!!!

THE GOLD COIN: -Agora entende o que sua filha significa?

SCULLY: - (CHORANDO) Me deixe em paz!!!!!!!! Vá embora!!!!!!!!!

THE GOLD COIN: - Entregue a menina pra mim. A convença a se entregar, não posso tomar algo que não me pertence sem sua permissão. Eles querem os genes. Eu só quero saber o que ela é. Não preciso matá-la pra isso.

SCULLY: - (GRITA/ CHORANDO) Minha filha não!!!!!!!!!!!

THE GOLD COIN: - Você tem tempo para pensar. Ou nos entrega a menina, ou ficarei sendo seu pesadelo eterno.

SCULLY: - (GRITA) Pois pode esperar que vamos viver juntos até que eu morra, seu desgraçado, porque eu não vou entregar minha filha nem pra você e nem pra ninguém!!!!!

Scully se levanta. The Gold Coin a pressiona contra a porta. Olha em seus olhos assustados. Leva o polegar e seca a lágrima do olho dela. Lhe sorri.

THE GOLD COIN: - Sabe que o tempo terrestre é diferente do tempo lá em cima? Temos toda a eternidade para ficarmos juntos, e acredite, isso é muito tempo.

SCULLY: - (CHORANDO) Me deixa em paz... Por favor, eu quero minha vida de volta!!! Meu marido e minha filha de volta!!! Acaba com esse pesadelo!!!!!

THE GOLD COIN: - Nunca mais terá o que deixou, Dana. Nunca mais. Palavras não se apagam. Você machucou muito quem amava. Nunca mais será como antes.

SCULLY: - Seu mentiroso! Seu anjo caído! Você não sabe o que é o amor! Você não sabe que Mulder pode perdoar tudo, como até Deus pode perdoar você, se você se arrepender de tê-lo traído!

THE GOLD COIN: - (SORRI/ OLHA PRA CIMA) Deus? (OLHA NOS OLHOS DELA) Deus nunca me perdoará. Como Mulder nunca perdoará você. Estamos fadados a viver nas sombras, Dana. Ambos traímos a verdade. Traímos quem nos amava. Consegue sentir essa dor? A dor da exclusão, da punição? A dor de questionar as coisas?

SCULLY: - (CHORANDO/ ARREPENDIDA) Mulder, o que eu disse pra você?!? Me perdoa, por favor!!!!!! (CHORANDO CONVULSIVAMENTE) Mulder me perdoa!!!!

THE GOLD COIN: - Como é estar na pele do monstro, Dana? Como é ser um monstro? Não era você que era humana, que não era uma aberração da natureza, que não podia olhar pra ele porque sentia nojo da aberração? Ahn? (INSTIGANDO MÁGOA E CULPA) Me diz agora, monstro, como você acha que ele se sentiu quando descobriu que era diferente? Você vai remoer pela eternidade o pesadelo de cada palavra do que disse. Afinal, a existência é eterna. Bem vinda ao seu inferno!

SCULLY: - (CHORANDO) Não!!!!!!!!!

THE GOLD COIN: - Não? Mas você está caída, Dana. Arrependida. Nada como sentir culpa. Admito, é a minha dor preferida.

Scully continua chorando, com as mãos no rosto, completamente culpada. The Gold Coin abre um sorriso.

THE GOLD COIN: - Você agora só tem uma opção, Dana. Por que não dá um tiro na cabeça? Por que não se mata? Pode ser que se livre da minha companhia, se assim Ele achar que mereça. Porque eu acho que seremos companheiros das sombras pelo resto da eternidade. Eu não vou deixar você em paz. E também não tenho pressa. Estou aqui desde o início da civilização humana. Você tem pressa?



BLOCO 4:

Residência dos Mulder – 8:13 P.M.

Victoria sentada na cadeirinha, enlambuzada de comida. Mulder dá comida pra ela. Victoria alterna a atenção entre o prato e a televisão na sala.

VICTORIA: - (SORRI) Bom!

MULDER: - (SORRI) ... Sei que você é tão pequena pra entender essas coisas de adultos... Mas sei também que você entende e está querendo me fazer sentir melhor... Obrigado, parceirinha.

Victoria olha pra TV. Mulder respira fundo. Olha pra ela.

MULDER: - Pinguinho, eu... Eu não sei se tenho sido um bom pai pra você, já que fico maior parte do tempo estudando, trabalhando, tentando entender o que houve com sua mãe. Tudo que tenho feito é em função dela e sinto que você está ficando em segundo plano.

VICTORIA: - (PUXA O NARIZ DELE) Nah!

MULDER: - (SORRI) Eu amo você, Pinguinho. Queria que soubesse disso... Bom, o próximo final de semana será só pra nós dois e eu vou levar você pra passear, brincar no parque, vamos sair juntos e curtir um ao outro, tá bom? E vamos dar descanso pra Baba. Ela merece.

Victoria afirma com a cabeça. Mulder a toma no colo. Limpa o rosto dela.

MULDER: - Papai vai colocar você na frente da TV até arrumar essa cozinha. Depois vamos subir e brincar, tá bom?

VICTORIA: -Nah! Vic qué "Obie Doo" com papai!

MULDER: -Ah, Vic quer assistir Scooby Doo com o papai? Tá bom, vamos assistir Scooby Doo. (OLHA PRA ELA DESCONFIADO) Impressão minha ou tem alguém aqui com as fraldas molhadas?

Victoria põe as mãos no rosto de Mulder, rindo.

VICTORIA: - Nahhhh!!!!!!!


11:15 P.M.

Scully, perturbada, sentada dentro do carro, em frente à casa de Mulder. Observa a luz do quarto dele acesa. Cortinas abertas. Mulder anda de um lado pra outro, ninando Victoria em seus braços.

SCULLY (OFF): - (OLHOS EM LÁGRIMAS) Comecei a perceber toda a felicidade que eu joguei fora. Olhar pra ele, como ele zelava e cuidava da nossa filha, me fazia sentir um aperto maior dentro do meu coração. Eu queria entrar lá e beija-los, dizer-lhes o quanto eu os amava, o quanto eu era um monstro na maior acepção da palavra, e o quanto eu era igual a eles. Queria pedir desculpas por todas as coisas que eu havia dito. Mesmo que Mulder nunca me perdoasse, eu precisava dizer. Mas eu não conseguia. A verdade doía dentro de mim, e eu começava a sentir a loucura me espreitando, vinda do desespero, da solidão, da culpa.

Scully leva as mãos à boca, abrindo a porta do carro e vomitando.

SCULLY (OFF): - Bastava pensar em amor e começavam as reações. Tonturas, palpitações, dor aguda no peito e dores horríveis e insuportáveis na cabeça. Eu sentia a presença daquele maldito do meu lado. Me vigiando. Me punindo, torturando, mas eu jamais entregaria a minha filha. Ele poderia me torturar o quanto quisesse, mas eu aguentaria a dor.

Scully limpa os lábios, segurando o choro.

SCULLY (OFF): - Eu estava vivendo no inferno. Sim, eu estava no inferno. Eu não podia pensar em nada que me fizesse bem. Algumas vezes conseguia lembrar de coisas passadas, mas se as remetesse ao presente ou ao futuro, começava toda a tortura novamente. Me sentia dentro de uma câmara dos horrores, onde nunca podia saber em qual momento seria torturada. Mas o maior carrasco de todos eram as lembranças. As lembranças do que eu deixei, a culpa do que disse, a mágoa que tinha de mim mesmo.

Scully fecha os olhos.

SCULLY (OFF): - Lembro quando ela nasceu. Lembro de seu primeiro passinho, sua primeira palavra, seu primeiro aninho. Seu primeiro brinquedo, seu primeiro banho... (CHORANDO) Eu queria sentir o cheirinho da minha filhinha de novo!!!! Ah, meu Deus, por que o Senhor deixou isso acontecer comigo? Por que eu não posso sentir minha filha nos meus braços? Por que razão eu tenho tantas dívidas a pagar? Por que estes espíritos negros e ruins ficam ao meu lado, tentando-me a cada momento, a cometer mais besteiras? Por que magoar e ferir Mulder me faz sentir bem, enquanto eu sei que isso não é certo e que quando caio em mim e tento amá-lo, a dor sobrevém me fazendo querer odiá-lo para aliviar tanto sofrimento? Eu tive tudo. E perdi tudo. Não há mais sanidade alguma dentro de mim. Não me deixarão em paz. Então, por um momento, vendo aquela cena terna entre pai e filha, me deu vontade de acabar com minha própria vida pra salvar a deles. Eu não hesitaria em fazer. Porque assim como Mulder morreu por mim, quando eu o vi morto, quando caí em mim vendo o sofrimento dele, aguentando toda a tortura daquele serial killer por amor a mim e a nossa filha, pouco me importava qualquer dor no mundo pra salvá-los. Eu morreria por eles. Eu iria ao inferno por eles. Eu mataria por eles. E quando pensava isto...

Scully volta a vomitar.

SCULLY (OFF): - Pensava com amor. E minha punição começava novamente. E só pararia quando eu começasse a sentir ódio deles.


Quarta-Feira

Residência dos Mulder – 1:47 A.M.

Som de pessoas falando. Risadas. O quarto iluminado apenas pela TV ligada. Mulder dorme de bruços, sem camisa. Victoria, abraçada na raposa de pelúcia, olhos grudados na TV. Mais risadas na TV. Victoria dá uma risada alta, achando a cena engraçada. Olha pra Mulder que dorme.

VICTORIA: - Ox!

MULDER: - Zzzzzzz

Victoria volta a atenção pra TV. Estende o bracinho. Os canais vão mudando. Um filme de terror. Música sinistra. Victoria arregala os olhos, assistindo.

TV (OFF): - Sim, é o Conde Drácula. Ele habita naquele castelo, no alto da colina...

Victoria dirige a atenção pra janela aberta. As cortinas voam. Victoria olha pra Mulder.

VICTORIA: - Papai...

Victoria olha pra janela. Gabriel sentado no parapeito, leva o indicador a boca, sugerindo silêncio. Victoria o observa. Gabriel aponta o indicador para a TV. Muda de canal. Victoria olha pra TV. Torna a olhar pra janela, Gabriel sumiu.

Victoria presta atenção no filme. De repente, começa a chorar. Mulder meio dormindo, coloca o braço por cima dela. Victoria continuando berrando. Mulder coloca a mão sobre o peito dela, tentando niná-la. Victoria grita mais ainda. Mulder ergue a cabeça, olhos pesados de sono.

MULDER: - O que foi, Pinguinho?

VICTORIA: - (GRITA) Iço!!!!!!!!! Ox! Iço!!!

MULDER: - (OLHA PRA TV) Filha, que maldade! A Cher não é tão feia assim pra ser um bicho!

VICTORIA: - (GRITA) Nahhhh!!!!!!! Iço!!!!! Iço, Ox!!!!!!!!

MULDER: - Confesso que prefiro a Michelle Pfeiffer, mas...

Mulder acende a luz do abajur.

MULDER: - Pronto. Papai deixa a luz acesa, assim o bicho vai embora.

VICTORIA: - Naaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!!

MULDER: - O que foi? Onde tem bicho?

Victoria aponta pra TV, olhando assustada.

VICTORIA: - Iço, Ox! Iço!

Mulder senta-se na cama, coçando a cabeça. Olha para a televisão. Vê Jack Nicholson falando com Cher. Olha pra Victoria.

MULDER: - Ok, você tá sem sono, mas eu estou cansado... (OLHA PRA JANELA) Por que abriu essa janela?

VICTORIA: - Nah foi Vic, papai!

MULDER: - Sei. E eu virei sonâmbulo e ando abrindo as janelas dormindo.

Mulder se levanta. Fecha a janela. Acende a luz do banheiro. Volta pra cama e deita-se.

MULDER: - Pronto, o bicho foi embora. Se ele voltar, papai pega ele.

Victoria faz beiço. Engatinha até os pés da cama. Mulder suspira. Victoria desce da cama e fica na frente da TV. Mulder senta-se na cama, a observando, intrigado. Ela bate na tela da TV.

VICTORIA: - Iço! Iço!!!!!

MULDER: - (OBSERVA A CENA DO FILME) ... Não tem bicho nenhum aí. São as Bruxas de Eastwick. Jack Nicholson não é um cara mal de verdade.

VICTORIA: - Nahhhhhh! Iço! Iço!

Mulder se levanta. Se ajoelha ao lado dela. Olha pra TV.

MULDER: - (PARANOICO) Você está vendo algo que não consigo ver?

VICTORIA: - Nah! (APONTA PRA TV) Iço!

MULDER: - Pinguinho, é só uma comédia de terror. Eles estão fingindo, não é de verdade, são atores. Não precisa ter medo. Jack Nicholson faz o demônio e elas são as namoradas... (OLHA PRA VICTORIA/ DESCONFIADO) ... O que quer dizer com Iço?

VICTORIA: - (BATE NA TELA MOSTRANDO JACK NICHOLSON) Iço! É iço papai!!!!!! O Iço!!!!!!!!

Mulder se levanta. Recua de costas, tomado de pavor. Victoria continua batendo na tela, em cima de Jack Nicholson. Mulder, atônito sai do quarto. Victoria observa a TV.

VICTORIA: -(ANGUSTIADA) Iço obo! Iço obo!!!!!!!

Mulder volta com um livro. Senta-se no chão.

MULDER: - (NERVOSO) Filha, presta atenção no papai. Tem algum 'Iço' aqui?

Mulder mostra alguns desenhos místicos, entre eles o desenho de um demônio. Victoria aponta pro demônio. Mulder fica em pânico. Victoria aplaude. Começa a se balançar dobrando e espichando as perninhas, num sorriso de felicidade.

VICTORIA: - Sim! Iço Ox! Iço! É Iço!!!!!! Mama!!!

Mulder olha pro desenho.

MULDER: - Pinguinho, você tá me dizendo que o tal 'Iço' é o demônio?

VICTORIA: - Sim! "ônio", papai. Dodói mama!!!

Mulder olha pro lado, pensativo.

MULDER: - ... Isso explicaria porque todo animal chifrudo é 'Iço' pra você, enquanto os outros não... Meu Deus! Como eu não pensei nisso antes?

Mulder pega a primeira roupa que vê e vai vestindo.

MULDER: - Ok, eu estou entendendo. Tudo isso que fizeram com sua mãe foi obra do Iço. E eu sei quem está por trás disso tudo.

Baba entra no quarto, vestida num robe, assustada.

BABA: - Que bagunça é essa?

MULDER: - Preciso sair.

BABA: - Agora?

MULDER: - (VESTINDO A JAQUETA) É agora ou nunca.

O telefone toca. Mulder olha pro telefone assustado. Atende.

MULDER: -(AO TELEFONE) Mulder.

ELLEN (OFF): - (CHORANDO) Mulder...

MULDER: - (AO TELEFONE/ FECHA OS OLHOS) O que houve com ela?

ELLEN (OFF): - Tentou se atirar da janela. Uma voz me disse pra ir até a cozinha e lá estava ela no parapeito da janela. Dana está falando sozinha. Grita e chora, tem ataques de convulsão, e eu precisei chamar a emergência.

MULDER: -(AO TELEFONE/ EM LÁGRIMAS) Pra onde a levaram?

ELLEN (OFF): - Para o Hospital Psiquiátrico de Maryland... Mulder... Dana piorou. Como você previu.

Mulder desliga o telefone. Passa as mãos nos olhos, secando as lágrimas.

BABA: - Aconteceu alguma coisa?

MULDER: - ... Levaram Scully pra um sanatório. Acham que está louca.

VICTORIA: - (AOS GRITOS) Naaahhhh!!!!!!!!! É o Iço, Ox!!!!! Iço!!!!!! Dodói mama!!!

MULDER: - Eu sei, Pinguinho. Eu sei. E eu vou trazer a mama de volta.

Mulder sai do quarto, atordoado. Baba olha pra Victoria.

BABA: - Finalmente ele conseguiu enxergar a verdade?

VICTORIA: - (BEIÇO/ DERRUBANDO LÁGRIMAS) Qué a mama, Baba! Vic qué a mama!

Baba a pega no colo. A abraça.

BABA: - Seu pai vai trazer a mama de volta. O mal nunca vencerá o bem, minha bruxinha.



Hospital Psiquiátrico de Maryland - 2:49 A.M.

[Som: Era - Enae Volare Mezzo]

Foco na porta do hospital que se abre.

Câmera de aproximação rápida pelo corredor de piso branco. Alguns enfermeiros e enfermeiras que passam.

Foco na planta que se movimenta sem brisa alguma.

Foco passa por Mulder sentado no banco, cabisbaixo.

Segue pelo corredor, dobrando à direita, abrindo outra porta e saindo em outro corredor.

Janelas fechadas e grades de proteção.

Os papeis sobre a mesa do segurança, voam ao chão.

O segurança olha pra janela fechada, sem entender nada.

Escutam-se os gritos de Scully.

Foco segue até a porta de número 12, parando na porta.

Do lado de dentro, Scully presa numa camisa de força, dentro do pequeno quarto de paredes brancas e revestidas. Cabelos desgrenhados, olhos azuis distantes, batendo a cabeça contra a parede.

SCULLY: - (HISTÉRICA/ AOS GRITOS) Me tirem daqui!!!! Eles estão aí fora! Estão em todos os lugares!!!! Eles querem me pegar!!!!

Algo se bate contra a porta num soco, imprimindo no metal pesado a forma de uma enorme boca com presas.

Scully aos gritos histéricos recua contra a parede numa fisionomia de horror.

Fade to black.

SCULLY (OFF): -(GRITA) Nãooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!

Fade up.

3:06 A.M.

Krycek se aproxima pelo corredor rapidamente. Senta-se ao lado de Mulder.

KRYCEK: - O que aconteceu?

MULDER: - (CABISBAIXO/ SECANDO AS LÁGRIMAS)

Krycek toca o ombro dele. Mulder ergue o rosto.

MULDER: - Vou pegar o desgraçado que fez isso com ela. Eu juro que vou pegar. Pouco me importa quem ou o quê ele seja, mas eu vou pegá-lo!

Mulder se levanta.

MULDER: - Quero que fique aqui até a mãe dela chegar, ou Ellen, ou quem quer que seja. Não saia daqui. Tome conta dela, está com medo, diz que algo quer pegá-la.

KRYCEK: - Tá. Aonde você vai?

MULDER: - Dar outra incerta no nosso amigo da Moeda. Agora eu sei como chamar a atenção dele.


Orion Publishing & Entertainment Associates – Washington D.C.– 3:29 A.M.

Mulder desce do elevador. Aproxima-se da porta de vidro. Retira uma chave mestra. Enquanto tenta abrir, olha pra todos os lados. A porta se destranca. Mulder entra rapidamente, encostando a porta. Tudo escuro.

Mulder acende um abajur. Caminha até o escritório de The Gold Coin. Entra. Acende as luzes. Olha pras fotos de celebridades nas paredes. Olha para as diversas pastas na estante. Olha para a mesa. Mulder se aproxima da mesa. Pega uma das pastas. Mulder escora-se na mesa e começa a ler.

MULDER: - Contrato de quê? O que você negocia em troca de sucesso artístico, seu filho da mãe?

THE GOLD COIN: - Almas?

Mulder ergue a cabeça. Não vê nada. Desconfiado fecha a pasta. Caminha até a porta, olhando pra ante-sala. Não há ninguém. Mulder fecha a porta. Volta pra escrivaninha, revirando as gavetas.

MULDER (OFF): - Olhos, ouvidos e olfato, já dizia aquele anjo sarcástico.

Mulder para. Fecha os olhos, sentindo algum cheiro.

MULDER: - Perfume masculino... Sândalo...

Mulder vira-se e vê The Gold Coin, como Richard Gere, escorado na parede, o observando. Mão no bolso das calças sociais negras, o terno bem alinhado, brincando com a moeda na mão em que tem o anel de rubi.

MULDER: - Estou vendo você.

THE GOLD COIN: -Eu sei. Eu permiti.

MULDER: -O que você é?

Coin desaparece. Mulder o procura com os olhos. Coin, atrás dele, agora na forma de Scully, aproxima os lábios da orelha de Mulder.

THE GOLD COIN: - Você pode me ver, mas não consegue me sentir, Fox Mulder?

Mulder vira-se. Olha pra "Scully" incrédulo. Scully sorri debochada. Anda pela sala e aos poucos transforma-se em J. Depp.

THE GOLD COIN: - (CANTANDO) Pleased to meet you. Hope you guess my name. But what's puzzling you is the nature of my game...

Prazer em conhecê-lo, espero que você adivinhe meu nome...

Mas o que está confundindo você é a natureza do meu jogo.

Mulder recua com medo. Coin anda calmamente pela sala, enquanto passa a ponta dos dedos nos DVD's da prateleira.

THE GOLD COIN: - Você me conhece, eu já estive perto de você, os meus já estiveram dentro de você. Eu conheço sua essência. Seus segredinhos sujos. Seus pensamentos sacanas. Seus pecados. Eu conheço você, Fox Mulder. Você vivia me chamando. E você sabe meu nome. Consegue pronunciá-lo? Ou quer que eu me transmute em alguma forma mitológica com chifres e cauda para convencê-lo?

Mulder fecha os olhos. Abre-os. The Gold Coin sumiu. Apenas uma moeda ao chão.

MULDER: - Você é o... Demônio.

Mulder não consegue se mover de pavor. Então pressente algo atrás de si, mas o medo não o deixa se virar. The Gold Coin coloca as mãos nos ombros de Mulder, cochichando em sua orelha.

THE GOLD COIN: - (SUSSURRA) Tenha mais moderação. Me chame pelo nome, seja cortês, eu aprecio a boa educação. Se sabe quem eu sou, sabe que não pode lutar contra mim. Você não tem forças pra isso. É apenas uma experiência. Uma maldita, arrogante e idiota experiência.

Mulder se afasta dele. Olha pra ele, com incredulidade.

MULDER: - (MEDO) Deixe Scully em paz. Fique comigo. Leve a minha alma.

THE GOLD COIN: -Por que faria isso?

MULDER: - Porque você já me conhece! Porque eu já olhei em seus olhos por diversas vezes e agora entendo o quanto é covarde porque se aproximou dela que não o conhecia!

THE GOLD COIN: - (SORRI) Mas não é você que vive dizendo que não existo? Ela pelo menos sempre acreditou em mim... Pobre Dana. Está louca.

MULDER: - (GRITA) Seu maldito alienígena desgraçado, pouco me importa quem você seja ou o que terei de fazer pra salvá-la!

The Gold Coin estende a mão em direção a Mulder que voa contra a parede e cai ao chão. The Gold Coin esfrega as unhas no terno.

THE GOLD COIN: - Como ousa falar em tom arrogante comigo, sua criatura medíocre? Sabe que posso enviar meus demônios pra dentro de você? Sabe que posso fazer isso doer muito?

MULDER: - (TENTA SE LEVANTAR/ ASSUSTADO) ...

THE GOLD COIN: - Sou superior a você, seu macaco mutado e atrevido. Sabe que agora encontrou um inimigo invencível.

MULDER: - (FECHA OS OLHOS/ IMPOTENTE) ... O que você quer?

THE GOLD COIN: - Depois de tanto tempo, seu metido a gênio da paranormalidade, ainda não aprendeu que nunca se deve perguntar a Lúcifer o que ele quer, ou ele pode dar uma resposta nada agradável aos seus ouvidos?

MULDER: - (MEDO) ....

THE GOLD COIN: - Mas darei uma chance a você, porque gosto da sua ousadia. Além do mais, você tem algo que ela não tem. Você tem um lado negro. Sinto o cheiro dele.

MULDER: - (CABISBAIXO) ...

THE GOLD COIN: - Você sabe que não pode enganar o Diabo... Façamos um pacto.

MULDER: - ... (OLHA PRA ELE)

THE GOLD COIN: - Eu devolvo Dana pra você. Sei que gosta do jogo de responda ou pague. Nesse caso você terá que pagar.

MULDER: - E qual o preço?

THE GOLD COIN: - Se quer Dana de volta, a entrego agora mesmo. Uma ordem minha e ela estará livre dos que estão com ela. E vocês serão felizes pra sempre.

MULDER: - Nada que venha de você é de graça. O que quer em troca? Você está me iludindo como tenta fazer com todos que dão ouvidos a você!

THE GOLD COIN: - Só vai ter a certeza disso se negociar comigo. Como pode saber que vou engana-lo, que o que dizem sobre mim é verdade? Você não sabe nada sobre mim, seu arrogante. Nem mesmo acredita em Deus, Mulder. Nem acredita em nada que venha Dele. Menos ainda nos relatos bíblicos. Todos fantasiosos. Eu não sou o que a cultura popular humana espalhou por aí. Pode ver, não tenho cauda e chifres. Eu sou apenas um anjo.

MULDER: - E como vou acreditar em você e não na cultura popular humana?

THE GOLD COIN: - Isso é escolha sua. Sabe que defendo a liberdade de escolha. Minha palavra não lhe basta?

MULDER: - ... Eu quero saber o preço da sua ajuda.

THE GOLD COIN: - Faz parte do pacto assumir os riscos.

Mulder olha pra ele, receoso. The Gold Coin ergue a mão com o anel. Olha pra mão. Olha pra Mulder.

THE GOLD COIN: - Vamos negociar. Um estalo de dedo e Dana será sua. Então? O que decide? Lembre-se, eu não sou o que pensa. Eu posso dar a você tudo o que desejar. Nada lhe faltará e será feliz com ela. Apenas me diga sim. Me diga sim e terá Dana. O que diz, Fox Mulder? Sim ou não?

Mulder fecha os olhos, angustiado. The Gold Coin o observa com o olhar de quem aguarda a resposta. Mulder olha pra mão dele.



TO BE CONTINUED...


18/12/2002

31 de Octubre de 2019 a las 04:44 0 Reporte Insertar 1
Fin

Conoce al autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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