14 Contos de Gakkômura Seguir historia

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Este é um trabalho literário assoberbado de narrativas atuais e tão antigas da existência, dissecando as experiências cotidianas que nos sobrevêm e se perfazem em conflitos familiares, brigas conjugais, sexualidade, traições, dependência química, dinheiro, fama, religião entre outros assuntos que, na vida de qualquer peregrino desta era, é sucetível de acontecer enquanto caminha neste mundo. Conforme o próprio rei Salomão dizia: " Não há nada de novo debaixo do sol..." Eclesiastes 1:9. Desta forma, esta obra que foi dividida em 14 contos, visa contemplar aquele jeito de escrever criativo esmiuçando as coisas possíveis e até impossíveis de acreditar, e construindo à partir do material recolhido nos acontecimentos da vida de qualquer pessoa real, enredos literários carregados de uma poesia realística que quando narrado pelo leitor, vai entranhando seu ser, avultando um corpo enigmático na sua mente e alma, pacificando através do desenrolar das tramas, cada pedacinho em nós que ainda reluta em aceitar que histórias fascinantes acontecem a todo o instante e em qualquer lugar. (*2019)


Historias de vida Sólo para mayores de 18.

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* Crisálida

Tentando encontrar um parâmetro mais definido sobre os sentimentos de Nayara relacionado ao seu casamento com Sílvio Agnaldo, pode se narrar os fatos baseados nas frustrações corriqueiras e comuns a toda hora, de todos os tamanhos e formas, objetivas no viver doméstico ou subjetivas no sentir os sentimentos sempre a inundando por dentro em torrentes de arrependimentos carregados de culpas por causa do pecado, de acordo com o que quase diariamente ouvia do pregador no púlpito, o suor escorrendo o rosto aos berros, a bíblia entrincheirada na mão esquerda, enquanto na outra, seus os dedos em riste, apontados para uma congregação assustada, os olhos vidrados no gesticular agitado, a voz ficando cada vez mais falhada, intercalada nos goles d’água, e rouca diante das mensagens, das normas e da doutrina sabiamente ensinada a favor do testemunho que dizia que um membro de igreja só poderia se relacionar com outro da mesma congregação.


E assim foi com Nayara Tokugawa, pré adolescente aos treze anos de idade, visitando a primeira vez a Igreja Genuína dos Filhos do Altíssimo, conduzida ali por uma amiga da escola que conhecera o testemunho claudicante e perturbador narrado no intercalar das aulas, e que por bastante tempo ficou incrustado na sua alma de boa menina. Aos treze anos ela sentia-se extremamente impotente diante do alcoolismo do pai truculento e sempre embriagado, que quando não estava em roda de amigos bebendo ao varar da noite, estava caído no chão mulambento à porta do mesmo bar. Quando o salário recheava o bolso do senhor Nivaldo, uma amnésia temporária o visitava fazendo-o se esquecer dos compromissos em forma de faturas, boletos, cobranças ao pé da porta, e até mesmo o pagamento do leiteiro era desprezado frente a sua fiel fidelidade aos prostíbulos da região.


Nesses “respeitosos” ambientes, ele desaparecia por vários dias seguidos, às vezes faltava o serviço, e enquanto o fruto da labuta mensal de cobrador de ônibus não evaporava em forma de sorrisos estampados nos rostos das incansáveis operárias, ele não retornava para casa. — O pai voltou minha mãe? — A magérrima perguntava baixinho todas às vezes que ouvia o pai cadenciando os passos no corredor, seu rosto expurgado da embriaguez passada, camuflando uma seriedade não genuína, mas tão necessária para adentrar novamente o local de trabalho.


Eram rotineiras as contendas com a mulher frequentemente abandonada as responsabilidades de casa, a filha comprometendo o futuro na diluição emocional que absorvia grande parte da sua energia mental frente aos estudos, sem falar nas cobranças conjugais aos gritos, as ameaças de separação repetitivas, os julgamentos simultâneos de atos certos e errados adentrando madrugada a fora; todo esse emaranhado sufocante, palpitante no peito amargurado de anos, pouco a pouco convenceram a jovem que, passar mais tempo esfolando os joelhos em forma de oração seria bem mais produtivo do que ficar ao pé da porta, fibrilando tentativas e pulsões de interferir nas brigas. Primeiro ela se firmou na igreja, depois sua mãe a acompanhou aos finais de semana, e em seguida, um bom tempo depois, o pai começou a frequentar as reuniões.


Com a frequência nos cultos e conforme o peso das nádegas sobre o assento iam delineando um “ouvir” cada vez mais sensível às sutilezas apreendidas nas mensagens do evangelho, o coração familiar foi se pacificando aos poucos, se acalmando da torrente nervosa no sentir com desprezo o outro, da culpa arremessada simultaneamente para ambos os lados, e principalmente dos ódios gratuitos estimulados pelo alto teor alcoólico circulando nas veias o poder destruidor dos consentimentos outroras construídos entremeio a raríssimos diálogos conscientes.


Agora todo esse emaranhado febril tratado, estava ruindo dia a dia em um desmoronamento prazeroso e não sutilmente apresentada como o testemunho vivo no meio de uma congregação ávida por experiências genuínas do poder sobrenatural estimulando a todos para o bem comum, principalmente na prática dos ensinamentos aprendidos e engendrados profeticamente pela “ voz divina ” encarnada nas palavras de um pastor desmascarando a energia ruim, a moldando em forma de bons pensamentos, tecendo comportamentos mais assertivos no caminhar junto ao outro, convergindo assim todo e qualquer jugo desigual, seja na esfera da mente ou na emocional, em atitudes mais convidativas, benignas de sentir até as entranhas ou apelativas o suficiente para atrair sempre mais gente disposta a propagandear o “ reino de deus ” e a “ religião ” ensinada nos cultos cada vez mais recheados conforme um a um passava a enxergar a vida sob a tutela de um pregador cada vez mais possuído pelo espírito de "deus".


Nesse ambiente, Nayara com o coração sempre grato das coisas que o seu Deus tinha realizado em sua família, procurava se ocupar cada vez mais nas atividades oriundas dos serviços demandados pela congregação, seja na organização do voluntariado responsável pela evangelização semanal que percorria os bairros, os telefonemas convocando os irmãos desviados, a procura insistente por alguma “estrela eminente”, seja um cantor famoso, pregador em ascendência ou mesmo alguém ainda desconhecido, mas com um testemunho de conversão forte o suficiente para apertar um pouco mais a coleira invisível dando voltas consecutivas no pescoço de cada fiel.


Para trás ficaram as brincadeiras na rua sempre tumultuadas pela garotada correndo solta às gargalhadas, findaram as festinhas entre os amigos, desapareceram os bilhetinhos secretos de amor e as confidências apaixonadas, e redirecionou ao presbitério todo as perguntas existenciais antes feitas diretamente aos pais. Acabou-se isso e muito mais, principalmente o prazer juvenil adentrando a puberdade nos selinhos inocentes, nas bitocas acaloradas, nos abraços singelos ou apertados carregados de provocação mútua, principalmente quando ela estava, por assim dizer, escondida atrás de alguma árvore, na dobra de alguma esquina sem movimentação eminente, ou mesmo diante das ausências passageiras que proporcionavam estar momentaneamente com seu namoradinho em qualquer lugar.


— Mamãe, estou indo para a igreja! — É o que ela mais comumente dizia à partir dali, a Bíblia gorda empanturrada debaixo dos esqueléticos braços, a sensação gostosa no peito acariciando a alma em afagos rememorando na mente a certeza do dever angelical sendo cumprido à risca. Mas com o passar de dois anos, Nayara Tokugawa começou a sentir incômodos rotineiros que começavam a somatizar alergias diversas em forma de coceiras que coçando sofregamente descascavam a pele, deixando-a com fundo levemente mais avermelhado que o normal. À partir dali vieram as luxações no corpo e as constantes dores se esparramando pelos ossos, pelos músculos que, inundando importunos o resto do corpo, gerava uma angústia de ser que nenhum remédio receitado ou a mais potente oração em forma de jejum davam algum jeito.


— Você precisa se consagrar mais minha filhinha! — Ouvia sempre as mesmas orientações pastorais que apesar de reconfortantes a curto prazo, não tinham qualquer efeito em um longo prazo carregado de responsabilidades eclesiásticas. Sem contar o que já foi mencionado, dentro da organização eclesiástica era a responsável por propagandear e estimular as correntes espirituais da semana, no abastecimento do púlpito com a água, café e os papéis para redigir os pedidos, pela organização das mesas e cadeiras porventura desorganizadas, e na ausência de voluntários na noite, a limpeza geral do salão até o horário que antecedia o apagar das luzes.


— Essa irmãzinha é abençoada! — Eram constantes os elogios que ouvia de relance, às vezes diretamente no encarar de olhos carregados de admiração, mas apesar de todas estas práticas que ela, por um breve tempo, insistiu acreditar que a consagravam, não percebeu a eclosão dos gritos repentinos no inconsciente lhe informando que suas crenças estavam totalmente desniveladas. Desniveladas nas cobranças religiosas que a torturavam mais do que a pacificavam, nas alterações constantes do humor por causa de uma pressão sanguínea sufocando o peito em surtos repentinos que aconteciam em dias alternados, e principalmente na solidão solidária entremeando almas com crenças parecidas mas que de forma alguma nunca se conectavam.


Com todos esses conflitos, Nayara Tokugawa foi sentindo uma película de tristeza pálida e contígua crescer na sua face e se avolumar no coração, cerceando os sentimentos juvenis ainda não amadurecidos à medida que a afundavam cada vez mais em amarguras, em vazios perturbadores, e em culpas carregadas de sofrimentos pelo aflorar de uma enxurrada de desejos que a pequenina julgava, de acordo com o que ouvia do púlpito, emoções proibidas frente ao que se propôs a abandonar em nome da fé.


Todo um conjunto de sensações boas no início e na maioria ruins no desandar dos fatos, a embarcaram cada vez mais dentro de um casulo de insegurança contínua, acelerado ainda mais pelas memórias de uma vida que também aconteceu em forma de gritarias, de gargalhadas, das brincadeiras de rua até o adentrar da noite, e no “ prazer proibido ” que aos finais de semanas a arrebatava entre beijos e abraços quando em conjunto com Frederico, seu namoradinho da casa ao lado. Em noites febris assim, ela encontrava alento apenas entre os pensamentos que porventura já a endurecia há anos. Convencendo-se sempre com os mesmos argumentos religiosos carregados de versículos bíblicos, relembrando o poder divino na cura dos traumas entre seus familiares, buscando alívio principalmente em aconselhamentos pastorais e na constante leitura de livros que pudessem de alguma forma, blindá-la frente a todos estes “ tormentos ”.


Imersa nesse “ santo ” processo até aos dezoito anos de idade e não encontrando outra solução para a pacificação da própria alma, além do que era ensinado piamente na igreja, ou seja, a repreensão e negação de fatos represados, uma pontinha de “ libertadora esperança ” surgiu em seu coraçãozinho quando pela primeira vez viu um irmãozinho novo na fé; Sílvio Agnaldo de Amorim, rapazola de dezessete anos chegando acompanhado dos pais, que vinham de mudança do interior e chegavam com todas as recomendações dos irmãos da matriz da igreja em São Paulo. — A paz do Senhor minha irmã! — Era o que frequentemente ele dizia, cumprimentando Nayara antes do culto, o rosto de menino ainda mais destacado pelo empinar do nariz sob o cadenciar de seus passos rumo aos primeiros assentos da congregação. Quando o pregador apontava no púlpito, Sílvio Agnaldo vidrado sempre estava nas palavras, nos gestos, nas entonações marcantes que mais arrancavam Glórias e Aleluias, procurando sempre aqui e ali, por espaços desocupados na Bíblia arregaçada, que pudessem ser rapidamente preenchidos por suas anotações em azul ou preto e na ausência delas, por alguma das suas canetinhas coloridas.


— Com certeza ele será um pastor! — Ouvir essas palavras fascinava Nayara Tokugawa, sempre atenta a tudo o que testemunhavam sobre ele, e que pouco a pouco, avolumando no coração de mulher ainda fibrilando desejos por um “ santo amor ”, paulatinamente a convenceu que ambos, com toda a certeza, seriam um casal ímpar diante do seu Deus. A partir daí, intensificaram as súplicas repentinas, as orações de madrugada, e as consagrações em jejuns que se estendiam por dias sem fim. Casaram-se dois anos depois com todas as pompas e gracejos dos irmãos, que anos outroras, profetizaram o acontecimento. — Minha esposa, em consagração ao nosso Deus não nos tocaremos por trinta dias! — Logo na lua que deveria ser de mel, Sílvio Agnaldo martelou a proposta conjugal que acabou sendo um prelúdio da história que os acompanharia anos afora. Pensando já estar livre de antigos tormentos, feliz e anestesiada pelos acontecimentos que agora ocupavam todos os recônditos dos pensamentos recentes, ela respondeu imatura em sorrisos, gracejando louvores rendidos aos céus, falando em gestos e calando todos os protestos interiores com o olhar carregado de precoces ternuras que refletia em Sílvio Agnaldo, a certeza que ela estava entrando em sua vida principalmente para ajudá-lo no ministério.


Agindo assim de início e impressionada apenas com o “ brilho do anel ” circulando o dedo trocado de mão, acabou se esquecendo de si e das necessidades da menina mulher incrustadas no ser, estimuladas na carne desde a puberdade precoce, e que apesar de propagandear aparências de felicidades na alma, por trás de todo aquele aparato religioso, eclesiástico, servil no viver a vida buscando um nível cada vez mais alto de santidade, nos recônditos de sua feminilidade ainda resistia a fêmea insaciável, adormecida de outras épocas e que em noites mais febris, quando o invólucro do pudor é rompido e os diques do desejo se entornam para mais, ela ressurgiria arruinando o chão das sexualidades não correspondidas, expondo dessa forma todas as sujeiras, as imundícias e as superficialidades construídas dentro de uma conjugalidade que supervalorizou a castidade e a religião e desprezou quase por completo as singularidades de um viver comum a dois.



— É tentação do diabo! — Assim ela convencia a si sempre em silêncio, ora orando cabisbaixa e mergulhada em culpas passageiras, outrora jejuando dias e dias que pareciam nunca ter fim, preces sempre acompanhadas de confissões cada vez mais corroboradas da “ palavra ”, a bíblia sempre a tiracolo, reprimindo todo o tipo de alteração nos impulsos sexuais que seriam normais na sua carne, se não fosse o desprezo assexuado que já alguns anos recheava o casamento de tristezas. — Meu Deus! Será que algo assim é normal ? — Eram partes de suas orações confusas, misturadas com o desgosto que paulatinamente enchiam sua alma de amargura, pois quando eles estavam deitados e com desejo a esposa resvalava em seu peito cabeludo, logo ele saltitava nervoso, vociferando desculpas esfarrapadas, dizendo não estar em condições pelo cansaço que no púlpito o consumia ou pelas horas de estudo da “ palavra de deus ” quando na confecção da mensagem principal que, após semanas de dedicada consagração, esgotaram todas as alegrias que porventura teria para compartilhar com ela.


— O mais importante é a amizade entre o casal! — O marido repetia a desgastada frase todas às vezes que sentindo a aproximação repentina da mulher resfolegante, logo tratava de castrá-la em respostas acompanhadas de uma face cerrada, às vezes reprimindo-a em chantagens fictícias corroboradas no uso covarde de alguns versículos invertidos e utilizados a favor da sua assexualidade já condenada, principalmente nos encarceramentos que outrora a cercando com todo o respeito e carinho de um amigo, a cuidava pura e simplesmente como o objeto do seu não desejo. — Seja fiel ao seu cônjuge! — Atrás do púlpito era isso o que o pastor Sílvio Agnaldo geralmente pregava, lançando o olhar condenatório para todos os lados, os dedos das mãos sempre em riste carregados de ameaças divinas para o resto da congregação. — Amados irmãos, depois da Obra do Senhor, o mais importante é a santidade no casamento como a base de uma família que agrada a Deus! — Repetia sem se julgar anestesiando-se nas frustrações alheias, fechando os olhos para as próprias misérias, tapando os ouvidos para os clamores visíveis e audíveis da esposa cada vez mais saturada de um homem se revestindo de hipocrisias, de mentiras e dos enganos que, como servo de Deus, deveria ser o primeiro a repudiar.


Tirando a pauta do não-me-toque, a vida doméstica, de início era uma maravilha. De todos os quesitos que um bom marido deveriam ter, boa parte deles estavam destacados no currículo de Sílvio Agnaldo. Sempre atento às necessidades da igreja como também com os olhos sempre voltados para dentro de casa, nunca permitia que a mulher, quando se sentindo indisposta, se excedesse em assuntos do lar. Por isso, quando necessário era ele mesmo quem cuidava dos afazeres domésticos desde a limpeza e manutenção dos ambientes internos, os cuidados com as roupas e outros tecidos que iam para a lavadora, sem falar nas obrigações que exigiam dele algum tipo de locomoção; as compras semanais em supermercados quase sempre lotados, as visitas nas feiras a procura de frutas e verduras sempre frescas, e as filas de bancos à perder de vista que enfrentava sempre em nome do amor; de pé por horas, até que todos os boletos relacionados a prestação de algum serviço necessário, estivessem quitados.


Para encurtar as idas e vindas do trabalho, a residência estava localizada em um bairro vizinho a Campo Lindo. A construção simples erigida nos fundos de um terreno de duzentos metros quadrados, era ainda mais empoderada por causa do belo jardim ocupando quase toda a área externa da habitação: bordeado por pingos de ouro, cicas gorduchas próximo ao portão em um constante desabrochar de folhas esverdeadas, sem falar nos cactos acompanhados de rochas fragmentadas, das espadas de São Jorge sempre amostras, do Ficus, da Pacova, das Patas de Elefantes e das flores de todos os tipos e cores. E no centro do jardim, sobre um círculo cimentado, a palmeira gigantesca, velha de anos outroras, o tronco cinzento rachando sinais de apodrecimento recentes, que já somatizando problemas no piso, suas folhas inundadas de casulos de borboletas precoces, cobriam em molestamentos sombreados grande parte da varanda principal, bem na entrada da casa.


Apesar de modesto, a limpeza e conservação sempre constante do verde davam um ar mais respirável, mais louvável, mais receptivo ao ambiente delimitado por vizinhanças de casas sem qualquer cuidado, as pinturas de anos à refazer, telhados sempre velhos com partes esburacadas ou quebradas, e na frente dos portões sobre calçadas despedaçadas, um acúmulo de mal cheiro insuportável de sacolas rasgadas, o interior todo à mostra, lançados de qualquer jeito ali sem o mínimo do entendimento da importância da presença de um cesto ou mesmo de um latão de lixo para os proteger.


— Meu bem, hoje a noite o culto se estenderá até a madrugada! — Ela ouvia as constantes deixas do marido já partindo porta afora logo após ter certificado que a esposa de nada material necessitava em casa. Sentindo-se mais sozinha que o convencional, já imersa em pensamentos noturnos, ela recorria a velha bíblia companheira de anos. — Lerei Cantares de Salomão para me animar! — Sibilava palavras contidas, desviando-se de leituras apocalípticas, posicionando a luz do abajur frente ao rosto enquanto se esparramava por completo no leito raramente utilizado. Começava do início e logo se entediava no atravessar dos capítulos. Decidida a desfrutar mais dos solitários momentos de tempo, com olhos ansiosos ela ia pulando versículos, saltitando palavras, até encontrar as passagens perfeitas que mais a excitava; debruçada sobre eles com o coração palpitando recorrentes tremuras, a mente mergulhava vorazmente nas partes sempre grifadas, o papel amarelado pelo encardido constantes dos dedos acompanhando palavra por palavra, e a imaginação a mil, ora em galopes repentinos, outrora em demoradas galopadas, tudo por causa da provocação insinuante incendiando os pensamentos encorpados e deliciosamente imaginados em cada frase: — Oh amado da minha alma! — Sussurrava para si, os olhos cerrados, retrocedendo inconscientemente os pensamentos de volta ao passado.


— Dize-me, oh tu, a quem ama a minha alma: onde apascentas o teu rebanho, ondes o recolhes pelo meio dia? — Letra por letra, as palavras cada vez mais sendo entoadas em uma sonoridade ficando adocicada, lenta e gradualmente era consumida pelos desejos da fêmea mulher que com o fogo abrasador corando o rosto angelical, descia pelo pescoço aquecendo os seios, passeava em movimentos circulares eletrizando o ventre, e por fim, se concentrando na virilha, espalhava-se gradualmente pelas pernas, devorando toda a sensibilidade contida nelas. Quando assim, já imersa em um fluxo de pecados não mais considerados, as memórias do seu passado tornavam a acariciá-la em contínuos tormentos, pululando na mente desejos antigos ainda ardendo inconscientemente, fazendo emergir do baú das lembranças secretamente guardadas, tudo o que ficou impresso em sua sexualidade de menina; os olhares inocentes, os beijos inflamados, as fugas momentâneas, os abraços apertados, e os toques de pele findando sempre em dedos carinhosamente entrelaçados.


Um frenesi de sentimentos cada vez mais conectados na extensão da amizade de tempos outroras, expressados nas carícias, nos afagos das faces ficando rosadas, e na paixão juvenil sempre envolta por um amor não fingido, deliciosamente correspondido, às vezes impossibilitado de ser expressado por causa de ausências proibitivas impostas temporariamente por ambos os pais. Tudo isso junto e eclodindo na sua feminilidade, a transportava para um momento da vida que, comparado aos dias atuais, fora mágico e sublime por estimular sensações genuinamente prazerosas que agora, pelo peso dessas ardências que brotavam no terreno infértil da sua conjugalidade, a molestava diariamente diante de todas as incongruências diárias vividas com Sílvio Agnaldo.


Uma pausa para a respiração e logo então as mãos se encontravam debaixo da saia, os olhos cerrados, os pensamentos já enclausurados, e todo aquele peso no peito sufocado de anos áridos encontrava oportunidade para se diluir na liberdade sexual momentânea que, expurgando resquícios do pudor religioso ainda grudado na alma, desafogava por completo qualquer insatisfação outrora domesticada. — Que tesão! — Nayara Tokugawa sussurrava doces sussurros, os dedos eriçados passeando o tecido de algodão cada vez mais umedecido, tateando na mente por algo no casamento para se ancorar, se deleitar, e não encontrando nem migalhas na própria conjugalidade, retroagindo ainda mais o passado sem traços de culpas na própria psique, até se agarrar por completo às estruturas deliciosamente construídas em um relacionamento juvenil abruptamente deixado para trás. — Oh meu amor! Quantas saudades tenho de ti! — Gemia sem pronunciar o seu nome, entesourando na memória verdades que não ousava expressar em palavras, pelo medo de às enfraquecê-las, ou mesmo perdê-las por qualquer vento do acaso que, porventura passeando enquanto ela gemia, as engolfassem transportando-as para fora do ambiente das suas subjetivas realidades.


De repente, parte das suas angústias evaporavam por um breve instante na respiração não mais contida pelo agitar frenético dos dedos acelerando cada vez mais o friccionar embaixo, inundando-a de carinhos imaginados também com outros homens que, recheando os inúmeros textos eróticos devorados em noites insones, a faziam se sentir temporariamente um pouco menos solitária. — O mais importante é a amizade entre o casal ! — Retrucava em gemidos às constantes falas do marido-pastor, imaginando em desejos acalorados, “algum desconhecido” forçando passagem entre as pernas decididamente arreganhadas, ordenando posições corporais submissas, sussurrando palavras aveludadas ao pé do ouvido, a fazendo se sentir viva e plenamente saboreada no êxtase louco que jorrando entre as coxas, era maculado apenas pelo rancor refletido na vingança fictícia imposta mentalmente a Silvio Agnaldo.


Depois de três anos assim, a culpa após estes contínuos atos, já não a molestava. Esparramada sobre a cama, o corpo totalmente nu, inerte e inundado pelo deleite decorrente do abandono das fagulhas não mais eletrificadas, o que pairava após o frenesi era apenas nuvens carregadas de arrependimentos desconhecidos, sublimando os pensamentos pós prazer, e enquanto não fossem discernidos até as entranhas, a manteria agrilhoada em um sentimento de extrema carência por ausência de consumação carnal. Após Nayara tanto buscar os encontros para os diálogos, colecionar noites de choro carregadas de ânsia que pareciam nunca ter fim, estabeleceram-se as brigas entre o casal e nunca mais os abandonaram.


— SOMOS UMA FARSA! — Rotineiramente era o que ela mais vociferava amargurada, emitindo ofensas ácidas em suas tentativas desesperadas de encontrar alguma luz, alguma solução, ou qualquer válida saída para a decadente corrosão conjugal, ainda que estimulando o casamento a trancos de maus tratos contínuos. O marido argumentava sempre aos berros, exausto pelos uso dos mesmos argumentos, desprezando conscientemente a natureza das coisas normais da vida que, o DEUS que a SEU favor eloquentemente ele pregava, havia definido de serem assim. Não demorou muito e logo essas ofensas verbais se converteram em uma agressividade recíproca, recheada de empurrões, tapas e pontapés que, engrossando o clima dentro da casa do santo casal, era ouvido à distância por toda a vizinhança assustada, confusa nas decisões a tomar, e que não sabendo discernir se era briga conjugal ou oração forte para destronar o capeta, não acudia e muito menos ligava para a polícia. Com o transbordar das duplas angústias no acumular de conflitos sob conflitos em demandas que desatavam até o nó das gargantas entaladas de anos, como não encontrando meio termo entre os diálogos que se tornavam cada vez mais raros, implantou-se um silêncio entre os dois que só era rompido na presença de algum conhecido, eles dissimulava intimidades, afetos fingidos, risos forçados em uma ginástica laboral tremenda para continuar mantendo as aparências diante da congregação cada vez mais desconfiada.


20 de Octubre de 2019 a las 19:52 0 Reporte Insertar 2
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