Contra o Estado Seguir historia

gabrieljakutis Gabriel Jakutis

Nicolas era um rapaz normal. Tinha uma vida normal. Uma rotina simples. No entanto, tudo mudou quando soldados bateram em sua porta o acusando de crimes contra o Estado. Foi revistado, algemado e lançado no baú apertado de um furgão com outras 20 pessoas. Foi levado a um Campo Patriótico para fazer seu acerto de contas com o governo. E agora, precisava resistir para conseguir sobreviver à opressão do governo sobre ele.


Cuento No para niños menores de 13.

#campo #campo-de-concentração #governo #estado #conto #acction #ação #lgbt #ditadura #fascismo
Cuento corto
4
1.8mil VISITAS
Completado
tiempo de lectura
AA Compartir

Capítulo Único


O baú escuro do furgão balançava com intensidade. Os corpos trombavam-se o tempo inteiro; o som das correntes das algemas era constante. Estavam todos com os pulsos presos nos cilindros das paredes. Nicolas respirava o mau cheiro daquele ambiente com desgosto. Estava inexpressivo, sentindo enjoo, medo e desconforto no meio daquelas dezenas de pessoas que quase não cabiam ali.

No fundo, o desespero o dominava. Ele estava vivendo um completo caos interno. Uma guerra. Por fora, permanecia calado, tentando se manter em pé a cada movimento brusco do veículo.

— Pra onde estão nos levando? — perguntou uma mulher, o tom de voz deixava claro seu amedrontamento.

— Nós vamos morrer, vamos morrer, nós vamos morrer... — murmurava outra em um canto.

— Que nada! — respondeu um rapaz, tentando disfarçar o medo na voz. — Aposto que apenas querem verificar algumas coisas...

— Eu não fiz nada... juro que não fiz... — outro garoto, parecia ter 15 anos, falou ao lado de Nicolas. Parecia que estava prestes a chorar.

A mente confusa do rapaz não parava de pensar em Alan, onde estava e por que haviam os separado. Ele não fazia ideia se o garoto estava sendo levado para o mesmo lugar que ele ou se nunca mais voltaria a vê-lo. Com as medidas políticas tomadas recentemente, ambos temiam a algo desse tipo. Estavam, de certa forma, conformados com a probabilidade de isso acontecer uma hora ou outra. Contudo, quando a realidade chegou de fato e os esbofeteou no rosto, a conformidade extinguiu. Agora, Nicolas sentia medo; estava apavorado com tudo aquilo, por mais que evitasse demonstrar. Suava frio como todos. Balançava conforme as ruas passavam. Já faziam horas que estava ali, de pé, algemado.

Após fazer uma curva, o furgão andou mais um pouco e começou a dar ré. Enfim, parou. No instante seguinte, os motores já foram desligados e ouviram-se as portas do carona e do motorista abrindo e fechando. Um silêncio se instaurou por um longo e intenso momento. Eles pareciam estar em um local barulhento, no qual os sons eram bem abafados pelas paredes de aço do veículo.

— Será que chegamos? — indagou alguém perto das portas, que logo foram abertas de súbito.

Uma luz forte invadiu com violência, cegando Nicolas. O garoto moreno foi obrigado a abaixar a cabeça para evitar a iluminação. Além disso, os sons também ficaram bem mais altos. Era um aglomerado de vozes, algumas enunciadas por alto-falantes, outras eram gritos histéricos de homens furiosos.

— Ninguém se mexe! — berrou alguém na porta, do lado de fora.

Entraram, então, dois soldados; exprimiam-se para passar entre os corpos do furgão. O coração de Nicolas tentava arrebentar seu peito. Os homens começaram a soltar as algemas dos cilindros, no entanto, as prendiam em uma corrente extensa, juntando todas as pessoas ali aos poucos. O militar encarregado de prender Nicolas com os outros foi extremamente bruto. Após soltá-lo da barra, não deu nem mesmo um segundo para respirar, agarrou o cabelo do rapaz e o virou de maneira hostil, já passando a argola da algema em um dos elos amplos da corrente metálica. Nicolas se viu preso — praticamente acorrentado — com todas aquelas pessoas desconhecidas.

Os soldados não eram nada gentis com ninguém ali. Tratavam quem não obedecia como brinquedo, botavam mais medo em quem já estava em pânico e agrediam aqueles que questionavam. Não pareciam humanos. Não agiam como tal.

Com os fuzis presos às costas batendo contra os rostos alheios, eles pularam para fora do baú e ordenaram:

— Desçam!

Era impossível não obedecer, afinal, foram puxados pela corrente. Eram animais indo para o abatedouro, Nicolas sabia. Mas não conseguia colocar na cabeça que Alan não estava ali com ele. O garoto nem se lembrava qual fora as últimas palavras trocadas com ele. Não podia acabar daquele jeito. Eles precisavam se encontrar.

Foram puxados pelos soldados para fora do furgão aos poucos. Ao chegar à porta, Nicolas parou para analisar o local. O céu, apesar de estar bem estrelado e com uma lua cheia brilhante, não era o causador da forte iluminação do ambiente. Havia um prédio um pouco à frente com holofotes violentos apontados na direção deles. Parecia que estavam sendo escoltados para um tipo de estacionamento cercado com muros imensos. Além disso, havia torres onde, com um pouco de esforço da visão, era possível ver soldados vigiando.

O pulso do moreno foi puxado com força e ele foi forçado a ir para o asfalto, quase caindo de cara no chão.

— Não temos a noite inteira! — gritou um dos homens que os puxavam. — Vamos, vamos.

Eles não eram os únicos ali. Quatro filas imensas estavam sendo formadas nas portas de entrada do edifício, todas as pessoas presas umas às outras. Enquanto estavam sendo puxados em direção a uma delas, Nicolas olhou para trás e viu outros furgões parados perto do que ele saíra. Acabou presenciando uma cena horrenda: um homem dentro de um dos baús atacou um soldado e saltou para fora, fugindo na direção do muro mais próximo. Entretanto, não foi muito longe. Disparos de fuzis automáticos atingiram suas costas em cheio e seu corpo caiu sem vida no chão. Gritos de horror explodiram de diversos cantos.

Um puxão forte na corrente fez Nicolas voltar sua atenção para frente. Agora, seu coração já estava quase saindo pela boca. E se tiver acontecido isso com Alan? E se isso acontecer com ele mesmo? Só de pensar assim, sentiu náuseas e vertigem. Seu corpo todo tremia; suas pernas pareciam dois bambus sustentando os 56 kg dele.

Apenas quando chegaram à fila que os soldados largaram a corrente. Mas deixaram claro uma coisa:

— Quem ousar tentar sair da fila toma bala!

Homens e mulheres fardados dos pés às cabeças caminhavam entre as filas, com suas armas assustadoras em punhos, prontos para exterminar qualquer desertor. Nicolas olhava para os lados, ficava na ponta dos pés e tentava enxergar por cima da cabeça, em busca de Alan. Havia muitas pessoas ali, era impossível encontrar um rosto conhecido. Ele ficou chocado ao ver uma criança, de provavelmente uns 10 anos, agarrada ao corpo de uma mulher que provavelmente era sua mãe na fila do lado. O que ela estava fazendo ali? Eles estavam trazendo até crianças?

A crueldade humana estava em seu ápice. A espécie mais inteligente do planeta estava mostrando seu verdadeiro rosto ali, naquele sórdido ambiente mortal, onde as pessoas estavam sendo obrigadas a caminhar lentamente até a morte. Dos alto-falantes, vozes diziam para todos obedecerem as ordens e manterem a calma. Ou seriam executados.

A fila era grande, mas andava com rapidez. Ou pelo menos, era o que Nicolas estava achando. Foi chegando cada vez mais perto do prédio, vendo diversas atrocidades ocorrendo em seu caminho. Uma mulher se jogou de joelhos no chão, gritando por liberdade; foi fuzilada. Seu sangue jorrou em todos ao seu redor. Um senhor sofreu um infarto um pouco mais à frente. Morreu com os olhos expressando horror. Um grupo de pessoas que cantavam para se sentir mais seguras foi metralhado sem um pingo de piedade. A poça que se formou chegou aos pés de Nicolas. Mais pessoas tentaram fugir; acabaram fuziladas. Um homem paralisou de medo; foi fuzilado. Uma mulher recusou-se a andar; fuzilada. Adolescentes atacaram soldados; fuzilados.

Não tinham alma. Atacavam na covardia.

Quando estavam chegando ao edifício, Nicolas olhou para trás e viu que a fila já havia se estendido outra vez. Não paravam de trazer pessoas. O que estava sendo um banho de sangue estava prestes a se tornar a maior chacina da história.

E ainda nada; nem um sinal de vida de Alan. A preocupação só aumentava, batalhando com o pavor, frustração, ódio e tristeza.

Ao voltar seu olhar para frente, conseguiu ver e entender melhor o que estava acontecendo. Uma mulher de cabelos castanhos, a primeira da fila, foi solta da corrente e caminhou até uma cabine parecida com um guichê ao lado da entrada, onde havia um militar dentro, defronte a um computador.

— Nome completo, data de nascimento e número do RG ou CPF — falou o homem de forma grosseira. Mesmo estando atrás do vidro da cabine, conseguia ser assustador.

Ela falou tudo, porém Nicolas só conseguiu ouvir o primeiro nome: "Gabrielle".

— Sabe por que está aqui? — indagou o soldado após digitar as informações no computador. — Suas dívidas com o Estado a puseram nessa situação.

— Dívidas? — indagou a garota. — Ora, eu atrasei a conta de luz mês passado, mas foi porque ainda não tinha recebido meu salário...

Ela falou tudo muito rápido; abraçava seu próprio corpo trêmulo como se estivesse fazendo muito frio.

— Bom, eu não posso fazer nada — retrucou o militar, ainda arrogante e condescendente. — De acordo com suas dívidas, terá que trabalhar por dois meses aqui, sem anuência para saída ou visitas de fora...

— O quê? — ela perguntou por cima das falas dele, que continuava seu discurso sem se importar com a indignação da mulher:

— ... sua família será notificada. Você tem direito a uma cama beliche, que dividirá com outra pessoa durante esses dois meses. Serão três refeições por dia, não poderá ingerir nada além delas...

— Não podem fazer isso... eu... eu...

— ... é bom que já fique ciente que os nossos trabalhos são derivados, seja para cozinha, manutenção de máquinas, trabalhos industriais ou então, até mesmo, missões militares. Analisaremos seu perfil para decidir em qual se encaixa mais e, caso necessário, a encaminharemos para outro de nossos Campos Patrióticos.

— ... por favor, eu...

— Agradecemos a cooperação e esperamos que você cumpra corretamente seu dever como cidadã. Essa é uma maneira que encontramos para você pagar com os crimes cometidos contra o Estado. Além disso, estará ajudando o nosso país de milhares de maneiras. A nossa pátria acima de tudo!

Então, dois soldados agarraram os braços de Gabrielle e a arrastaram para dentro do prédio enquanto ela implorava para sair dali. A próxima pessoa, um homem de uns cinquenta anos, foi sentenciado a 10 meses de trabalhos forçados por corrupção — usava TV a cabo pirata. O próximo, a nove por causa de dívidas. A fila ia diminuindo e o peito do garoto ia apertando. Quando chegou a vez de uma mulher ruiva, provavelmente de uns 30 anos, Nicolas se atentou aos detalhes:

— Você sabe por que está aqui? — falou o soldado a ela. — Professora de História em escola pública, acusada diversas vezes de se opor ao governo e doutrinar os alunos. Está sentenciada à morte por incitar uma possível revolução.

— Eu não incitei nada! — ela berrou, em defesa. Apesar da coragem em confrontá-lo, sua voz deixava escapar resquícios de desespero e choro. — Apenas ensinei o que eu sei!

— Suas atitudes foram completamente contra o Estado, consideradas antipatrióticas e perigosas demais para nosso governo. Não há reversão para terroristas como você.

E, assim como todos, a professora foi levada. A fila deu mais um passo. Estava chegando em Nicolas. Cada vez mais perto.

Não aguentava mais tanta angústia. Já derrubara duas ou três lágrimas sem perceber. Conhecia Alan muito bem e sabia como era respondão, como era desobediente e como odiava o governo. Onde estaria a essas horas? Sendo levado para a execução como os outros? Nicolas temia o pior já ter acontecido. Ele tinha que encontrá-lo de alguma forma.

A cada pessoa arrastada, cada resistência perdida, cada lágrima sofrida, o garoto se via mais perto. Próximo do fim. E não havia nada que pudesse fazer. Tudo o que queria, o que conseguia pensar, era em Alan. Em tê-lo ao seu lado. Os dois se protegiam de tudo e todos. Nada poderia machucá-los se estivessem juntos.

Quando chegou a sua vez de se apresentar, militares o soltaram da corrente, contudo, prenderam suas mãos atrás das costas. O rapaz imaginava que iria ficar com aquelas algemas para o resto de sua vida; estavam machucando demais seus pulsos. Empurrado pelos soldados armados, Nicolas ficou de frente com a cabine onde estava o homem assustador que decidia o destino das pessoas. De perto, suas rugas e manchas na pele ficavam claramente visíveis. O cabelo grisalho e sua postura desajeitada não condiziam com a aparência dos outros soldados dali.

Após fornecer todos os seus dados, Nicolas foi informado de seus crimes:

— Sabe por que está aqui? Prática homossexual.

O homem do seu lado direito, que não tirava os olhos ameaçadores dele, riu com deboche ao ouvir aquilo.

— O homossexualismo já é considerado crime há um ano — continuou. — O senhor teve um tempo considerável para procurar tratamento psicológico por si mesmo. Agora, seus crimes contra o Estado serão pagos. Encaminharemos você para a Ala B, onde curaremos sua doença a base de remédios, castração química, ou, até mesmo, lobotomia caso necessário. Não podemos pôr em risco a normalidade de nosso país, pervertendo crianças com sua ideologia contra nossos princípios básicos. A família deve ser preservada para o bem de nosso povo.

Acumulando o máximo de coragem, Nicolas perguntou:

— Onde está Alan? O que vocês fizeram com ele?

Não estava se importando mais com o que aconteceria consigo. Só conseguia pensar em seu parceiro. Nada mais. Lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto quando imaginou todas aquelas formas de tortura sendo executadas em Alan.

— Caso nosso tratamento não funcione, você será condenado à execução. E, caso sua heterossexualidade seja provada, ainda pagará um mês de trabalhos pelo Estado por causa dos atos homossexuais.

— Eu só quero saber onde está meu marido... — ele implorou.

— A nossa pátria acima de tudo!

Enfim, os soldados agarraram seus braços e o puxaram para dentro do edifício. Nicolas nem tentara resistir, ele já tinha visto os diversos fracassos das outras pessoas. Estava abalado física e emocionalmente. Não sentia que tinha força alguma para tentar lutar. Desejava o tempo inteiro estar dentro de apenas um pesadelo horripilante, e que na verdade estava ao lado de seu amado na cama de casal em seu apartamento.

Os homens o arrastaram até um local amplo e aberto, também concentrado de pessoas. Assim como em todos os lugares ali, militares rondavam observando seus presos. O ambiente não era muito diferente do "estacionamento" de onde vieram, contudo era bem menor e continha apenas uma torre. Parecia um pátio externo doo edifício cinzento.

Os rostos tristes dos condenados ali eram, em sua maioria, homens negros, assim como ele. Alguns usavam algum piercing ou tinham o cabelo pintado de cores alternativas. Nicolas identificou a "Ala B" como a "sala de espera" em que os homossexuais eram condenados a ficar antes de serem brutalmente torturados. No extremo oposto de onde estava entrando, havia uma grade com um portão, onde as pessoas eram agarradas por mais soldados e levadas para o sofrimento. Ouviam-se gritos de desespero o tempo inteiro, vindo de todos os cantos.

Após soltarem os pulsos doloridos do rapaz, o empurraram na direção da multidão desorganizada. Depois, deram as costas e voltaram para trazer mais pessoas. A porta que Nicolas acabara de passar se fechou com um estrondo, o trancando com os outros. O garoto se virou para frente, observando o caos e desespero presente ali.

Muitos estavam sentados no chão, se acabando em chorar; outros tentavam manter a calma com abraços ou desabafos desesperados. Rezavam ali e aqui. O medo consumia os cérebros ali dentro. Eles eram os rejeitados da sociedade, o lado podre e sórdido que merecia um castigo por amar, por se diferenciar demais. Mais uma vez na história, seus direitos estavam sendo tomados com ódio.

Um minuto depois de sua paralisia, apenas observando a situação, Nicolas começou a procurar seu marido dentre todos os outros homens ali. Alan poderia estar ali. Todos os LGBTs capturados deveriam estar. A não ser que... ele já tivesse sido levado.

Tentando espantar esse pensamento, o garoto se concentrou em sua busca, passando por entre os corpos e perguntando pelas características de Alan:

— Você viu um garoto de cabelo escuro, caucasiano... — Balançavam a cabeça antes mesmo de ele terminar. — Tem a minha altura... por favor, você viu um garoto... É meio magro. Ele tem olhos castanhos... Alguém viu...

Sem perceber, Nicolas se aproximava da cerca onde, a cada aproximadamente cinco minutos, algum soldado aparecia para raptar um deles. E foi lá, agarrando a tela com as mãos e olhando para o outro lado, que o garoto encontrou seu companheiro. Estava de costas para ele, com os olhos vidrados nos acontecimentos atrás daquela grade.

Uma onda gigantesca de alívio percorreu seu corpo enquanto ele corria para Alan, gritando seu nome milhares de vezes. O garoto virou, procurando a voz que o chamava, e logo se apressou na direção de Nicolas. Os corpos se chocaram um contra o outro num abraço explosivo e reconfortante. O coração de um batia contra o do outro. Lágrimas despejaram dos quatro olhos; pela primeira vez naquele local, Nicolas se sentia feliz, podia se sentir alegre. Eles juntaram as testas, Alan colocando as mãos no rosto úmido de seu marido, ambos trêmulos dos pés às cabeças.

— Pensei que tinha morrido... — falou Nicolas, com a voz fraca e rouca.

— Eu estou aqui — tranquilizou o outro. — Estou aqui e você também. Estamos juntos...

Os lábios se encontraram no instante seguinte, passando conforto e energia. Força para continuar. Fogos de artifício explodiam na cabeça de Nicolas. Contudo, o clima logo foi destruído pelos disparos próximos, seguidos de gritos histéricos. Os dois interromperam o momento para olhar na direção do barulho, bem a tempo de presenciar o soldado na torre fuzilando pessoas correndo do outro lado da cerca.

— Eles vão nos matar... — falou Nicolas para seu parceiro, deixando claro o seu medo. — Vão nos ver juntos e vão nos matar...

Alan negou com a cabeça de forma rápida e constante, se mostrando resistente à opressão.

— Não — ele respondeu, convicto. — Eu não vou deixar. Eles não vão encostar um dedo na gente. Vamos fugir desse lugar.

— Fugir? — Nicolas engoliu em seco, olhando diretamente para os corpos recém-mortos sendo recolhidos por soldados.

— Não vamos acabar como eles — falou, adivinhando os pensamentos do outro. — Nós temos um plano.

O rapaz estranhou ao ouvir isso.

— Nós? — indagou.

Alan escorregou suas mãos pelos braços de Nicolas, até entrelaçarem os dedos. Ele puxou o garoto com delicadeza para perto da cerca, onde ele pôde ver uma garota de cabelos curtos e loiros junto com um rapaz bem alto e forte os observando. O desconhecido usava um piercing no septo que se destacava em seu rosto. Nicolas ficou imaginando por quanto tempo eles ainda deixariam usar acessórios como aquele.

— Esses são Lídia e Carlos — apresentou Alan. Os dois eram muito diferentes um do outro: Lídia era baixa, loira, de olhos e pele claros; Carlos era negro, careca, de olhos escuros. Mesmo assim, pareciam ter idades semelhantes. Eram jovens, assim como os amantes. Apesar do cabelo bem curto, a franja da garota cobria toda sua testa. — Eles vão nos ajudar a sair daqui.

Nicolas não sentiu muita confiança naquilo. Pressentia que algo ruim iria acontecer.

— Fico feliz que os dois tenham se encontrado — falou Carlos, sem parecer realmente feliz. Não existia verdadeira felicidade em um lugar como aquele. — Mas temos que nos adiantar.

— Não aguento mais um segundo aqui — disse Lídia, demonstrando impaciência e agitação na voz. — Explica logo o plano para ele.

Alan puxou Nicolas pela cintura para perto da cerca. Os dois fecharam as mãos na tela da grade, observando o outro lado. Havia duas filas duplas indo em direção à outra parte do edifício, pareciam mais organizadas do que as da entrada. No entanto, eles estavam mais assustados. Dois soldados andavam ao lado das pessoas, observando com atenção um por um. Dava para ver, na entrada, os presos sendo obrigados por homens de jaleco a tirar todas as suas roupas e acessórios para poder passar. E, do lado de dentro, mais concentração de pessoas, todas nuas em um espaço bem iluminado e fechado. O garoto não fazia ideia do que faziam ali, só sabia que nada de bom poderia ser.

— A cada entrada de oito pessoas no prédio, os soldados vêm para buscar mais oito — explicou Alan, colocando sua mão por cima da de Nicolas. — Iremos nós quatro juntos. Lídia estava quase recrutando alguém antes de você chegar; o plano funciona melhor com quatro... — Os garotos começaram a se encarar para evitar os horrores à frente. — O vigia na torre não está de olho apenas aqui. Notamos que ele dispara, algumas vezes, na direção oposta de onde estamos. Carlos acha que esse soldado está cobrindo duas alas. — Nicolas não pôde evitar olhar na direção do homem no alto, justamente quando estava prestando atenção na outra ala. — Nós dois entraremos em uma fila e eles em outra. Ficaremos de olho no vigia, mas de forma revezada para não levantar suspeitas. O primeiro a notar ele disparando distraidamente para o outro lado anunciará de maneira discreta a hora de agir.

Eles voltaram a olhar o outro lado da cerca.

— Mas e quanto a eles? — perguntou Nicolas, apontando com a cabeça os dois soldados rondando as filas. Um deles gritava para as pessoas andarem.

Alan pareceu hesitar antes de responder a pergunta.

— Carlos conseguiu trazer um canivete dobrável dentro da cueca — sussurrou aquelas palavras, como se fosse a parte mais perigosa e importante do plano. Assim como todos, Nicolas havia sido revistado antes de entrar no furgão. Arrancaram-lhe o celular do bolso de seu jeans e o jogaram no lixo. No entanto, ele considerou o ato mau feito, já que não conseguiram encontrar nem mesmo a embalagem com um último chiclete sobrando um pouco mais no fundo do mesmo bolso. — Lídia deu uma ideia... Não aprovava no começo, mas não vi outra alternativa.

— O quê? — questionou, curioso e preocupado com a resposta.

— Ela sugeriu os atacarmos.

O rapaz se espantou na hora. Sensações ruins o invadiam. Atacar? Ele mal conseguia ferir uma mosca; como iria agir contra um soldado? Carlos tinha um canivete, os inimigos tinham fuzis. Estava claro o vencedor.

— Eu sei. Parece loucura...

— Parece?! — retrucou Nicolas, ainda chocado com a ideia. — Vamos ser exterminados!

— Se não fizermos nada, acabará do mesmo jeito! Até mesmo pior! — exclamou o outro, se mantendo firme. — Ouviu o que falaram: estamos pondo em risco a normalidade da pátria deles. Estamos pondo em risco a família. Eles querem apagar quem somos de verdade, querem destruir uma característica imutável nossa. Castração química, remédios, lobotomia... Se sairmos daqui vivos depois de passarmos por tudo isso será um milagre. E não há outra maneira de vivermos juntos senão escapando desse local. Nunca deixariam. Então, eu prefiro mil vezes morrer agora, lutando ao seu lado pela nossa liberdade, do que mais tarde, após passar por todos os tipos de tortura do Estado.

O discurso encorajador de Alan fez Nicolas voltar a derramar lágrimas. Ele sentia o peso da opressão, do preconceito, da humanidade. Nunca imaginara que um dia seria obrigado a lutar pela própria sobrevivência.

— A pátria é nossa também... — insistiu ele, querendo acreditar naquelas palavras.

— Não mais — respondeu o outro. — Eles tiraram isso da gente.

Por fim, Nicolas aceitou. Luíza e Carlos se reuniram a eles, no intuito de explicar como funcionaria o ataque aos dois militares. Acreditar que eles tinham uma chance de fugir não seria uma tarefa fácil para Nicolas, quanto mais colocar esse plano em prática. No entanto, ele acabou admitindo um fato apontado por Luíza: eram quatro contra dois, pelo menos havia esperança de vitória. A rota de fuga era outro problema a se enfrentar: do outro lado da grade, à esquerda, existia um meio de fugir para a floresta que rodeava a edificação inteira. No entanto, o caminho estava bloqueado por uma cerca de arame farpado. O espaço entre os cabos era amplo o suficiente para um corpo passar. Porém, feridas pareciam inevitáveis — Carlos era quem sairia mais machucado dali.

Aos poucos, os pensamentos revolucionários de Alan começaram a penetrar na mente de seu parceiro. Alguém precisava sair dali vivo, alertar o resto da população sobre o que estava acontecendo de verdade naqueles "Campos Patrióticos". Era o primeiro dia deles em funcionamento, mas, com toda a certeza, a mídia já espalhava notícias favoráveis a aqueles ambientes. Provavelmente, estavam acusando todos ali dentro de serem terroristas, de tentarem agir de forma direta contra o Estado. Mas a verdade não era bem essa.

Após o grupo repassar o plano mais uma última vez, eles deduziram estarem prontos e se aproximaram do portão, onde todos os outros tentavam manter distância. Aguardaram até um dos homens de farda vir buscá-los. Por sorte, pegou o quarteto em cheio. Carlos havia bolado um plano B caso eles não fossem chamados juntos, no qual consistia em implorar chorando para ser levado.

Carlos e Luíza seguiram para a fila da esquerda enquanto o casal foi para a da direita. O frio não impedia os garotos de suarem como porcos. Nicolas ouvia seus rápidos e hostis batimentos cardíacos. Estava prestes a realizar algo que colocaria sua vida em risco, prestes a desafiar homens armados com sua preciosa vontade de viver, de ser livre outra vez. E estava disposto a morrer pela sua liberdade.

Conforme o plano, eles foram revezando. Contavam cinco segundos olhando para a torre e depois voltavam seus olhos para o chão. A ordem era: Luíza, Nicolas, Carlos e Alan. Desafiavam a forte luz do holofote na torre, tentando enxergar a silhueta do soldado andando na sacada. Se chegassem ao prédio antes do soldado lá em cima se distrair com algo o plano estava acabado. Nicolas tinha medo de acabar perdendo uma oportunidade. Sua cabeça estava tão focada na missão que ele acabou se esquecendo de andar junto com a fila.

— Anda! — berrou o militar, o mesmo que iria atacar daqui alguns minutos, empurrando suas costas com a coronha de sua arma. — Presta atenção na fila!

Mais oito pessoas se juntaram às filas. Apesar de ainda haver muita gente na frente do grupo, o tempo era um fator preocupante. Parecia estar passando muito rápido, bem mais do que imaginaram. Se continuasse daquele jeito, chegariam logo no edifício.

Entretanto, no meio de tantos barulhos, os ouvidos de Nicolas captaram tiros vindos do alto, atrás deles. Alan bateu o ombro no do seu companheiro, significando que o sinal fora dado por Carlos. Eles tinham que agir.

Nicolas ergueu sua cabeça para seus novos amigos na outra fila, bem a tempo de ver o garoto chamando o soldado que os escoltava:

— Por favor, eu preciso esclarecer algo...

Com o cenho franzido, o homem marchou em direção a ele. Quando chegou perto o suficiente, Carlos se apressou com seus movimentos: retirou o canivete da cintura e avançou no militar. A lâmina cravou em sua barriga, o fazendo berrar de dor. Houve gritos e exclamações de espanto entre as pessoas. Pela primeira vez, Nicolas viu sangue inimigo jorrar naquele local. O homem não teve tempo de reagir; Luíza se apressou para tomar sua arma.

— EI! — berrou o outro soldado, erguendo sua arma na direção da bagunça. As pessoas da fila entraram em desespero por algumas estarem entre o soldado e seu alvo.

Alan foi ágil, agiu conforme o planejado avançando para cima de seu inimigo. O coração de Nicolas quase saiu pela boca ao vê-lo avançar. Ficou paralisado por alguns segundos enquanto assistia seu marido empurrar a arma do militar. O fuzil disparou em direção à parede do edifício, gerando mais pânico. Nicolas sentiu como se os tiros tivessem o acertado. Não estava conseguindo se mexer.

No entanto, quando o homem fardado resistiu ao ataque e acertou um golpe com o cotovelo na barriga de Alan, o derrubando no chão, uma força o fez acordar. Viu a arma ser apontada para a cabeça de seu companheiro, mas não houve tempo para um único disparo. Nicolas pulou em direção ao soldado, agarrando seus ombros e o levando consigo para o chão. O rapaz ficou por cima dele, com os joelhos o prendendo. Com o terror possuindo sua mente, ele utilizou toda a sua força para manter o fuzil grudado no corpo do inimigo, o impossibilitando de mirar para qualquer pessoa. A arma prensava em seu peito, dificultando sua respiração. Nicolas não media sua força, muito menos conseguia pensar em parar. Apertava cada vez mais, mesmo percebendo o desespero do outro.

— Por favor... não... — ele suplicou, com a voz fraca, chorosa e baixa.

O garoto não deu ouvidos. Continuou, desesperado, sem pensar em mais nada. Chorava enquanto o homem se debatia embaixo de si. Sentia a arma romper ou trincar ossos em seu tórax com a força utilizada. Só parou após todos os sinais de vida serem extintos daquele corpo. E, ao se levantar, tremendo, se deu conta do que tinha acabado de fazer.

Olhou para Alan, que encarava com certo espanto a cena. No entanto, ele se aproximou e deu a mão para Nicolas, demonstrando seu apoio com um breve olhar de esperança.

— Temos que ir — falou.

O outro apenas assentiu. Deu uma última olhada no corpo no chão antes de disparar em direção ao arame farpado. Não tinha percebido, porém ambas as filas haviam se tornado um completo caos. Todos se desorganizaram e começaram a correr em desespero. Os homens vestidos com jalecos haviam desaparecido, provavelmente foram buscar soldados para conter a situação. Pessoas desconhecidas agrediam o outro soldado, sem piedade, despejando todo o ódio que sentiam.

Chegaram à cerca no exato momento em que o militar da torre percebeu a confusão. Uma chuva de balas atingia os mais desesperados. Todos gritavam e choravam de medo e pânico. O local iria virar uma banheira de sangue e corpos. Com rapidez, Carlos se ajoelhou, agarrou o último cabo de arame e o levantou, exibindo uma careta de dor.

— Vão! Passem! Rápido! — ele gritou.

O casal soltou-se um do outro e Nicolas foi o primeiro a passar agachado. Por sorte, nada chegou a machucá-lo. Em seguida, Alan se arrastou para o lado de fora, se sujando por inteiro. Uma farpa arranhou seu braço, nada muito grave. Luíza também foi rápida.

Estava tudo dando certo, até chegar a vez de Carlos. Alan e Luíza se apressaram para segurar a cerca para ele, porém, antes mesmo de encostarem no cabo, uma bala atravessou a têmpora direita e saiu pela esquerda de Carlos, esguichando sangue no arame. O corpo forte do homem desabou instantaneamente. Todos pularam de susto; Alan chegou a soltar um grito. Do outro lado, onde o caos acabava em uma chacina, soldados vinham em direção a eles com suas armas em punho.

— VAMOS! — berrou Alan, agarrando a mão de seu marido outra vez e se levantando para fugir. Luíza os seguiu.

Eles penetraram na floresta, atravessando árvores e mais árvores, correndo na direção oposta ao inferno enfrentado. Dentro do campo, atrás deles, um alarme ensurdecedor começou a soar. As ondas sonoras iam atrás deles, adentrando no matagal. Suor brotava de todos os cantos do corpo de Nicolas. Seu coração nunca batera com tanta força em sua vida. A adrenalina fazia parte do sangue que corria em suas veias. Seus ouvidos latejavam, seu peito ardia, seus pulmões rasgavam. Só queria se ver distante dos horrores daquele lugar, o mais longe possível dali.

Obstáculos como galhos e arbustos no caminho os faziam se atrasar ou causavam machucados. No entanto, os pés agiam por conta própria. Eles estavam pegando fogo. Quanto mais se afastavam, os sons do campo se tornavam mais baixos e menos assustadores, mas não era o suficiente para que pudessem se sentir completamente seguros. Eles precisavam sair dali. Não poderiam ficar ouvindo os gritos de desespero, os tiros cruéis, o alarme apavorante.

Mesmo enfrentando a angústia e a adrenalina, a imagem do soldado morto não parava de surgir na mente de Nicolas, causando dores de cabeça e enjoo. Sentia-se péssimo. No limite. Era como se fosse explodir a qualquer momento. Queria parar de correr, deitar e chorar. Queria seu apartamento de volta. Sua vida de volta.

Por que aquilo parecia estar tão impossível de se conseguir?

De repente, feixes de luz atingiram as costas do trio. Nicolas, assim como os outros dois fugitivos, virou seu olhar para cima do ombro. Viu, então, uma tropa de três soldados com lanternas em suas armas correndo para alcançá-los. Aquilo apenas o fez ir mais rápido, como se fosse adiantar alguma coisa.

— Eles estão aqui! — gritou um dos militares. — Atirem!

Foi instantâneo. Balas voaram para todos os lados, perfurando troncos e criando chuvas de poeira fina e farpas de madeira. A barulheira dos fuzis era assustadoramente mortal. Eles não cessavam. Atiravam para matar, para os destruir. A mão de Alan apertava a de seu companheiro como se estivesse tentando amassá-la.

Em pouco tempo acertaram Luíza, Nicolas conseguiu ver a cena pelo canto do olho. A garota berrou por um instante e, depois, ficou em silêncio no meio da grama.

De última hora, Nicolas teve uma ideia. Aproveitando os estrondos dos disparos, se aproximou do seu companheiro e falou alto o bastante para ele ouvir:

— Finja de morto!

E então, os dois corpos desabaram juntos para o chão. Suas mãos se afrouxaram, no entanto, os dedos continuaram entrelaçados. Nenhum dos dois ousou mover um músculo depois da queda, mesmo que estivessem com a cara contra a lama. Formigas logo começaram a escalar o corpo encharcado de suor de Nicolas. Ele sentia tudo pinicar.

Os militares se aproximaram dos fugitivos. Checaram o corpo de Luíza primeiro. Em seguida, apontaram suas lanternas para os amantes de mãos dadas, aproximando-se aos poucos. Outra vez, Alan apertou a mão de seu marido, transferindo tensão e medo para ele.

— Olha só pra isso — falou um dos soldados, fazendo o feixe iluminar diretamente para o rosto de Nicolas. — Que desperdício...

— Pegamos eles — anunciou o outro para algum aparelho de comunicação.

— Ótimo — respondeu uma voz pelo comunicador. — Agora vão atrás do outro grupo que fugiu. Precisam ser rápidos. Eles seguiram para o sul.

— Entendido!

Enfim, para o alívio do casal, os soldados acreditaram no fingimento e correram para outra direção, para alcançar outro grupo. Ambos ficaram paralisados no lugar até terem certeza de que os homens já estavam longe. O som de botas amassando a grama e quebrando galhos já estava bem distante dali; o alarme do campo nem se ouvia mais. Eles estavam seguros.

Nicolas foi o primeiro a se erguer. O silêncio era reconfortante demais para os ouvidos dele, dava-lhe uma dose de alívio e esperança. Com cautela, soltou a mão de seu parceiro e usou as duas como apoio. Ergueu a coluna, olhando para trás, se certificando se estavam realmente sozinhos. Sorriu enquanto uma onda de libertação percorria seu corpo.

— Conseguimos! — ele falou, se virando com dificuldade por causa de seus músculos ardentes. Lágrimas, agora de emoção, enchiam seus olhos. — Nós conseguimos! Fugimos! — Virou o olhar para Alan, que continuava deitado de costas no chão. Aquilo fez seu sorriso dissipar e seu cenho franzir. — Alan?

Colocou uma das mãos nas costas dele e levou um susto ao sentir um líquido quente e viscoso manchando sua roupa. Aproximou o rosto para ver melhor, encontrando um buraco em sua camiseta, rodeado por uma mancha vermelha crescente.

Ele fora baleado.

O coração de Nicolas falhou uma batida. Após ficar alguns segundos parado, tentando assimilar que aquilo era real, o garoto virou o corpo de seu companheiro de barriga para cima. Com dificuldade, arrastou Alan pelas axilas até a árvore mais perto. Sentou-se com as costas apoiadas no tronco, colocando, com sutileza, a cabeça de seu amado apoiada em sua perna. Começou a acariciar o rosto dele com a mão trêmula, fria e suja de lama, apenas o deixando ainda mais encardido. Os olhos do rapaz se abriram um pouco, olhando precisamente para Nicolas. Ambos sorriram um para o outro. Entretanto, o menos ferido chorava de dor.

— Conseguimos... — falou Alan, com sua voz fraca e rouca. — Estamos livres...

Nicolas assentiu com a cabeça, derrubando algumas lágrimas no rosto do marido.

— Sim... — afirmou. — Estamos livres...

Com esforço, Alan ergueu sua mão até a dele. Estava gélida.

— Não está doendo — ele revelou, se referindo ao tiro nas costas.

Soluços começaram a sair da boca de Nicolas sem que ele pudesse controlar. Sentia estar tomando fortes socos na barriga. Não conseguia parar a tremedeira. Seu coração estava sendo esmagado por uma pressão invisível.

— Eu te amo, Nicolas — falou enquanto sua cabeça começava a pesar e sua mão a cair.

O garoto viu com exatidão a vida deixando os olhos de seu amante. Seu braço caiu sobre a grama; sua cabeça tombou para o lado. Sua alma deixou seu corpo. O coração já não batia mais. Nem os pulmões funcionavam. Alan estava morto. Morto.

— Eu também te amo... — respondeu Nicolas, quando já era tarde demais.

Agora era apenas ele. Um garoto de 20 anos, sozinho na floresta, chorando aos berros e soluços pelo amor. Havia um corpo jogado aos seus pés e outro deitado em seu colo. Ambos frutos da brutalidade humana. Da intolerância. Até quando aquilo iria se repetir? Até quando seu povo seria caçado pelo bem da normalidade? Será que um dia viveriam em paz?

Nicolas era um sobrevivente agora. Ele tinha chegado até ali e continuaria até o fim lutando pela sua sobrevivência. No fundo, sabia que não estava livre de verdade. Ele precisaria conquistar sua liberdade.

Com um enorme peso no peito, ele segurou a cabeça pesada de seu amado e a depositou no chão de maneira delicada. Levantou-se com dificuldade, virando-se para observar a linha distante do horizonte, parcialmente invisível pelas árvores. O rosto úmido de lágrimas e terra. Roupas sujas de sangue. Filho da guerra. Face da resistência. Estava estilhaçado em milhões de pedaços, mas sabia que precisava continuar. Ele seria obrigado a continuar vivendo naquele mundo, dessa vez, sem Alan do seu lado.

Uma parte de Nicolas fora arrancada, como um membro amputado. Estava doendo. Com toda a certeza, era a pior dor que já sentira na vida. Nada substituiria aquela parte. Nada traria Alan de volta. Ele sabia disso.

Enfim, com uma última olhada no corpo imóvel de seu parceiro, o garoto optou por continuar. Ele começou a andar para frente, sem retroceder.

Seguia em direção à liberdade.

1 de Septiembre de 2019 a las 17:33 0 Reporte Insertar 6
Fin

Conoce al autor

Gabriel Jakutis Olá! Meu nome é Gabriel Jakutis (Jakutis?! Que tipo de sobrenome é esse?) e tenho 18 anos. Estudo Design Gráfico na faculdade e trabalho com marketing digital atualmente. Meu lado criativo sempre foi muito forte dentro de mim e, quando criança, eu sempre tinha muitas histórias em mente e que gostaria de compartilhar com outras pessoas. Minhas primeiras experiências com o mundo da literatura foram com os livros de J.K Rowling, onde desde meus três anos (pelo menos, minha mãe afirma que foi com essa idade que conheci os filmes) sou viciado na saga Harry Potter. Sim, fiz minha mãe me levar na pré-estreia do último filme, fiz ela comprar todos os livros da saga, tentei colecionar as peças de xadrez bruxo e tenho duas varinhas que guardo com muito carinho e amor (só espero um dia conhecer os estúdios em Londres ou o parque em Orlando... ou os dois, rs). Meus autores preferidos no universo são: J.K Rowling (óbvio), Liane Moriarty e Veronica Roth. Não costumo ler muitos livros aqui no Wattpad pelo fato de não ser acostumado a ler pelo celular/computador/tablet, mas se quiser tentar me mandar sua história pra ver se eu me interesso, pode mandar. Observação: não sou de fazer críticas e acho que não sou a melhor pessoa para betar uma história. O máximo que meu lado crítico é capaz de fazer é comentar: "aaaaaa adorei", ou "não gostei muito, não é meu tipo de história". Nem acredito que Sinistra tem mais de 200 mil visualizações! Sempre amei muito essa história que criei e me emocionei ao descobrir que eu não era o único! <3 Bom, eu sempre quis ser escritor e agradeço muito o Wattpad por me dar a chance de ter um começo esplêndido! E-mail: gabrieljakutis@hotmail.com Instagram para divulgação: https://www.instagram.com/invisivellivro/

Comenta algo

Publica!
No hay comentarios aún. ¡Conviértete en el primero en decir algo!
~

Historias relacionadas