Diferente do Padrão (o poema) Seguir historia

sweet-mary Mary

Antigamente esse poema integrava a antologia poética intitulada Asas de Anjo, que também faz parte da série Simplesmente Tita, no entanto, dada a importância dele, decidi separá-lo em uma prosa poética que denote todo o poder que a pequena Tita esconde dentro de si. Se você, assim como ela, também se sente uma peça sem encaixe e muitas vezes se pergunta o motivo de não se sentir em casa em lugar nenhum, porque ninguém te representa, faço o convite para ler. Talvez você tenha mais em comum com a Tita do que poderia imaginar.


Poesía No para niños menores de 13.

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Desabafo de uma diferente do padrão

Os padrões formatam o mundo, orientam a disciplina da mente.

Temos o nosso próprio padrão até que as evidências apontem o contrário.

Que o nosso padrão é apenas rascunho de uma ideia maior.

De um algoritmo impossível de cumprir.

Porque estamos inaptos.

Ainda que corramos o mundo em busca da perfeição, seremos retribuídos com dor.

O mundo é nosso dormitório em caráter provisório.

O mundo é pequeno para sonhos muito grandes.

E os sonhos, esses pobres iludidos, podem nunca se tornar realidade.

O palco parece estar destinado às estrelas de berço.

Porque a realidade é a mazela do homem.

É a desilusão, a inadequação, a estatística que não o contempla.

O padrão é o pêndulo concentrando toda a energia da dor no som da caixa registradora.

Tiquetaqueando a favor dos favorecidos, ferrando com todos os outros.

A desgraça alheia é a comédia dos indiferentes.

Outro coração de mãe foi dilacerado, perdeu o filho baleado.

Outra infância derreteu-se na pedra de crack.

Outra inocência foi dilacerada em troca de um prato de feijão.

Ninguém denunciou aquele estupro porque ele era o provedor do lar.

A confiança dela na humanidade morreu ali, para muitos é mimimi.

Outro dia se foi e as ruas continuam sendo o lamaçal dos esquecidos.

Outro dia se foi e a impunidade regozijou.

A capa da revista fez aquela menina alegre e inteligente lutar contra os próprios monstros da mente.

Hoje ela disse para os pais que estava sem fome para não jantar e mais cedo se recolheu.

Que ela chorou até dormir, com o estômago gritando, ninguém percebeu.

Ela sente fome de ser amada.

De encontrar um motivo para se sentir viva.

Ela gostaria de reencontrar prazer nas pequenas coisas da vida.

Ela queria se encaixar aos padrões de beleza, das moças bonitas da televisão e das revistas.

Ela queria acima de tudo não chorar mais por tanto se odiar.

Por não estar dentro dos padrões.

Porque lhe disseram que o certo era ser "Gisele".

Determinaram até que determinada cor de olho é mais bonita do que outra.

Fomentado é o protótipo da mulher perfeita, ideal de plástico para quem é feita de carne.

A arte dele é baderna, mesmo o dom não tendo cor.

Rimar a realidade incomoda os indispostos a transformá-la.

Pode ser realista e interessante, mas não lucra.

A poesia da periferia não cai bem nas estantes das livrarias, já era.

Aos invisíveis ninguém ouve.

E o que é a voz dele diante desses ruídos trágicos de ignorância?

Engole com rimas as palavras amargas proferidas por cima dos ombros.

Desmoralizar é a estratégia predileta dos acomodados.

A pele dele é negra como a noite, a vida teme a morte desde o primeiro minuto.

Padece ao tenebroso estigma, a sombra de uma herança maldita.

O preconceito.

Do script jorra sangue, as estatísticas se alimentam dos rostos anônimos e as respectivas lágrimas maternais.

Poderia cutucar com gosto essa ferida, chumbo trocado deixou de doer.

A disputa entra no mérito de quem fere mais a fundo, lá se foi o escrúpulo.

Gratidão, compaixão, onde vocês estão?

São palavras bonitinhas e adornadas de oportunismo, fique você sabendo que as relações se baseiam numa troca complacente de favores.

Não te contaram antes, eu faço esse favor!

Você pode gritar o quanto quiser: o que houve com o mundo?

Mas, meu bem, o mundo é o mundo, foi você que acordou pra ele.

Não romantize tanto a infância, foi nessa época que cortaram as nossas asas e nos transformaram nesses cadáveres andantes e indecisos.

A guerra silenciosa tem armas mais poderosas que rifles, carabinas e fuzis.

O canhão de bala cabe dentro de uma palavra.

O efeito é devastador, uma bomba ardilosa capaz de derrubar a segurança de uma vida inteira.

Palavras matam.

Nada parece estar no lugar.

Uma estante organizada está em plena vantagem.

O ódio é o mesmo, intransferível e hereditário.

A injustiça é confundida com subversão.

Estarão todos mudos? Ou surdos diante do medo?

Estarão todos programados para não questionarem?

Ou as respostas dependem de uma reflexão mais apurada.

E se a consequência for perder a razão?

E o que se perde quando se perde a razão?

Perde-se o controle?

Perde-se, de fato, a solução?

O que se perde senão a certeza de que a razão é um rascunho, um parágrafo eternamente em revisão.

A razão que afinal de contas ninguém tem, nem os reis de pregarem lições de moral sem moral.

A definição de paraíso logo é derrubada.

A perfeição se encolhe num carma.

Inalcançável meta.

Interminável maratona.

Um teste entregue em branco.

Um teste de resistência que resulta no esgotamento mental.

E moral.

De uma causa imoral.

O padrão que inviabiliza a luta de quem precisa provar várias vezes o seu próprio valor.

As determinantes condições de sobrevivência com todas as suas discrepâncias.

Dois polos opostos separados pela discriminação.

O equilíbrio é balela, a luta pela igualdade é tratada com deboche e intolerância.

A sociedade nada mais é do que uma casa apodrecida com moradores falidos e presunçosos, existe ali uma falsa sensação de soberba.

Ainda são eles que determinam como todos devem agir.

Sentir diferente disso é opressão.

A alma está aprisionada.

Algemas imaginárias contêm a revolução.

Na mente.

Por uma consciência leve numa balança tendenciosa.

É crime ser diferente do padrão.

As pílulas tentam maquiar por dentro a dor que se reflete por fora.

Dorme-se para esquecer os problemas, acorda-se para mais uma vez fugir deles sem nunca investigar as raízes e os porquês.

Porque o medo ainda domina o querer.

Porque ser uma ovelha que busca o próprio caminho ainda é um risco muito grande a ser corrido.

Quem caminha para frente nunca mais volta para o mesmo lugar.

E neste mundo, com objetivos diferentes, todos buscam o seu lugar.

Será um lar de verdade?

Será uma casa invisível?

Será esse lar a vontade de mudar?

Será que encontrar esse lar chega perto de se comparar com a busca incessante pela paz?

Nem todas serão Cinderelas.

Nem todos serão Ronaldos.

Nem todos chegarão ao final do Ensino Médio.

Nem todos sonham da mesma maneira, mas quando se sonha, será que afinal de contas, cada um se questionou se sonha por conta própria?

Ou o mundo tenta fazer parecer que assim é tudo deve ser?

Essas são apenas as divagações de alguém que desde que se entende por gente é diferente do padrão.

Não apenas a rebelde sem causa, a ovelha colorida de um rebanho computadorizado, a tal da criatura esquisita.

Talvez eu seja um pouco disso tudo.

Talvez eu ainda esteja perto de descobrir o que realmente sou, pois acima de tudo, eu tenho em mim um pouco daquela garota que se odiou por não se parecer com as mocinhas de revistas, aquela que questiona as artimanhas da sociedade, que já deixou de jantar para perder peso, que já se retalhou para matar a dor da vergonha, que já chorou noites e noites por se odiar.

Talvez eu ainda esteja prestes a encontrar o amor.

O amor por mim mesma.

O amor que a sociedade tenta me impedir de nutrir por mim mesma, inventando algoritmos sufocantes para me fazer pensar que sou um fracasso.

Mas sei que não sou.

E sei que apesar de todos estarem fazendo de conta que são perfeitos, existem várias pessoas como eu, e é para elas o meu recado: não nos envergonhemos em sermos o que somos, pois somos o que somos.

Diferentes do Padrão.

De um jeito diferente.

Do caos sobreviventes.

Do caos de um mundo sujo que se agarra ao "politicamente correto" para sobrepujar a revolução.

De um mundo que ainda não é o lar que almejo para a próxima geração.

Não é o meu lar.

E esse padrão que tenta a todo custo desqualificar o meu sonho, não me representa.

Esse padrão não me representa.

A capa da revista não me representa.

Quer faça sentido quer não, sou o meu padrão.

E o meu padrão é rascunho.

Eu nunca quero ter tanta certeza das coisas.

Eu nunca quero parecer que sou a dona da razão.

Quero apenas ser livre para ser diferente do padrão.

Por hoje, para sempre.

Diferente do Padrão de corpo e alma.

12 de Agosto de 2019 a las 01:58 0 Reporte Insertar 1
Continuará…

Conoce al autor

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

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