Amor de Sísifo Seguir historia

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Enquanto a humanidade está prestes a desembarcar no planeta Mintaka-6 para uma missão decisiva contra os criomorfos, um soldado e uma tenente possuem também um conflito para solucionar. Justamente em seus confins, um rapaz apaixonado entenderá que o universo não possui, nem jamais possuirá, qualquer obrigação de fazer sentido. Curta história de romance e drama, inspirada pelo Existencialismo do filósofo Albert Camus.


Romance Romance adulto joven No para niños menores de 13.

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Cuento corto
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Capítulo Único

Amor de Sísifo


As lâmpadas de emergência piscavam por todos os corredores da nave, imergindo tudo numa penumbra oscilante em tom vermelho. Já era difícil caminhar pelas apertadas passagens da USS Skysword normalmente, e a iminência da invasão as enchera de soldados avançando para todos os lados em busca de suas armas e equipamento, tornando o tráfego quase impossível.

Indo contra a maré dos colegas, a maioria dirigindo-se às plataformas de desembarque, Albert rumava até as entranhas da nave. Os alojamentos de comando, mais precisamente. Abrindo caminho por entre os ombros e costas dos combatentes – e não raro esbarrando em alguns deles – o rapaz subiu por alguns lances de escada até a porta exigindo código de acesso. Ele ainda tinha a senha consigo, a mesma que ela lhe dera meses atrás. Para quando precisasse de sua companhia. Quando quisesse conversar.

Tinha consigo que aquele poderia ser o último diálogo que travariam em vida, visto estarem prestes a atacar os criomorfos em seu próprio planeta natal. Não poderia deixar aquilo para depois. Não teriam amanhã.

A porta deslizou para dentro da parede num som despressurizado. Seus coturnos avançaram para dentro do corredor gradeado seguinte, os batimentos cardíacos acelerando e suas extremidades tomadas por crescente dormência. Morrer antes de desembarcar em Mintaka-6, para muitos, seria uma benção. Não para ele. Não antes de vê-la uma última vez. Não antes de dar vasão final à força reativa, e inconsolável, que o guiava e consumia.

Dobrou ao término do corredor, por pouco não trombando com um oficial correndo atrapalhado com duas caixas de munição de plasma. Há muito não vinha ali, tendo escolhido se afastar como melhor opção diante de sua penúria; mas longe de constituir solução para a inconformidade martelando sua mente dia e noite, impedindo-o de focar-se no treinamento ou sequer dormir. Se morresse dentro de poucos minutos, preferia antes extravasar tudo que carregava. Expelir de seu corpo os cândidos pensamentos de outrora convertidos agora em lodo. Ter sua luta final contra o destino e seu sadismo.

Parou diante da porta do dormitório, a inscrição "Tenente Harper, Infantaria – ID 56398" gravada a laser no metal.

Estendeu um dedo e pressionou um botão no painel ao lado da entrada, uma luz verde se acendendo para informar estar ligado o sistema interno de comunicação.

– Oi, é o Albert!

O pequeno alto-falante emitiu chiados e sons de movimentação brusca no interior do recinto. Ela com certeza não esperava uma visita dele após tanto tempo, ainda mais nas presentes circunstâncias. Alguns segundos de incerteza transcorreram até a voz dela replicar – serena, apesar de tudo – pelo aparelho:

– Oh, é você! Entre, entre!

A porta soltou alguns estalidos elétricos antes de se abrir, desaparecendo pela parte de cima da abertura. Não havia mais volta – e Albert não pensava nem por um segundo em retroceder, não como das outras vezes. Preparado para se digladiar com seus mais profundos demônios, ele entrou.

Eliza já estava pronta para o desembarque. A farda de tenente que exibira com tanto orgulho desde sua promoção dera lugar ao traje de ataque da infantaria, o blusão e as calças cinzentas cobertas pelo colete segmentado estendendo-se do pescoço até a cintura. Os pés acabavam de ser fechados nos coturnos pressurizados, e ela agora se erguia da cama para colocar o cinturão – os cabelos negros ainda soltos empapados de suor para logo serem presos e cobertos pelo capacete. Albert torcera para que sua última visão da tenente fosse com os cabelos soltos. Não queria que a recordação definitiva da jovem, por mais que durasse pouco em suas lembranças – e ganhasse completo outro sentido – fosse a de mais uma pessoa distorcida pela impessoalidade da guerra.

Ela terminou de se calçar e ergueu os olhos para ele. As íris castanhas que o perseguiam por boa parte da vida, verdadeiras esferas de âmbar capazes de aprisioná-lo para todo sempre. Perguntava-se se, quando morresse, sua alma seria deslocada para repousar eternamente dentro daquelas pupilas. Talvez assim conseguisse finalmente fazê-las enxergar o que nunca tinham conseguido. Afastou de imediato o pensamento – era egoísta demais. Já não mais importava.

– Albert, o que faz aqui? – ela perguntou meio assustada, e sem esconder seu incômodo, conforme terminava de abotoar o cinto e dividia sua atenção entre o recém-chegado e o rifle de plasma. – Já deveria estar a caminho da área de desembarque. Sua divisão será ponta de lança no ataque...

– Eliza, eu preciso falar.

Não, ele não a tratava por "Tenente Harper". Muito menos "senhora" ou "comandante". Eram amigos desde a infância e não podiam começar a formalizar sua relação, mesmo com ela escalando tão rápido a hierarquia do exército. Fora algo estabelecido de comum acordo – por mais que viessem se tornando cada vez menos íntimos nos últimos tempos. Desde que Eliza descobrira o que ele realmente sentia...

Como se por algum tipo de habilidade sensitiva, ela deduziu do que ele vinha tratar. O semblante se fechou, tornando-se ainda mais urgente e impassível. Eliza não queria retornar àquele assunto; na verdade nem ele gostaria – mas poderiam jamais voltar a se ver. Era muito provável que seus ossos terminariam insepultos na superfície do inóspito planeta para o qual desciam. Queria que ela o ouvisse ao menos por alguns instantes. Que ela pudesse entender – mesmo se não concordasse – a lógica que ele descobrira em tudo aquilo que tinham vivido. A resposta para o dilema que até então não aparentava ter resposta.

– Eliza, eu sempre te amei.

Mesmo com o rifle ainda não totalmente carregado, outro tipo de defesa, invisível e ainda mais dolorosa, ergueu-se em torno da tenente.

– Albert, nós já conversamos sobre isso, e...

– E isso é um absurdo – completou ele pesadamente, conservando a coragem para fitá-la nos olhos. – Amar você é um absurdo. Mas não maior que o absurdo supremo que é viver.

Ela piscou rápido, o corpo estremecendo. Os dedos perderam a firmeza e um cartucho de plasma rolou pelo chão – estando felizmente estabilizado, ou ambos teriam ido pelos ares. A guarda de Eliza baixou. Imóvel e sem palavras, ela demonstrou estar disposta a ouvir. E Albert, continuando a repelir seus temores com uma força maior do que jamais poderia exterminar os alienígenas com quem estavam em guerra, prosseguiu:

– Nós crescemos juntos. E bem cedo minha admiração e empatia por você se tornaram amor. Exatamente você, Eliza, tão parecida comigo. Em como víamos o mundo, no que gostávamos de fazer, em nossos projetos. As tardes em que nos sentávamos nos campos da fazenda sonhando em voar em espaçonaves como nossos pais. A oportunidade surgida quando a guerra começou, por mais que a sombra da morte pairasse sobre esse sonho. Nós dois nos alistamos. Nós dois quisemos conquistar o universo. Em toda Terra, por toda sua história, não pode ter havido dois seres tão destinados a permanecer juntos. Duas metades tão destinadas a se entrelaçar...

– Eu já te disse... – agora a fala da tenente se enrolava, engolida por lágrimas que desciam por seu rosto tanto de raiva quanto tristeza. – Infelizmente não retribuo desse modo ao que sente por mim. Somos como irmãos, sempre fomos. Nunca nos imaginei e nunca nos imaginarei como namorados. Um casal. Isso seria destruir a mim mesma. Pior: destruir o que de tão bonito nós criamos entre nós todos esses anos...

– Sei bem disso – Albert fechou os punhos, respirando fundo para conseguir continuar encarando-a sem chorar. Seus sentimentos o apunhalavam feito mil adagas, querendo derrubá-lo; mas precisava conservar a firmeza de uma estátua. – Já ouvi suas palavras quando, no passado, declarei-me. No início fui consumido pela revolta. Num impulso mesquinho e egocêntrico, desejei que não houvesse livre arbítrio, que você fosse obrigada a me aceitar como seu amante... Quando a névoa se dissipou, e eu pude ver claramente. Tudo é um absurdo, Eliza. Duas pessoas tão destinadas uma à outra não poderem ficar juntas é um absurdo.

– Falando assim, soa como se eu tivesse a obrigação moral de estar com você – a tenente rebateu em tom duro. – Diz ter enxergado através da névoa, mas continua o mesmo imaturo incapaz de pensar em como os outros se sentem...

– Não! – ele riu, incapaz de controlar-se frente à ironia da situação. – Não, não, não! Você está longe de possuir qualquer obrigação em estar comigo. Pois essa é a natureza das coisas. É assim que tudo ocorre. E não se engane: isso está longe de ser algo anormal, inaceitável. O absurdo é a regra do universo. Todos os dias, homens e mulheres seguem suas vidas tentando atribuir sentido ao que fazem. Uma causa maior, um objetivo maior. Um porquê de terem nascido e serem entregues à dor de viver. Nós dois somos a prova maior de que não há sentido algum. A mera existência de um ser humano é um absurdo por si só. E achar que unir-se à "pessoa perfeita" dará sentido à vida, extinguirá o absurdo da falta de sentido, é o ouro dos tolos. Assim como crer que salvar a Terra dos criomorfos ou colonizar o universo também atribuirão qualquer sentido à nossa desgraça.

Eliza também fechou os punhos, retraindo as pernas e praticamente se encolhendo à beirada da cama.

– Está dizendo que eu sou um absurdo na sua vida, desde que nos conhecemos? – ela indagou rancorosa. – Que não me ama mais de modo algum, por mais que não possamos nos amar como um casal?

– Não, Eliza. Não importa o fato de eu ainda amá-la ou não, e sim o fato de que amar você é um exercício do absurdo. Uma tarefa sem sentido. Lembra-se dos livros de mitologia grega que líamos durante as tardes na plantação? Queríamos ser como Ícaro e decolar pelos céus com seu par de asas. Bem, diante do sol, a cera derreteu e Ícaro despencou. Assim somos nós, mas sem jamais termos tido realmente asas para voar. A semelhança, na verdade, é maior com outro personagem. Sísifo, aquele condenado a passar a eternidade no submundo rolando uma pedra colina acima que, ao chegar ao topo, escorregava de volta à base. Assim é meu sentimento por você. Não só isso. Assim é minha vontade de viver. Estar no exército, combater os alienígenas. Nada tem sentido. Quando achamos poder nos agarrar a algo, voltamos à estaca zero, como Sísifo e sua pedra. Mas é impossível escapar a isso. Que continuemos entretidos em nossas labutas, nossas inúteis paixões, porém cientes de que jamais farão sentido algum.

Ao terminar, Albert estava praticamente sem fôlego, e a tenente continuava olhando-o de modo vidrado, sem deixá-lo saber se compreendera ou não, sem permiti-lo assimilar se concordava ou não. Ao final, não importava. Ele próprio entender a razão de sofrer tanto bastava para si. E era o primeiro passo para uma vida sem sofrimento, ainda que tivesse tão pouco tempo pela frente. Minutos que compensariam anos: essa era sua última alegria.

– Se eu preciso de algo para continuar vivendo e batalhando, que seja a raiva de existir como um absurdo – o rapaz completou, abrindo um leve sorriso para a jovem. – A raiva de um dia ter te amado. Adeus, Eliza.

E, atrás de si, a porta do dormitório desceu e se selou.


X - X - X


A unidade de transporte tremeu intensamente ao tocar a superfície acidentada do planeta Mintaka-6. Os soldados em seu interior agarraram-se às barras de ferro das paredes para se manterem de pé, os rifles pendurados em seus troncos balançando conforme o veículo recuperava estabilidade.

Albert mantinha os ouvidos atentos aos sons no exterior ao mesmo tempo em que se focava nos colegas dentro da pequena nave. Trêmulos, pálidos – um ou outro vomitando sobre os próprios coturnos a refeição transgênica ingerida no café da manhã. Gritos e explosões cresciam em intensidade, a sinfonia da batalha envolvendo-os por completo. Fechando-os em seus punhos. Os dedos de Albert, por sua vez, fixaram-se à arma.

O transporte sacolejou novamente, quando o metal começou a ranger. Os combatentes recuaram uns sobre os outros conforme a grande escotilha dominando um dos lados da nave passou a se abrir lentamente, revelando a penumbra do lado de fora pontuada de amarelo aqui e ali pelas chamas de outros veículos que ardiam atingidos pelas defesas inimigas. Sentindo a diferença de temperatura quando lufadas de ar quente começaram a sair por suas bocas, todos acionaram os compensadores térmicos – acendendo luzes vermelhas nas dobras de seus coletes – para aguentar os quinze graus célsius negativos na superfície do planeta.

A porta se abaixou completamente e, à ordem do sargento na dianteira do grupo, deixaram o interior da nave. Os sons do confronto tornaram-se mais intensos conforme mergulharam para dentro dele, o grupo se dividindo em meio à desordem de jatos de fogo e intensa fumaça, revelando atrás de si uma impiedosa fileira de guerreiros criomorfos em seus três metros de altura e corpos de gelo, portando armas capazes de desintegrá-los com um só disparo.

Albert correu na direção dos alienígenas, esquivando-se das rajadas luminosas cruzando o ar. À sua esquerda, um colega, num berro, converteu-se num amontoado de pó tragado pelo vento. Sentia a morte espreitando-o, cercando-o por todas as direções.

Conforme avançava, uma imagem veio-lhe à cabeça. Uma jovem com a sua idade terminando de vestir uniforme de combate e tendo os cabelos negros empapados conforme o encarava com seus olhos castanhos, tal qual quisesse aprisioná-lo neles para sempre.

Diante da figura, Albert não se conteve e soltou uma longa e sonora gargalhada –cujo som, ao menos por alguns segundos, se sobressaiu à própria batalha.

Dissipando da mente a reminiscência absurda, seu olhar se deslocou para o indicador digital de munição na coronha de seu rifle, informando ainda possuir trezentas cargas de plasma prontas para serem disparadas.

Prosseguindo destemido com seus coturnos escalando pedras e destroços fumegantes de naves amigas, uma improvável melodia começando a ser cantarolada por seus lábios, Albert passou a atirar contra os criomorfos. Transformava os seres de gelo em destroços conforme liberava a raiva por aquela inalterável realidade, ainda assim sentindo-se leve, esclarecido...

Sentindo-se livre.

Ali, atirado numa guerra sem propósito nos confins da galáxia e tendo somente as estrelas como incertas testemunhas, Albert compreendeu pela primeira vez a completa indiferença do universo.

23 de Julio de 2019 a las 23:54 2 Reporte Insertar 2
Fin

Conoce al autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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Rafael Reis Rafael Reis
Ótima história, eu estou lendo tanta coisa no estilo deprê que eu esperava uma morte estonteante do cara no final kkkk. Você escreve muito bem rapaz, to gostando de ler as suas histórias.
October 19, 2019, 01:06

  • Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
    Huahauahau, o final em aberto funciona bem com o processo pelo qual o Albert passou. Bom que curtiu. Obrigado por ler minhas histórias, espero que continue gostando. October 19, 2019, 01:17
~