Caminhando Pelos Cantos Seguir historia

ditto Liiz Lestrange

[2ª temp.] Enquanto Naruto era arremessado no centro das atenções da escola contra sua vontade, Sasuke observava tudo de longe. Sempre caminhando pelas beiradas, em passos lentos, com cautela, por becos escuros.


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18.

#yaoi #shonen-ai #naruto #narusasu #sasunaru #depressão #boys-love #naruto-x-sasuke
5
1012 VISITAS
En progreso - Nuevo capítulo Cada 15 días
tiempo de lectura
AA Compartir

Relutância

Oww, se liga nisso, to chocado :o”

Suigetsu mandou, juntamente com um link de um post do blog da S. Sasuke não poderia se importar menos com qualquer coisa que pudesse ser postada em tal blog, fofoca sobre os outros não lhe interessava, tampouco o incomodava coisa ou outra que, por vezes, postavam sobre sua vida. Suigetsu sabia disso, ainda assim insistia em mandar-lhe algo de tempo em tempo para fazer comentários.

Clicou. O post falava de dois meninos que foram flagrados se beijando na biblioteca, um pálido e um loiro. Conforme lia, Sasuke foi sentindo crescer-lhe um mal estar. Tinha uma suspeita – quase certeza – de quem seriam, mas se pegou torcendo para estar errado. Desceu mais a tela para ver a imagem, sentiu uma pontada no coração. Via-se claramente na foto Sai beijando Naruto contra uma estante de livros, as mãos em sua cintura, o loiro agarrava-se em seus braços e parecia completamente entregue. Sasuke sentiu um nó na garganta, seu estômago embrulhou-se com a cena, ainda assim não conseguia desviar os olhos. Ficou por algum tempo analisando a postagem repetidamente, como se houvesse deixado escapar algum detalhe que mudasse a situação de alguma forma. Pouco depois, irritado por alguma razão, botou o celular de lado e virou-se para o outro, ajeitando a cabeça no travesseiro com um pouco mais de violência que o necessário.

Não teve tempo de relaxar, em parte porque alguma coisa dentro de si gritava para que saísse quebrando metade da escola (e seus alunos) numa injustificada avalanche de ódio, em parte porque, não muito contente de ser ignorado, Suigetsu começou a bombardeá-lo com mensagens para chamar-lhe a atenção.

O telefone começou a tocar. Sasuke soltou um grunhido de irritação e virou-se de má vontade para atender o amigo.

–O que é? - resmungou seco.

–Mano, você viu o que eu te mandei? -ele ignorou o tratamento, como de costume.

Vi.

Cara, eu não tô nem acreditando!

–O que te importa? Eu não tô nem aí – soou um tanto mais explosivo do que queria.

Nossa, tá estressadinho por quê? – a voz de Suigetsu ganhou um tom de ironia, não contribuindo muito para o humor do outro.

–Ai, não consigo entender essa necessidade imbecil de ficar falando da vida dos outros. Não ligo a mínima de saber quem tá pegando quem, ainda mais se tratando do Naruto e daquele amigo esquisitinho dele, quero mais é que os dois se explodam.

A frase saiu quase sem querer de sua boca e Sasuke se perguntou de imediato se deveria ter dito aquilo. Suigetsu silenciou-se por um momento.

–... Ai meu deus...

–...“Ai meu deus” o quê?

Você tá com ciúmes.

–Ah, me poupe, Suigetsu! Cala a boca!

Ai meu deus, você tá! Como eu nunca reparei isso antes?

Definitivamente não deveria ter dito aquilo. O nervosismo chegou rapidamente a seu coração, acelerando-o. Duvidava que houvesse alguma forma de impedir que Suigetsu usasse isso para importuná-lo por semanas, aquele era o tipo de coisa que não ajudaria em absolutamente nada.

–Quer saber, eu não vou perder meu tempo discutindo com você – ele procurou manter a voz o mais desinteressada o possível e desligou a ligação.

Não demorou muito para seu celular apitar novamente com mais outra mensagem de Suigetsu.

Sasuke ♥ Naruto 4ever”

Ah, quanta maturidade.

Tudo bem, era só ignorar as provocações – e o assunto – por completo e fingir que não se importava que logo mais o outro esqueceria. É, fingir não se importar, ele era bom nisso.

Mas ele se importava. Era um daqueles sentimentos extremamente desconfortáveis e danosos que tomam conta de todos os sentidos e distraem a mente de qualquer outra coisa, que se recusam a ir embora não importa o quanto se tente. E ele já havia tentado bastante. Fosse como fosse, naquela noite uma centena de aflições foram consumindo-lhe cabeça e coração. Primeiro porque, quer quisesse admitir, quer não, estava transbordando de um ciúme quase doentio. Fazia um bom tempo que estava dando o seu melhor para manter distância de Naruto, ainda assim, confortava-se de certificar que o outro continuava esforçando-se em tentar fazer-se presente. Por mais egoísta que fosse, parecia o suficiente não dar-lhe atenção alguma, contanto que a recíproca fosse o oposto. Vez ou outra até provocava-o de propósito para chamar-lhe a atenção. No começo, sentia-se imensamente culpado, afinal continuar preocupando-se com isso não era de forma alguma uma maneira eficiente de esquecer o garoto, mas acabou conformando-se com aquele sentimento e desistindo de tentar erradicá-lo. Fora longe demais, certa vez, quando chegara a namorar com a garota que Naruto gostava apenas para certificar-se de que não o perderia para ela. Pelo menos, assegurava-se de tê-lo o observando – não era por um bom motivo, mas valia da mesma forma.

Um pensamento que o reconfortava quando decidira afastar-se era de que dificilmente o outro garoto retribuiria seus sentimentos da mesma forma. Naruto não fazia muito o tipo, além do mais, não era segredo para ninguém que ele tinha interesse em Sakura desde criança. Aquele detalhe em particular o enfurecia, Sasuke sabia que a garota havia se tornado amiga do outro apenas para conseguir aproximar-se dele e costumava tratar Naruto com uma aversão revoltante na época em que os três andavam juntos. Entretanto, os dois haviam mantido a amizade após seu afastamento e pareciam estar se dando miseravelmente bem desde então. Apesar de tudo isso, fazia um tempo que vinha notando o garoto o encarando com olhos pouco platônicos vez ou outra e, poucos dias antes, havia tirado a prova numa exibição descarada durante um jogo, no qual o pegou encarando e despiu-se vagarosamente da camisa, enquanto analisava matematicamente a reação do outro adolescente. E, agora, ele havia sido visto enroscando-se com o aluno novo pelos cantos. Sentia um misto de contentamento e frustração, por um lado parecia que teria chances se tentasse, afinal, por outro não permitia-se tentar de jeito algum, e a possibilidade de vitória proibida doía mais que conformar-se com uma derrota segura.

De toda forma, não podia evitar de imaginar o que havia entre Naruto e o novato. Cedo ou tarde, o garoto acabaria se envolvendo com alguém, sabia disso, mas esperava estar mais preparado para quando acontecesse.

Não estava.

Foi dormir com a cabeça fervilhando, ainda teve tempo de se perguntar como o outro estaria lidando com a publicação antes de cerrar os olhos. Conhecendo bem os colegas da escola, o dia seguinte seria bem difícil para Naruto.

Acordou cedo. Suigetsu o encontrou a caminho do café da manhã um tanto mais alegre que o normal. Sasuke franziu o cenho para seu sorriso petulante e ignorou o “bom dia”.

–Credo, vai fingir que eu não existo, é?

–Não.

–Ainda tá irritado porque o cara novo roubou seu namorado?

–Eu não tava irritado por causa disso.

–Ah é? Então era por quê?

–Não te interessa.

Suigetsu ergueu a sobrancelha, incerto se devia ou não acreditar. Estava mais ou menos acostumado com os complexos problemas familiares do amigo e, pelo menos com aquele assunto em particular, ele tentava ser compreensivo.

Sasuke manteve-se atento durante todo o café da manhã e o caminho ao prédio principal a qualquer sinal de Naruto, mas ele não apareceu. Sai, entretanto, apareceu normalmente para o desjejum com seu costumeiro ar de indiferença. A escola inteira pareceu voltar os olhos exclusivamente para ele assim que o viu. Não poucos fizeram comentários maldosos ou disseram-no alguma grosseria diretamente, mas ele ignorou absolutamente tudo com uma classe e controle impecáveis e dignos de aplausos. Apesar de detestá-lo, Sasuke não podia evitar de sentir-se mal pelo garoto. Não conseguia engolir tamanha intolerância e falta de respeito dos colegas, aquele tipo de atitude enojava-o demais.

Já era quase a hora da aula e estava começando a duvidar que Naruto viria quando o avistou aproximando-se do prédio de cabeça baixa. Conhecia-o bem o suficiente para ter certeza de que estava aterrorizado. Dava passos curtos e tinha os olhos fixos no chão. Provavelmente temia ser marginalizado novamente pelos outros alunos, lembrava-se bem de como a hostilidade de certos colegas o afetava quando eram crianças, sempre fora muito solitário e sofria demais com isso. Havia sido um longo caminho até se tornar cercado de amigos como era, e Sasuke podia apenas imaginar o valor que aquilo tinha para ele.

Não havia sido o único a notar sua presença, a maioria dos adolescentes parecia ter voltado a atenção para Naruto em questão de segundos. Um grupo de garotos da outra turma com quem tinha desentendimentos de longa data foi aproximando-se do outro com ares de arrogância e risadinhas maliciosas. Sasuke observava discretamente, mas triplicou a atenção à cena de imediato. Deu uma rápida olhada ao redor à procura dos amigos de Naruto, avistou o grupo de Kiba do outro lado da escada, mas apenas Hinata lançava olhares preocupados para o amigo sendo cercado e duvidava muito que a menina fizesse alguma coisa, os outros pareciam fingir não ver o que acontecia.

–Hey, Naruto, então quer dizer que você é bicha? - ouviu Takashi Satoru zombar em voz alta. Voltou-se completamente para a cena. Suigetsu, sentado ao seu lado na mureta da escadaria, parou de mexer no celular e também virou-se para ver o que estava acontecendo.

Naruto mal se moveu, parara de andar ao ouvir a provocação. O outro garoto voltou a chateá-lo, com a ajuda dos amigos. Esperou que ele revidasse, mas não esboçava reação alguma. Do outro lado da escadaria, seus supostos amigos continuavam ignorando a cena. Sasuke sentia o sangue ferver sob a pele, já detestava Takashi havia muitos anos e aquela demonstração ridícula de intolerância vinha o aborrecendo desde que deixara o quarto naquela manhã. Torcia desesperadamente para que Naruto fizesse alguma coisa, mas o garoto parecia paralisado.

–Talvez agora ele só abra a boca quando vê uma rola – continuou Satoru, arrancando gargalhadas de seus amigos. Naruto não reagia. Ninguém ia interferir.

–Pois eu acho que alguém devia meter uma rola na sua boca, Takashi, pra ver se você para de falar merda.

Sasuke não viu quando saltou em direção ao garoto. O foco da cena desviou de Naruto de imediato, Satoru esqueceu-se rapidamente de quem estava importunando segundos antes e resolveu mudar o alvo de suas difamações. Para seu azar, entretanto, por mais furioso que estivesse, Sasuke continuava frio e soube tomar o controle da situação. Sabia como lidar com aquele tipo de gente. Satoru tentou intimidá-lo por número, ameaçando partir para a violência como último recurso, mas Suigetsu avançou para dar-lhe apoio e ele, calculando a reação do outro, puxou do bolso seu canivete.

–Pode vir – disse com frieza.

Foi o suficiente para acovardar os desafiantes.

Quando estava fora da escola, levava o canivete no bolso por precaução, quando estava dentro, por outro lado, o levava apenas por gosto. Achava-o bonito e tinha acostumado-se a carregá-lo consigo, mas não tinha real intenção de usá-lo tão cedo e esperava, sinceramente, não ter usá-lo nunca. O sinal tocou. Takashi e os outros aproveitaram a deixa para correr para dentro do prédio.

–Caramba, Sasuke – reclamou Suigetsu recuperando-se do susto – isso lá é hora de arranjar briga?

–Não enche – retrucou guardando o canivete. Suigetsu trocou a expressão inconformada por um olhar petulante, olhou de Naruto para ele e balançou a cabeça devagar, dando-lhes as costas. Não foi preciso palavra alguma para Sasuke saber exatamente o que ele estava pensando, respirou fundo e virou-se para o outro garoto. Naruto, ele constatou meio irritado, meio preocupado, continuava imóvel – E você? Vai ficar aí plantado feito uma árvore?

Ainda nenhuma reação. O garoto apenas o encarava atônito. Sentia um aperto no coração de vê-lo naquele estado, sabia que aquele comportamento não lhe era normal e imaginou que devia estar imensamente inseguro para ficar tão fragilizado assim.

–Anda, criatura, - disse puxando-o pelo braço em direção ao prédio - se você não se mexer, vai perder a prova.

A situação era constrangedora e descabida, no mínimo. Vinha o evitando por anos e, de repente, viu-se caminhando ao seu lado. Poderia simplesmente ter-lhe dado as costas após tê-lo livrado dos colegas e corrido para alcançar Suigetsu. Agiria como se o motivo de ter interferido fosse apenas rivalidade com Takashi, o assunto do beijo saturaria em poucos dias, não teria mais motivos para falar com Naruto novamente, o ano logo acabaria e nunca mais o veria na vida. Problema resolvido. Mas não tinha feito isso, sentia uma ridícula necessidade de protegê-lo e não conseguira deixá-lo para trás quando teve a chance. E tinha que agir com naturalidade.

–Achei que você fosse o tipo que não leva desaforo pra casa, o que raios você tava fazendo ali que nem uma múmia?

–E-eu... - gaguejou o outro num fio de voz.

–Não deixa aquele babaca falar merda pra você, ele já se acha demais. Se não souber o que falar, só xinga de qualquer coisa que ele já se dói no ego.

–Obrigado.

Seu coração deu um salto. Sentiu-se um tanto patético, mas estava mais nervoso naquele momento do que pouco antes, quando estava disposto a comprar sozinho uma briga com quatro brutamontes. O coração em disparada com o agradecimento. Manteve-se olhando para o outro lado.

–Eu só... Faz tempo que eu tava procurando um motivo pra brigar com aquele otário... Só isso.

–Obrigado, mesmo assim – insistiu Naruto, parecia estar recuperando-se do pânico e mirava-o com imensa admiração. Fazia um bom tempo que não o via tão de perto, o azul de seus olhos parecia muito mais intenso do que se lembrava, ou talvez estivesse destacando-se por seu rosto estar tão pálido, não conseguia encará-lo por um segundo completo sequer - Eu não sei o que me deu, se não fosse você eu não sei o que seria de mim ali.

Respirou fundo constrangido e pigarreou.

–Ahn.. É... - precisava mudar de assunto – Você e o esquisitinho lá... ?

–Não! Foi só... Eu só... - uma clara nota de desespero surgiu em sua voz, fazendo com que Sasuke se virasse para ele.

–Calma, tudo bem – disse-lhe olhando-o nos olhos com firmeza – É normal, não precisa entrar em pânico.

–Normal?

–É, vocês são amigos, vocês ficaram. Normal. Digo... Vocês são só amigos, né?

–Sim!

–Digo, só tô perguntando, não que teria mal se vocês não fossem, né, sei lá – ele desviou os olhos novamente - se você gosta de gente esquisita que nem aquelezinho o problema é seu, eu não tenho...

–Sasuke, - interrompeu Naruto, chamando-lhe de volta a atenção – você diz normal... Tipo... Você já...?

–Ah, já, metade dessa escola já deve ter ficado com alguém do mesmo sexo, ninguém fala nada porque são um bando de hipócritas – exagerou um pouco na estimativa, mas foi sincero na conclusão, achava mesmo que um bom número de colegas já devia ter dado suas escorregadas com um punhado de álcool. Para seu alívio, chegaram na sala de aula, salvando-o de prolongar o diálogo constrangedor – Boa sorte.

Afastou-se rapidamente do outro garoto e adiantou-se para seu assento antes que Naruto pudesse sequer responder-lhe. Suigetsu o aguardava na cadeira de trás com um sorriso preenchido de malícia, desviou os olhos assim que reparou e procurou concentrar-se em qualquer outro detalhe para evitar que algum sinal o denunciasse.

–“Não tô com ciúmes, quero que ele se exploda”– zombou Suigetsu fazendo um falsete para irritar o amigo. Sasuke virou-se para trás irritado.

–Eu não ligo a mínima pra ele, eu só interferi porque eu não tava aguentando essa escrotice que tão fazendo com os dois, alguém tinha que colocar aquele filho da puta do Takashi no lugar.

Suigetsu riu.

–Ah é, por isso que você tava ignorando completamente quando era com o carinha novo, no café da manhã.

–Ele tava lidando bem com isso, o Naruto não, tava lá travado que nem um retardado, alguém tinha que fazer alguma coisa.

–E aí você inclusive ficou lá pra escoltar a princesa até aqui.

–Quer saber, acho estranho você não ficar revoltado com essa merda também, você tinha que ficar bem ofendido com essa comoção toda, porque você é outro que adora chupar uma piroca.

–Prefiro quando você chupa a minha.

–Vá à merda, não dá pra conversar com você.

Ele se virou para frente enfurecido, Suigetsu apenas riu novamente. Sasuke o sentiu se aproximar para falar-lhe perto do ouvido.

–Sabe, eu até acreditaria nessa sua historinha, - disse o garoto em voz baixa, Sasuke escutou em silêncio, sem virar-se para vê-lo nem demonstrar reação alguma – se você não ficasse encarando, provocando e reclamando desse moleque desde que eu entrei na escola. Até achei que você gostava de encher o saco dele só porque você é cretino, mesmo, mas depois da birra que você pegou do carinha novo, daquela raiva toda de ontem por causa do beijo e de ter feito o príncipe encantado pra salvar o Naruto agora... Nossa, isso explica tanta coisa...

Sasuke continuou fazendo-se de surdo.

Depois das provas daquele dia, subiu para o telhado do prédio principal. A porta ficava trancada, mas havia aprendido um truque com um clipe de papel que abria a maioria das trancas da escola. Apoiou-se numa estrutura mais alta e acendeu um cigarro, foi apenas tragando devagar, o olhar vago no horizonte e os ouvidos desligados para o som distante dos adolescentes algazarreando no pátio. Ficou um bom tempo por lá. Gostava de estar sozinho, de ter um tempo apenas para pensar – ou para não pensar em absolutamente nada – quando precisava. Não sabia ao certo como devia se sentir a respeito da recente descoberta de Suigetsu. Ignorá-lo poderia ser efetivo à longo prazo, mas não mudava o fato de que o amigo o importunaria sobre o assunto por, pelo menos, até o fim daquele semestre. Tinha certeza de que não mais conseguiria fazê-lo mudar de ideia, enquanto mais insistisse no assunto, mais o outro se convenceria. Até tinha temor, por precaução, que Suigetsu fizesse alguma coisa idiota, mas era coisa pouca, a ameaça maior era simplesmente o aborrecimento que lhe causava tocar no assunto. Queria manter aquilo em absoluto segredo consigo e irritava-o pensar que outro alguém houvesse percebido. Além do mais, chateava-se o suficiente remoendo o sentimento sozinho, não precisava de mais outra voz o pressionando além da própria consciência.

Em seu caminho de volta, passou perto da biblioteca. Avistou sair de lá Naruto, que andava depressa, mas tinha a cabeça baixa novamente. Imaginou que devia estar evitando atenção indesejada. Sentiu um comichão quase insuportável de ir atrás dele, apesar de repreender-se de sequer cogitar, mas, antes que percebesse, viu-se adiantando na direção do outro garoto e convencendo-se de que aquela seria a última vez. Tiraria meia dúzia de dúvidas que vinham o incomodando desde a noite anterior e agiria com a maior naturalidade o possível, depois estaria em paz e poderia deixá-lo de lado e voltar ao que era antes.

–Tava estudando? - Naruto virou-se o encarando incrédulo.

–Estava.

–Desde quando você estuda?

–Desde que Sai se ofereceu pra me ajudar.

–Ah – respondeu desgostoso – E agora você vai fazer o quê?

–Tava pensando em procurar a Sakura, ou quem sabe o Kiba, e passar o tempo com eles.

–Bom, eu não to com a menor vontade de aturar aquela menina agora, então acho que eu vou pro outro lado.

–Eu não tenho nada combinado com eles – disse o outro um tanto afobado – foi só uma ideia, se você tiver outra sugestão...

Surpreendeu-se de imediato com a prontidão do garoto a passar algum tempo com ele, pensou que ele estaria arredio em ir sozinho conversar com alguém que vinha o evitando por anos. Mas não se permitiu ficar contente, manteve-se distante o tanto quanto podia enquanto sondava Naruto ao máximo o possível. Tinha a impressão de que o garoto estava terrivelmente pressionado, fazia um enorme esforço para afirmar que não gostava de homens. Parecia mais preocupado em convencer a si mesmo do que qualquer coisa, pela forma como tinha o olhar baixo e os ombros encolhidos, abrindo e fechando a ponta do zíper da própria bolsa ao invés de encarar Sasuke, a maior parte do tempo.

Admirou a surpreendente inocência do garoto com questões de contato físico e irritou-se silenciosamente com sua devoção à Sakura. Tentou descontrair o assunto perguntando-o o que gostaria de cursar quando se formasse da escola e observou Naruto distrair-se com a própria indecisão. Ele continuava a mesma criança iluminada de sorriso sincero e gostos simples por trás da insegurança que parecia tentar apagá-lo, e constatou que aquela aura ainda lhe causava uma fraqueza. O modo gracioso de mover-se e a mera sombra de um sorriso infantil que ameaçou surgir sob aqueles olhos muito azuis foi o suficiente para quase arrancar-lhe um sorriso também por puro gosto. Tratou de morder os lábios e olhar para o outro lado antes que perdesse a compostura.

–O que foi? - questionou o outro num tom um tanto ofendido.

–Nada, é só... - não conseguia se forçar a olhar em sua direção novamente, pôs-se em pé com o coração batendo apreensivo e pigarreou – Você não mudou nada.

Começava a achar que tinha sido uma péssima ideia chamar Naruto para conversar. Era o gatilho de uma recaída violenta para um vício do qual nunca havia se curado e sentia que, depois daquilo, certamente uma voz petulante na cabeça e no coração insistiriam para que tornasse da oportunidade um hábito diário, e resistir à tentação de reaproximar-se exigiria dele uma força hercúlea.

Despediu-se apressado e praticamente fugiu do garoto antes que o mirasse novamente e aquilo aumentasse o ainda sutil pânico que começava a acometê-lo. Era um fato: não era capaz de agir racionalmente quando tratava-se de Naruto, enquanto mais arriscava-se, mais afundava, como se a situação fosse um poço de areia movediça. Tinha que caminhar cautelosamente pelas beiradas e jamais aventurar-se a avançar para o centro.

Não realmente planejava ir ao encontro de Suigetsu, mas seus pés o guiaram até o amigo automaticamente. O avistou lendo no pátio sob a sombra de uma árvore e sentou-se em frente a ele com o semblante franzido e um olhar injuriado, sem dizer uma palavra sequer.

–Que cara é essa? Onde você tava? - perguntou o outro, mas ele mesmo revirou os olhos antes de qualquer resposta – Não, não precisa nem dizer. Tava com ele, né?

–Tava – resmungou desviando o olhar.

Suigetsu abriu um sorriso petulante e deu uma risada rouca.

–Vai, quero ouvir – implorou Suigetsu com um ar sarcástico – Admite em voz alta pra mim.

Sasuke olhou feio para o outro garoto e bufou impaciente.

–Pra quê? Você já sabe, de qualquer jeito.

–Não, mas eu preciso ouvir de você pra minha vida ficar completa.

Ele respirou fundo irritado.

–Eu gosto dele. Gosto muito. Gosto dele pra caralho. Pronto. Tá feliz agora?

Suigetsu fechou os olhos e esticou o punho no ar dramaticamente.

–Vitória – suspirou.

Imbecil...

–Nossa, juro que eu devia ter percebido há eras, vocês dois ainda vão casar. Se pá ele também gosta de você, né, pelo jeito que ele te persegue e tal...

–Não, cala a boca. Eu gosto dele e acabou, ninguém mais vai falar nisso e você faça o favor de esquecer essa história.

–Quê? Pelo amor de deus, nem começa...

–Não começa você. Foi só hoje, eu precisava falar com ele hoje e agora volta tudo ao que era antes.

–Por quê? Qual é o seu problema?

–São muitas coisas em jogo, tá legal? O lance é que não vai rolar nada e é bom você não se meter nessa história.

–Ah, me poupe! Você vai ficar aí sofrendo de otário por quê? Me dá um bom motivo pra você nem tentar!

–Você sabe, eu não vou envolver ele com os meus problemas...

–Ninguém tá pedindo pra você levar o moleque numa boca de fumo no meio de um tiroteio, ele tá aqui dentro da escola bonitinho e protegido, para de inventar.

–Não é só isso... Além do mais, eu não sei se teria alguma chance, acho que ele ainda gosta da Sakura...

–Mas ele pode começar a gostar de você!

–Não sei nem se ele gosta mesmo de homem...

–Ué, como não? Ele tava dando uns pegas no carinha novo ontem!

–Mas ele tava só experimentando, ele disse que nunca tinha beijado antes.

Caramba, tá zoando? Que raro! Puts, você deve estar puto, né?

–Por quê?

–Porque ele nunca tinha ficado com ninguém e aí justo o carinha que você não gosta roubou o bv dele antes de você.

–Ah... AH! Que droga, não tinha pensado nisso! Vá à merda, por que você tinha que me falar isso? Caralho, como eu odeio aquele esquisitinho...

Suigetsu deu uma gargalhada,

–Mas sério... Ele parecia bem inseguro hoje de manhã, tem certeza que ele não é, sei lá, pelo menos bi?

–... É, pra ser sincero, eu acho bem capaz que ele seja...

–Vai fundo, então!

–Já falei que não.

Por que não?

–Porque não!

–Sério, me dá um bom motivo – além de que se você tiver namorando a gente não vai poder mais dar uns catas, sei que isso é trágico...

–Só pra você, que é uma cadela no cio.

–Então me dá um motivo!

–Eu não... Caramba, você não para de gritar na minha cara! Não dá pra pensar assim! Não sei nem mais o que eu ia falar...

–Você tá morrendo de vontade de tentar...

–Suigetsu, escuta...

–Você não tem nem motivo, admite que tá é com medo de levar um fora.

–Não é medo, eu só não acho que seja um bom momento...

–Pelo menos tenta! O carinha novo tá tentando...

–Para de me pressionar, que saco!

Medroso...

Ai, tá bom! Eu tento! - Sasuke sentiu o rosto queimar ao perceber que havia dito aquilo alto demais. Olhou ao redor alarmado para se certificar que não havia chamado muita atenção e respirou fundo - Eu tento... Vou voltar a falar com ele, me aproximar e ver qual é a dele. Aí quando nada acontecer e eu dar com a cara no muro e ficar de mau humor pro resto do ano, a culpa vai ser toda sua, tá ouvindo?

Suigetsu comemorou cerrando os olhos e agitando os punhos vigorosamente na altura da cabeça. Sasuke cruzou os braços irritado e bufou novamente.

–Não entendo o porquê disso te interessar tanto.

–Porque eu sou amigo, eu te amo e quero te ver feliz – respondeu-lhe Suigetsu com um olhar melancólico e levando a mão ao coração, antes de desabar numa gargalhada – Ai, cara, isso vai ser muito engraçado de assistir!

–Vá à merda.

26 de Junio de 2019 a las 03:03 0 Reporte Insertar 0
Leer el siguiente capítulo Sob Pressão

Comenta algo

Publica!
No hay comentarios aún. ¡Conviértete en el primero en decir algo!
~

¿Estás disfrutando la lectura?

¡Hey! Todavía hay 1 otros capítulos en esta historia.
Para seguir leyendo, por favor regístrate o inicia sesión. ¡Gratis!

Ingresa con Facebook Ingresa con Twitter

o usa la forma tradicional de iniciar sesión