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aikimsoo Ai KimSoo

Yixing sempre esperava pelo dia que teria chance de ajudar a pagar as contas em casa. Se não pudesse ajudar, que pelo menos fosse menos uma despesa. Seu pai, um viciado em jogos de azar, não ajudava em uma melhoria de vida e só afundava a família em dívidas. Feliz por ter conseguido uma bolsa de estudante, Yixing voltava para casa se sentindo feliz. Seria menos uma despesa para os pais, sua passagem não precisaria mais ser paga. Pagaria do próprio bolso. Não via a hora de contar a novidade, que infelizmente jamais seria contada e exercida. Chegou em casa feliz e foi arrancado dela aos prantos. Violentamente. Desumanamente.


Fanfiction Bandas/Cantantes Sólo para mayores de 18.

#lay #suho #sulay #aikimsoo
Cuento corto
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Capítulo Único - A realidade bateu a porta.

Eu tinha acabado de receber a notícia de que tinha passado para a monitoria da faculdade. Eu daria aula de Inglês I e receberia um pouco de dinheiro. Não seria muito, mas já iria conseguir aliviar um pouco aos meus pais. Olhei para a hora e vi que eles ainda não deveriam ter chegado do trabalho, então resolvi ir para a sala de música e tocar um pouco de piano.

Tocar era meu hobby preferido. Eu tinha aprendido quando era mais novo e na escola deram aula – optativa – de piano. Foi como realizar um sonho e eu não conseguia imaginar uma comemoração melhor, para mim, do que deixar que meus dedos dedilhassem aquelas teclas musicais.-Yixing? – ouvi me chamarem e parei de tocar. – Sabia que era você! – Luhan sorriu e entrou na sala. – Soube que passou na prova. Parabéns, cara! Você realmente é o maior CR de Letras Mandarim/Inglês.

-Para com isso, Lu. – pedi e tinha certeza que corei. Luhan era meu melhor amigo e estudava na mesma sala que eu.

-Eu gosto de te ver sem jeito. – ele retrucou rindo. – O que você está fazendo aqui? Vai pra casa contar pros seus pais logo. Não foi você mesmo que disse que seus pais estavam com dívidas?

-Mas eles ainda não chegaram, por isso eu quis vir comemorar. – expliquei e ele riu.

-Você devia seguir a carreira artística. Você iria ser um idol maravilhoso...

-Mas a carreira de idol não é muito segura, você sabe. E meus pais precisam que eu tenha um emprego fixo... Meu pai está ficando viciado cada vez mais e esses jogos de azar estão tirando toda nossa renda. – desabafei e meu amigo sentou ao meu lado, fazendo carinho em meus cabelos.

-Sabe que se precisar de mim, sempre estarei ao seu lado né? – ele questionou e eu concordei. – Agora sorria. Você passou pra única vaga de monitoria que tinha e agora vai receber por isso. Bora! Sorria!

E eu sorri, porque Luhan tinha o poder de sempre me fazer sorrir. Eu ainda me perguntava como ele tinha ido parar na mesma escolinha que eu, sendo tão rico. Os senhores Lu eram excelentes. Eu ficava – até hoje – fascinado com a iniciativa deles de porem o filho em um colégio público, para que ele não crescesse mimado.

-x-Depois de ter tocado piano e ouvido meu melhor amigo cantar, fomos tomar um sorvete. O sol estava lindo e o dia parecia sorrir para mim. Era uma das minhas poucas felicidades, desde que meu pai se envolveu com jogos de azar. De qualquer forma, com a possibilidade de não ter mais que pagar minha passagem, isso já poderia ajudar minha mãe a segurar o dinheiro para pagar as contas.

Com o fone de ouvido e cantarolando, eu caminhava com um leve sorriso no rosto. Eu me sentia leve. Comecei a avistar minha casa e franzi o cenho ao notar que existiam carros luxuosos em frente ao meu lar. Apressei o passo e peguei o celular, para poder encerrar a reprodução de música quando a que eu ouvia acabasse.

A música acabou e eu estava a 10 passos de distância do meu lar. Encerrei a reprodução musical e guardei meus fones. Com os ouvidos livres de qualquer som, comecei a escutar gritos e choros. Aquela voz era da minha mãe. Corri e entrei em casa, encontrando vários homens vestidos de preto e derrubando nossas coisas. Minha mãe chorava e gritava, enquanto meu pai tentava conversar com eles.

-XING! – minha mãe me gritou, ao me ver, e correu para meus braços. – Filho, foge daqui. Rápido, foge!

-O que está acontecendo? – questionei e vi os homens de preto me olharem.

-Ele é o filho de vocês? – perguntou o mais alto e eu fiz que sim. – Ótimo, agora os senhores estão liberados das dívidas. – ele avisou e veio em minha direção.

-Corre! – minha mãe gritou, mas eu não conseguia me mexer. Estava sem entender o que realmente acontecia.

Meu momento de hesitação fez com que homens segurassem meu braço e começassem a me arrastar para fora da casa. Foi neste momento que despertei. Comecei a me debater e gritar, enquanto minha mãe tentava correr até mim e era segurada pelo meu pai. Eu não entendia o que estava acontecendo, por que eu estava sendo levado? Que dívida era aquela?

-ME LARGA! –gritei e consegui me soltar de um dos seguranças.

-Fica quieto, garoto! – o mais alto, que parecia ser o líder, ordenou. – Alguém acalma ele? Não podemos chamar atenção e nosso chefe não vai gostar de ouvir gritarias.

-Sim, senhor. – os capangas concordaram.

Infelizmente, depois disso, minha visão escureceu e eu não sabia o porquê. Acho que foi o pano que colocaram em meu nariz.

-x-Acordei, sentindo um leve balançar, e decidi abrir os olhos. Enxerguei tudo – primeiramente – de maneira embaçada. Eu não sabia onde eu estava, então cocei os olhos e voltei a fitar o lugar. Eu não estava sozinho, tinham mais pessoas e todas elas pareciam estar passando fome.

-Oh! Você acordou. – ouvi a voz de uma criança e logo a vi. Era uma garotinha, deveria ter 8 anos. – Moço, você está bem?

-Onde eu estou? – questionei e a vi me olhar com curiosidade.

-Estamos sendo levados pra trabalhar. – ela respondeu e resolveu sentar no chão. Ela estava com roupas brancas, encardidas e surradas, com os cabelos bagunçados e uma curiosidade inata sobre mim.

-Trabalhar? – repeti e me sentei. – Onde estamos?

-Você não morava na rua? Então, eles te pegaram pra você trabalhar. – ela explicou, mas eu continuava não entendendo.

-Morar na rua? Eu tinha casa...

-Casa? – ela me interrompeu e vi seus olhos brilharem. – Que legal! Eu nunca tive uma casa.

-Não?

-Não. Eu morava na rua e uns moços apareceram. Eles disseram que eu serviria pra completar o... o... lote? Acho que é isso. E me trouxeram pra cá. – ela explicou e eu comecei a fazer uma ideia do que era.

-Ling, para de perturbar os outros. – uma garota, parecia ter minha idade, falou e se aproximou. – Prazer, eu me chamo Xung.

-YiXing. – me apresentei. – Eu estou confuso. O que está acontecendo?

-Ling, você poderia ver se já botaram comida? – Xung perguntou e a garotinha foi sem questionar. – Yixing, pelo o que eu ouvi, você foi vendido.

-Vendido?

-Sim. Sua história deve ser parecida com a minha. Meu pai era envolvido com jogos de azar e perdeu uma aposta alta. A única coisa de “precioso” que ele tinha, pra não perder a vida, era eu. Ele me vendeu, em troca da cabeça dele no lugar. – ela contou e riu sem humor. – Isso aqui é algo muito comum no nosso país. Já consegue saber do que se trata?

-Tráfico de pessoas? – perguntei e rezei, internamente, para que eu estivesse errado.

-Isso. Pena que eu não tenho um prêmio pra te dar. – ela sorriu e suspirou. – Todos os que estão aqui, vão ser vendidos. Não sei o que vamos fazer, mas tenho uma ideia do que acontecerá com as mulheres.

-Até mesmo com ela? – indaguei apontando para a garotinha, que conversava com um rapaz.

-Sim. Ela te contou que veio pra completar o lote, não é? – ela perguntou e eu concordei. – Por isso eu já consigo prever o que acontecerá com as mulheres.

-Isso não pode! Nós temos que fugir! – apressei-me a dizer e ela riu. Riu mesmo. – Qual a graça?

-Você pode tentar fugir. Eu fiz isso durante um mês, mas olha só... ainda continuo viva e aqui. – ela falou e apontou para si mesma. – Eu tive sorte, não sei se posso chamar assim, de estar dentro do lote das mulheres. Eles têm ordens pra não nos machucar, mas com os homens é diferente. Se você for pego, pode ser que te matem ou torturem. – ela sussurrou a última parte e senti meu corpo se arrepiar.

-Mas eu não posso ficar parado! Eu não acredito que meus pais tenham me vendido, minha mãe estava chorando e...

-Meu pai também chorou. – ela me cortou e sorriu. Era um sorriso que tentava me consolar. – Você deve pensar que eu nunca vou saber o que você está sentindo, mas... Olhe ao seu redor. Todos eles sabem. – ela concluiu e eu senti meus olhos arderem. Como meu dia conseguiu ficar tão ruim?

-x-

Fazia 3 dias que eu estava naquela tripulação. Eu tinha conseguido me situar melhor, porque fiquei calado observando a todos. Estávamos rumando para alguma periferia da Coréia, pois precisavam pegar o resto das “mercadorias”. Era terrível pensar que eu e todas as outras pessoas eram tratadas como um objeto, que logo teria que ser retirado do estoque.

Xung e Ling tinham se afastado de mim, porque elas tentavam me mostrar que não tinha saída e eu me recusava a aceitar. Por estar sozinho, no meio de 20 pessoas, decidi que deveria observar a rotina do lugar. Eu não conseguiria absorver tudo – do porão em que eu estava -, mas conseguira ter uma noção do que acontecia.

Percebi que o barco tinha algumas partes podres, que poderiam ser usadas para fuga. Xung tinha me alertado - no primeiro dia - que por eu ser um homem, corria o risco de morrer ou ser torturado se fosse pego tentando fugir. Eu estava com medo, mas talvez fosse melhor morrer tentando, do que permanecer ali e ser vendido. Talvez eu fosse vendido para algum tráfico de órgãos e isso não me deixaria vivo, então não tinham muitas opções que eu pudesse escolher.

Eu estava pensativo e quase adormecendo, quando o porão – em que estávamos – foi invadido. Abri os olhos, de supetão, e vi que eram alguns homens que nos mantinham em cativeiro. Eles estavam bêbados e carregavam garrafas e porretes na mão. Vi que todos começaram a recuar e aquilo me assustou.

-NÓS VIEMOS PRA NOS DIVERTIR! – um deles, um pouco mais gordo, gritou e sorriu. – Quero pegar uma criança.

-E eu quero pegar uma mulher. – seu outro colega resmungou.

A princípio, eu não consegui entender o que eles quiseram dizer com “pegar”, até ver Ling sendo puxada pelo mais gordo. Ela estava indo com ele, até Xung gritar e tentar puxar a menina. Eu entendi o que o “pegar” deles queria dizer e fiquei paralisado.

O homem mais gordo deu um empurrão em Ling, enquanto se aproximava para bater em Xung. Olhei para as pessoas e mesmo que eu fosse um dos 5 homens que haviam ali, nenhum ser mostrou que se manifestaria. Eu não consegui ficar quieto, aquilo era demais. Levantei, com uma coragem que eu não conhecia, e fui segurado.

-Se você for, você quem vai ser usado. – um garoto de 15 anos sussurrou.

-Mas eles querem abusar delas! – gritei e soltei meu braço, correndo para tentar impedir que batessem em Xung novamente.

Empurrei o gordo, com toda força que eu tinha, e Xung caiu no chão. Ela tinha levado um soco no rosto e Ling estava caída, chorando.

-Mas o quê? Quem é você?! – o gordo questionou.

-É o novato. – o outro capanga respondeu.

-Ah! É um novato é? – o gordo sorriu para o amigo, que concordou. – Então devemos dar as boas vindas a ele, Cheng.

-Também acho, Luang.

-Boas-vindas? – questionei e logo me seguraram.

-Claro! – Luang, o mais gordo, respondeu. – Sabe como é, nós não costumamos ser seletivos na hora de pegar alguém.

-Porque aqui, tudo é proibido e errado, então... Talvez seja uma boa hora pra testarmos nossos brinquedinhos novos. – Cheng sussurrou e eles começaram a me arrastar para fora do porão.

-Pra onde estão me levando?! – eu gritava e me debatia.

-Pra um lugar onde você vai aprender a ser submisso. - Cheng respondeu e apertou meu braço, enquanto tocava seu pênis e sorria maliciosamente.

Eles iriam abusar de mim. Eu fiquei mais desesperado do que poderia imaginar. Eu nunca pensei que algo assim poderia acontecer, até porque eu era um homem e eles também. Quer dizer... Eles pareciam querer abusar de mulheres...

“-Se você for, você quem vai ser usado.”

A voz do garoto de 15 anos sussurrou em minha mente e eu entendi. Meu coração se apertou ao imaginar o que ele já tinha passado. Aqueles homens não mereciam serem chamados de seres humanos, eles eram horríveis. Eram asquerosos. Eles não faziam diferença de criança, homem ou mulher.-ME LARGUEM! ME SOLTEM! – comecei a gritar, por mais que eu soubesse que não iria adiantar. – ME SOLTEM!

Ao tempo em que eu gritava, eu me debatia e comecei a perceber que os homens estavam bêbados demais para conseguir me deter por muito tempo. Um deles deu um soco na minha barriga e isso fez com que eu parasse de resistir. O soco tinha sido forte e eles me arrastaram. Subimos uma escada e logo eu vi o céu. Ele estava escuro e não tinha nenhuma estrela. Eu estava na parte de cima do barco?

-O que aconteceu? – ouvi uma voz desconhecida.

-Brinquedinho novo, caro amigo. – Luang respondeu e fui jogado no chão.

-Vocês pegam qualquer coisa mesmo hein? Só não façam muito barulho. – o desconhecido ordenou e se afastou.

Aproveitei o tempo de “calma” para poder estudar o lugar. Estávamos em movimento, mas mesmo assim era possível ver terra firme. Se eu conseguisse ser mais rápido que aqueles caras, eu poderia correr e me jogar dali. Se eu não morrer, é sinal de que eu mereço continuar vivo.

-Agora vamos... – e antes que eles se aproximassem de mim, eu os chutei.

Não foi difícil derrubá-los, ambos estavam bêbados, e após os ver no chão, levantei e corri. Era arriscado? Era loucura? Era tudo, mas pouco me importava. Se eu morresse, pelo menos tentei lutar pela minha vida. Era tudo ou nada.

Cheguei a beirada do barco e olhei para o mar. Era negro, igual o céu, e eu não sabia se teria capacidade de nadar naquelas águas. Olhei para trás e vi os homens se levantarem, eles estavam vindo atrás de mim.

-É agora ou nunca. – murmurei para me encorajar e decidi que iria contar.

1

A voz deles se aproximava.

2

Eu fitei o lugar mais uma vez.

3

Eu pulei.

A água estava muito gelada e meus movimentos ficaram paralisados pelo choque térmico. Olhei para cima e vi os homens me fitando, porém, decidi que precisava começar a me mexer. Eu tinha conseguido pular e estava vivo, não podia me deixar ser capturado novamente.

Ordenei meus músculos a se moverem e comecei a nadar. Não era uma tarefa fácil, porque aquilo não era uma piscina e a água tinha vontade própria. Parecia impossível chegar até aquele pedaço de asfalto. Com certeza aquilo era algum lugar cheio de depósitos.

Eu nadei.

Perdi o ar dos pulmões.

Mas eu consegui.

Tinha me livrado daqueles homens.


-x-


A vida nas ruas não era nada agradável. Eu tinha ido parar em uma periferia da Coréia do Sul. Descobri o país que eu estava da pior maneira. Tentei pedir informação para uns rapazes de rua, mas eles me baterem. Não entenderam o que eu falava e eu não entendia o que falavam. Tentei conversar em inglês e eles perceberam, mas não conseguiram me compreender e eu pude deduzir que pensaram que eu estava tirando sarro deles. Ledo engano, que gerou meu corpo cheio de novos hematomas.

Fazia um dia que eu estava sem comer, sem água, sem banho e sem teto. A vida na rua era miserável, era uma pobreza que eu desconhecia. O local em que eu estava “morando”, era cheio de pessoas pobres, que saíam muito cedo e voltavam muito tarde. Cada um fazia o que podia para sobreviver – fosse trabalhando ou roubando – e eu não conseguia lutar para me reerguer.

Eu estava pobre e em um país desconhecido. Eu não sabia o idioma deles, me sentia fraco, precisava de um pouco de comida e água, mas ninguém me entendia. Eu iria morrer de fome e frio? Era para isso que eu não tinha morrido quando me joguei do barco? Para ter uma morte lenta e dolorosa? Se eu soubesse que seria assim, teria preferido ter meus órgãos vendidos. Pelo menos eles ajudariam alguém, mesmo que fossem vendidos de forma suja. Eu preferia pensar assim, do que questionar se a pessoa que receberia meus órgãos seria uma pessoa má.

Ouvi um trovão e choraminguei. Já não bastava toda a minha desgraça, eu ainda teria que passar por uma tempestade? Talvez fosse ela que daria fim a minha vida, não? Eu já estava com dor no corpo e com frio, uma tempestade só me faria morrer de hipotermia e hipoglicemia. Queria, pelo menos, ter tido tempo de contar para meus pais que eu os amava mesmo assim, que eu gostava de homens e que eu nunca deixaria de amá-los. Eu queria, com todas as minhas forças, ter conseguido me despedir de Luhan.

Uma gota caiu em minha testa. Ela estava gelada. A tempestade seria fria. Olhei para os lados e vi que tinha uma marquise vazia, com alguns papelões embaixo. Será que aquele território já era de alguém? Bom, se fosse, eu morreria por ser espancado de novo.

-Meu destino é mesmo morrer, que maravilha. – murmurei e ri sem humor.

Levantei, com muita dificuldade, e fui até o local. Assim que fiquei debaixo da marquise, uma chuva forte começou. Trovoadas eram ouvidas, relâmpagos pintavam o céu, o vento levava a chuva e suas gotas formavam desenhos. A natureza era selvagem, mas era tão linda...

-Por que tudo foi ficar assim? – voltei a murmurar e abracei minhas pernas, mesmo sentindo dor, enquanto puxava o papelão para me envolver.

Será que tudo estava acontecendo comigo, por que eu estava sendo errado e gostando de homens? Aquela era uma punição divina para o que eu tinha entendido gostar? Eu era uma aberração que merecia um castigo? Ser gay, realmente, era um pecado tão grave? Já não bastava não poder me assumir e ter um romance tranquilo, era necessário que a vida viesse e me ensinasse que eu era o errado?

Mais um trovão e meu choro veio junto. Eu só queria ter podido formar uma família ao lado do homem que eu viesse a amar. Só queria ter adotado crianças e as tirado de um orfanato. Só queria ter me formado na faculdade e sido um professor, que um dia receberia agradecimentos dos alunos. Eu queria tanta coisa assim? Eu tinha sido tão ganancioso a ponto de não poder ter nada? Nem mesmo o amor dos meus pais? Eu precisava mesmo ter sido vendido? Por que meu pai precisava ter se envolvido com pessoas erradas ao ponto de ter que me vender, para não ficar na miséria?

Comecei a me sentir fraco, sem força e com sono. Meus olhos pesavam e o barulho da tempestade ficava distante. Meu corpo ainda tremia por culpa do frio? Eu não sabia, eu só... Decidi piscar por um longo tempo.


-x-


Uma luz forte me incomodava. Abri os olhos, com um pouco de cuidado, e me deparei com a luz do farol de um carro. Já era o dia seguinte? Eu tinha desmaiado? Pelo menos eu não sentia mais fome e a dor no corpo parecia ter diminuído. A tempestade parecia ter parado também. Estava de noite ainda, então eu tinha dormido um dia inteiro ou só estava acordando de madrugada?

Permaneci deitado e tentando entender o que acontecia. O carro era preto e os faróis estavam bem em cima de mim. Fiz um esforço para sentar e percebi que tinham duas pessoas. Estreitei os olhos, para poder enxergar melhor, e uma delas estava com uma arma na mão. Prendi a respiração e senti meu coração parar por alguns segundos. O que era aquilo?!

Tentei me mexer e vi que uma luta começou entre os dois homens. Consegui ficar de pé e no mesmo momento um barulho de tiro foi ouvido. Aquilo era um assassinato? O homem tinha sido morto? Não consegui evitar um grito e isso atraiu a atenção do que estava com a arma.

Ele perguntou alguma coisa, mas eu não entendi. Acho que – mesmo se ele falasse no meu idioma – eu não entenderia. Eu estava em choque. Um homem tinha acabado de matar o outro na minha frente! O vi dar um passo em minha direção e meus pés saíram do torpor.

Comecei a correr, mesmo que eu estivesse fraco e sentindo dor – culpa da briga com os meninos de rua. Lágrimas lavavam meu rosto e enquanto eu corria, me molhava mais. O lugar estava cheio de poças de água, o que me deixava claro que ainda era a madrugada do dia da tempestade, e por isso eu me molhava tanto.

Olhei para trás e não vi ninguém. Eu tinha conseguido despistar o cara? Eu não sabia, mas vi um monte de caixas e resolvi me esconder entre elas. Eu tentava controlar minha respiração e não fazer barulho. Conforme eu me acalmava, meus olhos começavam a pesar e o cansaço também. Fechei os olhos e soube que iria voltar a dormir. Só não sabia se no dia seguinte iria acordar.


-x-


Acordei no meio das caixas e olhei ao meu redor. Estava de dia, mas nublado. Eu não fazia ideia de que horas eram, apenas senti meu estômago voltar a roncar e pedir por comida. Minha garganta estava seca. Tive o pressentimento de que aquele seria meu último dia vivo se eu não comesse nada e nem bebesse uma gota de água.

Tentei me mexer e senti meu corpo fraco, além de dolorido. Eu não queria morrer, mas... Acho que não teria jeito mesmo. Voltei a chorar e me senti uma criança, porque meu choro estava dobrando.

-Não chore. – ouvi dizerem, mas eu não entendi o que falavam. Levantei o olhar e encontrei com o rosto de um rapaz.

Ele era um anjo? Parecia muito com um. Suas feições eram leves e ele parecia ser uma criança. Seus lábios se esticaram e formaram um sorriso sem dentes. Suas bochechas subiram e seus olhos se formaram em meia-lua. Ele era muito lindo para ser real. Eu já estava morrendo?

-Aqui, tome. É tudo o que eu tenho. – ele tornou a falar, mas eu não entendi o que ele dizia. Pelo menos sua voz era linda.

O vi pegar minha mão e em seguida por um bolo de dinheiro. Ele estava me dando dinheiro? Arregalei os olhos e olhei para si. Ele sorria, mas parecia tão triste. Por que meu anjo estava triste? O fitei e meus olhos percorreram seu corpo. Ele estava inclinado em minha direção, mas parecia vestir um terno preto. Anjos não vestem preto e nem terno, certo?

-Use pra comer e viver. Você é bonito. – ele comentou, mas eu novamente não o entendi. Aquilo era muito frustrante. Eu não entendia o que ele dizia.

-Eu não te entendo. – falei, mas minha voz saiu um sussurro.

Ele me encarou e arregalou seus olhos. Estava surpreso. Dessa vez ele sorriu e seus dentes foram expostos. Eram brancos, enfileirados de forma correta e muito bonitinhos. Ele ficava bonito sorrindo, mesmo que não fosse um sorriso sincero, um sorriso feliz. Se ele não era um anjo, então... Ele era um humano como eu? Eu não estava morto? Devia ser a única explicação, já que no céu - ou no inferno - não deveria existir o dinheiro.

Não tive tempo de tentar perguntar seu nome ou tentar questionar se ele sabia falar inglês. Ele era a única pessoa - que parecia ter condições – que eu estava conhecendo em dois dias. Ele tinha deixado o bolo de dinheiro em minhas mãos e se levantado, enquanto se afastava. Ele era menor que eu, parecia um garotinho. O vi virar o rosto e me olhar por cima de seus ombros. Ele sorriu novamente – um sorriso triste – e me deu tchau. Seus cabelos negros foram bagunçados com o vento.Meu coração se apertou em vê-lo se afastar. Ele estava sofrendo, era óbvio. Seu sorriso era lindo, mas não era feliz. Seu ato de deixar todo o dinheiro comigo... Ele não era uma pessoa ruim, muito menos parecia ser pobre, e mesmo assim estava naquela periferia. Ele...

-OH! ELE VAI TENTAR SE MATAR! – arquejei e tornei a olhar o dinheiro em minhas mãos. Ninguém, em sã consciência, deixaria tanto dinheiro na mão de um desconhecido e iria embora. Eu estava sendo a última pessoa que ele via, certo?

Guardei o dinheiro no bolso das minhas calças sujas, rasgadas e molhadas. Forcei-me a levantar e seguir o caminho que ele fazia. Ouvi uma trovoada e soube que a tempestade voltaria. Andei o mais rápido que eu podia e que minha fraqueza permitia. Consegui avistá-lo caminhando em direção a beirada da superfície. Uma queda dali não mataria ninguém, somente se a pessoa não soubesse nadar.

Enquanto eu me aproximava, senti algumas gotas de chuva tocarem meu corpo e o vi olhar para o céu. Ele não sabia que eu estava ali, afinal, estava de costas para mim. Eu precisava andar só mais um pouco e conseguiria impedi-lo de fazer qualquer besteira. Apressei meus passos e senti um desespero tomar conta de mim quando o vi abri os braços. Ele iria se jogar?!

-NÃO! – gritei e o vi olhar para trás. Ele me notou e sorriu. Eu estava começando a detestar aquele sorriso triste.

Ele me fitou por um tempo, me vendo se aproximar e voltou a olhar para o céu. A chuva estava começando a apertar e nossa distância a diminuir. Ele voltou a me olhar e me deu tchau. Forcei meus músculos a irem mais rápido e consegui correr. Envolvi meus braços em sua cintura no momento em que ele se inclinou para pular. Fiz força para trás e isso nos fez cair. Eu embaixo e ele em cima.-Não tente se matar! – falei em inglês e torci para que ele me entendesse.

-E por que não? – ele indagou e eu suspirei aliviado. Finalmente alguém que me entendia.

-Porque você não pode! Eu não sei as suas razões, mas não pode. – insisti e parecia incoerente até para mim, mas mesmo assim...

-Eu tenho várias razões. – ele retrucou e saiu de cima de mim. – Por que você está tentando me salvar? Você é um desconhecido.

-Mas você foi a única pessoa que me ajudou. – sussurrei e desviei o olhar, mas logo voltei a encará-lo. – Eu estou sozinho em um país estranho há dois dias. Eu não como, eu não bebo água, já apanhei e estou fraco. Hoje, com certeza, seria meu último dia de vida se você não tivesse me dado dinheiro. Eu ainda não comi e não estou bem, mas você me ajudou sem ver a quem. O mundo está sujo demais pra desperdiçar uma pessoa boa. – expliquei e o vi ficar surpreso.

-Você acha que eu sou uma pessoa boa? – ele indagou e eu concordei. Não conseguia mais falar. – Você que foi um rapaz bom. Como soube que eu tentaria me matar?

-Seu sorriso. – murmurei e tossi. Minha garganta estava seca e a chuva estava me deixando com frio. Todo o esforço que eu tinha feito começava a cobrar do meu corpo.

-Omo! – ele arquejou surpreso e sorriu. Seu sorriso parecia sincero agora. – Talvez eu não tenha motivos suficientes pra me matar. Eu tinha decidido desistir de tudo, mas... Antes de me jogar, eu olhei para o céu. A chuva estava começando a cair e eu fiz uma promessa pra mim mesmo. Eu prometi que se alguém aparecesse eu... – a voz dele começou a ficar distante e minha visão ficar turva.

Eu estava morrendo?

Pelo menos eu salvei uma pessoa boa.

Dei um sorriso, pelo menos espero ter conseguido, e senti meus olhos se fecharem. A voz bonita não mais conseguia preencher minha audição.


-x-


Barulhos estranhos preenchiam meus ouvidos. Eu não tinha morrido? Eu ainda estava vivo? Onde eu estava? Não era deitado no chão, porque algo estava muito fofo em minhas costas. Aquilo era um colchão? Eu estava em uma cama?

Tentei abrir os olhos, mas parecia ser muito cansativo fazer isso. Tornei a tentar e logo consegui ver ao meu redor. Parecia um quarto. Olhei ao em volta, mas minha visão ainda estava embaçada demais para conseguir assimilar as coisas.

-Oh, você acordou! – ouvi a única voz que me fazia ficar tranquilo. Olhei para minha frente e encontrei o rapaz de antes, adentrando o quarto. – Como se sente?

-O-o-onde...

-Não se esforce. Você está na minha casa. – ele falou e sentou ao meu lado. – Você desmaiou e eu resolvi te trazer até aqui.

-Por... que... não um...

-Hospital? – ele deduziu e eu concordei. – Você é um imigrante ilegal, certo? Um imigrante ilegal chinês e se eu o levasse, você provavelmente seria preso até conseguir explicar sua situação, seja ela qual for. – explicou e eu concordei. – Eu faço medicina, estou nos meus últimos meses e por isso não foi complicado cuidar de você.

-Ah... – entendi o que ele quis dizer ao ver o soro em meu braço.

-Você estava desidratado. Teve uma pequena hipotermia e hipoglicemia. Tive que tirar suas roupas, elas estavam encharcadas. – então sorriu sem graça, como se pedisse desculpas e eu corei. – Eu coloquei você envolvido em um roupão e te cobri. Coloquei soro pra te hidratar, mas você precisa comer coisas concretas.

-Eu não fiquei sem comer por escolha própria. – comentei e ele riu.

-Imagino. Eu vou deixar comida aqui, não vou poder ficar o resto do dia em casa, preciso cumprir minha residência e depois ir pra faculdade, mas... Sinta-se a vontade, ok? Ande pela casa como se ela fosse sua. Vou deixar o número do meu celular anotado perto do telefone, qualquer coisa é só me ligar. E...

-Por que... está sendo tão legal comigo? – o interrompi e o vi me encarar surpreso. – Eu sou um desconhecido...

-Você foi meu anjo, rapaz. – ele justificou e sorriu. Seu sorriso era lindo quando era sincero. – Quando eu voltar, prometo contar. Não se preocupe, apenas pense que está em casa. Só peço pra não sair, porque pode dar problemas pra mim.

-Você me sequestrou? – questionei e o vi gargalhar. – Para de rir!

-Desculpe. – pediu e tentou controlar o riso. – Eu não tentei te sequestrar e nem tenho intenção de fazê-lo. Eu só quero ajudar, juro.

-Quem jura mente. – resmunguei.

-O que disse? – ele perguntou e eu percebi que tinha falado em meu idioma.

-Que eu vou querer explicação. – menti e o vi concordar.

-Claro! Mas... – olhou para o relógio e suspirou. – Eu realmente preciso ir. Desculpe por não poder ficar aqui e esclarecer as coisas, mas eu realmente preciso ir.

-Tudo bem. – concordei. Ele parecia agoniado e eu comecei a suspeitar que aquela agonia era a responsável pela sua tentativa de suicídio.

-Sinta-se em casa. Eu já volto com a comida e uma bebida. – falou e levantou-se apressado.

Ele estava vestido todo de branco e agora sim parecia um anjo, porém, um anjo muito mais atormentado que antes. Ele não demorou, deixou uma bandeja – com comida – na cama e me deu tchau. Meu anjo da guarda tinha dito que eu tinha sido o seu anjo. Ainda não conseguia entender tudo e muito menos tanta gentileza, só conseguia pensar que ele quem era meu salvador. Pelo menos eu esperava que fosse isso.

Antes de ser vendido, eu acreditava na bondade das pessoas, porém, agora eu começava a ficar receoso. Seria mesmo um bom rapaz, aquele futuro médico? E... Qual era o nome dele?


-x-


Andei pela casa durante o dia e depois voltei a ficar no quarto. Dormi bastante, porque eu sentia um sono anormal. Deveria ser por culpa de toda a tensão que passei durante aqueles dias. Fazia uma semana desde que eu tinha sido vendido? Eu ter fugido... atrapalhou meus pais? Como será que eles estão? E as pessoas que estavam sendo levadas junto comigo?

Um barulho me despertou dos pensamentos questionadores. Eu estava no quarto, no escuro e pensando em voltar a dormir. Olhei para o relógio pendurado na parede e vi que era de madrugada, uma madrugada, que viraria dia em uma hora. Permaneci deitado e com medo de que a casa pudesse estar sendo assaltada, quando a porta do quarto se abriu e um ser de branco colocou a cabeça para dentro.

-Oh! Está acordado. – meu anjo murmurou e eu concordei. – Desculpe, te acordei?

-Não. Eu já estava acordado. – respondi e o vi concordar. – Chegou agora?

-Sim. – ele parecia cansado. Abriu a porta e adentrou o cômodo. – Como está se sentindo? Conseguiu descansar? Comer bem?

-Sim. Mas e você? Por que está chegando tão tarde? – questionei.

-Você está realmente desperto? Porque a resposta para suas perguntas são justamente a justificativa que me fez te acolher em minha casa. – ele explicou.

-Eu dormi o dia todo. – lhe assegurei e ele riu.

-Então vamos lá? Eu estou no último período de medicina. Minha família inteira é médica e professora, então eu tinha que escolher uma dessas áreas. Eu não acho que consiga passar todo meu conhecimento, então decidi que seria uma boa salvar vidas. Eu estava animado em aprender, queria poder ajudar quem viesse pedir socorro, só que... – fez um pausa, respirou fundo e sorriu. – É massacrante. Eu sou muito cobrado na faculdade, os professores pensam que só existe a matéria deles. Parece que esquecem que já foram estudantes, que já estiveram em nosso lugar e que o estágio nos consome! Ainda mais se for na ala de emergência.

-Ainda não entendi...

-A questão é: Eu tirei uma nota baixa em uma prova que eu precisava tirar uma nota alta. Ela não vai me reprovar ou coisa parecida, só que... Meu pai brigou comigo, meu professor chamou minha atenção na frente da turma e isso me atrapalhou no hospital, porque eu quase injetei a medicação errada no paciente. – contou e eu arregalei os olhos. – Tudo começou a desandar, a dar errado. Eu não sabia se queria continuar o curso, mas meus pais quase me bateram quando eu tentei conversar sobre isso. Eu não tenho escolha. Preciso me dar bem em todas as matérias, tenho que ser o melhor estagiário e viver como um robô! Eu não aguentava mais. - ele desabafou e foi então que eu percebi as olheiras em seu rosto. Ele estava cansado, abatido.

-E por isso resolveu que tinha que desistir de tudo? – questionei, porque começava a entender a história.

-Sim. Eu vi um paciente morrer. Não consegui salvá-lo, porque minha mente estava cansada demais e eu não consegui prestar atenção na matéria que me preparava pra situação que eu tinha me deparado. Se eu não estivesse cansado, se eu não dormisse, se eu fosse perfeito como todos queriam, eu teria conseguido salvar o paciente. Eu teria conseguido prestar atenção na aula e estar preparado. Uma vida se perdeu, porque eu não estava sendo capaz de conciliar a carga horária do estágio com a carga horária da faculdade. – pausou e passou a olhar as mãos, que se mexiam nervosamente. – Por culpa da minha falta de desilusão, eu acabei perdendo uma vida. Eu deveria mesmo permanecer vivo? Se eu largasse a faculdade, meus pais me largariam. Se eles abrissem mão de mim, eu faria o quê? Eu não sei fazer nada! Foi então que eu percebi que minha existência era inútil. Que eu era um inútil.

-Você não é um inútil. – apressei-me a dizer.

-Sou sim. Um inútil e covarde, que não tinha coragem nem pra tirar a própria vida.

-Não foi isso que eu vi. – retruquei e ele riu. Era a primeira vez que ele ria na minha frente?

-É porque eu tinha feito um trato comigo mesmo. Eu tentaria me matar e se alguém me impedisse, eu desistiria. Eu não queria morrer, mesmo que a morte parecesse minha única saída. E foi então que você apareceu. Além de estar impedindo que eu me matasse, você parecia precisar de uma ajuda médica. Não era irônico meu salvador precisar que eu o salvasse? – ele questionou e eu sorri. – Você me fez agir, me fez querer te ajudar. Eu lembrava de todo o procedimento e por isso eu decidi trazê-lo pra minha casa. Não me importa se você é um estranho ou não, você me salvou. Você me deu uma nova oportunidade de viver e de exercer aquilo que eu tenho capacidade. Se você quisesse me roubar ou qualquer outra coisa, você poderia. Isso tudo aqui... – e ele levantou os braços, mostrando o lugar. – é seu. O único sopro de ar que eu tinha, foi dado graças a você. Se estou vivo, bem de vida e podendo ir pra aula ou pro estágio, é porque você me manteve vivo. Você não só salvou minha vida, como me fez reviver o espírito de médico que tinha se perdido dentro de mim.

-Eu não fiz nada demais. Eu só... Eu só te impedi de saltar! – argumentei. Parecia loucura, mesmo que ele estivesse prestes a se matar, ele não queria. Qualquer coisinha poderia tê-lo feito mudar de ideia.

-E abriu os meus olhos. Existem pessoas com situações muito mais críticas que as minhas e que permanecem de pé, lutando pra viver. – ele rebateu e eu me calei. – Qual seu nome?

-Zhang Yixing. – respondi automaticamente.

-Pois então, Yixing, você me deu um novo propósito de vida. – ele declarou e eu o fitei, ainda estava confuso. – Se eu tenho tudo e quis desistir por nada, quem não tem nada luta pra ter tudo.

-Estou confuso...

-O que eu estou querendo dizer, é que você me fez abrir os olhos pra realidade em que eu não sou o centro do mundo. Eu vou me formar em medicina, eu tenho dinheiro, então... Por que não ser um médico que ajuda os carentes? Você me deu forças pra levantar e lutar de frente com tudo, então eu quero poder retribuir. Eu quero conseguir levantar alguém e dá-lhe forças pra seguir em frente. Sabe o que pensei quando me contou que estava sem comer, sem água e que era de um país diferente?-Não.

-Que o mundo é injusto. – ele respondeu e eu arregalei os olhos. – Enquanto eu estou aqui, resmungando por ter enfrentado alguns problemas, outras pessoas estão morrendo de fome, de frio e outras coisas. É um problema social, que as pessoas ignoram. O mundo ignora qualquer coisa que não tenha a ver com si mesmo. Eu não quero ser mais um a ignorar os problemas na sociedade, eu quero compartilhar o que eu tenho. Quero ajudar.

-Isso é muito bonito. – fui sincero e ele sorriu. – Olha, você abrigou um estranho em casa e foi o anjo da vida desse estranho, então... Só não se perca de vista e você conseguirá ajudar as pessoas. – fui sincero e ele sorriu. – A propósito, qual seu nome?

-Kim Junmyeon. – ele respondeu.


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Fazia duas semanas que eu estava morando com Junmyeon. Eu contei minha história, como tudo aconteceu e ele ficou aterrorizado em saber o que teria acontecido com a menina. Pensar naquele episódio, me fez pensar que ela poderia ter sido abusada depois que eu fugi. Aquilo me deixou totalmente sem chão e completamente triste. Eu tinha sido egoísta e salvo somente a mim. Eu só impedi que acontecesse uma tragédia em um dia, porque nos outros poderiam tornar a acontecer. Eu só retardei um processo sujo.

Eu fiquei muito desanimado e Junmyeon percebeu. Ele tentava me animar, mesmo que passasse a noite em claro para recuperar o tempo em que tinha deixado de estudar para me dar atenção. Durante essas semanas, eu consegui perceber - claramente - o quanto a rotina dele era exaustiva, massacrante e desumana. Eu entendia a razão que o levou a querer tirar a própria vida. Eu não gostava de vê-lo sofrendo de cansaço, mas também não conseguia fazer nada para ajudar. Eu só atrapalhava.

-Yixing? – ele me chamou e eu o olhei. – Pensando demais de novo?

-Todos os dias. – resmunguei e ele riu.

-Não fique assim. – ele pediu e largou os livros, para se aproximar de mim.

-Não venha, volte a estudar. – mandei e ele paralisou. – Eu estou te atrapalhando, apenas esqueça que eu existo.

-Yixing, eu estou começando a ficar preocupado com você. – ele avisou e eu o encarei de maneira confusa. – Se continuar com esses pensamentos, você cairá em depressão.

-Será que já não estou? – questionei e ele se aproximou.

-Não, não está. Você está triste, não confunda as coisas. – ele me corrigiu e passou a mão pelos meus cabelos. – Aguente mais um pouco, eu já vou encerrar a faculdade e...

-E o quê? Você vai ajudar as pessoas, enquanto eu vou ficar sendo atormentado pelo passado. Ela pode ter sido abusada, por culpa do meu egoísmo! Eu não deveria ter pulado, eu não deveria ter fugido, eu...

-Você deveria ter sido abusado? – ele me interrompeu e seu tom era sério. – Deveria ter sido humilhado, estuprado e depois voltar pro porão? Você realmente acha que se tivesse sido diferente, você teria salvado a menina ou qualquer outra pessoa?

-Eu...

-Você está se culpando de uma maneira severa demais. Se você tivesse ficado lá, você teria sido abusado e depois não conseguiria andar. Você teria sido apenas mais um, porque eles iriam te deixar de lado e depois fazer o que já tinham em mente. Você teria sido só mais um e não mudaria nada. A garotinha correria o risco de sofrer abusos na mesma porcentagem que ela sofre agora. Você pretendia servir de brinquedo sexual pra eles, em troca deles não encostarem na garotinha? Seria muito nobre da sua parte, Yixing, mas infelizmente eles enjoariam de você e seria pior. – ele jogava a verdade em minha cara e eu estava começando a sentir minha respiração desregulada.

-Eu poderia ter ajudado-a a fugir. – murmurei.

-Só a ela? E aos outros? A vida dela seria mais importante do que o resto dos que estavam sendo traficados? – ele indagou e eu senti meus olhos marejarem. – Desculpe estar sendo tão duro com você, Yixing. Eu só estou querendo te mostrar que não importa o quanto você tentasse, o fim trágico aconteceria de uma maneira ou de outra. Você poderia ter fugido com a menina e depois morrido de fome, como quase morreu quando nos conhecemos. Poderia ter fugido e os outros sofreriam as consequências da fuga de vocês dois. Talvez você conseguisse montar uma rebelião e tentasse tirar todo mundo daquele lugar, mas não iria conseguir fazer com que todos saíssem vivos ou que até mesmo vocês conseguissem fugir.

-Para. – pedi enquanto começava a chorar.

-Existem vários futuros alternativos pro que você poderia ter tentado fazer, mas nenhum deles traria um final feliz. Isso não é um conto de fadas, Yixing. Eles não são amadores no ramo e sabiam muito bem o que estavam fazendo. Acha mesmo que eles nunca tiveram que lidar com uma rebelião? Que você, sozinho, conseguiria mudar o que já estava previsto? Olhe ao seu redor, perceba todas as guerras, conflitos e protestos que já existiram no mundo! Nenhum deles foi bem sucedido de cara. Foi necessário que sacrifícios acontecessem, que vidas inocentes se perdessem, que alguns fugissem, pra que a luta nunca acabasse. Você fugiu e em troca me salvou. Não estou querendo dizer que minha vida é mais importante do que a de todos os que estavam com você. Cada vida vale igualmente e se todos pensassem assim, não haveria conflitos e o mundo seria perfeito. Mas isso é uma utopia!

-PARA! – gritei. Eu não estava mais aguentando ouvir o quanto o mundo era imundo.

-Eu não posso parar! Você precisa terminar de ouvir e entender. Você me salvou e o que eu sou? Um médico rico! Eu vou me formar em algumas semanas e quando pegar o diploma, vou pra China e cuidar das pessoas que precisam. Eu não vou querer nada em troca, eu tenho condições de não pedir nada em troca. Eu vou salvar vidas, mas essas vidas poderiam ter sido jogadas foras, se você não tivesse fugido. Infelizmente, é necessário que façamos algumas escolhas, pra que outras coisas possam acontecer. Xing, não chore. – ele pediu e me puxou para seus braços.

-O mundo é muito cruel! Por que as pessoas são assim? – eu perguntava enquanto deixava meu choro livre. – Por que precisam ignorar as outras? Por que precisam machucar o próximo? Qual a necessidade de ter felicidade em ver a desgraça alheia? Por que as pessoas são assim? Por que eu precisei fugir, deixar o restante pra trás, pra poder salvar outras vidas? Por quê? - eu questionava aos prantos.-A maldade está implantada no mundo muito antes de nascermos. Não sei como começou ou o porquê de ter começado. – ele sussurrou e me apertou no abraço, começando a fazer carinho em minhas costas e cabelos. – O mundo é cruel e pessoas boas como você, acabam sentindo muito. O que podemos fazer, é ajudar e tentar mostrar que a humanidade não está completamente perdida. Não se culpe e apenas aguente mais um pouco. Vou te levar de volta pro seu país e lá nós vamos dar o nosso melhor. Você vai poder voltar pra sua faculdade e se tornar um professor, que dará aula para os necessitados. Você é um anjo, Yixing e todas as pessoas vão ser felizes por te terem ao lado delas.

-Você que é um anjo, Myeon. – sussurrei e apertei meus braços, estreitando ainda mais nosso contato. Junmyeon era meu anjo e outras pessoas iriam concordar comigo. Um anjo vestido de branco e salvador de vidas seria a luz no fim do túnel para tantas pessoas quanto foi para mim.


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1 ano depois.

-Tio Suho! Tio Suho! – ouvimos uma criança gritar.

Fazia um ano que tínhamos nos mudado para China. Por muito tempo eu tive que acompanhar Junmyeon em tudo. Ele não era fluente em mandarim e precisava entender o que os pacientes sentiam, para que pudesse salvá-los. Eu era seu tradutor, até que ele começou a conseguir se virar sozinho. Foi nesse período que eu pude voltar para faculdade.

Luhan tinha ficado maluco quando contei o que tinha acontecido e me abraçou por muito tempo. Ele quis conhecer Junmyeon e uma semana depois já estava abraçando a causa que o coreano e eu começamos. Ele seria um professor voluntário como eu. Meus dois melhores amigos tinham se tornado amigos próximos e eu não podia estar mais feliz.

Com todas as boas ações que Junmyeon tinha, ele ganhou o apelido de Suho. Suho significava guardião e eu não conseguia achar que pudesse existir um apelido melhor. Com os meses, conseguimos montar um abrigo e todo o nosso sonho começava a se tornar mais concreto. Luhan tinha conseguido mais pessoas para ser voluntário e ajudar na construção do lugar, então tudo estava bem.

A única coisa que nos incomodava, mas aprendemos a ignorar, era a impossibilidade de podermos ser realmente quem somos. A família de Junmyeon só o deixava ser voluntário e gastar o dinheiro, porque eles se gabavam da boa ação do filho e ganhavam mais fama. Suho não gostava disso, mas infelizmente não podíamos fazer nada contra ou o dinheiro seria tirado e as pessoas não poderiam continuar sendo ajudadas. Outra coisa que não conseguíamos combater era em relação ao preconceito da humanidade.

Um homem jamais poderia se relacionar com outro, por mais que ambos se amassem. Era pecado, era errado, era doentio e no final, inadmissível. Eu não podia gritar para o mundo o quanto eu amava Junmyeon e o quanto ele me amava, porque poderíamos ser mortos pela ignorância das pessoas. Infelizmente nosso relacionamento precisava ser escondido e encoberto, mas era melhor ficamos assim, do que sermos separados.

-O que houve? – Junmyeon perguntou ao ver o desespero da criança.

-Minha mãe está passando mal! – a garotinha anunciou e na mesma hora nos preparamos para segui-la.

Falar de mãe, lembrava que eu tinha uma e não sabia onde ela estava. Quando voltei para China, a primeira coisa que fiz foi procurar meus pais. A casa estava vazia e sem nenhum vestígio dos dois. Os vizinhos não sabiam me informar o que tinha acontecido com meus progenitores, então eu tive que aprender a conviver com a ideia de que pudessem estar mortos. Eu gostava de pensar que eles tinham fugido.

Corremos atrás da garotinha e assim que chegamos à casa que ela vivia, fui tomado pela realidade novamente. Não importava o tempo que eu estivesse com Suho, eu sempre me abalaria perante a realidade de vida de muitas pessoas. Apesar da humanidade ser suja e egoísta, pessoas como Suho existiam.

Meu namorado secreto correu para acudir a mulher e eu fiquei em pé, tentando acalmar a criança. Era mais um dia normal em nossas vidas. Era uma normalidade que tentávamos combater da melhor maneira que podíamos.

A sujeira do mundo não seria apagada de uma hora para outra. Todos os problemas sociais continuariam sendo ignorados por muitas pessoas, desde que não os afetasse. Eu não sabia que fim tiveram os passageiros que eu tinha deixado para trás. Eu rezava todos os dias e implorava para que estivessem bem ou que encontrassem pessoas como o Junmyeon, que ajudava sem ver a quem.

O mundo permaneceria cruel e eu não poderia mudá-lo de repente, mas eu pretendia ajudar da melhor maneira que pudesse. Queria ser o anjo que Suho foi em minha vida, queria que as pessoas pudessem estar cientes que o mundo não estava tão perdido assim. Como Junmyeon me dissera uma vez: revoluções e guerras não mudaram o mundo em um ano, apenas deixaram o caminho aberto para que outros continuassem com seus ideais.

Eu permaneceria com o meu, Suho permaneceria com o dele. Juntos, iríamos procurar pessoas que pudessem dar seguimento a nossa causa. Problemas sociais não podiam ser ignorados por todos e eu pretendia encontrar quem quisesse combatê-los.

Fui traficado, quase abusado, corri risco de morrer de fome, conheci a miséria e descobri que o mundo não era perfeito. A realidade bateu em minha cara e me nocauteou, mas eu tive um bom doutor que me curou. Ele tinha tentado se matar e eu o salvei. Ele dizia que eu era seu anjo, mas eu acreditava que ele que era o meu. Estávamos juntos e dispostos a nos tornar anjos de outras pessoas. A realidade bateu em minha porta por uma causa: Eu deveria mudar e enxergar tudo ao meu redor.

Eu enxergava.

Eu ajudava.

Eu lutava.

O mundo era corrupto, mas enquanto existissem pessoas que lutassem contra isso, eu não desistiria de ajudar. Não desistiria de viver.



12 de Junio de 2019 a las 21:53 0 Reporte Insertar 2
Fin

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