O Boneco de Neve Seguir historia

hunterprirosen HunterPri Rosen

Em busca de tranquilidade para escrever o seu próximo livro, Elise se muda para um pacato vilarejo. Mas ao invés de ser recepcionada pelos moradores do lugar, a escritora se vê diante de um estranho boneco de neve que parece, simplesmente, ter surgido do nada.


Suspenso/Misterio No para niños menores de 13. © Todos os direitos reservados

#inverno #neve # #terror
Cuento corto
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Capítulo Único

A neve que vem caindo há alguns dias se acumula pelo pacato vilarejo para onde Elise decidiu se mudar. Ruas estreitas, copas de pinheiros, telhados e beirais cobertos pela coloração branca contrastam com o céu ligeiramente escuro que o fim de tarde anuncia. Uma fina camada de neve também pode ser vista sobre a caminhonete que ela dirigiu até ali.

A última caixa de papelão, que retirou do carro há pouco, treme nos braços da jovem escritora por um momento. Livros amontoados em seu interior balançam, provocando um ruído seco que compete com o zumbido ululante do vento ao redor. Com o coração congelado — não pelo frio, mas sim pelo medo repentino —, Elise tenta se recuperar de um susto. Acabou de ver uma figura igualmente branca ao lado da sua nova casa. Um boneco de neve.

Confusa, ela olha para as outras residências do vilarejo. Todas silenciosas, portas fechadas e com cortinas escuras nas janelas. Se não tivesse ido até ali há cerca de duas semanas, para conhecer a casa com um corretor de imóveis, diria que se trata de um povoado fantasma. Mas é claro que a onda de frio apenas fez os moradores se isolarem do mundo exterior. É a única explicação que passa por sua cabeça agora.

Mesmo assim, Elise observa as ruas desertas por mais um tempo. Com certa teimosia, procura por alguma criança ou talvez um grupo delas que possa ter construído aquele boneco de neve tão rápido. Intrigada, vê-se completamente sozinha em meio a nevasca que aumenta a cada instante.

O mais estranho é que ela não se lembra de ter visto aquela figura antes, apesar de ter feito o caminho caminhonete e casa, casa e caminhonete várias vezes. Chegou ali abarrotada de coisas no começo da tarde e agora percebe que ninguém apareceu desde então.

O fato do boneco de neve não ter ganhado olhos, boca, nariz ou o clássico cachecol a deixa mais pensativa. Geralmente, é o que as crianças mais gostam de colocar neles. Esse, no entanto, possui apenas uma cabeça meio achatada sobre a base corporal robusta e dois galhos secos simulando braços. Braços enegrecidos e escancarados que se movimentam com suavidade conforme o vento passa por eles. Braços que parecem querer alcançá-la. Como se fossem capazes de apertá-la num abraço glacial se quisessem.

Elise está bem mais do que intrigada agora. Ela sente algo de bizarro na imagem adiante. Quase como se um mistério maior emanasse dali. Quase como se o boneco de neve não fosse apenas uma forma inanimada. Ele não parece incompleto, ele parece... diferente de alguma forma que ela não entende.

Talvez o fato de Elise escrever histórias de suspense e coletâneas de terror, talvez o cenário silencioso e extremamente frio a sua volta ou talvez a junção das duas coisas tenha deixado sua mente suscetível a acreditar no sobrenatural por um momento.

Sentindo-se muito idiota por isso, Elise respira fundo e obriga seu corpo a voltar a se mexer. Apressada, caminha a passos largos rumo à varanda. Ainda impressionada com o boneco de neve que parece ter brotado ali de uma hora para a outra, vira o rosto para não o ver enquanto os degraus de madeira rangem sob as botas pesadas.

Elise empurra a porta com o próprio corpo, entra depressa e a fecha com um chute desengonçado por causa do peso extra e do medo vergonhoso. Só então solta a respiração presa em sua garganta.

Com as costas apoiadas na porta, uma risada nervosa vence o pânico momentâneo e ela recrimina a si mesma:

— Patética.

Seu coração, entretanto, segue impressionado. Acuado pelo temor irracional que ainda o espreita, bate cada vez mais fora de ritmo.

E mais uma vez, Elise ordena que suas pernas se movam. Consegue dar alguns passos pela sala repleta de caixas empilhadas e coloca a última delas no chão. Levanta-se devagar, tentando convencer a si mesma que algum vizinho fez o maldito boneco de neve para lhe pregar um susto. Uma maneira nada gentil de desejar boas-vindas. Com certeza, uma criança ou adolescente desocupados. Com certeza, aproveitando-se de um momento de distração dela.

Mas que momento teria sido esse?

Mesmo as mãos mais ágeis teriam levado no mínimo dez minutos para reunir aquela quantidade de neve e moldá-la daquele jeito. Acontece que Elise levou menos de um minuto entre a caminhonete e a casa a cada vez que fez o trajeto, e não viu nenhum movimento suspeito enquanto isso.

Se um grupo de crianças estivesse envolvido, alguma delas teria chamado sua atenção. Elise teria visto o progresso da construção. Teria visto alguma coisa. Teria visto qualquer coisa. Ouvido passos ou risadas. Ouvido qualquer coisa.

Tudo que Elise se lembra é que não notou nenhum boneco de neve das outras vezes que foi buscar os seus pertences na traseira do carro. E ele era estranho e chamativo o bastante para ter sido notado. Se estivesse ali antes, ela com certeza teria o visto.

— Para com isso — ordena a si mesma, fechando os olhos e pressionando as pálpebras com a ponta dos dedos.

Quando abre os olhos de novo, Elise se convence que só está cansada. Exausta da viagem até ali e de carregar caixas e mais caixas pesadas. O preço a ser pago por um pouco de sossego para escrever o próximo livro.

Essa certeza cai por terra e um novo susto sacode os ombros da escritora quando ela olha de relance para uma das janelas. A janela que mostra justamente o lado da residência onde o inexplicável boneco de neve foi visto pela primeira vez. Há pouco. Só que ele não está mais lá.

Elise pisca e estreita o olhar, na esperança de que o anoitecer que começa a se estender lá fora esteja impedindo que ela enxergue com clareza. Não parece ser isso, no entanto.

Buscando uma explicação, ela caminha devagar. Cada passo rumo à janela causa uma nova palpitação em seu pulso. Elise engole em seco e, com as mãos enluvadas, alcança o parapeito.

Atônita, afasta-se segundos depois de espiar pelo vidro. Incapaz de responder aonde o boneco de neve foi parar, ela cambaleia com passos trôpegos para trás. Grita quando seu corpo se choca com algo rígido. É tomada por alívio quando se vira e percebe que esbarrou apenas em uma das pilhas de caixas da mudança.

Elise não sabe o que pensar, apenas sente que tem algo errado ali. O boneco não foi destruído; nesse caso, ela teria visto um amontado de neve espalhado pelo quintal. Se alguém tivesse conseguido movê-lo de lugar com alguma engenhosidade, também haveria rastros.

Com raiva, Elise é tomada por um impulso e caminha rumo à saída da casa. Abre a porta e sente o inverno envolver seu corpo com um frio ainda mais rigoroso. O vento açoita e bagunça as mechas de cabelo que o gorro não cobre por completo. É incrível como a temperatura abaixou tanto em tão pouco tempo. É perturbador como, de repente, o inverno lhe parece tão sinistro. Não charmoso, não aconchegante, mas sinistro.

Esse sentimento, o frio e a ventania mais fortes quase fazem a escritora fechar a porta e se abrigar de novo. Quase. A curiosidade é maior, mascara o medo e levam Elise para o quintal. Ela praticamente marcha rumo à lateral da casa. Mas estanca o passo e leva a mão à boca para conter um grito de surpresa ao chegar lá.

Não, o boneco de neve não está de volta, não se materializou de uma forma misteriosa no mesmo lugar. O novo susto é porque agora Elise percebe que há sim rastros pelo chão. Nada parecido com passos. Ainda assim, rastros. São finos. Duas linhas tortas rumo aos fundos da casa. Desenhos que galhos poderiam provocar na neve facilmente. Ou garras.

Um arrepio percorre seu corpo enquanto ela olha adiante e toma uma decisão. Se o boneco de neve se movimentou de alguma forma, se foi arrastado de algum jeito por alguém que não deixou passos impressos naquele chão gelado e branco, ela quer entender como. Quer descobrir aonde ele ou eles estão agora.

O primeiro passo é difícil. Os próximos saem arrastados e incertos. Aos poucos, ela trilha seu próprio caminho pela neve. Respira com dificuldade ao chegar aos fundos da residência. Hesita por um longo instante antes de conseguir se mexer de novo. E não sabe se sente alívio ou pavor quando não encontra o boneco ali atrás também.

Com passos lentos, Elise segue o percurso, olhando ora para o chão ora para o vilarejo em volta. Sempre em frente e aflita por não saber o que vai encontrar. O silêncio só é cortado pelo som do vento e dos batimentos cardíacos em seus ouvidos. A respiração fica cada vez mais irregular.

Agarrando-se a uma coragem que desconhecia, Elise finalmente vira no entorno da casa. Lança o olhar para a lateral oposta daquela onde o boneco de neve apareceu antes. Seu coração oscila quando ela não o encontra em parte alguma.

Aos poucos, a escritora se acalma e repete a si mesma que tudo deve ter sido uma brincadeira de mau gosto de algum vizinho. O melhor que faz agora é esquecer o assunto, não perder mais tempo e começar a arrumação na casa nova.

Dane-se que o boneco desapareceu. Ela não pode alimentar um medo bobo desses. Era só um maldito boneco de neve. Seja lá aonde tiver ido parar, é apenas isso: neve.

Pensando assim, a jovem contorna o restante daquele lado da casa, logo acessa a varanda e volta para o interior do seu lar doce lar.

Antes de escolher a primeira caixa a ser esvaziada, fecha uma das janelas da sala que estava aberta até então. Depois, abre uma garrafa de vinho tinto na cozinha, onde caixas com alimentos, bebidas e utensílios disputam espaço sobre um balcão americano. Nele, Elise corta algumas lascas de queijo para acompanhar o Malbec.

De volta à sala, seleciona sua playlist preferida no celular e perde as contas de quantas vezes seguidas ouve Little Bitty Pretty One no último volume enquanto começa a arrumação de fato.

[...]

O restante do dia passa rápido e, apesar dos progressos, ainda há muito para guardar e arrumar nos armários, estantes e no dormitório de Elise quando a noite cai.

Exausta, ela decide terminar no dia seguinte e sobe para o andar superior da aconchegante e agora silenciosa casa. Devagar, livra-se das roupas pesadas enquanto enche a banheira. Uma leve e convidativa fumaça emana da água quente na qual ela mergulha instantes depois.

Após o merecido e demorado banho, Elise veste um pijama flanelado, apaga todas as luzes e se enfurna debaixo de um grosso cobertor. Fecha os olhos e permanece imóvel na cama, recapitulando os eventos do dia, a jornada até aquele vilarejo, quantas coisas já arrumou e quantas ainda há para ajeitar.

É durante esse momento de reflexão que uma possibilidade cutuca sua mente e a assombra. Imaginar que possa ser mais do que um palpite paranoico faz o seu coração dar um salto pesado. Em pânico novamente, Elise abre os olhos. Eles estão arregalados quando ela se senta na cama, envolta pela escuridão do quarto.

A janela da sala. Aquela janela que estava aberta quando ela saiu para desvendar o mistério do boneco de neve e que fechou ao voltar sem qualquer resposta para o enigma. Aquela janela poderia muito bem ter servido de passagem para...

Antes que conclua o terrível pensamento, Elise passa as mãos pelo rosto, balança a cabeça em negação e torna a se deitar.

Sentindo-se idiota por imaginar que o boneco de neve entrou na casa de alguma forma, ela faz um esforço para esvaziar a cabeça e alcançar o sono que apagará qualquer outra hipótese maluca.

O trabalho como escritora pode ter atiçado sua imaginação, mas ela se considera grandinha demais para acreditar que monstros realmente existam.

Um ruído que parece vir da entrada do quarto a faz abrir os olhos de novo e questionar o último pensamento. Talvez monstros existam. Talvez se escondam nas sombras. Ou na neve. Talvez um deles esteja atrás da porta nesse exato momento. Espreitando-a.

Na penumbra, a escritora ouve algo arranhando a soleira e se senta na cama de súbito. A temperatura do ambiente vai baixando de forma brusca. O quarto fica cada vez mais gelado em questão de segundos. A respiração de Elise, ofegante. Seu coração, apertado por um peso doloroso. O medo irrompe numa gota de suor que escorre por sua nuca.

De repente, a porta se abre com um pavoroso rangido e uma silhueta esbranquiçada consegue se destacar apesar da escuridão. Elise fica completamente paralisada. Simplesmente não consegue acreditar no que está vendo. Tampouco reagir enquanto observa os galhos enegrecidos riscarem o assoalho, conforme o boneco de neve rasteja até ela.

Os galhos... são braços. Não, são como patas. Esticam-se e se contorcem planejando alcançá-la logo. Sedentos por envolvê-la com aquele abraço glacial que Elise imaginou horas mais cedo.

Quando o torpor perde um pouco de força, Elise finalmente reage. Porém, atrapalhada pelo medo e pelo pesado cobertor, sente seu corpo atingir o chão em cheio.

Ela ergue a cabeça e grita. O boneco de neve está cada vez mais perto agora. É inacreditável como se move rápido, quase como se o medo que desperta nela servisse de combustível.

Elise tenta se levantar. Em vão. Um novo grito. Um dos galhos alcançou seu cabelo. Dedos sobrenaturais agarram as mechas com força e não soltam. Trazem o rosto da jovem para junto de si. Para junto de um frio aterrador e de outro mundo.

Apesar de ter achado estranho que o boneco de neve não tivesse olhos, nariz ou boca quando o viu lá fora, é com um pânico arrebatador que Elise percebe que cometeu um terrível engano. Na verdade, a criatura possui boca sim, apenas estava escondida antes. Também possui dentes. Duas fileiras grossas e serrilhadas envoltas em saliva.

Dentes famintos que a neve um tanto derretida na cabeça achatada revelou. Dentes que se refletem nos olhos arregalados da escritora que jamais contará essa história. Dentes que sorriem para ela, assim como sorriram para os outros moradores daquele vilarejo até chegar ali.

Foi a última coisa que todos eles viram. O sorriso gélido e branco, como o inverno. Pouco antes de tudo ficar pegajoso e rubro, como a morte.

12 de Junio de 2019 a las 14:22 0 Reporte Insertar 1
Fin

Conoce al autor

HunterPri Rosen You know who I am. Oi? Caçula de três irmãs, apaixonada por dogs, lufana. Sou Hunter, Whovian, Grimmster, fã de Friends e de mais uma pá de séries. Adoro filmes de suspense, terror sobrenatural e clássicos de ação. AMO livros e fan(fictions) de vários gêneros.

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