Cuento corto
0
3.5mil VISITAS
Completado
tiempo de lectura
AA Compartir

Mortos Anônimos

Para muitos a morte é algo horrendo que só aparece no dia do abate, mas para mim foi completamente diferente. Ela tinha nome, endereço e até uma boa aparência. Meu nome é Miguel e para você entender tudo isso tenho que voltar no dia seis de novembro, quando tudo começou.

Aquele dia acordei bem cedo, como de costume. Ainda tinha neblina que se dissipava lentamente com a chegada do sol, fiz minha caminhada na esteira e os exercícios matinais. Um dia que tinha tudo para ser normal, mas que começou a ficar diferente com a chegada do caminhão de mudanças que estacionou em frente a casa da esquina. Achei que poderia ser mais um vizinho chato, daqueles que reclamam de tudo, igual os que reclamavam direto dos meus cachorros. Ainda estava com a roupa que faço os exercícios todos os dias de manhã, então decidi fazer uma caminhada e passar pela casa, como quem não quer nada e quem sabe descobrir quem são os novos moradores.

Passei em frente e dei a volta pelo quarteirão para voltar e passar novamente pela casa. Quando voltei, já tinham tirado a placa de vende-se que estava no gramado há algumas semanas. Chegando mais perto, comecei a conversar com o pessoal responsável por descarregar todos os móveis e caixas daquele enorme caminhão. Ao ganhar mais confiança, perguntei quem era o novo morador, eles não precisaram nem responder, um carro parou na entrada da garagem. Quem dirigia o carro importado era uma moça, que no primeiro segundo que a vi, considerei a mais linda do bairro. Era linda, elegante e simpática.

Não queria chegar para dar as boas vindas vestido assim e de mãos abanando, então, no outro dia, comprei uma torta de maçã, típica da cidade e da melhor confeitaria da região. Fui até a casa da nova moradora, bati na porta e logo atendeu. Dei as boas vindas e entreguei a torta.

Seu nome era Fernanda, me convidou para entrar se desculpou pela bagunça e conversamos por alguns minutos. Vi a oportunidade de conhecê-la melhor quando disse que não conhecia a cidade, então, me ofereci para ser o guia turístico e levá-la aos pontos turísticos da cidade. Aceitou a minha humilde oferta dizendo para ir buscá-la no dia seguinte, ao anoitecer.

Como ela pediu, assim que anoiteceu caminhei até a porte de sua casa, toquei a campainha e Fernanda gritou para eu entrar. Entrei e logo apareceu dizendo que estava quase terminando de se vestir. Me serviu uma taça de vinho que trouxe da cozinha e pediu para que bebesse enquanto a esperava. Tomava o vinho e admirava a beleza daquela casa, de repente fiquei zonzo e caí. Não me recordo de nada que aconteceu nas horas seguintes ou até mesmo dias seguintes, mas sei, que quando acordei estava acorrentado, me debatia, pensei que estava sonhando. Não estava conseguindo nem enxergar direito, como se fosse efeito de drogas.

Ouvi o barulho de uma porta velha abrir, mas conseguia apenas ver alguns vultos, alguém se aproximava de mim. Comecei a gritar perguntando o que estava acontecendo, porém não obtive resposta alguma, depois de um tempo em silêncio, uma voz que parecia ser feminina, disse que os próximos dois dias eram os últimos da minha vida. Assustado comecei a me debater novamente, achando que tudo era uma brincadeira de mal gosto, gritei até minha voz começar a falhar, foi quando percebi que era inútil. Minha vida estava cronometrada.

Não tinha noção nenhuma de tempo, não sei nem mesmo quantos dias passei naquele lugar. O tempo que passei acorrentado como animal fui torturado. Passando os dois dias que ela havia prometido e uma eternidade para mim, caminhou até o meu lado, eu conseguia sentir a respiração ofegante, meus pensamentos estavam perturbados pelas drogas que injetava em mim a cada hora e mal sabia o que estava sentindo. Não disse nada, apenas soltou uma gargalhada que me estremeceu e minha única reação, foi perguntar o porque de tudo isso.

Quando deu dois passos para trás, achei que iria desistir de fazer o que estava determinada a cumprir. Olhou bem nos meus olhos com a expressão facial de uma psicopata e respondeu que fazia tudo isso por prazer. Seu sonho, era ser médica, mas nunca foi aprovada na faculdade de medicina. Disse que o seu sonho de fazer cirurgias não se realizou, então, fez sua própria clínica clandestina. Foi assim que conseguiu todos aqueles órgãos expostos a minha volta.

Teve a capacidade de olhar nos meus olhos e me chamar de cobaia, pois venderia meu coração e fígado no mercado negro. Meus olhos serviriam para sua própria coleção e o resto era para estudo e aprimoramento de seus conhecimentos. Parecia mais um monstro que negociava órgãos roubados no mercado negro, bem sucedida em seus negócios e eu? Não era nada mais que apenas um homem morto.

Não conseguia acreditar que aquela bela moça, que vi descer do carro sorrindo era o monstro que estava em minha frente. Gritei pedindo clemência, tentando tirar de seu coração frio e obscuro um sentimento de remorso, mas fui torturado até a morte. Sem dó e muito menos piedade.

Dizem que quando estamos prestes a morrer vemos um filme em nossa cabeça, mostrando tudo o que fizemos em vida. Isso é mentira! Lamento dizer isso, mas se acham que antes de morrer terá uma sessão de cinema com você estrelando, estão enganados! Não terão direito nem a pipoca. Acredite em mim, eu que estou morto e sei muito bem o que passei.

- É isso!!!

- Obrigado Miguel por compartilhar com a gente tudo o que você passou e o que gostaria de falar para as pessoas que ama e estão vivas. Sinto muito orgulho de todos vocês! Estão superando suas mortes trágicas e seguindo em frente. Lembrando que, semana que vem teremos nossa confraternização em comemoração a uma nova faze do nosso grupo "Mortos Anônimos" juntamente com o grupo "Amigos do Além". Nada de recaída e ir assombrar os responsáveis de suas mortes, isso pode ser ruim para vocês. Até semana que vem.



´´A morte e a vida estão entrelaçadas.

Sabemos que vamos viver e morrer,

mas pior que isso é morrer sem viver.

Temos uma vida para amar e odiamos,

Temos uma vida para viver e morremos.

Só encontramos vontade de viver e amar,

quando ficamos cara a cara com a morte.

No fim, nos restam apenas memórias e lembranças

Entre a vida e morte.``

27 de Mayo de 2019 a las 21:22 0 Reporte Insertar 119
Fin

Conoce al autor

Diego Lima Expresse o que sente e irá entender o que vive.

Comenta algo

Publica!
No hay comentarios aún. ¡Conviértete en el primero en decir algo!
~