O Chamado de Nephilim Seguir historia

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Uma série de eventos, diretamente saída de filmes e noveletas pulp, que a ciência humana não consegue explicar... Misteriosamente, em várias partes do mundo, mulheres crescem até centenas de metros de altura. Ninguém consegue explicar direito como isso é possível, embora surjam teorias da mais plausível à mais absurda. Eis que, subitamente, as relações de gênero e poder que perduraram por milênios são completamente invertidas. Essas mulheres ouviram o Chamado de Nephilim.


Ciencia ficción No para niños menores de 13.

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Cuento corto
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Capítulo Único

O Chamado de Nephilim


Dedicado aos prolíferos anos 1950.


I


Ela recobrou os sentidos. Porém não fazia ideia do que lhe acontecera.

Seus olhos se abriram lentamente, sentindo-se incomodados pela luz solar. Céu azul claro, nuvens nele flutuando lentamente. Num devaneio de sua mente atordoada, achou-se capaz de alcançá-las erguendo a mão — coisa que logo imaginou não passar de efeito do baque que sofrera. Sua cabeça zunia, a audição praticamente anulada por uma persistente vibração junto a seus ouvidos, a qual por um momento deu a entender que esmigalharia todo o seu crânio. Seus ossos latejavam, mas não era bem dor... era como se fervessem, esquentando sua carne por dentro. E vastas seções de seu corpo encontravam-se dormentes, tornando-o incapaz de mover os membros.

Droga!, imaginou. Hoje definitivamente não é meu dia!

Abigail não podia afirmar nem mesmo que seus últimos anos vinham sendo favoráveis. Ao todo ela contabilizava vinte e sete, estando divorciada de um antigo amigo de infância com o qual se casara aos dezenove. Aquele que jurara amá-la para sempre... e que começara a traí-la com uma mulher da vizinhança logo nos primeiros meses da união. A iludida esposa levara um bom tempo para descobrir — mas quando o fizera, o desquite ocorrera de forma praticamente imediata... com o infeliz indo morar zombeteiro junto da amante. Abigail então se mudara, almejando iniciar nova vida na cidade grande. Pôde terminar a faculdade, e agora trabalhava como secretária numa próspera empresa de informática. Parecia sina, porém, que homens de más intenções surgissem como obstáculos em sua vida. E era com incrível constrangimento que a jovem vinha constatando, desde algumas semanas antes, estar sendo assediada por seu chefe, um velho burocrata de terno e gravata trazido ao ramo pelos filhos e que nada almejava na carreira além de enriquecer às custas do trabalho — e dignidade — de seus funcionários.

Ela levou uma das mãos à testa, seu estômago revirando. Os cabelos castanhos claros encontravam-se empapados de suor. Achou que botaria para fora o café da manhã; porém constatou, para seu alívio, que as prévias memórias daquele dia começavam a retomar nitidez em seus pensamentos. Decidira, ao sair de casa para trabalhar horas antes, que denunciaria seu chefe à diretoria da empresa, não importando as consequências. Ainda que fosse demitida, sairia daquele emprego de cabeça erguida. Mas, quando se dirigia à sede da corporação no centro da metrópole para cumprir com o desejo de sua consciência, a terra pareceu tremer, tudo girou, o corpo aparentou levar um forte choque elétrico... e ela apagara por tempo no mínimo considerável, ao que aparentava.

A expressão "sair de cabeça erguida" a fez constatar que estava deitada: fato que ignorara até então. Zonza, sua visão sem quase nenhum foco, ergueu o tronco... colocando-se sentada sobre uma superfície dura, morna. Tateou-a com as mãos, constatando também ser áspera. Perguntou-se mais uma vez onde estava, e quando forçou as pernas que aos poucos recobravam firmeza para se levantar... não conseguiu. Seu corpo, de alguma forma, via-se preso entre duas outras superfícies sólidas, verticais, uma de cada lado de seu tórax. Como duas paredes querendo esmagá-la — e por sorte Abigail percebeu que elas não estavam se dirigindo uma de encontro à outra. O espaço era pouco, mas não se tornaria pior.

Sentiu falta de ar, seus pulmões queimando. O zunido persistia em seus ouvidos, privando-a ainda de ouvir. Agitada, lançou as mãos sobre o par de barreiras, procurando nelas identificar algo familiar — já que seus olhos ainda não contribuíam muito para isso. A primeira era bem lisa e fria, parecendo compor inteira um só segmento contínuo. Lembrava vidro, e provavelmente o era. Já a outra, remetendo a concreto, possuía uma série de reentrâncias, que Abigail explorou bem com a pele dos dedos. Aparentavam ter todas dimensões similares, como se fossem pequenos retângulos escavados na parede, e estarem próximas umas das outras. Mordendo os lábios, a moça teve a esperança de que uma delas compusesse abertura levando a uma saída, ou então uma alavanca, uma maçaneta... mas nada encontrou além de pequenos orifícios que a nada pareciam levar, enquanto algumas outras daquelas saliências lembravam a textura da primeira parede.

Suspirou profundamente, começando a se desesperar. Ao menos não era acometida de dor, o que poderia significar duas coisas: ou realmente não se ferira no que quer que houvesse acontecido; ou se ferira de forma tão grave que nem mesmo sentia os machucados, a vida aos poucos deixando seu corpo. Torceu pela primeira opção, imaginando o que teria acontecido durante o sempre tranquilo caminho até o trabalho. Ela conseguia se recordar de uma espécie de tremor... seria um terremoto, assim como o que ocorrera no Japão meses antes? Não, abalos sísmicos nunca haviam sido detectados naquela parte do continente, sendo bem pouco provável que do nada fizessem sua estreia. Um atentado terrorista na rua, com algum tipo de explosão ou coisa similar? Abigail, antes de perder a consciência, jurava ter ouvido algo como gritos... estando talvez, agora, presa entre pedaços desabados de um prédio ou destroços de automóvel. Tinha de recobrar logo a visão. Só ela revelaria ao certo o que exatamente acontecera.

Procurando manter a mente ativa com o temor de que ela acabasse se desligando de vez, a aturdida secretária tentou se recordar de algo daquela manhã que pudesse de alguma forma ter remetido a uma tragédia. Era clássico em filmes-catástrofe que os personagens sempre ignorassem alguma notícia que poderia ter salvado suas vidas — e ela não desejava ter cometido o mesmo erro. Uma das poucas coisas em que conseguiu pensar foi o estranho vídeo que circulava na Internet desde o dia anterior, no qual um cinegrafista amador da cidadezinha de Nancy, Kentucky, EUA, havia gravado a estranha explosão de uma casa de madeira por dentro — sem chamas. O curto filme terminava antes que a causa da destruição pudesse ser revelada, sendo intitulado somente como The end is coming; e, como não poderia deixar de ser, sendo amplamente acusado online de não passar de uma fraude.

Recuando mais no tempo, Abigail recordou-se de algo mais... Semanas antes, cientistas revelaram que um telescópio espacial da NASA, fotografando e processando imagens da constelação de Virgem, havia detectado estranhas explosões, como erupções vulcânicas, num planeta gasoso situado junto à estrela anã Virginis 61. Isso seria normal num mundo instável como aquele... se os cientistas não houvessem detectado um estranho padrão no fenômeno, como se criado artificialmente... indicando que algo decolava. Não fazia ideia da razão de seu cérebro ter guardado a informação tão precisa do nome do planeta; mas logo se lembrou de que, divagando diante da TV como sempre fazia depois do trabalho, associou o número com o ano de nascimento da mãe e o nome com seu signo – Virgem. Desde pequena Abigail era uma pessoa presa a tais pequenos detalhes do cotidiano, como se lhe pudessem ser úteis no futuro... para um palpite na loteria ou o endereço de uma conta nova de e-mail, por exemplo.

Mais à frente no tempo, um ou dois dias atrás, lembrava-se também de algo na TV sobre astrônomos estarem alarmados com uma estranha irradiação de ondas eletromagnéticas provindo de uma misteriosa fonte de massa invisível orbitando em torno da Lua – nada que os físicos pudessem explicar, ainda que sites sensacionalistas já alegassem ser um buraco negro, mesmo sem ter as características de um. Abigail não dera qualquer importância ao fato, visto que todo ano cientistas falavam num asteroide a caminho da Terra ou em explosões solares que poderiam engolir nosso planeta... mas agora, caída na rua em meio ao que pareciam ser destroços de prédios, seus pensamentos haviam assumido tom assustadoramente apocalíptico.

A jovem imaginou se a tal irradiação eletromagnética e a explosão no Kentucky possuíam alguma ligação entre si... quando lembrou-se de mais uma notícia bizarra, divulgada no telejornal daquela exata manhã, antes de sair para o emprego: um homem fora encontrado morto sem explicação no interior da Inglaterra. As circunstâncias eram um tanto bizarras: o corpo do indivíduo encontrava-se esmagado sob o peso de um enorme silo de grãos... que de alguma forma foi arrancado, como que por um tornado, da fazenda que possuía — a bons quilômetros de distância da área. A única parenta viva do falecido, sua esposa — a qual, como se descobrira, há anos era vítima de maus tratos — não fora ainda localizada.

Devaneios iam e vinham, e a secretária viu que seus olhos recuperavam o foco. Ótimo: o enigma se aproximava de um término. Apoiou a mão direita sobre a parede que lembrava vidro, curvando o tronco como podia em meio ao espaço estreito. Esfregou as pupilas com a outra mão... e finalmente pôde ver com clareza, deparando-se com seu reflexo bem diante de si. A parede era feita de material espelhado, uma placa composta por pequenas partes menores e simétricas que, unidas, refletiam a confusa expressão de Abigail. Antes que pudesse soltar uma exclamação quanto a aquilo — entendendo menos ainda a situação — sua capacidade auditiva também voltou à normalidade...

Ouviu gritos, como antes, carregados de medo e espanto, mas algo estava esquisito. Os berros eram um tanto baixos e distantes, como ecos que se afastavam mais a cada segundo. Em seguida, para seu incômodo, o irritante som de um alarme semelhante ao de um carro invadiu os arredores, parecendo prover, de alguma forma, exatamente de onde se encontrava. Ainda com seus movimentos limitados, incapaz de erguer a cabeça acima do par de paredes, Abigail julgou que pessoas fugiam dali e apressou-se em também tentar se levantar e correr da eventual ameaça que se manifestava... quando, ao olhar para sua esquerda, na direção da superfície de reentrâncias que antes tateara, seu coração quase parou.

O suposto muro de orifícios pequenos retangulares era... a parede de um prédio. Bem, será que ela poderia chamar de prédio uma reduzida estrutura de alvenaria, portas e janelas do tamanho do armário de sua cozinha? E as tais saliências eram janelas... sendo que, através de algumas delas, pequenos seres a fitavam com semblantes apavorados... pessoas menores que bonecos "Playmobil".

Abigail olhou melhor ao redor... e compreendeu. Não, não era ela quem se acidentara e agora as demais pessoas a deixavam para trás. Ela era a ameaça.

A primeira reação foi tentar compreender seu estado naquela situação. Nenhum ferimento, conferia. Suas roupas de trabalho estavam intactas: blusa branca de babado e botões, saia preta, meias, sapatos de salto alto... bem, nem tudo intacto, na verdade: havia um rasgo na saia, e a jovem giganta logo percebeu que o estrago fora por certo causado por um afiado mastro de bandeira na fachada de um colégio próximo. Sua pele não fora ferida, felizmente. Atordoada, Abigail mais uma vez procurou colocar-se de pé, agitando as pernas pelo vão que a continha — agora identificado como sendo uma rua; as paredes que a prendiam, as fachadas dos prédios vizinhos. Conseguiu apenas lançar longe um hidrante com o salto de um de seus calçados, água jorrando e molhando seus desajeitados pés, quando esticou uma perna.

Será que pode piorar? – ela pensou, contendo-se para não chorar de raiva ou frustração. Do jeito que estava, teve a lúdica ideia de que suas lágrimas causariam uma inundação...

Não podia perder o controle. Tornando a se sentar no limitado espaço, tentou se acalmar. Ao retrair as pernas para junto do corpo, acabou arrastando com os sapatos os restos de uma motocicleta que destruíra sem sequer perceber, sentindo-se como se houvesse acabado de quebrar uma miniatura extremamente fiel e cara. Respirou fundo, mas o insistente alarme do carro não a deixava pensar com clareza. Foi quando resolveu levar uma das mãos para debaixo de si, desconfiada... retirando pela ponta dos dedos um Sedan prensado como se houvesse sido esmagado por um tanque. O alarme engasgou e por fim se silenciou. Quem diria... ela havia sentado em cima do carro do ano que há tempos pensava em comprar!

Imaginou se não estaria sonhando, algum tipo de ilusão tola, sem sentido... mas era real demais. Cabia agora compreender a situação: Abigail havia inexplicavelmente crescido junto com suas roupas, ou a cidade inteira encolhera de súbito ao seu redor?

Com uma expressão de nojo no rosto, depositou com os dedos a carcaça do carro em cima do prédio em cujas janelas vira mini-pessoas assustadas consigo, os restos retorcidos do veículo emitindo um eco metálico quando tocaram o concreto do terraço. Teve então a ideia de recuar sentada alguns metros pela rua, na esperança de com isso conseguir espaço suficiente para levantar. Arrastou a saia de costas pelo asfalto o máximo que conseguiu, seus braços apoiados nas construções ao redor — sem perceber que, com a força que exercia, pequenas rachaduras surgiam em suas fachadas. Por fim atingiu um ponto da via em que a mesma se alargava, e pôde dobrar uma das pernas... ofegando, enquanto, logo em seguida, fazia o mesmo com a outra. Não era muito de rezar, porém orava para não estragar mais nada ou ferir alguém naquele penoso exercício...

Finalmente erguida, Abigail contemplou a metrópole como nunca vira antes...

O panorama era comparável ao que podia ser visto do alto de um prédio de consideráveis andares — e, ainda que a secretária não entendesse muito de pesos e medidas, julgou ter agora mais de cinquenta metros de altura. Foi invadida por breve vertigem, acentuada pelo sol quente quase no meio do céu; o incômodo felizmente se dissipando nos segundos seguintes. Do tamanho de um arranha-céu, até o mais afastado dos subúrbios mostrava-se visível. Numa verdadeira maquete viva, pessoas minúsculas corriam por entre suas pernas, passando por seus sapatos – cada uma delas beirando as dimensões de seus saltos. Um pouco mais à frente, num cruzamento de ruas, policiais apontavam suas armas para ela, amparados atrás de suas viaturas, mas não atiravam. Na verdade, suas pequenas faces confusas demonstravam que não faziam a mínima ideia do que fazer contra aquela mulher colossal. Helicópteros da TV a circundavam, mantendo, entretanto, uma distância segura — igualmente temerosos de se aproximarem, mas não abrindo mão de imagens exclusivas.

Julgando que teria de ter extremo cuidado para caminhar dali em diante, a moça deu seu primeiro passo pela rua, o chão tremendo quando a sola de seu calçado encontrou o asfalto. O tremor de antes estava explicado. Outros assim se sucederam, gritos e sirenes se propagando com eles pela cidade. Sentiu-se como quando era mais nova, andando a pisadas calculadas pelo quarto do irmão caçula para não quebrar seus brinquedos. Dada a presente situação, agradeceu em seu íntimo pela prévia prática naquilo. E a grande Abigail, com o máximo de cautela possível, pôs-se a explorar aquele intrigante novo mundo...


II


As ditas emissoras de TV, além da Internet e outros velozes meios de comunicação modernos, já noticiavam pelo mundo o estranho fenômeno que se espelhava pelo globo com crescente intensidade. Alguns clamavam por profecias swiftianas e carrollianas — que, apesar do contexto similar, jamais haviam existido até aquele momento. Outros se apegavam a preceitos lovecraftianos, ainda que os monstros que supostamente trariam destruição ao mundo não remetessem em nada a criaturas loucamente disformes... Muito pelo contrário.

O fato era que mulheres, de modo aleatório e aparentemente por completo inexplicável, estavam crescendo pelos quatro cantos do planeta – um processo contínuo que já fizera algumas atingirem até mais de uma centena de metros de altura. Expandindo-se até o tamanho de gigantes. Criaturas até então existentes apenas na mitologia – ou melhor, mitologias, visto que as mais diversas culturas pelo mundo mencionavam, ainda que de forma breve, aqueles seres.

No Arizona, EUA, uma garçonete gigantesca, mantendo seu traje de trabalho completo até com um par de patins, trazia terror ao Monument Valley — ainda que, ao que havia sido reportado, sua única vítima fora um ex-namorado que dela tentara fugir de carro, sendo logo encurralado numa estrada e assassinado com crueldade pela vingativa moça, segundo testemunhas.

Na América Central, duas irmãs gêmeas, de origem indígena, dominaram em seu tamanho expandido um centro de operações de uma empresa multinacional de minérios que há anos explorava impiedosamente suas terras — a maioria dos funcionários ainda sendo mantidos reféns.

No Brasil, a secretária de um conhecido deputado — com a qual ele supostamente mantinha um caso — caçava agora outros representantes do legislativo pelas ruas de Brasília, verdadeira maquete projetada, após ter literalmente rasgado a fachada do prédio em que o dito parlamentar possuía um apartamento às custas do Estado.

Em Paris, uma jovem punk e homossexual, de visual característico, posava imponente junto à Torre Eiffel — da qual era agora praticamente do mesmo tamanho — após abandonar de vez a casa em que era extremamente maltratada pelos pais católicos conservadores e realizar verdadeiro manifesto na avenida Champs-Élysées.

Irã: uma senhora de burca, que se tornara gigante com o traje e tudo, vingava-se dos populares que por pouco não a haviam apedrejado por adultério... pisando em cada um deles. O governo teocrático clamava por uma jihad contra as pecadoras que com o poder de Satã alcançavam tamanho gigantesco pelo mundo... embora diante delas os homens iludidos com a manutenção de seu domínio não passassem de formigas.

Por falar em formigueiro humano, das vielas da agitada Mumbai, na Índia, emergira uma jovem gigante que ultrapassara em tamanho todas as construções circundantes bem no momento em que, encurralada por um grupo de rapazes, preparava-se aos prantos para entrar nos dados estatísticos de garotas vítimas de estupro coletivo.

No Japão, por sua vez, uma jovem universitária crescera de repente dentro da principal estação de metrô de Tóquio, em que costumava ser molestada por um grupo de rapazes, descarrilando o trem no qual os mesmos viajavam...

O consenso da população apontava para uma vingança empreendida pelo sexo feminino contra milênios de dominação pelo homem. Não eram todas as mulheres que cresciam a proporções gigantescas — na verdade, considerando o total número delas no mundo, eram bem poucas. Aquelas que haviam se transformado, todavia, demonstravam o poder de seu jugo, não havendo muito que os demais humanos, não importando o gênero, pudessem fazer contra aquele inexplicável acontecimento empreendido, aparentemente, pela própria Mãe Natureza.

Exércitos de vários países já se mobilizavam contra as gigantas que haviam manifestado atitudes hostis. Diversos governos mobilizaram equipes de cientistas para estudá-las. Em alguns locais da Terra não se conseguira chegar a um diálogo entre as mulheres transformadas e as forças legais, ocorrendo inclusive conflitos. Após esmagar um destacamento de tropas chinesas – mais precisamente uma fileira de tanques que teve de parar diante de seus pés – uma giganta de nome Fang se declarara rainha de Xangai, denunciando em outdoors – nos quais escrevia como se fossem pequenas lousas de mão usando tonéis de corante tomados de uma fábrica – o milenar machismo da cultura mandarim. No Irã, a mesma mulher condenada ao apedrejamento tirara os aiatolás do poder – apoiada por vastas parcelas da população – e agora se comprometia a supervisionar uma reforma democrática. Na Polônia, uma dona de casa irritada por tiros efetuados pela Guarda Nacional ameaçava varrer a capital Varsóvia... com uma grande vassoura que crescera junto consigo.

Quanto aos estudiosos, continuavam tentando compreender a aura fantástica que revestia aquela cadeia de eventos, procurando fornecer uma explicação lógica àquilo que até então jamais saíra das páginas de livros de ficção científica e fantasia. Apesar da variedade de teorias, algumas mais mirabolantes e outras beirando o campo do plausível, todos os cientistas compartilhavam de uma mesma opinião...

A misteriosa radiação emitida pelo objeto voador não-identificado detectado junto à Lua, dias antes, tinha algo a ver com tudo aquilo.


III


Enquanto o olhar da maioria dos humanos se encontrava focado na própria Terra, em meio aos bizarros fatos que nela tinham palco, poucos contemplavam o céu... ignorando, assim, o que em sua infinitude se desenrolava.

O grande artefato extraterrestre descoberto pelos radares humanos continuava a orbitar ao redor da Lua. Se a camuflagem invisível estivesse desativada, a forma da estrutura lembraria um molusco aquático da Terra, como uma lula ou arraia, tendo aspecto achatado e curvo em suas extremidades – sem contar a bizarra antena acima de seu centro, recurvada na ponta como uma espécie de tentáculo ou extensão que servisse para que o objeto interagisse com o mundo externo conforme nadava pelo oceano de vácuo do universo. A questão era que a nave – ou seja lá o que fosse, visto que mais lembrava um ser vivo – era mais ou menos do tamanho da Cidade do México. Mas para seus — ou melhor, "suas" — ocupantes, que em escala terráquea tinham cerca de cinquenta metros de altura corporal, o espaço não era lá tão grande assim. Suficiente, ao menos, para compor uma nave média de comando, com poucas tripulantes.

A Anshargal finalmente concluía sua viagem de muitos anos-luz até aquele mundo remoto nos confins da Via Láctea – vinda do planeta que os terráqueos, em sua limitada ciência, acreditavam ser apenas um mundo gasoso desabitado girando em torno da estrela "Virginis 61". O fato de a espécie daquelas viajantes ser composta somente por entidades imortais favorecia às suas representantes gastarem o tempo que julgassem necessário em suas jornadas pelo universo; ainda assim aproveitando-se das dobras cósmicas, os "buracos de minhoca", para deslocaram-se com bastante rapidez quando julgavam necessário.

Vivendo há milhões de anos, as Nephilim, como haviam sido batizadas na Terra pelas criaturas humanoides que geraram, acumulavam incrível quantidade de sabedoria e conhecimento. Mas, quando a fúria daquelas grandes mães que haviam gerado inúmeras raças em inúmeros mundos recaía sobre algum grupo de seus filhos, não havia alguém que a conseguisse conter.

Os estreitos corredores da nave eram iluminados por algo como tubulações em suas paredes que, curvadas e ramificadas de modo a remeter talvez a algum tipo de escrita milenar, conduziam o fluído luminescente que alimentava o reator a fusão do transporte. Por uma dessas passagens, uma extraterrestre de familiares características humanas — excetuando-se os membros mais longos e o tom da pele transitando entre o bege e o vermelho — caminhava rumo a uma porta de metal brilhante. Corpo totalmente coberto por uma veste semelhante a um sobretudo negro, mantinha somente os compridos e lisos cabelos esverdeados à mostra além do rosto. Perfeito espécime do povo Nephilim, levou os dedos da mão direita à superfície que obstruía o caminho, realizando com eles rápida sequência pré-definida de movimentos que num piscar de olhos liberaram o obstáculo.

Ganhou um ambiente de claridade irradiante, repleto de estranhas superfícies e volumes que correspondiam a mesas e outros tipos de móveis utilizados pela maioria dos povos humanos. Passou por máquinas esculpidas sobre eles num material transparente semelhante a plástico, e em outros visualizou engenhos emitindo luzes ou representando imagens translúcidas que compunham, na verdade, hologramas. Líquidos borbulhantes serpenteavam por garrafas, canos e outros recipientes compostos de um material que parecia vidro. Tratava-se de um complexo laboratório de pesquisas; e no centro dele havia outra alienígena de pé, trabalhando em frente a um painel que lhe fornecia múltiplas e simultâneas imagens da Terra em tempo real. Seu sobretudo era cinza ao invés de preto, e seus cabelos possuíam tom azulado, cortado bem curto. A recém-chegada se dirigiu à provável cientista em sua língua natural, da qual derivavam vários dialetos dos povos antigos do Oriente Médio, mais notadamente o sumério. Traduzindo aquelas palavras duras e ásperas, o diálogo se assemelharia a isto:

— O plano está seguindo conforme o planejado, generala?

— Sim, de forma perfeita — replicou a Nephilim de traje cinza. — As escolhidas, na Terra, já sofreram os efeitos do bombardeamento de Raios Enu. Em breve, a segunda leva de humanas sofrerá o mesmo processo. Até o momento, nenhum organismo rejeitou as mutações, desintegrando-se como temíamos. Não sabemos se os efeitos a longo prazo serão a elas benéficos, porém tudo indica que sim, já que o experimento não demonstrou falha alguma até o momento.

A extraterrestre vestindo negro assentiu com um movimento estranho da mão direita. De fato, a experiência da generala era bastante ousada — até mesmo para o Conselho de seu planeta natal, e fora com relutância que ele a aprovara. O plano consistia em focalizar Raios Enu sobre espécimes humanas do sexo feminino pré-determinadas na Terra, identificadas pela quantidade do hormônio estrogênio em seus corpos, de modo a fazê-las crescer em tamanho — sem porém, outras alterações físicas — até se igualarem à estatura das Nephilim.

Essa avançada tecnologia, que pouco se distinguia de mágica, tornara-se possível graças ao fato de aquela civilização ter dominado o maior segredo do universo: sua origem. Milhões de anos de estudos levaram a raça guerreira e exploradora das Nephilim a desvendar a composição de tudo quanto fora criado, e o que precisava ser ordenado, nas coisas, para que elas fossem o que eram. O que, durante séculos, limitados terráqueos haviam denominado "arché", perseguindo-a com sua vã filosofia; o princípio fundamental das coisas. Um saber abstrato que, graças à sua perícia, haviam convertido em ciência. E os Raios Enu eram o ápice de tal descoberta.

Usados originalmente como armas em seu mundo — quando aquele povo ainda não abolira as guerras —, tais descargas eram capazes de reordenar a matéria de forma pré-definida. Ou melhor, alterar o que os limitados humanos chamavam de "Constante de Planck", fórmula física que julgavam fixar o único tamanho que as partículas dos átomos poderiam ter, baseada em energia. Essa constante, como as Nephilim haviam descoberto, era na verdade uma variável, podendo ser alterada de maneira proporcional – aumentando, assim, o tamanho dos átomos dos corpos das mulheres na Terra, incrementando radicalmente sua estatura e mantendo-os estáveis de maneira que não acabassem se desintegrando. Se Raios Enu fossem programados para transformar pedra em ouro quando atingissem um alvo, eles assim procederiam. O povo Nephilim era mestre na manipulação da matéria, de seus maiores até os menores componentes. Enquanto isso, os Homo sapiens ainda perdiam tempo com a idiota engenhoca denominada "LHC"...

Considerando isso, aumentar tamanho corporal era uma tarefa fácil, já que não envolvia nem mesmo alteração de matéria — apenas sua expansão. Manobra muito inteligente e razoavelmente simples àquela civilização, ainda mais se considerando que as cobaias ainda não haviam manifestado qualquer efeito colateral. Toda a tripulação sabia que os anseios da comandante se cumpriam... principalmente quando ela testemunhou algumas das mulheres transformadas lutando contra as forças dos demais humanos que tentavam contê-las.

A operação tivera início somente algum tempo antes — anos atrás, em medida terráquea. Desde que as Nephilim haviam introduzido a espécie do Homo sapiens naquele mundo, milhares de anos no passado, passaram a ignorar seu rebento. As leis do Conselho eram claras: as espécies criadas para povoação de outros planetas não deveriam conhecer sua real origem. Ainda assim, movidas pelo instinto maternal, representantes Nephilim haviam viajado para a Terra algumas vezes, auxiliando seus pequenos filhos a superarem os obstáculos no difícil caminho rumo ao desenvolvimento técnico e intelectual. Os humanos as encararam como criaturas divinas, incorporando-as às suas lendas. Ergueram, em sua homenagem, monumentos que tentavam chegar ao céu, na esperança de alcançá-las em altura. Mas, após algum tempo, aquele planeta fora definitivamente abandonado pelas alienígenas, que decidiram deixar que ele evoluísse por si só. Muito tempo transcorreu sem notícias da frágil Terra... até a generala Ummum apresentar grave alegação ao Conselho.

Cientista e ávida defensora da supremacia do Gênero Nephilim, do feminino, a generala encontrara, com sua nave, uma sonda enviada por terráqueos ao espaço, em busca de outros povos pelo universo. Ela, aliás, ainda conservava o pequeno artefato em seu laboratório, inserido numa espécie de caixa magnética sobre uma prateleira – como se fosse uma réplica construída para o projeto de feira de ciências de alguma criança, devido ao tamanho reduzido em comparação às mulheres gigantescas. Nele encontrara sons, imagens e mensagens dos humanos destinados a possíveis alienígenas... ignorantes do que suas débeis representações evidenciavam: uma cultura totalmente definida pelo gênero oposto. Pelo masculino.

Alertada, Ummum iniciou ampla investigação do planeta Terra, apenas constatando o que já suspeitava: a opressão do verdadeiro gênero, a mulher, nas mãos do homem. Este, criado pela civilização extraterrestre apenas como meio para reprodução da espécie, já que as Nephilim então ainda não possuíam o dom de conceder a imortalidade às reduzidas herdeiras de seu povo. Mas o meiodominara o objetivo, e já há milênios a mulher sofria sob o jugo dos homens. Na política, sociedade, religião... tudo contribuía à supremacia do macho sobre a fêmea. Uma situação intolerável, que não poderia ser ignorada pelas mães que para a Terra haviam levado a civilização. Por um bom tempo a generala insistira junto ao Conselho, ansiando por autorização a agir. O momento chegara.

O plano era até poético: dar a mulheres terráqueas especialmente escolhidas o mesmo tamanho colossal de suas mães, para que subjugassem definitivamente os homens. Foram selecionadas as fêmeas que mais sofriam devido ao sexo oposto: estivesse ele representado na figura de um pai, um irmão, um amante; ou, pior ainda, alguém sem quaisquer laços com estas e que ainda assim se achava no direito de submetê-las.

A generala não poderia conceder a elas, ainda, a imortalidade. As dimensões avantajadas, porém, já bastariam para que o mundo masculino ruísse. Aos poucos, mais fêmeas seriam igualmente transformadas... até que todas, em sua nova e dominante condição, prevalecessem na Terra e também a deixassem para colonizar outros planetas. Os homens momentaneamente poderiam servir como escravos; mas seus corpos, desprotegidos contra a radiação gerada pelos Raios Enu, acabariam afetados pela energia atômica decorrente do bombardeio sobre as mulheres e teriam mutações degenerativas manifestando-se em seus organismos – um bem-vindo efeito colateral do plano que em pouco tempo os extinguiria como um pesticida.

— Estive estudando as diferentes mitologias que os Homo sapiens criaram ao longo dos últimos milênios, para que eu possa utilizar termos a eles familiares quando me apresentar — afirmou Ummum, olhos fixos nas telas mostrando o que ocorria na Terra. — Adotarei o nome "Lilith", e em breve me revelarei às nossas filhas, explicitando sua conquista e convidando-as a governarem o universo ao nosso lado.

— Generala, se bem me lembro, na sonda exploradora dos terráqueos havia uma faixa sonora representando o carinho de uma mãe para com um bebê recém-nascido — manifestou-se novamente a outra Nephilim. — Será que os homens realmente são todos opressores de nossas filhas? Nenhum deles conhecerá a ternura da maternidade, a afabilidade digna de uma mulher?

— Não se engane, minha cara. Se assim fosse, tantos sistemas opressores de nosso gênero na Terra não teriam se perpetuado até agora. Aquiete-se e observe. Começa agora a libertação.

Deixando aos poucos a Lua para trás, a Anshargal prosseguiu em sua firme trajetória rumo ao orbe terrestre; enquanto a camuflagem invisível, suprimida, revelava as verdadeiras formas da nave.


IV


Fred Tavares estava inquieto. Descobria, para seu infortúnio, que ocupar um dos principais cargos numa das maiores empresas do país não facilitava que suas ordens fossem cumpridas com rapidez, ainda mais numa situação de desordem. A cidade estava um caos, com sirenes de ambulâncias e viaturas podendo ser ouvidas mesmo daquele andar — um dos últimos do edifício. Estavam sob algum tipo de ataque ou desastre natural que o executivo nem mesmo determinar podia, já que a TV de plasma do escritório se recusava a ligar. Não se importaria se uma formiga do tamanho de um carro surgisse cavando pelo chão da sala. Ele queria apenas os papéis da compra da filial na Argentina — o intermediário do negócio estando há minutos esperando no telefone. E nada de sua secretária aparecer. Daquele jeito a oportunidade seria perdida!

— Abigail! — gritava o chefe a plenos pulmões, vermelho de raiva. — Abigail! Onde está aquela sonsa?

Foi quando sentiu um tremor, algo pesado o bastante para sacudir todo o distrito financeiro. Seria um avião sequestrado por terroristas, míssil ou qualquer coisa parecida explodindo em algum lugar? Não, não era bem uma explosão... era diferente.

Outro tremor. Como um pequeno terremoto. Fred perdeu o equilíbrio em suas pernas quando o prédio sacolejou, amparando-se à sua mesa de trabalho. Papéis voaram, canetas rolaram pelo piso. Mais um tremor. Percebeu que havia uma cadência, um ritmo...

Outro, e outro. Não importava o que fosse, estava chegando perto. Com seu coração aos pulos, o empresário se lembrou de antigos filmes aos quais assistira quando jovem. Imaginou um imenso homem de lata se aproximando do arranha-céu, ou um réptil gigante gerado por radiação vomitando energia pela metrópole... mas, ao voltar-se para trás, na direção da grande janela do escritório que dava vista a um vasto panorama da cidade, o que ele enxergou foi bem diferente...

Do outro lado do vidro, sorrindo, estava a face de sua secretária Abigail. Cabelos castanhos claros, pele bem alva, sardas nas bochechas — as quais ele sempre achara charmosas. Havia, entretanto, algo até então fisicamente impossível na cena. A jovem estava da altura do edifício. Sua cabeça, maior até que um andar inteiro da construção, tampava boa parte da luz solar que antes penetrava na sala — inserindo sua pequena mobília, e o empresário em miniatura agora apavorado em meio a ela, nas sombras intimidadoras da incerteza.

— Olá, chefinho! — ela saudou-o, travessa; e sua voz reverberou potente como nunca, fazendo o vidro das janelas estremecer, além de gerar prolongado eco pelas cercanias.

Tavares teve tempo de, trêmulo e sem ar, recuar apenas alguns poucos passos em direção à porta, antes que a imensa mão direita da funcionária rompesse violentamente pela vidraça — estilhaçando-a por toda parte. Os grandes e fortes dedos de Abigail, cujas unhas estavam pintadas de vermelho — detalhe agora impossível de não notar —, agarraram e envolveram o executivo, erguendo-o do chão. Gritando de modo sumido, sentindo-se apertado e sem ar, Fred percebeu ser conduzido para fora do escritório pela antiga empregada, capturado por ela como um troféu.

Em meio a uma intensa vertigem por se ver suspenso acima da cidade muitos metros abaixo e notando novamente os tremores cadenciados causados pelos titânicos passos da jovem, o empresário entortou a cabeça para o lado... e perdeu os sentidos.

10 de Mayo de 2019 a las 23:28 0 Reporte Insertar 120
Fin

Conoce al autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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