Estúpido Cupido Seguir historia

camibrenner Cami Brenner

Vienna Taylor Roy está perdidamente apaixonada pelo capitão do time de basquete da universidade, Noah Hwang. No entanto, ela não tem coragem de declarar seu amor e não sabe como se aproximar do amado. Vendo isso, os céus lhe mandam uma ajuda um tanto inusitada e atrapalhada: Daniel, um anjo que recentemente passou no teste para se tornar um anjo cupido. Mas, será que sua falta de experiência vai ser útil? Tudo o que Vienna mais deseja é poder confessar seu amor, mas talvez no meio do caminho ela descubra que seu coração pode bater mais forte por outro alguém.


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Quando os céus me enviaram um anjo cupido

Por: Vienna


Existe aquele momento na vida de várias garotas no qual elas ficam obsessivamente obcecadas por alguém, como se, de repente, essa pessoa comum se tornasse o centro do seu mundo, a razão de sua existência e todo um teatro melodramático com o qual muita gente se identifica. É claro que essa fase geralmente rola na adolescência, quando os hormônios estão à flor da pele e tudo é motivo de riso ou de choro – ou de ambos, ao mesmo tempo.

No entanto, eu nunca tinha passado por uma fase assim. Quer dizer, eu já tive umas paixonites em certos vocalistas de bandas, mas não é desse tipo de coisa que eu estou falando. Eu me refiro àquelas paixões de escola, de surtar quando vê o menino no corredor e ficar passando em frente à sala dele apenas porque sim. E eu já vi isso acontecer com muita gente, pelo menos com a maioria das garotas com as quais eu estudei. Mas, e quanto a mim? Nada. E era bem por isso que os idiotas da minha sala me apelidaram de ‘Vienna coração de gelo’.

Pera aí, qual é o problema de não ficar de suspiros por aí por causa de algum marmanjo barbado?

Enfim, o fato foi que a escola graças a deus acabou e eu continuei imune. Comecei a pensar que talvez eu tivesse algum problema, que eu não gostasse de pessoas e que fosse envelhecer com quinze gatos em um sítio, completamente sozinha. Não que essa opção seja de todo ruim, até porque, que homem pode competir com quinze gatos?

Noah Hwang, talvez. E bom, aqui temos o começo do meu problema.

Eu descobri que era normal logo na primeira semana na universidade e que o problema da minha vida sempre tinha sido os garotos desinteressantes da minha antiga escola. E como foi que eu descobri isso?

Bem, eu me lembro como se fosse ontem. Eu estava saindo da minha última aula da tarde junto com o Oliver, meu melhor amigo desde que nascemos, praticamente. Oliver e eu éramos tão parecidos – e tão fracassados – que até mesmo escolhemos o mesmo curso na mesma universidade. E ele também era do tipo que não caia de amores por qualquer garoto por aí – e quando digo garoto, bem, até mesmo nisso somos parecidos – por isso ele me entendia completamente.

Isso até eu conhecer o Noah, que é o ponto de toda essa história.

Nós atravessamos os prédios do lado leste do campus, onde a maioria dos alunos se reunia para praticar esportes nas quadras disponíveis. Nem eu e nem meu melhor amigo tínhamos talento para qualquer coisa que envolvesse esforço físico, então é claro que passamos reto e nos sentamos na sombra, debaixo de uma árvore. Eu ainda me lembro de como Oliver falava alguma coisa sobre sua nova aquisição para a coleção de miniaturas de personagens de filmes que ele tinha e eu tentava prestar atenção nele, enquanto pensava nas duas provas que teria na semana seguinte e descabelava meus fios castanhos de um lado para o outro.

Foi então que...

Sabe aqueles efeitos ridículos de filmes onde um personagem, geralmente um cara charmoso ou uma menina bonita, ficam em câmera lenta, diante de outro personagem que o encara como um bobão? Foi basicamente isso. Em um momento eu estava lá, me descabelando, e no outro, meus olhos estavam fixos no sorriso brilhante, olhos pequenos, cabelos sedosos ao vento e, claro, abdômen sarado de Noah Hwang, o garoto mais bonito que eu já tinha visto em toda a minha existência nesse mundo cruel. E então, como em um passe de mágica, Vienna coração de gelo se tornou Vienna coração de fogo, ou algo brega por aí.

Eu achava que amor à primeira vista era ridículo demais para ser real, mas lá estava eu, com meio quilo de baba dentro da boca e suspirando como se meu mundo simplesmente tivesse parado de rodar.

- Quem é esse anjo?

Oliver ergueu o rosto e foi só naquele momento que percebeu que eu tinha parado de ouvir sua história sobre alguma miniatura da Marvel e estava congelada na direção do garoto de descendência asiática que limpava o suor do rosto em uma toalhinha branca no canto da quadra de basquete. Oh meu deus... Ele era realmente maravilhoso.

- Não sei... – Oliver me olhou com o canto de olho, suspeitando que eu estivesse doente ou algo do tipo – Mas posso descobrir em um minuto.

Eu honestamente não prestei muito a atenção no que ele estava fazendo, já que continuava babando igual a uma sem noção naquele ser que, do nada, tinha cruzado o meu campo de visão. O persegui com o olhar enquanto ele voltava para o jogo e não muito tempo depois fazia uma cesta. Uau... Além de bonito ainda é talentoso.

- Noah Hwang – Oliver finalmente me tirou de meus pensamentos uns cinco minutos depois – Filho de um empresário muito rico e uma modelo sul coreana.

Virei meu rosto na direção dele e tentei entender o que estava acontecendo. Por acaso aquele garoto tinha uma página na Wikipedia ou algo do tipo?

- Eu perguntei no chat – meu amigo me mostrou o aplicativo e deu uma risadinha quando eu o encarei confusa – As garotas aqui da universidade sabem tudo da vida de todo mundo, mas acho que esse tal Noah é bem famoso – ele deu de ombros.

Ah claro, ótimo. Era óbvio que um garoto como aquele devia ser muito popular, viver cercado de garotas lindas e plastificadas e frequentar todo o tipo de lugar que eu nunca ia, tipo academias e festas badaladas. Eu, Vienna Taylor Roy, não podia ser mais bicho do mato e esquisita socialmente do que eu era. Oliver e eu éramos o ápice do “ficar em casa comendo pipoca e vendo Netflix” – todo o sábado das nossas vidas.

Bem, eu queria dizer que depois disso eu logo voltei ao normal, que parei de pensar na existência de Noah Hwang e que me dei conta de que era uma perda de tempo enorme gastar os meus suspiros com um garoto que era o meu completo oposto, mas é claro que não fiz isso. Na verdade o que aconteceu foi que minha obsessão por seus olhinhos pequenos e as covinhas em suas bochechas aumentou progressivamente ao longo das semanas, ao ponto de Oliver fugir apenas ao me ouvir pronunciar “No”, não me deixando nem terminar o nome daquele deus grego em forma de homem.

Que absurdo.

Então os meus dias começaram a rodar em torno dele. No intervalo das aulas, lá estava eu, sentada na arquibancada de pedra o olhando jogar basquete e torcendo para que ele continuasse nunca notando minha presença esquisita e sem jeito em seu dia a dia. Quando chegava em casa, ficava pensando nele o tempo inteiro, olhando suas fotos no Instagram – que Oliver conseguiu o link para mim naquele chat que ele frequentava – e suspirava imaginando vários cenários ridículos nos quais ele se apaixonava por mim sem que eu precisasse fazer qualquer coisa. Porque vamos concordar, não havia nada que eu pudesse fazer.

Apenas uma bela olhada no espelho me dizia que aquela situação não tinha volta. Eu era a definição viva de “básica” e, talvez, “sem sal”. Não tinha nada de especial no meu rosto, no meus 1,63cm de altura ou nos meus olhos castanhos – que combinavam com o meu cabelo também castanho, me deixando nada mais, nada menos do que básica. Para encerrar, minha pele era tão branca por não pegar sol que eu às vezes parecia saída de um filme de vampiros, o que certamente não era atrativo – não se você não tinha as outras características vampirescas. Resumindo, eu era básica, a coisa mais básica que você já viu na sua vida.

Noah, por outro lado... Primeiro que ele era de duas raças e, como se não bastasse, tinha pegado o melhor de ambas. Sua mãe era uma modelo lindíssima e o pai não ficava para trás, o que obviamente geraria o bebê mais deslumbrante do mundo. Eu até achava que devia ser proibido que pessoas tão bonitas tivessem filhos juntas, era um insulto ao resto de nós mortais. Mas, voltando... Noah também tinha cabelos e olhos castanhos, mas nele combinava perfeitamente, como se ambos estivessem moldados em seu rosto, deixando-o ainda mais perfeito. Sem falar das covinhas, as malditas covinhas... E a forma como seus olhos ficavam pequenos quando ele sorria, seus dentes alvos, o nariz pequeno e delicado... E é melhor eu nem começar a falar sobre seu corpo sarado e o abdômen malhado que ele fazia questão de exibir vez ou outra no final dos jogos – e que levava todas as garotas a uma histeria coletiva.

Sim, Noah Hwang era lindo de morrer. E também popular demais para algum dia sequer se apaixonar por uma garota básica como eu.




- Qual é, Vienna... Ele é um ser humano, lembra? – Oliver olhou para mim por trás de seus óculos de grau, enquanto devorávamos um prato de macarrão com molho de tomate no refeitório do campus – Noah é um cara igual a todo mundo. E você já está velha demais para ficar nesse sofrimento.

- Eu sei – resmunguei com a boca cheia – Mas, eu não consigo evitar. Se eu falar com ele, com certeza serei rejeitada.

Meu melhor amigo revirou os olhos e suspirou, provavelmente morto de saudades da minha antiga eu e minhas paixonites em vocalistas de bandas. E o pior é que eu sabia que estava insuportável, nos últimos meses depois que conheci o Noah nem eu mesma aguentava mais os meus surtos sempre que o imaginava me rejeitando.

- E daí? – Oliver me questionou enquanto mordia uma fatia de pão – Ele não é o único garoto do mundo. Aliás, acho que você merece coisa melhor...

Isso era algo que Oliver vivia me dizendo e que não fazia o menor sentido na minha cabeça. Coisa melhor? E por acaso existe no mundo alguém melhor do que o Noah, ainda mais para uma garota básica como eu?

Mas, nesse ponto, meu melhor amigo e eu éramos bem diferentes. Ele podia seguir o mesmo padrão que o meu de cabelos castanhos, olhos castanhos, estatura mediana e blablablá, mas tinha um bronzeado natural que não o fazia parecer com um vampiro mal transformado e também usava óculos, o que eu achava charmoso nele. Mas a nossa maior diferença era que Oliver não era do tipo de cara que se apaixonava por garotos bonitos e populares, ele geralmente gostava daqueles renegados da sociedade, perdidos na vida, fumando no canto do prédio de música. Só que claro que ele também não fazia nada sobre isso, até porque seus pais não sabiam que ele era gay – e certamente não iriam morrer de amores se ele chegasse em casa com um músico cabeludo fumando um baseado.

Mas, voltando a mim e ao meu dilema, comecei a imaginar o que aconteceria caso eu pirasse e resolvesse me declarar para o Noah. O cenário era horrível demais na minha cabeça, o suficiente para ele terminá-lo com a seguinte frase: “Eu preferia beijar um cacto do que você”.

- Não posso viver com essa rejeição, Oliver – choraminguei e virei de vez um copo de refrigerante, como se fosse álcool, para dar um tom mais teatral ao meu drama pessoal.

- Você precisa de ajuda – meu amigo me olhou com toda a seriedade do mundo.

- Eu sei, eu sei – resmunguei – Mas, quem poderia me ajudar? Um anjo cupido? Deus? Eu totalmente aceitaria ajuda celestial – disse e olhei para cima, esperando que Deus ou sei lá o que estivessem me olhando.

- Eu estava me referindo a ajuda psiquiátrica – Oliver riu – Talvez passar uns tempos numa clínica.

Revirei os olhos e atirei nele o pão que estava no canto do meu prato, enquanto meu melhor amigo insistia que meu caso era perfeito para uma internação. Que absurdo, por acaso nunca se viu uma garota apaixonada antes não? Bem, talvez não uma tão enrolada quanto eu.

Foi então que Noah entrou no refeitório todo sorridente como sempre, acompanhado pelos outros caras do time de basquete. O cabelo dele estava molhado, ele provavelmente tinha tomado banho depois do jogo e parecia ainda mais bonito agora.

Ah, o que eu não daria para sentir o cheirinho de sabonete dele...

Oliver olhou para o Noah e depois para mim e balançou a cabeça. Eu sei, eu sei, eu sou um caso perdido. Eu só queria que isso tudo tivesse uma solução...



Por: Daniel



O anfiteatro a céu aberto estava cheio de garotos ansiosos, que esperavam aflitos pelo resultado que mudaria nossas vidas para sempre. E eu já sabia muito bem como aquilo funcionava, já que era minha sexta vez naquele local. Nossos professores organizariam os nomes dos alunos que passaram no teste, que seria exibido em um grande telão. Depois disso, aqueles com as melhores notas comemorariam, enquanto os com as piores notas voltariam para casa para recomeçar tudo de novo e tentar a sorte no ano seguinte.

Eu já havia falhado cinco vezes naquele teste, já tinha visto muitos dos garotos da minha idade alcançarem o sucesso e, até mesmo aqueles mais novos do que eu. Se eu não conseguisse passar esse ano, estava considerando desistir.

- Ei, Daniel – Meu amigo Gabriel acenou para mim enquanto balançava seus cabelos ruivos e caminhava em minha direção – Passei para comprar um cachorro-quente no caminho – ele se explicou.

Olhei para a mão dele e não acreditei que havia mesmo um pão com salsicha ali, como sequer ele podia pensar em comida em um momento como esse?

- Eu estou com esse sentimento, sabe – Gabriel sentou ao meu lado e deu uma mordida no cachorro-quente – Acho que vamos passar dessa vez.

- É tudo o que mais espero, não aguento mais não ter dinheiro para comprar doces – reclamei.

- E cerveja – meu amigo completou.

Naquele exato instante, meu professor, Cael, assumiu o centro do palco do anfiteatro e foi recebido com aplausos calorosos da plateia, que o adorava. Cael era o anjo mais incrível que eu já havia conhecido nos meus vinte e dois anos de vida e eu o admirava mais do que tudo.

Eu sei que agora você deve estar se perguntando: anjo? Bem, digamos que não estou narrando minha história do plano terrestre, mas sim de um lugar chamado de plano celestial, mais precisamente de um bairro chamado Sunshine, no qual moravam vários anjos cupidos, alguns anjos trainees e outros anjos sem denominação. Se você me perguntar em qual dos grupos eu me encontro nesse momento, te direi com pesares que ainda não sou um anjo cupido, mas pelo menos também não sou um anjo sem denominação. Eu sou um trainee, tenho sido um desde que entrei para a escola para me tornar um anjo cupido, para o qual já fiz o teste seis vezes e falhei em cinco delas. Bem péssimo, eu sei.

Sunshine é como um bairro qualquer, não muito diferente do plano terrestre, como ouvi dizer. Nós temos casas, estabelecimentos comerciais, ruas, parques... Todos os anjos que desistiram de ser anjos cupidos perderam sua denominação e hoje montaram alguma loja ou arranjaram alguma coisa para fazer de suas vidas. A única diferença do plano terrestre para o reino dos céus é que aqui não existe o ódio e nem o perigo. Nós somos regidos pelo amor.

- Eles me cobraram quatro moedas por esse cachorro-quente, aliás – Gabriel cochichou de boca cheia no meu ouvido, indignado, enquanto Cael continuava um discurso eterno sobre os testes desse ano.

E isso me lembra outro aspecto importante pelo qual todo mundo gostaria de se tornar um anjo cupido: Dinheiro. Cada vez que um anjo cupido recebe um trabalho no mundo humano e o completa com maestria, ele ganha uma bela quantia em dinheiro, suficiente para comprar pizza, doces e cerveja por meses. Porque nós anjos também somos filhos de Deus, né.

Mas, o mais importante de se tornar um anjo cupido é a pontuação que recebemos a cada trabalho completo e as estrelas douradas. Essa pontuação, quando somada, pode nos levar a outro patamar na vida, aquele que toda a criatura celestial deseja: Se tornar um anjo da guarda. E daí meus amigos, a coisa é completamente diferente. Primeiro que quando você se torna um anjo da guarda, você adquire a imortalidade. Então sim, nós anjos cupidos podemos morrer de velhice, o que é um saco. Além de poder viver para sempre, o anjo da guarda também se muda para a região mais alta e soberana do reino dos céus, onde não existe dinheiro e você pode ter tudo o que sonhar. É impossível colocar em palavras o quão maravilhoso é se tornar um anjo da guarda e esse é, com certeza, o meu maior sonho.

E se eu passar no teste hoje, estarei a um passo mais perto de realiza-lo.

- Bem, sem mais delongas, vamos aos resultados – Cael disse, quando metade de nós já tinha pegado no sono.

Gabriel deu um salto do meu lado e eu apertei com forças os meus joelhos, apreensivo. Já tinha acostumado a nunca ver o meu nome naquela maldita lista, mas estava determinado a conseguir. Eu precisava, mais do que tudo nessa vida, me tornar um anjo cupido, porque isso significava dinheiro, um objetivo, e finalmente poder colocar em prática tudo o que eu tinha tentando aprender nos últimos anos – nas aulas que eu não dormia, mas isso é outra história.

O painel começou a girar e, rapidamente, vários nomes piscaram em azul. Eu podia ouvir os gritos fervorosos de meus colegas que tinham passado e, num instante, Gabriel deu um pulo do meu lado e eu vi seu nome piscar na tela. Ótimo, ele tinha conseguido, mas ainda faltava eu...

Mais nomes foram compondo a lista e eu comecei a perder as esperanças, achei que não conseguiria de novo. Até que... No último espaço disponível, Daniel piscou na cor azul e eu quase não consegui acreditar. Era como se meu mundo tivesse parado de girar por um segundo, como se eu tivesse sido transportado para uma realidade em que as coisas finalmente davam certo para mim. Gabriel deu um grito e me abraçou e eu percebi que mal conseguia mexer os braços, completamente estático. Fiquei um bom tempo viajando na batata, incapaz de comemorar com toda a minha energia, até que o professor Cael se aproximou de nós, com um sorriso nos lábios.

- Finalmente, Daniel, meu pior aluno – ele riu e me abraçou – Parabéns por se tornar um anjo cupido.

Uau... Um anjo cupido. Eu, euzinho. Ouvir aquilo me deixava tão feliz que já até podia me imaginar rico, poderoso e, claro, anjo da guarda. Parece que as coisas finalmente estão começando a funcionar para mim e eu já estou ansioso só de pensar em meu primeiro trabalho.




Depois que a ficha finalmente caiu, Gabriel e eu compramos três pizzas e um fardo de cervejas e fomos comemorar na minha casa. Por horas e horas noite adentro, falamos sobre o que faríamos no nosso primeiro trabalho, como iríamos gastar nosso primeiro salário e, principalmente, sobre como veríamos nossos nomes no topo do ranking semanal dos anjos cupido. Eu não precisaria mais contar minhas moedas no fundo do bolso da calça para comprar um pacote de doces, ao invés disso, contaria meus pontos e estrelas douradas no ranking, que me levariam até o alto do reino dos céus e a uma vida de sonhos como um anjo da guarda.

Eu mal podia esperar.




Na manhã seguinte, acordei energizado mesmo com a bebedeira da noite passada e saí logo cedo para a escola, mesmo que agora eu não fosse mais um anjo trainee. Bem, até que eu conseguisse meu primeiro trabalho, eu precisaria continuar frequentando as aulas, o que era um saco e eu esperava muito poder me livrar logo disso.

No caminho, vi o outdoor da esquina da minha casa, no qual havia o ranking atualizado da semana. Notei que os dois anjos cupido do topo da lista eram três e quatro anos mais novos do que eu, mas não me deixei abater. Percorri a lista até o fim e achei meu nome lá, junto com o do Gabriel e dos demais anjos que passaram no teste ontem. Nossa pontuação ainda estava zerada e não tínhamos nenhuma estrela dourada, mas tudo bem. Eu iria reverter essa situação logo.

Olhei mais para baixo da lista, onde estavam os anjos com pontuação negativa e engoli em seco. Cada vez que um anjo cupido não conseguia completar um trabalho – ou seja, unir um casal de humanos – além de não ganhar uma estrela dourada, ele também perdia pontos. E a cada infração das regras dos anjos que fosse cometida, mais e mais pontos eram tirados, o que poderia te deixar com um saldo negativo, o que não era nada legal. Eu precisava me esforçar para seguir todas aquelas regras e já tinha começado a me arrepender por ter dormido tanto nas aulas do professor Cael.

Por falar nele...

Assim que cheguei na escola, ele me recepcionou com outro abraço caloroso e o mais importante: um relógio que foi colocado no meu pulso. Aquele relógio era o meio pelo qual os anjos viajavam para o mundo humano, eram informados sobre futuros trabalhos pelo comitê e faziam demais comunicações com o plano celestial. Isso significava que agora, a qualquer momento, meu relógio podia piscar em verde e eu saberia que meu primeiro trabalho apareceu, o que era a coisa mais incrível do mundo.

Eu, Daniel, um anjo cupido.

Sorri igual a um bobo para mim mesmo e não pude deixar de me sentir o melhor anjo desse mundo.




A aula de hoje foi sobre como ajudar um humano que está apaixonado por alguém que tem um ego muito grande. Eu até tentei prestar atenção e fazer algumas anotações, mas não levou quinze minutos para eu pegar no sono. Acordei com um tapa que o Gabriel deu na minha cabeça.

- O que houve? – perguntei confuso, limpando um rastro de baba na manga da camisa.

- Você ainda pergunta? – meu amigo apontou para a frente da sala e eu virei o rosto, em tempo de ver o professor me fuzilando com o olhar.

Claro que o Gabriel me abandonou no mesmo instante, já que ninguém queria lidar com a fúria de Cael. A fúria dele era uma lenda, aliás, já que nunca alguém tinha presenciado. Mas eram aquelas histórias que passam de boca em boca, que diziam que é impossível tirar ele do sério, mas que se alguém conseguir, irá enfrentar uma fúria equivalente à de cinco dragões famintos.

Engoli em seco e fui caminhando até a frente da sala devagar. No entanto, naquele momento, ele parecia sereno enquanto regava dois vasos de flores que tinha em cima da mesa. Só esperava que não cuspisse fogo em cima de mim assim que eu abrisse a boca...

- Todos os dias preciso te lembrar que você é meu pior aluno, Daniel – ele começou, sem me encarar – Mesmo depois de se tornar um anjo cupido, pelo visto.

- Desculpe – falei sem jeito – Mas, eu realmente não gosto de estudar, professor...

- Então como você espera ajudar os humanos? – ele me questionou.

- Eu... Acho que vou usar minha intuição – respondi e sorri para ele.

Cael largou o regador de plantas na mesa e me encarou. Nós dois nos olhamos por alguns segundos, até que sua expressão séria se transformou em um sorriso.

- Eu torci muito para que você se tornasse um anjo cupido e estou muito feliz que tenha conseguido – ele disse – Mas, você vai precisar mais do que a sua intuição na vida, Daniel. Estude.

Assenti com a cabeça e agradeci, ainda mais por não ter precisado presenciar sua suposta fúria. Dentre todos os professores que já tive, Cael era de longe o melhor. Além de ser bom explicando o conteúdo, ele também era muito justo e bondoso.

Assim como um anjo da guarda.

E o que todo mundo sempre quis saber foi por que ele desistiu de se tornar um anjo da guarda para continuar nesse plano, ensinando um monte de alunos preguiçosos como eu. Não dá realmente para entender as pessoas – ou os anjos – né?




Algumas horas mais tarde, estava voltando do mercado com dois sacos de bala na sacola quando o relógio digital no meu pulso subitamente fez barulho. Larguei a sacola no chão apavorado e olhei para o visor, não acreditando que ele já estava piscando em verde assim tão rápido.

Na tela dizia, em letras grandes, como se a realidade estivesse gritando na minha cara: DANIEL, VOCÊ FOI ESCOLHIDO PARA O SEU PRIMEIRO TRABALHO COMO ANJO CUPIDO. POR FAVOR, COMPAREÇA AO GABINETE DA PREFEITURA.

Assim que li aquilo, dei um berro no meio da rua, que assustou um senhor que estava passando. Pedi desculpas e continuei gritando mais baixo, peguei um cachorro do colo de um garoto e dancei com ele um pouquinho, enquanto comemorava. Contei para todo mundo naquela rua que eu tinha sido chamado para o meu primeiro trabalho como anjo cupido, mas ninguém pareceu se importar com aquilo. Até porque não era nada de mais, né? Era só o primeiro de muitos trabalhos que eu teria nos próximos anos.

Mas, aquele trabalho significava uma coisa: Dinheiro para comprar cerveja, pizza e doces. O que mais eu precisava na vida além disso?

Larguei minha sacola do mercado em casa e coloquei uma camisa elegante para ir até o gabinete, afinal de contas agora eu seria um respeitável anjo cupido. Eu mal podia esperar para contar ao Gabriel o que tinha acontecido.

Deixei uma mensagem para ele e parti correndo, ansioso demais para saber quem seria o humano do meu primeiro trabalho. Assim que entrei no gabinete, dei meus dados para a recepcionista e ela pediu para que eu aguardasse em uma sala, que já iriam falar comigo.

Aqueles foram os minutos mais longos da minha vida e eu podia sentir minhas mãos tremerem de nervosismo, enquanto aguardava por minhas informações preciosas. Cinco minutos mais tarde, um homem de terno finalmente veio me receber.

- Daniel? – ele disse e apertou minha mão – É uma honra finalmente tê-lo conosco.

- Obrigado, senhor – respondi enquanto ele pedia que eu sentasse diante de um grande telão.

- Você está com sorte, garoto – ele continuou – Uma humana que acreditamos que seja perfeita para o seu primeiro trabalho acabou de pedir nossa ajuda hoje.

Sorri empolgado e agradeci a Deus milhares de vezes por ter colocado alguém no meu caminho assim tão rápido. O homem então colocou um vídeo para rodar diante de mim e eu tentei entender o que acontecia nele. O local parecia uma espécie de refeitório e havia uma garota e um garoto sentados em uma mesa comendo um macarrão que, aliás, parecia bem gostoso.

Foco Daniel, foco.

- Esses são Vienna Taylor Roy e seu melhor amigo, Oliver Jacobs – o homem me explicou – Você irá trabalhar com a garota.

- Você precisa de ajuda – o garoto que se chamava Oliver disse.

- Eu sei, eu sei – a tal Vienna respondeu – Mas, quem poderia me ajudar? Um anjo cupido? Deus? Eu totalmente aceitaria ajuda celestial.

Uau... Mal sabia ela que tinha realmente chamado pela ajuda de um anjo. Dei um sorrisinho e me senti bastante animado, já que aquele parecia um trabalho bem divertido. O homem me explicou brevemente sobre o caso, enquanto incluía todas as informações importantes no meu relógio digital. Aparentemente, Vienna era apaixonada por um garoto da universidade que se chamava Noah Hwang, o capitão do time de basquete. No entanto, ela não tinha a menor coragem de declarar seus sentimentos, já que achava que seria rejeitada pelo outro.

- Um caso clássico e simples, perfeito para um novato – o homem concluiu, me entregando o relógio de volta – Acreditamos que você tenha cem por cento de chance de sucesso.

- Eu irei – respondi com segurança – Esses dois vão estar namorando em pouco tempo, posso garantir.

O homem sorriu para mim e apertou minha mão. Sorri de volta para ele e saí da sala, apressado para chegar em casa. Havia várias mensagens do Gabriel, mas eu não conseguia pensar em nada naquele momento. Assim que entrei no meu quarto, revisei toda a informação que tinha recebido sobre Vienna Taylor Roy e Noah Hwang, antes de me preparar para partir. Quanto mais rápido eu fosse, melhor.

Apertei o botão “viagem” no meu relógio e sorri ao ver que ele havia ficado verde, indicando que eu estava apto para me transportar ao plano humano. E então agora eu finalmente iria conhecer o mundo dos humanos, ia ver com meus próprios olhos tudo o que tinha aprendido nos livros e eu mal podia esperar.

Meu relógio começou a contagem regressiva em 5... 4... 3... 2... 1. Arregalei os olhos e, no segundo seguinte, me vi em outro lugar.

Olhei para os lados, confuso, tentando identificar onde meu relógio havia me levado. Parecia um quarto... Seria o quarto da tal Vienna?

- Uau... – falei ao perceber a rapidez com a qual tinha chegado lá, mais rápido do que uma piscada. O teletransporte dos anjos era realmente incrível.

Mas foi então que ouvi um barulho na maçaneta da porta e meu coração acelerou no peito. Antes mesmo que eu pudesse pensar, nós dois teríamos nosso primeiro encontro e eu não fazia ideia do que esperar daquela situação. Um segundo depois, a mesma garota que eu tinha visto no vídeo se materializou diante de mim. Nós olhamos um para o outro e eu pensei se devia dar oi, se devia logo me apresentar, mas eu nem tive tempo de agir.

Ela gritou com toda a energia que tinha dentro dela, alcançando notas que meus ouvidos angelicais jamais tinham ouvido, e eu não soube o que fazer.

Então, essa é ela. Vienna Taylor Roy. Meu primeiro trabalho como anjo cupido.

7 de Mayo de 2019 a las 18:37 0 Reporte Insertar 0
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