Agoniste Seguir historia

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

146 a.C. Em meio ao saque de Corinto pelos romanos, dois deuses gregos, Ares e Hermes, encontram-se para discutir o futuro da civilização helênica.


Fantasía Épico Todo público.

#história #olimpianos #olimpo #hermes #ares #deuses #grécia #lenda #mito #grega #mitologia
Cuento corto
2
3.7mil VISITAS
Completado
tiempo de lectura
AA Compartir

Capítulo Único

Agoniste


Conto originalmente publicado na antologia "Olympus", da Editora Literata.


O fogo era voraz, cruel. Desencadeadas por mãos mortais, as violentas chamas consumiam a urbe, desfigurando-a a ponto de suas outrora belas e imponentes construções já se encontrarem totalmente irreconhecíveis, como se jamais houvessem sido outra coisa a não ser escombros. As moradas dos ricos comerciantes desmoronavam, o Templo de Apolo ardia. Nem durante as devastadoras guerras entre os próprios helenos, no passado, vira-se tamanha destruição. A cidade de Corinto, sitiada e vencida pelos agressores vindos através do mar, era posta de joelhos. Para dentro das ruínas marchavam as legiões triunfantes, e a população, agonizando, empregava suas últimas forças questionando se seria mesmo vontade dos deuses que ninguém partisse em seu socorro. Por que Apolo não viera fulminar com suas flechas aqueles sanguinários inimigos, como fizera com o arrogante Aquiles durante a queda de Tróia? Em que circunstâncias não pudera a sábia Atena compartilhar-lhes uma infalível estratégia de reação, do mesmo modo como diversas vezes instruíra para a vitória o bem-aventurado Odisseu? Por que motivo o belicoso Ares não semeara em seus corações ao menos o sentimento de máximas bravura e resistência, o mesmo que sustentara as valorosas três centenas de espartanos durante o lendário embate das Termópilas?

A verdade era que, invisível aos mortais, e assim mantendo sua presença oculta, o Deus da Guerra se encontrava sim nas proximidades do campo de batalha. De pé, braços cruzados e vestindo armadura de combate perfeita tanto em proporções quanto em eficácia, forjada pelas calejadas mãos de Hefesto, Ares observava Corinto em chamas e se deleitava com todo o sangue derramado por seus tombados defensores. O espetáculo da carnificina parecia contentá-lo de maneira incrível, e, com um sorriso satisfeito nos lábios, mal notou que alguém se aproximava atrás de si. Era, assim como ele, um filho de Zeus. Ares pôde no início apenas sentir a presença de mais um morador do Olimpo, mas o zunido provocado pela alta velocidade em que se deslocava, intensificado pelo incansável bater dos pares de asas em seus calcanhares contra o ar, denunciaram-no como sendo seu meio-irmão Hermes. Soltando um resmungo de insatisfação, o Deus da Guerra voltou-se sem demora para trás, deparando-se com o Mensageiro Divino cessando sua trajetória e passando a pairar alguns metros acima do solo, uma expressão de profunda descrença em seu semblante iluminado. Mas Ares sabia que, apesar de tudo, o recém-chegado possuía uma mensagem para si. Então, tentando não se irritar, ele questionou-o:

- Que fazes aqui, apressado viajante?

- Vim para certificar-me se meu irmão houvera mesmo perdido a razão, por desconfiar das palavras que ouvi, porém comprovo agora a triste verdade... – Hermes respondeu em tom pesaroso.

- Digo-lhe, caro Hermes, que jamais estive em estado tão são.

- Pois a mim parece que Lissa lhe dominou completamente os sentidos! Por que desencadeia tamanha desgraça? Por que alteras tantas coisas no mundo dos homens sem o consentimento dos demais senhores do Olimpo? Qual o motivo de instituir sobre os domínios de Gaia povo tão belicoso e cruel como esse que arrasa Corinto?

Ares soltou uma breve risada, fitou fixamente os olhos do meio-irmão, e replicou:

- Tu me reprovas por minhas ações, filho de Maia? Pois lhe digo que estou em meu direito. Revisto-me agora da aura vingativa de Nêmesis, e empreendo justa represália contra esses ingratos mortais!

- Do que falas, seu perverso? O que eles te fizeram? Sempre nos têm rendido culto e cerimônias, não faltando nem os tributos a si para que obtenham sucesso em guerras!

- Percebo que perdeste muito tempo distante no Olimpo, meu caro, desfrutando de ambrosia e néctar demasiados, para não ter observado o que se passa. Desde que o filho de Filipe, almejando se tornar um deus entre mortais, levantou-se da escarpada Macedônia, expandindo seu domínio sobre os medos e aliados, esses homens e mulheres perderam seu respeito às divindades. Cuspindo em nossos altares, passaram a ceder oferendas aos traiçoeiros deuses do Nilo, Ísis e Serápis poluindo os templos antes somente a nós erigidos. Das terras semitas, Atargatis e Hadad zombam de nosso outrora inabalável orgulho. Da terra-mãe dos medos, o próprio Mitra almeja ameaçar nossa posição como senhores dos mortais. Esse povo ingrato e infeliz necessita ser retaliado, Hermes. E foi com isso em mente que coloquei meu plano em marcha...

O Mensageiro Divino foi tomado de ainda mais inconformismo. Como seu meio-irmão pudera ser tão ardiloso e sorrateiro? Agora tudo fazia sentido... Séculos e séculos de preparação, até que se chegasse àquele ponto.

- Foi com propósito irônico que, invadindo o inviolável santuário de Héstia em Alba Longa, engravidei uma descendente de Enéas, o último representante do povo troiano, massacrado pelos helenos: um dos maiores orgulhos militares desses homens patéticos. De tal união, que vocês meus irmãos tanto reprovaram, nasceram Rômulo e Remo. Foi esse primeiro quem fundou a mais poderosa urbe que este mundo já viu e terá oportunidade de ver; uma urbe que se converteu em reino, e agora se estende em império... A urbe erguida por meu filho para se tornar a nova senhora destas terras e deste mar. A urbe que dará a devida punição ao pérfido povo heleno.

E, após uma breve pausa, acrescentou, visando que suas palavras ganhassem maior impacto:

- Roma é meu legado, minha dádiva. Todos terão de se submeter ao peso de seu punho, e nós, senhores do Olimpo, tornaremos a ser devidamente louvados!

Ao longe, as últimas paredes e muros de Corinto que ainda permaneciam de pé acabavam de sucumbir. Hermes estava agitado, o inconformismo em sua face dando lugar a uma ira manifesta:

- É revoltante como se perde em sua própria ilusão, Ares! Acha mesmo que o povo latino, expandindo-se sem limites por todos os domínios já existentes, manter-se-á para sempre fiel a nós, deuses olímpicos? Há algum tempo esmagaram Cartago, reduto dos púnicos, e já passaram a flertar com Baal. O próprio Mitra por ti citado já lança sua tentação sobre os corações dos combatentes, e o Oráculo de Delfos me revelou que o culto a nós cairá para sempre dentro em breve, vencido pela devoção a um carpinteiro das margens do Jordão!

Sorrindo, Ares encheu os pulmões de ar e, num tom de triunfo, rebateu:

- Satisfaz-me saber que consultou o Oráculo, pois eu lá também estive há curto período. E a Pitonisa me revelou segredos incríveis, ainda mais à frente nos fios do tempo. Vi que minha Roma dominará todo este mar interior que conhecemos, e se estenderá até as terras desconhecidas do norte, onde divindades ainda por nós desconhecidas são cultuadas por povos misteriosos. Durante séculos meus descendentes governarão seu vasto território com maestria, e as artes e cultura florescerão. As leis por eles criadas serão referenciadas por homens muito mais distantes de nós, a se perderem nas névoas do futuro, e suas construções titânicas, permanecendo de pé por todas estas terras, desafiarão até a majestade do próprio Olimpo. A cultura dos helenos, meu caro Hermes, e este é meu maior feito, nunca mais será vista de forma separada à de Roma. Esse povo perderá o esplendor de ser único, de ser iluminado por nós deuses, e jamais se desassociará da memória do império que gerei. Tal é o castigo por terem nos desrespeitado, por terem nos traído.

Olhando uma última vez para a cidade em ruínas e o sangrento campo de batalha, Ares completou, antes de desaparecer:

- E, a partir deste dia... se refira a mim como Marte!

7 de Mayo de 2019 a las 13:57 0 Reporte Insertar 3
Fin

Conoce al autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

Comenta algo

Publica!
No hay comentarios aún. ¡Conviértete en el primero en decir algo!
~