Venha até mim meu amor... Seguir historia

grimmalkin Jo Souza

A história do amor entre dois seres distintos, um pertence à superfície seca e outro às profundezas da água. Nem todas as histórias de amor possuem u final feliz, nem mesmo quando os amantes permanecem juntos... para sempre.


Cuento No para niños menores de 13.

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Cuento corto
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Venha até mim, meu amor...

A primeira vez que ouviu a própria voz foi por acidente. Era noite e a lua estava escondida atrás de uma multidão de nuvens escuras que ameaçavam desabar numa torrente interminável de gotas violentas, mas ele estava ali, sentado nas rochas lisas que ficavam mais longe da praia esperando que as nuvens fossem embora para que pudesse se banhar com a luz da lua. Ao seu lado estava Leandro, um jovem de pele bronzeada, olhos amendoados e uma juba de cabelos encaracolados, que exibia seus belos braços e sorria incentivando ele a tentar falar também. Depois que o primeiro som saiu acidentalmente ele percebeu que não era tão ruim, na verdade gostava de sentir a estranheza de produzir sons com sentido, passaram-se meses de noites perdidas ao lado de Leandro, escutando, aprendendo palavras e significados, começou a conversar em pouco tempo e descobriu sozinho que se dissesse as palavras num certo ritmo, faria algo novo. A descoberta estava queimando em sua mente quando emergiu e subiu na rocha mais uma vez, Leandro já estava lá, maravilhado como sempre, a primeira coisa que fez foi mostrar o que aprendeu. Começou com um som que vinha de dentro, que não fazia sentido e depois vieram as palavras.

“Beije-me meu amor

Venha descansar em meus braços

Sonhe seus sonhos comigo

Deslize sob o mar

Venha até mim meu amor

Esqueça a terra acima”

Os versos ecoaram mais que o normal, ainda assim ele invocou todas as lembranças que possuía do mar, toda vida, beleza e profundidade, todos os sons que já tinha escutado e voltou a repetir as palavras, despejando cada gota de si neles. Os olhos de Leandro ficaram turvos e ele levantou pouco rígido, diminuiu a distância entre os dois e o tocou no rosto. Ele mesmo deslizou para a água, mergulhando para emergir novamente a alguns metros de distancia, Leandro também pulou na água e ele continuou a cantar se sentindo cada vez mais cheio. Quanto mais perto o outro chegava mais cheio ele se sentia, até que, quando ele enfim uniu os lábios, algo explodiu para a superfície das águas e ele virou para encarar o que quer que fosse.

Quatro dos guardas do rei, musculosos, imponentes e rígidos como perfeitas estátuas de mármore exibiam apenas a parte superior de seus corpos, o líder deles, Titus, havia sido nomeado a pouco tempo, mas já exibia várias das marcas incandescentes que proporcionavam a força da guarda. Titus se aproximou e falou com uma voz trovejante que surpreendeu o jovem.

—A rainha solicita sua presença na sala do trono vossa alteza... —os olhos azuis desviaram-se apenas uma vez para encarar Leandro e voltaram ao objetivo original —Ela deseja fazer um comunicado ao senhor.

Não havia como evitar aquilo, se a rainha tivesse enviado apenas Titus seria muito fácil convencê-lo que iria logo depois dele, mas os outros guardas, os mais experientes, sabiam que qualquer ordem da rainha deveria ser cumprida imediatamente, principalmente se tratando de um comunicado real. Lançando um ultimo olhar a Leandro, ele se distanciou e mergulhou junto com os guardas.

Se mover sob a superfície daquelas águas profundas era muito mais fácil que se mover sobre elas, seus olhos se adaptaram à escuridão e rapidamente o ambiente começou a clarear, ficar tanto tempo na superfície ressecava muito e precisava de um pouco mais de tempo para enxergar normalmente. A cauda se movia com precisão coordenada ao movimento das mãos, suas mãos eram pequenas, aliás ele mesmo era pequeno se comparado aos guardas, eles vinham de linhagens diferentes. A realeza herdara dos ancestrais os dons do intelecto e da magia, a linhagem dos guardas herdara força física, não que fossem mentalmente incapazes de pensar, só não eram tão capazes quanto a realeza.

Nadaram por um tempo que foi transformado em eternidade pelo silêncio e logo foram capazes de ver a cidade submersa cheia de casas de coral, o palácio imponente e, é claro, a redoma. A redoma não era física, embora pudesse ser vista muito claramente, era uma fina camada de magia que afastava a maior parte dos perigos marinhos, uma magia poderosa chamada temor que, como o nome sugere, causava uma onda de pânico em qualquer criatura hostil(ou não autorizada) que passasse, quanto maior a intenção negativa maior o dano causado pelo temor. Mesmo assim todas as noites ele atravessava aquela redoma sem permissão, sofria e ainda conseguia sorrir para a rainha pela manhã.

Durante a noite a cidade era iluminada por uma série de criaturas marinhas bioluminescentes que facilmente fascinariam um humano, a maioria daquelas criaturas fora tocada de alguma forma pela Água e carregavam energia viva o suficiente para brilhar e iluminar a cidade. Passaram pela barreira sem nenhum problema(o que foi um tremendo alívio) e seguiram em direção à sala do trono. Chamar de “sala” era um equívoco com certeza, o termo praça era mais adequado já que só havia colunas de coral luminoso, o trono e nenhuma parede.

Havia uma pequena multidão na “sala” do trono e ele podia ver que algumas sereias e tritões ainda estavam chegando, a multidão abriu caminho para que ele e sua escolta pudessem passar. A rainha Atalanta, sentada em seu trono rochoso, sustentada pelo poder quase infinito da Água. Os cabelos negros flutuavam com liberdade ao redor do rosto anguloso, a pele pálida era marcada em muitos lugares com tatuagens luminosas e os olhos negros como piche brilhavam com uma autoridade férrea, ela sorriu calorosamente ao encarar o filho escoltado.

—Ariel, você finalmente chegou. —ela dispensou três dos guardas com um aceno e apenas Titus permaneceu ao lado do príncipe —Diga-me, jovem Titus, o que meu filho fazia a uma hora dessas fora da redoma? Observava a gloriosa lua?

—Vossa majestade. —o guarda abaixou-se numa reverência —Posso afirmar que talvez ele pretendesse observar a lua depois, mas quando eu e meus companheiros guardas chegamos o príncipe estava com um humano e estava cantando.

Houve um ofego geral e as feições da rainha endureceram, Ariel sabia que ela estava irada, mas não imaginava o quanto.

—Está dizendo que o príncipe... —Atalanta parou por alguns segundos e afagou uma pequena criaturas que estremeceu de prazer pelo contato com a energia da Água —Deliberadamente desobedeceu duas das principais regras do nosso povo, guarda Titus?

—Sim, minha rainha, foi isso que vimos, o príncipe estava cantando antes de emergirmos e depois ele... entrou em contato com o humano... —a voz do guarda quase não saiu da garganta.

—Príncipe Ariel, meu filho, você nega as afirmações do guarda? —ela provavelmente esperava que ele negasse, que tentasse escapar da armadilha e se sufocasse ainda mais em mentiras.

—Eu não nego, é verdade, me encontrei com um humano, aprendi a falar fora do mar e cantei, embora eu talvez não soubesse dessa ultima parte...

Mais tatuagens azuis brilhantes surgiram na pele da rainha, ela parecia cada vez mais irritada, começou a bater as unhas sobre a superfície rochosa do trono formando um ritmo que ecoou pela praça absolutamente silenciosa.

—Você não acha, meu filho, que nossa ancestral que possuía seu nome já cometeu erros o suficiente para toda a nossa raça? Você não será como ela, meu amor, não, eu não sou Netuno e não permitirei que a ruína caminhe sobre duas pernas carregando meu filho... E você cantou... cantou para ele... sabe o que significa? —ela esperou que o príncipe respondesse por vontade própria, mas não aconteceu — Significa que seu humano vai caminhar pela terra sem nenhuma ligação com ela, esquecerá família e amigos, esquecerá a si mesmo até que só reste o desejo, a ânsia pela água e quando ele enfim por os pés no mar a Água o tomará para si e ele nunca voltará para o conforto da superfície.

—Não, você não pode amaldiçoá-lo assim! Ele não fez nad-

—Eu não amaldiçoo nem nossos inimigos, meu filho... —os olhos dela demonstravam uma estranha tristeza —Como poderia amaldiçoar um humano miserável? É apenas uma triste verdade, nossa voz é letal para eles, a Água é letal para eles...

Uma clareza surpreendente tomou conta de sua mente, uma clareza gelada que anestesiou a culpa por um tempo, ele curvou a cabeça como que aceitando as palavras da rainha e depois perguntou.

—Qual minha punição, minha rainha? O que devo fazer para ser perdoado? —as marcas luminosas da Água abandonaram o corpo do príncipe, um sinal da total submissão dele ao julgamento da rainha.

—Você já fará muito para nosso povo, como eu poderia puni-lo se seu destino é nos salvar da guerra? Sua noiva virá do extremo oposto do continente, nossas nações finalmente serão uma só, graças ao seu casamento... como eu poderia pedir mais alguma coisa? —ela suspirou pesadamente antes de continuar —Seus erros poderiam ter arruinados a aliança se você tivesse sido pego numa rede, mas não foi, então, por hora, não suba à superfície até que eu diga que pode. Entendido?

—Sim, minha rainha, obrigado pela sua severidade e piedade, minha mãe.

Com essas palavras o povo do mar festejou uma última vez na presença do príncipe e logo voltaram para suas casas, tranquilos e felizes. A rainha voltou para o palácio, para esperar ansiosa a chegada do príncipe. Este último por sua vez ainda estava tomado pela clareza gelada, dirigiu-se aos precipícios que beiravam o exterior da redoma, havia algo ali que agora serviria a seus propósitos, passou horas procurando e lutando contra os efeitos da proximidade do temor, até encontrar o que buscava.

Uma única flor belíssima, de branquíssimas e delgadas pétalas, longo caule roxo e elegantes folhas, o único exemplar que crescera e vingara naquela região, a mais temida, a mais odiada, a bruxa-do-mar. Arrancou a partir do caule roxo e esperou que ele parasse de lançar a seiva negra, depois, com cuidado, arrancou cada uma das pétalas brancas e as levou até a própria boca.

Era macio e doce, explodiu em sabores na boca e Ariel quase sentiu prazer naquilo, mas não poderia. Logo que engoliu as contrações começaram na cauda, a luminosidade das marcas da Água em seu corpo começaram a se apagar, o corpo convulsionou e tremeu enquanto as escamas da cauda soltavam. Lentamente, cada uma das características que faziam dele um tritão estariam fora de seu corpo, esse era o poder da bruxa-do-mar, da flor maldita.

Ainda havia uma torturante clareza em sua mente, sussurros da flor que o esperava. Uma vida da Água por uma da superfície, eles diziam. Talvez a Água poupe o seu amado, eles diziam. Doces mentiras... ele sabiam que logo seu corpo flutuaria, subindo até que voltasse para a superfície, sabia que um dia Leandro seria tomado pela Água e morreria.

Em troca da energia viva da Água em seu corpo a bruxa-do-mar concederia um desejo, não precisou pensar muito para decidir, talvez aquele tenha sido seu último pensamento.

Se ele será consumido... então que sejamos espuma do mar, juntos.

10 de Junio de 2019 a las 11:05 0 Reporte Insertar 2
Continuará…

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Jo Souza "Tenha coragem e seja gentil..."

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