Escrito por M. L. Reis Seguir historia

carolsalignac Caroline Salignac

Narrativa dividida em cinco capítulos. História ambientada no Brasil - início do século XX. Sinopse: A narrativa se passa no ano de 1906, na cidade de Manaus, no início da Belle Époque e da ascensão da Era de Ouro da borracha. Muitas coisas estão mudando na entrada de um novo século, e Mariana, esperançosa, acredita que as mulheres poderão conquistar mais espaço em diversos ambientes, ainda mais na Imprensa. Cansada de escrever folhetins apenas para mulheres, Mariana acredita que tem potencial para escrever também para homens, nos jornais da cidade. Contudo, seus planos são frustrados quando é rejeitada por todos os jornais, desde os desconhecidos até o mais populares, ao que parece, ninguém quer contratar uma mulher como redatora. Tudo muda com a chegada do novo editor do jornal A pimenta, um rapaz que regressa de seus estudos em São Paulo. Por algum milagre, ele lê seus textos e tem interesse em publicá-la, porém, com um pseudônimo, escondendo sua identidade. Agora Mariana precisa tomar uma decisão que pode tanto realizar seu sonho como prejudicá-lo. Capa: Thaís Almeida


Histórico Sólo para mayores de 18.

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Ato 1

Pequena nota da autora: A história se passa no Brasil durante a Belle Époque, portanto, o modo de falar das personagens tenta se igualar ao usado na época. Obrigada, espero que isso não prejudique a sua leitura.

Manaus, 1906

Quando a quinta carta de rejeição chegou, as esperanças de Mariana se findaram. Ao que parecia seus anos na faculdade de Direito e seu curso em datilografia não serviram de nada. Nenhum jornal estava disposto a empregar uma mulher como redatora. Embora o século XX trouxesse mudanças e inovações, o mundo continuava injusto. De nada adiantou publicar mais de sete contos e uma dúzia de artigos em folhetins ou em publicações independentes, pois era lida apenas por algumas mulheres. Mas bem sabia que podia ser lida também por homens, seu pai mesmo lhe disse que tinha competência, mas árduo seria o caminho para realizar seu sonho.

— Devias manter teu emprego no folhetim das moças, ganhava pouco, mas ao menos escrevias, já que é o que queres — comentou sua mãe, enquanto mantinha os olhos no bordado.

Estavam todas na saleta de música, quando a carta da rejeição chegou nas mãos da jovem. Sua mãe usufruía da companhia da irmã, que parecia não ter mais residência desde que os dois filhos mais velhos viajaram para estudar no Rio de Janeiro.

— Ela devia se casar, isso sim — atalhou sua tia, impaciente, também bordando. Usava um óculos imenso de lente grossa, e de sua têmpora pingava de suor. — Minha Salomé ficou noiva mês passado, te falei, não é, irmã? Não tem tempo para nada além de organizar o casório, e olha que Mariana é muito mais bela! Receio que o tempo de minha sobrinha seria muito mais aproveitado se estivesse atrás de um bom partido, ao menos teria futuro com isso!

Mariana revirou os olhos, mas se manteve calada.

— Essa menina quer ser jornalista, Júlia! Ou escritora, nem sei mais. — Sua mãe explicou, parando de bordar.— Acredito que este seja o futuro que ela quer. Não me agrada em nada saber disso, mas é o que ela quer...

— Mas pode ser uma escritora bem casada — sua tia rebateu, franzindo a testa engelhada e úmida. — De certo, até engendrar filhos.

— Minha Mariana é destinada ao extraordinário! — Bradou a voz grave do pai, interrompendo a conversa das duas senhoras, ao adentrar na saleta com o jornal abaixo do braço. — Cadê a carta? Deixe-me lê-la com mais calma.

A filha entregou a carta ao pai, e ele se assentou no canapé, próximo de sua mãe, e na frente da imensa janela que abria para a rua. Ele puxou o pince-nez da algibeira e, em silêncio, leu o conteúdo da carta. Mariana cruzou os braços, irritada, fitando o pai.

— Não há nada de novo, pai. — Arrumou uma mexa do cabelo dourado para detrás da orelha. — É sempre a mesma justificativa, não estão interessados em ter uma mulher no jornal! Nem criatividade para rejeição esses homens têm!

O mundo era domado por homens, foi o que seu pai disse uma vez em um discurso para seus sócios durante um jantar. Ele estava certo, e meses após meses sua palavra fazia justiça. O Brasil dera seus passos curtos ao progresso com a abolição da escravatura, em compensação, as mulheres continuavam a ter o mesmo valor de antes: Zero.

— Irmã, se sua filha estivesse casada não teria tais preocupações — aconselhou sua tia com arrogância, enquanto enxugava com a manga de seu vestido a testa suada. — Cabeça vazia, oficina do diabo. Saiba que mulheres solteironas, de idade deveras avançada, começam a ter ideias contrárias, foi o que eu ouvi. É até perigoso mulheres ficarem histéricas com esses pensamentos!

Mariana piscou e virou o rosto para olhar a janela, era melhor ficar calada do que abrir a boca para proferir alguma ofensa. Ao menos zangar-se não era pecado, já afrontar sua tia...

— Eles não passam de tolos — seu pai se manifestou ao terminar de ler. — Contudo, não há necessidade para te alarmares, minha filha. — Dobrou a carta, repousando-a em uma mesinha de canto. — Tenho uma carta nas mãos que talvez sirva para algo, soube que o filho do Martins regressa de seus estudos em São Paulo como o novo editor do jornal "A pimenta". Ele é novo e imaturo, talvez consigas uma brecha se fores cordial. Ele será recepcionado em um jantar no sábado, então, espero que agarres essa oportunidade.

Mariana estava cansada demais para oportunidades. Tudo era mais difícil, e ao que parecia, precisava sempre recorrer aos atributos femininos para impressionar alguém. Ao contrário de seus irmãos que tinham a vida toda encaminhada. Fernando era um ótimo advogado na Bahia, enquanto que Maurílio, mais novo que ela ia bem nos estudos de medicina no Rio de Janeiro, e bem sabia que ele não teria obstáculo para realizar o sonho de ser médico, apesar de não ser a profissão pensada pelo pai.

Seus textos deveriam ser julgados, e não sua cordialidade feminina. Mas desde cedo Mariana fora alertada pelo pai que o caminho seria árduo, mas era necessário perseverar, se quisesse conseguir seu lugar neste mundo. E talvez o filho da família Martins não fosse lá um obstáculo muito difícil.

Ela se recordava de algumas coisas sobre a personalidade de Laércio Martins. Havia o conhecido quando ainda era menina, pois de vez em quando o via brincar com seu irmão mais velho. Se lembrava de um menino corajoso de cabelos escuros e volumosos, que sempre subia em árvores e corria pelos quintais com suas brincadeiras de ser guerreiro. Contudo, desde que partira a São Paulo, os boatos que ouvia ao seu respeito retratavam alguém muito diferente do que se lembrava. Todos diziam que ele se envolvera em festas, orgias, bebedeiras e jogos, e como o filho pródigo, enfim, voltava aos braços do pai. Ao que parece, fora ordenado pelo pai a retornar depois de saber de seus gastos exorbitantes assim que se formou na faculdade.

No fim, Mariana sabia que ele era mais um rapaz tolo assim como todos os outros da alta sociedade, e se ela o agradasse, poderia facilmente se beneficiar com seu cargo no jornal. E mesmo odiando ter que admitir, usaria bem sua cordialidade feminina.

***

Em casa, ensaiou como deveria agir ao ser abordada pelo filho do sr. Martins, sabia que teria de falar menos, e mesmo que ela soubesse de algo, não falaria, explicaria ou refutaria coisa alguma. Assim talvez pudesse ter uma chance... Contudo, ao chegar na residência da família Martins, onde seria a recepção para o novo editor, notou que a maioria dos convidados, que eram todos redatores, evitam-na. É certo que fora bem recebida pelos anfitriões, que ela já conhecia há muito tempo, mas ao logo se sentiu mal ao perceber o descaso dos demais.

A princípio, ela pensou que estava imaginando coisas, mas quando o Sr. Lima, um redator pançudo, quase derrubou um empregado para se esquivar dela, teve certeza de que todos fugiam dela. Até as esposas a olhavam de soslaio, desvencilhando de manter algum diálogo com ela. Mariana sabia muito bem o motivo de tal comportamento, ela passou os últimos meses infernizando a maioria que trabalhava no jornal, e até seus escritos nos folhetins foram condenados por uma dúzia de mulheres casadas, já que em um deles ela dizia com clareza que preferia viajar pelo mundo a ter que se manter reclusa em uma casa com marido e filhos.

Era a colheita sobre seus escritos, e ela não teve outra alternativa a não ser ficar sentada ao lado da matriarca Martins, D. Ferdinanda, sentada no fundo da sala de música, bebericando vinho. Mariana sentou-se ao seu lado, ouvindo-a reclamar de como as coisas haviam mudado no decorrer dos anos, que os jovens estavam mais rebeldes, até que a velhinha, ergueu o pince-nez e a encarou com mais cautela:

— És a filha do Santos, não é mesmo? — perguntou com sua voz trêmula da velhice. — Aquela que escreve nos folhetins!

Mariana assentiu, um pouco admirada de também ser reconhecida pelos folhetins.

— Minha empregada lia suas colunas para mim, tens uma escrita deveras intrigante! — continuou a senhorinha, levemente impaciente.

— Obrigada — Mariana respondeu um pouco hesitante, sem saber se era um elogio ou não.

— Mas ao que eu soube, tu paraste de escrever para a coluna, então já casaste?

Ela franziu a testa, um pouco confusa, mas assim que compreendeu o raciocínio da senhora, ergueu a mão, balançando-a em negação.

— Não! Quero dizer, eu não escrevo mais para o folhetim, em verdade parei há poucos meses, mas...

— Então de certo já casaste! Não é apropriado para uma jovem investir seu tempo em coisas fúteis como a escrita, ademais tu já estás passando da idade para casar. — A senhora a interrompeu com aspereza. — Mas ninguém comentou nada sobre seu casamento, nem recordo-me de ter sido convidada!

— Eu não me casei, D. Ferdinanda — ela explicou em um tom de voz um pouco mais alto.

Graças a Deus, seu pai as interrompeu nesse momento, antes que Mariana perdesse a cabeça com D. Ferdinanda. Ele surgiu acompanhado de um simpático cavalheiro, que para a surpresa de Mariana, estava bem diferente do rapazinho franzino que vira há anos. Ele estava mais alto e seus ombros mais largos, destacavam-se em seu terno escuro e luxuoso; o cabelo castanho e a barba estavam bem aparados. Ele havia se tornado um belo partido, mas Mariana teria de ser bastante prudente e ignorar sua traiçoeira beleza.

— Sr. Martins, não sei se o senhor se recorda de minha filha, Mariana. Ela é ótima na escrita, como bem lhe disse, mas pouquíssima chance no jornal. Na verdade, uma injustiça sexista, acredito.

O rapaz lhe lançou um olhar manso e um pequeno sorriso deslizou por seu semblante, enquanto fazia uma leve mesura.

— D. Mariana, nada me deixaria mais encantado do que receber algum texto de sua autoria. Se a senhora tiver algo escrito, pode me enviar na segunda-feira de manhã.

— Se o senhor quiser conversar com ela com mais calma, sr. Martins, creio que minha filha... — Seu pai atalhou com prudência.

— Sr. Santos, seria um privilégio. — Ele a fitou com graça, mas rapidamente desviou os olhos acastanhados para o pai. — Contudo, prometi ao sr. Fidalgo que juntar-me-ia a ele antes do jantar. E, infelizmente, não posso quebrar minha palavra. — Voltou a fitá-la. — Estarei esperando seu texto, D. Mariana!

Ele se despediu dos dois e se enveredou pelo salão, cumprimentando algumas jovens. O pai de Mariana ergueu a sobrancelha ao encará-la.

— Só cuidado com ele — aconselhou ao se separar da filha.

Seu pai não precisava avisá-la de nada, era óbvio que ele estava mais interessado em rabos de saia do que conversar sobre negócios. Laércio Martins era exatamente como os boatos o retratavam. Ela o observou de longe, enquanto que ele bebia várias taças de vinho, galanteava algumas moças, as mais belas do jantar, e ria-se com os demais jovens. Pareceu conversar com sr. Fidalgo alguns minutos e se desvencilhara para aproveitar o jantar. Sinceramente, ele não se encaixava em nenhum molde de cavalheiro, porém, era o único que ao menos leria seu material, e só então poderia julgar sua escrita com veemência.

***

Na segunda-feira de manhã, os boatos sobre o jovem Sr. Martins transitavam por todos os recantos da cidade. Diziam que o viram sair do jantar acompanhado de uma tropa de amigos, e se foram para o Café dos Terríveis e só partiram poucos minutos antes de clarear, na companhia de uma mulher de procedência duvidosa. Ao que parecia sua conduta não seguia em nada os padrões de um homem letrado, mas Mariana estava esperançosa. E, mesmo que ele fosse um esbanjador libertino, a oportunidade de ter seu texto publicado não podia ser desperdiçada, por isso, logo cedo enviou alguns textos seu para o prédio do Jornal "A pimenta".

Passara o dia aflita, devorando livros nas estantes com a esperança de se distrair. Porém, sua mente voltava a divagar em seus textos, voltou ao seu aposento e sentou-se em frente a escrivaninha, revisando seus textos. Desde pequena sempre teve aptidão para a escrita, na adolescência trocara as cartinhas e contos infantis por artigos curtos, até consegui-los amadurecê-los ao ponto do próprio pai, tão crítico, elogiá-la. Na faculdade, não demorou para que seus textos se destacassem mesmo que fosse a segunda mulher na turma. Logo depois conseguiu publicar nos folhetins femininos, mas ela tinha certeza de que poderia escrever para ambos os sexos. E até então, tentou.

E apenas na quarta-feira à tarde, uma carta chegou endereçada a ela. Sua mãe a recebeu, vibrando mais que a filha, até seu pai quis saber o que dizia a carta, mas Mariana se escondeu em sua alcova e a abriu sozinha. E como se de repente não sentisse mais nada, leu cada linha em apenas um sopro, concentrando-se apenas na linha final.

"Como esperado, D. Mariana, sua escrita não deixa nada a desejar, gostaria de que amanhã, durante o período matutino, viesse ao meu escritório para conversarmos melhor..."

Mariana deixou a carta ao lado da máquina de datilografia, e saiu aos berros pela casa. E sua mãe, sentada na cozinha, usufruindo de um chá de cidreira, teve certeza de que todas as rejeições afligiram seu estado mental.

***

Com as luvas bem abotoadas e o chapéu roxo posto sobre a cabeça, Mariana desceu da carruagem bem cedo naquela manhã. Os jornalistas ainda chegavam ao prédio e transitavam pelo saguão antes de começar a labuta de mais um dia. Ela atravessou o recinto com seu portfólio abaixo do braço e seguiu até uma mesinha, onde uma mulher robusta, datilografava com um semblante fechado.

Ela retirou o chapéu e se apresentou para a secretária.

— Tenho uma reunião marcada com o Sr. Martins, sou Mariana Santos.

A mulher robusta a olhou por cima dos óculos e parou de datilografar. E começou a procurar uma folha no meio de outros papéis, nesse instante, um cavalheiro, aproximou-se.

— D. Mariana! — Tratava-se do sr. Dos Anjos, um dos redatores que a rejeitou. Ele estava com o cabelo repuxado para o lado, sustentando um fiapo de bigode em cima de um sorriso obviamente forçado. — Não quero ser rude, mas o que eu a senhora faz aqui?

Mariana ergueu o queixo, expondo o pescoço delgado e olhou a secretária por cima.

— Tenho uma reunião marcada com o Sr. Martins!

O Sr. Dos Anjos coçou o cabelo bem penteado e indagou:

— Com o Laércio? É mesmo? É peculiar, confesso. — Ele ainda a olhava com incredulidade.

Só então a secretária se manifestou, avisando que o sr. Martins a esperava em seu escritório. O redator olhou as duas, boquiaberto.

— Com sua licença, senhor. — E fez uma mesura, endireitando a postura.

Ela se desviou do redator e acompanhou a secretária. As duas subiram as escadas e seguiram até a segunda porta do andar de cima. A secretária abriu a porta e a anunciou, depois permitiu passagem e assim que Mariana adentrou, ela fechou a porta. Seus ombros estavam encolhidos, quando ela se viu sozinha com o sr. Martins.

Ele estava sentado atrás da mesa com uma pequena pilha de papel ao lado da máquina de datilografia, ela acenou, aproximando-se da mesa. E ele apagou seu cigarro no cinzeiro, e levantou-se para cumprimentá-la.

— D. Mariana, devo confessar que sua escrita me deslumbrou! — disse, oferecendo-a o assento em frente a sua mesa. Mariana repousou o chapéu sobre a mesa e sentou-se. — Escreve com maestria, e seu pai estava corretíssimo. Admito que estava hesitante em acreditar, uma vez que o pai sempre acha bom o que seus filhos fazem.Nunca imaginei que pudesse ter tal talento, a senhora me surpreendeu, parabéns!

Mariana sentiu as bochechas esquentarem, sorriu, e sem demoras, foi direta no assunto:

— Então sou levada a crer que o senhor tem interesse em publicar-me, não é?

De repente o rapaz pareceu hesitar, pigarreou de leve e voltou ao seu assento. Mariana notou um copo de whisky, já pela metade, ao lado dos papéis e da máquina de datilografia.

— De certa forma, sim, eu tenho interesse em publicá-la... — Ele respondeu, mas então se interrompeu, voltando aos olhos para uma mesinha na entrada. — A senhora deseja algo para beber? Café? Chá? Vinho? Eu tenho de tudo aqui, é incrível como tudo é mais fácil para um editor... — E fez menção de se levantar, mas Mariana o impediu, tocando em seu punho.

Era evidente que ele a embromava para contar a verdade por trás de seu interesse, e ela não podia aguentar mais uma rejeição.

— Por favor, Sr. Martins, o que tem de falar diga o agora! Quero que seja honesto e direto — ela atalhou ao cruzar as mãos sobre a mesa e o fitou com firmeza.

O editor coçou a barba como estivesse em agonia e prosseguiu:

— Eu quero publicá-la, mas o jornal não permitiria que uma mulher escrevesse uma coluna. Nem eu posso dar-me o luxo de expô-la assim, seria deveras arriscado, a senhora compreende? Ainda sou um novato aqui...

O semblante dela caiu, e desviando os olhos para a mesa, viu algumas fotografias espelhadas, levemente embaçadas. Ela assentiu, voltando a encará-lo.

— E então, por que o senhor se deu o trabalho de receber-me se já sabia que não poderia publicar-me? — Rebateu com as sobrancelhas juntas.

— Por favor, D. Mariana, contenha-se! Eu tenho interesse em publicá-la, bem disse. E seu pai foi tão cordial comigo. Deixe-me explicar o que eu pretendo, por favor. Fiquei pensando por muitas horas, confesso, e tive uma ideia! — Ela escutou as pernas dele chacoalharem abaixo da mesa. — Seu nome inteiro é Mariana Leocádia Santos, não é? — Ela assentiu, ainda com o semblante fechado. — Poderíamos usá-lo como pseudônimo, abreviando-o. — Ele recolheu uma folha em branco, rabiscou com uma caneta de pena e mostrou-lhe. Estava escrito M. L. Santos. — Contudo, é melhor que retiremos o "Santos" e substituiremos por um sobrenome inventado... Entende o que eu lhe proponho?

Mariana encolheu os ombros e não parecia nenhum pouco contente com a proposta. Ela sentia todas as esperanças se esvaírem.

— Sinto muito, D. Mariana, mas é o que eu posso lhe oferecer nesse momento!

Ela estava contrariada, mas manteve-se em silêncio, pensando. Voltou os olhos para o papel assinado pelo o Sr. Martins, encarando as suas iniciais. Seria uma vergonha não receber os devidos prestígios de sua escrita, e sua família... O que o seu pai falaria ao saber disso? Seus escritos e artigos expressavam a sua visão sobre a vida, o que ela seria sem aquilo?

— Sr. Martins, eu...

— D. Mariana, pense com cautela. Não quero que a senhora se arrependa depois. Pense bem, se a senhora quiser escrever em um jornal deve começar debaixo. — E ele tomou o copo com whisky na mão, mas não o bebeu. — E então?

Ela respirou fundo. Fizera faculdade e cursos para ser acobertada por um pseudônimo. Ao menos teria o prazer de ver seus textos em jornais. Ela não seria a única, as irmãs Brontë, Jane Austen e tantas outras fizeram o mesmo, ela também podia se dar bem.

— Eu aceito sua proposta, Sr. Martins. Contudo, meu sobrenome será Reis.— respondeu com mais firmeza.

— Reis?— Ele indagou confuso.

— É o sobrenome de solteira de minha avó.— explicou com um semblante benevolente.

— Já que é importante para a senhora, quem sou eu para pedir o contrário? Que assim seja. — Então, ele abriu a primeira gaveta atrás da escrivaninha e retirou uma pequena pilha de papel. — Estes são os assuntos que eu gostaria que a senhora escrevesse, estão em ordem, e eu preciso do primeiro artigo para sexta-feira. Mas antes, preciso que a senhora assine um documento de confidencialidade, é só uma burocracia sem sentido. — E terminou com uma risadinha forçada, puxando um documento também da gaveta.

Mariana tomou o papel em mãos e leu apenas algumas linhas, estava tão ansiosa por ter seu trabalho publicado que nem pensou duas vezes antes de assinar seu nome no final da página. Devolveu-lhe o documento logo em seguida. Sr. Martins alisou a barba, examinando a assinatura dela e de imediato guardou o papel.

— Esperarei por seus escritos, D. Mariana. Por favor, não se atrase com os prazos.

— Não sabe o quanto me faz feliz, Sr. Martins!

E logo se foi com mais de cinco envelopes nos braços, com um sorriso que lhe fazia arder as bochechas. Sua mãe até se assustou ao vê-la tão feliz, mas seu pai, quieto, apenas consentiu quando ela se trancou em seu aposento com um monte de papel.


Fim do primeiro ato

5 de Mayo de 2019 a las 17:32 0 Reporte Insertar 1
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