A Lenda do Exílio Seguir historia

luneler Lunéler Elias

Uma história que explora a relação emblemática entre o homem e seu Criador.


Fantasía Épico Sólo para mayores de 18.

#suicidio #ciorã #ru #exílio #lenda #Confidência
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Um alguém

Um suicida em potencial estava à beira de um abismo enxergando as pedras à cerca de trezentos metros. Era a quarta vez que estava lá, mas nunca teve coragem de levar adiante seu pequeno projeto de evasão. Encarar tantas vezes a pré-morte faz com que você se torne um pouco frio e complacente com o ato em si. De repente você não pensa mais nos detalhes de como seus ossos se partirão ou como vai sentir os órgãos se espremerem em uma fração de segundos, passa a desejar o momento... que nunca chega.

Jamais a decisão chegara a este ponto. O encorajamento veio fervilhando de seu desespero e o fez fechar os olhos para se atirar. Definitivamente estender os braços não era a forma mais fácil de fazer isso... Toda aquela angústia da indecisão, do fim e do início, do vazio no estômago... Era impossível não sentir o coração disparar. Depois de uma montanha russa de vais e vens, ferventada pela emoção de ver tamanha paisagem se estendendo a sua frente, sua alma parecia já ter tomado a decisão.

Quando ele chegou a este ponto, não havia mais o que ser resgatado. Seu corpo só estava procurando, quase que instintivamente, a melhor maneira de escapar do momento do impacto, por mais que sentar-se à beira da rocha não fizesse nenhuma diferença para uma queda de centenas de metros. Mas lá estava ele, agora rindo por dentro, tentando tirar a seriedade daquilo tudo, fazer com que parecesse mais brando e desimportante.

Ainda com as pernas balançando a muitos metros de altura, vendo a pedra em que provavelmente teria seu primeiro choque, foi debruçando o corpo para frente, com as pontas dos dedos deslizando na rocha logo atrás de suas nádegas. Segundos antes de cair, ele ouviu uma voz:

— Não, agora não!

Por um momento pensou que já estava em delírio, mas hesitou. Reclinando lentamente o corpo para trás, ele suspirou profundamente e sua lucidez parecia explodir, enquanto seu coração batia como um terremoto e suas pupilas se dilatavam. Ainda com os olhos esbugalhados, encharcados de lágrimas, fitando o horizonte, ele ouviu uma risada sagaz de deboche.

— Você deveria ver a si mesmo. Fazia tempo que não me deparava com tamanha idiotice - risos contidos.

Certamente aquele tipo de palavra não era um apelo para que não se jogasse. Talvez por isso ele tenha cogitado outra alternativa. No fundo, o sujeito não queria praticar o suicídio, queria apenas um pouco de atenção de alguém. Seu pai aconselhando-o a não se jogar teria surtido menos efeito do que aquela risada. Quem em sã consciência humilharia um coitado prestes a se matar? Talvez essa tendência do ser humano de preferir a humilhação à solidão já estivesse aflorando. Quase como quem faz sem esperar reação, ele urrou três ou quatro palavras sem sentido, pois não sabia se comunicar.

Agora o silêncio parecia sentar-se a seu lado. Concluiu que aquilo fora apenas um delírio de um libertário em processo de desmanche. E quando resolveu continuar seu ato, novamente a voz surgiu.

— Aceita uma proposta tentadora? Já ouviu falar em simbiose? Eu sou Ru, o princípio de todas as coisas.

E soaram graves trombetas pelo infinito, tão alto quanto as sirenes de um navio de carga!

* * *

Há muito tempo os distúrbios de Ru insistiam em castigar aquele mundo, por alguns povos chamado de Fondara. Era difícil compreender em que fase ele estava quando o mundo estremecia. As enormes fendas que se abriam no chão e derramavam lava, os tornados e furacões, as tempestades alimentadas por um céu cinzento e carregado, numerosas descargas elétricas, tudo parecia fugir ao controle de sua mágoa.

O mundo estava em ruínas, devastado pela emblemática natureza de Ru. Já não se podia distinguir quando era dia e quando era noite, pois o céu estava completamente coberto pela fumaça escura dos vulcões em erupção. O magma borbulhava abundantemente para cobrir a terra, tingindo todo o cenário de um vermelho ardente e pessimista. O cheiro de enxofre era sufocante e levava o desespero os seres vivos que tentavam sobreviver. As ressacas de Ru vinham como a maré, em rajadas pulsantes que se propagavam insistentemente.

A força com que o cenário simplesmente deixava de existir era assustadora. Mas o humor de Ru era algo complexo, contraditório... Hora ele chorava, hora ria, às vezes permanecia inerte. E cada vez que seus ânimos se acalmavam, o mundo parecia presenciar o medo, como uma criança após ser açoitada, contemplando o rancoroso silêncio do trauma. Era assim que ocorria, tudo muito intenso e muito brando, as crises podiam durar dias, ou minutos, esse era o paradoxo existencial do Criador.

Dias atrás, o estranho sujeito que aspirava o suicídio compunha um grupo de desesperados sobreviventes, buscando algum refúgio para escapar dos efeitos sísmicos avassaladores. Os tremores vinham repentinamente, arrasavam tudo e iam embora. O último acabava de exterminar todo seu grupo; apenas ele sobrevivera, encolhido embaixo de um tronco de árvore. Quando aquilo cessou, ele saiu de lá e viu que tudo estava incendiado pelos trovões que acompanhavam o sacolejo. O fogo havia consumido o que estava a sua volta, transformado o cenário em cinzas, espalhadas como fumaça, partículas em suspensão.

Em total desolação, ele foi atrás do último indivíduo por quem nutria algum amor: seu pai! Sem rumo, vagou ele sobre os corpos carbonizados de seu grupo. Os cadáveres jaziam aos montes, entulhados uns sobre os outros, exalando o cheiro de gordura e pele queimadas. Com seus pés ardendo no braseiro do chão, começou a procurar seu pai, virando cada defunto para avaliar o rosto. Certo momento, avistou um corpo com um cajado de madeira na mão. Era ele! Seu pai costumava carregar o objeto.

E naquele instante não importava mais que seus pés estivessem queimando, pois toda sua atenção se voltou para o corpo do pai. Seus olhos inundaram e suas mãos tremeram, indo lentamente à boca entreaberta e fibrilante, enquanto cambaleava para encontrá-lo. Arriando-se no chão, depois andando de quatro para perto dele, tocou-o com as pontas dos dedos, revirando-o para si. E quando se deparou com a face de dor e sofrimento de seu ente querido, entrou em completo arraso, abraçando o corpo carbonizado dele, que se despedaçava como torrada entre seus dedos.

Seu choro enfadonho, picotado entre a mudez e os soluços, pareciam ser o único som a quilômetros de distância. As lágrimas escorriam com abundância, unindo-se à secreção nasal e sua viscosa saliva para interligar os lábios inferior e superior da boca aberta. E um grito penetrante de desgosto ecoou sobre o cenário destruído, encerrando a fase do descontrole pelo qual muitos seres humanos passavam ao se deparar com essa situação.

Nesta época, o homem ainda não estava completamente formado. Eles eram seres primitivos, que ainda agiam como animais e se comportavam de forma praticamente instintiva, por ainda não terem consumado sua razão. E, por mais que ainda não tivessem rompido o frágil limitar da racionalidade, ao defrontarem-se com a morte, uma sequência indefinível de perguntas esgarçava a mente deles. Esse era o primeiro sinal de que o homem tangenciava a razão, de que pouco faltava para que entrasse em conflito consigo mesmo, questionando-se sobre sua importância.

Era por isso que a dor era tão forte. Um sentimento que eles não sabiam determinar, mas tão intenso que desmontava qualquer esperança. A questão mais profunda não repousava sobre a morte em si. A perda, óbvio, os feria emocionalmente, mas o grande desespero emanava de outra ideia, incutida em seus cérebros como parasitas se alimentando e engordando. A essência do problema era o senso crítico que os permitia questionar sobre o futuro, sobre o que há depois que o corpo padece. O ser humano não pode viver sem destino, sem o que lhe nutrir sobre o motivo da vida. Essa era a primeira vez que o homem enxergava a morte dessa perspectiva, pois até então, reagia a ela como qualquer outro animal, expurgando de si certa resignação, mas aceitando o papel da cadeia da vida.

O óbito tão próximo trazia a tona uma conjectura nova para aqueles homens: “E quando for a minha vez?”. A incerteza do depois, da existência de um novo local para se refugiar... Isso tudo estava acontecendo porque o ser humano, em sua zona limítrofe da inteligência, iniciando sua emergente percepção da vida, amava cada nota do viver. Como nem um outro animal fora capaz, o homem desenvolveu uma paixão incomensurável pela vida, pelos prazeres que ela oferecia. Talvez por isso essa espécie insistisse tanto na sobrevivência, se refugiando, lutando para não perecer.

Então o momento de choro daquele homem foi se esvaindo. Sua sanidade parecia ter escorrido junto com as lágrimas, de tal forma que ficou inexpressivo e confuso. Não se sabe o porquê, ele caminhou por aquele terreno desolado durante algum tempo. Parecia não se importar com seus pés moendo-se em pedras, brasas e espinhos, deixando o rastro de sangue por seu trajeto. Determinado instante, viu ao longo do horizonte uma gigantesca depressão geológica, formada pelo brusco rebaixamento do chão. Abriu-se ali um penhasco bastante alto. Resolveu, então, ir até lá e encerrar aquela tragédia toda que era sua vida. A propensão ao suicídio viera junto destes traços de racionalidade e, de alguma forma, tudo isso parecia ter origem na mente de Ru.

Nem ele mesmo sabia o que estava procurando com aquela atitude. Sempre que ele se aproximava da beira do precipício e decidia atirar-se, o instinto de sobrevivência e autopreservação, natural da criação de Ru, o segurava. Três vezes ele havia tentado e três vezes falhou. Entre suas frustradas tentativas, sentava-se e deixava os dias correrem a frente de seus olhos.

E chegamos novamente àquele momento em que Ru resolvera conversar com o sujeito. “Já ouviu falar em simbiose?” Aquele som grave ecoando pelos céus, fazendo a terra tremer, causando arrepios... O colapso estava ali, cochichando em seu ouvido! “Aceita uma proposta tentadora?”. Essa frase talvez tenha sido a responsável pela salvação dele, por mais que ainda não tivesse desistido de sua morte, e sim apenas prorrogado.

E de repente tudo se apagou e houve um grande momento de quietude entre os terríveis estrondos daquelas ressacas inquietas de Ru. Havia uma grande brecha na vida daquele alguém, pois quando acordara, não se lembrava do passado recente. Era como se houvesse um grande hiato temporal entre o prenúncio de seu suicídio e o seu despertar.

5 de Mayo de 2019 a las 16:32 0 Reporte Insertar 0
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