A herança Seguir historia

luneler Lunéler Elias

Se você é sensível a cenas fortes, não leia isto. Este é um conto que expressa a relação de domínio e repressão entre o pai e um filho.


Cuento Sólo para mayores de 18.

#assassinato #pedofilia #masturbação #arma #herança #surra #chicote #cinto #couro #africano
Cuento corto
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A herança

Até que ponto o desejo humano pode nos transformar? Bill não costumava lançar seus olhos sobre a mulher alheia, muito menos cobiça-la; isso afrontava seus princípios.

Bem criado que fora, doutrinado na santa fé, acostumado aos felizes costumes salutares de uma família da classe média, não podia aceitar a si mesmo naquele estágio. Um indivíduo correto, íntegro, moralmente disciplinado, educado na rigidez e no respeito, incapaz de ceder aos próprios prazeres. Mas ocorre que o temperamento humano satura, expande-se, dilata... Uma hora explode!

Foi por isso que ele chegou a esse momento rancoroso de estar com as mãos sobre a boca de uma garotinha de nove anos, abafando seus gritos no porão de uma casa. Que motivos teria ele para rasgar o livro da conduta acertada e cuspir no lenço da ética e dos bons costumes? Mais ainda, o que o conduziria ao abuso, à pedofilia?

Pois é... O corpo humano é frágil por dentro, sucumbe facilmente sob pressão. E foi por isso que Bill se enterrou na imundice de seus desejos carnais e fez o que qualquer um reprovaria.

As coisas não ocorrem de forma repentina, elas vão evoluindo gradativamente, pelo menos para os sãos. Quando ele era pequeno, seu pai, Antonie, o reprimia por todo e qualquer comportamento desviado da conduta de um cidadão respeitável, digno e inteligente. Mas isso se agravou cada vez mais e tornou-se uma obsessão, uma doença, um fanatismo perigoso.

Aos sete anos de idade, Bill não vivia mais, apenas era conduzido pela vida alinhada que tinha. Seu pai o obrigava a vestir-se adequadamente em todas as ocasiões, o ensinava todos os preceitos da etiqueta, o tolhia cada vez que tentava ser ele mesmo. Ele desenvolveu uma personalidade reprimida, incapaz de enfrentar qualquer perigo; era passivo, influenciável, desprovido de motivação. Obviamente, a pura repressão verbal não fora suficiente para deixá-lo daquela forma; Bill sofrera todos os tipos de castigos corporais que se podia imaginar na época.

Bill não comia chocolate, nem pizza, nem batata frita, nem nada que tivesse indícios de prejuízo à saúde. Bill não jogava bola, pois seu pai não gostaria que se envolvesse com os vizinhos “marginais”. Bill não tinha brinquedos, pois eram inúteis para o desenvolvimento do cérebro. Bill não tinha amigos, bastavam-lhe os livros de filosofia e história que deveria ser lidos a custa do estalo de uma cinta de couro africano. Bill não chorava, pois se o fizesse, Antonie o castigava com uma vara de cipó artesanal. Bill era nada e ninguém, vivia para o sucesso e para o ego de seu pai, para ser um cidadão perfeito, politicamente apresentável.

Aos doze anos, o menino descobria seu corpo e se masturbava no banheiro de casa. Um descuido com o trinco da porta foi o bastante para que Antonie o flagrasse e o arrancasse de lá a força, arrastando-o pelo corredor da casa com as calças arriadas. Naquele dia, Bill apanhou com um cano de ferro da obra da casa, desses que se usa para erguer um andaime. Desde então, nunca mais se masturbou.

Sua mãe, Luiza, tão vítima quanto ele, calava-se escondendo os olhos inundados atrás da porta, ouvindo os estalos da surra e os gritos autoritários de Antonie. O pai, ou monstro, era soberano, infalível, perfeito, não errava nunca. E quando Luiza não sedia a seus desejos sexuais, o fazia a força, utilizando a cinta para cobrar o que achava que tinha direito. E não poucas vezes a cinta não foi suficiente e ele se viu no direito de usar os punhos até arrebentar a face dela.

Aos dezessete anos, Bill foi aprovado na melhor universidade de Nova Iorque. Com um futuro brilhante nas mãos, dedicou-se integralmente aos estudos e logrou primeiro lugar em todos os quesitos avaliados. Seu rendimento encheu Antonie de orgulho do filhão perfeito, do garoto mais bem sucedido de sua idade. Ele, no entanto, não era feliz, pois vivia sobre um regime de abnegação e poda inimaginável.

Para os que viam de fora, tudo parecia perfeito, perfeito até demais. E ele não ousava contar nada do que sofria para ninguém; sua personalidade era uma grande mentira, uma casca irreal de um ser inexistente. Isso não tardaria a mudar, pois sentia seus nervos agitarem-se no enfurecer dos ânimos. E precisaria, então, de uma válvula de escape.

Porém, seu comportamento e sua mente foram transformados de tal forma irreversível que jamais poderia quebrar as regras irreais que assimilara. Infringir o que incutira na ilusão do bem viver significava trair a si próprio, motivo pelo qual ele criou dupla personalidade. O novo Bill não tinha regras, não tinha censura, era isento, livre e descontrolado.

E tudo que o Bill correto não podia fazer, o Bill canalha tratava de proporcionar. Obviamente, tudo isso ocorria com o auxílio de seu elevado grau de sensatez aparente e inteligência circunstancial; nunca um ato depravado tinha sido percebido.

Ele aprendeu a provar tudo o que não pode aproveitar nos seus então vinte e cinco anos. Apertado sobre as correntes do medo, esgoelado pelo seu superego, reprimido pelos olhos da sociedade, Bill desenvolveu desejos ilimitados e perversos, pois Antonie o transformara em um monstro. E passou a frequentar as portas das escolas do primário e oferecer doces para as crianças. As conduzia para as salas de aula, para os becos ou para os banheiros e abusava delas, ameaçando-as com uma faca.

Bill era sagaz, sabia como influenciar uma mente infantil, como levá-la gradativamente ao consentimento inocente do ato, gerenciando o convencimento e a ameaça. Assim, estuprara mais de quinze meninos e meninas que esperavam o ônibus das escolas mais afastadas. Fazia com que nenhuma delas tivesse coragem para contar o segredo aos pais ou aos amiguinhos, era um verdadeiro manipulador.

E não fosse sua própria consciência, jamais terminaria com aquela prática. Certo momento, no entrechoque de sua moralidade e de sua satisfação, entrou em conflito consigo mesmo e, a custa de loucos arranhões na face, diante do espelho, deixou uma carta sobre sua cama revelando que sua próxima vítima seria levada para o porão de uma casa abandonada da mesma rua onde residia.

A carta revelava tudo o que ele havia feito e haveria de fazer. Registrava, inclusive, toda sua angústia provocada pela criação e culminava com as sinceras palavras: Veste pai, o que fizeste com teu filho? Olha o que sou, veja o que és!

Quando Antonie leu a carta, pediu a Luiza que ligasse para a polícia. No curto tempo em que ela descia as escadas, ele amarrou uma corda na janela, preparou um laço de enforcamento e se atirou do segundo andar. Luiza, com o telefone nas mãos, vira pela janela o corpo despencar lá de cima e dependurar-se a dois metros do chão.

Sufocado, perdendo a capacidade de respirar, arrependido de desperdiçar sua vida apodrecida, fitou os olhos de Luiza e balbuciou um pedido de socorro. Segundos depois, fazendo a leitura labial de sua mulher do lado de dentro da casa, viu-a dizer:

—Queime nas chamas do inferno, seu desgraçado!

Ainda na mesma noite, ela apanhou a arma de Antonie na gaveta do quarto, dirigiu seu conversível do ano até a casa abandonada e foi até o porão onde Bill abusava de uma vizinha de nove anos. Aos batuques na porta, a criança gritou, mas teve o som abafado pela mão do pedófilo.

Nervoso, suado, com a voz trêmula, perguntou quem estava do outro lado. Luiza respondera: “Sou eu meu filho, abra a porta, vai ficar tudo bem, mamãe não vai contar pra ninguém. Sei que a culpa não é sua.”.

Bill chorou, mas negou-se a abrir a porta, dizendo que estava com medo. Luiza tornou a confortá-lo com suas palavras doces e maternas até que ele resolvesse abrir a porta.

Ela o trouxe para o peito para que chorasse como um bebê e o afagou a cabeça, apoiando seu queixo nos ombros dele. Em um último lance, aos soluços desesperados do filho, Luiza viu a menina de nove anos morta no chão, nua e descabelada.

— Mãe, fiz uma besteira, me ajuda. O que eu faço?

—Calma, meu filho, vai passar. Seu pai te deixou uma herança ruim.

O projétil espalhou pela parede os miolos de Bill, tingindo a madeira velha com sangue e pedaços do cérebro.

— Pronto filhinho, já passou!

5 de Mayo de 2019 a las 16:15 0 Reporte Insertar 0
Fin

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