Ilounastia-Lapso Mental Seguir historia

luneler Lunéler Elias

Doto era apenas um jovem do vilarejo de Borvênia. Conhecido em toda região pelo temperamento amistoso, Doto dividia seu tempo entre a agricultura e o amor por sua companheira Eliff, até que um evento inesperado, Ilounastia, ameaçou destruir sua realidade. Guiado por Deplório e Tuí, ele descobre ser detentor de uma anomalia mental capaz de manipular o limite entre o real e o imaginário, e para controlá-la, vê-se forçado a embarcar em uma nova jornada, repleta de dúvidas, perseguições e a decisão de matar, ou não, uma criança.


Fantasía Medieval No para niños menores de 13.

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O estilhaçar de sonhos

Da última lágrima de dor e do sangue derramado por uma espada, nasceu uma criança. Aconteceu em uma simples casa de madeira, em meio aos gritos e à confusão da guerra. Era o ataque definitivo a um vilarejo chamado Bálagos, saqueado inúmeras vezes por uma tribo de mercenários. Desta vez, tratava-se de um extermínio, sustentado pela morte e pela submissão.

Naquela noite, houve um momento de fulgor, em que os frágeis muros da cidadela cederam perante as pancadas dos invasores. As casas foram incendiadas e as pessoas assassinadas. No instante do saquear, uma mulher dava à luz sobre o tapete no chão do casebre. As chamas se alastravam pela cidade, iluminando a casa e dando contorno a um homem, que bloqueava a porta com alguns móveis. Ele dividia sua atenção entre a porta e os gritos espasmados de sua mulher.

E quando o berro final da moça se desencadeou, aquele pequeno fruto do sofrimento deixou o útero. O pai da criança, já tendo empilhado tudo o que podia atrás da porta, apanhou o bebê nos braços e viu que os olhos de sua esposa estavam fixos e petrificados. Ela estava morta, não resistira ao pânico da circunstância. A morte no parto talvez poupasse aquela família do sofrimento que emanava da guerra. O frio da madrugada arrastava o espanto da tragédia.

A entrada da casa não suportaria muito tempo, pois o inimigo a empurrava e batia com cada vez mais força. O cavaleiro, já sem alternativas para esconder o bebê, levantou parte do tapete e puxou uma das tábuas do chão, abrindo um pequeno compartimento, onde o colocou. Enquanto terminava de esticar o tapete, a porta começou a ceder. Com truculência e rapidez, dois ou três inimigos adentraram a casa armados com espadas e machados. Houve um ferrenho combate corpo a corpo no espaço do cômodo, que se encerrou com o sangue espirrado nas paredes. O pai da criança deixava a vida ali, atirado no canto da sala, com as mãos sobre os ferimentos em seu abdômen.

Talvez por consequência do destino, aquela casa não foi queimada, nem o choro da criança ouvido. Horas depois, os invasores abandonavam a cidade, deixando o vilarejo arrasado. No amanhecer frio daquele inverno, as chamas pareciam perder força. Tudo estava destruído e saqueado. Quando o silêncio pousou sobre os vestígios da guerra, começaram a surgir alguns poucos aproveitadores, famintos ambulantes que se aproveitavam dos saqueamentos para se suprirem nos restos. Um destes homens, encapuzado com uma túnica marrom surrada, aproximando-se da casa mencionada, ouviu o choro da criança. A todo custo tentava ignorar aquele som, mas não podia, mesmo com a característica fria e desonesta de um oportunista atrás dos desalentos da guerra. A curiosidade e a compaixão o fizeram presenciar o martírio do cenário e levantar o tapete. Não podia simplesmente ouvir aquele choro até que a criança morresse. Com certa hesitação, apanhou o bebê e levou-o consigo, deixando para trás todo o sofrimento.

Pouco mais de um dia de caminhada pelas florestas frias da-quela região foi suficiente para ele chegar à sua cidade de origem, Borvênia. Não havendo muitas escolhas a serem feitas, o homem, já um senhor de pelo menos cinquenta anos, adotou a criança para si, dando-lhe o nome de Doto Insólito.

Naquele vilarejo, o velhote era conhecido como Ordero. Sua fama não era das melhores, não era provido de muitas qualidades, estava a maior parte do tempo mal-humorado, resmungando sobre sua frustrante vida. As crianças que viviam naquela localidade costumavam chamá-lo de velho do milho, pois passava boa parte de seu dia cultivando uma modesta plantação desse cereal. O velho era também um solitário viúvo, endurecido pela perda de sua esposa.

Apesar de sua frieza, o indivíduo alimentava certo afeto pelo bebê, pois isso mantinha sua cabeça ocupada e tornava menos monótonos os seus dias. O pequeno sobreviveu à custa da ajuda de muitos dos moradores, que vinham trazer alimentos, leite e roupas, já que a pouca renda de Ordero não possibilitava a compra de mui-tos mantimentos. Ele era agricultor e tirava seu sustento da venda de seus produtos excedentes. Quando a safra não era boa, complementava suas finanças esculpindo peças de madeira.

Sendo Ordero uma pessoa tão séria e rancorosa, Doto fora educado com disciplina e rigidez, acostumado ao trabalho intenso. Todos os dias eles levantavam cedo para arar a terra, atividade que frequentemente se estendia até a hora do almoço; à tarde, eles de-dicavam-se à marcenaria. Nesse cenário repetitivo e desgastante, o garoto crescia.

O menino não era uma daquelas crianças mimadas pelos vizinhos, muito menos alvo de elogios. Era, sim, um garoto um tanto quanto desajeitado e feio, considerados os padrões de beleza aceitos no local. Os cabelos volumosos e mal penteados não lhe traziam boa aparência, assim como os olhos negros e desconfiados.

Porém, o que mais intrigava naquele garoto não era seu perfil descuidado, e sim seu comportamento estranho e introspectivo. Ele sempre foi quieto e tímido. Poucos momentos lhe faziam sorrir. Algumas manias pouco comuns, como isolar-se e falar sozinho, o tornavam alvo de implicâncias dos meninos de sua idade. Seus pensamentos distantes frequentemente o distraíam, trazendo alguma resistência para adquirir conhecimento. Às vezes, o garoto parecia perturbar-se com as amizades, motivo pelo qual cativava apenas dois ou três amigos de sua faixa etária.

A infância do menino não fora muito agradável, pois ele sofria de horríveis pesadelos quase todas as noites. Muitas vezes acordava gritando por ajuda. Esses e outros fatos intrigavam os moradores da vila, fazendo com que o temessem e se afastassem mais ainda de Doto. Algumas vezes ele dizia ver pessoas o vigiando pelas janelas da casa, principalmente à noite. Muitos diziam que ele era louco.

Após o ataque à Bálagos, não houve mais investidas de mercenários; não havia mais riquezas a serem roubadas, muito menos em Borvênia, um local tão pequeno e irrelevante. Assim, os anos cor-riam com rapidez e esbarravam nos momentos pacatos do vilarejo.

* * *

O tempo e a rotina transformaram seu corpo! Agora, Doto tinha seus dezoito anos. Magro, de pele clara e olhos negros que lembravam a noite. A forma como se vestia refletia simplicidade, inocência e certo desleixo. Tinha no coração a bondade natural e imatura de um camponês e era um jovem ainda muito inexperiente nos aspectos gerais da vida, desconhecendo, inclusive, o terror da guerra. Tinha seu conhecimento limitado às técnicas de plantio e à educação que recebera de Ordero.

Naquele dia, estava trabalhando com seu padrasto em um campo de colheita. Os dois aravam a terra com suas enxadas sob o sol do outono. O clima fresco, típico da estação, a brisa que movi-mentava as plantações e as muitas horas de trabalho expunham o marasmo da localidade.

Borvênia ainda era um vilarejo de espaço reduzido e voltado a pequenos cultivos, com vastos campos gramados e poucos mora-dores. Devido à pouca população, todos se conheciam e conviviam harmoniosamente. Doto Insólito e Ordero viviam sozinhos em uma humilde casa no pátio central.

Apesar de o jovem ter a maior parte de seu tempo empenha-do no trabalho agrário, mantinha o mínimo de convívio com seus poucos amigos. E desse convívio veio uma amizade que lhe seria importante. Ela vinha caminhando com a mãe, colhendo flores, dividindo discretos olhares com Doto. A enxada na mão dele, o suor escorrendo no rosto e certa singularidade em sua expressão tornavam-no diferente. Talvez tenha sido isso que chamou a atenção dela... Doto era um rapaz matuto e sério, algumas vezes desengonçado. Não sabia ler, nem escrever e sua propriedade intelectual mais relevante era saber plantar.

A mocinha chamada Eliff conseguia chamar atenção de Doto por sua beleza. Ela tinha cabelos compridos, castanhos e ondulados, sua pele lembrava um pedaço de seda, macia e clara. Seus olhos beiravam um dourado cósmico e seu corpo sinuoso tinha um aspecto intermediário que insinuava o desabrochar de uma flor. O sorriso encantador alinhava sutilezas com as sobrancelhas finas e delicadas. Tímida, bonita e zelosa, trazia uma companhia agradável.

Alguns meses atrás, ela chegou à cidade com sua família e, de imediato, estabeleceu fortes laços de amizade com Doto. Não de-morou muito para que aquela admiração intensa aflorasse entre eles.

O namoro em si não era declarado, pois brotara de tamanha timidez, tanto da parte de Doto como da parte de Eliff, que estacionara ainda no primeiro beijo. Após o singelo encostar de lábios, eles não mais se encontraram, talvez por vergonha ou mesmo por falta de iniciativa, decorrida do convívio no campo. O fato é que, no final daquele dia, eles se encontraram e este foi o ponto inicial de uma paixão que ainda fomentaria muitos sentimentos.

O casal esteve ao final da tarde sob uma linda cachoeira, onde o amor floresceu. O momento mágico da relação se tornou tão intenso que Doto mudou seu humor. Não era só uma paixão momentânea movida pela sensualidade, e sim a verdadeira essência do sentimento. Aquele dia marcou uma nova fase na vida do rapaz, mudando o rumo de seu interior sombrio.

Foram horas inesquecíveis, preenchidas pelo amor em sua plenitude. Eles estavam completamente apaixonados, tomados por um sentimento tão forte que cada beijo trazia um misto de sensualidade e sutileza. Eliff foi a primeira pessoa por quem Doto alimentou um sentimento tão intenso, e ele não sabia explicar qual era a origem daquela paixão. Episódios como esse se repetiram diariamente.

Todos os encontros e sumiços do casal não sofriam qualquer resistência por parte da família de Eliff, tampouco tinham algum se-não de Ordero. Provavelmente isso era uma consequência do estilo despreocupado dos moradores de Borvênia. Ordero, de uma forma ou outra, sentia-se feliz em ter Doto como seu filho, embora o tratasse de maneira bastante severa. A criação impunha ao rapaz que fosse respeitoso e generoso com seu padrasto, o que de fato acontecia não somente pela censura, mas pela personalidade acanhada e submissa do garoto.

Repetitivos e prolongados dias corriam pelo outono. As folhas caíam e eram levadas pelo vento nas vielas de terra da cidade. As casinhas simples, mas construídas com zelo, traziam um aspecto parecido com o de chalés. Havia um templo religioso no centro da cidade e algumas praças amplas e cheias de vida. As crianças brincavam com liberdade total e construíam memórias marcantes, que um dia se tornariam nostálgicas lembranças. E assim aconteciam os dias estáticos da cidadela de Borvênia.

E foi em uma noite de inverno que algo estranho começou a acontecer. Doto dormia em um quarto apertado, cuja janela dava para os fundos do domicílio. Antes de adormecer, ele adoçara seus pensamentos com recordações do dia feliz ao lado de Eliff. Logo entrou em sono profundo e começou a sonhar em um ritmo progressivo com diversos cenários. Tratava-se mais de um pesadelo movimentado por gritos de desespero, associados a locais sombrios. As imagens surgiam sem ordem e repetidas vezes, com sons muito confusos e desconexos.

Depois de experimentar essa aflição, acordou muito suado, com os batimentos cardíacos disparados e as mãos tremendo; ainda estava escuro. Fazia tempo que ele não tinha esses pesadelos, mas tranquilizou-se ao identificar o seu quarto, que continuava com a janela fechada e tudo o mais normal. Sua escrivaninha continuava bagunçada e o baú que tinha no chão, no canto da parede, permanecia aberto. "Foi só um sonho", pensou. Voltou a dormir.

Nas circunstâncias mais improváveis e duvidosas é que os sonhos se estilhaçam na realidade. Agora, os cacos pareciam ser o resto de sua tranquilidade.

Doto despertou! Onde estava? Primordialmente, ele se notou em movimento. Aos poucos, seus sentidos foram sendo ativados; ouviu um som extremamente ruidoso e ritmado, que lembrava algo metálico a arrastar no chão, e uma voz cantando em baixo tom, pronunciando palavras em um idioma desconhecido.

Um aroma de terra aguçou sua percepção olfativa e um gosto de sangue o fez reparar o paladar da sua boca seca. O tato surgiu de forma dolorida, pois ele pôde deduzir estar preso firmemente com correntes de ferro nos pés, na cintura e no pescoço. Um pedaço de pano amarrado à nuca cobria-lhe os olhos. Somado a isso, expandiram-se dores no seu braço esquerdo e nas canelas, dores facilmente superadas diante de uma intensa e culminante pressão na cabeça, que o levou ao desmaio.

A imaginação estava a um fio da realidade...

5 de Mayo de 2019 a las 14:06 0 Reporte Insertar 1
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