Amor de Soldado Seguir historia

zephirat Andre Tornado

O soldado Frint nunca teve qualquer dúvida em relação à sua vocação. Filho, e neto de soldados, o seu destino residiu sempre entre as fileiras de um exército. A estrita disciplina militar fora presença assídua na sua educação desde tenra idade e não se acanhava perante a exigência, o sacrifício e a solidão.


Fanfiction Películas Sólo para mayores de 21 (adultos). © Star Wars não me pertence. História escrita de fã para fã.

#guerra #amor #soldado #starwars #sonho #Vanessa #ACriaçãodaLuz #Cleo #Sidestory #Frint #Kram #AGuerradasEstrelas
Cuento corto
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Capítulo Único


Nunca pensou que se apaixonaria quando andava naquela vida transviada de delinquente, definida por assaltos a comboios de mercadorias. Havia uma razão bastante simples: naquela pausa de personalidade, ele era outra pessoa diferente do cadete Frint, estudante da Academia do Império Galáctico, filho e neto de soldados que tão bem serviram os seus superiores e o Imperador Palpatine. Não era ele próprio, não existia dentro daquela carcaça onde, supostamente, batia um coração e habitava uma alma. A seguir a cada trabalho, usualmente sublinhado por uma enorme violência e crueldade, não havia nada para recordar, para evitar os remorsos inerentes.


A excitação daqueles momentos era sugada para o buraco negro da sua reles existência nula. Mas antes de ser oprimida pela gravidade extrema que caracterizava esse corpo cósmico extraordinariamente letal, sentia alegria pelo que estava a fazer, ainda que fosse do lado errado da lei e da moral. Ele não se importava! Era um fantasma de gente que não obedecia a nenhum credo ou senhor, porque simplesmente não existia uma referência válida para obedecer após o colapso do Império Galáctico. Durante os ataques, em que ele e os outros bandidos desviavam os cargueiros das suas rotas e os aliviavam do peso dos seus porões, castigava os desobedientes, escarnecia dos cobardes e matava os impulsivos.


Seguia-se, normalmente, uma comemoração obrigatória do roubo bem-sucedido. Álcool, fêmeas, alarde. Ele ficava-se pela bebida, não queria outras confusões. Com a embriaguez invocava mais depressa o buraco negro que lhe haveria de sugar a estupidez de mais um delito seu. Pois ele não se orgulhava particularmente do que fazia, mas também não perdia muito tempo em colecionar esses feitos. Tudo para o buraco negro, tudo para ser esmagado!


Naquele dia, contudo, existiu uma mulher e apaixonou-se.


Deitado de lado, reteve um suspiro de enlevo enamorado ao observar o corpo despido da mulher. A cama estava quente e rescendia ao ato físico do amor que tinham acabado de praticar. Os fluidos que partilharam ainda escorriam, cheiravam maravilhosamente a desejo, a perigo. Bem, não podia classificar o que tinha acabado de acontecer como amor. Fora sexo bruto, desesperado, intenso e tinha acabado depressa. Ela parecia tão aflita quanto ele, mas assim que se separaram não exigiu mais contacto. Estaria satisfeita ou estaria habituada a vários tipos de clientes. Era uma prostituta, isso não o incomodava. Ele era filho de uma família ilustre de Coruscant e estava ali, entre facínoras, bebendo com eles, fornicando com elas.


Tudo para o buraco negro…


Enrolou os dedos numa madeixa do cabelo encaracolado escuro.


- Vou casar-me contigo, Vanessa. O que achas?


Ela riu-se e aninhou-se, escondendo o rosto no peito dele. A respiração da mulher aqueceu-lhe a pele e ele ficou a contar-lhe o ritmo das expirações e das inspirações. Estava calma e segura nos seus braços, o que chegava a ser divertido porque antes gritava e escoiceava de prazer, numa atitude tão selvagem que ele tivera de fazer uso da sua força para prendê-la à cama.


- Não é preciso dizeres já que sim…


A mulher não falava muito e tornou a rir-se.


Parecia-lhe uma boa ideia, enquanto entrelaçava uma perna entre as pernas suaves dela. Casar-se e ter filhos. Tinha-se apaixonado, era justificação suficiente. Cobiçara-a assim que lhe pusera os olhos em cima. Odiara todos os homens que ousavam sequer deitar-lhe um olhar e explodira com a cabeça do tipo que tentara fincar-lhe as unhas, afirmando que ela era só dele, que lhe pagava pela alimentação, pelas roupas e pelo teto, era o seu protetor. Deveria escolher os parceiros daquela rameira em particular, uma espécie de investimento, e não tinha ido com a cara dele. Acontecia… Ele já tinha visto muitas brigas que começavam com uma mulher e que terminavam com a morte de um dos homens. Maldito idiota! Se tivesse mantido a boca fechada, podia ter continuado a beber o rum do outro lado da parede enquanto ele devorava a sua protegida naquele quarto.


Era uma fêmea partilhada por muitos, mas ele não queria saber de nada disso. Iria fazê-la sua, mas seria mais inteligente do que o seu anterior protetor. Levava-a para uma casa, num qualquer planeta remoto da Orla Exterior, longe de más influências e do buraco negro onde ele enfiava as suas amarguras. Enviaria dinheiro, prendas, contrataria guardas. Iria visitá-la para amá-la como o tinha feito naquela noite. Amá-la-ia em qualquer noite que desejasse. Iria tê-la em exclusivo, amarrada pela paixão irreverente que iriam partilhar. Iria deixá-la louca de saudades, a suspirar pelo seu regresso. Seria também o seu investimento, material e emocional. Era realmente uma excelente ideia.


- Virei buscar-te. Acreditas em mim?


Ela deu-lhe um beijo na ponta do nariz. Assentiu com a cabeça, mordendo o lábio inferior, mirando-o com uma tal ânsia nos olhos que estes tinham ganhado o brilho das pedras preciosas de Drak’it.


Estaria a efabular a mesma casita no planeta remoto da Orla Exterior.


Ele sorriu.


Apesar das suas promessas, Frint nunca mais regressou àquele lugar fétido. Não se esqueceu do caminho, nem por sombras. Lembrava-se das coordenadas todos os dias, recitava-as de cor como uma prece, recordando-se do perfume áspero da pele da mulher, do seu suor salgado, dos pequenos defeitos de um corpo cansado de uma vida intensa de abuso, mas elegante e tentador como ele imaginava que seriam as deusas.


Com as coordenadas recitava também:


- Vou buscar-te. Acredita em mim.


Lamentavelmente, o compromisso jurado foi ficando cada vez mais longe e pareceu de facto impossível de cumprir quando Frint foi recrutado para um exército a sério e se tornou num soldado a sério. Ou melhor, apresentou-se como voluntário e largou a sua vida dissoluta e sem sentido de criminoso. Passou a servir uma hierarquia, a integrar um grupo disciplinado, prescindiu do subterfúgio dos buracos negros e obedecia a um senhor chamado O’Sen Kram, que se sentava num trono negro, que se tinha apoderado de uma parte significativa dos despojos militares do Império e que se preparava para derrubar a Nova República. Pareceu-lhe uma excelente oportunidade para voltar a endireitar a sua vida, recuperando os seus sonhos de cadete. Não era o Império Galáctico, não era Palpatine, mas as semelhanças agradaram-no.


Afastou-se dos seus antigos companheiros, ajudou a capturar alguns que operavam junto das rotas comerciais que Kram controlava, abandonou os falsos amigos desses tempos. Não se apartou da recordação da prostituta que ele amava, Vanessa. Continuava a sonhar com a casita longínqua na Orla Exterior e com a única noite que tinham partilhado, que haveria de replicar em noites estreladas, em noites tempestuosas, em noites frias e quentes. Amá-la com pressa, amá-la devagar.


- Vou buscar-te…


Tudo conspirava para que se afastasse de Vanessa. Porém, ele continuava forte, convicto dos seus propósitos, não iria desistir nunca. Dele, dela… Podia realizar intervalos, em que sustinha a respiração e se esquecia de quem era, depois voltava a respirar e a compreender o seu lugar no Universo. Fora assim que se passara quando fora expulso da Academia no fim da guerra – tinham-lhes dito que depois iriam contactá-los, mas nunca o fizeram e nunca o fariam – e dedicou-se a roubos e a outras infrações. Também não se via a desistir vergonhosamente e a agir como o seu pai, que se tinha suicidado diante da queda do Império, enfrentando o vazio do futuro, a humilhação de uma condenação por crimes de guerra.


Ele continuaria forte, por ele, por ela. Iria buscá-la, casar com ela, criar um rancho de filhos na tal casita. Pensava nela e agarrava-se a essa esperança desvanecida.


Amiúde, surgiam sombras que abalavam a fortaleza do seu carácter, causando-lhe dúvidas, colocando dificuldades no seu percurso, empurrando-o para a irritação e para a imprevisibilidade. Brincavam com ele para testar as suas crenças. Forças invisíveis, forças desconhecidas. Pressentia as tropelias do destino, as injustiças. Ele iria atrás de Vanessa, reafirmava. Iria, claro… No entanto… No entanto…


Quando conheceu a criatura de Kram, que ele e os seus camaradas transportavam numa missão secreta para Tatooine, apaixonou-se novamente. De uma forma insana e lamentável. Sentiu-se um desgraçado sem honra, um homem volúvel e instável, incapaz de ser fiel a si próprio. Onde cabia a Vanessa naquela obsessão que o levava a pensar na criatura em todas as horas?


- Vou… buscar-te…


Balançava entre a promessa e a curiosidade, um boneco a ser esticado, amarrotado, rasgado e amolgado pelo destino. Ele iria buscar a Vanessa, não podia renegar esse voto que fizera, porque ele era digno, continuava digno depois de tantas adversidades. A Vanessa seria perfeita… e era uma mulher real.


A criatura de Kram não era uma mulher real. Não passava de uma miragem, de uma ideia fixa, de um objetivo militar. Era uma assassina gélida, sem compaixão ou qualquer outra noção de humanidade. Podia matá-lo se o desejasse, elevando apenas um braço e apertando os dedos no vazio. Ele cairia estrangulado, deslumbrado com as capacidades mortíferas dela. E acabavam-se todas as utopias…


Não era para ele, nem para ninguém. Aquela coisa gerada por um feitiço, cogitava cheio de desdém, aquela criatura maligna e gelada não era uma mulher, não era uma pessoa.


Contudo, não conseguia esquecê-la. Pensava que havia uma possibilidade de a criatura ser dele, num futuro longínquo, sem Kram no cenário. Em Tatooine conspirara para transtornar a criatura, apagar-lhe a memória e entregá-la ao maior inimigo do seu senhor, o Jedi Luke Skywalker, ao proteger os atos sediciosos de um feiticeiro de Ekatha que, anteriormente, tinha ajudado Kram a gerar a criatura. Um ciclo de acontecimentos que se encerrava e ele julgava estar a fazer a coisa correta. E por que o fazia? Por amor à criatura? Por lealdade aos seus princípios? Por receio de perder o futuro que ganhara naquele exército? Por nada em especial que ele não era ninguém?


Para grande fortuna sua, Kram nunca descobrira a sua traição. Frint, contudo, consciente do imenso poder desse misterioso comandante supremo, vivia aterrorizado que ele soubesse o que tinha feito e a forma como se ligava, através de um laço esquisito feito de avidez, desejo e fantasia, à criatura que era tão só o brinquedo mortal de Kram.


Num dos derradeiros dias de paz, antes da declaração de guerra enviada por um conselho especial da Nova República, antes do assalto a Coruscant, o grande exército do senhor negro organizou uma parada num dos planetas dos Territórios Desconhecidos para fazer uma demonstração do seu imponente poder militar. Frint entrou contrariado nessa parada. Nunca gostara de agradar aos oficiais bajuladores, embora nunca tivesse contestado nenhuma ordem e se considerasse um soldado relativamente obediente e cumpridor – se a criatura não entrasse na equação.


Sem qualquer indício de desagrado, desempenhou o seu papel nas marchas e nos exercícios. Durante a sua participação pensava sempre na criatura, naquele momento em que ela tinha esticado um dedo e travado os dois sóis que se punham no deserto vermelho de Tatooine. Era tão poderosa! Tão perfeita! A imagem repetia-se na sua mente, em contínuo. Por pensar nela enquanto marchava, sentiu-se péssimo, frágil, descrente, irresponsável, doente. Um tolo. No palanque onde assentava o trono negro, coberto por um pálio esticado e imóvel, não se sentia o mais leve sopro de vento naquele planeta habitualmente ventoso, uma estranheza supersticiosa que todos mencionaram nos comentários que fizeram quando foram desmobilizados, Kram fixou-se nele. Ou pelo menos assim lhe parecera, quando o seu pelotão passou diante do palanque.


O olhar, ou o que o senhor do trono negro usava para visualizar o mundo, porque Frint nunca lhe tinha visto o rosto ou o corpo, que ele cobria em permanência com pesado manto, aquele olhar incisivo e trocista seguiu os seus passos rígidos. Viu claramente a cabeça do senhor do trono negro a voltar-se lentamente à medida que ele avançava. Frint tentou concentrar-se no matraquear das botas dos seus camaradas, das suas próprias botas, mas a imagem da criatura regressava. Com os sóis travados, dizia-lhe que odiava o nome que ele tinha inventado para ela, um acrónimo composto a partir do feitiço que a tinha criado. Criação da luz, ente original…


Um engodo para atrair a atenção de Kram.


Felizmente, nada aconteceu. Não foi chamado à parte, não o acusaram de traição, não foi feito prisioneiro, não foi executado com um tiro à queima-roupa.


No final desse dia, adormeceu exausto e sonhou com Vanessa. Sonhou que estava na cama onde se tinham conhecido, sonhou com o ritmo da respiração quente dela sobre o seu peito. Despertou enjoado, encharcado em suor gelado. Vomitou nessa noite, não conseguiu voltar a dormir, esteve de mau humor durante todo o dia seguinte. Coruscant caíra, havia festejos entre a tropa, Frint dormente nem se apercebeu da euforia, nem participou na celebração. Que acabaria por ser prematura, como se veio a descobrir mais tarde.


O conselho especial da Nova República preparava-se para rechaçar o ataque da frota de Kram no sistema Hosniano, o cavaleiro Jedi, apoiado pela criatura que ele tinha treinado para se tornar numa Jedi como ele, tinha ido desafiar pessoalmente O’Sen Kram, o provocador do conflito e o seu jurado inimigo, em Bespin.


E ele foi despachado para Bespin. As ordens da sua companhia eram para conquistar o sistema, por causa das suas importantes minas de gás Tibanna, e para capturar a criatura. Iria revê-la, o seu coração batia louco de alegria, atrás da viseira do capacete sorria como um imbecil.


Antes de Bespin, todavia, fora enviado para um sistema da Orla Exterior, integrado num batalhão que iria servir de escolta para uma flotilha de cargueiros que tinha ido abastecer-se de mantimentos para alimentar o exército. Esqueceu o nome do planeta, não viu necessidade de reter a designação daquele buraco seco e deprimente onde se cultivavam cereais.


Ele e outros camaradas patrulhavam as ruas de um burgo infetado. Os agricultores tinham ficado nervosos com o tributo exigido pelos militares invasores, resmungando que eram leais à Nova República, que o jugo do Império Galáctico já tinha terminado. Os mais atrevidos tinham sido silenciados com alguns disparos laser, depois todos trabalharam sem levantar outras objeções inúteis, mas era preciso assegurar que mais ninguém se levantava contra eles.


Frint vigiava atentamente as casas acachapadas, encostadas umas às outras para que não ruíssem, pois a sua construção era deveras arcaica, pobre e pouco resistente.


De repente lembrou-se que aquelas eram casitas de um planeta remoto da Orla Exterior…


A mulher de cabelos encaracolados escuros passou por ele. Deitou-lhe um olhar furtivo, assustadiço. Ele viu-lhe os grandes olhos, o brilho das pedras preciosas de Drak’it.


- Vanessa! – chamou.


Ela voltou-se devagar. O rosto continuava belo e misterioso. O corpo firme, a tentação a puxá-lo para ela. Quis possuí-la da mesma forma ansiosa como tinha sucedido quando se conheceram. Frint humedeceu os lábios. Havia uma estranha magia naquela mulher e ele não tinha dúvidas de que era ela… Era ela, sim! A mulher tinha respondido ao nome que ele pronunciara.


Nunca pensou que a encontraria ali. Aquelas não eram as coordenadas que tinha decorado. Ainda sabia a rota para chegar até ao prostíbulo? Sim, sabia-a! Não era ali. Onde a tinha conhecido, o sol não brilhava, nem havia ruas empoeiradas ou casas miseráveis, nem se cultivavam cereais.


Devido à sua farda, a mulher acanhou-se. Não o reconheceu como o seu antigo amante, amante de apenas uma noite, na realidade. Baixou a fronte, murmurou um pedido:


- Senhor, deixe-me ir à minha vida…


- Não me estás a conhecer?


- Não.


- Olha para mim, mulher.


Frint retirou o capacete, para que ela o pudesse identificar. Olhou ao redor para se certificar de que os outros soldados não estavam a vê-los. Ela não teve qualquer reação positiva, continuava numa atitude de animal desconfiado, amedrontada e encolhida. Agarrou-a por um braço e puxou-a para uma esquina, onde havia um cruzamento de ruas, colocaram-se à sombra. Ela gemeu assustada. Ele disse-lhe, em voz baixa:


- Sei que conheceste muitos homens. Mas eu prometi que me casava contigo, que te vinha buscar… Eu estive contigo, lembras-te? Matei o teu protetor. Não me lembro o nome da pedra onde estava a casa onde servias… Onde era?


Ela respondeu-lhe, cabisbaixa, as mãos crispadas e brancas junto ao peito:


- Senhor, acho que estás enganado. Nunca nos encontrámos.


- Claro que nos encontrámos! Não te lembras? Eu não tinha nome, nessa altura. Mas tu tinhas. Vanessa. Vês? Sei como te chamas! Prometi que te levava comigo… Ainda quero cumprir essa promessa.


- És um soldado.


- Sim, estou a ganhar dinheiro para nós. Vamos ter uma casa, num planeta da Orla Exterior. Ter filhos.


Ela riu-se, cheia de medo.


- Estamos na Orla Exterior. Não é um lugar para onde se vai depois de casar, não é um lugar onde se queira ter filhos.


Ele lembrou-se que se tinham passado alguns anos.


- Já estás casada?


- Acabei de te explicar que este não é um lugar bom para um casal recém-casado.


- Então, ainda continuas à minha espera?


Devagar, com o braço a tremer, ela pousou uma mão na face dele:


- És engraçado.


Frint agarrou nessa mão e beijou-lhe os dedos.


- Vanessa, escuta-me. Virei buscar-te. Acreditas em mim?


Ela encostou-se à parede tosca e confessou, atarantada:


- Houve alguém… um dia… que me disse isso.


- Fui eu. Aqui estou, para que te recordes de mim e dessa promessa.


Com um repelão, ela soltou-se. Afastou-se às arrecuas.


- Não vais voltar, soldado.


- Vou, sim!


- Tens a morte nos teus olhos. Uma marca.


Um arrepio calou-o. A criatura de Kram arreganhava os dentes num sorriso pérfido antes de usar os seus poderes contra ele, antes de assassiná-lo. Uma alucinação provocada pelo calor, uma imagem fabricada pelo seu cérebro esgotado. A criatura estava longe, muito longe. Estava com o Jedi Skywalker. Frint balbuciou:


- O que dizes?


Rodeava-se de bruxas, encantava-se por elas. Como saberia a Vanessa da criatura? Como podia ela ter adivinhado o que se passava no seu coração e no seu espírito tumultuado? Como podia ela ver através dos segredos que ele avidamente guardava?


- Tu sabes de quem és cativo, soldado.


Irritado, cansado, ele afirmou:


- Sou teu.


A bela Vanessa acalmou-se. Com uma expressão de resignação, sem tremuras ou outros receios, na sua bonita voz que invocava carinhos, disse:


- Eu lembro-me. Obrigada, soldado, por não te teres esquecido de mim, mesmo depois de todo este tempo. Eu também gostaria de ter ido para essa casa, ter tido os teus filhos. Mas não aqui… Nunca aqui.


Aflito, ele percebeu que nunca a tinha ouvido falar antes, que o registo sonoro que tinha dela eram suspiros anelantes, gemidos e outros tantos gritos. Mesmo assim, imaginava-se a conversar com ela na casita confortável onde seriam esposos, onde seriam abençoados. Ela tinha sido a sua companhia durante a sua solidão. Comprava-lhe as pedras preciosas de Drak’it e fazia-lhe um colar, para que combinasse com os olhos dela…


- Escolhemos outro lugar. Nos mundos das colónias! – atirou desesperado.


Vanessa afastou-se.


- Adeus, soldado.


***


No chão frio, em Bespin, a vislumbrar a criatura através de um véu embaciado que anunciava a sua morte, ele descobriu o que era o amor. O último encontro e ele desejava que tivessem havido outros encontros, muitos mais, depois de Tatooine. Depois de a ter traído, ajudado e novamente traído.


A criatura acabava de assassiná-lo, o que repunha a ordem no mundo. Ela tinha sido gerada como uma assassina, ele desafiara a sua autoridade, ela tinha-o matado. Aceitou a lógica.


- E morri como um soldado…


Foram as suas palavras antes de expirar, antes de se dirigir àquela estranha luz que o puxava para uma espécie de abraço quente que ele nunca tinha conhecido. Atrás da luz estava a voz dela, da criatura. Não o chamava num apelo ténue, não. Ele podia recusar-se a atender esse chamamento débil. Convocava-o com veemência para a reunião da assembleia global onde se sentavam as almas boas.


Teria rido se pudesse. As almas boas!


Estava num desfiladeiro de Tatooine, o sol queimava-lhe a pele. Nesse lugar, o feiticeiro de Ekatha tinha-lhe dito, entre a piedade e a zombaria:


- Morrerás como queres, purificado dos teus pecados.


Era o que estava a acontecer e ele contemplava a maravilha, extasiado.


Morria no cumprimento do seu dever, a segurar uma arma, obedecendo ao comando do seu superior, fosse ele o oficial daquela jornada ou, numa amplitude maior, O’Sen Kram. Morria como sempre tinha querido morrer.


Estava purificado dos seus pecados. Era a criatura que o redimia com a sua ladainha, enquanto ele abandonava a dor que lhe queimava o peito, onde o disparo laser lhe tinha desfeito o coração, os pulmões e as costelas, enquanto ele abandonava aquele corpo defeituoso.


E assim, o soldado Frint descobriu o que era o amor.


Não era a paixão que sentira por Vanessa.


Era aquele sentimento que nutria pela criatura, que o fazia ser, de uma forma simples e limpa, somente feliz. Era aquele brilho cálido que o envolvia, a carícia que recebia nas palavras que ela lhe sussurrava. Aquela prostração, a fé em algo superior a si próprio. Acreditava que depois de cruzar a barreira luminosa ficaria, por fim, em paz. Acreditava em alguma coisa que ele não controlava inteiramente. Esse facto constituía uma grande evolução na sua personalidade. Já não precisava de buracos negros…


Aceitou a dádiva com um sorriso nos lábios.


Esticou, pela última vez, a mão. Tentou tocá-la, mas era demasiado tarde para gestos humanos. Ele agora era incorpóreo, lembrança, sensação.


Murmurou, inflado de amor:


- C.L.E.O.


Nada disto aconteceu no plano físico. Nunca sorriu ou esticou a mão, nem murmurou o nome da criatura. Ele deixou de ser alguém no momento em que, moribundo, pronunciara as palavras, “e morri como um soldado”. Foi coberto pela capa Jedi dela e assim amortalhado exalara o seu último suspiro. Era espírito abnegado.


E deixou-se ir para a luz.

4 de Mayo de 2019 a las 11:04 0 Reporte Insertar 4
Fin

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Andre Tornado Gosto de escrever, gosto de ler e com uma boa história viajo por mil mundos.

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