O Casamento Seguir historia

sweet-mary Mary

Palavras repetidas me limitam. O silêncio é mais sóbrio. Meu melhor verso de amor ficou no rascunho, confie no que eu te digo.


Cuento Todo público.

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O Casamento

São sete horas na catedral. Os sinos dobram com insistência. De um banco de madeira numa posição estratégia e privilegiada, observo o azul do céu ganhar uma tonalidade mais escurecida e pontinhos claros iluminarem o teto dos sonhadores e plantonistas que passam pelas calçadas de paralelepípedos sem sequer pensarem que guardam ali um punhadinho de suas histórias. Os pés trotam depressa, têm um destino certo, um horário a cumprir, um par de braços que os espera num cômodo qualquer chamado de sala ou cozinha.

Olho as horas no relógio de pulso como quem confirma a pontualidade dos sinos e dos carros estacionados. Pais ajudam os filhos a descerem, as mães muito atentas cuidam com os olhos das pequenas damas vistoriando se os trajes estão em ordem, e então sobem com cuidado aquelas dezenas de degraus de pedra.

Aos poucos o vestíbulo da catedral transforma-se num alvoroço imenso. Não consigo distinguir os sons, não me importa também. Apesar de minha dedução não ser infalível, tenho alguns anos de estrada e interpreto bem a linguagem corporal, as expressões dos rostos e a entonação.

Espera-se que haja lugar para todos aqueles que buscam escutar as palavras de Deus e a promessa dos noivos, em cuja limusine desceu pela porta do passageiro uma bela moça ajudada pelo idoso pai com quem entrará. O noivo deve estar tão ansioso para finalmente ter a sua amada nos braços, com a permissão do cartório e de Deus, jurando que apenas a morte haverá de separar dois corações que vivem como um só.

Não sou convidada de honra dos noivos, nem sequer os conheço, apenas suspeito que este seja o melhor dia da vida deles. Não sou ninguém para dizer o contrário. Quem perde um grande amor deixa de ser o que é. Estou apenas destinada a perder tempo, não tenho mais nada que possa temer. Quem não tem um amor não tem nada a perder.

Visto um suéter vermelho para aliviar os arrepios de frio e continuo sentada ali incentivada pela curiosidade e também pela falta de um programa mais interessante, inclinando a cabeça para trás e confirmando que já passam das oito horas da noite. A cerimônia transcorre sem quaisquer inconvenientes, bem como deve ser uma boa história de amor, pelo menos de um amor fácil que tem poucos e suportáveis obstáculos, não a minha história que terminou sem ter um fim determinado por um ponto.

As reticências estão grudadas nas minhas lembranças e por se tratar de um sábado à noite, percebo que os anos não matam as tradições, apenas adapta os costumes de acordo com as gerações porque o primeiro amor, esse nunca muda de intensidade, é sempre arrebatador e repleto de lendas.

Um casal de namorados passa por mim. De mãos dadas, bem arrumados, provavelmente estão saindo para beber um refresco na sorveteria do Seu Joel que oferece um cardápio repleto de combinações que agradam até os mais exigentes estômagos. Eles se sentarão de frente um para o outro, buscando pretextos para não deixaram de se olhar. Falarão sobre tantas coisas que serão indiferentes ao hambúrguer gelado e ao tique-taque do relógio de parede. Ah, se aquele cuco falasse não duvido de que me contasse acerca de todos os planos feitos pelos casais apaixonados, igual a aquele que escolheu a mesinha do canto para curtir a bela noite, que faz planos para um futuro que bem pode contemplá-los ou amaldiçoá-los, mas intensamente apaixonados como estão, almejam apenas estarem juntos.

Desculpem-me os casais que porventura quisessem um lugarzinho aqui. Sou espaçosa e não estou nem um pouco a fim de ceder. O banco continua ocupado em totalidade pela minha solidão, uma invisível companheira que me rende uma centena de ideias para versejar.

Não faz mais sentido escrever para quem se foi, as pobres folhas de papel não merecem um castigo maior do que as lágrimas que ainda insistem em cair quando a memória me trai. Um amor perdido nunca retorna as correspondências. Nem a mais prestativa das joaninhas opera um milagre no meu caso.

Palavras repetidas me limitam. O silêncio é mais sóbrio. Meu melhor verso de amor ficou no rascunho, confie no que eu te digo.

São oito e quarenta e cinco da noite quando as pesadas portas de mogno da catedral se abrem e os noivos marcham para a limusine, não sem antes serem fotografados e receberem a chuva de arroz que simboliza a prosperidade que os padrinhos, familiares e amigos em comum desejam para aquele jovem casal que a partir dali vai compartilhar uma vida a dois num lar híbrido que (desejo eu) terá colaboração mútua para que o ponto final seja um suspiro agradável de um empreendimento bem-sucedido.

Meus olhos estão rasos. O beijo dos noivos não compõe a cena de um filme triste, afinal de contas, até que se prove o contrário, eles estão vivendo o final feliz que lhes pertence.

O carro se vai e uma carreata é mobilizada, visto que a melhor parte da festa começa depois do jantar num clube dançante nas redondezas.

O casamento de verdade começa depois da lua-de-mel, embora eu nunca tenha me casado para afirmar se a felicidade exposta pelos noivos é concreta ou editável para que o vídeo de recordações a ser mostrado aos descendentes convença de que em tempos de personalidades de plástico, ainda haja brilho no olhar que não seja manipulado por algum editor de fotos.

Ah, esse brilho no olhar, pura poesia mobilizada.

Eu tinha.

Eu não fui sempre uma solitária tola matando tempo a mirar o vazio.

Um dia eu vivi. Penso que cada segundo da minha eternidade foi gravado num beijo. Estou certa de que amei. O que o tempo fez comigo é história para outro conto, não quero falar sobre isso agora.

Eu penso naquela menina sonhadora que eu costumava ser até a vida me provar que eu era uma ignorante em matéria de sentimentos.

O casamento de princesa, a coroa de flores, um juramento que eu trataria de escrever linha por linha para pronunciar sem medo ao meu grande amor, aquele com quem eu queria viver até o meu coração bater pela última vez. Em algum momento nosso juramento mesmo sem ser sacramentado foi o nosso matrimônio secreto, mas nós nos perdemos e as promessas também, o tempo fez conosco o que faz com todos os outros, enche-nos de provações que colocam em dúvida a credibilidade das nossas palavras, revira a nossa maturidade e entrega aquilo que sobra, por mais que não gostemos da consequência, é o preço que se paga quando se ama, lembrar o começo sem poder remontar os fragmentos que foram esmigalhados em porções ínfimas, impossíveis de se recompor.

Quem está na plateia também poderia ser aplaudido, mas sai à francesa guiado pelas luzes da cidade, tal qual faço nesta noite de sábado em que o ar do meu próprio quarto é rarefeito demais para a minha confusão. São nove da noite e eu não tenho ninguém me esperando na praça ou em casa. Vou brindar o vazio com uma xícara de café e mais uma vez mergulhar meus olhos no mundinho de mentirinha, evitando comprar ilusões de bela capa, não quero me deprimir mais.

Os sinos não dobram por mim.

19 de Julio de 2019 a las 00:00 4 Reporte Insertar 1
Fin

Conoce al autor

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

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Netuno Chase Netuno Chase
Triste porém profundo! ADOREI, foi uma leitura melancólica, mas a vida é uma melancolia. Espero pelos próximos contos no qual a moça vai contar sua história!
18 de Julio de 2019 a las 19:08

  • Mary Mary
    Obrigada por ser minha primeira leitora em O Casamento. A narradora desse conto se chama Laly, mais conhecida como Lalinha, e ela tem uma vida que mais parece uma novela, de tanta reviravolta, bomba, no entanto faz algum tempo que não tenho trabalhado na história dela que postei esse conto para comemorar os oito anos que comecei a postar em plataformas on-line. Tem um poema meio pesadão chamado Depois de Amanhã, que também é da Lalinha. Mais ou menos dá pra ter noção de uma coisa que ela passou na vida. :/ Obrigada pelo carinho! 18 de Julio de 2019 a las 19:17
  • Netuno Chase Netuno Chase
    Vou ler depois esse poema. Aaah que bom que fui a primeira privilegiada! Já gostei da história hein! 18 de Julio de 2019 a las 19:19
~