A Última Viagem Seguir historia

zephirat Andre Tornado

Na Dimensão Real passaram-se quinze anos desde o fim da batalha épica contra as ambições do feiticeiro Zephir e a vida continuou. Na Dimensão Z passou-se menos tempo, mas a vida também continuou... No entanto, as viagens entre dimensões abriram uma fenda perigosa que ameaça engolir o Universo num horrível cataclismo e, mais uma vez, Son Goku é chamado a intervir. Acontecerá uma última viagem destinada a ordenar o caos. Entre lutas sangrentas, aliados improváveis e inimigos poderosos, haverá espaço para encontros, desencontros e descobertas que revelarão até onde estamos dispostos a ir em defesa do que somos e daquilo que mais amamos. Esta é a continuação da saga O Feiticeiro.


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18. © Dragon Ball não me pertence. História escrita de fã para fã.

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I - Recomeços e tropeções


Entrada no meu diário, data: março 2011


Ora, cá vamos nós…


Tem sido uma frase recorrente no meu cérebro e na minha boca, dita entre dentes, mastigada, às vezes cantada bem alto como ladainha para afastar o mau agoiro. Tem sido também cansativo estar sempre a repeti-la, mas essa frase, e agora que penso nisso, é o que me impede de me passar completamente. Traduzindo para uma linguagem mais apropriada e porque eu, aparentemente, sou uma senhora que deve ter um discurso apropriado, o que me impede de enlouquecer.


- Ora, cá vamos nós – sopro, enquanto cruzo a perna, cruzo os braços.


A reunião foi marcada na véspera, o que significa urgente, inadiável e importante. Eu sei. Ultimamente sou uma senhora importante na escola, para além de uma senhora, simplesmente. Estamos poucos pais, só os que interessam para o assunto, penso amargurada, a força que tinha quando cheguei a diluir-se no negrume da realidade de me saber, mais uma vez ali, pelo pior dos motivos.


O meu filho é um desordeiro. Acho a palavra marginal demasiado forte, mas, provavelmente, aplicava-se melhor ao caso. O meu filho é um marginal, ponto final, e nem quero pensar que tenho andado treze anos empenhada a educar um rapaz que já foi dado como perdido para a sociedade.


Não é o único, penso enquanto vou espreitando, à minha direita e à minha esquerda, sem descruzar perna e braços, os pais que me acompanham naquelas reuniões marcadas apressadamente pelo diretor da escola – o diretor de turma deixou de ser suficiente para fazer passar a mensagem. Somos sempre os mesmos: o pai do Tomás, o dos piercings e das tatuagens (o pai é que tem piercings e tatuagens, porque o filho ainda não enveredou por esse caminho de marcar o corpo); o pai do Carlos, o anorético (é o filho que é magro, o pai parece lutar com a pança quando sentado, não sabendo onde enfiar a dita que lhe salta do cinto estreito comprado na feira); a mãe da Vânia, que fuma (mãe e filha fumam, a primeira tem os dentes mais horrivelmente podres que conheço e vive suspirando por um cigarro durante o tempo que duram as reuniões); o pai do Rodrigo, o agitador (o filho sai ao pai naquela irritante presunção de quem se julga líder, daí agitar tudo. O filho agita os colegas, o pai agita os outros pais nestas penosas reuniões); o pai do Ricardo, o arrependido e o perdido, que o progenitor sente mais fundo a culpa que lhe apontam; e depois, eu, a Ana, a mãe do Tiago, a que ouve e cala, porque não lhe apetece entrar em confrontos desnecessários, porque vive a repetir, entre suspiros: ora, cá vamos nós.


Que grupo! Reparo, de todas as vezes que nos reunimos, que sou a única mãe de um rapaz. Os rapazes têm os pais para os defender, a rapariga tem a mãe.


E como serei eu, aos olhos destes pais? Não quero pensar, porque não quero pertencer àquele estúpido grupo que apanha com a reprimenda severa que o diretor da escola espera que passemos aos nossos filhos.


Eu, da minha parte e apesar de nunca me ter confessado àquela gente que odeio, costumo passar a mensagem, com tudo incluído. O meu filho não gosta, mas ainda sou a mãe dele e ele ouve tudo o que levo para lhe dizer, no rescaldo destes concílios. Sei que não me liga nenhuma, mas eu falo na mesma.


Como raios vim parar aqui?


Por causa do meu filho, penso desiludida. Fracassei com ele e toda essa consciência pesa-me, durante um segundo, naquele pedaço de tempo instantâneo que medeia entre o primeiro olhar censurador do diretor a varrer a sua já habitual plateia e o primeiro som que a sua boca, abrindo-se para vincar as palavras, pronuncia. Começa sempre com: boa noite. E depois aclara a garganta para gritar. Mas o vozeirão que lhe sai pelas cordas vocais é a sua forma de falar e já não assusta, como das primeiras vezes. Devia ter sido tenor, aquele professor de geografia.


- Ora, cá vamos nós… - digo de mim para mim, passada a impressão inicial de fracasso que me faz tremer toda por dentro e quase me arranca um choro profundo de tristeza, pois sei a razão de ser a mãe a defendê-lo e não o pai.


As reuniões têm um guião e começam sempre pelo mesmo lado. Hoje, o diretor sentou-se à minha esquerda, quando costumava estar do lado oposto, a fazer olhinhos aos joelhos da mãe da Vânia que não sabe usar mais nada a não ser saias escandalosamente curtas, mesmo em pleno inverno. É natural que se comece pelo líder do gangue, o pai do Rodrigo. Não me encaixa... O meu filho nunca precisou de um chefe, sempre o achei tão dono e senhor do seu nariz, desde pequeno, que por momentos penso que não pertenço àquele grupo infeliz, nem o meu filho pertence àquele gangue de arruaceiros.


Começo a divagar, olhando em frente, para nenhures, para não ouvir o que foi que o Rodrigo fez desta vez. A voz do diretor declama, num tom zangado, mas tão musical, que me leva instantaneamente para um cenário trágico de uma ópera italiana do fim do século XIX. Canta o amor desiludido e a perda da felicidade. Será que foi o que eu ganhei e com isso me terei de contentar daqui para a frente? Terei de admitir que tenho um filho delinquente? São só treze anos… Tão pequeno, o meu Tiago… Tão pequenino ainda, tão a tempo dos carinhos melosos de uma mãe… Mas ele há um ano que se afastou de mim, cansado do meu amor exagerado por ele, desiludido por eu não lhe conseguir dar mais do que um abafo que lhe corta o ar. Serei assim tão protetora e fanática? Ele nunca mo disse, mas alguma coisa aquele adolescente está a querer provar e eu deixei de ter a capacidade de perceber a alma secreta do meu filho. Oh, que fracasso!


E então, cá vamos nós…


De repente, o diretor fala comigo. Normalmente, gosta de me deixar para o fim, talvez porque sou a única mãe presente que vem defender um filho e não uma filha. Mas desta vez deve ser mais grave, porque sou o seu terceiro alvo da noite, depois do pai do Rodrigo e do pai do Tomás. É grave, pois.


- Minha senhora, devemos equacionar seriamente uma transferência do seu filho para outra escola…


Acho que perguntei porquê. Sem qualquer emoção, o que irritou o diretor que apertou os papéis que segurava. O homem começou a desfiar uma série de pequenos delitos, desde roubo de telemóveis a início de zaragatas, terminando numa altercação mais violenta com o professor de matemática. Não me pareceu que falava do Tiago.


- Eu falo com o meu filho – interrompi. A frase mágica que me salvava do resto do discurso, desta vez não funcionou.


- Receio que o que possa falar não terá qualquer efeito. O seu filho começa a parecer-me um caso perdido.


- Não. O meu filho não é assim como o está a descrever.


- Não conhece o seu filho, minha senhora.


- Há qualquer coisa que não está bem com ele. Eu sei, eu sou mãe, sinto isso... Já o percebi há algum tempo, mas sabe como são os adolescentes... Fogem de uma abordagem mais profunda, querem permanecer no seu mundo às avessas. Mas agora estou determinada a descobrir e ele vai voltar a encarrilar.


- Minha senhora, esse seu discurso já não convence. Temos dado o benefício da dúvida, temos tentado que a situação se resolva em casa, mas o Tiago… lamento dizê-lo: não se enquadra nesta escola.


- E em que escola se enquadra? Também estão a desistir dele, pelo que me parece.


O diretor não respondeu. Olhou para os seus papéis e explicou que o Tiago iria ser transferido depois das férias da Páscoa.


- Para onde?


- Montenegro.


- O quê?


O diretor voltou-se para a mãe da Vânia e senti que tinha, definitivamente, perdido aquela batalha. O assunto comigo terminara e não havia argumentação que me valesse. A conclusão tinha sido tirada, rematara-se com uma solução e ponto final. Tiago Sotero já não era um problema para a escola Pinheiro e Rosa.


Talvez fosse melhor assim. Recostei-me na cadeira desconfortável de tábua. Tentei extrair daquela derrota algo de positivo. Uma escola diferente, com colegas novos, professores novos, que o obrigasse a refazer as suas relações e as suas prioridades, teria um efeito catalisador. O Tiago perceberia que as suas oportunidades se esgotavam e que os adultos também se cansavam das birras dos meninos. Talvez crescesse e se transformasse naquele jovem adulto que eu sempre idealizei que ele acabaria por se transformar.


Levantei-me. O diretor parou de falar com a mãe da Vânia, que roía as unhas como uma demente, ansiosa por um cigarro, e cravou-me um olhar duro e gélido. Eu disse, com uma voz mais frágil do que desejava ter naquele momento:


- Julgo que a decisão está tomada e que, sobre o Tiago, foi dita a última palavra.


- A reunião ainda não acabou, minha senhora.


- Pelo que afirmou há pouco, o meu filho vai ser transferido e a decisão, em que a mãe não foi consultada, foi tomada e é irreversível. Não faço mais nada nesta escola que deixará, em breve, de ser o estabelecimento de ensino do meu filho. Por acrescento, nada mais faço nesta reunião. Boa noite, senhor diretor.


As palavras tremiam-me nos lábios. Senti um olhar abjeto de compaixão do pai do Tomás. Que fossem todos dar banho ao cão! Saí daquela reunião capaz de rebentar num pranto lastimoso, mas ao mesmo tempo com uma vontade imensa de descarregar a frustração no meu filho.


Ah! Tiago. Quando chegasses a casa, irias ouvi-las!


Fim de entrada.



***



A ponta incandescente do charro foi envolvida pelo fumo após uma breve expiração, nuvem de pronto aspirada pelo nariz sôfrego. Não deveria desperdiçar nem uma molécula daquela erva que lhe estava a saber tão bem. Os olhos azuis e vítreos pestanejaram, depois fechou-os para que o efeito psicótico lhe inundasse o corpo como um orgasmo.


Aprendera aquele novo prazer no mês passado. Sempre que podia e tinha dinheiro suficiente comprava um pouco de erva para fumar, num terreno baldio nas traseiras da escola, entre baldes do lixo e entulho abandonado de obras antigas. Aquele lugar era habitado por um trio de gatos que, sempre que ele aparecia, vinham fazer-lhe companhia. Roçavam-se pelas suas pernas, a miar e a ronronar. Nos dias bons, em que ele não estava muito aborrecido, dava-lhes o que tinha sobrado do lanche. Nos dias maus, enxotava-os a pontapé. Os gatos não se ofendiam. Afastavam-se pachorrentos e ficavam a observá-lo com atenção, desde o esconderijo que escolhiam para ficar a salvo das suas fúrias. Hoje era um dos dias maus e, enquanto fumava o charro, Tiago admirava o bom senso dos gatos por não terem tentado sequer uma aproximação.


Alguém sentou-se ao seu lado.


- Dá-me uma passa.


Tiago passou-lhe o charro, expirando outra nuvem de fumo e respirando-a com prazer. Apoiava os cotovelos no chão e lançou a cabeça para trás, à procura do calor de um raio de sol de um dia nublado.


- A erva é boa. Mas arranjo-te melhor.


- Está bem. Só que agora não tenho cacau.


- Ouvi dizer que estás a dever dinheiro ao Marado.


O outro devolveu-lhe o charro. Tiago prendeu-os entre os dedos e reparou que tinha as unhas sujas.


- Vou pagar-lhe esta tarde… Com esse portátil.


O outro olhou para o computador e assobiou.


- Eh, puto! Dá-me o portátil a mim.


- Não. Já está prometido ao Marado. A ti, não te devo dinheiro.


- Puto, já te disse… – Deu-lhe uma pancada no peito, com as costas da mão. – Arranjo-te erva da boa.


- Primeiro, tenho de gamar uns telemóveis para te poder pagar.


- … Para o Marado arranjas portáteis. Para mim, telemóveis de gaja, rosinha e com florinhas, todos arranhados e com mensagens de merda sobre os cús dos gajos e como ele beija bem. Tenho uma trabalheira para apagar a porra das mensagens, senão os telemóveis não me rendem nada!


- Esse portátil também era de uma gaja. – Tiago deu mais uma passa. Teve uma súbita vontade de rir, a imaginar o Necas a apagar as mensagens todo irritado, mas conteve-se.


- Mas não tem mensagens…


- Sabes lá tu! Pode ter fotos esquisitas. As gajas gostam de tirar fotografias a tudo e esconder em pastas com nomes insuspeitos, como se estivesse tudo muito bem guardado...


- Estás a esticar-te, puto.


- O que queres? Para além de me vires cravar o charro... – E entregou-lho para mais uma passa.


O Necas olhou para o cigarro mal enrolado e já quase terminado na sua mão. Fez uma cara de enjoado, enquanto absorvia os odores da nuvem que expelira pela boca e nariz.


- Ouvi dizer que fizeste merda da grossa na escola.


- E que mais ouviste dizer?


- Ouvi dizer que vais ser transferido, puto.


- Ouviste bem. – O Tiago empurrou o ecrã do computador com o pé, para abri-lo um pouco mais e revelar o que se escrevia neste. – A transferência já foi feita, assinada e confirmada. Está aqui, na minha ficha de aluno.


O Necas voltou a assobiar.


- Puto! Crackaste outra vez o sistema da escola?


- Para mim é demasiado fácil. A rede deles tem uma segurança de merda.


- Puto, tu és um génio. Em vez de andares a gamar telemóveis de gaja, devias era usar essas tuas habilidades para entrar na rede dos bancos e transferir uns bons milhões para uma conta nossa.


- Só tenho catorze anos e ainda tenho muito que aprender.


- Ouvi dizer que tens treze... Não é isso que está na tua ficha? Nasceste em 1997, em maio...


- Catorze! – protestou.


- Ok, ok... Não me venhas com tangas, puto. Tu já sabes entrar em grandes sistemas informáticos, como aqueles dos bancos. – Devolveu-lhe o charro após uma passa demorada. – Não queres é que ninguém saiba.


Como não queria falar mais, Tiago refugiou-se no charro que acabou após um par de passas bem saboreadas. Sentia a cabeça ligeira, a mesma vontade de se rir, mas não tinha encontrado um motivo suficientemente interessante e ficou macambúzio. Tudo lhe parecia nublado, como o céu. Até os gatos se tinham afastado dele. Desligou o computador, fechou o ecrã sobre o teclado, entregou-o ao Necas, o falhado de dezanove anos que ainda frequentava o nono ano.


- Entrega-o ao Marado. Se ficares com ele, arrebento-te os dentes.


- Tu, puto? Se lutasses contra mim, vazava-te um olho.


- Não te metas comigo! – Tiago levantou-se com as pernas a tremer. Iria dar uma boa caminhada, para não chegar a casa demasiado pedrado. – Tenho os meus meios… – continuou. – Tenho a rede. Se entrar na tua ficha, posso transferir-te para outro lado e olha que pode não ser uma escola.


- , puto… . Não te preocupes. O teu portátil vai para o Marado. Obrigadinho pelas passas. E não te esqueças: arranjo-te erva melhor.


O Necas desapareceu com o portátil debaixo do braço. Ele deixou-se ficar mais um pouco, a respirar depressa e a sentir-se tonto. Inesperadamente, uma bola de pelo esguia roçou-se nos seus tornozelos. Olhou para baixo e um dos gatos, o mais novinho, ronronava meigamente, mirando-o.


Ajeitou a mochila no ombro direito e teve dúvidas. Não sabia se queria regressar a casa.



***



Entrada no meu diário, data: março 2011


A Isabel, a minha filha de onze anos, olhava para mim com o sobrolho carregado e aqueles seus olhos castanhos opacos de quem desconfia de que se avizinha tempestade.


- Estás zangada – disse, por fim.


Poisei a pilha de cinco toalhas no móvel do lavatório da casa de banho e respondi com brusquidão:


- Eu não estou zangada.


- Estás, sim – argumentou ela. – Quando arrumas roupa muito depressa e fechas as gavetas com força, estás zangada.


Respirei fundo. Tentei abrir a porta do armário com mais gentileza, mas as minhas mãos tremiam tanto que enervei-me e empurrei as toalhas à bruta para a prateleira, fazendo uma pilha de pano torcido, em vez de guardar um lote organizado e bem dobrado. A Isabel saltitou atrás de mim, para ver até onde chegava a minha fúria, que já tinha percebido que não era contra ela. E como a perspicácia das crianças desafia a dos adultos, perguntou enquanto me observava a dobrar meias:


- Foi o mano?


Suspirei.


- Isabel, querida… Já fizeste os teus trabalhos de casa?


- Hoje é quinta, mamã. Não tenho trabalhos de casa. – Insistiu: – Foi o mano?


Fechei os olhos, dobrei mais um par de meias.


- Sim, a mamã está muito zangada com o mano.


- Ele hoje vem dormir a casa?


- Isabel, que disparate é esse?


- Ele ontem não dormiu em casa! – exclamou com uma carinha tão inocente que eu não resisti e abracei-a. Foi uma maneira que arranjei para esconder duas lágrimas que se soltaram das minhas pestanas e que limpei rapidamente. Foi também uma maneira de demonstrar quanto eu amava os meus filhos e o quanto gostava de os abraçar. Abracei assim a Isabel e o Tiago juntos. Uma ali comigo, em carne e osso, o outro ausente, comigo também, mas em espírito e cheiro, uma versão ideal.


A porta da rua bateu e ouvi o chocalhar de chaves. O Tiago nunca anunciava a sua entrada em casa e eu soube que era o meu marido, o Luís, que chegava. Ele não cantou o habitual: Iuhu! Cheguei, meninos!, pelo que deduzi que continuava aborrecido.


Sim, o Tiago não tinha dormido em casa na noite anterior. Tínhamos combinado, eu e o Luís, não dizer nada à Isabel. Fomos deitá-la juntos, contámos uma história. Quando apagámos a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira, ela perguntou pelo irmão e eu inventei uma mentira. Disse-lhe que o mano tinha ficado a estudar na casa de um coleguinha de escola e que viria mais tarde, para ela não esperar por ele. Mas a Isabel, inteligente e observadora, descobrira a verdade.


Olhei para o Luís.


- Então?


Neguei com a cabeça. A Isabel correu para o pai, abraçou-o, ele levantou-a no colo.


Jantámos os três numa meia quietude. Eu não queria silêncio e tentava puxar pela conversa para fingir que estava tudo normal, mas ao Luís não lhe apetecia fingir e a Isabel não sabia fazê-lo.


- E o mano? – perguntou a minha filha enquanto eu lhe ajeitava o lençol de cima, alcançava, com a outra mão, o interruptor do candeeiro para o apagar e desejar-lhe umas boas noites.


- O mano telefonou e diz que vem mais tarde. Já sabes, estamos no final do período e ele tem testes.


- Eu não ouvi o telefone a tocar.


- Ele ligou para o telemóvel da mamã, que está sem toque. Agora, dorme.


Ela dormiu porque estava cansada, mas eu conseguia perceber a sua preocupação. Era tão palpável e peganhenta como a minha, mas de uma forma pura, enquanto a minha tresandava a medo. Temia pelo meu filho que andava tão perdido. Eu sentia que a culpa até podia ter sido minha, por lhe ter escondido a verdade e por nunca o ter preparado para suportar a sua existência solitária.


Ah!, mas ele não sabia nada. Nada! Que fracasso…


Desde o dia da reunião na escola que eu não lhe punha a vista em cima, como se ele adivinhasse que eu já sabia dos seus delitos e procurasse evitar a confrontação que poderia danificar, mais do que consertar, a nossa relação.


O Luís deitou-se por volta da meia-noite e eu escolhi continuar na sala. Adormeci a ver um filme medíocre sobre uns terroristas e, por volta das três da manhã, despertei com um pressentimento. Levantei-me do sofá e ainda fui a tempo de ver um vulto a esgueirar-se pelo corredor.


- Tiago, vem cá. Quero falar contigo.


Ele veio, mas só depois de terem passado uns bons dez minutos e acho que adormeci em pé durante esse tempo. Não acendi qualquer luz, mas percebi que as roupas dele estavam uma lástima, rasgadas e sujas. Ele tentava despir-se e pô-las no lixo, antes que eu desse por isso, mas fora intercetado. Cheirava a álcool.


- Por onde tens andado?


E como uma caricatura das minhas desculpas, ele retorquiu com uma segurança na voz que me irritou:


- Tenho andado a estudar.


- Ontem não foste às aulas. O diretor telefonou-me. Hoje, também não.


- Ele também te telefonou hoje? Duvido!


- Duvidas? Porquê?


- E o que adianta ir às aulas? Não vou mudar de escola?


- Daqui a mais de um mês. Até lá, ainda pertences à Pinheiro e Rosa.


Calou-se. Respirávamos os dois no vazio, na penumbra.


A resposta dele, subitamente, bateu-me na cara, como uma bofetada.


- Como sabes que vais ser transferido? – perguntei. – Não foste à escola nestes últimos dias e nunca mais falei contigo, desde que fui chamada a uma reunião com o diretor.


- Tenho os meus meios.


- Os teus meios não são os mais corretos.


- Nada do que eu faço é correto, para ti.


- Não foi bem isso o que quis dizer…


- É por isso que fico aborrecido… Ultimamente, não sabes bem o que me dizer.


- Não é verdade.


- Isso é o que tu dizes. Não é o que eu acho.


- O que queres, Tiago? – cortei para não o perder.


Ao fim de algum tempo, respondeu:


- Não quero nada…


- Queres alguma coisa, sim. Sou a tua mãe. Posso dar-te tudo o que quiseres.


- Ah, é? Quero um milhão de euros!


- Queres é um milhão de tabefes!!


Ele riu-se.


- Boa noite. Prometo estar na mesa do pequeno-almoço de manhã e ir para a escola a seguir. Não é isso que um bom menino deve fazer? E ficamos todos contentes. Todos, menos eu.


Esfreguei as têmporas com a ponta dos dedos, consciente de que o tinha perdido, qual criança incauta que abre a mão e deixa escapar pesarosa o balão colorido da feira.


- Tiago?


Ele fechou a porta do quarto com um estalido.


Fim de conversa.


Fim de entrada.

16 de Abril de 2019 a las 16:19 0 Reporte Insertar 3
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