Camisa Verde-Amarela Seguir historia

lucas-portilho1552831330 Lucas Portilho

O futebol aguça a brasilidade tupiniquim. Quando os placares desfavorecem, a nação e o seus nativos vão abaixo.


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CAMISA VERDE-AMARELA


"Hoje tem jogo do Brasil" anunciava o comercial da programação esportiva na televisão.

Menos de três, nem comemoro.

Papai parecia um cientista que, estando convicto dos seus cálculos, antecipava os resultados finais. Demonstrando impertinência, não curiosidade, tive que intercedê-lo.

— Pai. A Argentina foi muito bem nas últimas partidas, eles estão na ponta da tabela. Por que seríamos favoritos? Andamos mal das pernas nestas rodadas mais recentes.

— E o que isso importa?! Quem são os argentinos frente a nossa camisa? "Todas as seleções tremem ao vê-la", dizia ele colocando o dedo em riste sobre o peito coberto pela vestimenta.

— Tremem?

— Sucumbem a tradição

— Tradição?

— Você logo entenderá

Saiu triunfante e eu fiquei pensativo. Talvez tivesse sido a primeira vez que ouvi aquela palavra, mas o que ela tinha a ver com futebol? Seria o nome de alguma competição ou apelido de jogador? Provavelmente estaria relacionada a camisa verde e amarela. Ah! Já sei! Assim se chamava a loja onde o pai lhe havia comprado. Bom, pelo menos, achei que era isso.

As ruas sempre se animavam durante os jogos da nossa seleção brasileira. Farras eram comuns. Confesso que nunca entendi certas coisas cafonas. As letras de música, por exemplo, eram bobas demais: “O Brasileiro lá no Estrangeiro/Mostrou o futebol como é que é”. Ora bolas, papai me disse que os ingleses foram os inventores do esporte. Sendo assim, caberia a eles ensinarem tudo. Todos dizem que o Brasil é o país do futebol. Certa professora falou a mim uma vez que isto não passava de paixão.

Esta palavra também me dava nós no cérebro. Lembrei o fragmento que li dum tal Nelson Rodrigues: “É por isso, eu lhes digo que a primeira missa, de Portinari, é inexata. Aqueles índios de Biquíni, o umbigo à mostra, não deviam estar na tela, ou por outra: podiam estar, mas de calções, chuteiras e camisa amarela.” Olha! Falou-se da camisa! Sabia que conseguiria lembrar algo a respeito, todavia, desejava saber quais relações existiam entre todas estas questões. Montei até uma equação: Camisa + Tradição = Paixão? Poxa vida, as coisas continuavam confusas.

O mano André veio e então o interroguei. Desejava ardorosamente respostas.

— Irmão, porque os jogadores do Brasil usam camisas?

— Faz parte do uniforme. Além disso, simbolizam a paixão nacional

— O que significa “paixão nacional”?

— Veja só, preste muita atenção: Lembras quando no mês passado foste considerado o melhor aluno da classe? Nossos pais ficaram contentes, isto é, felizes. Ao vencer, a seleção apaixona.

— Então, ser apaixonado é ser feliz?

— Sim, acho eu

— Os infelizes, portanto, são desapaixonados?

— Às vezes. Estão mais para fracassados.

— O fracasso é algoz da paixão, inferi.

Dei-me por satisfeito ao obter alguns novos apontamentos que achava necessários e continuei apostando num revés brasileiro naquele amistoso mixuruca. Resolvi tirar a sorte. Fui até o quarto do pai propondo desafiá-lo.

— Vamos apostar?

— Apostar o quê?

— No jogo de hoje, ué. Se o Brasil vencer, reconheço que estava errado em relação ao time. Se a seleção perder, você admite seu equívoco.

— Combinado... O velhote asseverou com leves risadas

Competir, na altura dos meus nove anos, contra a experiência adulta decerto seria temerário, petulante e sobretudo suicida. Papai levantou-se da cama, afagando meus cabelos negros, sem abrir mão daquele velho sorriso abrejeirado. Os filhos também podem ensinar muito aos pais. Todo filho é um segundo pai do seu próprio progenitor.

Faltavam duas horas até o início do embate. Aquele singelo momento permitiu-me rememorar tais lembranças: Recordo bem, papai vestia apenas verde e amarelo e uma bermuda branca. Mamãe, que naturalmente desdenhava aos esportes, costurava suas lãs azuis. André chegou depois, ainda podendo acompanhar os minutos iniciais.

Oito minutos, sete, seis, as ruas enfeitadas pelos tradicionais adornos comemorativos. Paredes pintadas, bandeirinhas e bandeirões alçados nos pátios e janelas e, não menos importante, os temas musicais.

Nenhuma preocupação, somente boas recordações; vida prazenteira, infância aprazivelmente encantadora, pique-esconde, cabo de guerra, lendas urbanas falando do Trem Fantasma, do Ladrão de Órgãos; os desafios púberes e a maturidade alcançada.

O juiz trilou o apito e a bola rolava. Papai ficou concentrado. E a aposta? Parecia que tinha ido para o espaço. Nenhum indivíduo ousaria interpelar quaisquer sons naquele instante. A paixão nacional, contudo, supre qualquer silêncio. Destaco, neste ínterim, a execução do hino nacional. Embora, verdade seja dita, deveria Osório Duque Estrada ter evitado desperdiçar tinta e papel com aquela segunda parte da letra, afinal, quase ninguém sabe cantá-la.

Lembro-me, detalhadamente, dos lances daquela partida.

— Vem a Argentina atacando velozmente. Bola cruzada na pequena área, o cabeceio.... É Goooollllll.

A seleção hermana marcava seu primeiro tento e deixava a torcida canarinha apreensiva, porém, confiante. André, pessimista assumido, já predizia maus presságios, dentre os quais, a derrota.

— Chega rápido a seleção argentina pelo lado esquerdo. Pelota chutada de longe... Defendeu, soltou o goleiro. Olha o rebote.... É Gol.

— Acabou! André levantou-se e saiu

— Continuando assim, será goleada na certa, ponderava o comentarista

O primeiro tempo terminou dois a zero. Sinceramente, cabia mais. Azar deles. A segunda etapa levantou alguma esperança. Papai beijava a camisa insistentemente, clamando um milagre aos deuses do futebol.

— Lá vem Brasil pela ponta direita. Cruzamento feito para o atacante que bate curvado... Resvalou na trave!

Um breve, mas profundo suspiro misturando alegria e frustração emergiu e tomou conta rapidamente do recinto. Mamãe cravou: Se não fez agora, não faz mais! Tive que concordar e ainda asseverei: Quem não faz, leva!

— Não se pode ganhar todas, falou André, distante de nós.

— Exceto as que são ganháveis, confirmei.

— Concordo.

— Estás comemorando antecipadamente, Sérgio?

— Pai, ignore-nos.

— Olhe! Mais uma chance desperdiçada!

Mesmo ele começara a resignar. Reza a lenda que o futebol não perdoa e é verdade. Finalmente veio o castigo final.

— Avança Argentina, cruzamento pela meia-lua. Disparou.... É Gol

— Novamente Argentina. Tirambaço disparado... Golaço!

Quatro a zero! Surra absoluta! Já eram onze horas em ponto e me recolhi a cama. Mesmo decepcionado, o velho fez questão de dar-me os simbólicos “parabéns”. Francamente! Aquilo soou tão supérfluo.

Noutro dia perguntei ao André, quais razões levavam as pessoas a deixarem de vestir a camisa verde-amarela.

— Ora essa, perdemos. Não se deve usá-la quando a seleção perde

— Queres dizer que acabou a “paixão nacional”?

— Do jeito que vai, certamente.

Encontrar alguém trajado na rua de casa virou tarefa deveras infactível, praticamente homérica. Desde então, percebi que as paixões são como as camisas. Embelezam, aprazem e vão para o lixo sempre que não satisfazem o ego coletivo.

17 de Marzo de 2019 a las 20:24 0 Reporte Insertar 1
Fin

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